DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA

VIII

BALI

       A ILHA DOS DEUSES 

O que salta à vista, a quem percorre de carro as ruas dos arredores de Denpasar, incluindo a zona turística de Kuta, é a profusão de altares de pedra vulcânica negra. Ocupam os quintais e, por vezes, os terraços das moradias. 




  O seu número e o seu tamanho variam amplamente – quem é mais rico honra os deuses com ofertas mais valiosas – mas cada casa tem um à porta e outro dentro. Honram-se os deuses e os espíritos ancestrais, a quem são dadas ofertas frequentes.


  Há altares para todos os gostos e para todas as bolsas. Vão desde pequenas gaiolas de verga, muitas vezes enfeitadas com panos coloridos, até estruturas de pedra vulcânica ricamente decorada. 



  É certo que os deuses favorecem quem lhes dá oferendas maiores: os ricos vão estando cada vez mais ricos, enquanto a maioria de indonésios pobres tarda em usufruir dos benefícios económicos gerados pelo despertar da Ásia.


Bali está separada de Java por um estreito com duas milhas de largura. 
  Tem mais de quatro milhões de habitantes. Predominam largamente os balineses, embora a oferta de emprego na indústria do turismo atraia habitantes de outras ilhas. A religião mais seguida é a hindu, em contraste com a maioria muçulmana prevalecente no país. Fala-se o indonésio, o balinês e, cada vez mais, o inglês. A capital, Denpasar, está situada no sul da ilha.
Foram também António Abreu e Francisco Serrão os primeiros europeus a avistar a ilha, em 1512. Bali figura na carta marítima de Francisco Rodrigues, traçada nessa mesma data. Os navios portugueses navegavam duas vezes por ano ao longo da costa das ilhas de Sunda, a caminho das Molucas. Em 1585, um navio fundeou na Península Bukit, deixando uns tantos portugueses ao serviço do Dewa Agung, o mais importante dos nove reis da ilha.
A montanha mais elevada de Bali é o Monte Agung, ou Gunung Agung, um vulcão ativo com 3.000 metros de altura. Os terrenos vulcânicos são férteis e a chuva abundante. É nos terrenos mais planos que se estendem a sul das montanhas que se cultiva o arroz que alimenta os ilhéus. O terreno tem, contudo, de ser aproveitado e encontram-se plantações em socalcos. 


As praias da costa sul têm areia clara, enquanto as do norte são escuras.
Mais do que o norte e o sul geográficos, importam aos balineses as noções de “kaja” e “kelod”, que apenas parcialmente se confundem com esses pontos cardeais. “Kaja” é a direção do Gunung Agung, e “kelod” a do mar. Acredita-se que os deuses e os espíritos dos antigos habitam as montanhas, enquanto os demónios vivem no oceano. Assim, “kaja” identifica-se com o bem e “kelod” com as influências demoníacas. Nas habitações, os altares são colocados do lado da montanha e as zonas sujas viram-se para o mar.


                                   Vulcão Kintamani

A proximidade do Equador torna o clima de Bali quente e húmido, com temperaturas que pouco variam ao longo do ano. A época das monções dura de outubro a abril. Chove muito, sobretudo entre dezembro e março.  


                               Templo de Taman Ayun

Bali constitui um destino turístico muito procurado. As praias, os templos e a cultura atraem gente de todas as partes do mundo, com predomínio de australianos. Seguem-se, atualmente, os chineses, que ultrapassaram em número os japoneses. A ilha faz parte do Triângulo de Coral, a região marítima do mundo com maior biodiversidade. Os seus recifes são muito procurados para mergulho ou para snorkeling.



Em 2002, extremistas islâmicos detonaram uma bomba na área turística de Kuta (onde se situa o nossos hotel) matando 202 pessoas, na maioria turistas estrangeiros. Seguiu-se um atentado de menores proporções, em 2005. O turismo foi severamente abalado, tendo recuperado progressivamente anos mais tarde. Já ultrapassou o nível alcançado antes dos rebentamentos. Sempre foi mais fácil destruir do que construir. Explosões como a que se verificou há dias na Tailândia afastam os visitantes estrangeiros e empurram para a pobreza as centenas de milhar de habitantes locais que se ocupam na indústria turística. É ela que faz de Bali uma das regiões mais prósperas da Indonésia. Antes dos atentados, o turismo sustentava cerca de 80% da economia da ilha.
Com o crescimento, a área turística de Kuta passou já a fazer parte de Denpasar. Ubud, situada ao norte da capital, é o centro cultural da ilha.


                        Templo Goa Gajah (Gruta do Elefante)

Os artesãos de Bali são famosos e têm uma produção diversificada. Fazem tecidos de batik e ikat, esculpem a madeira e a pedra, trabalham a prata e pintam. As orquestras de percussão animam as representações teatrais que retomam os temas épicos hindus à maneira balinesa.


                                Dança de Barong e Kris

Persiste em Bali um sistema de castas que derivou do indiano e tende a desvanecer-se. As divisões são quatro. 93% da população pertence à casta Sudra, a dos camponeses. Seguem-se, na hierarquia, as castas dos comerciantes e funcionários administrativos, a dos aristocratas e guerreiros e a dos clérigos, os Brahamanes.


Ganexa, deus do sucesso e da sabedoria. Partiu um dente ao escrever o livro sagrado Mahabharata.


O hinduísmo balinês está longe de ser puro. É um sincretismo em que o panteão de deuses e semideuses hindus convive com divindades locais animistas e com figuras budistas. Deuses e deusas estão presentes em quase todas as atividades. Qualquer elemento da natureza possui uma força própria, que reflete o poder sobrenatural. As rochas, as árvores, as adagas e as vestes podem abrigar espíritos capazes de chamar o bem e o mal.

                                    Templo Ulun Danu

Com perto de 20.000 templos e santuários, Bali é chamada a ilha dos mil templos, ou ilha dos deuses.

domingo, 23 de agosto de 2015

CRÓNICAS DA INDONÉSIA

VII

NUVENS E VULCÕES

A Indonésia situa-se numa fronteira geológica. Confluem nesta região três placas tectónicas: a indo-australiana, a euro-asiática e a do Pacífico. Os sismos são frequentes.

                          Erupção do vulcão Krakatoa 

O arquipélago tem muitos vulcões. 150 estão ativos. O Krakatoa e o Tambora ficaram tristemente famosos pelas erupções desastrosas que ocorreram no século XIX. Está presente, na memória de quase todos nós, o sismo ocorrido em 2004 no Oceano Índico. O maremoto que lhe sucedeu vitimou cerca de 170.000 pessoas na ilha de Sumatra. Revimos vezes seguidas, as imagens daquela desgraça, na televisão.
Quase tudo o que acontece no mundo e na vida pode ter leituras diferentes. A cinza vulcânica melhora a fertilidade dos solos e não será escusado referir que os templos de Borobudur e Prambanan foram levantados com pedra vulcânica.
O constante evaporar da água e a condensação nas camadas mais frias da atmosfera conduz à formação das nuvens. Quando carregam, ocorre a chuva. A precipitação permite o crescimento de plantas que suportam as outras formas de vida, mesmo longe dos cursos de água. Estes factos evidentes não deixam de me maravilhar cada vez que, ao viajar, sobrevoo os patamares de cirros, estratos e cúmulos. Esse caos aparente não passa dum equilíbrio delicado que permite a nossa existência.


Não existe uma associação direta entre nuvens e vulcões, mas as duas palavras juntam-se muitas vezes no meu pensamento. Sem chuva, não existiríamos. Por outro lado, um planeta sem vulcões seria, provavelmente, um astro morto.
Sem as erupções periódicas que dão testemunho do núcleo ígneo que persiste sob a crosta terrestre e sem o movimento das placas tectónicas que, de certo modo, flutuam sobre ele, a terra seria uma extensa planície e poderia estar totalmente submersa pelo mar. São os vulcões e o entrechoque violento das placas que elevam as rochas e originam as montanhas.
A contrariar essas forças descomunais, a chuva e o vento agem de forma lenta, provocando a erosão e procurando horizontalidades. A água das chuvas vai corroendo lentamente as rochas das montanhas, começando pelas mais solúveis. Os rios e os glaciares escavam vales profundos. A terra solta é arrastada para depósitos nas regiões planas. As serranias calcárias são todas ocas. Têm os ventres escavados pela dissolução do calcário. Algumas grutas colapsam. O trabalho da chuva está a ser feito há milhões de anos.
Em tempos recentes, a atividade humana tornou-se outro poderoso fator de erosão à escala planetária. A agricultura e a pecuária levam à desmatagem, deixando os solos desprotegidos. A extração do petróleo produziu cavernas enormes e profundas em poucas dezenas de anos. Desconheço a probabilidade de colapsarem também. A acontecer, haveria de juntar aos abalos telúricos de origem vulcânica e tectónica os que resultassem dos atos humanos.
Esta longa introdução serve para abordar a nossa deslocação ao monte Bromo. A uma vintena de quilómetros do hotel, deixámos os autocarros e embarcámos em carrinhas com motores potentes. A estrada é estreita e tortuosa e tem um declive acentuado. Os condutores mostram-se arrojados. Os veículos que descem que se cuidem, que aí vamos nós…


 Lá bem alto, uma surpresa aguarda quem, como eu, não se informou devidamente sobre a viagem. O hotel é constituído por uma série de bungalows dispostos em socalcos na vertente da serra. 



 Um pequeno funicular garante o acesso ao lobby aos hóspedes pouco vocacionados para o alpinismo.
O hotel dá apoio logístico a quem pretende conhecer o Monte Bromo. Os guias dizem que não é bom nem mau: é o único na região.
A psicologia de massas distancia-se do que parecem ser as conclusões lógicas da análise individual de situações precisas. O programa da viagem previa o despertar de madrugada e o embarque em jipes para os Montes Penanjakan, a uma altitude de mais de 2.700 metros. O objetivo era apreciar o nascer do sol. Ora, é sabido que o sol nasce cada dia e que aurora é semelhante em todas as partes do mundo. A visita ao monte poderia realizar-se a uma hora mais conveniente. No entanto, o programa foi cumprido. Lá fomos apanhar frio e esperar que o sol nascesse. A estrada serpenteante estava apinhada de centenas de veículos de tração às quatro rodas que conduziram milhares de turistas sonolentos e regelados até perto do miradouro. 



   O resto do percurso fez-se a pé e não se pode dizer que tenha sido fácil. Houve quem se detivesse por dificuldades respiratórias resultantes da rarefação do ar e da falta de hábito de esforços dessa magnitude. No entanto, toda a gente prosseguiu. Vi caminhar penosamente a meu lado pessoas com muletas.


  Estou em crer que, se não fosse a menção ao nascer do sol, a afluência seria bem menor. A psicologia de massas tem coisas assim. Eu fui porque queria ver o vulcão Bromo e não teria outra oportunidade de o fazer. Terei sido o único a protestar.


Seguiu-se a descida para a ampla cratera, onde estavam previstos passeios em cavalos conduzidos pela arreata. Nesse dia, o pequeno-almoço teve de esperar.


Nota: as quatro primeiras fotografias foram retiradas da Internet

sábado, 22 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA
VI
KOPI LUWAK
O MELHOR CAFÉ DO MUNDO?

O luwak (civeta) é um mamífero frugívoro da família dos viverrídeos. O seu aspeto é o dum gato de focinho aguçado, orelhas grandes e cauda larga e comprida.
Existem diversas variedades desta espécie, como a civeta africana, também chamada gato-almíscarado, por possuir glândulas anais que produzem almíscar. É aparentado à nossa gineta, que se encontra, por exemplo na Serra da Arrábida, mas é carnívora.


O Kopi Luwak (café Luwak, ou café civeta) é produzido com grãos de café retirados das fezes da civeta. Os grãos são lavados, torrados e moídos.


O processo é utilizado na Indonésia e nas Filipinas. No Vietname existe um café semelhante. Neste caso, o animal utilizado é a doninha. Em Timor Leste chama-se café-iaku.
No Brasil começou a ser produzido uma variante desta bebida, recolhendo grãos de café das fezes do pássaro Jacu. 


O luwak digere os bagos de café. Os grãos, contudo, atravessam o sistema digestivo e são excretados intactos. Serão as bactérias e as enzimas intestinais do animal os responsáveis pelo paladar único deste café, a menos que as glândulas do almíscar contribuam igualmente para o processo.


A produção é limitada. A escassez determina um preço elevado. Se não é o melhor café do mundo, é seguramente um dos mais caros. O Kopi Luwak é vendido nos supermercados da Indonésia a 100 dólares americanos o quilo, o que representa cinco vezes o custo do café arábica local, reconhecido como de elevada qualidade.


Ao transformar-se em negócio, este método de produzir café tornou-se num pesadelo para as pobres civetas. Aprisionadas em pilhas de gaiolas, são alimentados, quase à força, com bagos de café. Os criadores têm sido acusados de crueldade para com os animais.


Há críticos que sugerem que o Kopi Luwak não passa de um café de qualidade inferior, consumido pela novidade e não pela excelência do gosto.
Por outro lado, a falsificação do produto parece tender a generalizar-se. Apenas os conhecedores são capazes de distinguir o café cagado do café comum.




sexta-feira, 21 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA

V

JOGYAKARTA, BOROBUDUR 

E PRAMBANAN

   Jogyakarta é única província indonésia ainda governada por um sultão. O nome da cidade também se escreve (e pronuncia) Jogjakarta. Tem pouco mais de meio milhão de habitantes e muitas universidades de prestígio. O custo de vida relativamente baixo atrai estudantes de todo o país, o que faz dela, de certo modo, uma Coimbra do arquipélago. A juventude estudantil vem de muitas ilhas, trazendo para a cidade uma profusão de etnias, usos, dialetos e religiões. Desconheço a proporção de raparigas em cursos superiores.
O guia gaba-se da abrangência dos javaneses, predispostos a aceitar diferenças, lidar com elas e integrá-las. Segundo ele, os javaneses são também os mais cultos e educados do país. Foram de Java todos os presidentes da Indonésia e nasceram e foram criados na ilha quase todos os políticos conhecidos. Não diz que são também os mais inteligentes, mas deixa a ideia no ar. Claro que o guia é javanês.
A cidade localiza-se num dos lugares de Java com maior atividade sísmica e tem sido abalada por terramotos e erupções vulcânicas. O abalo telúrico de 27 de maio de 2006 arrasou mais de 300.000 casas e provocou mais de 6.000 mortos. Quatro anos depois, o vulcão do Monte Merapi entrou em erupção, matando 353 pessoas e cobrindo de cinzas algumas aldeias vizinhas e o templo de Borobudur.
À noite, liguei a televisão e procurei um canal com noticiário em língua inglesa. Não o encontrei, mas deparei com dois canais religiosos islâmicos. Fiquei sem saber se servem aquele credo em exclusividade ou se dispõem apenas de determinados tempos de antena.
Quase todas as mulheres com quem me cruzo na rua usam o véu islâmico. Julgo encontrar, ainda assim, sinais de evolução social. Muitas motorizadas são conduzidas por raparigas. As motorizadas poderão desempenhar um papel significativo no difícil trajeto que há de conduzir à igualdade de direitos dos dois sexos.
Jogyakarta serviu-nos de placa giratória para aceder a Borobudur e Prambanan. São estes monumentos que fazem da cidade o lugar turístico mais procurado do país, a seguir a Bali. O pouco que vi das suas ruas deixou-me a impressão duma cidade limpa e organizada.


Borobudur é o maior templo budista do mundo e está situado a cerca de 40 quilómetros a noroeste de Yogyakarta. É a principal atração turística da Indonésia. A sua história é curiosa. A construção foi iniciada no século VIII, a mando dos reis da dinastia Sanjaya, para o culto de deuses hindus. Mudaram tempos e vontades e foi concluído pelos reis da dinastia budista Sailendro, que o adaptaram à sua fé. A rocha vulcânica (andesito) utilizada na construção foi retirada dos rios da vizinhança. O templo foi usado para o culto budista desde o século X até ao século XV, altura em que a dominação islâmica de Java levou ao seu abandono. Borobudur foi envolvido pela selva. A introdução do Islão na Indonésia foi abençoada por grande parte da população, já que a nova fé pregava direitos iguais para todos os crentes, contrariando a estratificação social tradicional.


Curiosamente, foram os ingleses, que apenas dominaram a Indonésia durante quatro anos, que o redescobriram. Borobudur encontrava-se em mau estado de conservação, tendo crescido grandes árvores nos seus terraços. Foi recuperado graças a um programa de reconstrução promovido pela UNESCO. O monumento foi completamente desmontado, como se de um puzzle se tratasse. Cada pedra foi marcada, tratada e reposta no local inicial. A intervenção durou cerca de uma década e custou 25 milhões de dólares. Os trabalhos terminaram em 1983.


     Borobudur foi construído em três andares sobre uma colina que lhe serve de suporte. Tem dez terraços sobrepostos. O templo assenta numa base piramidal com cinco terraços quadrangulares concêntricos que sustentam um cone truncado com três plataformas circulares. O edifício é coroado por uma cúpula monumental em forma de sino. As paredes e as balaustradas estão decoradas com baixos-relevos magníficos. Em redor da cúpula central dispõem-se 72 cúpulas menores, com janelas. Cada uma contém uma estátua de Buda. O acesso ao cume do edifício faz-se através de escadarias.


A estrutura arquitetónica do templo de Borobudur obedece à conceção budista do universo. A base piramidal representa o “kamadhatu”, a esfera em que estamos sujeitos aos nossos desejos. Os cinco terraços quadrados correspondem ao “rupadhatu”, a esfera em que começamos a pôr de lado os nossos desejos mas ainda estamos ligados a nomes e formas. Finalmente, as três plataformas circulares e a grande cúpula ilustram o “arupadhatu”, a esfera em que se perdem os nomes e as formas. A ideia de uma montanha organizada em terraços simboliza o esforço budista para atingir o Nirvana através da renúncia pessoal.


     Os baixos-relevos narram as fases progressivas do caminho da alma para a redenção e também episódios da vida do Buda. As esculturas têm uma extensão somada de seis quilómetros. São consideradas o conjunto mais perfeito e completo de perfeito de baixos-relevos budistas em todo o mundo. As imagens inscritas nas paredes fazem sentido se forem lidas da direita para a esquerda, tendo sido preparadas para a circulação dos peregrinos no sentido dos ponteiros do relógio.



O complexo do Borobudur compreende ainda dois templos menores que representam igualmente fases do caminho para o Nirvana.
Borobudur foi construído três séculos mais cedo que Angkor Vat, no Camboja, e 400 anos antes de surgirem na Europa as primeiras grandes catedrais.


O conjunto dos templos de Prambanan situa-se no centro da ilha de Java, dezena e meia de quilómetros a leste da cidade de Yogyakarta. Em 1991, a UNESCO inclui-o na sua lista de Património Mundial. Trata-se de 240 edificações religiosas edificadas no século IX e divididas em vários complexos, dos quais Loro Jonggrang, hindu e Sewu, o maior agrupamento de templos budistas existente na Indonésia, são os mais importantes. O nome atual provém da vila próxima de Prambanan.
Mais uma vez, foram os ingleses que, durante o curto período em que dominaram Java, se aperceberam da extraordinária importância histórica e cultural do complexo de templos de Prambanan. Os holandeses conheciam-nos e usavam esculturas dali retiradas para a decoração de jardins, enquanto os javaneses utilizavam as pedras para as suas construções.
Loro Jonggrang é um dos maiores e mais belos conjuntos de templos hindus do sudeste Asiático. A sua construção data do século IX e foi provavelmente iniciada pelo rei Rakai Pikatan e continuada pelos seus sucessores. Os templos foram dedicados à Trindade hindu: Brahma, o deus criador, Vishnu, o protetor e Shiva, o destruidor. Aos poucos, foram sendo construídas centenas de templos menores em redor dos edifícios centrais.
Loro Jonggrang data do século IX e foi desenhado com a forma de três quadrados concêntricos. O quadrado interno contem 16 templos, entre os quais se contam três obras-primas da arquitetura hindu, dedicadas à trindade de deuses principais.


A arquitetura é típica das construções religiosas hindus, com cones elevados e muito decorados. Julga-se que o complexo do templo foi habitado, no seu apogeu, por centenas de brâmanes com os seus discípulos.
No século XVI ocorreu um grande terramoto que fez desmoronar as edificações. As pedras das ruínas foram mais tarde utilizadas para demarcar a fronteira entre os sultanatos de Yogyakarta e Surakarta.
A restauração do complexo teve início em 1918 e prolongou-se, com intermissões, até 1990.  Nessa altura, as aldeias e as plantações de arroz da vizinhança foram transformadas num parque arqueológico, enquanto o mercado próximo foi suprimido. Atualmente, é um dos lugares turísticos mais visitado da Indonésia. As obras de restauração ainda hoje prosseguem, não sendo possível reconstruir os templos menores, de que só existem as fundações, pelo facto de muitas pedras terem sido retiradas para construções distantes.
Os templos voltaram a sofrer danos significativos com o terramoto de 2006. Em tempos recentes, a comunidade hindu recuperou os edifícios para as suas cerimónias rituais.


Com 47 metros de altura, o templo dedicado a Shiva é o maior do complexo. Está decorado com baixos-relevos esculpidos nas paredes internas das balaustradas que o cercam. As esculturas de pedra contam a história de Ramayana, um príncipe cuja esposa, Sita, foi raptada pelo rei demónio Ravana e resgatada com a ajuda do rei macaco Hanuman.


Para entender o enredo, os visitantes devem entrar pelo lado leste e circular no sentido dos ponteiros do relógio. O santuário de Shiva contém várias câmaras, uma das quais abriga uma estátua do deus com três metros de altura.


Os outros dois templos principais são dedicados respetivamente a Brahma e a Vishnu. Junto a eles, foram erigidos três templos mais pequenos dedicados aos animais que transportam os deuses: o touro para Shiva, a águia para Brahma e o cisne para Visnu.
A menos de um quilómetro do conjunto hindu de Loro Jonggrang situa-se Sewu, o segundo maior templo budista da Indonésia, a seguir a Borobudur. A edificação central é rodeada por templos menores. São notáveis os quatro pares de estátuas de Dwarapala, os guardiões dos portões, representados como guerreiros gigantes e assustadores.


Entre Sewu e Loro Joggrang situam-se três outros templos em ruínas que integram também o conjunto de Pranbanam: Lumbuna, Burah e Asu. No total, Pranbanam conta com cerca de 500 edificações religiosas.

                     Grupo VIPAM em Borobudur

Nota: a primeira fotografia de Borobudur, a primeira de Prambanan e a imagem do Dwarapala foram retiradas da Internet. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA

IV

JACARTA

Jacarta fica situada na baía que tem o mesmo nome, na costa noroeste da ilha de Java. É atravessada por mais de uma dezena de pequenos rios, dos quais o mais importante é o Ciliwung. Administrativamente, a capital da Indonésia é uma província com estatuto especial. Tem um governador e está dividida em cinco municípios. A antiga Batávia situa-se na Jacarta do Norte, junto ao porto de Tanjung Priok.
A vizinhança entre prédios elevados e luxuosos e habitações modestas e baixas, construídas com materiais improvisados, faz lembrar Luanda. O calor, a humidade elevada e alguma neblina ajudam a recordar a capital angolana no tempo do cacimbo.
Da janela do meu quarto de hotel, avisto uns tantos minaretes. O templo mais próximo é pequeno e modesto e está pintado a branco e verde. 



     Tem um belo minarete de seis andares encimado por uma cúpula com revestimento metálico. Um pouco mais longe, situa-se uma mesquita moderna, com uma cúpula branca iluminada à noite por luz doirada. O seu minarete é alto e delgado e termina quase em agulha. Soube depois que era a mesquita de Istiqlal, a maior do Sudeste Asiático. Foi construída para celebrar a independência do país. Istiqlal é uma palavra árabe que significa “independência”.




Salta à vista na cidade a indisciplina do trânsito. O sistema de transportes públicos é insuficiente e, nas horas de ponta, o tráfico nas ruas da cidade congestiona-se. Circula uma grande quantidade de motorizada. Os peões atravessam as ruas de forma um tanto anárquica. Aliás, parece estar presente um pouco de anarquia, ou pelo menos de desorganização, em diversos aspetos da vida da urbe.
Pouco caminhei pelas ruas de Jacarta. Mostraram-nos a cidade das janelas do autocarro. As exceções foram um templo chinês ardido, o Museu Nacional, o Parque de Miniaturas e o Monumento Nacional.
Uma visita breve ao Museu Nacional deixou-nos um conjunto muito agradável de impressões. O museu teve origem no final do século XVIII, quando um grupo de intelectuais holandeses se organizou com o objetivo de promover a investigação em vários aspetos da cultura indonésia. Foi inaugurado oficialmente quase um século mais tarde (em 1868) e é popularmente conhecido na cidade como “edifício do elefante”, por ter um elefante de bronze no seu pátio dianteiro, ou por “casa das estátuas”.



O Museu Nacional dispõe de uma coleção riquíssima da arte indo budista da Indonésia antiga. Várias estátuas de Buda trazidas de Borobudur estão expostas no átrio central do edifício. No segundo piso do museu são exibidas as coleções de tesouros arqueológicos e etnológicos.
O museu alberga uma das maiores e mais completas coleções de cerâmica chinesa antiga existentes fora da China.
O Museu Nacional dispõe ainda de uma coleção notável de artefactos da idade da pedra, incluindo crânios e esqueletos fossilizados de Homo erectus, Homo floriensis e Homo sapiens.



Em 1891 foi descoberto em Java um dos primeiros espécimes de Homo erectus. O autor da descoberta deu-lhe o nome de Pithecanthropus erectus. Um segundo exemplar, mais completo, foi encontrado depois em Sangiran, perto de Solo, também na ilha de Java. Até se encontrarem restos humanos no vale Great Rift, no Quénia, estes foram os vestígios mais antigos de hominídeos conhecidos, estimando-se a sua idade em 700.000 anos. Considera-se hoje que os nossos antepassados diretos foram as populações africanas de Homo erectus e não os asiáticos “homens” de Java e Pequim.
O Monumento Nacional Indonésio é um obelisco de cimento armado com 130 metros de altura, situado no meio dum parque. Tem mais interesse para os naturais do arquipélago que para os turistas.



O Taman Mini Indonésia Indah, que se traduz por “Maravilhoso Parque Miniatural da Indonésia” é uma espécie de “Portugal dos Pequeninos” megalómano. Ilustra a arquitetura tradicional das 26 províncias indonésias, com representação de múltiplas atividades da vida diária. Dispersa-se por pavilhões separados em que as vestes, as roupas, as danças e as tradições são representados com todo o cuidado. Pretende ser uma sinopse da cultura indonésia.



Percorremos algumas ruas estreitas para visitarmos um pagode queimado, evitando as motorizadas que circulavam nos dois sentidos. 



     O templo era modesto. Fora devorado pelo fogo, meses atrás. Exibia-se, num compartimento de dimensões limitadas, uma escultura que escapara ilesa e estava a ganhar fama de santidade.



Ao lado do templo queimado, havia umas instalações com um letreiro a dizer “kepala”. Imaginei que se tratava de uma corruptela de “capela” e entrei. Encontrei, de facto, três pequenas capelas, aparentemente construídas a mando de familiares de defuntos que pretendiam honrar as suas memórias e demostrar o próprio bem-estar económico. Já em Setúbal, pude verificar que “Kepala” não significa “capela”, mas sim “cabeça”.


Os indonésios aproveitaram os grandes edifícios deixados pelos colonos holandeses para instituições governamentais ou para museus. Contudo, as inúmeras casas comuns da época colonial, capazes de testemunhar de forma duradoura a multiculturalidade da cidade, foram deixadas ao abandono. O centro histórico da velha Batávia tem um aspeto desolador. As janelas com tabuinhas que refrescavam as habitações antes da invenção do ar condicionado enfeitam agora prédios em ruínas. Muitas casas estão devolutas e algumas arderam. É mais fácil construir de novo do que reparar o velho e o país tem, seguramente, outras prioridades para o investimento estatal ou privado. As velhas casas holandesas vão ruindo, uma a uma. Algum dia, a geração vindoura de indonésios lamentará a perda da oportunidade de restaurar o património de tempos idos, tão valorizado para o enriquecimento turístico de outras cidades. Será tarde para muitos edifícios.
Mesmo olhando de longe, constata-se que existem duas Jacartas: a dos ricos e a dos pobres. Embora haja zonas de ricos e de pobres, coexistem em alguns bairros a opulência e a miséria. 



     À semelhança do que acontece noutros países em fases rápidas de crescimento, encontram-se, lado a lado, prédios modernos de muitos andares e aspeto luxuoso e habitações de dois pisos a rondar a miséria. 



     Persistem problemas graves na recolha do lixo e na drenagem dos detritos humanos. É para os rios que se atira o lixo e se drenam as urinas e as fezes, já que as casas pobres não dispõem de instalações sanitárias nem estão ligadas à rede de esgotos. É nesses mesmos rios imundos que as pessoas se banham, como pudemos ver do autocarro. Algumas ruas tristes de Jacarta aliam a miséria à sordidez. Os pobres são muito pobres e os ricos muito ricos.