DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 15 de setembro de 2013

                             ANTÓNIO MOREIRÃO


Conheci o António Moreirão em Coimbra, no rescaldo da crise académica de 1962, em que ele teve uma participação assinalável. Como éramos ambos de Almendra, íamos conversando durante as férias de verão e tornámo-nos amigos.
O Moreirão pertencia a uma família em clara ascensão na terra. Apesar de ser dotado de uma inteligência bem acima da média, perdeu-se noutras andanças e nunca completou o curso de Direito.
Com alguma marca de ADN missionário nas veias, o António Moreirão empregou-se nas bibliotecas itinerantes da fundação Calouste Gulbenkian e calcorreou as estradas do Alto Douro e da Beira Alta a distribuir cultura. Nas paragens, sentava-se no chão da carrinha, frente a pequenos grupos de jovens ávidos de saber e improvisava pequenas palestras com tempero antissalazarista. Acabou por se fixar em Trancoso.
Lembro-me do tempo em que, à falta de melhores opositores, elegeu como inimigo de eleição o pároco da nossa aldeia e se divertiu a complicar-lhe a vida.
Já não testemunhei a sua amizade, em Almendra, com o padre Maximino (Max). Contou-me que chegou a ser seu treinador de futebol e lhe gritava das bancadas:
− Max! Mostra que és homem!


O padre Maximino Barbosa de Sousa aceitou candidatar-se a deputado pela UDP (União Democrática Popular) em 1976. Foi cobardemente assassinado à bomba, juntamente com a jovem Maria de Lurdes Correia, que seria sua aluna ou, como outros pretendem, sua namorada. O Ministério Público não foi capaz de apresentar provas que permitissem condenar os criminosos e os processos foram arquivados. O famoso cónego Melo, de Braga, cuja estátua polémica aguarda inauguração, consta da lista dos possíveis autores morais do crime. Alguns dos executantes estariam ligados a Trancoso.
Foi bom voltar a ver o Moreirão, após tantos anos de distanciamento. Envelhecemos ambos, mas o António mantém nos olhos espertos o brilho maroto da juventude. Não deixou que o tempo lhe tocasse na memória. É um depositário espantoso das histórias do passado da nossa Almendra natal e dos enredos da Trancoso contrabandista.
Tenho alguma ligação familiar a Trancoso. O meu pai foi ali chefe dos Correios meia dúzia de anos antes de eu nascer, enquanto ia fazendo o curso de Direito, como aluno voluntário, em Coimbra.

O António Moreirão ainda não sabe que dei o seu nome ao personagem principal do mais longo dos contos que escrevi até hoje: «O Geronte dos Mares».

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