DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 22 de janeiro de 2017

TAMEGÃO

                                   


Este blogue tem incluído ocasionalmente artigos de amigos e, até, um livro da minha neta Leonor. Chegou a vez do “Tamegão”, uma criação do Nunes Pinto, amigo de longa data.     
 Carlos Nunes Pinto nasceu na Bibala (Vila Arriaga), no sul de Angola. Naquele tempo, a vila estava infestada de paludismo. Se um miúdo, na casa de banho da escola, via sangue na urina, regressava a chorar. Fora marcado pela morte. Era a biliosa, uma complicação grave da malária.
As mães separavam-se dos filhos lactentes e enviavam-nos para Moçâmedes, onde tinham maiores probabilidades de sobreviver. Quando os pais do Carlos viram crescer os dois primeiros filhos, acharam que tinham a descendência assegurada e resolveram arriscar. Geraram outro par de rapazes e criaram-nos ali mesmo. Quem conhece o Carlos, vê que o fizeram bem.
Passavam-se poucas coisas naquela terra encalhada entre o deserto do Namibe e a Serra da Chela. O tempo sobrava. Escorria devagar. Para o entreter, inventavam-se histórias e lembravam-se lendas.
A oralidade dos contos africanos está bem presente nesta obra. O autor aprendeu-a nos serões da Bibala, no tempo em que as pessoas ainda se escutavam umas às outras. Não havia televisão, e os poucos aparelhos de rádio nem sempre funcionavam.
A História é cega. Impôs a sua força. Meio milhão de portugueses deixou África. A grande maioria instalou-se em Portugal. Muitos nunca tinham estado cá. Eram filhos, ou netos de emigrantes. Deixaram quase tudo o que tinham. Trouxeram o saber fazer.
Essa capacidade técnica, em áreas diversas, facilitou a integração e empurrou o País para um salto em frente. Com a descolonização, Portugal ficou mais rico e as antigas colónias mais pobres.
O autor mergulha nas recordações da infância, modifica-as e recreia-se. Procura sistematicamente cruzar dois saberes, o dos brancos e o dos negros. Integrados, poderiam fazer uma Angola melhor. Não aconteceu assim.
Atribuir culpas é tão inútil como julgar a História. Os contos do Tamegão são histórias de amor e de perda. Representam uma tentativa pessoal de reconciliação com o passado. Espero que vos encantem tanto quanto me encantaram.



Dito do Tamegão:


“Verdade às vezes não é verdade, só é verdade aquilo que não é mentira “

I

Quando aquilo que vou contar ocorreu, devia ter eu os meus doze anitos, porque me lembro de ter sido nessa altura que aprendi, em ciências, o ciclo da água.
Sempre ouvi dizer, em Vila Arriaga, que certo dia, quando as chuvas grandes duraram sete dias e sete noites, caíram peixes do céu. Os velhotes diziam que tinha chovido peixes.
Achei que era impossível. Lá chover peixes eu ainda engolia, mas a minha tenra idade não permitia que fosse mais além. Rematei apenas para mim: isto são coisas que a ciência faz para quebrar o encantamento das lendas…
Como se tinha quebrado para mim aquela verdade, repetida durante anos, e como não queria aceitá-la tão facilmente, decidi perguntar-lhe:
− Tamegão, tu te lembras do dia que choveu peixe?
− É verdade, até os filhos dos negros comeu. Caiu tanto peixe lá de cima que ficou todo espalhado na rua (nunca utilizava a palavra Céu, não sei se por ignorância, se por se sentir acima dele – substituía-a por “cima”).
− Menino, choveu tanto, tanto, que rio Giraul engoliu o comboio. O comboio nunca mais passou, não passou muitos meses. Só passava ali − e apontava com o sexto dedo para um lugar onde nem havia via-férrea.
Chamei a sua atenção para isso.
− Se eu viu o fumo como é que não tem linha?!
Nem retorqui, porque me apercebi que o seu tom de voz se tinha alterado.
− Se o menino não acredita, não precisa falar mais.
Fiquei quase sem sangue porque, confesso, também tinha medo do Tamegão.
Tamegão, segundo se dizia, era feiticeiro e virava matchituca em certa fase da lua, não sei se na nova se na cheia.
Teria nascido há mais de noventa anos, não se sabe onde, porque era conhecido que o preto só pinta quanto tem três vezes trinta.
Nasceu com um defeito na mão direita – tinha seis dedos.
Era esse sexto dedo que ficava coberto de pelos na tal fase da lua; não sei que nome teria esse dedo, não era polegar nem indicador. Parece-me que naquele tempo ainda não se dava nome a isso.
Por culpa desse facto, ou talvez pelo aproveitamento que o Tamegão fazia dele, o velho vivia isolado, numa casa de pau-a-pique com três grandes mangueiras nas traseiras (se é que as casas dos negros têm traseiras).
Só a mais de um quilómetro começavam a espalhar-se as cubatas dos outros, porque todos tinham medo do Tamegão.
Não era para menos, porque a morte de algum negro de idade avançada era sempre atribuída aos feitiços e quimbandices do Tamegão. Já o mesmo não se passava com a dos jovens e crianças.
Contava-se que Tamegão sabia ler, porque estava muitas vezes sentado no tronco de uma árvore, de livro na mão.
Julgo que fazia isto para se mostrar superior aos olhos dos outros.
Tanto se falou disso que o Administrador, que já começava a acreditar, mandou que um sipaio o fosse buscar, porque, entretanto, tinha eclodido o terrorismo e era incómodo ter gente letrada na zona.
− É verdade que tu sabes ler?
A vaidade foi mais forte e respondeu que sim.
− Então lê isto! Atirou-lhe um edital para as mãos.
− Esse papel eu não sei, só os livros que o Padre Carlos me mandou eu sei.
− Então onde é que aprendeste a ler esses livros?
− Naquele buraco da Serra, onde tem aquela cobra que fala.
Já sem paciência nenhuma, o Administrador mandou-o em liberdade.
Dizia-se que se alimentava apenas das mangas das suas mangueiras, que começavam a amarelecer em Dezembro. Ficava, no entanto, a dúvida: sobravam muitos meses, mesmo muitos, depois da época das mangas.
Perguntei-lhe se era verdade.
Respondeu-me:
− Ninguém acredita, menino, porque mais ninguém sabe guardar mangas como eu.
Fingi que acreditava, porque os meus verdes anos me levaram a pensar que lá teria o seu processo de conservação. Fosse qual fosse, também não me interessava.
Era talvez mais evoluído do que os brancos que salgavam o peixe e a carne de porco, (tudo isto, é claro, antes do aparecimento das geleiras a petróleo, de torcidas fumarentas e mal cheirosas).
Menos acreditei ainda quando vi ali perto um galo preto e luzidio picando a areia do chão.
− Pelo menos galo tu comes?
− Não, menino, esse galo não tem carne dentro, tem o espírito de um velho que morreu cansado.
Não tinha o direito de duvidar, nem tão pouco o de acreditar.
A tarde tinha passado depressa, ou a noite chegado cedo. Despedi-me, talvez agradecendo.
Quando já me distanciava uns dez metros, ouvi, atrás de mim, um grande vozeirão.

− Há mais – Os meus pés, ainda pequenos, pisaram gelados a terra africana. Na tua escola, cinco e cinco são dez, na minha mão são onze!  


sábado, 21 de janeiro de 2017


    MENÇÃO HONROSA NUM CONCURSO ARGENTINO



   O diploma chegou maltratado, com sinais de sevícias. Vem amarrotado, sofreu o arrancamento de um canto e tem aspeto de ter sido molhado - talvez fosse a água das cataratas. Representa, ainda assim, a minha segunda (ainda que pequena) distinção internacional.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017


EU E A PESCA

II

Quando voltei do mar, instalei-me em Setúbal. A dada altura, lembrei-me de comprar uma cana pequena e de ir pescar no Rio Sado. Levei comigo a minha filha Marisa, que teria, na altura, uns sete anos. Escolhemos tentar a sorte na muralha, a montante do Clube Naval, onde já se encontrava um pescador.
Abri a embalagem e pus-me a montar o carreto na cana. Era coisa que nunca tinha feito, o que justificava alguma atrapalhação. A minha filha meteu-se com o vizinho.
−Tu não pescas nada. Vais ver o meu pai, daqui a bocado…
O homem procurou ignorar as provocações. A dada altura, sentiu picar e retirou a linha para ver se ainda tinha isco. A Marisa gritou:
− Olha! Pescaste uma minhoca!
Aquilo foi demasiado para o moral do meu vizinho pescador. Recolheu o material e afastou-se. Terá ido procurar um sítio mais sossegado.
A Marisa era uma menina precoce. Ao chegar a casa, fez uma redação. Dizia, mais ou menos isto:
“Fui com o meu pai à pesca, mas só pescámos peixes charrocos. No fim, o meu pai atirou os peixes para o rio e voltámos para casa.”
Os “charrocos” eram cabozes.


A partir de dada altura da minha vida, tive sempre barcos. Entretinha-me a pescar na Baía de Setúbal. Raramente apanhava peixe que se visse, mas importava-me pouco com isso. Não me levantava de madrugada e nunca pescava no inverno. Ia para onde me apetecia. Na maioria das vezes, os peixes escolhiam lugares diferentes dos meus. Ainda por cima, uma boa parte da minha atividade predatória desenrolou-se a bordo de embarcações à vela, mais obedientes aos horários do vento que aos do peixe. A quilha era outro obstáculo de peso. Para chegar aos pesqueiros mais frequentados em Setúbal, teria de fazer um grande desvio, para evitar os bancos de areia frente à Troia.
Durante anos a fio, tive o Gisa fundeado em Albarquel, antes das obras que levaram para lá areia, um restaurante e turistas. O Gisa era um veleiro de 6,7 metros, construído em Portugal e fácil de manobrar por um homem só. Deixava um “coco” de fibra de vidro amarrado na praia, para o transbordo. Às quartas-feiras, saía mais cedo do trabalho e, entre abril e setembro, passava no barco duas horas, ao fim da tarde, a fingir que pescava. Ao menos, descontraía-me.
Foi numa dessas tardes que sofri a maior humilhação da minha vida de pescador. Havia ali muito peixe pequeno que picava constantemente. Apesar de usar anzóis diminutos, a maior parte das vezes levavam-me o isco sem se deixarem fisgar. Por essa razão, pescava com duas canas, para ter uma linha no fundo, enquanto punha casulo ou minhoca no anzol da outra.

Estava entretido nessa tarefa quando vi a cana deslizar e mergulhar na água. Um pampo levou-ma. Acho que ainda o ouvi rir-se lá no fundo. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017


EU E A PESCA

I

O meu neto Vasco pediu-me que o levasse a pescar. A ideia não pode ter nascido na cabeça dele. Tem cinco anos e só viu peixes vivos no Aquário Vasco da Gama. Foi a minha filha mais velha que inventou mais uma maneira de o aproximar do avô.
A pequena conversa serviu para me avivar a memória. Durante boa parte da minha vida, fui pescador, ou fingi sê-lo. Pesquei os primeiros peixes no Rio Cunene, na parte de cima das cataratas do Ruacaná. 


Ia nos catorze anos e viajara, numa excursão da Mocidade Portuguesa, até perto da fronteira de Angola com o Sudoeste Africano (atual Namíbia). Alguém levara linha e anzóis. Não me lembro quem foi, mas estou certo de não ter sido eu. Os peixes desconheciam essas modernices e deixaram-se apanhar.
Fiquei a pensar que aquilo era fácil.
No regresso ao Lubango, onde morava, tentei fisgar o Senhor Messias. Era um bagre grande que morava no poço do quintal da minha amiga e vizinha Fernanda. 


Aquilo era praticamente um aquário e o peixe era de estimação. Velho e astuto, mostrou-se indiferente aos variados petiscos que eu lhe fui propondo no anzol. Passaram sessenta anos. Que são sessenta anos? Se calhar, o Senhor Messias ainda lá nada.
A vida puxou-me para fora do Lubango e, a dada altura, levou-me para o norte do Oceano Atlântico. Ocasionalmente, o Gil Eannes fundeava em locais onde havia peixe. Eu e o meu colega Barros Pereira tínhamos muito tempo livre e entretínhamo-nos a pescar. Eram quase sempre solhas, que o cozinheiro aproveitava para variar a ementa.
No total das duas campanhas, passei três meses em navios de pesca à linha, com dóris. De vez em quando, as embarcações calhavam em fundos onde o bacalhau abundava. Certo dia, na costa da Gronelândia, perto do Círculo Polar Ártico, apanhei mais de cento e cinquenta quilos de bacalhau. Metade dos pescadores do Neptuno capturaram menos do que eu. Fiquei com as mãos gretadas pelo fio de nylon da azagaia, mas a fossanguice impedia-me de parar. 


     Mais tarde, e durante anos a fio, dediquei-me à pesca na Baía de Setúbal. Falarei disso noutra ocasião.


quarta-feira, 9 de novembro de 2016




ACABOU O FOLCLORE

Chegou ao fim o espetáculo mediático mais impressionante do começo deste século. Terminado o show, virá ao de cimo a realpolitik e irão preponderar os interesses permanentes do Estado Americano.
Surpreendentemente (ou não) o discurso de vitória de Donald Trump foi de apaziguamento e de apelo à unidade da nação. Trump prometeu ser o presidente de todos os americanos, independentemente da raça, religião ou proveniência de cada um. São afirmações comuns nos discursos de vitória um pouco em toda a parte, mas poderão revestir-se, neste caso concreto, de um significado especial.
De nada serve especular sobre se aconteceu a vitória de Donald Trump ou a derrota de Hilary Clinton. Hilary também não é flor que se cheire. Se concorresse contra o mesmo adversário, ganharia (provavelmente) por larga margem na Inglaterra, na França, na Grécia, em Portugal e na Espanha. Lá mais para o centro da Europa, já tenho as minhas dúvidas. Julgo que foi Trump que ganhou. Um número significativo de compatriotas seus considera-o um exemplo vivo do sonho americano.
Vamos a ver se o obamacare (ou a pequena porção dele que saiu do papel) vai ser desmantelado e se o apregoado muro na fronteira com o México se tornará realidade. Os americanos não têm um Mar Mediterrânico, mas têm o golfo do México e as águas costeiras da Califórnia. Se têm sido pouco utilizados pelos emigrantes ilegais é porque é relativamente fácil de transpor a fronteira de milhares de quilómetros que se estende do Oceano Atlântico ao Pacífico e separa o sul dos E.U.A. do norte do México. A ser construído o muro, será de prever que a indústria mexicana do século venha a ser o fabrico de escavadoras. A fronteira irá parecer-se com um vasto campo de toupeiras com um muro inútil em cima. Os mexicanos não pagarão a construção da barreira, mas irão contribuir alegremente para a escavação de túneis.
No rescaldo das eleições presidenciais americanas fica, sobretudo, uma nota triste. A falta de respeito com que os dois candidatos se trataram um ao outro não prestou um bom serviço à Democracia.




terça-feira, 1 de novembro de 2016



“RESGATE”


Acompanho, como quase toda a gente, a tragédia da emigração trans-mediterrânica.
De forma crescente, embora com flutuações sazonais, um número apreciável de habitantes da metade norte da África Ocidental e de vários países asiáticos mais ou menos vizinhos do “Mare nostrum” dos romanos tem-se esforçado por alcançar a Europa.
Uns fogem à guerra e outros pretendem simplesmente aceder a uma qualidade de vida que, nos seus países de origem, está apenas ao alcance de poucos. Homens, mulheres e crianças sobrelotam embarcações ligeiras e arriscam-se a uma travessia que custa a vida a muitos. Ao contrário do que alguns pensavam, o Mediterrâneo está longe de ser um mar pacífico.
O recente fenómeno da emigração não se limita à Europa. Muitos mexicanos pobres tentam “dar o salto” para os Estados Unidos da América onde, alegadamente, competem com os locais na procura de postos de trabalho, contribuindo tendencialmente para a baixa dos salários e engrossando a voz dos políticos populistas.
Na parte que nos toca, o problema da emigração é reconhecidamente complexo. Não vou falar agora do badalado risco de islamização da velha Europa, nem da facilidade acrescida de entrada de terroristas, impossíveis de distinguir no meio de uma multidão de refugiados. Tão pouco irei referir o efeito provável de compensação das baixas taxas de natalidade dos países europeus, nem o eventual contributo positivo que poderão dar à sustentabilidade dos nossos regimes de segurança social. Pelo menos desta vez, irei focar a atenção na questão das travessias.
Compreendo as reservas de muitos e também alimento as minhas. Será preciso equilibrar a solidariedade com o realismo.
Aceito que cada país tenha o direito de decidir quantos emigrantes africanos ou asiáticos pretende acolher dentro das suas fronteiras e a que ritmo. No entanto, há realidades que não se podem esconder. Que fazer aos refugiados que já se encontram nos campos de acolhimento (ia dizer de concentração) da Itália, da Grécia e da Turquia? Como evitar que se batam continuamente recordes de morte nas travessias?
Em geral, a solução de problemas de certa dimensão passa por lhes conhecer as causas e procurar modificá-las.
Na origem de parte dos surtos de emigração estão os conflitos armados. Será bom lembrar que muitos foram desencadeados ou prolongados pela intervenção militar americana em países do Médio Oriente. Os estrategas do Pentágono parecem entender mal as mentalidades árabes e os equilíbrios mais ou menos estranhos que se vão gerando na região. Tentar instituir democracias em países dominados durante décadas por figuras como as de Saddam Hussein ou Muammar Gaddafi foi um processo que deu maus resultados.   
A guerra civil na Síria nasceu em circunstâncias diferentes, sendo, contudo, bom não esquecer que o “Estado Islâmico” representa um efeito colateral da política americana no Médio Oriente.
Os problemas gerados pelas guerras só se podem resolver estabelecendo a paz. As guerras, umas vezes ganham-se e outras perdem-se. Quando tarda em acontecer uma coisa ou outra, será bom limitar as ingerências externas e negociar.
A pobreza de boa parte do continente africano não é de hoje. Durante muitos anos, o colonialismo serviu de desculpa para o atraso civilizacional. Ora, o colonialismo foi banido há décadas e o desenvolvimento tarda. A questão tende a agravar-se, com as modificações climáticas atribuídas ao efeito de estufa e ao aquecimento global. Ao que parece, o deserto está a expandir-se no norte do continente africano.
Enquanto não se consegue agir eficazmente sobre as causas do problema, haverá que limitar-lhe as consequências. O desaparecimento de estados fortes no Iraque, na Líbia e na Síria criou uma dificuldade nova: a falta de interlocutores com quem discutir a questão de emigração de modo a encontrar colaboração por parte do poder político locar. Seria necessário negociar compensações e procurar fomentar o controlo das águas territoriais pelas forças navais de cada nação. Outro sistema de compensação permitiria provavelmente que os emigrantes indesejados fossem aceites de volta pelos seus países de origem.
Alguns países sem fronteiras marítimas mediterrânicas chegaram à conclusão que o problema era de quem as tinha e levantaram muros ou barreiras para impedir ou dificultar a entrada de emigrantes nos seus territórios. Esse tipo de ideias tem-se mostrado popular. A xenofobia, o racismo e o ódio ao Islão encontram cada vez mais intérpretes de sucesso nas políticas nacionais europeias.
A União Europeia tem estado particularmente atenta a este problema e criou diversas organizações para tentar controlar o fluxo migratório e as suas consequências. A Frontex (Agência Europeia de Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas dos Estados-Membros da União Europeia) foi criada em 2004 e aperfeiçoada sucessivamente nos anos seguintes.
Em 2013, foi estabelecido o sistema Europeu de Vigilância das Fronteiras (Eurosur). Promove a troca de informações entre os Estados Membros e a Frontex, procurando detetar, prevenir e combater a imigração ilegal e a criminalidade transfronteiriça. A Eurosur tem sede em Varsóvia. Trabalhando fora das vistas do público, existem ainda a Organização Internacional da Migrações (IOM) e o Centro Internacional para as Políticas de Migração e Desenvolvimento (ICMPD)
O Eurosur está em fase de implementação. Foi pensado para lutar contra a emigração ilegal. Secundariamente, destina-se a combater a criminalidade transfronteiriça e a evitar a perda de vidas de migrantes no mar.
Assenta na vigilância do Mediterrâneo, com recurso a meios tecnológicos sofisticados que incluem satélites e drones com câmaras de vigilância. O seu campo primordial de ação é o Mediterrâneo, embora se estenda até às Ilhas Canárias e ao Mar Negro e esteja previsto alargar-se a todas as regiões marítimas europeias. A informação recolhida é transmitida a helicópteros e navios de guerra que tentam intercetar as embarcações que transportam emigrantes.
Têm estado envolvidos neste processo navios da nossa Armada.

Algumas destas questões são sensíveis e as autoridades procuram furtar-se à crítica das organizações humanitárias. É por isso que se fala diariamente nas televisões em “resgatar” emigrantes do mar. Resgatar é salvar ou libertar. Podem chamar-lhe apanhar, deter, capturar, caçar. Será eventualmente legítimo fazê-lo, embora as televisões nos tenham proporcionado imagens em que a tragédia resulta diretamente do pânico gerado entre os migrantes pela interceção por parte dos navios de guerra. A palavra “resgate” em situações destas tem uma conotação claramente hipócrita.

Fotografia: retirada da Internet.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016


O PRÉMIO NOBEL DE BOB DYLAN


    Tem sido muito discutida muito a atribuição do Prémio Nobel de Literatura ao cançonetista americano Bob Dylan. Curiosamente, lembro-me de ter lido, uns trinta anos atrás, que Dylan era um dos maiores poetas americanos de todos os tempos. Na altura, considerei tal afirmação um exagero.
    O meu conhecimento da língua inglesa está bem longe da perfeição, mas basta para perceber que Bob Dylan é realmente um poeta. Daí a compará-lo a Herberto Hélder ou a Eugénio de Andrade, para citar apenas exemplos portugueses recentes, vai, no meu entender, uma longa distância.
    A questão tem sido profusamente badalada nos jornais e nas publicações na Internet. Lê-se um pouco de tudo. Vai-se desde a indignação dos que choram e se revoltam por ter sido banalizado o Prémio Nobel da Literatura (que, do da Paz, já nem se fala…) até à jactância dos que afirmam que Dylan é maior que o Nobel e que quem ficou engrandecido com  a atribuição do prémio foi a fundação sueca e não o cantor.
    Após alguma reflexão, cheguei a conclusões que me servem e tranquilizam. A canção ligeira (não sei que outro nome lhe hei de dar) tem uma difusão extraordinária no mundo moderno, ultrapassando com facilidade as fronteiras geográficas e linguísticas. Julgo que Bob Dylan é mais conhecido no Universo do que qualquer dos anteriores laureados com o Prémio Nobel da Literatura. Não conheço os números, mas  trevo-me a imaginar que a soma das vendas dos seus discos ultrapassou o total dos livros publicados pelos vencedores do Nobel de Literatura nos últimos cem anos. Bem sei que quantidade não é qualidade e que esta nem sempre se transforma naquela, ao contrário do que afirma uma das leis da dialética. No entanto, a quantidade importa. Bob Dylan influenciou (a meu ver, de forma positiva) centenas de milhões de pessoas por esse mundo fora.
    Os puristas da Literatura e, em especial, da Poesia, têm direito à indignação, tal como o têm à indiferença ou ao aplauso.
    A Fundação Nobel, invocando argumentos diversos, prestou um serviço inestimável à canção mundial, ao “nobelizar” (ou “nobilitar”) uma forma de arte geralmente considerada menor.
    Estou em crer que, daqui em diante, as letras das canções tenderão a melhorar. Todos conhecemos músicas belíssimas que gostaríamos de ouvir cantar em japonês ou coreano, para que pudéssemos desconhecer a indigência da linguagem. Haverá cada vez mais poetas a descerem (ou a subirem…) a escada que leva à condição de letrista.
    Parabéns a Bob Dylan, que encantou a minha geração com as suas cantigas de intervenção. Parabéns também à fundação Nobel!

    O facto de os cumprimentar não me faz esquecer que Herberto Helder – e provavelmente vários outros poetas mundiais – jogam noutra divisão a que raros (se alguns) escritores de canções terão acesso.