DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 19 de dezembro de 2009

MALACA DE OUTROS TEMPOS


Malaca era terra de sonhos. O estreito a que dá nome separa a ilha de Sumatra da península da Malásia. Misturam-se ali as águas dos oceanos Índico e Pacífico. Disse-se e escreveu-se que, a meio do século XV, se falavam na cidade oitenta e quatro línguas diferentes.
As monções de Sudoeste e de Nordeste traziam embarcações de todos os géneros, carregadas de mercadorias. O Indico dava acesso ao Golfo Pérsico e ao Mar Vermelho. Comerciava-se com a Mesopotâmia, com Alexandria e com Veneza. A Oriente, ficavam as rotas de e para Cathay (China) e Cipangu (Japão). Os misteriosos léquios, ou guoses, vinham de parte incerta. Não eram chineses, japoneses, nem coreanos. A gente de Malaca achava-os parecidos com os portugueses.
Nos templos, e fora deles, ouviam-se orações aos deuses conhecidos e a alguns ignorados. Desembarcava gente de toda a parte. Ninguém perguntava a ninguém quem era ou de onde vinha. Bastava discutir o preço dos bens a trocar.
Sucessivos impérios disputaram o controle do comércio no estreito. Afonso de Albuquerque, um dos portugueses mais ilustres de sempre, tão grandioso sobre as ondas como Alexandre e Napoleão em terra firme, chegou a Malaca em 1511 e tomou a cidade, avisando previamente os seus oficiais de que a conquista de nada valeria se os comerciantes locais, os produtores de riqueza, fossem hostilizados.
Albuquerque nunca comandou, ao mesmo tempo, mais de mil e quinhentos marinheiros. Com eles e com os seus canhões, encerrou as portas do vasto Oceano Indico. Só passava quem falava português ou pagava para entrar ou sair. O grande almirante lançou as bases do primeiro Império Português, o Império Comercial do Oriente, que havia de durar 130 anos.
Malaca mudou várias vezes de mãos. Foi conquistada pelos holandeses por volta de 1641 e, mais tarde, tomada pelos ingleses. Aos poucos, foi perdendo a importância comercial.
No século XIX era de novo governada por holandeses, mas nada restava da grandeza antiga. Contaria umas cinco mil almas, de sangue tão misturado que poucos se atreveriam a classificar-lhes a raça.
A terra de sonhos passara a ser terra de sono. O pequeno grupo de missionários portugueses exercia o culto na igrejinha de Nossa Senhora do Rosário. A igreja de S. Paulo fora transformada em depósito de munições.

Referências:
Pintado, Manuel. Um passeio por Malaca antiga, Instituto cultural de Macau, Macau, 1990.
Trabulo, António. Eu, Camillo, Parceria A. M. Pereira, Lisboa, 2006.
Fotografias e gravuras:
Pintado, Manuel. Um passeio por Malaca antiga, Instituto cultural de Macau, Macau, 1990.
História de Portugal, Volume 4. Publicações Alfa. Lisboa, 1983.

Artigo já publicado no Milhafre








Túmulo vazio de S.Francisco Xavier

MOÇÂMEDES ANTIGA



A costa de Moçâmedes foi explorada por Diogo Cão em 1485. O navegador assentou um padrão no Cabo Negro e outro mais a Sul, no Cabo da Serra, em território da actual Namibia. O que resta do padrão do Cabo Negro está exposto no átrio da Sociedade de Geografia, em Lisboa.
A povoação de Moçâmedes foi fundada num oásis situado na Angra do Negro. Começou por ser um presídio para degredados.
O clima era benigno e havia terras férteis. Existiam no Brasil, nessa altura como noutras, portugueses na miséria. Viviam-se tempos de agitação social e a colónia lusitana de Pernambuco era hostilizada. Bernardino Abreu e Costa, miguelista exilado em Pernambuco, dispôs-se a dirigir uma colónia agrícola. O governo de Lisboa precisava de brancos em Angola e proporcionou-lhes meios de transporte. A barca “Tentativa Feliz”, protegida pelo brigue “Douro”, fundeou em Moçâmedes em 1849 trazendo perto de 180 portugueses, entre homens, mulheres e crianças.
A instalação dos colonos processou-se com alguma dificuldade. Mesmo assim, como a crise social em Pernambuco se agudizava, em Novembro de 1850 desembarcaram mais 107 emigrantes. A vila de Moçâmedes foi construída junto à praia, de acordo com um plano simples e geométrico. Quatro ruas paralelas entre si eram cortadas por travessas e formavam quarteirões regulares. No final do século XIX já havia iluminação a petróleo. As casas, de um só piso, tinham quase todas quintal.
Os habitantes de Moçâmedes aproveitaram os terrenos de aluvião das margens dos rios Bero e Giraúl. Giraúl quer dizer “fim do caminho”. Eram terras férteis mas escassas. Caminhando durante uma hora, chegava-se às Hortas, na margem do rio Bero. O Bero era também chamado Rio dos Mortos. Morto era ele. Só corria no tempo das chuvas. No resto do ano era preciso cavar buracos na areia para alcançar água. O sítio tinha muita vegetação. A gente das Hortas vivia da produção de aguardente. Dispunha de plantações de cana-de-açúcar, de máquinas de moagem e de alambiques. A técnica fora trazida do Brasil.
Abundavam as árvores de fruta. Viam-se lindos pomares de laranjeiras e pessegueiros. A pereira e a macieira também se davam bem. As oliveiras desenvolviam-se, e havia algumas vinhas de bacelo.
Para Leste, numa distância de cem milhas, a terra elevava-se progressivamente até alcançar a uma parede sólida com mais de mil metros de altura. Era a serra da Chela. No alto, o terreno fazia-se plano e o ar refrescava.
Na zona entre a serra e o mar vivia uma população dispersa de gentios. Viam-se nas ruas da vila. Vinham comerciar. Vendiam peles, galinhas, ovos e mel. Compravam panos, missangas e vinho.
Não dispondo de mais espaços de cultura, os colonos desenvolveram o comércio e a pesca. O mar era rico em peixe. Não era possível consumi-lo todo. Os pescadores salgavam-no e punham-no a secar em grades, ao sol. Depois acondicionavam-no em fardos que os comerciantes vendiam aos negros do planalto. A vila foi progredindo.
Os de Moçâmedes exportavam gado para longe. Não o criavam, porque não havia pastos na região. Recebiam-no dos negociantes que o compravam no interior.
Ali chamavam funantes aos que andavam pelo mato a comerciar. Aquela gente ia a toda a parte. Deixava as cidades costeiras, subia as margens dos rios secos e, às vezes, fixava-se. Havia povoações espalhadas por uma grande área do interior. Um grupo de pescadores algarvios estabeleceu-se em Porto-Alexandre, mais a Sul, na costa deserta.
Que eu saiba, na História da colonização portuguesa, Moçâmedes foi a única cidade portuguesa desenvolvida por colonos repetentes, por gente de torna-viagem.

Referências:
Moraes, J.A. da Cunha, Álbum photographico e descriptivo, África Occidental. David Corazzi Editor, Lisboa, sem data.
Trabulo, António. Os Colonos, Esfera do Caos, Lisboa, 2007.
Fotografias: Moraes, J.A. da Cunha, Álbum photographico e descriptivo, África Occidental. David Corazzi Editor, Lisboa, sem data.

(Artigo já publicado no Milhafre.)



terça-feira, 15 de dezembro de 2009

CAMILO NO PANTEÃO NACIONAL




No mês de Junho de 1910, irão contar-se 120 anos sobre a morte de Camilo Castelo Branco. Não se poderá falar de comemoração porque os suicídios não se comemoram, mas entendo que a data deverá ser assinalada.
O século XIX permitiu fixar as bases da língua portuguesa actual. Essa obra deve-se a escritores de génio como Garrett, Camilo e Eça de Queirós (que Alexandre Herculano me perdoe...) e a grandes poetas como Antero de Quental .
Neles enraíza tudo o que de melhor se escreveu em Portugal, desde então.
Entre esses grandes vultos, nenhum foi tão genuinamente português como Camilo, tão apegado à fala e aos costumes da nossa gente. Garrett e Eça correram mundo e receberam influências daqui e dali. Camilo raramente terá postos os pés fora do solo pátrio. É nas suas páginas que mais claramente se sente o pulsar dos corações portugueses.
O seu corpo foi depositado no Jazigo de Freitas Fortuna, no Cemitério da Irmandade da Lapa, no Porto.
É tempo de os seus restos mortais serem transladados para o Panteão Nacional, onde já repousa Garrett. Proponho iniciar na Internet um movimento de recolha de assinaturas destinado a pressionar a ministra da Cultura nesse sentido.
António Trabulo

domingo, 6 de dezembro de 2009

SALAZAR E EU





António de Oliveira Salazar foi o único homem cuja morte festejei. Não me gabo disso. Ia nos 28 anos e não me libertara ainda de certa visão maniqueísta do mundo. Hoje, não celebraria a morte de ninguém.
Fiz uma festa, à noitinha, com o pessoal das máquinas, que era todo de Esquerda. Navegávamos a bordo do navio-hospital Gil Eannes, onde eu cumpria o serviço militar obrigatório.
Juntamente com o meu colega MBP, pressionámos o capelão para não rezar missa por Salazar. O padre era impressionável. Missa, tinha de haver, mas, durante a homilia, seguida por toda a frota bacalhoeira através dos altifalantes, o celebrante foi parco em elogios e parecia quase estar a pedir desculpa por rezar por aquela alma.
Muitos anos mais tarde, escrevi e publiquei O Diário de Salazar.
Os meus amigos de Esquerda acusaram-me de deriva direitista. Os meus poucos amigos de Direita lastimaram a ausência de encómios ao ditador.
Eu fiquei contente comigo, quando reli o livro.
Os homens públicos têm lado de dentro, e poucas coisas na vida são desenhadas em branco puro, ou em negro carregado. Balança quase tudo entre múltiplos tons de cinzento.
Salazar, de certo modo, inventou-se a si próprio, para poder liderar um Portugal desgastado pela insegurança dos últimos anos da Monarquia e de quase todos os da primeira República. Pôs habilmente de lado a questão do Regime e juntou os conservadores republicanos aos monárquicos. Estavam reunidas as condições para aparecer um Dom Sebastião sábio, seguro de si, incorruptível e alheio a dúvidas.
Governou ininterruptamente Portugal, de 1928 a 1968. Foi uma cadeira, e não uma revolução, quem o deitou abaixo.
Nenhum governo se aguenta tanto tempo sem ser apoiado pelas forças dominantes no País. Oliveira Salazar foi hábil em adivinhar tendências e em gerir equilíbrios.
Fernando Dacosta escreveu, no prefácio ao meu livro:
Salazar, um dos homens mais tristes, mais solitários que dirigiram o País, transformou o seu consulado no canto de cisne do seu gigantesco e secular império, soçobrado para sempre consigo.
O Portugal dele não existe mais, é uma ficção, um nevoeiro
.

O FUNERAL DE VIRIATO








O que melhor conhecemos dos Lusitanos são relatos de combates. Os guerreiros agitavam as longas cabeleiras para atemorizar os inimigos e avançavam para a luta em saltos rítmicos, entoando cânticos bélicos. Eram-lhes reconhecidos tanto o valor como a inocência. Incapazes, em geral, de ultrapassar as divisões tribais para se apresentarem como uma nação em armas, deixavam-se seduzir facilmente pelas boas palavras do inimigo. “A política de luvas brancas de Aníbal, ou a dos romanos Cipião, Tibério Graco ou Sertório, valeu-lhes mais do que as vitórias militares que tinham obtido”.
As representações que chegaram até hoje ilustram a paixão dos povos ibéricos pela caça e pela guerra. Testemunham também a alegria de viver, com cenas em que se aliam frequentemente a música e a dança. São igualmente bem conhecidos os rituais que envolviam a morte.
Entre os Lusitanos, a cremação efectuava-se em piras. As cinzas eram encerradas numa urna que se colocava na sepultura.
No decorrer do século II A.C., tanto as armas que acompanhavam o cadáver como as ofertas eram queimadas. O que restava era depositado dentro das urnas, ou à sua volta. As falcatas (armas encimadas por uma espécie de foice, capazes de mutilar um inimigo, ou de o degolar) mostram-se dobradas nas escavações arqueológicas. As lanças aparecem torcidas e os elmos amolgados. As armas eram inutilizadas, para não voltarem a ser usadas pelos violadores de sepulturas.
O respeito pelos restos mortais inumados devia ser quebrado com frequência, já que se repetem inscrições em caracteres ibéricos que deverão corresponder a fórmulas mágicas destinadas a preservar o defunto de todos os males e a amaldiçoar os violadores de tumbas.
De um modo geral, as cerimónias funerárias eram simples. Revestiam-se de outra grandeza quando estavam em causa homens ilustres. Existe, pelo menos, um relato das honras fúnebres prestadas a Viriato.
“Quando da morte do caudilho Viriato o corpo deste chefe, adornado com as suas melhores vestes e armas, foi queimado numa alta pira; logo que o fogo se ateou, os guerreiros iniciaram uma dança frenética em redor da fogueira, enquanto esquadrões de cavaleiros evolucionavam em marchas fúnebres. Entretanto, os bardos cantavam as glórias do herói; depois, quando o fogo se consumiu, as honras continuaram com lutas sobre a sepultura, que envolveram duzentos pares”.

Referências:
António Arribas. Os Iberos. Editorial Verbo, Cacém, 1971.
Gravuras: idem.
Fotografia de guerreiro trasmontano: Religiões da Lusitânia, Museu Nacional de Arqueologia, 2002.


Já publicado em O BAR DO OSSIAN.

A CIDADE E O PORTO DE LOURENÇO MARQUES HÁ 120 ANOS


No final do século XXIX, os portugueses fundaram a povoação de Lourenço Marques (Maputo) numa língua de areia da baía que alguns chamavam da Lagoa e outros da Boa Morte, situada no ponto em que desaguam no Oceano Índico as águas dos rios Lagoa, Manhiça e Maputo. Os povos moçambicanos opunham-se à ocupação estrangeira, e a feitoria teve de ser muralhada.
Há cento e trinta anos, Lourenço Marques ocupava a área abrangida pelas ruas depois chamadas Consigliére Pedroso e Araújo, e era limitada pelas muralhas de uma fortificação. Os terrenos conhecidos pelo Cântano, e os ocupados pela Avenida da República eram cobertos de água, pelo menos durante as marés cheias.
A população da cidade não parava de crescer. Em 1882, o major de engenharia Joaquim José Machado foi encarregado de proceder aos primeiros estudos da linha de caminho de ferro. A área que Lourenço Marques ocupava não podia comportar o desenvolvimento que a construção da via férrea iria trazer à cidade.
Na altura, o governo geral da Colónia sediava-se na ilha de Moçambique. Em Lourenço Marques, mandava o governo do distrito, que se opunha ao derrube da fortificação. A população branca receava os ataques dos indígenas que viviam nos domínios da rainha de Marracuene.
O major Joaquim Machado considerava os receios infundados e assumiu sozinho, em 1885, a responsabilidade de extinguir as fortificações. As fundações assentavam em areia solta e o trabalho fez-se durante a noite, com rapidez e sem ruído. Uma grande extensão das muralhas foi escavada pelo lado de fora e derrubada. Ao amanhecer, os habitantes da cidade deram com boa parte da fortaleza deitada abaixo.
Deste modo, um acto de indisciplina de um militar português contribuiu para a expansão da cidade.
A gravura que apresentamos data de cerca de 1890 e mostra o aspecto do Maputo pouco tempo depois do derrube das muralhas.



Referências:


Duarte Veiga, O Mundo Português nº 9 e 10, Setembro e Outubro de 1934.

Joel Serrão, Dicionário da História de Portugal.

Fotografia: O Mundo Português, nº 62, Fevereiro de 1939.




Publicado anteriormente no blogue Nova Águia

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

PASTOREEI AS PALAVRAS




Fui levando as palavras ao redil.
Encaminhei-as pelas marcas dos meus passos.

Há lobos no carreiro. As linhas tremem.
Ganha-se e perde-se. Há dias bons e maus.

Semeei letras que nunca se juntaram,
abandonei, por ermos de sentidos,
imprecações e frases desconexas.
Despertei gritos que tive de enfrentar
como a toiros na praça
e que dobrei. Rocei por sílabas
que repicaram como lábios por beijar,
prontos no cheiro a orégãos e a surriada.

Houve palavras que não soube arrebanhar,
entrincheiradas em páginas de livros
ou nómadas, errando
pelos prados das vozes.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

VINHO DE ESPANHA



Cava,

rubro vinho,

mineiro cego,

nas galerias mornas do meu corpo!


Cala o vento da solidão

nas minhas veias!

Traz-me os odores antigos

da minha terra!


Que bússola antiga te governa,

nos labirintos da terra e da memória,

até à uva pulsátil e materna?

terça-feira, 20 de outubro de 2009




OS "BRASILEIROS DA REPÚBLICA"


Miguel Bombarda e Bernardino Machado nasceram na mesma cidade, no mesmo ano e no mesmo mês: Rio de Janeiro, 1851, Março. Ambos vieram cedo para Portugal e desenvolveram percursos profissionais assinaláveis antes de se deixarem tentar pela política.
Bernardino era filho de emigrantes portugueses bem sucedidos. O pai fora agraciado com o título de barão de Joanes.
Veio novo para Lisboa e mudou-se para o Porto. Após um percurso escolar brilhante, tornou-se lente de Filosofia na Universidade de Coimbra.
Filiou-se no Partido Regenerador e, em 1882, foi eleito deputado pelo círculo de Lamego. Em 1886, voltou a ser eleito, mas por Coimbra. Em 1890, foi feito Par do Reino. No longo período em que integrou o Parlamento, interessou-se especialmente pelo Ensino.
Foi, durante algum tempo, grão-mestre da Maçonaria Portuguesa. Fez parte do governo monárquico de Hintze Ribeiro, como Ministro das Obras Públicas.
Mudou-se depois para o lado da República. A sua opção contribuiu para dar aos republicanos o ar de respeitabilidade que lhes faltava. Em 1902, foi nomeado presidente do Directório do Partido Democrata.
Bernardino Machado foi um diplomata notável. Como ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório da I República, contribuiu de forma decisiva para o reconhecimento internacional do novo Regime.
Os seus inimigos políticos insinuavam que ele conservara a nacionalidade brasileira. Aliás, inimigos não faltavam a Bernardino. Muitos consideravam-no demasiado simpático e mesureiro. Dirigia um “Meu querido amigo!” até aos seus adversários mais virulentos.
Miguel Bombarda era filho de um miguelista exilado que regressou a Portugal em 1858. Naturalizou-se português em 1877, ano em que terminou, em Lisboa, o Curso da Escola Médico-Cirúrgica.
Era mação também, e fazia parte da Loja José Estêvão. Professor da Escola Médico-Cirúrgica, contribuiu para a sua renovação. Deu também um contributo decisivo para a fundação da Liga Nacional contra a Tuberculose. Dirigia o Hospital de Rilhafolhes (actual Hospital Miguel Bombarda) na data em que morreu. Apesar da sua notável craveira intelectual, dizia-se que perdia as estribeiras cada vez que ouvia falar em jesuítas.
Inscreveu-se relativamente tarde no Partido Republicano. Assumiu a chefia da Junta Liberal, que defendia a expulsão das congregações religiosas.
Foi eleito deputado, numa lista monárquica, e voltou a ser eleito, pelos republicanos, em Agosto de 1910. Dois meses antes, numa reunião do Grande Oriente Lusitano, foi nomeado, juntamente com Machado Santos, para integrar a comissão encarregada de preparar a revolução republicana.
A caricatura de Bernardino Machado não exigia muito do desenhador. O crânio redondo e meio despovoado, as sobrancelhas negras e espessas, e o queixo pequeno, tudo enquadrado por uma bonita barba branca e por um bigode descomunal, eram fáceis de esboçar.
As feições do psiquiatra apresentavam menos traços distintivos. Sem ser gordo, tinha o rosto redondo. O nariz era comprido, ligeiramente convexo na cana e boleado na ponta. Os olhos eram doces e tranquilos. As sobrancelhas escuras contrastavam com o grisalho do cabelo e do bigode.
Os destinos de ambos são conhecidos. Bombarda foi atingido a tiro por um doente, no dia 3 de Outubro de 1910, e faleceu por volta das 18 horas. A revolução, de que era o chefe civil, rebentaria sete horas depois. Teve o funeral conjunto com o almirante Reis, no dia seis. Machado foi Presidente da República por duas vezes, mas não terminou qualquer mandato. Foi derrubado por Sidónio Pais, em 1917, e por Gomes da Costa, no movimento de 28 de Maio de 1926. Viria a morrer em 1944, com 93 anos. Até ao fim da sua longa vida, conspirou sempre contra a ditadura de Salazar.
(Publicado anteriormente em Nova Águia)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009







CAMILO E EU


Sempre gostei de ler.
Em casa, na pequena biblioteca da catedral do Lubango, ou na biblioteca mais solene do Liceu, ia lendo. Julgo que considerava mais solene a biblioteca do Liceu porque os livros eram melhor encadernados e, de um modo geral, mais chatos.
A escolha não era grande. Muitas vezes, nem escolha havia e eu lia o que me aparecia em frente. Note-se que vivia numa cidade pequena em que não acontecia quase nada e num tempo em que não existia televisão nem Internet.
Lembro-me de ter soletrado, em estado de quase desespero por privação de livros, La Chanson de Roland. Ia nos treze anos. O meu francês era limitado e a progressão na leitura foi dolorosa. Muito podia o vício!
Ao longo do tempo, fiz e desfiz amizades no papel.
Não faltavam bons conselheiros nas estantes arrumadas atrás da sacristia, mas eram muitas vezes os prevaricadores que ocupavam a minha alma, e as dos outros miúdos.
D.H.Lawrence entusiasmou-me, creio que um ano depois de Alexandre Herculano me ter feito sonhar com a dama Lilith. Claro que eu pretendia também ser cavaleiro, talvez menos monge, mas nenhum dos rapazes da minha idade leu O Amante de Lady Chatterley com a intenção de aprofundar a cultura literária.
As lembranças não vêm arrumadinhas, umas a seguir às outras, por ordem cronológica, e é de lembranças que falo. Anos mais tarde, espantei-me ao reencontrar Lawrence e mal o reconhecer.
Fui amigo e cúmplice de muitos escritores. A maioria tinha morrido dezenas de anos antes de eu nascer. É uma das maravilhas da grande escrita. Encanta, por vezes, por séculos a fio.
Entusiasmei-me com Dumas filho e com Salgari e, um pouco mais tarde, estremeci de emoção com as aventuras de Fantômas. Não fixei o nome do seu criador.
Vai-se crescendo. Aos 17 anos, partilhei a solidão e a tristeza de António Nobre. Aos 18, encostei-me a José Régio.
No que respeita ao Romance, talvez por ter tido uma vivência africana na juventude, senti-me sempre mais próximo dos escritores americanos do que de muitos europeus. Acho que sentia a realidade descrita no Velho Continente como estranha, ou mesmo exótica.
Amado, Lins do Rego, Graciliano Ramos fizeram-me partilhar os seus sonhos e preocupações. Depois, Hemingway, Caldwell e Steinbeck tomaram-me conta dos sonhos e da necessidade de evasão. Por essa altura, já as minhas preocupações estéticas tinham começado. Algumas histórias curtas americanas estão entre os escritos que me deram mais prazer ler em toda a vida.
Os anos passam. Entusiasmei-me com Borges, e continuo entusiasmado. Conheci Rilke por volta dos 40 anos e lamentei não ter sabido dele mais cedo. Da gente da terra li, quase sempre com gosto, Garrett, Torga e Cardoso Pires. Reconheço e respeito o génio de Eça de Queirós, mas nunca me senti queirosiano. Caminhando no tempo, umas vezes para a frente e outras para trás, tive sempre dificuldade em alcançar o grande Camilo sem tropeçar no fantasma de Queirós.
Escrevo ao correr da pena, ou ao tamborilar dos dedos no teclado do computador e há-de haver nestas notas alguma injustiça e muitas omissões. Ainda assim, vou deixar o texto como saiu, pois pretendo fixar impressões e não elaborar uma antologia.
A introdução vai longa. Quando comecei, estava a pensar falar apenas de Camilo.
A dada altura da minha vida, resolvi aperfeiçoar o Português e escolhi os meus próprios mestres. Li e reli António Vieira. Conheci dúzia e meia de títulos de Aquilino. Passei teimosamente os olhos pelos livros de Manuel Bernardes, sem me permitir o luxo de desistir. Como é que desperdiça uma técnica literária tão apurada a descrever as torturas do Inferno? Por fim, apaixonei-me pela escrita de Camilo Castelo Branco.
Camilo é romântico. Aprecia os sentimentos carregados, o ciúme, a vingança, o desespero, que pedem um estilo declamatório e quase frenético. Exprime emoções fortes numa linguagem forte. Cria personagens poderosos. Dá às narrativas o ritmo apropriado, quase sempre com a tragédia a espreitar atrás de cada volta do enredo. Os protagonistas são movidos pela paixão e, muitas vezes, não querem saber do que se passa no mundo que os rodeia.
Foi um autodidacta que começou com os clássicos e só depois se chegou aos autores contemporâneos. Não revia a sua prosa com grande cuidado. Publicava-a, geralmente, como lhe saía. Nunca deixou de ser um escritor irregular, mas até em páginas menores plantou frases de génio.
Foi o primeiro homem, em Portugal, a viver apenas dos textos que publicava. Era pouco, e o escritor precisava de cama, mesa e roupa lavada. Proporcionou-lhos Ana Plácido. Encontrara-os também, em 1960, na cadeia da Relação do Porto.
Fialho de Almeida afirmou, sobre ele:
Raros escritores possuem, como Camilo, a intuição da língua em que convém tratar o assunto e o poder de inventar, para cada género de tema, o vocabulário e o estilo que lhes são próprios. Com Garrett e Camilo, a língua portuguesa enriqueceu e tornou-se mais flexível.
Disse ainda:
Outros como ele trabalharam a língua portuguesa e a souberam com intimidade igual e exuberância parecida; mas nenhum lhe deu aquela alma indómita, transfiltrando-lhe a pompa, o brilho, a energia e a graça em que ele a amoedou.
Camilo Castelo Branco foi sempre um escritor popular. Hoje, sobrevive nas estantes de muitas casas portuguesas, mas é lembrado sobretudo pelos eruditos. É outra maneira de morrer.
"Eu, Camilo" é uma biografia romanceada em forma de diário. Representa, acima de tudo, a homenagem a um Senhor da Palavra que enriqueceu e ajudou a fixar a língua da nossa Pátria.

domingo, 11 de outubro de 2009

SETÚBAL E "1910"









Foram diversas as razões que me levaram a escolher Setúbal
para a apresentação deste livro.


É a terra onde vivo há perto de 40 anos e onde tenciono morrer.


Criei aqui as minhas filhas e alguns dos meus netos.


O romance histórico "1910" tem muito a ver com a cidade.


Foi no antigo Teatro Dona Amélia que se realizou o Congresso
Republicano em que se optou pela via revolucionária para a
implantação da República. O Congresso terminou em
25 de Abril de 1909.
Decorreram 100 anos. Repetem-se datas com grande força
simbólica. A Primavera encorajou sempre os ânimos rebeldes.




Algumas cenas passam-se na Igreja do Convento de Jesus, cuja fundadora, Madre Justa, foi amante do bispo da Guarda e ama de leite do rei D. Manuel I.


Diversas personagens centrais do romance
são feitas nascer em Setúbal.

É o caso de Duarte dos Remédios e de sua
mulher, Maria do Amparo, que ofereceu o vestido
à Santa do seu nome. Não se trata da doadora
verdadeira.

Esta Maria do Amparo é inventada.

No entanto, a beleza da Igreja é bem real.

sábado, 3 de outubro de 2009






CANTO DO VELHO DO RESTELO


Eu sei que minhas mãos são como ramos

em que poisam, à vinda, as andorinhas
e quando chega Abril, juntos cantamos
E quando o Outono vem, ficam sozinhas.

Eu sei que as minhas mãos são como praia
em que naufragam naus das descobertas
tomando as minhas luzes de atalaia
por faróis, por sinais de rotas certas.


Eu sei que em minhas mãos se ergueram casas,
palavras, naus, e o sonho de abalar,
mas se as fecho, sinto quebrar de asas
e se as abro, gritos de afogar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009






O PASTOR DE ICEBERGS


Muito tempo depois de a neve ter tombado,
o pastor de icebergs
abriu o redil.

Trotou sobre o mar um rebanho de gelo.
Dentes brancos ceifaram a erva da bruma,
os navios rangeram, assustados,
e, dos Corte Real, nenhum voltou.


Aqui nasceu, talvez, Adamastor,
ao sul das catedrais dos deuses cegos,
a oeste de todas as preces conhecidas.
Não se aprende a morrer devagar!


Encenador da Primavera,
afaga ainda as coxas dos fiords!
Que os actores se apresentem!


Faz gemer no roçar dos icebergs
a solidão, o silêncio,
o chicote longo do frio,
o cinzento infindo do mar
e, depois, o vento e a espuma,
a varrer os sonhos simples dos navegantes:


volver à terra morna
de vinho e mulheres doces.

António Trabulo
e a
Editorial Cristo Negro

têm o prazer de o convidar
a estar presente na apresentação
do livro

1910

que terá lugar
no dia 17 de Outubro, às 16h00, na
Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

quinta-feira, 24 de setembro de 2009






INTRUSO


Amanheci intruso,
estranho nos próprios sonhos,
ausente da memória e das pegadas.

Fui abrindo as portas da lembrança
e entrei, culpado,

como se os cães me ladrassem.

Que há de mim num riso, ou verso,
de ontem?

Sento-me na poltrona dos sessenta,
a rever velhos filmes desbotados
e olho o adolescente que fui
como parente que raras vezes se visita.

Parece quebradiço
o fio que ata aos outros

os dias de uma vida.

Quem poderá chamar realmente suas
as recordações?

sábado, 19 de setembro de 2009


RIO DOURO
A ti, coube esgotar
a angústia dos montes,
dar sentido às águas da lonjura
e editar os versos dos penedos.

Pareces tão só,
meu rio Douro...
Drenas lumes de vidas simples
passos, muitos passos
e vento, muito vento.
Sonhos de Espanha. Sangue,
uivos e cantares.

Um dia mergulhei
e dissolvi a alma.
Fui chuva, distância, vale,
cicatriz de arado, centeio,

e remei com os remos do tempo,
até Almendra.

terça-feira, 15 de setembro de 2009



No romance 1910, a História cruza-se com várias histórias.
Duarte dos Remédios, personagem central do livro, é editor e procura talentos. Abriga, na sua tertúlia, Bernardo Soares e Alberto Caeiro, mas hesita em ver neles qualidades maiores.
Duarte é homem indeciso. Demora até a reconhecer o encanto da mulher com quem casou por conveniência de família. Persegue Susana, mulata bonita, quase criança ainda. Susana é filha do sargento Madruga, deportado para África por participação na revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891.
Caeiro é pouco mais do que um rapazote e também gosta da bela mulata. Acaba por se meter com ela no meio da rua e regressa ao Ribatejo magoado no corpo e ferido no amor-próprio.
A Revolução Republicana triunfou a cinco de Outubro de 1910, e o último rei português embarcou para o exílio. Os chefes civil e militar da rebelião não viveram esse dia de glória. O médico Miguel Bombarda foi atingido a tiro por um doente e sucumbiu no dia três, horas antes da revolta eclodir. O almirante Cândido dos Reis terá virado a arma contra si próprio e não assistiu à alvorado do dia quatro. Em menos de dezoito horas, os republicanos perderam os dois líderes principais. Ainda assim, Machado Santos e os seus homens persistiram e lutaram até à vitória. Quem terá armado o tenente Aparício, que disparou contra o seu médico? Quem levou ao desespero o almirante Reis e o forçou ao suicídio? Se ninguém o fez, estaremos prestes a comemorar o centenário de uma das coincidências mais extraordinárias da História Universal.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009



Fernando Pessoa

ENTRE A MONARQUIA E A REPÚBLICA

Fernando Pessoa vivia em Lisboa desde 1904. Completou 22 anos em Junho de 1910.

Assistiu à revolução republicana, aparentemente sem se envolver nem tomar partido por qualquer dos lados.
Anos mais tarde, viria a zurzir com a mesma severidade a Monarquia Constitucional e a República.

“Quando fizeram uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava”.

“Da obra política, o constitucionalismo não deixa senão um abismo maior entre as classes sociais, e uma desnacionalização mais adiantada e mais corrupta.
O que diz do constitucionalismo pode dizer-se, sem perigo de errar, da implantação da República... ... Se o regímen constitucional pouquíssimos pontos de contacto tem com quanto em nós seja português, a república francesa que implantaram em Portugal não tem, então, nenhuns.”

“As novas gerações assistiram e assistem, à posse do poder, mediante reformas ou revoluções, pelos homens que constituíram a mocidade de ontem, pelos democratas, pelos generosos, pelos entusiastas da trindade francesa. E viram que, tanto quanto à inteligência como quanto à moralidade, os homens da democracia em nada divergiam dos reaccionários que os precederam no poder.”

Afonso Costa não era líder político que o encantasse, ainda que o mesmo tenha acontecido com muitos republicanos da época. Em Julho de 1915, Pessoa enviou ao jornal A Capital uma carta assinada por Álvaro de Campos em que, a propósito do acidente ocorrido com Afonso Costa, afirmava que a própria Providência Divina se servira dos carros eléctricos para os seus altos ensinamentos.
Numa segunda carta, não publicada pelo jornal, injuriou Afonso Costa:
“O chefe do Partido Democrático não merece a consideração devida a qualquer membro da humanidade... ... Costa emporcalha e enlameia... ... Só não me regozija, no desastre acontecido a Costa, a circunstância, que infelizmente se parece confirmar, do seu restabelecimento”.

O extenso poema “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, publicado em 1928, louva o ungido, o predestinado, sem referenciar regimes políticos.

Ora bem! Alberto Caeiro e Bernardo Soares são personagens do meu romance 1910 que seguiu hoje para a gráfica. Se Soares é representado mais ou menos igual a si próprio, o moço Caeiro que se encontra no livro ainda está a meio caminho da maturidade que lhe viria a fazer merecer bem cedo o título de "mestre".