PEREGRINAÇÃO
IV
O autor da Peregrinação foi um dos primeiros europeus a entrar no Japão e julgou mesmo ter sido o primeiro. Creio que desembarcou ali, pela primeira vez, em 1544. Um navio português já lá tinha estadado no ano anterior. O nosso colega José Poças desenvolverá essa narrativa.
Refiro apenas que, na ilha de Taxinumá, o senhor dela ficou deslumbrado com as espingardas.
Um dos portugueses, de nome Diogo Zeimoto, tomava algumas vezes por passatempo atirar com uma espingarda, na qual era assaz dextro. Os japões, vendo aquele novo modelo de tiros, deram rebate disso ao daimio. Curiosamente, uma arma de fogo obrigaria Fernão Mendes Pinto a ser o primeiro europeu a executar uma pequena cirurgia no Japão.
O rei do Bungo (seria um daimio), assaz enfermo e atribulado de gota, perguntou-lhe se sabia de alguma mezinha lá dessa terra do cabo do mundo para aquela enfermidade. Fernão respondeu que não era médico nem aprendera essa ciência, mas que no junco em que viera da China vinha um pau cuja água curava muito maiores enfermidades que aquela de que ele se queixava e que se o tomasse teria logo saúde.
O rei mandou buscar o remédio a Taxinumá e se curou com ele e foi logo são em trinta dias.
Mais tarde, enquanto o português dormia, um dos filhos do rei de Bungo pegou na espingarda. Não sabendo calcular a quantidade de pólvora necessária, encheu com ela o cano, apontou a uma laranjeira e disparou. A arma rebentou por três partes e lhe fez duas feridas, uma das quais quase lhe decepou o polegar da mão direita e outra acima da testa.
E encomendando-me a Deus e fazendo (como se diz) das tripas coração, por ver que não tinha ali outro remédio, e que se assim o não fizesse me haviam de cortar a cabeça, preparei tudo o que era necessário para a cura e comecei logo pela ferida da mão, por me parecer a mais perigosa, e lhe dei nela sete pontos, mas que se fosse por mão de cirurgião quiçá que muitos menos bastassem; e na ferida da testa, por ser mais pequena lhe dei cinco somente e lhe pus em cima estopadas de ovos, e lhas atei muito bem, como algumas vezes vira fazer na Índia. E aos cinco dias lhes cortei os pontos… … quis Nosso Senhor que dentro de vinte dias ele foi são, sem lhe ficar mais mal que só um pequeno esquecimento no dedo polegar.
Fernão Mendes Pinto esteve pelo menos quatro vezes no Japão com estadias, nas idas e voltas, nas costas da China. Em 1544, esteve na ilha de Tanegashima e no Bungo, uma das nove províncias da ilha de Kyushu.
Em 1546, associado a Jorge Álvares e ao novo capitão de Malaca, Simão de Melo, desembarcou em Yamagawa, na baía de Kagoshima. Em 1551, na nau de Duarte da Gama, voltou ao Bungo onde reencontrou Francisco Xavier que conhecera em Malaca anos antes.
O antigo pirata tornou-se um comerciante bem sucedido e chegou a ser tido como um dos homens mais rico de Malaca.
Influenciado pela personalidade fortíssima de Francisco Xavier, libertou os seus escravos e ingressou na Companhia de Jesus. Iria demorar-se lá pouco tempo.
Sobre essa parte da História, escutaremos a Maria José Leal.
Em 1558, o aventureiro saiu de Goa para Lisboa onde chegou, segundo as suas próprias palavras, a 22 de setembro.
De acordo com Alexandre Flores, viveu no concelho de Almada, na zona do Pragal, ali constituindo família. Integrou-se na sociedade local e foi Juiz de Vila e Mamposteiro da Gafaria de S. Lázaro e da Albergaria de Almada. Terá escrito a Peregrinação na sua quinta de Palença. Fui procurar “mamposteiro” nos dicionários. Não vem em todos. Será “procurador” ou “a pessoa que coleta esmolas para uma instituição”.
Analisemos agora brevemente alguns aspectos da Peregrinação.
Os emissários que múltiplos personagens do livro enviam para diversas entidades levam sempre, ou quase sempre, mensagens escritas. Sabe-se da grande diversidade de idiomas dos povos das regiões por onde Fernão Mendes Pinto terá andado. Ora, os intérpretes raramente são convidados para o enredo. Este é um dos aspetos que nos obrigam a duvidar da veracidade de partes do texto.
Outra questão é de natureza religiosa. FMP descreve uma grande quantidade de ídolos e deuses locais. No entanto, quando se entrega às suas inúmeras dissertações de moral, o autor encosta-se sempre ao monoteísmo judaico-cristão.
Falemos dos números. Fernão Mendes Pinto parece apaixonado por eles. Enumera as pessoas, as embarcações, os edifícios, incluindo os pagodes, com as colunas e estátuas que contêm. O valor das mercadorias, dos saques de pirataria e dos prejuízos resultantes dos naufrágios é sempre quantificado e cambiado para cruzados.
Além dos cruzados (de ouro naquele tempo), havia os reais, os tostões e os vinténs (de prata) e os centis (de cobre). No tempo de D. João III, um cruzado valeria 400 reais, ou réis. Lembramos que a tença atribuída a Luís de Camões importou em 15.000 réis por ano, o que equivalia a cerca de 375 cruzados.
A preocupação do autor com dados e números é manifestamente exagerada. Necessitaria duma memória prodigiosa para poder fixar todos os dados que aponta. Do mesmo modo, é quase impossível levar a sério a profusão de registos de medidas de áreas de povoações, rios, baías e tripulações de navios, as latitudes dos lugares, a profundidade das bocas dos rios, em braças e a largura dos esteiros em tiros de berço.
Um ábaco não lhe chegaria se o tivesse e estivesse habituado a manuseá-lo. Teria de ser um privilegiado em matéria de cálculo mental. O mesmo se repete quando enumera os milhares de soldados, armas, cavalos e elefantes. Faz pensar que escreve assim para aumentar a credibilidade da escrita. A intenção acaba por produzir um efeito contrário.
Quando fala de grandes exércitos e armadas, Fernão Mendes Pinto tem tendência a exagerar. A tripulação dos navios parece demasiadas vezes sobredimensionada. Em expedições mais pequenas, o autor parece sentir menos a necessidade de ficcionar.
Houve quem escrevesse que o exagero é um elemento essencial da Peregrinação. Faria parte do estilo da obra e serviria para impressionar os leitores. Por exemplo: ao invadir a China, o rei dos tártaros comandaria um exército de um milhão (Pinto usa o termo conto) e quarenta mil homens de armas, transportados em 16 mil embarcações. Os números são fantásticos, mesmo que tenhamos em conta a desproporção entre o número de habitantes da Europa e da Ásia. Por outro lado, quem os poderia ter contado e registado por escrito?
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