DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018


MARCOS NO CAMINHO



Esta semana, o número de vistas aos meus blogues decaedela e Histórias da Medicina ultrapassou os 150.000. Cumprimento os leitores!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018


CAÇA ÀS BRUXAS



As caçadas às bruxas têm raízes distantes. Já o Código de Hamurabi (1800 a.C.) mandava lançar ao rio sagrado os acusados de feitiçaria. Se se afogassem, o acusador tomaria posse da sua casa e dos seus bens. Se o rio os declarasse inocentes, seria morto o acusador. Era uma forma de incentivar a aprendizagem da natação.
 A Bíblia condenava a feitiçaria: “Entre ti não se achará agoureiro, nem feiticeiro, nem adivinhador, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor.” Seria mais uma forma de afirmação no monoteísmo. As crenças tradicionais deveriam ser abandonadas.
O Direito romano precaveu-se contra encantamentos e feitiços, pelo menos ao longo de 800 anos. Acreditava-se que os malefícios prejudicassem as culturas de cereais. Em 186 a. C. o senado romano limitou as celebrações a Lucifero, deus das bruxarias. Nos anos imediatos foram executadas 5.000 pessoas. Muitas delas foram consideradas responsáveis pela eclosão de epidemias.
Dianus Lucifero era o deus romano das bruxas, da luz e do esplendor. O nome foi posteriormente associado ao diabo dos cristãos. Era o senhor da Estrela Matutina e Vespertina. Tratava-se de um personagem complexo. Tanto assumia o aspeto de Dis, o deus da Morte e do Além, como o de Lupercus, a Criança da Promessa, portadora da luz e da esperança. Apresentava-se com três figuras diferentes. O “Cornífero” era o senhor das florestas e da sexualidade. O “Encapuçado” reinava sobre os campos e as plantações. Na forma de “Ancião”, guardava a sabedoria e os santuários.
De início, a Igreja Católica não levou as bruxas muito a sério. O código lombardo de 643 decretava: “Que ninguém pretenda matar uma estrangeira como bruxa, pois isso não deve ser acreditado por mentes cristãs”. O Concílio convocado por Carlos Magno para Frankfurt em 749 considerou supersticiosa a crença na bruxaria e impôs a pena de morte àqueles que queimassem bruxas. Em 906, uma lei canónica afirmava que acreditar em bruxas e bruxarias constituía heresia. Em 1100, o rei Kálmán da Hungria proibiu a caça às bruxas e declarou que elas não existiam. Em 1020, Burchard, bispo de Worms, desmentiu a existência de práticas que a imaginação popular atribuía às bruxas, como a elaboração de poções mágicas, o poder de voar em vassouras nas noites de sábado, a transformação do amor em ódio e de pessoas em animais e as relações sexuais com demónios.
Os papas alinhavam com as opiniões dominantes na época. Em 1080, o papa Gregório VII, em carta ao rei Harold da Dinamarca, proibiu que as bruxas fossem mortas por suspeitas de desencadearem tempestades, pestes e más colheitas.
Atribuíam-lhes tudo o que corria mal no mundo, em especial os acontecimentos extraordinários e inexplicáveis. Para serem precisos tantos desmentidos, é porque as crenças em bruxarias eram fortes e arreigadas. O cristianismo conviveu, na Europa, com crenças mais antigas que nunca foram erradicadas por completo.
 Em consequência dessa tolerância, as mulheres que benziam e praticavam curas tornaram-se respeitáveis na Europa medieval. Havia “mulheres sábias” em quase todas as aldeias. Habitualmente, eram viúvas ou solteiras e conheciam bem as ervas medicinais. Faziam de médicas, enfermeiras, parteiras e adivinhas. Continuavam pobres.
Depois, as ideias mudaram e as bruxas voltaram a ser encaradas com maus olhos. A meio do século XIV, a peste negra matou um em cada três europeus. A peste e as más colheitas foram atribuídas a poderes malignos que pretendiam destruir os reinos cristãos. Os turcos otomanos eram apontados como os principais culpados, mas falou-se também de associações entre bruxas e judeus. A perseguição recomeçou. A caça às bruxas ganhou novo ímpeto, sobretudo no norte da Europa, e os julgamentos e as execuções tornaram-se comuns. O período mais tenebroso ocorreu entre 1580 e 1660.


Em 1486, os inquisidores James Sprengler e Heinrich Kraemer publicaram o livro Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras), considerado “a Bíblia do caçador de bruxas”, a que a Igreja Católica deu pouca importância. O livro enumerava as práticas demoníacas e foi aceite pela Reforma protestante. O Malleus Maleficarum conheceu 28 edições. Teve grande difusão nas colónias inglesas puritanas da América e foi utilizado no célebre processo das bruxas de Salém.
Até perto do final do século XVI, a distinção entre as bruxas, que faziam o mal, e as curandeiras, que tratavam as doenças era clara, no espírito do povo e das autoridades. Tudo mudou e a diferenciação atenuou-se. Milhares de pessoas inocentes (sobretudo mulheres) foram queimadas vivas.


A partir de 1660, a situação começou a melhorar. O Iluminismo generalizou-se nas elites culturais europeias, que deixaram de acreditar em bruxas. Elas continuaram, porém, a ser temidas na imaginação popular. Os linchamentos prosseguiram durante mais dois séculos. Chegou a considerar-se que a caça às bruxas teria vitimado nove milhões de pessoas. Estudos históricos recentes, com recurso a metodologia científica, fizeram baixar esse número para menos de 100.000.
Contrariando a ideia prevalecente, que acusava a “Santa” Inquisição da responsabilidade pela maioria desses crimes legais, os investigadores concluíram que a maior parte das vítimas foi julgada e sentenciada por tribunais civis. Os juízes locais foram, geralmente, mais ferozes.


As confissões de algumas acusadas levantaram a suspeita de intoxicação. Algumas bruxas estavam mesmo convencidas de terem feito sexo com o demónio. A cravagem do centeio, o pão dos pobres, provocava o ergotismo, doença que produzia, entre outros sintomas, alucinações e gangrenas secas. Há quadros de pintores flamengos que retratam grupos de pobres sem membros. Alguns levavam pendurados ao pescoço os membros amputados para inspirarem piedade.
Como em outros fenómenos sociais, aconteceram, com as bruxas, episódios de oportunismo malicioso. Certas acusações de bruxaria tinham como finalidades a vingança ou a vontade de ficar com os bens da vítima.
No nosso país, a Inquisição teve uma presença poderosa e demorada. Poucos autores se dedicaram a este tema. O trabalho do professor de História da Universidade de Massachusetts, Timothy Walker, que investigou as perseguições aos curandeiros acontecidas em Portugal ao longo da época das luzes, é uma exceção notável. Com base no estudo dos registos dos tribunais regionais da Inquisição existentes na Torre do Tombo, publicou, em 1992, o livro “Médicos, Medicina Popular e Inquisição: a Repressão das Curas Mágicas em Portugal durante o Iluminismo. Terá avaliado os assentamentos de quarenta mil casos.
No seu modo de ver, o aparelho repressivo da Inquisição foi utilizado contra os curandeiros e saludadores pelos médicos que trabalhavam, como “familiares” para o Santo Ofício, durante o século XVIII. Era um aspeto do conflito entre a cultura médica erudita e as crenças populares. Tratava-se, essencialmente, de eliminar a concorrência. Ainda segundo Walker, a experiência portuguesa foi única: “entre 1715 e 1770 foram julgados pelos tribunais da Inquisição mais de 500 suspeitos de feitiçaria e nenhum foi executado”. Eram já os nossos brandos costumes.  
Os curandeiros desenvolviam essencialmente a sua atividade nos meios rurais, prestando um serviço que atualmente se poderia chamar cívico e que alguns designam por “magia protetora”. Aconselhavam dietas e prescreviam remédios caseiros associados à recitação de rezas e benzeduras. Na verdade, não existia alternativa aos saludadores. Raramente havia médicos nas pequenas povoações. 

Modificado de "O Homem do Sobretudo cinzento", romance em preparação.

domingo, 31 de dezembro de 2017


                                                           
A VERDADE DESPORTIVA


Fiz-me adepto da Académica no começo da adolescência.
Anos mais tarde, em Coimbra, sem ter chegado a ser um fanático do futebol, fui acompanhando de perto as alegrias e tristezas do meu clube.
A dada altura, zanguei-me com a Académica. Era já homem. Aconteceu quando Fernando Peres, um talentoso médio de ataque, foi transferido do Sporting para a Académica, ao abrigo do estatuto de trabalhador-estudante, com prejuízo para o clube leonino. Considerei aquela transferência uma baixeza legal. O Peres andava no quinto ano do liceu quando foi para Coimbra e, tanto quanto sei, nunca passou daí. Na juventude, pelo menos, os meus padrões morais eram elevados e reneguei de vez a secção de futebol da Associação Académica de Coimbra. Aproximei-me do Benfica, cuja carreira então brilhante nunca deixara de aplaudir.
Há quem diga que um homem pode mudar de carro e de mulher, mas nunca de clube.
Os carros duram, em média, menos do que os cães, e já tive muitos cães. Estou casado com a mesma mulher há mais de 50 anos e já mudei duas vezes de clube. Vim viver para Setúbal, há quatro décadas, e tornei-me adepto do Vitória.
Esta introdução já vai longa. Reconheço que não acredito na verdade desportiva no futebol de alta competição, embora aceite que, feitas as contas, acaba habitualmente por ganhar o melhor. Vou contar duas pequenas histórias cuja veracidade não posso assegurar.
Consta que há muitos anos, quando Pedroto se mudou de Setúbal para o Porto, recusou antes uma proposta do Sporting por considerar reduzidas as verbas destinadas aos árbitros. “Si non e vero, e ben trovato”.


A segunda história, de moral igualmente duvidosa, refere-se a Napoleão Bonaparte. Conta-se que no Egito, num intervalo entre campanhas, o grande chefe militar se entretinha a jogar cartas com os seus oficiais superiores. Um dos generais mais próximos dele, atreveu-se a criticá-lo:
− Peço perdão, mas acho que o meu imperador fez batota.
Napoleão recolheu displicentemente as cartas, antes de baralhar e confessou:
− Eu não gosto de deixar nada entregue ao acaso.
Desconheço as implicações que as acusações levantadas nos últimos meses e dias ao Benfica irão ter. Vem-me, contudo, à ideia a carreira de Pinto da Costa, provavelmente o maior dirigente desportivo português de todos os tempos. Custa-me crer que ele tenha deixado grandes coisas ao acaso.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017



O HOMEM QUE PRETENDIA 

MESMO MORRER


Alexander Valterovich Litvinenko falava demais para um agente secreto. Avaliou mal o equilíbrio de poderes na própria terra e apostou no cavalo errado. Os erros pagam-se. Alguns custam caro.
Teve uma vida curta, mas agitada. Nasceu em Voronezh, na Rússia, em 1962 e morreu em Londres a 23 de novembro de 2006.
Durante um ano, serviu como soldado raso nas tropas do Ministério do Interior russo. Em 1986 tornou-se informador da KGB. Dois anos mais tarde, após frequentar um curso na Escola Militar de Contra Inteligência, em Novosibirsk, foi admitido como oficial operacional da KGB.

                     Gorbachev e Ieltsin

No ano de 1991, Vladimir Kriuchkov, líder da KGB, organizou um golpe de estado para depor o presidente Mikhail Gorbachev e foi vencido. Não podendo confiar na organização de espionagem, Gorbachev fez o que é costume nestes casos: dividiu para poder continuar a reinar. A agência secreta russa foi cindida em duas partes: o Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (FSB), vocacionado para a segurança interna, e o Serviço de Informação Estrangeira (SVR) dedicado à espionagem. Litvinenko mudou-se para a secção do FSB encarregada de combater o crime organizado. Foi nesta área que fez toda a sua carreira, nunca tendo sido propriamente um espião. Conheceu Boris Berezovsky ao investigar uma tentativa de assassinato ao magnata russo. Passou a trabalhar também para ele, encarregando-se da sua segurança. O segundo emprego era ilegal mas as autoridades russas fechavam os olhos a essas situações, com que os seus funcionários, mal pagos, completavam os salários.
Em 1997, Alexander Litvinenko foi promovido e ascendeu ao Diretorado de Análise e Supressão dos Grupos Criminais da FSB. Havia quem considerasse essa instituição mais integrada no crime organizado do que esforçada em combatê-lo. Segundo a esposa Marina, terá descoberto numerosas ligações entre as autoridades policiais e grupos mafiosos russos.

                           Berezovsky

A 13 de novembro de 1998, Boris Berezovsky publicou no jornal diário Kommersant (O Empresário) uma carta aberta dirigida a Putin. Acusava alguns altos dirigentes do Diretorado de terem ordenado a sua morte e indicava os seus nomes.
Quatro dias depois, numa conferência de imprensa, Litvinenko e quatro outros oficiais da FSB confirmaram a acusação de Berezovsky. Todos os quatro trabalhavam simultaneamente para o FSB e para o oligarca russo. Acrescentaram outra informação do mesmo teor. Tinham recebido ordens para liquidar Mikhail Trepashkin.


Litvinenko foi demitido da FSB. A seguir foi preso, libertado, novamente detido e outra vez solto. Fugiu para a Turquia e conseguiu, depois, asilo político em Londres, onde trabalhou como jornalista e escritor. Tornou-se ainda consultor (pago) dos serviços secretos britânicos. Em 2006 adquiriu a nacionalidade inglesa.
Em Londres, Alexander Litvinenko escreveu e publicou dois livros em que acusava os serviços secretos russos de estarem por trás da série de explosões que, em setembro de 1999, atingiram vários blocos de apartamentos e mataram quase três centenas de pessoas, em Moscovo e noutras cidades russas. A intenção dos bombistas seria preparar a opinião pública russa para o desencadeamento da segunda guerra da Chechénia e a para a ascensão política de Vladimir Putin. Litvinenko acusou também Putin de ter mandado matar Anna Politkovskaya. Na obra O Gang de Lubyanka, Litvinenko afirmou que Putin estivera pessoalmente envolvido na proteção ao tráfico da droga proveniente do Afganistão. Em dezembro de 2003, as autoridades russas apreenderam 4.000 exemplares desse livro.
Litvinenko conhecia bem a criminalidade organizada russa e o funcionamento da FSB. Possuía também uma excelente imaginação.
Segundo ele, os serviços secretos russos estariam atrás de quase todas as tragédias que abalaram a Rússia e os países vizinhos, no final do sec. XX e nos primeiros anos do sec. XXI.
Em 1999, teriam organizado o ataque ao parlamento da Arménia, que resultou na morte do primeiro-ministro e de sete deputados. A finalidade seria prejudicar o processo de paz que haveria de pôr fim ao conflito em Nagorno-Karabakh.
Em 2003, Alexander declarou a uma televisão australiana que dois dos terroristas chechenos envolvidos na crise dos reféns do teatro de Dubrovka, em Moscovo, trabalhavam para o serviço de segurança da Federação Russa e que o FSB teria estado envolvido no ataque. Neste caso, existe alguma informação cruzada. Mikhail Trepashkin e Anna Politkovskaya acusaram igualmente o agente do FSB «Abu Bakar» de ter tido um papel determinante no ataque. As forças russas bombearam um gás tóxico para dentro do teatro, antes de o tomarem de assalto. Morreram os 40 atacantes e 130 reféns.

                        Vítimas do massacre da escola de Beslan

Em 2004, Litvinenko sugeriu que os serviços secretos russos tinham tido conhecimento prévio dos planos para atacar a escola de Beslan. No primeiro dia de setembro desse ano, um grupo de separatistas islâmicos inguches e chechenos ocupou uma escola na cidade de Beslan, na Ossétia do Norte, uma república da Federação Russa, no norte do Cáucaso. Foram feitos mais de 1.100 reféns, na maioria crianças. Ao terceiro dia de ocupação, as forças russas entraram no edifício, utilizando material bélico pesado. Morreram perto de 400 reféns, incluindo muitas crianças. Segundo Alexander Litvinenko, alguns dos atacantes conheciam as cadeias do FSB, sob acusações de terrorismo. Teria sido impossível, depois de libertados, participarem num ataque dessa envergadura. Ou teriam sido comprados, ou estariam submetidos a medidas rigorosas de vigilância. A violência desencadeada na escola de Beslan teria por finalidade desacreditar os separatistas chechenos e inguches.   
Litvinenko acusou repetidamente a KGB e as agências que lhe sucederam de estarem por trás de grande parte dos atentados sangrentos que ocorriam mundo fora. Segundo ele, muitos terroristas eram treinados, armados e pagos pelos serviços secretos russos. Afirmou: «o centro do terrorismo global não fica no Iraque, no Irão, no Afeganistão ou na República da Chechénia. O terrorismo propaga-se a partir dos gabinetes da Praça Lubyanka e do Kremlin, em Moscovo». É na Praça Lubyanka que se situa o edifício da KGB, herdado pelo FSB e pelo SVR.

                          al-Zawahiri à esquerda de Bin Laden

Ainda de acordo com as afirmações de Litvinenko, o líder da Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri terá sido treinado pela FSB, durante meio ano, no Daguestão, em 1997, e transferido depois para o Afeganistão, onde se aproximaria de Osama bin Laden.

                          Julia Svetlichnaya

Há muitas formas de suicídio. Alexander gostou sempre de dar nas vistas. Segundo Julia Svetlichnaya, que preparava o seu doutoramento na Universidade de Westminster, Litvinenko tencionava contactar diversas personalidades russas, incluindo oligarcas e elementos da hierarquia do Kremlin, para lhes extrair dinheiro em troca da não publicação de documentos que as comprometeriam. Era uma excelente maneira de multiplicar o número de inimigos mortais.
Em 2002, Mikhail Trepashkin, também antigo agente secreto, informou Litvinenko de que uma unidade da FSB fora encarregada de o liquidar.
Alexander Litvinenko nunca se preocupou muito com a própria segurança. Viajava por onde lhe apetecia, recebia jornalistas em casa e participava na vida da comunidade russa de Londres. Falava demais, misturando o que sabia com o que imaginava. Nunca apresentou provas de qualquer das suas afirmações bombásticas. Desenvolveu, talvez mais do que ninguém, as teorias da conspiração e propagou aos quatro ventos as suas ideias sobre as estruturas do poder na Rússia.
Um professor da Academia de Defesa do Reino Unido considerou Litvinenko uma espécie de agência de desinformação formada por um único homem. A princípio, seria pago por Berezovsky. A partir de certa altura, terá começado a agir por conta própria. Vladimir Putin era o seu inimigo de estimação. Alexander acusou-o de tudo, inclusive de pedofilia.
No dia 1 de novembro de 2006, Litvinenko adoeceu subitamente e foi hospitalizado. Morreu três semanas depois. Terá sido vítima de envenenamento pela substância radioativa polonium-210. A sua doença recebeu ampla divulgação nas televisões de quase todo o mundo.
A 20 de janeiro do ano seguinte, a polícia britânica anunciou ter identificado o homem que envenenara Litvinenko. Teria sido apresentado à vítima como «Vladislav».

                          Andrey Lugovoi

O inquérito levado a cabo pelas autoridades policiais inglesas apontou para Andrey Lugovoi, antigo espião russo, como executante do crime. Lugovoi encontrara-se com Litvinenko no dia 1 de novembro de 2006, a data provável da administração da dose mortal de polónio radioativo.
Os britânicos pediram a extradição de Lugovoi, mas a Rússia recusou concedê-la. As autoridades policiais russas estariam dispostas a investigar e julgar o crime, se os ingleses lhes fornecessem provas suficientes da responsabilidade de Lugovoi.
A imprensa oficial russa acusou Boris Berezovsky de estar ligado ao crime, que teria sido perpetrado para manchar a reputação da Rússia no estrangeiro.
No dia 2 de outubro de 2011, o jornal Sunday Times publicou um artigo em que o investigador chefe da morte de Litvinenko, Lorde Macdonald of River Glaven expressava as suas suspeitas sobre o envolvimento da Rússia no crime: «tem todas as marcas de uma execução comandada por um estado, cometida nas ruas de Londres por um governo estrangeiro».
Nunca soube de um homem que precisasse tanto de adversários. Litvinenko era um fanfarrão. Quis morrer de forma violenta.
Aproximou-se do Islão de modo progressivo e converteu-se, na véspera da morte. Escolheu, contudo, morrer como Cristo. Exibiu-se como um crucificado emagrecido, sem cruz e sem cabelo, com tubos para administração de medicamentos introduzidos nas veias. Elegeu para mandante da própria morte, o mais mediático dos seus inimigos: Vladimir Putin.



É duvidosos de que Putin seja diretamente culpado. Decisões deste tipo são cuidadosamente pesadas na balança de ganhos e perdas e a eliminação física do desacreditado ex-agente do FSB teria de causar demasiados danos na imagem do líder russo. 

(Capítulo do livro não publicado Estranho Ofício de Matar, de António Trabulo).

quarta-feira, 18 de outubro de 2017


O ASSASSINATO DE ANNA POLITKOVSKAYA


Há quem diga que a motivação para o assassinato de Anna Politkovskaya foi a conveniência em meter medo aos jornalistas. Terá sido assim, em parte. Politkovskaya não foi a única periodicista abatida por escrever contra a corrupção do governo russo, ou contra o desprezo pela vida humana na Chechénia. Numerosos jornalistas e defensores dos direitos humanos deram as vidas pelas suas causas. Após uma série de assassinatos, a «Novaya Gazeta» anunciou publicamente que não se arriscava a enviar mais jornalistas para a Chechénia.
O corpo de Politkovskaya foi encontrado com diversos ferimentos de bala, no elevador do seu bloco de apartamentos, em Moscovo, a 7 de outubro de 2006. Os disparos que a mataram foram efetuados a curta distância.


Esta mulher demonstrou em ocasiões sucessivas uma coragem anormal. Devia saber perfeitamente que estava a mais no mundo.
Curiosamente, Anna nasceu em Nova Iorque, filha de diplomatas ucranianos a trabalhar nas Nações Unidas. Tinha 48 anos quando morreu. Era cidadã russa, embora tivesse também passaporte americano. Cresceu em Moscovo e licenciou-se em jornalismo, na Universidade Estatal de Moscovo.
Tornou-se conhecida por escrever sobre a Chechénia. Tratava-se de um país conturbado e dividido, onde os soldados chegavam a vender os cadáveres das suas vítimas às famílias que pretendiam proporcionar aos mortos funerais conformes ao ritual islâmico.
Os seus matadores vieram de lá. Anna denunciou raptos, torturas e execuções em massa, da parte de militares russos.
Anna Politkovskaya era casada e tinha dois filhos. Trabalhou para diversos jornais russos. Escreveu sobre os refugiados de guerra e criticou a Rússia de Putin.


Vladimir Putin era um oficial superior da KGB. Subiu até se tornar primeiro-ministro de Boris Yeltsin e sucedeu-lhe como Presidente da Rússia.
Para além de denunciar os crimes de guerra russos na Chechénia, Anna acusou também a administração chechena pró russa dos Kadyrov de diversos abusos. Publicou livros críticos do regime que dominou a Rússia após 1991 e preocupou-se com a violentação dos direitos humanos no Cáucaso do Norte. Foi agraciada com diversos prémios internacionais. 


Sobre a KGB, escreveu: «respeita apenas os fortes e devora os fracos».
Opinou também: «regressámos a um vazio de informação. Deixaram-nos apenas a Internet, onde a comunicação ainda é livre. Se quiseres continuar a trabalhar como jornalista, tens de servir Putin. De outro modo, conta com uma bala, um veneno, ou um julgamento, conforme os cães de guarda de Putin acharem melhor».
Por vezes, foi além do seu trabalho de jornalista. Numa altura em que Grozni estava a ser submetida a bombardeamentos violentos, Politkovskaya ajudou a organizar a retirada de um grupo de cidadãos idosos. Quando muitas centenas de crianças da escola de Beslan, na Ossétia do Norte, foram vítimas de sequestro, ofereceu-se como mediadora e meteu-se num avião em direção à cidade. Não chegou lá. Foi envenenada com chá, durante o voo, em setembro de 2004. Perdeu os sentidos e foi retirada do avião, numa escala do percurso, em Rostov-na-Donu, para receber tratamento médico.
Anna Politkovskaya queixava-se ocasionalmente das pedras que lhe iam atravessando no caminho: «Recebo ameaças por carta, por telefone e pela Internet. Semanalmente, sou chamada a depor perante as autoridades por causa dos meus artigos. A primeira pergunta é sempre a mesma: como é que obteve esta informação?»


Anna podia bem com o próprio medo. Em dezembro de 2005, numa conferência sobre a liberdade de imprensa, organizada em Viena pelos Repórteres sem Fronteiras, declarou: «As pessoas, às vezes, pagam com as próprias vidas por dizerem em voz alta o que pensam. Uma pessoa pode ser morta por me prestar informações. Não sou a única em perigo. Tenho exemplos que provam o que digo.»
Foi ameaçada de violação e de morte. Chegou a ser torturada e submetida a uma falsa execução, levada a cabo por oficiais russos, na Chechénia. Anna descreveu o episódio: «Um tenente-coronel de rosto moreno e olhos escuros e salientes disse-me, como se falasse de negócios: “Vamos. Vou matar-te.” Fez-me sair da tenda para a escuridão total. Lá, as noites são impenetráveis. Depois de caminharmos um bocado, disse: “Quer estejas pronta ou não, chegou a hora”. O fogo rebentou em volta de mim, guinchando, rugindo e rosnando. O tenente-coronel parecia muito feliz por me ver aterrorizada. Tinha-me posto atrás dum lançador múltiplo de foguetões Grad no momento em que era disparado».
Ao contrário de outros casos semelhantes, o assassinato de Anna Politkovskaya não ficou impune. A opinião pública internacional obrigou as autoridades russas a uma investigação séria.
Foram presos dez homens suspeitos de terem participado no crime. Três eram chechenos e irmãos: Ibragim, Dzhabrail e Rustam Makhmudov. Terá sido Rustam a efetuar os disparos. Um antigo investigador da polícia foi também acusado. Em maio de 2007, os arguidos foram apresentados ao Tribunal Militar do Distrito de Moscovo.


Em dezembro de 2008, um dos editores da Novaya Gazeta declarou, ao tribunal, que tinha recebido informações segundo as quais Dzhabrail Makhmudov seria agente da FSB. Recusou indicar as fontes de informação.
 O coronel Pavel Ryaguzov, membro da FSB (a organização policial que sucedeu à KGB para a investigação das questões internas), foi acusado de ligações aos assassinos, mas não de participação no crime. 
O julgamento dos acusados pela morte de Anna Politkovskaya sofreu várias vicissituides e atrasos. Teve mesmo de ser repetido. 
Em dezembro de 2012, Dmitry Pavliuchenkov, um antigo polícia, considerado o principal organizador do assassínio e acusado de ter dado informações sobre os hábitos da vítima e proporcionado a arma para o crime, foi condenado a 11 anos de cadeia numa colónia penal de alta segurança.


Ninguém acreditou que tivesse agido por iniciativa própria. O editor de Politkovskaya na Novaya Gazeta continuou a afirmar que ela tinha sido assassinada porque as suas investigações prejudicavam os interesses de financeiros russos. Fontes próximas do governo sugeriram que inimigos de Putin a residir fora da Rússia (pareciam referir-se em especial ao milionário Berezovsky, exilado em Londres) encomendaram o atentado com a intenção de provocar uma crise que lhes facilitasse o regresso ao Poder. 

(Capítulo do livro não publicado Estranho Ofício de Matar, de António Trabulo)

terça-feira, 17 de outubro de 2017



A MORTE DE SÁ CARNEIRO



Pouco passava das 20 horas do dia 4 de dezembro de 1980. Um pequeno avião bimotor levantou voo do Aeroporto de Lisboa e caiu meio minuto depois. Dirigia-se ao aeroporto de Pedras Rubras, no Porto, mas tombou no Bairro das Fontainhas, em Camarate. Seguiam a bordo o primeiro-ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro, a sua companheira Ebbe Abecassis, o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, a esposa dele, Maria Manuela da Silva Pires, o chefe de gabinete do primeiro-ministro, António Patrício Gouveia e os tripulantes Jorge Albuquerque e Alfredo de Sousa.


Sá Carneiro e Amaro da Costa viajavam para participarem num comício de apoio a Soares Carneiro, candidato da Aliança Democrática às eleições presidenciais.
O aparelho, já a arder, embateu nos fios de um poste de iluminação pública e despenhou-se numa zona residencial. Morreram os sete ocupantes. Felizmente, não se registaram vítimas entre os moradores das cinco casas danificadas.
                           


O avião Cessna era velho e tivera vários donos. O último disponibilizara-o para a campanha presidencial de Soares Carneiro. A investigação conduzida pelo Tribunal da Relação de Lisboa, por requerimento dos familiares das vítimas, pôde confirmar irregularidades graves no funcionamento do aparelho.
Na véspera do acidente, em Faro, o Cessna já não estaria em condições de voar. O piloto Jorge Albuquerque confidenciou a alguém que o motor do lado esquerdo tinha problemas sérios.
Em Lisboa, terá ocorrido um roubo de combustível. O avião descolou com um dos tanques quase vazio.
O Ministério Público abriu um inquérito. As investigações, conduzidas pela Polícia Judiciária, concluíram pela ausência de indícios de crime.
Em outubro do ano seguinte, face às dúvidas levantadas na comunicação social, o procurador-geral da República ordenou o prosseguimento das investigações sob a forma de «inquérito público». A conclusão foi semelhante à da Polícia Judiciária.
Depois, a Assembleia da República nomeou sucessivamente dez comissões parlamentares de inquérito à tragédia de Camarate. Se não é um recorde para o Guinness, andará lá perto. Em 1991, a quarta comissão concluiu tratar-se de atentado. As comissões seguintes que terminaram os seus inquéritos mantiveram esta opinião. A oitava e a nona não chegaram ao fim, por dissolução da Assembleia da República.
O depoimento de Conceição Monteiro afasta a hipótese do atentado visar as pessoas de Sá Carneiro, António Patrício Gouveia ou Ebbe Menete (Snu) Abecassis. A secretária pessoal do primeiro-ministro declarou que a decisão de Sá Carneiro voar no Cessna fora tomada em cima da hora, após uma conversa com Amaro da Costa. Não houve tempo para preparar um golpe contra o primeiro-ministro, nem contra Patrício Gouveia ou Snu Abecassis, que o acompanhavam.
A tratar-se de atentado, os alvos possíveis seriam o ministro da Defesa, sua esposa, e os pilotos Sousa e Albuquerque.


Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa nasceu em Algés, em 1943. Morreu aos 37 anos. Cumpriu o serviço militar na Reserva Naval. Licenciou-se em Engenharia Civil e foi Assistente do Instituto Superior Técnico. Veiga Simão chamou-o para dirigir o Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação Nacional. Depois do 25 de Abril, foi um dos fundadores do Centro Democrático Social (CDS) e o seu primeiro secretário-geral. Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, colaborou ainda nos jornais Expresso e O Século. Após a vitória da Aliança Democrática nas eleições legislativas de 1980, entrou para o governo, como ministro da Defesa Nacional. Foi o primeiro civil a assumir aquela pasta, na Segunda República.
Não são conhecidos à sua esposa, Maria Manuela, inimigos que lhe pudesse desejar a morte e não parece ter sido levada a sério a possibilidade de o atentado visar o piloto ou o copiloto do Cessna. As vidas de ambos terão sido suficientemente investigadas? Nenhum deles teria uma amante com um marido ciumento? Não estariam envolvidos em jogo ilícito ou em tráfico de drogas?
Morreram ambos. Tanto quanto se sabe, eram cidadãos comuns com vivências normais. Aliás, a vida de um piloto dificilmente justificaria o fabrico de um engenho explosivo, com recurso a pessoal especializado. As bombas não se encontram à venda em drogarias.
Muito do que se escreveu sobre Camarate gira em redor de Adelino Amaro da Costa e da sua intenção de responsabilizar alguns militares que estariam a enriquecer com o tráfico ilícito de armas. Existe uma base real para as conjeturas. Acabada a guerra colonial, as Forças Armadas Portuguesas tinham ficado com armamento a mais e as fábricas portuguesas de munições com uma capacidade excedentária de produção. Em consequência das perturbações económicas induzidas pelo processo revolucionário, o País tinha falta de dinheiro. A venda de material de guerra era inevitável. Alguns portugueses, incluindo militares, terão enriquecido com o negócio.
A hipótese de um atentado contra o ministro da Defesa ter motivação política parece pouco viável. Após a contagem desfavorável de espingardas efetuada a 25 de novembro de 1975, ninguém na hierarquia do Partido Comunista Português embarcaria em tal aventura. O mesmo não se aplicaria a organizações mais ou menos românticas de estrema esquerda, mas Adelino Amaro da Costa não era um inimigo suficientemente poderoso para justificar a sua eliminação física.


Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro nasceu no Porto, numa família da alta burguesia, a 19 de julho de 1934. Foi primeiro-ministro de Portugal durante onze meses, até morrer em Camarate.
Licenciado em Direito, exerceu advocacia no Porto. Em 1969, aceitou o convite de Marcelo Caetano para se candidatar à Assembleia Nacional nas listas do partido único da ditadura herdada de Salazar.
Eleito deputado, aliou-se a Francisco Pinto Balsemão, Mota Amaral, Joaquim Magalhães Mota, Miller Guerra, José da Silva, Correia da Cunha, Macedo Correia e outros, para constituir, na Assembleia, a chamada Ala Liberal, que visava a transição gradual do regime autoritário instituído por Salazar para uma democracia moderna.
Sá Carneiro exibiu grandes dotes oratórios e revelou capacidade de iniciativa e independência de espírito pouco comuns entre os seus pares. Interveio 85 vezes na Assembleia Nacional e apresentou seis projetos de lei da sua autoria exclusiva. Propôs a obrigatoriedade da presença de um advogado nos interrogatórios dos detidos e preparou, em conjunto com Pinto Balsemão, uma proposta de Lei de Imprensa. Em 1971, pediu a abertura de um inquérito à atuação da PIDE/DGS e uma amnistia para crimes políticos. Colaborou com o deputado açoriano Mota Amaral na preparação dum projeto de revisão constitucional, apresentado em 1970.
O regime estava esclerosado e incapaz de se regenerar. As propostas do jovem deputado do Porto foram sistematicamente recusadas. Desiludido, Sá Carneiro apresentou a demissão do lugar para que fora eleito. Foi acompanhado, nesse gesto, por outros membros da Ala Liberal, como Pinto Balsemão e Magalhães Mota.
Foi na cidade do Porto, nos meios maçons e republicanos, que começou a germinar o futuro Partido Social Democrático. Seria oficializado, em maio de 1974, como Partido Popular Democrático. Mais tarde, mudou de nome. Francisco Sá Carneiro viria a ser o seu primeiro presidente.
A morte prematura ajudou a forjar o mito de Sá Carneiro. O homem era nervoso, obstinado e pouco flexível. Incompatibilizou-se depressa com o partido que criara. Em novembro de 1977, demitiu-se da presidência. O seu carisma era, contudo, indiscutível. Não deixava ninguém indiferente e mostrara-se capaz de arrastar multidões. Seria reeleito no ano seguinte. 
Francisco Sá Carneiro participou em diversos governos provisórios como ministro sem pasta. Foi eleito deputado à Assembleia Constituinte e à primeira Assembleia da República.


Em 1979, ajudou a criar a Aliança Democrática (AD), coligando o PPD/PSD com o Partido do Centro Democrático Social (CDS) de Freitas do Amaral e com o Partido Popular Monárquico (PPM) de Ribeiro Teles. A AD obteve maioria absoluta nas eleições legislativas desse ano e Sá Carneiro foi nomeado primeiro-ministro. Tomou posse a 3 de janeiro de 1980.
Nesse mesmo ano, a Aliança Democrática apoiou a candidatura presidencial do general Soares Carneiro, que seria vencido nas urnas por Ramalho Eanes.
Passaram mais de 40 invernos sobre a tragédia de Camarate e as comissões parlamentares de inquérito da Assembleia da República continuaram a suceder-se umas às outras com a inutilidade de sempre. Houve quem se encarregasse, recentemente, de deitar mais achas para a fogueira em que ardeu o Cessna.


Prescrito o processo, apresentaram-se dois culpados para o suposto crime. José Esteves, em entrevista concedida à revista Focus, assumiu a corresponsabilidade nos assassinatos. Terá fabricado a bomba que derrubou o Cessna.
Em abril deste ano, Esteves gravou, na prisão, uma confissão do seu alegado cúmplice Fernando Farinha Simões. Teriam estado ambos envolvidos no atentado destinado a eliminar Adelino Amaro da Costa e Francisco Sá Carneiro. O primeiro-ministro não morreria de amores pelos americanos, enquanto o ministro da Defesa estaria disposto a denunciar a participação de militares portugueses no tráfico de armas. Por trás da conspiração estaria a CIA, tendo Frank Carlucci e Oliver North como rostos mais visíveis. O negócio de armamento teria o apoio de um fundo secreto das Forças Armadas, o Fundo de Desenvolvimento do Ultramar, um «saco azul» utilizado durante a guerra colonial.
As autoridades judiciais portuguesas não levaram a sério estas confissões. Não admira. O depoimento de Simões é fantasioso.


O leitor começa por ficar surpreendido com a extraordinária quantidade de informação alegadamente fornecida a um operacional. Nenhum serviço secreto funciona com tamanha liberalidade e os responsáveis da CIA não são burros. A acreditar em Farinha Simões, Oliver North seria um desbocado e Frank Carlucci não lhe ficaria muito atrás.
Segue-se o elevado número de contactos e telefonemas feitos sem condições mínimas de segurança e as almoçaradas em restaurantes conhecidos em que se debateriam abertamente operações secretas.
Vem depois a ênfase posta no presumido antiamericanismo de Francisco Sá Carneiro. O primeiro-ministro português era um político de direita e um homem pragmático. O nosso país precisava de ajuda estrangeira e teria de a ir buscar aos EUA e à Alemanha. Portugal era membro da NATO. Mesmo a contragosto, Sá Carneiro era um aliado natural dos Estados Unidos. Nunca seria um personagem a eliminar pela CIA. A argumentação de Fernando Farinha Simões não convence.
Ressalta, finalmente, a extraordinária quantidade de pessoas  alegadamente envolvidas no atentado. Há, pelo menos, americanos, portugueses, angolanos, moçambicanos e belgas. A profusão de implicados portugueses é extraordinária. Ao longo da nossa História, terá havido conspirações com número superior de conjurados, mas um assassinato não precisa de tantos mandantes: general Costa Gomes, almirante Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de Carvalho, o general reformado angolano José Pedro Castro, o capitão Dinis de Almeida, o coronel Corvacho, Vera Gomes, Carlos Fabião, o general Diogo Neto, o Coronel Vinhas, o coronel Rebocho Vaz, Paulo Cardoso, o major Canto e Castro, o general Pezarat Correia, Franco Charais, o empresário Zoio, Penaguião, o major Lencastre Bernardo e, ainda, Pinto Balsemão. Balsemão é acusado de saber do projeto com meses de antecedência.
As palavras de Farinha Simões não podem ser levadas a sério. Mas se o homem tiver usado a imaginação para enfeitar a verdade? Poderá existir um núcleo de autenticidade envolvido em doses excessivas de devaneio, resultando num romance de cordel em que ninguém acredita. A hipótese de o eventual atentado ter sido preparado por militares envolvidos no tráfico de armamento nunca foi descartada por completo.

             Avião Cessna semelhante ao acidentado

Sei que estou a ser pouco objetivo. Talvez não tenha havido qualquer bomba. Os materiais potencialmente explosivos foram encontrados nos fragmentos do Cessna em quantidades tão reduzidas que poderiam resultar de contaminação externa. É possível que a queda do avião se deva a avaria técnica, relacionada com insuficiências graves de manutenção.
      Há quem defenda a teoria do atentado e veja atrás dos matadores a mão da Gladio. A estabilização da democracia portuguesa não agradaria a todos. Um ato de terrorismo contra o governo português ajudaria a criar condições para que a opinião pública do país aceitasse mais facilmente a imposição de medidas autoritárias.

(Capítulo do livro não publicado Estranho Ofício de Matar, de António Trabulo).