DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

MÃE

Os teus olhos luziram sobre mim,

pairaram como sóis sobre o meu corpo.

A bênção foi sorrida e murmurada

e o tempo foi cantado.


Lento e brando,

levedou.


Frouxo o azeite na candeia da lembrança,

se me espreito no lago do que fui,

confundo e sobreponho

ido e foz, caminho e berço


e, antes da sementeira, as tuas rugas

riem na terra lavrada.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS

Há dias, um amigo convidou-me a aderir, no Facebook, a uma organização que se opõe à utilização dos OGM.
Confesso que não identifiquei a sigla, de imediato. Quando o fiz, dispus-me a reflectir sobre o tema.
A questão não é recente. Os OGM entraram já nas nossas despensas, nos nossos frigoríficos e em alguns dos medicamentos que tomamos. A controvérsia tornou-se inevitável e as ideias que exponho serão pouco originais.
Os pessimistas julgam que se está a abrir uma caixa de Pandora que irá soltar no mundo uma imensidão de monstros desconhecidos e talvez incontroláveis. Os genes alterados poderão induzir perturbações de dimensão e de alcance impossíveis de calcular.
Os optimistas acham que se vai tornar possível erradicar doenças hereditárias como a Trissomia 21 (mongolismo) e algumas formas de hemofilia, para referir apenas duas das patologias genéticas mais frequentes. O combate à malária irá dispor de armas novas. Poderão criar-se castas de videiras capazes de resistir a doenças comparáveis à filoxera, que devastou as vinhas europeias no séc. XIX, ou tornar as batatas imunes a pragas semelhantes à que espalhou a fome na Irlanda a partir de 1840.
Estamos a assistir à alvorada de uma técnica que irá permitir, eventualmente, recuperar espécies animais e vegetais extintas. Provavelmente, o Parque Jurássico, dentro de algumas dezenas de anos, deixará de ser ficção científica. No limite, Orfeu poderia conseguir uma Eurídice igualzinha sem ter de se aventurar pelo Inferno.
Nenhum governo e nenhuma organização serão capazes de se opor ao desenvolvimento de uma tecnologia tão prometedora. Diga-se o que se disser, pense-se o que se pensar, os estudos genéticos irão prosseguir e as suas aplicações práticas conhecerão um âmbito cada vez mais alargado. Não se levantam barreiras ao progresso erguendo bandeiras e fazendo tocar os sinos a rebate. Seria precisa uma nova Inquisição.
Os transgénicos vão continuar a desenvolver-se. Põem-se questões até há pouco desconhecidas. A Ética irá enriquecer com capítulos que mal começaram a ser escritos. As legislações hão-de tornar-se ecos dela.
Será possível criar, no laboratório, raças humanas superiores. Aberrações tamanhas terão de ser proscritas. De outro modo, quem não pudesse pagar a tecnologia veria os seus filhos transformados em cidadãos de segunda ou de terceira classe.
As Tábuas da Lei de Moisés não podiam conter mandamentos contra pecados que as técnicas de então ainda não permitiam imaginar. É indispensável criar regras novas e assegurar mecanismos eficazes para as fazer cumprir.
Os riscos da introdução de transgénicos na alimentação humana e animal não podem ser negligenciados. Devem ser objecto de atenta monitorização, a cargo de organizações independentes das associações de produtores. É sobre a vigilância, a transparência, a regulamentação e a aplicação de padrões humanistas aos novos desenvolvimentos técnicos que devem incidir as nossas preocupações. Tentar criar barreiras ao desenvolvimento de tecnologias revolucionárias não é possível nem desejável.










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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O MESSIAS OVIMBUNDO



Contam-se hoje oito anos passados sobre a morte de Jonas Malheiro Savimbi.

Ainda me lembro dele, nos tempos do Liceu, em Sá da Bandeira. Era um negro elegante e muito educado, protegido pelos Irmãos Maristas. Naquela época, não era conhecido por Savimbi. Toda a gente lhe chamava Jonas.

Duas décadas mais tarde, as suas imagens apareceram em toda a parte: jornais, televisão e revistas. Mudara. Tive dificuldade em reconhecê-lo e perguntei à gente da minha idade:

- É mesmo o Jonas?

Era. Liderava a UNITA. O seu Movimento chegou a colaborar com os militares portugueses no Leste de Angola, por volta de 1973, durante a famosa Operação Madeira. Anos depois, aliou-se aos sul-africanos. Para enfrentar o MPLA, até se teria juntado ao diabo. Pretendia ganhar um lugar ao sol da futura independência.

Desempenhou o papel que a História lhe reservara. Ele, que nunca foi um democrata, cresceu com a democracia. Arrastava multidões atrás da sua palavra. Terá sido um dos maiores oradores da África moderna. Dizem as más línguas que, nos seus longos discursos, perspectivava, ao falar em umbundo para os negros que o escutavam, uma realidade bem diferente da que prometia aos seus ouvintes europeus.

Foi abatido em 22 de Fevereiro de 2002.

Não se pode saudar a morte de um homem que combateu pelo seu povo, mas podem dar-se vivas à paz que se lhe seguiu.




Fotos: Comício - Fernando Castro. Savimbi: Internet.


Também publicado em Milhafre.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A MINHA PRIMEIRA VIAGEM NO GIL EANNES



Os portugueses pescam bacalhau, pelo menos, desde o sec. XV.
As lutas pelo controle das áreas de pesca são antigas. Em 1478, as autoridades dinamarquesas encerraram aos estrangeiros os pesqueiros da Islândia, que então controlavam. Os pescadores bretões, bascos, ingleses e portugueses tiveram de procurar outras zonas de pesca.
Os portugueses descobriram então a Terra Nova. Dizia-se que havia tanto peixe nos seus bancos que os cardumes chegavam a impedir o avanço dos barcos. Notícias destas, verdadeiras ou falsas, propagaram-se depressa e as frotas pesqueiras da Europa deslocaram-se para lá.



Esta carta data de 1546 e mostra a Terra Nova, que os portugueses consideravam terra sua. Por essa altura, dispúnhamos dos melhores cartógrafos do mundo. A região foi convenientemente deslocada para Leste, de forma a parecer localizada na metade do mundo que o Tratado de Tordesilhas reservava para nós.
Nos primeiros anos do século XVI saíam anualmente, só de Aveiro, 60 navios com destino à Terra Nova. Em 1550 eram 150. Eram muito mais do que os que partiam para a Índia.
Não vou contar agora a história da pesca do bacalhau, mas apenas o meu relacionamento com ela. Em Abril de 1970, embarquei no Gil Eannes.

Ia cumprir uma comissão de dois anos, que fazia parte do Serviço Militar obrigatório. A frota contava entre 5 e 6 mil homens. Entre eles, três eram militares.
Estamos aqui. Eu, o Comandante Gaspar, Capitão de Porto nos Mares da Terra Nova e Gronelândia e o meu colega e amigo Barros Pereira.


Deixamos Lisboa na Primavera e chegámos à Terra Nova creio que onze dias depois. É assim a entrada (ou, no caso, a saída) do porto de St. John`s.


A cidade não era bonita. São João da Terra Nova contava, na altura, cerca de 100.000 habitantes. Era o nosso porto, e os marinheiros aprendem depressa a apreciar o calor de um porto. Digam o que disserem os poetas, o mar é um deserto e só sabe bem perto de terra.

Calhou-me acompanhar os últimos anos da pesca à linha. Em 1970, se a memória não me falha, fizeram-se ao mar 31 navios de dóris. No ano seguinte eram 16. Depois, foram acabando. Os últimos navios de linha regressaram em 1974.
Em França, tinham acabado em 1950.



Cada navio de pesca à linha transportava entre 80 e 100 dóris, empilhados no convés. Os dóris eram botes de cerca de 4 metros com fundo chato.
Eu não estive só no Gil Eannes. Passei um mês no Vimieiro e, no ano seguinte, dois meses no Neptuno.



Em 1966 e 1967, o número de arrastões e de navios de linha foi semelhante. A partir daí, a pesca de arrasto impôs-se.
A frota foi sendo reconvertida e a pesca passou a fazer-se unicamente por arrasto. A seguir, os navios de arrasto lateral foram sendo substituídos pelos de arrasto de popa. Paralelamente, o peixe passou a ser congelado, em vez de salgado.

De madrugada, os dóris, eram arriados e afastavam-se até três milhas de distância. Esta fotografia foi tirada na Gronelândia, onde no Verão era sempre dia, e não sei se estava a arriar ou a alar o bote.


Os pescadores lançavam o Troll, uma linha comprida com centenas de anzóis espaçados por uma braça.
Os pescadores vinham, tradicionalmente, sobretudo das Caxinas (Póvoa do Varzim) ou da Nazaré.


Para escaparem à guerra das colónias, passaram a vir de todo o País. Serviam durante 5 anos seguidos ou seis intercalados. Era quase escravatura.
Alguns, ao embarcar pela primeira vez, nunca tinham visto antes o mar. Chamavam “verdes” aos caloiros.
Para os pescadores, a pesca à linha era uma actividade extraordinariamente dura.
Quando havia muito peixe, os pescadores chegavam a trabalhar vinte horas seguidas e a dormir três ou quatro horas por noite. Quando mais se pescava, mais demorada eram a escala e a salga do peixe. Os dias de temporal eram dias de descanso.
Quando o bacalhau começou a escassear, manteve-se rentável apenas graças aos baixos salários praticados.

Havia prémios de produtividade. Os bons pescadores, quase todos oriundos de povoações costeiras, chegavam a auferir uma paga razoável.
No final, havia que alar o aparelho e encontrar o navio. O capitão recolhia o ferro e navegava para sotavento, tendo também em atenção a corrente, se a havia. Procurava os dóris no lugar para onde a maioria tinha sido arrastada.


Como puderam reparar, quase todas as fotografias foram tiradas em dias de sol. No entanto, na Primavera, nos Bancos da Terra Nova, estava quase sempre nevoeiro. A navegação fazia-se com a ajuda de uma pequena bússola. Às vezes, os dóris perdiam-se e nem sempre eram fáceis de encontrar.



O peixe era metido a bordo. Seguia-se a escala e, logo a seguir, a salga



Quando o tempo estava claro, a aglomeração de navios em Virgin Rocks, nos Bancos da Terra Nova, em redor do Manolejo, fazia lembrar as luzes de uma grande aldeia. Manolejo é o aportuguesamento de Main Ledge, um rochedo em que se vê a rebentação. Ficaram sepultados naquelas águas dezenas de navios portugueses e não só.

Se a pesca falhava nos Rocks, os capitães conduziam os barcos para a costa da Gronelândia.

Nesta região, os icebergs eram muito frequentes. Os bancos de gelo nem tanto, mas impediam a passagem dos navios.





O Gil Eannes, para além da Assistência Médica propriamente dita, levava um capelão, que tratava das almas, e ainda isco congelado e correio. Tinha a proa reforçada para aguentar melhor o gelo.



A capacidade de internamento do navio era considerável. Julgo que, no total, eram 56 camas.
Existia um gabinete de Radiologia, um Bloco Operatório e ainda uma sala de fisioterapia e material para análises clínicas.



Algumas dessas capacidades estavam inactivadas, nos últimos anos. Eu assisti ao começo do fim do navio. O Grémio dos Amadores da Pesca do Bacalhau tinha pouco dinheiro. Não havia técnicos de fisioterapia nem quem soubesse fazer análises. O Bloco não funcionava porque não havia cirurgião nem anestesista.


Julgo que nunca tivemos mais de 20 doentes internados ao mesmo tempo.
Foram-nos buscar ao Exército, porque éramos os médicos mais baratos, e também os mais inexperientes que havia no mercado. Mudaram-nos do Exército para a Reserva Naval e deixaram-nos estar os dois anos no posto de Aspirante, para nos pagarem menos.



Vêm-se aqui doentes a chegarem para a consulta.


Quando alguém não se podia deslocar, o médico fazia visitas domiciliárias. Nesse dia estava bom tempo, mas lembro-me de uma vez em que tive de esperar três dias para poder voltar ao Gil Eannes.

A perda da independência nacional, em 1580, e o declínio do poderio ibérico, levaram a que portugueses e espanhóis fossem expulsos dos mares da Terra Nova.
A pesca do bacalhau foi reiniciada apenas em 1885. Os portugueses já não sabiam apanhar bacalhau. Tiveram de reaprender.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

POETAS DE QUEM EU GOSTO


UM OLHAR SOBRE CAMÕES


“Camões” é o nome duma povoação galega. A família do poeta ter-se-á fixado no concelho de Chaves, antes de se mudar para Coimbra e, depois, para Lisboa.
Curiosamente, não se sabe quando e onde nasceu, nem onde estudou. A sua cultura excepcional não estava ao alcance de um auto-didacta. É provável que tenha frequentado a Universidade de Coimbra, a única do Portugal do seu tempo, embora não haja registos da sua passagem pela cidade. Sabe-se que tinha um tio padre, D. Bento de Camões, no Mosteiro de Santa Cruz. Na época, poucos nobres sabiam ler. Quem aprendia eram os judeus e os clérigos. Judeu, Camões não era. Terá pensado em ser padre.
Entre 1542 e 1545, andou por Lisboa.
Esteve em Ceuta por volta de 1549. Lá perdeu um olho, durante um cerco.
Em 1550 foi registado na Armada para embarcar para a Índia: Luís de Camões, filho de Simão Vaz e de Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria; escudeiro, de 25 anos, barbirruivo, trouxe por fiador a seu pai; vai na nau de S. Pedro dos Burgaleses.
Ia assentado entre os homens de armas, mas não embarcou.
A ser verdade o registo, terá nascido em 1525. No entanto, as informações contradizem--se. Em 1551, segundo outra fontes, ainda estaria em Ceuta.
Dali voltou, por algum tempo, a Lisboa e à vida boémia.
No dia de Corpus Christi de 1552, lutou com Gonçalo Borges, “que tinha cárrego dos arreios do Rei” e feriu-o. Preso, foi libertado por carta régia de perdão, em Março de 1553: “é um mancebo e pobre e me vai este ano servir à Índia”.
À segunda, foi de vez. Camões embarcou, semanas mais tarde, na Armada de Fernando Álvares Cabral. Foi registado como “gente de guerra, escudeiro”, e recebeu 2400 réis, como os demais.
Viveu diversos anos em Goa, e aí escreveu boa parte de “Os Lusíadas”. Integrou várias expedições militares.
Em 1556 foi para Macau, onde continuou a escrever. Numa das suas viagens, naufragou na foz do rio Mekong. A sua companheira chinesa, a quem noutros poemas chamou Dinamene, faleceu nesse naufrágio. Nasceu então a cacofonia mais famosa da língua portuguesa:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Pede a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luís de Camões regressou a Goa em 1560 e foi preso por dívidas.
De volta a Portugal, terá passado dois anos na ilha de Moçambique, “tão pobre que vivia de amigos”. Onde terá Camões conhecido a escrava Bárbara? Enquanto se demorou na ilha de Moçambique, sem dinheiro para pagar a passagem até à Pátria, ou nas ruas de Lisboa?

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar...

Diogo do Couto encontrou-o em Moçambique e pagou-lhe a viagem de regresso a Portugal. Camões embarcou na nau Santa Clara. À chegada, em Abril de 1570, teve de esperar em Cascais que fosse aberta a barra de Lisboa, encerrada devido à peste.
Publicou “Os Lusíadas” em 1572. Foi-lhe concedida uma tença de 15.000 réis. Paga com irregularidade e, provavelmente, mal administrada, não o livrou da miséria.
Luís Vaz de Camões ainda assistiu, em 1580, à partida do exército de D. Sebastião rumo a Alcacer Quibir. Faleceu, pouco tempo depois, numa casa de Santana, em Lisboa, sendo enterrado em campa rasa.
As suas ossadas estarão depositadas no mosteiro dos Jerónimos. Contudo, o terramoto de 1755, ao deitar abaixo a igreja de Sant`Ana, próxima do actual Campo dos Mártires da Pátria, misturou os despojos. Ninguém pode garantir que os restos mortais transportados para o belo jazigo do Mosteiro sejam mesmo os seus. Provavelmente, já antes do terramoto seriam difíceis de localizar. A verdade é que tanto dá...
Praticamente ignorado em vida, Camões tornou-se muito depressa um dos símbolos da identidade lusitana. A união de Portugal e Espanha sob os Filipes deu novo alento ao nacionalismo português. As edições de “Os Lusíadas” repetiram-se.
O diplomata e escritor espanhol Valera escreveu, séculos depois, que “Os Lusíadas son el mayor obstáculo à la fusion de todas las partes de esta Península. Camões se levanta entre Portugal y España qual firme muro, más difícil de derrubar que todas las plazas y los castillos todos”.
A colonização portuguesa foi diferentes da restantes. A vocação universalista e o entendimento do “outro” que se esconde sob uma pele de cor diferente, são características nossas. Não foram os portugueses que inventaram os mulatos, mas foram quem mais os produziu.
Já no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, publicado em 1516, D. João Manuel cantara “uma escrava sua”. Talvez por não abundarem as Natércias nas paragens que frequentou, Camões parece ter-se apaixonado, pelo menos, por uma chinesa e por uma negra.
Amou-as e cantou-as. Não tenho conhecimento de poemas de amor desta grandeza dedicados por europeus a mulheres de outras raças. Luís de Camões fê--lo durante o século XVI. Se outros contributos não tivesse dado à cultura mundial, estes sonetos e estas endechas bastariam para que se fosse da lei da morte libertando.

Referências:
Dicionário de Literatura. Direcção de Jacinto do Prado coelho. Figueirinhas, Porto, 1992.
Lírica de Camões, Círculo de Leitores, 1972.
Wikipedia.
Imagens:
Lírica de Camões
Gravura de Eduardo Malta
Internet










Também publicado em Milhafre

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O DIA EM QUE DEUS COMEÇOU A DESMONTAR O MUNDO










ESTE LIVRO É CONSTRUÍDO


SOBRE DOIS MODOS
ADVERSOS

DE OLHAR O MUNDO





Como lágrimas que escorrem por um dos lados do rosto e não sabem do sofrer da outra face, há rios que deslizam por vertentes opostas da mesma montanha. Cada um entende apenas a sua encosta.
Os homens gostam de nomear as coisas. Poderemos chamar a um Rio dos Brancos e ao outro Rio dos Negros. África será a designação da cordilheira que os separa e une.
As correntes seguem trajectos com algum paralelismo. Os caudais aproximam-se, uma vez por outra. Tocam-se, mas não juntam as águas.
O primeiro ponto de vista é o de quem partilha as crenças tradicionais africanas e se apercebe da ocorrência de mudanças, lentas mas definitivas, no modo de encarar as relações com os vivos e com os antepassados. O segundo é o do missionário que propaga, em Angola, a sua fé e participa, de certo modo, no processo colonial.
A dada altura da viagem, os personagens que dão voz aos rios apercebem-se do final das suas jornadas. Olham para trás, e vêem que não há retorno possível. O tempo gastou-se. Deus perdeu a paciência.
No entanto, não é o mundo que vai acabar. É apenas a maneira como eles o vêem. A montanha permanece, firme e quase imutável. Os fios de água secam e extinguem-se, para que nasçam outros, que experimentarão percursos novos.
Aqui e ali, o autor faz uso de parábolas. Dá chão ao conjunto das suas narrativas numa região limitada do Sul de Angola, e nem sempre respeita a cronologia. As conclusões poderão (ou não) aproximar-se da evolução do modo de pensar de quem experimentou a mesma vivência noutros países, em épocas diferentes.
Não se apressem a avaliar o estranho viajante que vão acompanhar ao longo do livro! Com o voltar das páginas, mesmo que o não tratem por tu, irão sentir-se próximos dele. Poderão constatar que exagerou quem, ao traduzir o termo “Dumba-ia-munto” para português, escolheu a palavra “diabo”.

(Prólogo de livro a publicar na Primavera)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

31 de Janeiro de 1891

Eram horas de almoço. Martinez procurava mesa num pequeno restaurante do Campo de Santana quando avistou o sargento Madruga, que comia sozinho. Aproximou-se.
– O meu amigo permite que lhe faça companhia?
– Com muito gosto. Sente-se. O cozido não está mau. Que novidades traz?
– Poucas. Fala-se muito, mas ninguém se mexe. Não é como no seu tempo...
Madruga fitou o jovem colega com ar sério.
– O meu tempo é este. Não tenho mais nenhum…
– Peço desculpa. O dia de hoje é tanto meu como seu. Contudo, o senhor viveu mais anos e ganhou outra experiência. Os de 1891 portaram-se melhor do que nós. Como calcula, fala-se muito do 31 de Janeiro. Nunca ouvi o relato da boca de alguém que estivesse lá. Ando há tempos para lhe pedir que me conte como foi esse dia.
Era o tema favorito de Madruga. Embora tivesse acabado mal, fora a manhã mais bonita da sua existência. Meteu na boca a última garfada de carne, limpou os lábios ao guardanapo, bebeu mais um gole de vinho tinto, e começou.
– Nós fomos para a revolução prontos para matar e morrer, mas aquilo quase não passou de um desfile. Às duas da manhã, saímos para a rua com dois regimentos. Estava nevoeiro e fazia frio. Eu estava colocado em Caçadores 9, que tinha o quartel na Rua de S. Bento. Juntámo-nos no Campo de Santo Ovídio
[1] com o pessoal de Infantaria 10 e com muitos soldados da Guarda-Fiscal, uns a pé, outros a cavalo. Os sargentos eram unidos e estavam do nosso lado, mas poucos oficiais nos quiseram acompanhar. Vieram apenas o capitão Leitão, o tenente Coelho e o alferes Malheiro.
– Hoje em dia é a mesma coisa. Hão-de ser os sargentos a fazer a República!
Falavam sem se preocuparem muito com os ouvidos dos vizinhos. Era tudo gente do bairro.
– Sempre fomos uma classe à parte. O Exército, sem nós, não é nada...
– Mas não nos dá valor!
– A maior parte dos quartéis fica dentro das cidades. As praças vêm e vão, mas os sargentos ficam. Conhecem a gente das redondezas. Nós e os civis sempre nos sentimos chegados uns aos outros.
– Lemos os mesmos jornais...
– Discutimos política com eles...
– Bem, voltemos ao Porto... Na madrugada do dia 31, houve oficiais talassas que conseguiram impedir o Regimento de Infantaria 18 de se juntar a nós. No entanto, alguns chefes militares não tinham ideias muito claras. Nem queriam estar contra Deus nem contra o Diabo.
– É como hoje. Há muito boa gente que vai esperar pelo dia a seguir à revolta para tomar posição sem se comprometer.
– Houve oficiais superiores que nem souberam, até ser dia, que estávamos na rua. Bom, quando nos pusemos em marcha, íamos cheios de ilusões. Julgávamos que era só chegar fogo a palha seca. Deitávamos os primeiros foguetes e a festa começava...
– Não foi o que aconteceu...
– Não, embora tivéssemos chegado a dispor de superioridade militar. O Governo ficou com a Guarda Municipal e com a artilharia da Foz e da Serra do Pilar. O destacamento de Cavalaria 6 andava por ali, sem saber para que lado cair. Contávamos que bastasse ter os regimentos na rua para que surgissem generais ou coronéis dispostos a comandar-nos. Não apareceram. Nem os civis que se juntaram a nós foram tantos como esperávamos.
– E o Partido Republicano?
– Andava muito dividido e teve pouco a ver com a revolução.
Interromperam a conversa porque entrara um desconhecido na sala e tomara assento em mesa próxima.
– Cuidado, que pode ser bufo, avisou Martinez.
Até o homem sair, falaram de trivialidades. Depois voltaram às recordações do 31 de Janeiro.
– Como é que passou a manhã?
– Não se combatia. Esperava-se. A Guarda Municipal retirou quando viu chegar o Regimento de Infantaria 10, mas voltou a ganhar ânimo e foi rodeando as nossas tropas em Santo Ovídio. O subchefe do Estado-Maior da guarnição do Porto, tenente-coronel Magalhães, atreveu-se a entrar a cavalo no Campo, sem que alguém o impedisse. Quis falar com o capitão Leitão. Levaram-no junto dele. Magalhães tentou convencer o capitão a desistir da revolta, mas o homem era teimoso e estava decidido a seguir em frente.
De manhã cedo, um grupo de estudantes veio juntar-se a nós, dando vivas à República. A malta animou-se. Esperava-se que o Regimento de Infantaria 18 acabasse por aderir ao levantamento. As praças lá permitiram que os civis arrombassem uma porta. Santos Cardoso, um fala-barato em que poucos revoltosos confiavam, entrou no quartel acompanhado do actor Miguel Verdial e começou a arengar aos oficias. A acreditar no que o homem dizia, o rei já tinha fugido para um navio e navegava àquela hora para Inglaterra. Fora proclamada a República! O governo ameaçava expulsar do Exército os oficiais que se lhe opusessem.
A palestra surtiu algum efeito e a confusão instalou-se no Regimento.
Entretanto, a banda de Infantaria 10 desceu a Rua de Almada, a tocar “A portuguesa”. Nós e os civis íamos atrás. Não estávamos alinhados para o combate, mas para um desfile. Ocupámos a Praça de D. Pedro por volta das seis da manhã. A nossa bandeira foi hasteada na Câmara Municipal do Porto. Houve discursos. Ninguém os ouviu, mas não fazia mal. Era a República! Tínhamos governo e tudo!
As horas passaram. A tropa tinha fome. Estavam ali 600 homens, e pouco pão se pôde arranjar. Fui conversando com os colegas. Demos conta que não havia propriamente um plano militar e que nenhum ponto estratégico tinha sido ainda tomado. Começámos a preocupar-nos.
Os nossos oficiais resolveram então formar uma coluna. Subimos a Rua de Santo António
[2] em direcção à Batalha. A banda pôs-se outra vez à frente, a dar música ao povo.
A Guarda Municipal tinha-se posicionado no adro da Igreja de Santo Ildefonso. Já não estava sozinha. Do lado do Teatro de S. João, alinhava o destacamento de Cavalaria 6, que acabara por se inclinar para o campo dos talassas. Do outro lado, havia uma centena de praças da Guarda-Fiscal.
– A Guarda-Fiscal estava dividida...
– Sim! Metade alinhou connosco e metade com o Governo. Os municipais, não. Eram quase todos monárquicos. A nossa coluna não pretendia lutar, mas sim chamar para o nosso lado o resto da tropa. Acreditávamos que tanto a população como os soldados queriam mesmo a República. A essa hora, ainda dispúnhamos de vantagem em termos de efectivos. Dificilmente a Guarda Municipal seria capaz de enfrentar dois regimentos do Exército. A ser um ataque, estaria a ser conduzido de forma idiota. Marchávamos em coluna de quatro e subíamos uma rua íngreme, direitinhos às balas do inimigo. Os civis iam-se misturando connosco.
Alguns populares correram à frente da banda e insultaram os soldados da Municipal. Os gajos estavam cheios de medo e dispararam alguns tiros. Foi a debandada. Os civis correram rua abaixo pelo meio da formação, desorganizando completamente a nossa coluna. Alguns militares fugiram também, abandonando as armas. Quando conseguimos reunir de novo a tropa, éramos apenas 150 a defender a República. Retirámos para os Paços do Concelho.
Aos poucos, as tropas governamentais foram aparecendo. As peças trazidas da Serra do Pilar foram apontadas para nós. Era impossível oferecer resistência. Por volta das dez e meia da manhã, acabámos por desistir. A República durara três horas.
– Foi uma oportunidade perdida...
– Hoje, nem disso estou certo. Mesmo que ganhássemos o Porto, que aconteceria com o resto do País, especialmente com Lisboa? Aquilo não passou de um sonho de rapazes generosos. Sob o ponto de vista militar, que era o determinante, a revolução foi muito mal preparada.
– A ver se da próxima fazemos melhor...
– Vamos brindar a isso! – Disse Madruga. Senhor Hernâni! Traga dois copinhos daquela sua aguardente especial!
Depois de beberem, despediram-se. Pairava no ar o aroma a conspiração. Podia ser que a República nem tardasse.



[1] Hoje Praça da República.
[2] Actual Rua 31 de Janeiro. O nome antigo continua a ser usado.

Excerto do romance 1910 (Editorial Cristo Negro Lisboa, 2009)