DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 29 de dezembro de 2012

                           HONG KONG


     O primeiro europeu a visitar a região de Hong Kong foi o português Jorge Álvares, em 1513. Alguns mercadores portugueses estabeleceram-se na região e deram início ao comércio com o sul da China.


   Os chineses não ficaram agradados com as relações estabelecidas e acabaram por expulsar os portugueses, que se fixaram em Macau. Proibiram mesmo aos seus cidadãos os contactos com estrangeiros e impediram a entrada de navios europeus nos seus portos. Em 1661, o imperador Kangxi ordenou a evacuação das áreas costeiras de Guangdong. O território onde se ergue hoje Hong Kong tornou-se um deserto. O mesmo Kangxi, anos mais tarde, abriu a região de Cantão ao comércio com os europeus, impondo-lhes, contudo, severas restrições. No começo do século XVIII, os ingleses estabeleceram-se em Cantão. 


   Após a Primeira Guerra do ópio, travada entre 1839 e 1842, Hong Kong tornou-se uma colónia inglesa. Ocupou inicialmente a ilha de Hong Kong, mas estendeu-se  à Península de Kowloon, em 1860, e aos Novos Territórios, em 1898. 


 A cidade foi ocupada pelos japoneses durante a Guerra do Pacífico e recuperada pelos ingleses no final do conflito. Em 1997, a China reassumiu a soberania sobre Hong Kong.


     Hong Kong constitui hoje uma Região Administrativa Especial da República Popular da China. 


    Curiosamente, nos aeroportos chineses, os voos para Macau e Hong Kong não saem dos terminais domésticos, mas sim das Partidas Internacionais.


  A limitação do espaço para construção obrigou à especialização da arquitetura e fez de Hong Kong uma cidade vertical. 


    Com 7 milhões de habitantes aglomerados numa área limitada, é uma das regiões mais densamente povoadas do mundo. 




   É também um dos centros financeiros mais importantes do planeta. Continua a ter moeda própria, o dólar de Hong Kong, de valor aproximado ao da pataca macaense. Os seus habitantes dispõem de um rendimento per capita muito elevado e têm a maior esperança de vida de todo o mundo. 



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012


                                                         MACAU


     À exceção de Sá da Bandeira, onde vivi mais de dez anos, de Luanda e da Beira (em Moçambique), Macau foi a cidade do antigo Império Português onde passei mais dias.


     A terra foi mudando. Entre as minhas primeira e a segunda visitas, aterraram a Praia Grande e encheram-na de prédios altos. Lá se foi uma das minhas referências principais. A partir dessa data, passei a perder-me em Macau. Como a cidade não é grande, acaba-se sempre por dar com o caminho de volta.


  Depois, encheram a Taipa de edifícios, construíram o aeroporto e multiplicaram as pontes. Se lá voltar, o que é improvável, poderei deslocar-me a Hong Kong pela ponte cuja construção teve agora início.


     Os meus amigos encolheram-se em casa para nos receberem bem. Os meninos dormiram em sacos-cama para nos darem lugar e mostraram-se sempre contentes. É bom sentir a estima das pessoas em terras distantes. Foi também agradável reencontrar a bela comida e os bons vinhos portugueses.


     Passeámos muito por Macau. 

                                                Leal Senado 
          (chama-se agora Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais). 


                             China vista do Porto Interior

                                      Rua antiga

                                      Loja na rua

              Há grades até ao cimo. Receiam os ladrões trepadores.

                                  Comércio tradicional

             Noutros tempos, a Igreja da Pena dominava a paisagem

       Hoje, o Farol da Guia parece perdido entre as grandes construções

     Continuam bilingues os nomes das ruas e as indicações dos destinos dos autocarros. Neles, os avisos das próximas paragens são feitas em chinês e português. A influência europeia acaba aí. Pouca gente, nas ruas, entende português ou inglês.

                        Repouso ao serviço de Deus


                                      Inventando modernidades

                            O novo e o velho

                                             Macau moderna

     Há casinos de todos os gostos e tamanhos. Num raio de 150 metros, centrado na casa dos meus amigos, contam-se quatro. 


     Não entrei em nenhum. Sempre me fez confusão a ideia de tanta gente aceitar apostar contra percentagens fixas de prejuízo.
                             Fachada da igreja de S. Paulo


     É estranho pensar que, caso a igreja não tivesse sido destruída por um incêndio, nunca alcançaria o reconhecimento conseguido pela fachada que ficou em pé. É um dos ícones de Macau e até da Ásia.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

                                                                   

   GRANDES POETAS CHINESES


Mal ficaria falar da China e do contributo da sua cultura milenar para a civilização humana sem referir alguns dos seus grandes poetas. Não sei de muitos, e tenho pena. Para além de Wang Wei, que citei devido ao facto de ter passado pelo mausoléu do primeiro imperador chinês, dedicando-lhe um poema, conheço apenas (e superficialmente) Li Bai , Bai Juyi e Du Fu.
Os quatro grandes poetas chineses que vou referir nasceram todos no século VII DC. Trata-se claramente da época de oiro da poesia chinesa. Ainda hoje se leem com agrado. Espanta a modernidade de poemas escritos há cerca de treze séculos, bem antes dos alvores da nossa nacionalidade. Testemunharam a História e permanecem. Ilustram a perenidade das emoções humanas. Constituem, de algum modo, espelhos do que somos. No carinho e no desafeto, no amor e no ódio, na alegria, na tristeza e no devaneio, não estaremos muito longe dos sentimentos dos homens de épocas passadas e de terras distantes.
A poesia chinesa clássica difere da nossa na escolha dos temas. Não trata do épico nem do dramático. Os poemas são geralmente curtos e integram-se na harmonia confuciana do mundo. Curiosamente, cantam as montanhas, os rios, os lagos e as bailarinas, mas raramente se ocupam do mar.

                          LI BAI


Li Bai (701-762) é considerado um dos maiores poetas na China, a par de Du Fu. Foi contemporâneo de Wang Wei (nasceram ambos no mesmo ano). Boémio, vagabundo, repentista, levou uma vida agitada. Diz a lenda que morreu afogado no Rio Azul quando, embriagado, procurava agarrar a imagem da lua refletida na água.



                      PENSAMENTOS NOTURNOS

Diante da cama,
Brilha o luar,
Que mais parece
Gelo no chão.

Se levanto a cabeça,
Contemplo a lua.
Ao baixá-la
Sonho com a terra natal.


           NO TERRAÇO DE SU VEJO O PASSADO

Velhos jardins, um terraço em ruínas, salgueiros novos;
─ Os que colhem o tríbulo, o claro som das canções, a primavera insuportável
E agora somente a lua no rio, a oeste
Ela, que uma vez brilhou no rosto de uma dama, no palácio do rei de Wu

     (A dama do poema é Xi Shi, por quem o rei se apaixonou. Conduziu ao seu enfraquecimento e à queda do reino).




                   WANG WEI


 Wang Wei (701-761) foi poeta, músico e pintor. Pertencia a uma família de mandarins e foi mandarim também. Mandarins eram os letrados que se ocupavam da administração da imensa China. A língua escrita era apenas acessível a essa elite de funcionários públicos que governou a China até à era moderna.
Os candidatos a mandarim aprendiam a pintar a língua escrita e seguiam os ensinamentos de Confúcio. A carreira prosseguia através dum filtro de exames públicos nacionais em que eram selecionados os de maior valor. Foram, durante séculos a fio, esteios dos impérios.
Quase todas as vidas têm altos e baixos. Os pontos elevados da carreira de Wang Wei  fizeram-no sentar à direita do Imperador, como conselheiro influente do Secretariado Imperial. Nas fases baixas, desempenhou funções menores em regiões distantes, mas foi quase sempre um mandarim influente e rico.



PARTINDO DE MADRUGADA PARA O DESFILADEIRO DE BA

     De madrugada, com restos de primavera,
     deixo a capital, rumo ao desfiladeiro de Ba.
     Uma mulher lava roupa nas águas límpidas do rio,
     os pássaros chilreiam ao sol da manhã.
     Sobre as águas, faz-se o comércio nos barcos,
     há pontes suspensas do topo das árvores.
     Subo a um monte, emergem cem aldeias,
     lá longe, dois rios brilham como prata.
     As pessoas falam estranhos dialetos,
     mas os pintassilgos cantam como na minha terra.
     Sou capaz de reconhecer a paisagem,
     minha tristeza se atenua.


                          NOSTALGIA

      Moro na foz do rio Meng,
      a porta da casa diante das águas,
      do sul, os barcos sempre a chegar,
      quando trazem uma carta para mim?

      Vens da minha aldeia natal
      informado, com certeza, de mil coisas.
      Quando partiste, em frente da sua janela,
      desabrochavam já flores de ameixieira?

      As árvores cobertas de pétalas,
      as aves de novo a cantar.
      Reverdecem os campos, desassossego em mim,
      receio ver crescer a erva, diante da cancela. 


                        DU FU 




Não existem retratos autênticos de Du Fu. Esta pintura é imaginada por um pintor que viveu mais tarde.

Mais que os taoistas Li Bai e Bai Juyi e o budista Wang Wei, o confucionista Du Fu (712-770) impôs-se como o vulto maior da poesia chinesa.
Pouco alcançou na vida, ao contrário dos grandes poetas do seu século de ouro. O seu valor apenas foi reconhecido centenas de anos após a sua morte e muitos (provavelmente dois terços) dos seus poemas perderam-se.
Du Fu descendia de uma família de letrados. O seu avô Du Shenyan foi um poeta importante. Du Fu tentou seguir a carreira de mandarim na administração chinesa, mas reprovou por duas vezes nos exames imperiais. Em 744 conheceu Li Bai, dando início a uma das amizades entre poetas mais famosas no mundo.
Chamam-lhe “o poeta historiador” e “o poeta sábio”. Deixou testemunhos realistas dos tempos atribulados em que viveu.
A sua vida, como a de todo o país, foi devastada pela rebelião do general An Lushan que  rebentou em 755, quando Du Fu contava 43 anos. A guerra civil que se lhe seguiu terá provocado perto de doze milhões de mortos.
      Os últimos anos da vida do poeta decorreram em sobressalto quase constante, a meio de dificuldades económicas. Morreu durante a longa viagem que empreendeu pelo rio Yangtze, tentando regressar a Changan. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


                                     GUILIN II


      Iluminar grutas com luzes coloridas pareceu-me, à primeira vista uma ideia pouco agradável. Muita gente não concordará com ela e haverá quem se gaste a imaginar os estragos que o processo de instalação elétrica implica.


        O efeito, no entanto, é espetacular. Visitei as grutas de Aracena e de Santo António, na Serra de Aires. Estas (Reed Flute Cave) deixam seguramente uma impressão mais marcada e duradoura.


     A nossa guia em Guilin falava razoavelmente o inglês, mas ficaram barreiras por transpor. As informações que recolhi da Internet davam conta de uma série de túmulos antigos, pois Guilin foi também residência imperial. O que se pretende dizer nem sempre é ouvido como a gente quer. Em vez de “ancient tomb”, a guia levou-nos para uma “ancient town” . Ainda não sei se ficámos a perder ou a ganhar.

              A rua principal da aldeia turística


    O nosso anfitrião, preparado para o sol e para a chuva


         Vi mós semelhantes a esta no Algarve. Vieram de lá para cá, viajaram de cá para lá, ou foram inventadas de forma independente?


        A oficina dele está mais bem arrumada do que a minha.


     Um berbequim de antigamente. Fez-me lembrar trepanações…



                                                A cozinha



                     Dois em um:  travesseira - mealheiro.


     O mundo é pequeno. Tirei, há cerca de dois anos, uma fotografia semelhante a esta em Constança.



       Secam chouriços a bordo. Fiquei com vontade de os provar.



     Flores de chá. Terão aplicações medicamentosas.



  Leva-se o menino a passear no prado, à beira-rio


      Quando for grande, quero ter uma carrinha destas.


  No caminho do aeroporto, na manhã da despedida, lá ficam as montanhas de Guilin a vigiar a cidade através da neblina do outono.