DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 3 de maio de 2013


                                              
                         AMÍLCAR CABRAL

                                    XXII

               OS TRÊS MAJORES

                                    

As expectativas criadas pelo general Spínola para a resolução política da guerra e as conversações estabelecidas com Léopold Senghor, presidente da República do Senegal e possível intermediário de Amílcar Cabral, alimentaram um certo otimismo em Bissau e em Lisboa.  
Tanto a convicção de que a política da “Guiné Melhor” atrairia cada vez maior número de habitantes, incluindo combatentes do PAIGC, como a análise que o estado-maior de Spínola fazia das clivagens étnicas do país permitiam esperar que um número considerável de militantes inimigos abandonasse as fileiras e aderisse à nova política portuguesa. A situação militar no terreno parecia agora relativamente favorável às forças coloniais. Era o momento de adotar iniciativas mais ousadas.
Em 1969, devidamente autorizado pelo primeiro-ministro português Marcello Caetano, Spínola amnistiou 92 militantes do PAIGC detidos nas cadeias de Bissau. O mais conhecido deles era Rafael Barbosa, apresentado pela propaganda oficial do partido como exemplo de firmeza e de resistência ao poder colonial em condições de cativeiro.
Todos os que foram libertados juraram previamente fidelidade a António de Spínola. Na Guiné daquele tempo os juramentos eram, de modo geral, levados a sério. Segundo o general, aqueles homens estavam sinceramente arrependidos e dispostos a contribuir para a construção da sua “Guiné melhor” ao lado dos militares portugueses.
Rafael Barbosa tinha sido preso em março de 1962 na sede clandestina do PAIGC, em Bissau. Seria a segunda figura do partido, logo a seguir ao secretário-geral. Competir-lhe-ia estabelecer ligações entre os militantes que permaneciam nas zonas urbanas do interior do território e conquistar novos elementos para o partido. Terá acedido a colaborar com a PIDE, passando a beneficiar de um tratamento privilegiado. Segundo António Tomás, era-lhe permitido deambular por Bissau e dormir na própria casa. Aparentemente, tornou-se um agente duplo, transmitindo pontualmente informações à direção do PAIGC em Conakry.
Ao tempo, eram comuns as deserções de militantes do partido. Fartos de anos de luta e de dificuldades no mato, havia quem aproveitasse o perdão concedido pelo general Spínola a todos que depusessem as armas. Os dirigentes do partido reagiram, tendo ocorrido fuzilamentos.
A situação era instável e havia quem se arrependesse de se ter arrependido. Alguns dos que se abrigaram à sombra da bandeira portuguesa quiseram ser readmitidos no PAIGC para voltarem a combater pela independência. Ia-se e vinha-se, entre Bissau e Conakry. Uns eram aceites de volta e outros passados pelas armas.
 A dada altura, o estado-maior de Spínola julgou ser possível desmobilizar boa parte da guerrilha instalada em Cantchungo (na altura conhecida como Teixeira Pinto), no chão dos Manjacos, na frente norte.
 Estabeleceram-se contactos entre as duas partes. Começaram por recados transmitidos pela população que circulava na zona. Naturalmente, tanto os portugueses como os revoltosos dispunham de informadores. As negociações progrediram e subiram de nível hierárquico, pelo menos do lado português. Como sinal da importância que o general dava a esta iniciativa, foram designados interlocutores os majores Joaquim Pereira (da inteligência), Passos Ramos e Osório Magalhães. Os encontros multiplicaram-se. Do lado da guerrilha, terá negociado André Gomes, um comandante que se notabilizara no ano anterior por chefiar o grupo de combate que atacou o aeroporto de Bissau.
A proposta de Spínola incluía a interrupção das hostilidades e a integração no exército português de todos os guerrilheiros que o quisessem fazer. O general obtivera do Ministério do Ultramar uma verba substancial destinada ao pagamento dos salários da nova incorporação.
As conversações prosseguiram e estabeleceu-se um clima de certa confiança. Os majores deslocavam-se desarmados e ofereciam presentes ao inimigo: dinheiro, bebidas, maços de cigarros e gravadores de som. Era outra maneira de fazer a guerra.
Ao ser informado dos acontecimentos, Amílcar Cabral alarmou-se. Estava perante um aliciamento à traição em grande escala. Enviou para a frente norte Luís Correia, o responsável dos serviços secretos do PAIGC. Nasceu então a ideia de capturar o general Spínola, que tinha comparecido a um encontro com os guerrilheiros e prometera voltar.
    Conta-se que Luís Correia conferenciou com os comandantes locais e preparou uma armadilha destinada a prender ou eliminar fisicamente o general português. 
    Spínola não compareceu ao encontro. Logo que os majores Pereira, Ramos e Magalhães saíram das viaturas, acompanhados do alferes Joaquim Palmeiro Mosca e de alguns soldados (todos desarmados) foram abatidos a tiro. Os assassinos esquartejaram os corpos à catanada antes de retirarem. Aconteceu em Jolmete, a norte do Pelundo, junto ao Rio Cacheu.
Luís Cabral afirma que os guerrilheiros fingiram negociar para atraírem os oficiais portugueses. Parece mais provável que os comandantes militares da zona se tenham alarmado com a presença do enviado de Cabral e arrepiassem caminho. Há ainda quem sugira que os majores entabularam conversações com um determinado grupo de guerrilheiros e foram surpreendidos por outro, fiel a Cabral. Não se sabe tudo. Há pormenores da História que ficam parcialmente encobertos por uma névoa de silêncio.
António de Spínola ficou abalado com o sucedido. Sentiu-se responsável pela morte dos seus colaboradores próximos. O general vinha de uma escola de guerreiros com padrões éticos elevados. Era inadmissível abater inimigos desarmados. Considerava que se ocupavam de uma missão de paz, o que não é de admirar. Muitas das guerras de ocupação das colónias portuguesas foram apelidadas de campanhas de pacificação.
Spínola não podia desistir de procurar uma solução política, negocial, para a guerra da Guiné e não o fez. É possível que a ideia de prender ou eliminar fisicamente o secretário-geral do PAIGC tivesse criado há muito raízes no espírito de alguns militares portugueses. Desenvolveu-se mais nessa altura. Perspetivava-se no horizonte a operação Mar Verde.


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