DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 20 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

VI

CUBANA DE AVIACIÓN

Confesso que senti um certo medo dos Antonov ao serviço da companhia cubana da aviação, quando me lembrei dos velhíssimos automóveis americanos que fazem parte da imagem de marca de Havana. Reconfortei-me pensando que os aparelhos seriam mais novos e haviam de ter uma manutenção tão cuidada como a da TAP de antigamente, com excesso de pessoal, mas com competência garantida.



A minha confiança relativa sofreu algum abalo quando, depois de todos os passageiros terem ocupado os seus lugares no avião que nos iria transportar a Santiago de Cuba, o comandante nos mandou sair, por questões técnicas. 
A demora não foi grande. Lá seguimos viagem.
No regresso a Havana, tínhamos de mudar do terminal 1 para o 3, para apanhar a ligação para Madrid, às 21.50. A distância é considerável e o percurso tem de se fazer de táxi.
O avião que nos havia de levar às 18.00 aterrou no aeroporto de Santiago às 19.35. Entrámos a bordo às 20.15. A viagem demora 75 minutos. A perda da conexão estava garantida, a menos que o voo da Air Europa se atrasasse também.
Em Havana, uma das nossas malas foi das últimas a sair do tapete rolante. Quando saímos, já não havia táxis. A porta do terminal doméstico do aeroporto fechou-se nas nossas costas. Ficámos à espera, no passeio, onda havia ainda outro casal de retardatários. Lá apareceu outro táxi velho com tejadilho, onde nos enfiámos, os quatro mais a bagagem. Seguimos apertados até ao terminal 3, por onde os outros passageiros não pretendiam passar. O voo para Madrid atrasara-se realmente, mas partira momentos antes.



Talvez algum dos leitores se tenha encontrado alguma vez num aeroporto grande, cheio de luzes e de lojas abertas, em que é, durante um certo tempo o único passageiro. É uma sensação estranha, quase irreal, mas não sofro de agorafobia. Perguntei pelo escritório da Cubana de Aviación e dirigi-me a uma porta fechada. Bati. Lá me atendeu um empregado ensonado. Expus-lhe a situação. Ouviu-me, analisou a questão e declarou que eu não tinha direito a nada. A companhia aérea cubana apenas se responsabilizava pelos atrasos nas conexões de voos e não nas ligações. Confesso que o meu espanhol não alcança tais preciosismos de linguagem. Ficou, contudo, claro que o culpado pelo problema em que nos encontrávamos lavava dali as suas mãos e nos deixava entregues a nós próprios.
Procurámos a Air Europa, também de porta cerrada. O funcionário  abriu e inscreveu-nos para o voo do dia seguinte, à mesma hora. Teríamos de pagar 175 C.U.C. cada. C.U.C. são pesos convertíveis para uso dos turistas e valem, ao câmbio oficial, um pouco mais que o dólar americano. O uso simultâneo de ambas as moedas presta-se a confusões e abusos. Chegaram a cobrar-me, por uma refeição, 24 vezes mais do que pedem a um nacional, mas esse procedimento está longe de constituir regra.
Na ausência de partidas ou chegadas próximas, não se encontrava qualquer táxi na zona do terminal 3 do aeroporto de Havana. Voltámos para dentro, dispostos, eventualmente, a passar a noite nas cadeiras disponíveis.
Já se encontrava uma mulher do guiché das informações. Devia ter-se ausentado por um curto espaço de tempo, pois a primeira coisa que eu tinha feito ao chegar fora procurá-lo. Contactou um senhora que alugava quartos ali perto e que nos viria buscar.
Em Cuba, vive-se em parte de esquemas, ao modo de Luanda.
Dormimos em casa da Senhora Ana Maria, que completa o orçamento familiar adaptando dois quartos da moradia em que vive, junto ao aeroporto, a pensão informal. Ao começo da noite seguinte, voámos para Madrid. 
     Já em casa, enviei uma mensagem electrónica  à companhia aérea cubana, explicando a situação e pedindo o reembolso das despesas a que o atraso do seu voo me obrigara. A resposta foi:

Debe escribir a la agencia donde compró el billete para que atiendan su solicitud de reembolso.

Já o fiz e aguardo a resposta.
       Cubana de Aviación, nunca mais!



sábado, 19 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

V

SANTIAGO



Santiago de Cuba é uma cidade em que os edifícios centrais estão recuperados e bem pintados. Não partilha com Havana o aspeto de nobreza decadente. O movimento da povoação de meio milhão de habitantes centra-se na Praça de Marte e em Enramadas.
Enramadas é uma rua interdita ao trânsito automóvel. Não é larga e, a horas convenientes, os edifícios que a marginam proporcionam uma sombra protetora contra o impiedoso sol de Santiago. Há inúmeros estabelecimentos comerciais pequenos ou até diminutos. Alguns não passam de um par de cordéis com roupas penduradas à entrada dos prédios.


A maioria das casas de comércio vende bebidas. Não lhes faltam fregueses. Abundam as lojas de gelados, muito populares entre os da terra. Estão na moda os churros recheados com uma variedade de doces. Não existe na longa rua um café ao estilo europeu.
Passámos por um casal de saltimbancos. O homem golpeava freneticamente um par de tambores enquanto a dançarina volteava. Aproximámo-nos. A mulher era magra e velha para a profissão – teria deixado os cinquenta anos lá para trás. Executava piruetas improváveis para a idade das suas articulações. Especializara-se, contudo, numa dança intencionalmente obscena. Deitava-se e, sem se despir, exibia a fraca anatomia numa coreografia burlesca de prostituta velha.  
Não nos detivemos e seguimos Enramadas abaixo. Quando voltámos, cerca de hora e meia depois, a mulher continuava a dançar e parecia ter ainda as pilhas carregadas. Algum descanso terá feito. De outro modo, disporia da preparação física de um atleta de alta competição.
Dá a ideia que Santiago funciona como um centro comercial para a região. Durante o dia, há sempre uma multidão a subir e a descer o o passeio pedonal. Poucos dos caminhantes são velhos e as crianças não abundam. As ruas estão cheias, nos dias de semana e durante as horas de trabalho, de pessoas em idade laboral. A ser assim, as coisas estão mal na parte ocidental na ilha de Cuba.
Algumas lojas têm filas de gente à porta. Os seguranças apenas deixam entrar umas poucas de cada vez. As prateleiras estão quase vazias. Dispõem um produto aqui e outro a três palmos de distância para reduzirem a impressão de vacuidade. A variedade de mercadorias disponíveis parece limitada. Fiquei a pensar que se tratava de lojas de produtos racionados vendidos abaixo dos preços comuns. Nos mercados de produtos agrícolas, a oferta é um pouco melhor.


Há supermercados com muito maior oferta de géneros, alguns dos quais de luxo. Neles, não há filas à porta.
Entramos numa pizzaria, pensando almoçar. Havia apenas pizzas de peixe e de salsicha.
Ao subir as Enramadas, ouvimos o som de alarmes que poderiam ser de incêndio ou de roubo. Um pouco adiante, avistámos um grupo de homens com uniformes militares. Procediam à fumigação dos esgotos e dos vãos de escadas. Desconheço o produto que eles utilizam como inseticida, mas parece fazer disparar os alarmes de incêndio. Os passantes, entre os quais nos incluímos, tiveram de atravessar a pequena nuvem de fumo químico. As autoridades sanitárias levam as questões a sério. Não me parece que o virús Zica prospere ali. Não vi um único mosquito durante a estadia. Curiosamente, as baratas são toleradas.



sexta-feira, 18 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

IV

PESSOAS

Creio que vou precisar de algum tempo para deixar assentar as ideias que Cuba despertou em mim, se é que vale a pena estabilizar conceitos sobre uma sociedade que se adivinha em vésperas de profundas transformações. A simpatia da maior parte das pessoas, a ganância de algumas, a displicência e até a soberba de quem detém uma migalha de poder e se agarra a ela como um escaravelho a uma bola de estrume, baralham-se nas minhas recordações.



O encarregado da loja de charutos e rum não mostrava jeito para o ofício. Impaciente e intolerante perante a nossa hesitação em escolhermos entre vários produtos que desconhecíamos, queixava-se de que tinha mais gente para atender. A verdade é que a loja estava quase vazia. Só havia outro casal no estabelecimento e parecia tão indeciso quanto nós. Se fosse proprietário duma loja na Europa, caminharia para a falência. Se fosse assalariado, seria despedido. Faço notar que os charutos eram caríssimos.
Domingo, tive de recorrer a uma urgência hospitalar. No hotel, indicaram-me a clínica estatal Cira Garcia. A assertividade levou-me a pensar que se poderia tratar duma unidade hospitalar selecionada para o atendimento a turistas. Desloquei-me até lá de táxi.



A clínica é pequena e tem aspeto arejado. Atravessei um corredor claro e limpíssimo até uma sala de espera com um balcão onde se encontravam duas funcionárias. Havia apenas uma pessoa sentada. Disse ao que vinha e a senhora telefonou ao médico, que tardou menos de dois minutos. Era um homem de mais de 50 anos, já com a barba a embranquecer. Disse-lhe que era colega. Atendeu-me com toda a gentileza. Finda a consulta, acompanhou-me à saída e, apesar de a clínica ser estatal, não permitiu que me cobrassem nada. Em Cuba também há cavalheiros.
Nas imediações do hotel, entrei na confeitaria Dulcineia. Deve tratar-se duma cadeia, pois encontrei várias com o mesmo nome. Estavam a sair dois fregueses e ficámos apenas nós ao balcão. Do lado de lá, movimentavam-se sete pessoas. Parte delas estaria a conferir existências. Era a hora da mudança de turno na caixa. Entrou uma senhora bem vestida que substituiu demoradamente o rolo de papel da máquina registadora. Depois, afastou-se e foi buscar um comprimido, que engoliu com água. A seguir, serviu-se vagarosamente dum café e tomou-o, como se estivesse na sua sala de estar. Os clientes não lhe importavam. Depois de esperarmos bem mais de dez minutos, saímos sem termos sido atendidos.
Em Santiago, dirigi-me a um taxista. Assentamos no preço para uma viagem de duas horas em volta da cidade. Era um homem à volta dos trinta anos, seguramente mais jovem que o automóvel que conduzia. Jovial e comunicativo, foi dando indicações ao longo do trajeto. O carro, quando abrandava a velocidade, ia-se a baixo. O problema seria da bomba de injeção de combustível. A solução encontrada pareceu-me original. O moço engatava a mudança em primeira e rodava a ignição. O motor dava um solavanco e pegava.


                                                     Porto de Santiago, visto do forte

Aos poucos, foi ganhando confiança connosco. Disse que tinha uma irmã em Miami que possuía um veículo com quinze anos que já não usava. Tinham falhado as tentativas de o trazer para Cuba. Falava com descrença na revolução. Estava esperançado na visita de Obama (que deve ir lá amanhã ou depois) e na normalização do relacionamento com o gigante americano. Por ali, as coisas estavam mal. Foi ele que me contou que havia poucos empregos e tão mal pagos que havia quem achasse que não valia a pena trabalhar. Existia muita gente que vivia de “esquemas”, à angolana, comerciando quantidades mínimas de produtos de consumo.




quinta-feira, 17 de março de 2016


JANUS EM ÁFRICA


Jano (Janus em latim), o deus das duas faces, foi a divindade romana das mudanças. Tinha poder sobre todos os começos, incluindo o nascimento e a morte. A sua figura era associada às portas, que permitiam as entradas e saídas. A face dupla permitia-lhe vigiar o passado e o futuro. Era o deus dos inícios, das decisões e das escolhas. O seu nome está associado às trocas e às colheitas, aos navios e às moedas.  Presidia ao começo e ao fim dos conflitos e, por inerência, à guerra e à paz. De certo modo, representava o tempo.
A ideia de deuses com várias caras deixou vestígios em civilizações distanciadas no tempo e na geografia. Os deuses de duas ou mais faces apareceram primeiro na Babilónia e foram comuns no panteão hindu. Na Escandinávia, foram representados pelo deus Heimdallr, nascido no começo do tempo.
Na África Ocidental, são relativamente frequentes as estatuetas e as máscaras com duas ou mais cabeças. Parte delas refere-se a gémeos. Outras terão diferente significado. Encontraram-se na Nigéria, na Costa do Marfim, na Serra Leoa, nos Camarões e no Congo, entre outros lugares.
    Na falta de informação suficiente, fico inclinado a extrapolar para as máscaras de duas faces a interpretação geralmente atribuída às duas cabeças do cão Kozo, que auxilia os feiticeiros: uma serve para ver o mundo de cá e a outra, o Além. As visões do passado e do futuro terão uma relação indireta com estas funções.
Possuo duas máscaras com mais de uma face. São tão diferentes que é difícil imaginar contextos semelhantes para ambas.


Uma delas poderá ter sido feita para ser pendurada. É contudo, de madeira muito leve e tem orifícios que poderiam permitir a adaptação duma cabeleira. Mede 35 cm de altura e 23 de largura e conserva vestígios de caulino branco. É fácil encontrar fotografias de máscaras semelhantes em livros ou na Internet. É associada ao povo Lenga ou Lengala, da República Democrática do Congo. Provavelmente, é produzida para comercialização.


A outra é uma máscara-elmo antropomórfica e encimada por duas cabeças e por uma estatueta de mulher. Tem 64 cm de altura e a base mede 37 por 27 cm. Pesa 11 kg, o que a torna incómoda de transportar sobre os ombros. Poderá destinar-se a outra finalidade.


Procurei imagens de exemplares semelhantes nos livros que tenho e na Internet. Não encontrei nenhuma igual. A mais aproximada remonta ao povo Fang, que se distribui pelo Gabão, Guiné Equatorial e sul dos Camarões. No entanto, as diferenças são substanciais.



Comprei a minha há alguns anos, num antiquário de Grândola. Continua à espera de conhecer a sua proveniência.

quarta-feira, 16 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

III

FÉLIX

Acreditei numa elevada percentagem das histórias que Félix me contou. Constavam do seu cartão de visitas colorido as licenciaturas em Economia e em Ciências Sociais. Falava inglês, francês, alemão, russo, italiano, holandês, português, japonês, esperanto e espanhol e andava a estudar latim. Para completar o seu notável currículo de vida, tinha sido adido comercial da embaixada de Cuba em Maputo e, para se poder alimentar condignamente, era guia turístico.


Era um velho torto que dizia ter sido operado à coluna lombar e caminhava com uma velocidade estonteante. Tremia das mãos. Eu nunca tinha visto alguém bater-se com tanto descaramento, aliado a certa classe, a ser convidado para almoçar. Conduziu-nos pelas ruas e praças de Havana Velha e transportou-nos no seu velho automóvel até Cojimar, onde Hemingway fundeava a sua embarcação El Pilar. 


     O escritor americano ter-se-á inspirado num pescador local para escrever “O velho e o mar”. Numa povoação próxima, fica a casa de Hemingway em Cuba, a Finca Vigia. Por azar nosso estava fechada nesse dia, para reparações.
Félix papagueava com dias, meses e anos as datas de uma série de acontecimentos da história antiga e moderna de Cuba. Sempre detestei a profusão de datas que nenhum turista fixa. Num hotel que Hemingway teria frequentado (não há em Havana estabelecimento turístico que se preze que não reclame ter sido favorito do escritor americano) postou-se junto à parede, onde estavam penduradas as fotografias. Apontava-as com o guarda-chuva e fez questão de referir pormenorizadamente as circunstâncias de cada uma. Tentei interrompê-lo, mas não fui capaz.
Recorria aos truques habituais dos guias turísticos. Levou-nos a uma loja de charutos e a outra de pintura, onde não pretendíamos entrar e não comprámos nada. Conduziu-nos a um restaurante caro e de má raça onde partilhou a nossa mesa. Consegui depois convencê-lo de que não considerava importante visitar a estátua em tamanho real de Ernest Hemingway. Conhecer razoavelmente a sua obra bastava-me.
Mostrou-nos o Bairro Chinês, que tem a particularidade de estar vazio de orientais. Segundo Félix, as coisas em Cuba estão mal e os chineses já ganham melhor a vida na sua Pátria. A maioria regressou.
Contei-lhe que escrevia. Disse-me que lia bem o português e insistiu em dar-me a sua direção, para que lhe enviasse um livro meu. Talvez o faça e talvez não.





terça-feira, 15 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA
II
O GALO VEDADO

Vou contar a história única, autêntica e revolucionária do galo Vedado que faleceu sem honra nem glória, já avançado em anos, numa rua da cidade de Havana.
Não sendo costume meu recorrer a tantos adjetivos, vou dar algumas explicações aos leitores. Chamei-lhe “única” porque não existiu outro galo tão duro na história da República de Cuba. Apelidei-a de “autêntica” por o relato ter sido corroborado pelo testemunho da Ramonita, que era sobrinha-neta do antigo guerrilheiro Ramón Dias e se prostituía na zona por ocasião do fatídico acidente. O termo “revolucionária” é adequado, pois Dom Vedado participou ativamente na Revolução Cubana, desde os seus primeiros dias. Recuperarei, mais adiante, esta parte memorável da sua biografia. Permitam, por enquanto, que continue a falar da sua morte. 
O evento teria passado despercebido se a Ramonita não estivesse atenta ao que se passava na vizinhança do hotel que, por coincidência, tem o nome do galo. É uma rapariga vivaça, bastante escura, de dentes muito brancos e traseiro avantajado. Garantiu-me que vira elevar-se nos ares, escapando por uma janela da cozinha do hotel, uma pluma dourada, flamejante e inconfundível. Reparem que, desta vez, foi ela quem tropeçou nos adjetivos. Segundo Ramonita, não existia na ilha outro galo com plumagem comparável. 
A verdade é que, por altura do seu passamento, Vedado já tinha poucas penas. Não cheguei a conversar com esta galo ilustre, mas há seres com quem a gente estabelece relações de intimidade sem trocar muitas palavras. Pelo que soube, um pouco antes de os nossos destinos se cruzarem, ele já não dizia coisa com coisa.
Sei bem que um escritor que se preza respeita a cronologia e não começa as histórias pelo final. Conto com a benevolência dos leitores.
Vedado não passava dum franganito quando embarcou no iate Granma, juntamente com um grupo de revolucionários liderado pelos irmãos Castro e pelo médico argentino Ernesto Guevara. Cumpria o nobre propósito de alimentar a revolução. Como era pequenote e tinha fraca figura, foi deixado para o fim, enquanto via morrer tios e irmãs.
Ao desembarcar na Praia dos Colorados, Fidel olhou para o galito e, após breve hesitação, proferiu esta sentença histórica:
− Se venho aqui para que esta terra seja livre, começo por te libertar a ti.
O frango não percebeu a nobreza daquele gesto. Viu que estava a ser deixado para trás e esticou as curtas pernas para acompanhar a marcha dos revoltosos que adentravam a Sierra Maestra.
Com o tempo, desenvolveu uma reação especial com o comandante Camilo Cienfuegos e com o guerrilheiro Ramón Dias. Seguia-os para todo o lado. Quando os alimentos escasseavam e os cinturões revolucionários eram apertados alguns furos, havia sempre quem olhasse o galo com o brilho do apetite nos olhos. Um ou outro mais sôfrego começava mesmo a salivar. Nessas alturas, Vedado alargava a distância que o separava dos companheiros humanos. Sabia do provérbio que dizia “a raposa gosta tanto das galinhas quanto o galo”.


Vedado ia cheio de fervor revolucionário e de força da juventude. Contava com a proteção de Camilo Cienfuegos, que conhecia bem a natureza dos seus homens e espalhou uma pequena mentira supersticiosa:
− Quem ouvir cantar de manhã o Vedado, não morre nesse dia!
Foi assim que o galo Vedado participou na Revolução. Calhou-lhe acompanhar o primeiro grupo de barbudos armados que tomaram conta de La Havana. Assistiu à fuga dos reacionários, que eram os mais ricos e sabedores de Cuba e à ocupação das suas casas, tantas vezes belíssimas, por trabalhadores sem eira nem beira. Houve quem se deitasse em camas ainda quentes dos corpos dos que fugiam.
Por essa altura, Vedado engravidara já metade das galinhas da ilha. Pelo menos, gabava-se disso.
Era o tempo em que a revolução emprestava aos pobres uma dignidade nova, embora algumas galinhas comentassem que os que tinham ficado não sabiam fazer grande coisa nem se importavam muito com isso. Vedado encolhia as asas. Não podia dar ouvidos a conversas de mulheres. Cuba era apontada como um exemplo para o mundo. Iluminava os sonhos dos camponeses da América do Centro e do Sul e de uns tantos intelectuais europeus.
O galo não chegou a integrar a sociedade civil. Tornou-se mascote do Regimento em que Ramón Dias foi incorporado. Corriam lendas sobre os seus cânticos matinais. Havia homens valentes que confessavam terem visto a coragem reforçada pelo seu canto protetor. Vedado ganhava a vida ou, pelo menos, justificava o milho que comia, cantando, a cada içar e arriar da bandeira.
O tempo foi passando. Consta que um galo que não entra no tacho nem na grelha dura, no máximo, quinze anos. Vedado viveu muitos mais. Dizia-se que não havia em Cuba memória dum galináceo tão antigo.


Com o passar dos anos, a tinta que revestira as paredes das casas de Havana desvanecia. Os esgotos entupiam, as canalizações iam-se fazendo incompetentes, as instalação elétricas pediam conserto e os telhados começavam a deixar entrar água. Paralelamente, a esclerose do regime revolucionário ia-se tornando aparente. Havia tão pouco trabalho e tão mal pago que muitos diziam que era melhor ficar a olhar o que os outros faziam. A Pátria cubana sofria.
No Regimento, os jovens revezavam-se de tantos em tantos meses, mas os oficiais permaneciam durante bastante tempo.
Aos poucos, a Revolução foi-se tornando uma referência distante, apesar de o seu mito continuar a ser alimentado diariamente pela eficaz máquina de propaganda do Partido. O povo cubano passara a desfrutar de regalias sociais inusitadas nas Américas, como o direito aos cuidados de saúde universais e gratuitos e ao ensino também grátis, de excelente qualidade. No entanto, passava-se mal. Havia quem dissesse, a meia voz, que não fazia sentido produzir uma legião de licenciados num país em que o emprego estacionara e as possibilidades de trabalho eram quase inexistentes.
A lindíssima cidade de Havana perdeu metade da graça. Vista de longe, do Castelo de S. Salvador da Ponta, a urbe encostada ao Malecón ainda botava figura, como mulher velha olhada a distância. Quando os olhos se aproximavam, ficavam as rugas à vista. Se abria a boca, mesmo apenas para dizer “buenos dias”, via-se que lhe faltavam dentes. Alguns edifícios pareciam ter participado na guerra civil que dera a vitória aos barbudos.
Chegou a altura em que Vedado entendeu que os velhos revolucionários já não eram parte das soluções de que o país carecia, mas que se tinham tornado parte do problema. Não falou. Que podia fazer, senão cantar?
Todos culpavam os americanos, que asfixiavam Cuba com o bloqueio económico. Alguns criticavam também os soviéticos por terem deixado ir por água abaixo o esforço hercúleo desenvolvido por Lenine, Trotsky e Estaline.
Com o acumular dos anos, Vedado, que entretanto passara a ser tratado por “Dom” foi-se tornando cínico. Terá sido dos primeiros a entender que o inimigo principal da Revolução não residia no exterior do país: eram os próprios cubanos.
Pouco a pouco, Dom Vedado deixou de se preocupar com essas coisas. A verdade é que, a partir de dada altura, deixou de saber preocupar-se. Nem das artroses que lhe tolhiam os passos dava conta plena.
Os companheiros do Regimento não o abandonaram. Quando as suas dificuldades se tornaram óbvias, Dom Vedado foi internado num asilo para militares idosos. Houve problemas quando da sua admissão, pois nunca um animal assim acamaradara com guerreiros velhos, mas foram ultrapassados. Afinal de contas, Vedado era também um herói da Revolução.
A estadia no “lar” não foi pacífica. Não havia lá galinhas. Dom Vedado já se não chegava a elas, mas ainda gostava de as olhar.
Um dia, alguém se esqueceu de fechar a porta. Vedado evadiu-se e caminhou livremente durante algumas dezenas de metros. A sua vocação internacionalista foi plenamente realizada: o galo foi atropelado por um velho automóvel de chassis americano, motor checoslovaco e amortecedores chineses. Alguém lhe recolheu os restos mortais, pensando que ainda poderiam ser úteis na cozinha do hotel.



A verdade é que não cheguei a tomar conhecimento com a parte dialogante de Dom Vedado. Apresentaram-me apenas uma coxa sua, calada, frita e rija que nem corno. Não fui capaz de a trincar.

segunda-feira, 14 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA
I


Três séculos antes de Cristo nascer, Heráclito de Efeso intuiu que ninguém se poderia banhar duas vezes nas mesmas águas de um rio. As águas mudavam continuamente e as pessoas que se lavavam também. O velho que visitou agora Cuba conserva algumas coisas em comum com o jovem que saudou o triunfo da revolução cubana há mais de meio século, mas perdeu certas qualidades e ganhou outras. É, seguramente, um homem distinto. Sente-se confortável com o passado e espera que o passado seja tolerante para com ele.
Torna-se difícil fazer uma análise mais ou menos objetiva do que se apreende numa visita curta a determinado país quando existem laços sentimentais que foram muito fortes em determinada altura da nossa vida. Há tendência para exagerar, ou desculpando tudo o que está mal, ou desvalorizando o que foi bem conseguido. Não sou assim. Com as naturais limitações de tempo e a deficiência de informação, procuro ver claro. Sem preocupações de profundidade, já que se trata apenas de impressões de viagem e não de um ensaio sobre a matéria, irei expondo as ideias que formei.


Ficámos alojados no Hotel Vedado, que fica numa rua movimentada e com bastantes buracos no pavimento, próximo do extremo nascente do Malecón. Em regra, escolhemos, na Europa, hotéis de 3 estrelas e procuramos os de 4 no chamado terceiro mundo. Desta vez, nem sei bem por quê, “clicámos” num de 3.
O Hotel Vedado comemorou os sessenta anos há algum tempo. A pintura festiva permanece ao lado da porta de entrada. O estabelecimento data dos últimos anos da ditadura de Fulgêncio Baptista.
A porta do nosso quarto tem uma parte com tabuinhas, à moda da Mariquinhas. Servia para deixar circular o ar, mas foi encerrada com pregos. A fechadura da entrada, a tampa da bacia e o botão do autoclismo estão soltos. Trata-se de consertos adiados, apesar de custarem pouco e requerem baixa tecnologia. O cofre também não funciona. A sua falta é compensada com uma série de gavetas metálicas sobrepostas na receção, mas estão todas ocupadas.
A janela abre-se na fronteira do prédio. Do outro lado da rua, há edifícios degradados que servem para habitação familiar.
O pequeno-almoço é rico e variado, com uma oferta considerável de pratos e boa fruta tropical.
Durante a segunda tarde, disparou o alarme de incêndio e fez um barulho dos diabos, mesmo ao lado do nosso quarto. Apesar de ninguém parecer preocupado, descemos a pé as escadas. O funcionário da receção fingia não o ouvir e deu uma desculpa idiota: “não é o alarme, é o telefone.”
Sem ter dado por isso, escolhemos um regime de meia-pensão. Para o nosso gosto em matéria de comidas, meio português e meio angolano, a comida cubana é desenxabida. A cerveja é boa e é servida no restaurante a um preço razoável. Há música ao vivo todos os fins de tarde e começos de noite e o custo das bebidas no bar do hotel não é exagerado.