DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

                                            
                              AMÍLCAR CABRAL  

                                      LIV       

                  AS MULHERES



      São bem conhecidas as posições de Amílcar Cabral sobre a necessidade de promover a evolução social das mulheres. Isso é refletido em vários dos seus textos. Lembremos alguns:
“Nas condições da nossa terra, qualquer pessoa que manda pode ter, em geral, tantas mulheres quantas quer. Essa é que é a África de hoje ainda. Vejamos os ministros da África em geral: quantas mulheres têm? Mas não avançam nada com a sua terra. Temos que cortar isso na nossa terra completamente.”
“Um bom responsável do nosso Partido, um bom dirigente, tem que ser capaz, como um homem que tem necessidade de uma mulher, ou como uma mulher que tem necessidade de um homem − porque é normal ter-se uma companhia − de escolher seriamente a sua companhia, para dar exemplo como deve ser.”
 “Alguns camaradas fazem o máximo para evitar que as mulheres mandem, embora por vezes haja mulheres que têm mais categoria para mandar do que eles”. “
“Há camaradas homens, alguns, que não querem entender que a liberdade para o nosso povo quer dizer liberdade também para as mulheres, a soberania para o nosso povo quer dizer que as mulheres também devem participar nisso para mandarem também, com os homens. Muita gente diz que Cabral está com as suas manias de pôr as mulheres a mandar também”.
        “Aparece uma rapariga, esperta, mais ou menos bonita, em vez de a ajudar, dar-lhe a mão para avançar, para ser enfermeira, ser professora, para ir estudar, para ser uma boa miliciana, ou qualquer outra coisa, não, faz dela sua amante; porque é muito bonita e ele é que tem o direito de tomar conta dela. Temos de acabar com isso.”
“Quem quer uma bajuda, hoje ou amanhã, pode arranjá-la, conquistá-la, casar com ela, mas não utilizar a autoridade do Partido para ter tantas mulheres quantas deseja. Enquanto houver isso, estaremos a enganar-nos e a dar razão aos tugas e a todos os inimigos do nosso povo”.
Se o seu posicionamento político é claro, pouco se sabe, contudo, sobre o seu relacionamento íntimo com o belo sexo. Consta que, enquanto adolescente no Mindelo, chegou a ser conhecido como conquistador. Bebeu de culturas (a guineense, sobretudo,) em que a poligamia tinha raízes fundas. É natural que, nos meios urbanos, se começassem a generalizar as uniões monogâmicas, mas as bajudas eram uma atração a que só os santos se mostravam capazes de resistir e não consta que tenha havido muitos na África Equatorial. Verdadeiro ou falso, deixamos aqui este texto:  
 “Conhecido o fraco do secretário-geral por mulheres, Awa Cassamá, uma mulher fula conhecida pela sua invulgar beleza, com dois filhos já adultos a servirem nas FARP, foi abordada pelos conspiradores para atrair Cabral para uma cilada.” Recusou participar e procurou avisar Amílcar Cabral da ameaça. Foi assassinada".
Amílcar Cabral casou por duas vezes. Em Lisboa, desposou uma colega de curso, Maria Helena de Athayde Vilhena Rodrigues. Tiveram duas filhas, Iva e Ana Luísa.
 Maria Helena nascera em Chaves e era filha de um capitão médico que perdera em África as duas pernas. Conseguira bolsas de estudo para o Liceu e para a Universidade.
 O ensino era muito exigente no Instituto Superior de Agronomia (ISA). Só chegou ao terceiro ano uma minoria das duas centenas de alunos que tinham começado o curso juntos. Cabral ajudava Maria Helena nos estudos. O futuro líder do PAIGC distinguia-se no ISA pela inteligência e pelo trabalho. Estava sempre disposto a partilhar os seus conhecimentos e era popular entre os seus colegas. Helena considerava-o “uma pessoa extraordinária, com uma grande cabeça”. Admirava-lhe também a cultura. “Todas as vezes que nos encontrávamos, Amílcar trazia um livro sobre questões políticas ou sociais”.
 Quando se soube que Helena se dava com Amílcar Cabral e frequentava a Casa dos Estudantes do Império, começaram a chamar-lhe comunista.
  Amílcar foi a Chaves conhecer a mãe da namorada. Viu-se rodeado pela curiosidade dos miúdos da terra, muitos dos quais nunca tinham visto um negro. Ao passearem juntos em Lisboa, chegava a ser insultado por andar com uma branca. É provável que se sentisse magoado, mas relativizava esses incidentes, atribuindo-os à ignorância e à pobreza.
  As amigas aconselharam Maria Helena a deixar o preto. Ela não lhes deu importância. Casou e acabou por perder a bolsa de estudos, numa altura em que lhe faltavam poucas cadeiras para acabar o curso. O casamento foi modesto. A seguir à cerimónia, os noivos almoçaram sozinhos. Fizeram depois uma festa em que participaram Alda Espírito Santo, Julieta Espírito Santo, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto.
O jovem casal conheceu dificuldades. Para pagar as contas, foram dando explicações a alunos do liceu e da Faculdade.
Seguiu-se a estadia na Guiné-Bissau. Ali nasceu Iva, a primeira filha. Ao fim de três anos na Guiné, regressaram doentes. Enquanto Amílcar se empregou em Santos, na Brigada Fitossanitária, Maria Helena concluiu a tese.
Quando os antigos professores arranjaram trabalho para Amílcar em Angola, Maria Helena acompanhou-o. Deu aulas em Luanda e no Lobito.
De volta a Lisboa, e entre as idas e vindas de Amílcar, alugaram casa na Avenida Infante Santo. Por essa altura, perceberam que estavam a ser vigiados. À data, Marcelino dos Santos e Mário Pinto de Andrade já tinham deixado Portugal.
Os problemas do casal parecem ter começado quando Amílcar Cabral se deslocou a Paris e comunicou à esposa, por carta, que não regressava. Cabral fizera a escolha decisiva da sua vida e não sabia como gerir a situação da família. Maria Helena resolveu juntar-se ao marido em França. Ele ainda lhe pediu que voltasse a Lisboa. O receio da polícia política fê-lo mudar de ideias. A mulher e a filha estariam mais seguras no estrangeiro.
No ano seguinte, Ana Maria saiu de Portugal e instalou-se em Paris, em casa de amigos. Esteve ali 8 meses, mas Amílcar Cabral fez-lhes pouca companhia. Começara a grande aventura.
O casal acabou por se fixar em Conakry. Ao tempo, a debandada dos quadros franceses deixara o país sem funcionários qualificados. Maria Helena chegou à capital da República da Guiné com a pequena filha Iva e conseguiu facilmente emprego como professora do liceu. Cabral ainda se empregou como técnico agrícola, mas, algum tempo depois, deixou o trabalho para se dedicar exclusivamente à organização da revolta contra Portugal. Viviam com dificuldades, mas iam chegando os amigos: Luís Cabral, Aristides Pereira com a mulher e Abílio Duarte. Helena voltou a engravidar. Amílcar convenceu-a a passar a gravidez em Marrocos (Rabat), onde os cuidados médicos eram melhores.
Embora o que se passava no casal dentro de portas fosse mal conhecido, teriam crescido as divergências, inclusive de índole política. Cabral não quis a mulher de volta a Conakry após o nascimento da segunda filha.
O casal separou-se formalmente em 1966. Ainda antes do ano acabar, Cabral casou-se com Ana Maria Voss e Sá, natural da Guiné e antiga estudante na Checoslováquia. Foi dela que teve a terceira filha, N`Dira Abel.


Segundo um comentário da Internet, Ana Maria Voss e Sá teria casado em primeiras núpcias com José Alves Monteiro, o “Gin” do Ouro Negro, quando o conjunto musical era um trio. A notícia não é relevante, mas não deixa de ser curiosa. Não fui capaz de excluir uma coincidência de nomes.
Maria Helena ligou-se aos oposicionistas portugueses refugiados em Marrocos. Acabou por casar, em Rabat, com Henrique Cerqueira, ajudante de campo do general Humberto Delgado. Após o 25 de abril, Maria Helena regressou a Portugal.
Diana Andringa entrevistou Ana Maria: “Quando o conheci, numa casa da Rua Actor Vale, em Lisboa, não o associei a esse Amílcar Cabral de cujo trabalho na Guiné já tínhamos ouvido os ecos. O engenheiro que me apresentaram não parecia capaz de fazer nada disso…” Ana Maria Cabral ria-se, quando contou esta história.
Segundo o seu testemunho, a confiança exagerada do marido nos companheiros e camaradas abreviou-lhe a vida. Amílcar detestava escoltas e seguranças. Quando alguém do PAIGC procedia mal e era preso, procurava libertá-lo depressa.
Ana Maria testemunhou o assassinato do marido, frente à casa onde habitavam, em Conakry. Apesar da escuridão, foi capaz de reconhecer alguns dos matadores. Não lhe fizeram mal. Ela não era uma personalidade importante do partido e, afinal de contas, era guineense.
 Muitos casamentos são precários e falham por causas variadas. É fácil imaginar que Amílcar Cabral desse conta das dificuldades de aceitação da sua liderança de parte de alguns militantes guineenses do PAIGC. Já lhe bastava ser cabo-verdiano. Ainda por cima, ter uma esposa branca… 
Cabral morreu, mas as suas lições perduram. Disse, em tempos, aos seus companheiros de luta:

“Aqueles que entenderam bem que um homem enquanto tiver três, quatro mulheres, nunca será um homem de verdade e que não há nenhum povo que possa avançar com homens com quatro mulheres”

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