DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quarta-feira, 26 de abril de 2017


 BANDOLEIROS EM PORTUGAL

NA PRIMEIRA METADE 

DO SÉCULO XIX


A instabilidade política e social em que Portugal mergulhou, no rescaldo das invasões francesas e das lutas entre liberais e absolutistas, com revoltas e golpes de estado sucessivos, enfraqueceu a autoridade pública e permitiu que proliferasse o banditismo. Com as quadrilhas engrossadas por desertores, as populações viviam alarmadas.
Durante esse período conturbado em que a lei não chegava a toda a parte, aconteceu algumas vezes que as forças políticas e militares que se defrontavam aceitassem a aliança de grupos de bandoleiros. Por outro lado, certos chefes de guerrilha resvalaram para atividades criminosas.
Tempos de exceção são fábricas de lendas. Irei falar de alguns personagens que se notabilizaram na época, nem sempre pelas melhores razões.
José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido, miguelista, era de Lagoa e atuava no Algarve.
José do Telhado terá posto a sua quadrilha ao lado dos setembristas, durante a guerra civil de 1846-1847.
João Brandão, de Midões, espalhou o terror nas Beiras, ao serviço dos Cabrais. Com a Regeneração, passou a “influente” político local, aliando-se umas vezes ao governo e outras à oposição.
Os Marçais, de Foz Coa, desempenharam na história local papéis ainda hoje difíceis de entender completamente.


quinta-feira, 20 de abril de 2017



AINDA O ACORDO ORTOGRÁFICO


Recentemente, a Associação Portuguesa de Escritores realizou um inquérito destinado a conhecer as posições dos seus associados sobre o Acordo Ortográfico. 86,7 por cento dos inquiridos pronunciaram-se contra. Eu votei com a minoria. Sou um democrata e respeito a votação, mas não fiquei convencido.
Nós não somos donos da língua portuguesa. Criámo-la, mas constituímos atualmente uma minoria das pessoas que a falam. É um dos nossos maiores legados para a cultura universal. Existem cerca de 225 milhões de lusófonos. Em Portugal, somos apenas dez milhões. Fiz a conta. Dá 4,4 por cento. Podem, naturalmente, ser feitas outros cálculos. A verdade é que, excetuando o Brasil, uma parte não contada, mas significativa, da população desses países desconhece a nossa língua. Os agricultores do interior de Angola e Moçambique continuam a comunicar nos dialetos gentílicos. Nessas paragens, o domínio do Português é um privilégio das elites.



O processo que conduziu ao Acordo Ortográfico foi complexo, moroso e muitas vezes interrompido.
A obra notável de Gonçalves Viana “Ortografia Nacional”, publicada em 1904, foi pouco contestada e esteve na base da reforma oficializada em 1920 pelo governo da República Portuguesa. Teve como consequência um cisma ortográfico: Portugal adotou uma ortografia simplificada, enquanto o Brasil manteve o modo antigo de escrever.
Entre 1931 e 1943, a Academia de Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras mantiveram contactos e negociações que permitiram que, em 1943, fosse assinada uma Convenção Ortográfica entre Portugal e o Brasil. A tentativa de acordo não vingou.
Ao longo da década de 70, foram sendo dados novos passos de aproximação. Em 1986, no Rio de Janeiro, foi assinado por representantes de todos os países de língua oficial portuguesa um novo ajuste que, depois de aperfeiçoado, viria a ser oficializado. Era o Acordo Ortográfico de 1990, que seria ratificado pela Assembleia da República Portuguesa em 2008, numa versão intitulada “Segundo Protocolo Modificativo”. Tem sido contestado, pelo menos, em Portugal, Angola e Brasil.
Na discussão deste tema, julgo que deverão ser ponderadas primeiro a necessidade e a oportunidade e, depois, os custos de uma eventual alteração. Será também conveniente perspetivar, na medida do possível, as alterações que o futuro nos trará.
Comecemos pela necessidade. Se olharmos para os lados, encontraremos indicações que vão em sentidos opostos. Os nossos vizinhos espanhóis acordaram, com os países sul-americanos que em tempos colonizaram, uma forma única de escrita que pouco interfere na conhecida autonomia das pronúncias. Ao contrário, os ingleses nunca procuraram estabelecer normas internacionais de ortografia, apesar de existirem variantes consideráveis nos diversos países anglófonos. O árabe e o francês, que são também das línguas mais faladas do mundo, nunca precisaram de acordos ortográficos para serem reconhecidas internacionalmente, embora contem com muitos cambiantes.
As línguas são vivas e tendem a diversificar-se. Acho preferível haver um acordo, mesmo que não seja perfeito, do que deixar a língua à solta, sem nenhum mecanismo que procure regulá-la. Não sou linguista, mas para falar de política de defesa nacional não é preciso ser militar, e para opinar sobre saúde não é indispensável ser médico ou enfermeiro. Acredito na utilidade dum instrumento regulador. A meu ver, boa parte das alterações propostas vem apenas apressar uma evolução que iria ter naturalmente o mesmo resultado, anos mais tarde.


Os peritos dos oito países lusófonos decidiram valorizar a pronúncia em detrimento da etimologia. A questão do Acordo divide os portugueses, bem mais do que seria de esperar dum assunto técnico. Os puristas encontram argumentos na raiz latina ou grega de muitos dos nossos vocábulos. Acham que a correção da linguagem deve passar pelo respeito escrupuloso das regras gramaticais vigentes. Outros pensam que a escrita deve acompanhar de perto a evolução verbal. As novas expressões orais que se vão popularizando terão tanta legitimidade como as antigas. Considero que qualquer acordo deveria harmonizar as duas tendências.
Passemos à oportunidade. Pessoalmente, penso que era tempo de reformular a nossa ortografia. Julgo que este processo nasceu de forma errada. Teria sido mais fácil começar a revisão dentro de portas.
Antes de se chegar a um acordo internacional, o problema deveria ter sido discutido até se alcançar um consenso nacional. O latim está na origem da maioria dos nossos vocábulos, mas não gostaria que nos tentassem obrigar a todos a falar latim ou grego.
O Acordo espevitou os nacionalismos. Portugal é um Estado independente há quase novecentos anos e a língua faz parte da sua identidade nacional. No entanto, há muito que a partilhámos com outros. Tenho orgulho nisso.
 Há quem pense, de forma mais ou menos consciente: “primeiro, tiraram-nos as colónias; agora, querem roubar-nos a língua!”
Ninguém nos rouba nada. A língua portuguesa é tanto deles como nossa.
Existe ainda quem considere que o Acordo Ortográfico é um instrumento da política geoestratégica do Brasil.  
Falemos agora dos custos de um voltar atrás que continuo a esperar que possa ser evitado. Existem factos consumados. A partir do ano letivo 2011-2012, as nossas crianças começaram a aprender a nova grafia. Se os pais e os avós quiserem ajudá-los nos trabalhos de Língua Portuguesa, terão de conhecer e respeitar o seu modo de escrever. Mudar as regras a meio da aprendizagem implicaria lançar a confusão numa geração inteira de miúdos.
O Acordo Ortográfico modificou a grafia de uma minoria de palavras (1,6% em Portugal e 0,5% no Brasil). Para os brasileiros, as diferenças maiores assentam no uso do hífen e na acentuação dos ditongos.
Para nós, a modificação mais importante reside no abandono das consoantes mudas. Aceito que tais consoantes que, segundo os puristas, diferenciam as palavras homófonas e respeitam a etimologia, são dispensáveis. Secundariamente, desaparece o hífen em algumas conjugações do verbo haver e modifica-se a acentuação de diversos vocábulos.
Um dos obstáculos à implementação de mudanças foi sempre a inércia. As pessoas têm receio do esforço necessário para modificar os comportamentos. Desta vez, a tecnologia favoreceu as alterações. Os corretores de texto adotam instantaneamente a grafia antiga à nova, simplificando o processo de transição.
Ainda bem que não escrevemos com carateres chineses… O caminho deles vai ser bem mais árduo que o nosso. No entanto, o processo de simplificação ortográfica do mandarim já começou. Nos teclados dos computadores chineses, o mesmo caráter assume vários significados, dependendo do contexto em que é inserido.
A meu ver, a revisão da ortografia da nossa língua poderia ter ido mais além. De que servem os “h” no início das palavras?
Julgo que, em Portugal, nunca se escreveu tanto, nem tão bem. Tal não admira, dada a elevada prevalência de analfabetismo no nosso país, no passado. Há, contudo, um fenómeno a que deverá dar mais atenção: a generalização do uso dos telemóveis conduziu já à criação de uma grafia própria e simplificada.



As comunicações entre os jovens fazem-se, sobretudo, por mensagens SMS (“Short Message Service” ou, em português “Serviço de Mensagens Curtas”. Atrevo-me a presumir que, hoje em dia, se escreve muito mais ao telemóvel do que ao computador ou à mão.
Entre os que os que comunicam dessa forma, o uso do “k” generalizou-se para substituir o “qu”, quando o “u” não se pronuncia, embora haja também quem use o “q” simples. Foi o que o “f” fez ao “ph”, cerca de um século atrás. Por outro lado, o “ch” é quase universalmente substituído pelo “x”. Mais tarde ou mais cedo, este fenómeno terá repercussão na escrita oficial. Os puristas da grafia que se cuidem…
Modernamente, existem mecanismos poderosos de regulação da linguagem que não precisam de ser acordados. De início, foram apenas os livros. Apareceu, depois, a rádio e, agora, é principalmente a televisão. Tanto o modo de falar dos locutores como a dicção dos personagens das telenovelas irão ter uma repercussão determinante. A pronúncia é também uma questão de moda.
Se o nosso governo pretender conservar no mundo lusófono o modo nacional de falar e escrever, não precisa de se preocupar demasiado com tratados internacionais. Deve criar prémios literários dirigidos aos escritores dos PALOP, investir em bolsas de estudos para os jovens jornalistas mais prometedores, e incentivar a produção conjunta de telenovelas, como se tem já feito com Angola.



terça-feira, 18 de abril de 2017


HITLER


Em miúdo, eu lia tudo o que apanhava pela frente. Li uma tradução da Mein Kampf aos catorze anos e não percebi nada. Chegado a velho, continuo sem entender boa parte do modo de pensar de Adolfo Hitler.
Em termos individuais, Hitler foi o principal responsável pelo apagamento relativo da Europa na cena mundial. Aceito que o declínio das velhas potências era inevitável. No entanto, a Alemanha acelerou esse processo. Já o fizera, entre 1914 e 1918. Não percebo as razões por que o Führer não propôs acordos de paz em meados de 1940, numa altura em que os objetivos fixados pela sua propaganda tinham sido largamente ultrapassados.
Curiosamente, algumas das grandes aspirações nazis foram concretizadas mesmo antes mesmo de começar o conflito. A Áustria foi anexada em 1938 e a ocupação dos Sudetas, um território checoslovaco com predomínio de população de origem alemã, foi reconhecida pelas potências europeias no tratado de Munique, em setembro do mesmo ano. Chego a imaginar que os alemães nem tinham necessidade de desencadear a segunda grande guerra. A França e a Inglaterra iam-se pondo cada vez mais a jeito.
Quem mais tem, mais quer. Os alemães sabiam-se fortes e estavam certos de poder vencer os franceses. Isso, eu ainda compreendo. Agora, a única explicação que me ocorre para a continuação da guerra para lá de maio de 1940 é a megalomania de Hitler e dos seus generais.
 Temeriam a reação posterior dos adversários. A Inglaterra e a Rússia tinham as forças intactas. No entanto, apesar da vastidão do seu território, a Rússia era um país pouco desenvolvido e não poderia competir com a pujança da indústria alemã. Quanto à Inglaterra, a verdade é que foi sempre uma ilha que se aliou sistematicamente ao segundo poder mais forte do continente europeu. Teria sido fácil aos alemães negociar com os anglo-saxões, em detrimento de franceses, belgas e portugueses. Falo destes países por também terem colónias. Quanto à Rússia, bastaria prolongar o pacto que chegou a riscar a Polónia do mapa.



Semanas após o desencadear do conflito, a França, o inimigo tradicional da Alemanha no continente europeu, estava vencida. A Dinamarca, a Noruega, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo tinham sido ocupados. Teria sido possível negociar em posição de força e obter concessões territoriais capazes de satisfazerem a gula germânica.
As colónias portuguesas, e até as suas ilhas atlânticas, seriam presas fáceis. Portugal não era capaz de as defender. Poderiam ser usadas como moedas de troca. O facto de o regime salazarista ser tido como germanófilo serviria de pouco, se a Alemanha ganhasse a II Grande Guerra. Quando da primeira, Portugal começara a lutar contra os alemães em África, dois anos antes da entrada oficial no conflito, que ocorreu apenas em 1916. Por essa altura, as tropas portuguesas haviam sido já batidas em Moçambique, enquanto a situação no sul de Angola, na fronteira com a Damaralândia, fora estabilizada pela intervenção das forças inglesas. Os interesses geoestratégicos da Alemanha não mudaram muito, de 1914 para 1939.
As duas grandes guerras mundiais ditaram o fim dos impérios. Na primeira, caíram os impérios turco e austro-húngaro. Na segunda, desmoronou-se o Império Britânico. A Europa perdeu peso no mundo. Saíram a ganhar os americanos e os russos, que se repartem por dois continentes. Todos os países exclusivamente europeus perderam, incluindo os que alinharam oficialmente do lado vencedor. O «velho continente» deixou de ser o centro económico e político do mundo.  
Tanto os inimigos como os aliados oficiais da França, Inglaterra, Holanda, Bélgica, Espanha e Portugal cobiçavam a liberdade de comércio nas colónias europeias da África, Ásia e Oceânia. No termo do conflito, a Alemanha, provavelmente a única potência europeia que hoje ainda acalenta sonhos de grandeza, foi arrasada. A Inglaterra e a França ficaram reduzidas, de forma provavelmente definitiva, a estatutos de potências medianas. O Reino Unido, como era quem mais tinha, foi quem mais perdeu. A França, a Holanda e a Bélgica desistiram das suas possessões ultramarinas. A Espanha seguiu-lhes o exemplo. 
Os portugueses aguentaram-se mais tempo, sem honra nem glória.  Foram os primeiros a entrar em África, depois dos romanos, e os últimos a sair. Portugal resistiu até que o cansaço dos oficiais mais jovens levou ao golpe militar de 25 de abril de 1974.
Em termos gerais, o espaço deixado vago pela Europa foi rapidamente preenchido. A Rússia construiu o seu próprio império, que iria cair em poucas décadas. Os Estados Unidos da América prescindiram da questão das soberanias. Dominam atualmente o mundo, controlando as economias. Veem, porém, despertar no oriente o gigante chinês, mais tradicional do que a América no que concerne ao exercício de formas de poder.
É fácil conjeturar, embora sirva de pouco. Que seria da Europa e do Mundo se Adolfo Hitler tivesse sido capaz de negociar a paz no termo do primeiro ano de guerra? 


segunda-feira, 17 de abril de 2017



OS MONSTROS DE BOSH


Já falei aqui de Jerónimo Bosh. O pintor flamengo fascina-me. Quando, há coisa de um ano, fui ao Museu do Prado ver a exposição que lhe era dedicada, trouxe de lá um livro com imagens muito belas. Irei hoje partilhar convosco umas tantas que ilustram monstros.



Não posso dizer que os monstros me encantem. A verdade é que os conheço mal.



Sei mais dos ogres dos contos angolanos que dos papões e tragos que assustavam os meninos europeus que não queriam comer a sopa ou eram malcriados para com as tias.



Seguramente ao longo de muitos séculos e, provavelmente, no decurso de milénios, os monstros foram vizinhos dos humanos.



O reino deles era o das trevas. Bastava que a luz das fogueiras esmorecesse para que se chegassem a nós. O escuro libertava das almas o pior da imaginação.



Os seres maléficos que partilhavam a noite com as feras chegavam ao alcance das vozes e (quem sabe?) das pontas dos dedos de um braço estendido.



Os homens fantasiavam depositar nos monstros a essência do mal. Talvez isso ajudasse a purificá-los.



Um preconceito antigo obrigava a que os bons fossem lindos e os maus feios. Os anjos apresentavam-se com as formas correspondentes aos ideais de beleza, enquanto os demónios eram atirados para a outra ponta da escala da estética. Ainda hoje, essa forma de olhar o bem e o mal é aparente nos filmes: os heróis e as heroínas são bonitos e os vilões, em geral, feios. Curiosamente, o diabo era frequentemente representado como um bode e eu sempre achei os bodes graciosos. 



      Nem sempre há consenso em matérias de gosto. Lembro-me do Pascoal, um cabo-verdiano que era tido como um futuro génio da Matemática, nos tempos da minha juventude, em Coimbra. Gostava de perguntar aos mais novos:
− Qual é que tu achas mais giro? Um cavalo, ou um gafanhoto?
Eram todos pelo cavalo, o que lhe permitia desenrolar a palestra preparada sobre as virtudes estéticas dos gafanhotos. Terá reunido poucos adeptos. Mais tarde, a vida não lhe proporcionou os sorrisos que a adolescência perspectivava.



Voltemos a Bosh e aos seus monstros. O mestre flamengo desenhou anjos e santos. Pintou até o que é, no meu modo de ver, o mais lindo rosto de Jesus Cristo. Para mim, a Virgem mais bela foi eternizada em mármore, por Miguel Ângelo, na Pietà. Bosh foi, contudo, bem melhor a criar símbolos do mal do que imagens piedosas. Concebeu figuras extraordinárias de monstros a partir dos pesadelos próprios e alheios e da tradição cultural medieva. Algumas das suas representações são magníficas.


  Os artistas procuravam que as suas obras promovessem o bem e transmitissem mensagens nesse sentido. Poderá ter sido essa, até certo ponto, a intenção de Bosh. 



    Terá desistido, a partir de certa altura. A tolice humana parecia invencível e os homens caminhavam alegremente para a perdição. Jerónimo Bosh terá passado a retratar os seus contemporâneos tais como os via, desistindo de dar conselhos ou de procurar melhorar as pessoas com a sua arte.

sexta-feira, 31 de março de 2017



E pronto... Acaba aqui a saga do Tamegão. Esperemos pelo livro impresso em papel. Foi um prazer acolher o Nunes Pinto neste espaço.

António Trabulo


CARLOS NUNES PINTO




REFLEXÃO

A cada ano de saudades correspondem dez anos civis. Posso dizer, com verdade, que já estou em Portugal há quatrocentos e tal anos.
A África não estava no beirado das casas. Estava nos pingos da chuva que escorregavam do capim das cubatas, fazendo buraquinhos em auréola, assinalando pequenos territórios.
Não estava nos coleguinhas da escola, de colarinhos feitos por medida.
Estava na nudez dos troncos de homens e mulheres, na liberdade de ser essência.
Não estava nas batas, nem nas meias altas.
Estava na sola rija dos pés que pisavam sem dar pelos espinhos do caminho.
Pele dura que gretava pelo quente do sol e pelo cieiro frio da noite.
Não estava nos animais guardados em jaulas de aço.
Estava no berro de liberdade dos que pastavam tranquilos na savana, à beira do rio.
Não estava nas luzes das cidades que nos negam o sono.
Estava na luz da lua que nos ensinava os caminhos.
Não estava na brancura da neve da serra nem na brisa gelada do Norte.
Estava no calor do sol que abrasava os nossos abraços.
Não está em mim, nem em ti. Está nesta saudade que o batuque vai reclamando.


                                          

quarta-feira, 29 de março de 2017




Aos leitores:

O "Tamegão" do meu amigo Carlos Nunes Pinto deveria acabar hoje. Ficou, contudo, de fora a Introdução do autor, que, quando o livro em breve for impresso, virá provavelmente a seguir ao prefácio. Sairá aqui, sexta-feira.

António Trabulo


CARLOS NUNES PINTO
TAMEGÃO

  NOTA DO AUTOR

Vila Arriaga era ali, onde o deserto esbarrava no paredão da Chela.
Era ali, onde as grandes chuvas enfeitavam com serpentinas de cascatas o alto da Serra, torrentes de água que vinham encher nossas mulolas.
Era ali onde as faíscas se juntavam umas às outras, acordando o dia do silêncio do escuro.
Era ali, onde os troncos grossos das Acácias se enfeitavam de rubras flores, suportando o marinhar das crianças de bata branca.
Era ali, onde as cigarras cantavam louvores ao calor que o vento Leste trazia.
Era ali, onde uma ala de laranjeiras enfeitava a rua que parecia única, porque alguém se esquecia do outro lado da linha.
Era ali, onde as quitandeiras de panos garridos vendiam mangas de serra-abaixo na paragem do comboio.
Era ali, onde a chuva aumentava de repente, o tamanho da massaroca verde. Onde o tum-tum do pilão transformava em pó o sabor do milho maduro.
Era ali, onde os bailes do clube eram abrilhantados pelo gramofone de agulhas substituíveis. Bailes que acabavam com o partir da corda ou com a saída da D. Deolinda que arrastava para casa todas as miúdas. Soneira da velha ainda antes das promessas de amor que os jovens teriam gostado de fazer.
Era ali, onde na serra do mirante as crianças da escola brincavam sem incomodar os macópios saltitantes.
Era ali, onde as mulembas e os nombeiros disputavam o repasto dos pombos-verdes.
Era ali e ali está. Onde a história tudo mudou, menos o deserto, a Chela, a chuva e a poeira que o vento Leste trazia.

Evocação:

Francisco Alves Primo
Zé da Glória
João dos Santos
Adolfo de Oliveira
Basílio Pombo da Fonseca
Velho Guardado
Velho Vilares
Velho Rodrigues
Velho Tibúrcio
Velho Tamegão
António Duarte
Ramos da Cruz
Rocha Pinto
João Morais dos Santos
Américo Batista
Lauro Gonçalves
Robalo Ramos
Freitas Pinto
Cardoso Dias
Manuel Tanoeiro
Oliveira Caluca
Eduardo Bastos
João Simões
Filipe Cebolo
Ângelo
Albino Medeiros
João Carapanta
Amaro Ferreira Simões
José Bendada
José Arrais
Manuel Sebastião
Ventura Sapateiro
Domingos Américo
Adão
Rodrigues
Monteiro da Pecuária
Aníbal Pereira da Silva
João da Peça
Custódio de Almeida
       Gil do Espírito Santo
       Quintino do Espírito Santo


Que partindo, um a um, se foram juntando na Nova Vila Arriaga, com apenas duas ruas com o comboio pelo meio, rolando devagarinho, sem apitar para não os acordar do sono eterno.




segunda-feira, 27 de março de 2017


CARLOS NUNES PINTO
TAMEGÃO


XXXIII

                                 Luana disse:

 “ Água faz bem no corpo todo, só nos olhos é que não.

Muito, muito mais tarde, voltei a encontrar Luana.
Eu já crescia em liberdade. Em Luana já começavam a aparecer as primeiras rugas.
− Luana, tu ainda és tão nova, para quê essas rugas nos teus olhos?
− Menino, não se lembra quando fomos já muito tempo na praia?
− Sim, lembro-me.
− Minhas mãos ficaram muito tempo na água e menino me avisou – Sai já da água, Luana, os teus dedos estão a ficar enrugados! Agora, meus olhos estão sempre na água que Tamegão me deixou. Mas vou-te contar uma coisa que Tamegão me pediu para guardar até hoje.
− O que foi, Luana? Diz depressa!
− Tamegão queria escrever mas não sabia, me disse de viva voz e pediu: nunca esquece isso que te vou dizer, o nosso menino vai ser um homem grande, mas tem que fazer o que Tamegão vai mandar, senão vai ficar igual qual os branco daqui:

                 Ouvi os sino tocar
                   Na torre da nossa capela
                   Não chamava por mim
                   Nem por outro qualquer
                   Só chamava teu nome

                   Pode ir
                   Corta teu peito
                   Põe na tua boca
                   Esse pão que eu te dá

                   Pisa com força teu chão
                   Vai no meio das água
                   Que eu separou
                   Com as minha mão.

                   Tua fé se descansa
                   Nos outro
                   Que abre os braço para ti.

                   Vai nascer uma flor
                   Outras se junta com outra
                   Vai ficar um jardim
                   Que tem rosa de muitas cor

                   As folha
                   Não precisa mais guardar os espinho
                   Que você tem que arrancar
                   No teu caminho.