DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012


            CRÓNICAS DE ANGOLA

                            PROVÉRBIOS

          Quem segue os meus blogues, verificou o abrandamento das publicações no decurso dos últimos meses. Em mim, pelo menos até agora, isto não é sinal de preguiça nem de cansaço. Significa apenas que estou empenhado na escrita de romances.  Como o FÁTIMA entrou em fase de revisão, volto ao decaedela e ao historinhasdamedicina.
      A minha amiga Licita esteve cá. Veio de França, onde foi passar o Natal com a filha, que está a fazer um estágio profissional. Aproveitei para lhe pedir para desvendar uns hieróglifos que tinha registado, em Luanda, no meu caderno de apontamentos. É que ela tem o sorriso bem mais transparente do que a escrita… E ainda há para aí mal-intencionados que falam da letra dos médicos…


       Será útil uma explicação prévia. Ao nascer e ao pôr-do-sol, os pumumus (perus do mato, bucorvus cafer) emitem cantos que parecem  lamúrias. Machos e fêmeas entendem-se em sons diferentes. Para os povos do Sul de Angola, o pumumu é o pássaro da tristeza e da preguiça.
        Vejamos o escreveu a Licita. O Pumumu não se estava a dar bem com a mulher. Chorosa, ela queria voltar para casa da mãe. Disse:
          − Nguenda cu mai!
             Nguenda cu mai!
        O macho respondeu:
           − Ukande, ombera ieia tu rima…
        Espero, desta vez, ter entendido a letra. Não sei umbundo. Perdoem-me as possíveis falhas. Isto dá, em português:

        − Vou para a minha mãe!
           Vou para casa da minha mãe!
        − Não vás. A chuva chegou, vamos lavrar.

       Não resisto a juntar a este dito um provérbio recolhido pelo padre Carlos Estermann e transcrito na sua obra sobre Etnografia de Angola. É comum aos Nhanecas, Humbis e Kipungos.

          Katuliheke omalunda,
          No m´ovipembe palimwa.
          Katuliheke ovakwendye,
          No p`omombwale palalwa.

          A tradução é mais ou menos esta:

          Não nos seduzem as terras gordas,
          Pois nas magras também se cultivam.
          Não nos seduzem os rapazes,
          Pois ao pé dos velhos também se dorme.

       Como já vou adiantado em anos, o provérbio agrada-me…

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011


                                             ÁFRICA A PÉ

                SERPA PINTO


Alexandre de Serpa Pinto foi um dos últimos heróis portugueses do século XIX. Como Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, colaborou nos tardios esforços desenvolvidos pelo governo português para reconhecer e cartografar o interior do sul do continente africano, tentando preparar a «ocupação efectiva» dos territórios, no âmbito do projecto de reclamar para Portugal as vastas regiões situadas entre Angola e Moçambique, no sonho do chamado «mapa cor-de-rosa», megalómano pela desproporção entre as ambições nacionais e os meios disponíveis para as concretizar.
Nasceu em Tendais (Cinfães) na primavera de 1846 e viria a morrer nos últimos dias do século.
Fidalgo, filho de um médico miguelista, herdou o nome do avô, um conhecido político liberal. Estudou no Colégio Militar e, em 1969, com 23 anos, integrou uma coluna irregular que viajou até à África Oriental para combater na região do rio Zambeze, os rebeldes do Bonga.


Oito anos volvidos, acompanhou a fase inicial da expedição conjunta com Capelo e Ivens, projectada para estudar as relações hidrográficas entre as bacias dos rios Zaire e Zambeze, as terras do Iácca, situadas entre Angola e Moçambique. De feitio voluntarioso, desentendeu-se com os seus companheiros e tomou a iniciativa de romper com o plano inicial. Passou o Zambeze, saiu das fronteiras actuais de Angola, percorreu regiões da Zâmbia, Zimbabwe e África do Sul, até atingir Durban, em 1879. Relatou a sua travessia no livro «Como eu atravessei África».


Foi nomeado governador-geral de Moçambique e procurou alargar a área efectiva de implantação da soberania portuguesa. A sua atitude quixotesca de mandar arriar as bandeiras inglesas num espaço disputado entre as duas soberanias, perto do Lago Niassa, teve um eco profundo e duradouro no imaginário português abalado pelo ultimato britânico de 1890. Por essa altura, Serpa Pinto seria a personagem mais popular de todo o Portugal.
Três vezes deputado pelo Partido Regenerador, foi ainda cônsul-geral para o Zanzibar e governador-geral de Cabo Verde. O seu nome foi dado à vila de Menongue, término do caminho-de-ferro do Namibe, no sudeste de Angola, durante o período colonial. 

Fontes: 
De Angola à Contra-costa, Capello e Ivens,  Imprensa Nacional, Lisboa, 1886.
Internet
Fotografias e gravura: Internet

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011


ÁFRICA A PÉ:
   
CAPELO E IVENS EM MOÇÂMEDES


Viajando a pé desde Porto Pinda, depois de terem sido abandonados pelos carregadores da expedição, receosos dos perigos que espreitavam nas margens do Coroca, e fatigados pelas 54 milhas percorridas, Hermenegildo Capello e Roberto Ivens foram calorosamente recebidos pelo governador de Moçâmedes. Seria daqui que partiriam para a travessia de África. Ouçamos os exploradores falar da cidade:

Em 1840 decidiu-se construir o forte de Ponta Negra, assim como se assentaram os fundamentos de uma vila, estabelecendo-se aí uma feitoria dirigida por dois negociantes, Jacomo Filipe Torres e Joaquim Guimarães, e pouco depois foi esta terra colonizada por gente vinda da Madeira e do Brasil, que a 4 de Agosto do ano de 1845 nela se instalou definitivamente.


Daí para cá, Mossâmedes tem progredido por maneira que é hoje um dos lugares mais pitorescos e importantes da costa do oeste.


O seu clima é suave e temperado; as brisas que a refrigeram, devidas à influência da corrente oceânica que, vinda do cabo da Boa Esperança, paralelamente à costa sob elas passa; as viçosas hortas que a circundam, contrastando com a aspereza das encostas e planícies em redor, atraem ali quantos indivíduos pretendem restabelecer a saúde deteriorada pelos calores do norte, e mostra bem quanto tem podido a vontade desse punhado de homens que, ao entrarem em tal terreno, o encontraram quase deserto e percorrido de quando em quando por salteadores.


Aclimam-se todos os vegetais da Europa, como hoje é sabido, e desde a oliveira até à videira tudo ali progride.


Raras são as febres de grave caráter, apenas as intermitentes, quando inunda o Bero, atacam a um ou a outro, e ainda as cefalalgias e as conjuntivites são frequentes, como as oftalmias, derivadas do reverbero da luz nas areias. 


Referências:
De Angola à Contra-Costa. H. Capello e R. Ivens. Imprensa Nacional, Lisboa, 1886.
Fotos: Cunha Moraes, cerca de 1890.

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011


                     ÁFRICA A PÉ
            
                             FALSA LARGADA

Era preciso desenhar um atlas geral das colónias portuguesas. Manuel Pinheiro Chagas, ministro da Marinha e do Ultramar, criou em 1883 uma Comissão de Cartografia, para a qual nomeou como vogais os conhecidos exploradores Hermenegildo Capello e Roberto Ivens. Pouco depois, pretendendo criar uma rota comercial por terra entre Angola e Moçambique, encarregou esses dois oficiais da Armada de efetuarem, no terreno, os reconhecimentos necessários.
A razão da escolha era lógica: os oficiais de marinha estavam familiarizados com as técnicas de orientação marítima, parte das quais se adaptava à terra firme, e ambos tinham viajado pelo interior de África. Isto foi antes do G.P.S...
Capello e Ivens optaram começar a viagem em Pinda, junto a Porto Alexandre. Era um dos últimos locais povoados do sul da costa angolana. Entre outras razões para a escolha, contou a curiosidade de reconhecer o curso do rio Coroca e de saber se ele tinha alguma relação com o grande Cunene.
Sobre Porto do Pinda, ouçamos o relato de António Norberto Kudzki, datado de 1855:

A baía ocupa o espaço de nove léguas, sendo fechada, do lado do norte, pela ponta do Cabo Negro e do lado sul, pelas areias que cercam a pequena enseada denominada Porto Alexandre. Do mar, o aspeto do território é árido; nem uma árvore, nem um sinal de vegetação se oferece à vista; apenas uma cordilheira de rochedos do Cabo Negro se estende para sueste; só as dunas de areia se divisam, e algumas lagoas na foz do rio Coroca, formadas pelas enchentes do mesmo e pelo mar. 


Todo o território em geral e mais de três léguas do mar para o interior, são areias finas, soltas e movediças formando dunas, montes, vales de diferentes aspetos que os violentíssimos ventos do sudoeste continuamente removem, dando-lhes a aparência de incessante ondulação.


Capello e Ivens partiram, deserto fora, em direção à fazenda de S. Bento do Sul onde chegaram, fatigados, depois de caminharem durante 17 horas pelo leito do Coroca, onde não se via gota de água.
Pediram ao soba local que lhes cedesse carregadores para transportarem alimento até ao Cunene. O soba recusou. Não sabia de ninguém que tivesse chegado lá e voltasse. Iriam todos morrer.


Mesmo sem os reforços pretendidos, Capello e Ivens seguiram rio acima.
No dia seguinte, os carregadores fugiram, depois de saquearem a bagagem que transportavam. Os exploradores percorreram em 25 horas as 54 milhas que iam do último acampamento até Moçâmedes, onde foram hospitaleiramente acolhidos pelo governador.
No dia seguinte, apareceu o primeiro grupo de fugitivos. Naquelas paragens inóspitas, não havia muito para onde ir. Os oficiais da Armada acabaram por recuperar metade dos carregadores da expedição.
Regressaram a S. Bento e seguiram o curso do Coroca durante seis dias. Trata-se de um rio torrencial, que só existe de facto quando chove nas vertentes da serra da Chela. Não podia ter ligação com o Cunene, que fica mais para sul.
A exploração foi interrompida por uma cheia repentina do rio. Lá voltaram a S. Bento e depois a Moçâmedes. Reuniram os elementos dispersos da expedição e prepararam nova partida.


Referências:
De Angola à Conta-Costa, de Capello e Ivens.
Annaes do Conselho Ultramarino: baía e Porto de Pinda, Mossãmedes, por Marcelino Kudzki. Retirado do blogue Mossâmedes do antigamente.
Fotografias: 
Blogue Mossâmedes do antigamente
  

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011


 LUANDA EM 1884

Vista por Hermenegildo Capello e Roberto Ivens

É ao fundo de formosa baía que está edificada a cidade de Luanda; dividida em dois bairros distintos, respetivamente denominados alto e baixo; sendo o primeiro o bairro mais elegante e onde se acham os edifícios mais importantes, e o segundo aquele propriamente comercial.


Defendem-na ao presente quatro fortalezas, que se denominam S. Miguel, S. Francisco do Penedo, S. Pedro do Morro de Cassandama e Nossa Senhora da Conceição. A primeira, construída pelo sistema Vauban, com a forma de um polígono irregular, adaptada à configuração do morro de S. Miguel, é de todas a mais importante.


Luanda é uma cidade ampla, limpa e pitoresca. Graciosamente reclinada na encosta das terras que miram ao noroeste, ostenta, quando vista do lado do mar, o aspeto de uma cidade europeia, com os seus renques de asseadas e bem dispostas casarias, que, sobrepondo-se garridas uma à outras, se ligam por extensas calçadas.


Possui muitos edifícios e seria longo aqui enumerar todos. Citaremos, entre os principais, o hospital perto da Ponta Negra, verdadeiro sanatorium, que não tem igual em África; o palácio do governador, obra importante; o palácio do bispo, a escola de artes e ofícios, o tribunal da relação, a casa da Câmara, a alfândega, oficinas de fundição, sem contar muitos templos e grande número de edifícios particulares.


Existem vários jardins públicos entre os quais figura o da Ponta da Isabel, com quinhentas árvores de fruto, dividido em cinco avenidas. Ali perto estão a casa de recreio do governador e a igreja da Nazaré.


Nas terras altas, que pelo nordeste a dominam, são numerosas as casas de campo denominadas muceques onde os abastados de Luanda passam em ócio os seus dias de férias.
A cidade alta é indubitavelmente considerada a mais saudável e onde reside uma grande parte da população branca.
A vegetação é constituída por eufórbias, embondeiros e aloés.
Completamente livre de pântanos, que tanto concorrem, como é sabido, para a insalubridade de qualquer região, Luanda sofre um pouco de falta de água, problemas que não seria difícil de resolver, e está mesmo em via de solução, fazendo-se o seu abastecimento de água no rio Bengo.
As ruas são bem calçadas, mas depois de terminarem as chuvas é necessário desobstruí-las das areias que se acumulam em consequência da desagregação nas encostas das terras altas. Dá este facto lugar a que o recém-chegado naquela época suponha não calçada a cidade baixa, sendo este um defeito irremediável até agora.
Fronteira à cidade está a ilha, espécie de quebra-mar de areia que, estirando-se do sul ao norte, abriga dos movimentos do oceano o porto interior, que se pode considerar um verdadeiro tanque.
A capital da província de Angola tem hoje uma polução de dezasseis mil almas, um movimento de importação e de exportação de vulto e um rendimento para o tesouro assaz considerável.

Referências:
Texto adaptado de "De Angola à Contra-costa", de Capello e Ivens.
Imagens: 
"Os Portugueses em Angola", de Gastão Sousa Dias. A gravura com a vista geral da cidade foi recolhida na Internet.

Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011


         

 INTELIGENTE É QUEM CONCORDA CONNOSCO…


 O nosso egocentrismo leva-nos a valorizar opiniões concordantes com a nossa e a considerar estúpidos os que pensam de maneira diferente.
   Como eu não fujo à regra, transcrevo com agrado um artigo do jornal Público de ontem. Transpõe para Espanha o essencial das posições que defendi neste blogue a 1 de Outubro passado.













Terça-feira, 8 de Novembro de 2011


                        ÁFRICA A PÉ
       
         DE ANGOLA À CONTRACOSTA  

                        OS ANTECEDENTES

Foi Domingos Abreu de Brito quem, em 1592, primeiro traçou um plano bem delineado para ligar as duas costas, sugerindo a construção de uma série de postos militares a partir de Angola.


As tentativas de ir por terra de Angola e Moçambique foram-se sucedendo durante os séculos XVII, XVIII e XIX. Vou mencionar apenas algumas.
Em 1606, D. Manuel Pereira Forjaz, governador de Angola, encarregou Baltazar Rebelo de Aragão de encontrar um caminho para a contracosta. Aragão terá penetrado no interior 80 léguas a contar da fronteira de Angola e alcançou um grande lago, que devia ser o Niassa. Tendo-lhe chegado a notícia de que o rei de Angola atacara a fortaleza de Cambambe, Baltazar Rebelo de Aragão voltou para trás para socorrer os portugueses sitiados. Não se sabe quanto demorou a informação a alcançá-lo nem se entende como foi capaz de regressar em tempo útil.



Por volta de 1765, o governador geral Sousa Coutinho interessou-se pela ligação por terra entre Angola e Moçambique. Alguns escravos trazidos do interior diziam que a travessia não só era possível como até relativamente fácil
Em 1808, Honorato da Costa, tenente-coronel estabelecido em Cassange, organizou uma expedição bem apetrechada e encarregou dois dos seus pombeiros mais hábeis, Pedro Baptista e Amaro José de alcançarem Tete. Os exploradores saíram de Cassange em Novembro de 1802. Estiveram retidos durante três anos nas terras de de Mussico e depois mais quatro nos domínios de Cazembe. Os pombeiros não desistiram e chegaram ao seu destino a 2 de Fevereiro de 1811. A expedição gastou 9 anos no caminho. No dizer de Capello e Ivens, os exploradores “tinham partido novos, chegavam ali já encanecidos”. Tomaram o caminho de regresso em Maio de 1811 e chegaram a Luanda em 1815. Tinham completado a primeira travessia do continente africano de costa a costa, com ida e regresso. A falta de instrução dos pombeiros não permitiu que à dimensão humana do empreendimento se aliassem os resultados científicos.



Em 1831, Correia Monteiro e António Pedroso Gamito viajaram do Zambeze à Lunda de Cazembe e regressaram a Tete.



Em 1852, Silva Porto, comerciante estabelecido no Bié, organizou uma importante expedição que se dirigiu para o Genji e depois para o Alto Zambeze. O sertanejo deteve-se aí, mas enviou um grupo de gente sua com a missão de levar a Moçambique dois ofícios do governo geral de Angola. Os pombeiros atingiram Ibo com sucesso, depois de darem muitas voltas. Silva Porto descreveu a proeza em “Uma viagem à contracosta”.



Referências:
De Angola à Contra-Costa, H.Capello e R. Ivens, Imprensa Nacional, Lisboa, 1886.
Do Cabo de Stª Catarina à Serra Parda, Carlos Alberto Garcia, Edições CITA, 1971.
Os portugueses em Angola. Gastão Sousa Dias, Agência Geral do Ultramar, 1959.

Imagens: Internet.