DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 2 de fevereiro de 2019


                                 D. JOÃO V 


                E O CONVENTO DE MAFRA




D. João V era filho de Pedro II, provavelmente um sifilítico, e de sua segunda esposa, D. Maria Sofia de Neuburg. Segundo Júlio Dantas, D. Pedro terá sido contagiado pela sua primeira mulher, Maria Francisca Isabel de Saboia, que terá trazido de França a infeção.
João, que viria a ser o quinto rei do seu nome em Portugal, nasceu em Lisboa, a 22 de outubro de 1689 e faleceu, na mesma cidade, a 31 de julho de 1750. Durante o seu reinado, foi desembarcada, em média, no porto de Lisboa, uma tonelada de ouro por ano.
A riqueza, que não resultava do trabalho dos seus súbditos em Portugal, inchou-lhe o ego e permitiu-lhe mandar erigir obras megalómanas: a Basílica Patriarcal de Lisboa, a Biblioteca da Universidade de Coimbra e, claro está, o Convento de Mafra.
D. João V governou como monarca absoluto. Nunca convocou as Cortes. Mandou em Portugal durante mais de 43 anos.
Alguns cronistas trataram-no mal. Chamaram-lhe estúpido, vaidoso e mulherengo. Houve quem sugerisse que era bissexual.
Sabe-se que o rei era beato e propenso à lascívia. Teve inúmeras mulheres. Gerou seis filhos legítimos e uma mão cheia de bastardos.
Pagava generosamente os seus favores. Tanto quanto se sabe, alimentou apenas uma paixão: Madre Paula fê-lo percorrer, vezes sem conta, o caminho do convento de Odivelas.
Fortunato de Almeida defende o soberano: vícios pessoais são estranhos aos domínios da História, enquanto não perturbarem os negócios públicos. De facto, durante o seu reinado, Portugal ganhou prestígio junto da comunidade internacional.
Ouçamos, agora Oliveira Martins, que faz de advogado do diabo: Mafra levou, em dinheiro e gente, mais do que Portugal valia.
Joel Serrão tem uma postura mais abrangente e, a meu ver, mais ajustada à realidade histórica. Ouçamo-lo:
Quando D. João V iniciou o seu reinado, estava-se em plena Guerra da Sucessão de Espanha que, para Portugal, significava o perigo das ligações daquele país à grande potência continental que era a França, com todas as consequências de reforço do perigo espanhol, tanto na metrópole como no ultramar. O esforço militar português era manifestamente desproporcionado em relação às suas responsabilidades e interesses…
… A subida ao trono austríaco do imperador Carlos III, pretendente ao trono de Espanha, criou o ambiente próprio para a paz que foi assinada no Tratado de Utreque, em 1714.
D. João V permaneceu inalteradamente fiel aos seus interesses atlânticos, comerciais e políticos. No conjunto, seguiu uma orientação de neutralidade face à Europa. Casou com uma princesa austríaca, Mariana de Áustria.
 O rei verificou cedo que a Áustria ficava demasiado distante para poder ser uma aliada eficaz.
Como a ligação à Espanha era manifestamente perigosa, restava a aliança inglesa que, além disso, oferecia múltiplas vantagens estratégicas e comerciais.
É de notar que Portugal exportava sal, couros, vinho, tabaco e citrinos, vendidos a bom preço nos países do norte da Europa.
Estou inclinado a dar razão a Fortunato de Almeida. Apesar dos seus desmandos, o rei contribuiu, com a sua governação, para a paz e para o desenvolvimento do país.
Voltemos a ocupar-nos das obras grandiosas que mandou edificar.


Poucos porão em dúvida a utilidade do Aqueduto das Águas Livres, que minorou o problema crónico de abastecimento de água à capital do Reino. Um alvará régio de D. João V impulsionou o projeto, embora nem o rei, nem a corte se tenham envolvido diretamente no empreendimento. A iniciativa da construção pertenceu ao procurador da cidade de Lisboa, Cláudio Gorgel do Amaral. O aqueduto foi financiado por um imposto adicional sobre a carne, o vinho e o azeite vendidos em Lisboa. As obras começaram em 1731 e arrastaram-se até 1799 (Saraiva). O segmento que atravessa o vale de Alcântara, com quase um quilómetro de comprimento, tem uma beleza invulgar.  
A Biblioteca dita joanina da Universidade de Coimbra representou um esforço no sentido de pôr ao alcance de estudantes e professores o que de melhor se publicava no mundo das ciências. Trouxe, seguramente, vantagens duradouras à instituição. É razoável pensar que se poderia ter conseguido o mesmo efeito com um investimento bem menor, mas o que está feito, está feito, e as suas instalações são visitadas anualmente por muitos milhares de turistas vindos de todas as paragens.
A Basílica Patriarcal de Lisboa foi derrubada pelo terramoto de 1755. Poucos se lembram dela e não entrará nas nossas contas.
Resta-nos Mafra. Confesso que o monumento constitui, para mim, uma referência especial. Habitei uma das alas do convento, de outubro a dezembro de 1969, acompanhado por 600 outros cadetes que frequentavam o Curso de Oficiais Milicianos, na Escola Prática de Infantaria, que ali funcionava. A E.P.I. foi desactivada em 2013 e substituída pela  Escola das Armas do Exército Português.


O Exército Português formava, nesse edifício, os oficiais milicianos de baixa patente que iriam comandar pelotões ou companhias, numa das três frentes da guerra colonial. Os médicos cumpriam ali o primeiro ciclo do Curso de Oficiais, antes de seguirem para as instalações militares da Estrela, onde completavam a formação castrense.
 Sendo impensável defender a edificação do conjunto Igreja/Palácio/Convento de Mafra recorrendo ao simples binómio custo/benefício, haverá que atender a outros fatores. Com essa construção D. João V projetou uma imagem de grandeza, em Portugal e no mundo.
Os trabalhos tiveram início em 1717, sob a direção do arquiteto prussiano Johann Friedrich Ludwig. O monarca contava então 28 anos de vida. O edifício, construído em pedra lioz, uma variedade de calcário abundante na região, estende-se por uma área de perto de quatro hectares. Chegou a ocupar simultaneamente 52.000 trabalhadores. Houve alturas em que foram recrutados à força para acelerarem a obra. Curiosamente, em 1731, ocorreu uma greve dos pedreiros que trabalhavam na construção (Joel Serrão).


O convento foi destinado à Ordem de S. Francisco e pensado inicialmente para 13 frades. À medida que chegava o ouro do Brasil, o projeto cresceu, primeiro para 40, a seguir para 80 e, finalmente, para 300 monges. Entretanto, agregou-se-lhe o Palácio Real.
Diz-se que o edifício tem mais de 4700 portas e janelas. É pouco provável que alguém as tenha contado recentemente.
As pinturas e as esculturas religiosas existentes na capela e no convento foram encomendadas aos melhores artistas do século XVIII. Vieram sobretudo de Roma. 
A Basílica foi sagrada a 22 de outubro de 1730, data do 41º aniversário do rei. Ainda não estava pronta. Ingressaram no convento 328 frades arrábidos, vindos de diversos conventos mandados extinguir por decreto real.
No Palácio, os aposentos do rei e da rainha eram separados por uma conveniente distância de 230 metros. O palácio foi usado essencialmente pelos membros da família real que iam caçar à Tapada. Terão sido essas as dormidas mais dispendiosas da História de Portugal.
Mafra possui uma das mais belas bibliotecas da Europa. Abriga 30.000 livros encadernados em couro e gravado a letras de ouro, entre os quais se encontram raridades bibliográficas.
Hoje, é quase impossível falar de Mafra sem referir a obra de José Saramago, “Memorial do Convento”. A primeira edição do livro foi publicada em 1982. É com as palavras “ D. João, quinto do nome” que o romance começa. Prossegue com duas histórias paralelas: o relato da construção do convento e a história de amor entre Baltazar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, contagiados pelo sonho do padre Bartolomeu Lourenço que pretendia construir uma máquina de voar.
Saramago satiriza os costumes do rei, da nobreza e do clero e critica, com ironia e amargura, os sacrifícios a que a construção dessa obra megalómana obrigou o povo chão. Sigamos a cerimónia oficial do início da edificação, nas palavras do escritor consagrado com o Prémio Nobel:
Foi a pedra principal benzida, a seguir a pedra segunda e a urna de jaspe, que todas três iriam ser enterradas nos alicerces, e depois foi tudo levado em procissão, de andor, dentro da urna os dinheiros do tempo, ouro, prata e cobre, umas medalhas, ouro, prata e cobre, e o pergaminho onde se lavrara o voto, deu a procissão uma volta inteira para mostrar-se ao povo que ajoelhava à passagem, e, tendo constantemente motivos para ajoelhar-se, ora a cruz, ora o patriarca, ora el-rei, ora os frades, ora os cónegos, já nem se levantava, bem poderemos escrever que estava muito povo de joelhos. Enfim se encaminharam el-rei, o patriarca e alguns acólitos para o sítio onde se havia de colocar a pedra e as pedras, descendo por uma espaçosa escada de madeira que tinha trinta degraus, porventura em memória dos trinta dinheiros, e de largura mais de dois metros. Levava o patriarca a pedra principal, ajudado pelos cónegos, e outros destes a pedra segundeira e a urna de jaspe, atrás el-rei e o geral da Sagrada Ordem de S. Bernardo, como esmoler-mor, e que, por o ser, levava o dinheiro.
Assim desceu el-rei trinta degraus para o interior da terra, parece uma despedida do mundo, seria uma descida aos infernos se não estivesse tão bem defendido por bênçãos, escapulários e orações, e se aluíssem estas altas paredes que formam o cabouco, ora não tema vossa majestade, repare como o escorámos com a boa madeira do Brasil por maior fortaleza, aqui está um banco coberto de veludo carmesim, é uma cor que usamos muito em cerimónias de estilo e de estado, com o andar dos tempos vê-la-emos em sanefas de teatro, e sobre o banco está um balde de prata cheio de água benta, e também duas vassourinhas de urze verde com os cabos guarnecidos de cordão de seda e prata, e eu, mestre-da-obra, verto um cocho de cal, e vossa majestade, com esta colher de pedreiro de prata, perdão, senhor, de prata de pedreiro, se pedreiros a têm, estende a cal, mas antes a espargiu com a vassourinha molhada na água benta, e agora, ajudem-me aqui, podemos assentar a pedra, porém, sejam as mãos de vossa majestade as últimas a tocar-lhe, pronto, um toque mais para toda a gente ver, pode vossa majestade subir, cuidado não caia, que o resto do convento nós o construiremos…

Texto retirado, com modificações do capítulo "The National Palace of Mafra and King JohnV - some historical and medical insights", a incluir no trabalho "Medical Heritage of the National Palaced of Mafra", coordenado por Maria do Sameiro Barroso. 


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019





         

  RELAÇÕES 


ENTRE MÉDICOS E DOENTES


NA LITERATURA PORTUGUESA

                                    I

      São conhecidas, na literatura universal, diversas obras que tratam da relação entre médicos e doentes. Lembro, por ordem das datas de nascimentos dos autores, “O médico de aldeia”, de Balzac, “O duplo”, de Dostoievski, “A morte de Ivan Illich”, de Tolstoi, “O alienista”, de Machado de Assis, “A montanha mágica”, de Thomas Mann, “Um médico rural”, de Kafka, “Olhai os lírios do campo”, de Erico Veríssimo, “Consciência de médico”, de Morton Thompson, “A peste”, de Camus, e “O pavilhão de cancerosos”, de Soljenitzine.
     Existem muitas outras obras, muito belas, que abordam o mesmo tema. Conheço apenas umas tantas, pois é vasto este universo.
Nas letras portuguesas, são também relativamente comuns as referências à relação médico-doente. Por razões de espaço e de tempo, procurei recolher amostras representativas e capazes de proporcionarem aos leitores uma visão minimamente clara do assunto (de acordo com o meu modo de o olhar), sem procurar esgotar a questão.
Escolhi, entre os que conheço, aqueles que se enquadraram melhor no projeto que concebi.
Começo com referências curtas às palavras de um grande e antigo vulto da nossa Medicina (Amato Lusitano), que se debruçou sobre a matéria. Apesar de ter escrito no século XVI, quase tudo o que disse mantém atualidade.
A seguir, falo brevemente das relações de um doente ilustre com médicos ilustres: Camilo Castelo Branco, Gama Pinto e Ricardo Jorge. Faço notar que o critério que adotei para a ordem de apresentação dos escritores foi, outra vez, a do ano de nascimento de cada um.
Na continuidade, abordo ao de leve o “João Semana” das “Pupilas do Senhor Reitor”. A figura desse médico generoso, bonacheirão e apreciador de anedotas, criada por Júlio Dinis, assinalou de forma positiva a juventude da gente da minha idade. As minhas filhas também o apreciaram. Desconheço a aceitação que tem nos dias de hoje.
Progrido, aos poucos, no tempo. Aludo à difícil relação de José Rodrigues Miguéis com os clínicos que o trataram em Nova Iorque.
Salto, a seguir, para o otorrinolaringologista Miguel Torga, que raras vezes abordou, nos seus escritos, as relações entre médicos e doentes.
Segue-se Virgílio Ferreira, que se queixou (veladamente) da insuficiência do consentimento informado, ao referir a amputação duma perna de um personagem seu.
Relato, no seguimento, aspetos da maneira como Fernando Namora (um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos) retratou a sua convivência com os doentes. Dou-lhe um espaço maior, porque Namora dedicou muitas páginas a este tema.
Falo depois de José Cardoso Pires, que dramatizou, de forma notável, a relação com o acidente vascular cerebral que o atingiu, retirando-lhe, (de modo felizmente passageiro), a capacidade de falar e de escrever.
De Cardoso Pires, passo para Mário Cláudio, que enalteceu de forma poética o relacionamento de “Dom Francisco” (Goya) com o seu médico doutor Arrieta.
Termino com António Lobo Antunes, que nasceu em 1942. Médico, filho de médico e irmão de médicos, levou ao fim a carreira de Psiquiatra no Hospital Miguel Bombarda, mas começou cedo uma obra que lhe dá lugar entre os grandes prosadores portugueses de todos os tempos.
Perguntarão os leitores por que razão não falo de José Saramago, nosso primeiro Prémio Nobel da Literatura. Não é seguramente por falta de apreço, que é grande o que tenho por ele. Julgo mesmo que a segunda metade do nosso século XX irá ficar marcada como a Idade de Ouro da nossa Literatura. Saramago, a meu ver, é o maior de todos os nossos escritores recentes. Acontece que, da parte da obra dele que li até hoje, não lembro episódios que se adequem ao trabalho em curso.
          As opiniões e os eventuais critérios de valor expressos ao longo deste texto obrigam apenas o autor. Outros, mais sabedores, fariam melhor.


AMATO LUSITANO



Amato Lusitano (1511-1568) dá conselhos aos médicos (e também aos doentes) logo no prefácio do seu primeiro livro de Centúrias. Escreve:
Na medicina, em geral, há três aspetos em que e por que se realiza a cura, a saber: o médico, o doente e a própria doença.
Em primeiro lugar, é necessário que o médico seja instruído, dedicado, agradável e sério. Importa que a sua apresentação, a conversa, a figura, o vestuário, o cabelo, as unhas e o perfume caiam no agrado do doente, como ordena Hipócrates, no livro 6º do Epidemion.
A sua função, porém, é curar com segurança e rapidamente; com segurança, para ajudar e não prejudicar; rapidamente, dando os remédios adequados, pois a demora é uma atitude imprópria de toda a profissão, mas principalmente na medicina, onde é perigo de vida.
Cuidará, um prático, de interrogar o doente, se adoeceu mais vezes e de que doença sofreu, aguda, intermitente, longa ou rápida, assim como também que remédios tomou, líquidos, sólidos ou até em pílulas; procurará saber com quais se deu melhor ou não.
Também é necessário que o doente seja obediente ao médico, nunca condescendendo com a sua própria vontade.
Será, pois, dever do doente resistir à doença juntamente com o médico, visto que este e a doença se combatem mutuamente e, por assim dizer, lutam e pelejam entre si. Com efeito, o médico procura, com a ajuda da natureza, expulsar a doença; por sua vez, a doença esforça-se por não ser inferior. É nesta altura que o doente que segue o médico e executa as suas ordens se torna aliado deste e inimigo da doença.
Uma vez vistas e ordenadas estas coisas, pode o médico iniciar a cura, conforme exigir a doença. Se, não obstante, desconhecer a doença, atenue o regime, como manda Avicena, visto que a doença se descobrirá.

Fontes:
Lusitano, Amato. 2010. Centúrias de curas medicinais, vol. 1. Lisboa: CELOM.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018





ONTEM COMO HOJE…




      Cada ministério respeitará a verba global que lhe for atribuída.
Nenhum ministério tomará qualquer medida com repercussão financeira sem o acordo prévio do ministério das Finanças.
Este poderá sempre opor o seu veto a aumentos de despesa.
O ministério das finanças colaborará com os demais no estabelecimento de critérios uniformes para redução de despesas ou arrecadamento de receitas.

Estas palavras não são de Mário Centeno. Constam de um discurso proferido por António de Oliveira Salazar em 28/abril/1928.



quinta-feira, 26 de julho de 2018




CRÓNICAS DE VIAGEM


SALAMANCA


Eu tinha passado por Salamanca há mais de meio século, “pendurado” na excursão de finalistas de Medicina da minha cunhada Maria Augusta. Devemos ter demorado lá pouco, pois gravei apenas na memória a imagem da Plaza Mayor.

Plaza Mayor

Desta vez, estivemos lá um dia inteiro. Não é muito tempo e ficou muita coisa por ver, mas chegou para formar uma ideia aproximada da cidade que alberga a Universidade mais antiga da Península Ibérica e a quarta da Europa, onde apenas Bolonha, Oxford e Paris a precederam. Nela estudaram Abraão Zacuto, Calderón de la Barca e os portugueses Pedro Nunes e Amato Lusitano. Cristóvão Colombo deu ali aulas sobre as suas descobertas.

                        Ponte romana e catedral
A economia da cidade de 220.000 habitantes gira atualmente em volta da Universidade e do turismo.
    No século XVI, Salamanca viveu a sua idade de ouro. A cidade contava 6.500 estudantes, numa população de cerca de 24.000 almas. Durante esse período, ensinaram ali muitos dos intelectuais mais ilustres da Europa e foram desenvolvidos conceitos revolucionários na Moral e no Direito, incluindo os direitos à vida, à propriedade e à liberdade de pensamento. Em anos mais recentes, Miguel de Unamuno foi reitor da Universidade. 

   Universidade 


A história da povoação é muito antiga. Em 220 a.C., os cartagineses conquistaram a cidade às tribos de origem celta que a habitavam. Após a vitória romana na Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), a cidade foi anexada à província da Lusitânia. Com a queda do Império Romano, chegaram os invasores alanos e visigodos. Mais tarde, no ano de 712, os mouros tomaram conta da região e governaram-na até ao século XI. Por essa altura, a relação de forças entre cristãos e mouros começou a inverter-se e iniciou-se a reconquista cristã da Península.

                     Universidade - detalhe da fachada
Passados muitos séculos, durante a Guerra Peninsular, em 1809, a cidade foi ocupada pelas tropas do general Soult, que comandou a segunda invasão francesa a Portugal. Três anos mais tarde, as tropas anglo-lusas comandadas por Arthur Wellesley, mais tarde duque de Wellington, reconquistaram Salamanca. A cidade sofreu muito com a guerra e com o encerramento da Universidade, decretada por Fernando VII. Ao ser reaberta não voltou a recuperar o vigor e o prestígio antigos.
Entre 1936 e 37, o Palácio Episcopal de Salamanca foi a residência e o comando operacional do general Francisco Franco.

Catedral nova

Salamanca é uma das cidades espanholas mais ricas em monumentos da Idade Média, do Renascimento e das épocas barroca e neoclássica. A catedral nova é barroca. Os fiéis tiveram o bom senso de não destruir a velha. Ficam paredes meias e passa-se de uma para outra sem sair à rua. 

                         Porta da catedral nova
São impressionantes a quantidade, a diversidade arquitectónica e a beleza dos edifícios históricos acantonados no centro da cidade.  Salamanca tem ainda a fama de ser o lugar onde se fala o melhor castelhano de Espanha.

                         Convento de San Esteban
A vida social de Salamanca centra-se atualmente na Plaza Mayor, construída no final da primeira metade do século XVIII.

                                             Plaza Mayor
Para nós, portugueses, não deixa de ser curiosa a coincidência entre o nome do rio Tormes, que corre a sudoeste da cidade e a quinta de Tormes que encantou Jacinto em “A cidade e as serras”. O rio é atravessado por uma ponte romana em que, ainda hoje, boa parte dos arcos é de origem.

Nota: a fotografia da ponte romana foi retirada da Internet

quarta-feira, 25 de julho de 2018



CRÓNICAS DE VIAGEM


CIUDAD RODRIGO


Ciudad Rodrigo - muralha e catedral

Quando regressei de Angola, para estudar Medicina em Coimbra, habituei-me a passar as férias grandes em Almendra, a terra onde nasci. As férias grandes e, quase sempre, as do Natal e da Páscoa.
Apanhava um comboio que saía de Coimbra às primeiras horas da madrugada e seguia até Campanhã, onde me mudava para a Linha do Douro. Depois, era acompanhar as curvas do rio até Almendra, a última estação antes da Barca d`Alva, onde fica a fronteira com Espanha. Após a morte de meus pais, a seguir aos meus irmãos, era ali que tinha os parentes mais chegados.

  


A bolsa de estudos que recebia do governo-geral de Angola foi reduzida, ao fim do segundo ano, a dez prestações. Infelizmente, os anos continuaram a contar doze meses cada. Um automóvel era coisa com que nem sequer se sonhava. O comboio era a alternativa possível.

                          Fachada da Capela de Cerralbo (sec. XVII e XVII)
Os meus itinerários eram necessariamente limitados. Ia, de vez em quando, à Meda, onde o meu primo Francisco Trabulo, já ancião, me tratava com galhardia. Deslocava-me ocasionalmente a Figueira do Castelo Rodrigo, que a camioneta alcançava em menos de meia hora. Figueira desenvolveu-se na vizinhança do castelo medieval que faz parte de uma linha de fortificações que se distribuem ao longo da fronteira até Monsaraz e Marvão.

                                         Claustro da catedral
Mesmo anos mais tarde, quando a entrada no mercado de trabalho me proporcionou outras condições de vida, não me deu para viajar até Ciudad Rodrigo, a cidade espanhola mais perto de Almendra.
Sempre me intrigou a partilha de nomes, para mais em povoações fortificadas e relativamente próximas. Após a vitória do rei Ramiro II de Leão, na batalha de Simanca (939) deu-se a progressiva ocupação cristã dos territórios conquistados aos mouros. Rodrigo Tedoniz, cunhado de Mumadona Dias, viria a ser alcaide dos castelos do rei. É-lhe atribuída a reedificação do castelo de Penedono. Ignoro se está ligado a Castelo Rodrigo e a Ciudad Rodrigo, ou se se trata de coincidência de nomes.

                        Vista da catedral
Há alguns dias, eu e a minha mulher, acompanhados pela minha irmã Maria e pelo meu cunhado Sindulfo, saímos de Almendra com destino a Salamanca. No caminho, visitámos Ciudad Rodrigo, onde almoçámos.
É uma pequena cidade com a parte antiga situada no interior das muralhas construídas entre os séculos XII e XIV. Dista 25 quilómetros de Vilar Formoso. Foi, durante algum tempo sede da extinta diocese de Calábria.

                          Ayuntamiento
Tratando-se da única posição fortificada importante entre Salamanca e Portugal, sofreu dois cercos durante as invasões francesas.
Em 1810, o marechal francês Ney tomou a cidade. Os 24 dias que durou o cerco obrigaram Massena a adiar um mês a invasão de Portugal.

                         Plaza Mayor
Dois anos mais tarde, o general inglês Wellington tomou a fortificação aos franceses, no começo da campanha que conduziu à libertação da Península Ibérica. Ciudad Rodrigo foi saqueada tanto pelos franceses como pelos ingleses.

           Catedral. Nesta fotografia é clara a influência românica
A catedral tem uma imponência notável para o tamanho da povoação. Começada a construir no século XII e XIV, revela uma arquitetura mista de românico e de gótico.

segunda-feira, 23 de julho de 2018



FOZ COA

Voltei a Foz Coa, a terra do meu pai. Diz-se, aliás, que todos os Trabulos têm origem na região.


Em visitas anteriores, fotografei o que a cidade tem de belo. Desta vez, deixei-me levar por um diabinho e fui fixando a objetiva da câmara nos sinais de decadência.


Embora Vila Nova de Foz Coa tenha vida própria, mesmo antes do verão e da chegada dos emigrantes, notam-se, mesmo em ruas centrais, vestígios do abandono a que o interior do nosso país parece condenado.


 Nem o facto de se juntarem ali dois Patrimónios Mundiais da UNESCO, o Alto Douro Vinhateiro e as Gravuras Rupestres do Vale do Coa, anima suficientemente a povoação.


Para não deixar uma ideia demasiado severa da terra onde tenho metade das raízes, registo o interior da Igreja de Nossa Senhora do Pranto, que permanece robusta, mesmo com as colunas inclinadas pelo terramoto de 1755, e a estátua da Senhora que deu o nome ao edifício. 


Permaneceu (diz-se) centenas de anos na frontaria, até que a chuva, o vento e os dejetos das aves lhe mudassem a cor da pedra. Mantém alguma serenidade no rosto, mesmo a chorar o filho morto.






O CAMINHO BRANCO


Poucas lembranças conservo dos tempos de meninice que passei em Foz Coa. Terá sido entre os dois e os quatro anos, ou pouco mais. Recordo vagamente a lagoa, que me parecia enorme, e lembro-me de usar calções com racha atrás, como os outros rapazitos. Eram especialmente úteis no tempo frio…
Sei, de ouvir dizer, que morávamos na Rua de S. Miguel. no prédio onde fica hoje a Terrinca. Contaram-me as minhas irmãs que, quando se varria a lareira, aparecia uma inscrição onde se lia “Aqui jaz”. A mentalidade pragmática dos humanos levava-os a reciclar qualquer material que fosse útil à construção.
Colaram-se-me ao espírito outras memórias, nascidas de narrações repetidas. Uma delas foi a lenda do Caminho Branco, onde dançariam as bruxas nas noites de terça e sexta-feira.
Não sou crente, o que me torna mais vulnerável à fantasia.
Há três dias, regressei a Foz Coa e perguntei pelo Caminho Branco a dois homens de meia-idade que conversavam à sombra, sentados num banco de pedra.
A resposta foi pronta:
− Fica perto. Vai por aquela rua (apontou-ma). Vira duas vezes à direita e uma à esquerda e já lá está.
Segui as instruções e encontrei-me no começo duma calçada larga, muito limpa, delimitada por muros de xisto que abrigavam prédios com olivais. Avistavam-se ao fundo casas novas.


Perguntei a uma moça jeitosa que passava por ali, de telemóvel na mão:
− Menina! É este o Caminho Branco?
A moça sorriu, admirada talvez pela minha ignorância.
− É sim. Vai dar às piscinas.
Guardou o sorriso e prosseguiu o caminho e a teleconversa.
Olhei em volta, um pouco a medo, mas não avistei bruxas, nem sinais delas. Na verdade, não era terça-feira e a meia-noite estava longe.


Voltei para o carro e conduzi em direção a Almendra, com a imaginação a baralhar-me os sentidos. E se aquela rapariga fosse bruxa e se juntasse ás outras nas terças-feiras à noite, para dançar nua no Caminho Branco?