DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quarta-feira, 17 de julho de 2019



CRÓNICAS DA TAPROBANA


VII


COLOMBO


Durante a nossa visita ao Sri Lanka, todos os hotéis onde ficámos instalados foram de excelente qualidade. O Amari de Colombo foi um dos mais bonitos.


A uns 50 metros da praia, ao longo da extensão de costa visível da varanda do nosso quarto, há uma primeira linha de rebentação das ondas. 




Será devida a uma fileira de recifes. Os marinheiros antigos, quando se aproximavam de terras desconhecidas, tinham a sabedoria e o cuidado de evitar esses perigos mortais.


Colombo é a maior cidade da ilha e o principal centro económico, financeiro e cultural do país. Não é oficialmente a capital do Sri Lanka,  a qual, estranhamente, se situa em Cota, antiga capital do reino cingalês, que hoje não passa de um bairro de Colombo. Foi ali instalado o Parlamento.
Os portugueses dominaram este importante porto do Oceano Índico em duas alturas diferentes: entre 1518 e 1524 e entre 1554 e 1656. Aos portugueses seguiram-se os holandeses e depois os ingleses, que governaram o país até à independência, em 1948.
O nome Colombo foi introduzido pelos portugueses. Poderá derivar de uma expressão cingalesa que designa as mangueiras, abundantes na região.
O seu porto natural é conhecido há mais de dois milénios. Por volta do século VIII, um grupo de comerciantes mouros estabeleceu-se na região, dando começo à comunidade muçulmana do país.
A parte antiga de Colombo ainda se chama Fort. Situam-se ali o palácio presidencial e alguns dos melhores hotéis da cidade. A região anexa, designada Pettha, é o centro comercial de Colombo.
A influência colonial é aparente na arquitetura, na alimentação e na linguagem locais. Encontram-se, lado a lado, edificações antigas e modernas.
A região de Colombo é também a mais industrializada do país, que exporta téxteis, móveis, joias, produtos químicos, vidro e cimento.
Pettah é um daqueles locais em que nos sentimos bem. Abundam as lojas de roupas. Na Cruz Ruas, cada uma das cinco artérias está especializada num tipo de produtos.
Existe alguma criminalidade e nota-se a presença policial. Curiosamente, quando tive necessidade de me dirigir a um par de agentes, para pedir uma informação, vi que o nome que ele tinha escrito na placa de identificação era “Perera”.
Esta crónica despretensiosa pretende fazer passar a imagem de um país de grande beleza natural,



com vegetação magnífica,




fauna diversificada e bem protegida,




estradas ladeadas por edifícios de arquitectura por vezes estranha,



com abundante oferta de produtos locais,




restaurantes à beira da praia com comida de qualidade a preços acessíveis



e, acima de tudo, gente que deseja a paz e a oportunidade de construir um futuro melhor, o qual passa, também, pelo desenvolvimento turístico. 

     A revolta tamil passou à história. Não sou bruxo, nem adivinho o futuro, mas quer-me parecer que o terrorismo islâmico não tem condições para se enraizar no Sri Lanka.






terça-feira, 16 de julho de 2019



CRÓNICAS DA TAPROBANA


VI


GALLE


Galle, situado no extremo sul da ilha, foi outrora um porto importante e continua a ser procurado por muitas embarcações.
Segundo alguns historiadores, Galle era o antigo porto de Tarshish, de onde o Rei Salomão importava pedras preciosas, marfim, pavões e canela. Sabe-se Indianos, malaios, árabes, persas e até gregos e romanos negociaram mercadorias nesse porto. O lendário almirante eunuco chinês Zheng He visitou este porto.


Em 1507, uma pequena frota portuguesa sob o comando de Dom Lourenço de Almeida, dirigia-se para as ilhas Maldivas, mas foi desviada do seu rumo por uma tempestade e aportou a Galle, antes de visitar Kotta onde o rei morava. Os portugueses conquistaram Galle em 1587 e erigiram ali uma fortificação simples, protegida por um fosso.
Em 1640, o forte português foi sitiado por uma frota da Companhia Holandesa das Índias Orientais composta por 12 navios que transportavam 2.000 homens, sob o comando de Wilhelm Coster. Após quatro dias debaixo de fogo, os portugueses tiveram de se render.

                        Bastião "Sol"
Em 1663, os holandeses transformaram a fortaleza portuguesa num único bastião, a que chamaram Bastião Negro e ampliaram o forte. Amuralharam a cidade e ergueram dez bastiões que ainda existem hoje. Alguns têm nome: Sol, Lua e Estrela. Outro foi batizado como Bastião Akersloot, em homenagem à cidade onde nasceu Coster, o comandante holandês que venceu os portugueses.

           Segundo o guia, este seria o bastião português.

                Outra imagem do possível bastião português.

Os ingleses tomaram conta do forte em 1796. Não o modificaram, tendo-o utilizado como edifício administrativo central. Hoje, a fortaleza de Galle constitui o exemplo melhor conservado das cidades amuralhadas construídas pelos europeus no sudoeste asiático.

              Porto interior visto do "Bastião português".
A cidade de Galle foi também atingida pelo grande maremoto de 2004, tendo morrido milhares dos seus habitantes.

                                   Igreja holandesa
Os holandeses usavam o galo como símbolo da cidade. É possível que “Galle” seja um aportuguesamento de “galo”, embora existam outras teorias.

               Maquilhando a bela no forte, antes das filmagens.

segunda-feira, 15 de julho de 2019



CRÓNICAS DA TAPROBANA


                V


                 YALA



Na vizinhança da povoação de Yala, situa-se o Parque Nacional de Yala (Ruhuna), um dos mais conhecidos do Sri Lanka.


A abundância de animais selvagens é espetacular. Veem-se búfalos,  javalis, veados, crocodilos, chacais e elefantes. Haverá também leopardos, mas não avistei nenhum. 



Os veados, os facocheros, os elefantes e os búfalos  são fáceis de encontrar. 








Os animais coabitam como podem. Por vezes, não existem incompatibilidades entre eles, com acontece com estas duas espécies de herbívoros.


Outras vizinhanças comportam certos riscos.


As aves são muitas e de espécies variadas. Os pavões selvagens exibem-se a cada passo. 


A ave nacional é um galo colorido, o Galo de Ceilão, que não difere muito dos galináceos domésticos. Avistei apenas um, de relance e não o pude fotografar. É parecido aos galos que vemos nas nossas capoeiras. Será antepassado deles.

                           Compadres

Yala fica no sudoeste do país. O tsunami de 26 de dezembro de 2004 matou, no Sri Lanka, mais de 30.000 pessoas e desalojou acima de meio milhão de habitantes. As costas sul e leste da ilha foram as mais atingidas. Um comboio foi arrastado pelo maremoto, tendo morrido todos os seus 1700 passageiros.

                    Memorial à vítimas do tsunami

Ao longo da costa sul, vários hotéis cheios de turistas foram arrasados.


Os agricultores foram severamente afetados. Nas regiões costeiras, as culturas das terras baixas foram destruídas e os terrenos salinizados.
Conta-se que, no Parque Nacional de Yala, muitos animais escaparam fugindo rapidamente para terrenos mais elevados. Supõe-se que as suas bandas de audição sejam mais alargadas que as dos humanos, o que os terá avisado mais cedo. No entanto, tal suposição está por fundamentar.



domingo, 14 de julho de 2019



CRÓNICAS DA TAPROBANA


IV


KANDY E NUWARA ELIYA


 KANDY


Kandy situa-se na região central da ilha, nas montanhas do planalto de Kandy, uma região de plantações de chá. Foi capital do Sri Lanka. É conhecida  pelo Templo do Dente Sagrado, um dos locais mais respeitados do mundo budista.


              Interior do Templo do Dente Sagrado

Os portugueses instalaram-se no Sri Lanka no começo do século XVI. Fundaram a cidade de Colombo e estenderam progressivamente o seu domínio às regiões costeiras.
Registaram-se combates intermitentes entre portugueses e cingaleses. Em 1592, Kandy tornou-se capital do último reino independente da ilha.  

                      Imagem de Kandy

Os nossos soldados não conseguiram conquistar a cidade, protegida pela orografia.  Curiosamente, o terceiro monarca que os portugueses conheceram na ilha era uma senhora e chamava-se Dona Catarina.

                     Edifício antigo dos correios

Kandy resisitiu durante muitos anos às tentativas holandesas de ocupação e apenas foi conquistada em 1765. 
    Cerca de 20 anos mais tarde, os ingleses expulsaram os holandeses da ilha e desenvolveram as plantações de chá, reduzindo os habitantes a uma pobreza extrema.  Exerceram um domínio sangrento, entrecortado de revoltas, que durou até ao fim da II Grande Guerra.
Kandy é a terra dos corvos. Voam por toda a parte, ao contrário de Lisboa, onde só existem no emblema da cidade.


NUWARA ELIYA


Nuwara Eliya, situada nas montanhas e rodeada de plantações de chá, é a cidade mais fresca do país.


Devido ao clima e à paisagem, chamam-lhe “A pequena Inglaterra”. Situa-se a uma altitude superior a 1800 metros. Existem diversas fábricas de chá na sua vizinhança. Veem-se também algumas cascatas.


Nuwara Eliya serviu de local de recreio para os colonos ingleses ricos, que podiam ali desfrutar dos seus desportos tradicionais, a que podiam aliar a caça a veados e a elefantes.







CRÓNICAS DA TAPROBANA


III


POLONNARUWA



Polonnaruwa foi capital do reino com o mesmo nome, o segundo mais antigo do Sri Lanka. Os seus sistemas de irrigação das terras para a cultura subaquática de arroz eram, à época, os mais eficientes da ilha.
Atualmente, a cidade velha de Pollonnawra apresenta-se como um dos lugares arqueológicos melhor planeados do sudoeste asiático.


Ao entrar no que resta da velha cidade, damos primeiro com os vestígios do Palácio Real, construído durante o sec. XII da era cristã. A estrutura terá contado sete andares e as paredes teriam três metros de espessura.


A Sala de Audiências, onde o rei escutaria os seus conselheiros e administraria justiça, está relativamente bem preservada. 



       Faz lembrar certas ruínas romanas. 


Os altos-relevos que decoram as paredes inferiores dão realce aos elefantes (quase uma centena, em posições diversificadas), mas ilustram também leões e outros animais.





O Quadrângulo sagrado é um grupo de edificações assente numa plataforma rodeada por um muro. Tem, a meio, o Vatadage, um santuário circular. 





O Vatadage tem quatro entradas, todas adornadas por figuras de pedra em bom estado de conservação. 


                                       Uma das entradas 

Ao centro, está um espaço reservado a quatro estátuas de Buda.

                                          
A nossa visita foi realizada depois do almoço. Estavam mais de 30º (à sombra) e a humidade era elevada. Provavelmente, as agências de viagens deveriam ter em conta, entre outras coisas, as idades dos turistas. A minha mulher quase sofreu uma insolação, mas recuperou rapidamente.
Esse pequeno percalço de saúde encurtou o programa. Teremos visitado menos de metade dos lugares de interesse em Polonnaruwa, que são muitos. Trata-se do local arqueológico mais interessante dos que pudemos visita no Sri Lanka. 
Completámos a vista na Internet… No entanto, todas as fotografias apresentadas são minhas.
 Termino o artigo com uma que dá que pensar e que se encontrava à entrada do espaço conhecido como quadrilátero sagrado.


Não tem legenda, mas o guia explicou-me o significado da placa em pedra: se profanares as relíquias, ou roubares, serás, na tua próxima encarnação, corvo ou cão.


sábado, 13 de julho de 2019


CRÓNICAS DA TAPROBANA


II

DAMBULLA E SIGIRIYA


DAMBULLA


Dambulla fica situada numa região montanhosa, na parte central da ilha. É conhecida pelo seu templo, que se distribui por várias grutas e dista cerca de 20 quilómetros da povoação.
Trata-se de um dos maiores e mais importantes complexos de templos budistas do sudoeste asiático. A edificação data do sec. I a.C. e assenta num rochedo isolado. Abrigou o rei Walagamba de Anuradhapura durante o seu longo exílio, quando teve de escapar aos invasores vindos do sul da Índia. Ao recuperar o trono, o rei decidiu transformar as grutas num mosteiro.
O complexo religioso foi sendo modificado e acrescentado, ao longo dos séculos, por outros monarcas. Ainda funciona como mosteiro.
A primeira gruta contém uma imagem de Buda reclinado, com 14 metros de comprimento.


A segunda é ocupada por centena e meia de estátuas de Buda, em tamanho natural, a que se juntam estátuas de reis e de deuses hindus, incluindo Vishnu e Ganesha. 



As pinturas das paredes e teto ilustram passagens da vida de Buda e acontecimentos da história de Ceilão.


Curiosamente, a estátua do rei Kirthi Sri Rajasingue (1747-1782) é adornada com cruzes, refletindo a influência das culturas portuguesa e holandesa.





SIGIRYIA



Sigirya é o “Rochedo do Leão”. Fica perto de Dambulla e avista-se do caminho que conduz ao templo. A fortaleza assenta numa colina rochosa que se ergue 200 metros acima das terras circundantes. 
Segundo o antigo Puskola Potha (O livro das folhas de palmeira) Sigiriya poderá ser a lendária Alakamandava (Cidade dos Deuses), edificada há 50 séculos pelo rei Kubera, meio-irmão de Ravana.
Seja verdade, ou não, a fortificação constitui um local de grande interesse histórico e arqueológico. O lugar foi povoado já na pré-história e há indícios de que monges e ascetas budistas o habitaram desde o sec. III a. C.
Terá sido escolhida para capital pelo rei Kasyapa, que governou entre os anos 477 e 495 d. C. Durante as duas décadas em que foi capital do reino, Sigiriya desenvolveu-se, como centro urbano e fortaleza.


O rei devia temer muito os seus inimigos, para mandar erguer o seu palácio num local quase inexpugnável. Segundo a lenda, Kasyapa assassinou o pai e usurpou o trono que deveria pertencer ao seu meio irmão Moggallana, que fugiu para a Índia e prometeu voltar com um exército, para recuperar os seus direitos.
Após a morte do rei, o palácio foi abandonado, tendo sido usado como convento budista até ao século XIV. Tem a importância de representar um exemplo dos locais melhor preservados de planeamento humano em todo o planeta.


Actualmente, contém as ruínas de um palácio situado no topo do rochedo, onde se podem ver cisternas talhadas na rocha. No terraço intermédio estão o Portão do Leão e a parede em espelho com os seus notáveis frescos. No plano térreo encontram-se os jardins, os fossos e os restos das muralhas que outrora protegiam o conjunto.
      A parede em espelho encontra-se parcialmente coberta de versos escritos por visitantes. Alguns datam do século VIII d. C.


   Os jardins de Sigiriya contam-se entre os mais antigos do mundo enquadrados em paisagem. Compreendem jardins aquáticos, terraços e rochedos ajardinados. Os principais encontra-se na parte ocidental do recinto e desenvolvem-se em redor de tanques de água ligados uns aos outros por condutas subterrâneas.