DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

                 VEM AÍ A PRIMAVERA



A minha terra chama-se Almendra (Almendra é amêndoa, em castelhano). É uma das freguesias de Foz Coa, bem menos fria que a sede do concelho.  Este ano, as amendoeiras já começaram a florir.

                          Casa onde nasci
Na região do Douro, as flores das amendoeiras desabrocham, ainda no inverno do calendário, logo a seguir às do Algarve. As árvores “bravas” enfeitam-se primeiro.

                                    Rio Douro, perto da foz do Coa

Nesta época, são organizadas excursões para apreciar o espetáculo que a terra oferece. Os comboios detêm-se na estação do Pocinho, onde os turistas são esperados por camionetas que os conduzem por percursos previamente estudados e geralmente sinuosos. Quem sobe o Rio Douro de barco, passa por várias eclusas e pode desembarcar na Barca d`Alva, iniciando ali o passeio terrestre. 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

                                  

          DESPENALIZAÇÃO DA CANNABIS


                                                                    IV

                                                        CONCLUSÃO


Embora a História se componha de avanços e recuos, parece iminente a mudança de comportamento da generalidade dos governos ocidentais face à questão da droga. Diz-se que, em alguns estados norte-americanos, as receitas fiscais sobre a venda de cannabis vão ser o dobro das provenientes do álcool. Há quem comece a afiar os dentes e sugira que a cannabis, a generalizar-se a legalização, irá constituir «a próxima grande indústria americana».


A nível internacional, o ponto de viragem poderá ser a próxima reunião da Comissão de Estupefacientes da ONU, a realizar em 2016.
Será útil deixar aqui algumas das conclusões da Comissão Global de Políticas sobre Drogas, constituída por autoridades de todos os continentes. O relatório foi publicado em Julho de 2011.


A guerra global contra as drogas fracassou, deixando um rasto de consequências devastadoras para pessoas e sociedades em todo o mundo.
É urgente e imperativa uma revisão completa das leis e políticas de controlo de drogas nos planos nacionais e mundial.
Deve acabar a política repressiva e ineficaz de criminalização, marginalização e estigmatização de pessoas que usam drogas sem causar danos a outras pessoas.
Devem oferecer-se serviços de saúde e possibilidades terapêuticas a todos que deles necessitem. A metadona e a buprenorfina deverão ser disponibilizadas. Os programas de tratamento assistido com heroína, que obtiveram êxito em alguns países europeus e no Canadá, deverão ser alargados, assim como os programas de troca de seringas que têm contribuído para reduzir a propagação do HIV e de outras doenças sero-transmissíveis.
Respeitar os direitos humanos das pessoas que usam drogas e abolir práticas abusivas como a detenção, o trabalho forçado e o abuso físico e psicológico. Aplicar os mesmos princípios às pessoas envolvidas nos mercados ilegais, tais como agricultores e pequenos traficantes.
O encarceramento de dezenas de milhares destas pessoas ao longo das últimas décadas encheu as prisões e destruiu vidas e famílias, sem reduzir a disponibilidade de drogas ilícitas e o poder das organizações criminosas.
As ações repressivas devem ser dirigidas para a luta contra organizações criminosas violentas com vista a reduzir o seu poder e influência, bem como a sua capacidade de gerar corrupção. Mais do que reduzir o mercado da droga, essas ações repressivas devem procurar reduzir os danos que o tráfico de drogas causa às comunidades.
Deve investir-se não só na prevenção do uso de drogas por jovens como em evitar que os consumidores venham a ter problemas sérios de saúde.
Desistir das mensagens simplistas e ineficazes como as palavras de ordem «Basta dizer não» ou «Tolerância zero», substituindo-as por ações educativas e programas de prevenção complementados por iniciativas sociais e de apoio recíproco.
A hora de agir é agora.

Termino registando os nomes dos comissários que elaboraram o parecer.


Antigo Presidente da Polónia
Activista dos Direitos Humanos, antigo observador especial da ONU no Paquistão.
Activista de Direitos Humanos e de SIDA, antigo observador especial na ONU na Índia.
Escritor mexicano.
Antigo Presidente da Colômbia
Antigo Presidente do México
Antigo Presidente do Brasil
Antigo Primeiro Ministro da Grécia
Antigo Secretário de Estado dos EUA  
Antigo Alto Comissário Europeu (Espanha)
Banqueiro, Presidente do World Trade Center Memorial (EUA)
Antigo Presidente de Portugal
Antigo Secretário Geral das Nações Unidas (Ghana)
Antiga Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos (Canada)
Antiga Secretária Geral da Câmara Internacional de Comércio (Suíça)
Escritor (Peru)
Professor de Medicina, antigo Director Executivo do Fundo Global de Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária.
Antigo Presidente da Nigéria, Presidente da Comissão de Droga da África Ocidental.
Antigo presidente da Reserva Federal Americana e da Organização de recuperação económica
Antigo Presidente da Câmara de Praga e Deputado (República Checa)
Antigo Presidente do Chile 
Empresário, defensor de causas sociais ( Reino Unido)
Antiga Presidente da Suíça e Ministra dos Assuntos Domésticos.
Antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega e antigo Alto-Comissário da ONU para os Refugiados.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

                        

    LEGALIZAÇÃO DA CANNABIS

                                  III

          A EXPERIÊNCIA HOLANDESA



A abordagem do problema da droga por parte da Holanda continua a ser amplamente debatida, dentro e fora do país. Enquanto alemães e franceses têm considerado, de modo geral, que o uso recreativo de drogas é um mal em si mesmo e deve ser combatido, a Bélgica parece tentada a imitar o modelo holandês e a Suíça está dividida sobre essa questão. A crescente tomada de posição de organismos e personalidades internacionais quanto às maneiras de abordar a questão das drogas irá certamente influenciar as opiniões públicas a as políticas governamentais na Europa.



Na Holanda, a responsabilidade pelas políticas que dizem respeito à droga é dividida entre os ministérios da Saúde e da Justiça. O investimento anual nesta área atinge montantes consideráveis.
Em parte «para inglês ver», o governo na Holanda tem adotado algumas medidas legais curiosas. Por exemplo: o ministro da Justiça proibiu a venda de canábis aos turistas. Para entrar num coffeeshop passou a ser necessário um cartão especial, rapidamente crismado de «pass erva». 



   Os protestos enérgicos dos proprietários desses estabelecimentos e do próprio Prefeito de Amesterdão, receosos de verem cair as receitas turísticas, fez o governo recuar, permitindo que cada província definisse a sua própria política de droga. Em Amesterdão, os cartões foram rejeitados e a entrada nos coffeeshopps é, como dantes, livre para todos os maiores de dezoito anos.



O governo propôs-se também proibir a propaganda da venda de «erva». Os estabelecimentos são geralmente obrigados a afixar os preços dos produtos que comercializam. Reduzir o tamanho dos cartazes ou torná-los menos visíveis não irá provavelmente produzir quaisquer efeitos práticos.



A droga é um tema de saúde pública. Para mim (e para muitos) a questão assenta em saber se se o acesso facilitado à canábis e a outras substâncias relativamente pouco agressivas serve ou não como primeiro degrau para a escalada que leva à viciação em drogas «duras».



O problema vai tendo uma solução estatística. O consumo de drogas «duras» na população de Amesterdão aumentou ou não após a introdução da legislação liberatória? Os números disponíveis mostram que estabilizou o número de viciados nesses produtos, enquanto a idade média dos adictos subiu para os 38 anos. A mortalidade relacionada com o consumo de drogas é das mais baixas da Europa.


A questão da descriminalização das drogas ditas «leves» continua, ainda assim, a dividir os estudiosos. Levada a cabo num único país, na ausência duma política comunitária comum, arriscou-se a criar focos de instabilidade social e até de delinquência. No entanto, a experiência está feita e devem ser retiradas conclusões dos dados obtidos.
Nenhum estudo de qualidade demonstrou uma relação de causa e efeito entre o uso de cannabis e o consumo ulterior de drogas mais «pesadas», como a heroína e a cocaína.



As características pessoais e ambientais podem predispor os consumidores à viciação noutro tipo de produtos. Diz-se que, neste contexto, as subculturas locais têm uma importância maior que a eventual experiência do uso de cannabis.


Outras variedades de droga são bem visíveis para os turistas que vistam Amesterdão. Trata-se dos chamados «cogumelos mágicos», com efeitos psicadélicos. 



   Foram responsabilizados por algumas mortes, não por efeitos directos da droga, mas por acidentes ocorridos sob a influência da ação dos cogumelos. O governo holandês limitou consideravelmente a sua comercialização.

                                                                    (continua)


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015


  LEGALIZAÇÃO DA CANNABIS

                               II



   A cannabis é o cânhamo comum, usado há muitos séculos em cordoaria. Nasce sem ser cultivada em diversas áreas tropicais. Sabe-se, há perto de três milénios, que altera o funcionamento cerebral. Foi usada por chineses, indianos, gregos, romanos e espalhou-se mais tarde pelo mundo muçulmano. O Corão proíbe o consumo do álcool, mas julgo que é omisso no que se refere à canábis. 




   Na antiga cultura germânica a «erva» foi associada à deusa do amor, Freya. Segundo alguns tradutores, o óleo da unção mencionado no Êxodo continha cannabis. Algumas seitas cristãs modernas proclamam-na como a Árvore da Vida.
   A utilização recreativa desta droga cresceu ao longo do último século.
  As designações «maconha», «erva», «liamba» e «marijuana» referem-se às folhas secas das plantas de Cannabis e às flores das plantas femininas. São as formas mais usadas. O teor de tetrahidrocanabinol (THC) vai dos 3 aos 22 por cento. Lembre-se que a canábis utilizada na produção industrial de têxteis contem menos de 1% de THC.


   O «haxixe» é uma resina concentrada. É mais forte que as folhas secas e pode ser fumado ou mastigado.



   Os extractos são designados habitualmente como «óleo de haxixe» e possuem uma taxa elevada de canabinoides.



  O «kief» obtém-se dos tricomas (não do pólen). Pode ser compactado ou consumido em forma de pó.



   O «baseado» ou «charro» é um cigarro de folhas secas de cannabis. Poderá ter tabaco associado.



   Existe ainda uma grande variedade de infusões.
   Os efeitos da cannabis na mente humana são bem conhecidos. Variam, de acordo com a predisposição pessoal e as características da «erva» consumida. As sensações mais comuns são de bem-estar e de descontracção. Muitas vezes, sobrevém o riso fácil, mas pode ocorrer a angústia. A percepção do espaço e do tempo é alterada. A atenção e, muitas vezes, a memória, são afectadas transitoriamente.   
   A euforia e o relaxamento são induzidas pelo pelo tetrahidrocarbinol. É frequente a tendência para a introspecção e a inclinação para o pensamento filosófico. Seguem-se, muitas vezes, o aumento do ritmo cardíaco e a sensação de fome. São usuais a injecção conjuntival (o sintoma mais visível) e a sensação de «boca seca».




   O estado de espírito volta ao normal cerca de três horas após o consumo da droga. Quando se auto-administram maiores quantidades de produto, o tempo de recuperação é mais prolongado.
   As consequências do consumo crónico fazem-se sentir essencialmente nos pulmões (quando a droga é fumada) e têm alguma semelhança com as do tabagismo. Aumentam as probabilidades de contrair bronquite arrastada e, eventualmente, de doença pulmonar crónica obstrutiva. Julga-se que o risco de desenvolvimento de cancro do pulmão fica também acrescido. Os níveis de testosterona podem descer. Poucos outros efeitos indesejáveis têm sido constatados no consumo a longo prazo. Podem ocorrer perturbações da memória, com a consequente limitação da capacidade de aprendizagem. Outra das possíveis consequências negativas é o desinteresse, com a perda de motivação necessária para enfrentar as agruras da vida. Curiosamente, o consumo da cannabis comporta um risco de dependência inferior ao da nicotina e do álcool.
   Em defesa do consumo da cannabis, não há muito a dizer. Por reduzir as náuseas e os vómitos, tem sido utilizada em algumas modalidades de tratamento da SIDA e de quimioterapia. É usada ocasionalmente como medicação adjuvante no combate às dores e a contractura muscular. Por diminuir a pressão intra-ocular, poderá ser aproveitada no controlo do glaucoma. 


                               Singapura
O modo de encarar o consumo de canábis varia amplamente conforme as regiões do mundo. Enquanto na Holanda o consumo é despenalizado e no estado americano do Colorado o comércio passou a ser legal, em países como a China, a Tailândia e Singapura, a venda pode implicar a prisão perpétua e até a pena de morte.

                                              (Continua)


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

         
      LEGALIZAÇÃO DA CANNABIS

                                     I

Há dias (08-05-2014), a ministra portuguesa da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, defendeu, em entrevista à TSF, a despenalização do consumo da cannabis e a sua venda legal nas farmácias. Receoso de perder votos, o primeiro-ministro Passos Coelho apressou-se a declarar que se tratava duma opinião pessoal da ministra, a qual não falara em nome do governo.


        No entanto, Paula Teixeira da Cruz limitara-se a juntar a sua voz a um coro crescente de personalidades intocáveis que propõem a liberalização das drogas ditas «leves».
Em Junho de 2011, a Comissão Global sobre Política de Drogas, que integrava nomes como os de Kofi Annan, Mario Vargas Llosa, Javier Solana e George Schultz pronunciou-se pelo falhanço da guerra global às drogas e pela necessidade de se encontrarem caminhos alternativos.


Kofi Annan

Em Dezembro de 2013, o Uruguai tornou-se o primeiro país do mundo a legalizar «a produção, a distribuição e a venda» de canábis. Meses depois, o secretário nacional de drogas do país proclamava que «o número de mortes ligadas ao uso e comércio da droga fora reduzido a zero», embora reconhecesse que a liberalização levada a cabo fosse susceptível de incrementar o número de utilizadores.

José Mujica, presidente do Uruguai 

O Colorado, em Novembro de 2012, autorizara já a plantação de até seis pés de canábis em espaço fechado para cidadãos com idades superiores a 21 anos. O produto pederia ser oferecido a amigos. Em Novembro de 2014, os eleitores norte-americanos referendaram a legalização da canábis. A proposta foi aprovada nos estados de Alasca, Oregon e Washington. As perspectivas do nascimento duma indústria extremamente lucrativa são altas entre os economistas americanos.


Em Junho de 2014, o antigo presidente da República portuguesa Jorge Sampaio, em parceria com a antiga chefe de estado suíça, Ruth Dreyfuss, fez publicar, no Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico de Drogas, um artigo em que defendia a «instituição de uma nova estratégia internacional para o século XXI» face ao problema das drogas. Tinham sido numerosos os países a propor o termo da «guerra às drogas» em Março, na sessão da Comissão de Estupefacientes da ONU.


Pena Nieto, Presidente do México

Logo após os referendos norte-americanos, os presidentes do México, Honduras, Belize e Costa Rica pediram aos países consumidores (leia-se EUA) que procedessem à revisão das leis existentes.
Trata-se duma onda de fundo, a nível mundial.  As mudanças esperadas irão também aplicar-se, ainda que de forma diferente, à abordagem do problema das drogas «duras». Falarei aqui apenas da marijuana. Não é preciso ser profeta para adivinhar a próxima liberalização do uso das drogas «leves» na Europa.
Em Portugal, o Bloco de Esquerda apresentou no Parlamento alguns projectos de lei com essa intenção. Espera-se, para breve, outra iniciativa que aponte no mesmo sentido.

                                                      (Continua)


                                    

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

                    

        PADRE COSTA DE TRANCOSO





Trancoso é uma pequena cidade muralhada da Beira Interior Norte. Dista 37 quilómetros da Guarda e 46 de Foz Coa.  É conhecida sobretudo pelas figuras incomuns do padre Francisco da Costa, que viveu no século XV, e, sobretudo, pela de Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro, profeta e trovador do século XVI. No último quartel do século XX sobressaiu na povoação a figura de Ângelo de Trancoso, contrabandista, valente, que serviu de homem de mão a alguns elementos da extrema-direita portuguesa nos anos que se seguiram ao 25 de Abril. Publicou recentemente a sua auto-biografia.


Vou falar apenas do padre Costa, referindo o seu currículo peculiar, conforme consta da sentença contra ele proferida em 1487. 
Fez duzentos e noventa e nove filhos, «sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino» em cinquenta e três mulheres. À própria mãe, fez dois. À sua tia, Ana da Cunha, três. «De cinco irmãs, teve dezoito filhas». Dormiu com vinte e nove afilhadas, tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos. «De nove comadres teve trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas, de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas». Não fiz as contas finais e duvido de que ele as tenha feito. Atrevo-me a pensar que os homens da terra, na época, procurassem deslocar-se com os trazeiros encostados às paredes. 
«O padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, da idade de sessenta e dois anos foi condenado a ser degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime de que foi arguido e que ele mesmo não contrariou».
A sentença não foi executada. «El Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487 e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo».


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015


                     MENÇÃO HONROSA 
      NUM CONCURSO BRASILEIRO DE CONTOS
Trata-se duma pequena distinção, atribuída por um município do Estado de S. Paulo, mas é a primeira vez que recebo reconhecimento internacional.

IV PRÊMIO LITERÁRIO CIDADE POESIA
Resultado

É com satisfação que a ASES – Associação de Escritores de Bragança 
Paulista – comunica o resultado final do IV Prêmio Literário Cidade Poesia:

-Total de inscrições válidas –367

Categoria autor bragantino:
- título do conto: Sapo
Regina Maria Zanini Damazio

Categoria Geral:
1º lugar: Herança
Bruna Oliveira Gonçalves -  Limeira – SP
2º lugar:  Guerra
Maria Cecília Consentino Franco – Piracicaba – SP
3º lugar: Esperanza
Camilo de Lélis Furlin – Porto Alegre – RS

Menções Honrosas:
(em ordem de classificação)

- A lagartixa – António Alberto Sancho Trabulo – Setúbal – Portugal
- Amarração – Edmar Monteiro Filho – Amparo – SP
- Semana da Alta – Geiza Martins – São Paulo - SP
- Carta do comandante à mãe do pracinha – Roberto Klotz – Brasília – DF
- Última Parada – Vinicius Salfer – Joinville – SC
- Gerânios não morrem – Janaína Quitério -  São Paulo – SP

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015


           JE NE SUIS PAS CHARLIE!

                                              III


Há razões de queixa bem conhecidas por parte das populações e dos líderes maometanos em relação ao chamado ocidente.


A criação do Estado de Israel em território árabe, em 1948, deu origem a uma série de guerras periódicas sem fim à vista. Israel é o principal aliado americano no Médio Oriente. 


O poderoso lobby judaico nos E.U.A. parece inamovível. O apoio que dão aos seus confrades tem-lhes permitido vencer todas as guerras e desrespeitar sistematicamente as deliberações da ONU.


A invasão do Iraque (um grande produtor de petróleo) em 2003, levada a cabo por uma coligação liderada pelos norte-americanos, a coberto de um pretexto reconhecidamente falso, desestabilizou toda a região. Os confrontos entre sunitas e xiitas têm-se mantido, com intermitências. Em 2014, rebentaram combates sangrentos no norte e no leste do país, onde a maioria da população é sunita. Seguiu-se, como já vimos, a criação do ISIS. Muitos observadores receiam que o conflito alastre a estados vizinhos.


A intervenção militar da NATO na guerra civil da Líbia em 2011, com o derrube e a execução do velho líder Muammar Gaddafi, lançou a instabilidade no país, que é actualmente disputado por dois governos e dois parlamentos. Ainda no dia 5 de fevereiro ocorreram combates em Benghazi, a principal cidade do Leste deste país norte-africano (também produtor de petróleo...)
Recentemente, o grupo terrorista Boko Haram tem assolado o nordeste da Nigéria, prolongando o espaço de actuação do ISIS.
O petróleo barato custa, afinal, muito caro. A guerra que os americanos levaram ao Iraque e a Tripoli está a fazer correr sangue no velho continente.
Nos países árabes, a pobreza, a repressão, a corrupção, a falta de educação e de perspectivas estão na origem da raiva.
Aos conflitos que grassam em boa parte do Médio Oriente há a juntar o choque civilizacional patente nos países ocidentais, que se têm mostrado incapazes de lidar com as suas crescentes populações de fé muçulmana.
Muitos maometanos europeus sentem-se entre dois fogos. Sabem que a violência leva ao medo e que o medo engorda os preconceitos. Receiam o isolamento social e temem pela sua segurança. Um pouco mais e haverá mesquitas a arder um pouco por toda a Europa.


Trata-se de um círculo vicioso: a violência engendra justificados preconceitos contra os que a praticam, mas também contra a maioria dos inocentes que se parecem com eles. A percepção dos preconceitos gera mais violência.
Muitos muçulmanos sentem-se desnecessariamente ofendidos. Até os mais moderados encaram as caricaturas do profeta como blasfémias.
E se não tivessem existido as caricaturas? Evitar-se-iam actos terroristas? Não. O terrorismo tem uma dinâmica própria. O ataque dar-se-ia noutro lugar, com vítimas diferentes.
Segundo a «Time» de 19 de Janeiro, o ataque ao Charlie Hebdo tinha sido anunciado: antes do Natal, em eventos separados, dois condutores lançaram os automóveis contra multidões que faziam compras em Nantes e Dijon. As instalações da revista haviam sido já atacadas à bomba em Dezembro de 2011.
A França abriga mais de 5 milhões de muçulmanos. Muitos são filhos de emigrantes e têm nacionalidade francesa. Trata-se da maior população islâmica da Europa. Ora, o desemprego em França ronda os 11% e é maior nas comunidades emigradas. Muitos jovens muçulmanos estão desiludidos com as perspectivas de vida e sentem a hostilidade dos franceses europeus.
A questão da integração dos grupos islamizados nas sociedades ocidentais é complexa e demorará décadas a resolver. Não é viável expulsar os muçulmanos na Europa e, se o fosse, não resolveria o problema. Resta procurar pontos de encontro entre as civilizações, ao mesmo tempo que se reforça a segurança. Não conheço outro caminho. Julgo que ninguém conhece.
Sem abdicar dos grandes princípios que orientam a nossa civilização, será necessário procurar entender o Outro e respeitá-lo. Provocações desnecessárias não constituem um exercício de liberdade. JE NE SUIS PAS CHARLIE.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

                  
          JE NE SUIS PAS CHARLIE!

                                II


Há quem diga que a guerra generalizada entre cristãos e muçulmanos já começou. O Estado Islâmico do Iraque e da Grande Síria (ISIS) assenta num grupo jihadista que proclamou um califado nas regiões que domina na Síria e no Iraque. Abu Bakr al-Baghdadi foi nomeado califa e reclama autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo. Provavelmente, não viverá muito tempo.
Os jihadistas movimentam-se à vontade em meia dúzia de países, do norte do Pakistão ao Chade, e exploram campos petrolíferos.


Curiosamente, esse exército islâmico radical está a exercer um notável efeito de atração entre jovens muçulmanos residentes em países ocidentais. São milhares os que deixam o conforto da vida na Europa para irem lutar e morrer pelo califa.  
A guerra, por enquanto, é essencialmente civil. As vítimas dos combates publicitados quase diariamente nas televisões são quase todas muçulmanas. Poderá deixar de ser assim, se os ataques aéreos efectuados pela NATO e pelos seus aliados passarem a ser complementados com a participação de tropas terrestres ocidentais.


Por outro lado, não cessam os apelos para que os militantes islâmicos façam correr o sangue dos cristãos nos seus países de acolhimento. Os atentados de Paris enquadram-se neste contexto.
A tratar-se duma guerra, será conveniente ter em conta todos os factores que lhe possam influenciar o desenlace. Poucos combates se ganham quando não existe o cuidado de compreender as diversas características das partes que se opõem nem se faz um esforço para reduzir o número de possíveis inimigos, chamando para o nosso lado todos os elementos aproveitáveis. Os chefes militares procuraram sempre conquistar aliados.
Bem… Nem sempre. No Leste de Angola, durante os primeiros anos da década de 70, ocorreu a chamada «Operação Madeira». O general português Bethencourt Rodrigues e o chefe guerrilheiro Jonas Savimbi iniciaram negociações intermediadas por madeireiros e alcançaram um acordo: a UNITA e o exército português não se atacariam mutuamente, libertando forças para combaterem o MPLA e a FNLA. A situação militar no Leste passou a ser favorável aos militares de Lisboa.
Em Abril de 1973, Bethencourt Rodrigues foi substituído pelo general Abel Raposo Hipólito. Em Setembro, Hipólito lançou uma vasta ofensiva sobre as bases da UNITA e garantiu a Portugal a hostilidade daquele movimento. Não terá prestado grande serviço ao seu país.
Prossigamos. O assassinato bárbaro dos jornalistas do Charlie Hebdo foi encarado como um ataque inaceitável à liberdade de expressão.



Ora, a liberdade de expressão, como todas as liberdades, acaba quando afecta a liberdade e a dignidade dos outros. Servem para alguma coisa as caricaturas do profeta Maomé? Alguém ficou mais feliz, ou mais sabedor, depois de as ver? No meu ponto de vista, tratou-se de provocações gratuitas e perfeitamente dispensáveis. A estupidez e a violência da resposta não dão razão às vítimas, que a não tinham. Mesmo os muçulmanos moderados, que pretendem viver em paz na Europa, se sentem humilhados e ofendidos com o que consideram um desrespeito por um dos seus símbolos mais sagrados.
De que serve lançar gasolina na fogueira?

                      Continua

domingo, 8 de fevereiro de 2015

           
             JE NE SUIS PAS CHARLIE!

                                       I



Ao atingirem o coração da Europa, os atentados de 7 de Janeiro em Paris obtiveram um impacto excepcional no imaginário ocidental. No entanto, o número de vítimas mortais esteve bem longe das duas mil pessoas massacradas na mesma semana pelos militantes do Boko Haram na Nigéria enquanto passou quase despercebida a explosão de um carro armadilhado na capital do Yemen que provocou cerca de 40 vítimas. 
      Poderemos estar perto duma guerra global.



 Os assassinatos dos cartoonistas franceses do Charlie Hebdo e as mortes ocorridas em ataques separados vieram relançar o debate sobre o terrorismo islâmico e os modos de o combater. As respostas iniciais ficaram-se, tanto quanto sei, pelo reforço das medidas de segurança, incluindo a troca atempada de informações entre as várias polícias nacionais e a eventual restrição da livre circulação de pessoas no espaço Schengen.


A resposta visível da opinião pública europeia foi marcadamente emocional. Cerraram-se fileiras em torno da sagrada liberdade de expressão e agudizou-se o ódio aos muçulmanos. Lembre-se que circulam, há anos, na Internet, mensagens de conteúdo xenófobo, alertando para o risco de submersão da sociedade ocidental, tal como a idealizamos, face à presença crescente das gentes de credo muçulmano.
Não é, aliás, possibilidade que a História desminta. Aconteceu no Líbano nos anos 50 a 80 do século passado. 


     O Líbano, a que chamavam «Suíça do Médio Oriente) era o país mais rico e estável da região. A população era cristã maronita (51% dos habitantes, em 1926), e muçulmana (49%), com largo predomínio de sunitas. A criação do Estado de Israel levou ao exílio de muitos palestinianos para os países vizinhos, incluindo o Líbano. Esta emigração, aliada a uma taxa mais elevada de natalidade entre os muçulmanos, modificou a demografia, tendo os cristãos passado a ser minoritários. Em Abril de 1975, teve início uma guerra civil que duraria dezasseis anos e deixaria parte do país em escombros.


A emigração de muçulmanos para a Europa não tem parado de crescer. É particularmente importante na Espanha, França e Reino Unido, que tiveram colónias muçulmanas, e na Alemanha, onde existe uma importante comunidade de origem turca. Em Portugal, uma em cada 200 pessoas segue os ensinamentos do Profeta. Encontram-se nas grandes cidades do mundo gentes de todas as raças e religiões.
Não disponho de dados que me permitam avaliar, na generalidade, a adaptação das minorias maometanas aos países de acolhimento. Atrevo-me a supor que é globalmente boa e que a maior parte dos muçulmanos pretende trabalhar e, se possível, prosperar em paz. Haverá falhas graves na integração, como o demonstra o facto de estarem continuamente a surgir radicais islâmicos nos países ocidentais. Se, desde 2011, 1200 cidadãos franceses se juntaram aos grupos islamitas que combatem na Síria e no Iraque, haverá práticas profundamente erradas no modo como a Europa aborda a coexistência de culturas. Em casos de divórcio, é pouco comum que a culpa seja unicamente dum dos cônjuges.


As declarações repetidas dos líderes islamitas radicais vão no sentido de alargar a «guerra santa». Uma parte dos muçulmanos, em vez de aceitar os valores e códigos de vida das sociedades em que se instala, pretende repor o antigo império árabe. Lembre-se que a península ibérica foi colonizada pelo Islão durante perto de oito séculos (a partir de 711) e que os vestígios dessa ocupação são ainda aparentes entre nós, nomeadamente na linguística. Basta lembrar que uma das maneiras de dizermos «Deus queira» é «oxalá». Curiosamente, já na vigência da nossa primeira República, o uso da «burka» (bioco) voltou a ser proibido em Olhão. 


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