DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - ADEUS

Ponho hoje termo a esta série de pequenos apontamentos de viagem por terras de Angola. Foram muitas horas de estrada em excelente companhia, com boa comida e melhor bebida, sem percalços ou avarias. Nem sequer um pneu furou.


Passámos por troços de piso excelente e reencontrámos a poeira das estradas por asfaltar.


Angola está a mudar. Depois de uma guerra que parecia interminável, pode circular-se por estrada em todo o território do País. Há construções novas em cada cidade. Os angolanos olham o futuro com uma confiança renovada. 
Ao longo do caminho, desfrutámos de visões fantásticas, como o chapéu que uma bruxa esqueceu, poisado na estrada, na zona do Alto Hama.



Nas regiões que percorremos, a vegetação oscilou entre a riqueza das zonas húmidas


e a modéstia da savana.


Junto a Benguela, passámos mesmo por regiões semi-desérticas. É impossível esquecer os embondeiros


Predominam as aldeias levantadas com adobes de terra vermelha


Embora se encontrem muitas em tons mais escuros.


Testemunhámos a beleza da terra,


a vastidão e o poder dos rios,


a brevidade dos crepúsculos,


e o carinho dos amigos




Licita e Néne, muito obrigado!
Carlos Alberto, muito obrigado também!

Angola... Até à vista!


domingo, 19 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - OS GUERREIROS ENGORDARAM

A paz engorda os guerreiros. Quase todos os oficiais das FAPLA que se vão encontrando exibem uma apreciável "barriguinha".
Apesar de se manter latente o conflito em Cabinda respira-se, em Angola quase toda, um ambiente de tranquilidade. Persistem, entretanto, nuvens no horizonte. Os ataques aéreos das forças da OTAN à Líbia, país africano produtor de petróleo, levantaram receios novos. Li, num jornal diário, um artigo que defendia o reapetrachamento e a modernização da Força Aérea e da Marinha angolanas, de modo a estarem em condições de defender o País dos predadores de petróleo. Dois dias depois, O Jornal de Angola, na sua primeira página, expressava a posição oficial do governo angolano face aos bombardeamentos do território líbio. Angola condena as agressões exteriores a países africanos. A União Africana tornou públicas posições do mesmo teor.
Almoçámos com amigos antigos numa casa de praia do Futungo. O Mussulo estende-se em frente, limitando a baía.


Quando chegámos, a maré estava cheia. Do muro divisório do quintal à linha de água ia pouco mais de um metro. Quase em frente, fora construído um pequeno cais flutuante para embarcações de recreio.
Quem edificou as casas junto ao mar não cuidou do tratamento das águas residuais. Os esgotos vão dar à baía e a qualidade da água ressente-se da incúria das gentes. Os moradores das vivendas nadam nas suas piscinas ou deslocam-se até à contra-costa, onde as ondas mantém a pureza original. No entanto, os miúdos pobres da vizinhança mergulham alegremente nas águas poluídas. Terão adquirido defesas imunitárias, mas o perigo é óbvio.
Alguns barcos modestos estavam fundeados ao largo. Os seus ocupantes pescavam à linha.
A rua conta menos de uma dúzia de moradias. Pertencem, quase todas, a oficiais generais das FAPLA. Embora entre os proprietários se contem alguns nomes sonantes da nomenklatura angolana, a estrada que os serve não foi alcatroada e apresenta os buracos usuais dos caminhos da gente comum. Possivelmente por uma questão de conformismo, ninguém procurou melhorar o piso. Se foi para dar menos nas vistas, não o conseguiram: a estrada é conhecida por "Rua dos Generais".

sábado, 18 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - COMANDANTE GIKA

Passei pela Rua Comandante Gika. O Gika era o meu amigo Gilberto Teixeira da Silva, mulato claro de Benguela, da minha idade. Foi meu colega no Lubango, no sexto e sétimo anos do Liceu. Viajámos ambos para Coimbra, no Outono de 1960. Acompanhou-me no primeiro ano da Faculdade.
Enquanto a minha mãe viveu, morei no Largo da Sé Velha. O Gilberto vinha muitas vezes ter comigo, à noite. Ouvíamos música e falávamos da Angola distante. Foram as suas palavras que me trouxeram a voz da História. Ajudou-me a entender que o mundo, tal como o conhecíamos, ia mudar e que o colonialismo tinha os dias contados. Haviam nascido já muitas nações africanas, Angola, Moçambique e a Guiné não tardariam a seguir-lhes o exemplo. A resistência do regime autoritário de Lisboa não iria durar sempre.
Fiel aos seus ideais, abandonou o curso no segundo ano e foi lutar pela independência da sua Pátria. Partiu em 1962. Não o voltei a ver.


Desempenhou cargos importantes na estrutura do MPLA. Viria a morrer em Cabinda, em 1975, numa escaramuça com a FNLA.
Era um rapaz bonito. Dizem que, no seu funeral, compareceram muitas viúvas.
Não tenho fotografias dele. As imagens que publico, fui buscá-las à fotobiografia de Lúcio Lara.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - LUANDA II


O trânsito em Luanda é o das grandes urbes dimensionadas para uma população muitas vezes inferior à actual e com níveis de circulação mais reduzidos. É intenso, confuso, exasperante, lento e perigoso. E não será demais observar que apenas uma parte restrita da população tem acesso ao automóvel pessoal.
Vêem-se, aqui e ali, tentativas para reorganizar o tráfico urbano, com instalação de algumas passagens desniveladas e alargamento de vias. É o caso da Marginal, que parece ter escapado a um projecto megalómano de reinvenção.


Passei pela ponte nova de acesso à Ilha no dia em que foi inaugurada.
Foram criadas cidades satélites com excelentes padrões de urbanização. No entanto, os apartamentos são muito caros e muitos compradores continuam a trabalhar no centro de Luanda. Sofrem tormentos para entrarem e saírem dos empregos às horas de ponta.
O velho comboio foi recuperado, mas serve um percurso limitado e circula com lentidão. Ninguém respeita as passagens de nível e a máquina é forçada a parar para não arrastar automóveis. No regresso de Viana apanhei um engarrafamento de trânsito e fui acompanhando o percurso do comboio. Era mais lento do que nós, que estávamos quase parados.
Fala-se em implementar um metropolitano de superfície. Espero que se venha a tornar realidade.
Sem uma política eficaz de descentralização dos serviços administrativos que leve atrás boa parte do comércio da cidade e na ausência de um esforço titânico para estruturar os transportes colectivos, Luanda dificilmente deixará de ser o que é hoje, durante o dia, nas ruas mais movimentadas: um imenso engarrafamento de trânsito.


Por outro lado, as instalações de água, luz e esgotos da maioria dos prédios do centro da cidade são ainda do tempo colonial. Ao longo de todos estes anos, a conservação tem sido pouco eficaz. Parece mais fácil edificar uma cidade nova do que reparar ou substituir estruturas em prédios habitados.
Escutei involuntariamente uma conversa em espanhol, enquanto almoçava num restaurante da Ilha, à beira da água. Passo a traduzi-la, de forma aproximada:
"Encerrar ao trânsito uma rua inteira durante um mês implica apenas incómodos suportáveis. Esse período de tempo dava para instalar esgotos novos, canalizações de água e gás, circuitos eléctricos e fibra óptica. Depois, tapava-se tudo com asfalto novo. Quando se acabasse, passava-se para outra rua. As ligações iam-se fazendo progressivamente..."
Aguardemos. Continuam a ser edificados arranha-céus no coração de Luanda. Ali é que é bom e chique trabalhar... Vêem-se múltiplas torres em fases diversas de construção. Os seus futuros habitantes trarão mais automóveis para as ruas superlotadas. Será que um dia o trânsito se vai tornar tão complicado que a capital de Angola vai parar de todo?

Nota: as duas primeiras fotografias deste artigo foram retiradas da Internet.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - LUBANGO


O Lubango foi poupado pela guerra. Não se vêem edifícios destruídos por bombardeamentos nem fachadas de prédios crivadas de balas.


O centro da cidade mudou pouco. Não encontrei dificuldade em orientar-me nas ruas que percorri, vezes sem conta, meio século atrás.


Identifiquei facilmente as casas que habitei ou, melhor, reconheci duas e o lugar da terceira.


A casa grande da antiga Praça da Colónia, hoje dos Fundadores, está ocupada por uma repartição militar. A casinha modesta de onde saí para Portugal tem acesso por uma rua muito danificada. O terreno em frente, que em tempos foi do meu pai, está preenchido, até ao rio e mais além, por um bairro novo de construções pobres. A pequena moradia do Picadeiro foi demolida, bem como o Hotel Metrópole que lhe era contíguo. Existe ali, agora, uma casa recente e nova instalação hoteleira.


A escola onde fiz a instrução primária foi remodelada nos anos sessenta. Permanece encostada ao Parque Infantil. O antigo Liceu Diogo Cão é agora uma Universidade. Apesar dos anos, o edifício não perdeu imponência.


A antiga Escola Comercial e Industrial Artur de Paiva foi também promovida.


Apesar dos passeios degradados e das montras empobrecidas, o Picadeiro seria quase o mesmo, se continuasse a ser percorrido, nas tardes de Domingo, pela juventude da cidade. O hábito perdeu-se. A gente nova namora noutros sítios. Ninguém percorre tontamente, de cima para baixo e de baixo para cima, aquele segmento da velha rua Pinheiro Chagas, como acontecia dantes. A montra da Lello lá continua, agora com grades, aparentemente bem fornecida de livros técnicos.
A população, maioritariamente branca na época colonial, escureceu consideravelmente, embora continue a ser mais clara que noutras cidades de Angola.
A periferia do Lubango sofreu grandes alterações. Cresceu anarquicamente, à medida que o interior do Sul do País se ia despovoando.


Gostei de estar no Lubango. Lamento apenas o encurtamento da estadia. Havia muitas mais coisas a rever. Nasci em Almendra, vivi em Angola, estudei em Coimbra, trabalhei em Lisboa e moro em Setúbal. Fui médico nos mares da Terra Nova e da Gronelândia. Percorri, como turista, quase meio mundo, mas entre todas, é esta a terra que sinto verdadeiramente como minha.


Costumo dizer que a terra de um homem é aquela em que ele se conhece.
No entanto, entrei na cidade e saí sem ser abalado por emoções fortes. Não vi com que me surpreender ou desiludir. A juventude vai longe e julgo ter entendido há muito os passos da História.
As cidades são, em boa parte, as pessoas que as habitam. A maior parte da gente que conheci abandonou o Lubango há 35 anos. A Sá da Bandeira do tempo colonial sobrevive apenas na memória dos que a perderam.
Muitas coisas mudaram para melhor. Junto à Senhora do Monte nasceram alguns empreendimentos hoteleiros bonitos e confortáveis. Um deles fica ao lado da "casa assombrada" e foi convenientemente baptizado de "Gasper Lodge". foi ali que pernoitámos. 



O tempo deu para pouco, pois havia necessidade de voltarmos a Benguela. Nos arredores da cidade, pude apenas rever a Tundavala. A Leba, a Hunguéria, o Bimbe, a Huíla, a Humpata, a Chibia e o Tchivinguiro, que circundam uma das cidades mais bem implantadas do planeta, ficam para outra visita.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

BENGUELA


Benguela mudou muito. A São também se modificou. Pouco admira que mal se tenham reconhecido mutuamente. Feitas as contas, passou-se meio século.
Ela foi apenas capaz de identificar o colégio de freiras onde estudou, a igreja de Nossa Senhora do Pópulo e a Praia Morena.


O Largo da Peça, com que contava para orientar as recordações foi tão alterado que a benguelense se perdeu.


O velho canhão que dá nome à praça mudou de lugar e foi colocado num pedestal mais alto. Por outro lado, a zona encontra-se em obras. Demos umas tantas voltas de carrinha pelas ruas velhas sem que a São fosse capaz de identificar a casa onde morou durante a adolescência.


Benguela alterna o velho com o novo, as ruínas com a recuperação. Alojámo-nos num hotel moderno no centro da cidade.


Pode circular-se a pé, com segurança, à noite. Existem restaurantes acolhedores onde se come muito bem.


O Cinema Monumental está a funcionar.



O casario estendeu-se a partir do Lobito e vai chegando à ponte nova da Catumbela.


Em breve, os extremos das duas cidades irão tocar-se. A Restinga está recuperada e o Hotel Terminus regressou ao esplendor dos tempos áureos. O centro do Lobito está a sofrer uma remodelação profunda.



Nota: Mais de metade das fotografias de Benguela foram tiradas pelo meu amigo Carlos Alberto Almeida

terça-feira, 14 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - A PONTE DO RIO KEVE

Depois de vencerem o MPLA em Catengue, os sul-africanos entraram facilmente em Benguela e no Lobito. O batalhão "Zulu", reforçado por forças da UNITA, por uma unidade de Chipenda e por um grupo de mercenários, avançou então em direcção a Luanda. O caminho parecia livre. No entanto, em Porto Amboim, a artilharia cubana recém-desembarcada deteve a progressão dos carcamanos.


A 8 de Novembro de 1975, o MPLA e os cubanos fizeram saltar a ponte do rio Keve, 160 quilómetros a Sul de Luanda. Tornou-se impossível aos sul-africanos alcançar Luanda antes do dia 11, data marcada para a declaração de independência de Angola. O flanco sul da capital deixou de estar ameaçado.
Na noite de 10 para 11 de Novembro, as forças da FNLA e da UNITA, apoiadas por um grupo de mercenários brancos, foram derrotados na baixa de Quifangondo, 30 quilómetros a Norte de Luanda. O MPLA pôde celebrar a festa da independência.
Passámos pela ponte nova do rio Keve. A antiga ainda lá está com os sinais de destruição e os restos da passadeira provisória que possibilitou o trânsito, durante anos.

O escudo português vê-se bem, apesar de pintado de branco.


A ponte passa sobre um rápido do rio. Poucos metros a jusante, existe um miradouro para se poder apreciar a paisagem.


Respira-se tranquilidade e ar fresco. Chega a chocar a lembrança de que tanta beleza tenha sido conspurcada pela violência da força invasora.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - CARVÃO


- Estás a fazer carvão, Sapalo?
- Não, mãe. Ainda estou só a ganhar experiência...
"Mãe" é uma forma de tratar uma mulher mais velha. A Licita continuou:
- E não tens vergonha de cortar as árvores grandes? Se todos fizerem como tu, a nossa terra vai ficar só com capim. Depois, a chuva não vem...
O discurso pedagógico da minha amiga Licita tem reduzidas possibilidades de êxito. O carvão é consumido essencialmente pelas populações urbanas, para cozinhar (em alternativa ao gás) e para o aquecimento. Cada saco é vendido por 500 kuanzas (o equivalente a cinco dólares americanos). As camionetas vêm recolhê-los, mesmo a lugares recônditos, duas vezes por semana.
Para quem  não tem emprego numa fazenda nem mora à beira de uma estrada movimentada onde possa vender o excedente da produção agrícola, o fabrico e a venda de carvão representam  uma das poucas oportunidades de ganhar o dinheiro indispensável para comprar os bens que a terra não dá.
Enquanto assim for, Angola vai continuar a ser desarborizada. A erosão dos terrenos férteis irá acentuar-se. Percorri três mil quilómetros no centro e sul do País e pude constatar que a presença de sacos de carvão é uma constante nas bermas dos caminhos.
Nas matas que ladeiam as estradas vão faltando árvores. Os embondeiros, que não servem para madeira nem para fazer carvão, tornam-se ainda mais preponderantes na paisagem. Começam a encontrar-se áreas despidas da grande vegetação.
O fabrico de carvão não é o único responsável. Os criadores de gado precisam de espaço para as pastagens. A floresta vai sendo sacrificada.  

domingo, 12 de junho de 2011

WACO KUNGO (CELA)


Deslocámo-nos a Waco Kungo, o antigo colonato português da Cela. O nome da povoação provém de dois monolitos rochosos que delimitam, a Sul, a entrada de um vale.
A estrada asfaltada que vai da Quibala ao Huambo apresenta troços danificados. Há que ter atenção que época das chuvas terminou há poucos dias. Ainda assim, os angolanos queixam-se da qualidade do trabalho produzido pelos chineses, que pouparão na espessura do tapete de asfalto, fragilizando o piso.
A cidade é pequena e dispõe de ruas largas com trânsito automóvel reduzido. Lembrar os engarrafamentos de Luanda, traz logo um sufoco à garganta. A povoação está limpa. A aglomeração de lixo parece ser um problema específico da capital. Vêm-se uns tantos edifícios novos e outros reparados, embora os estragos provocados pela guerra estejam em toda a parte, à espera de dias melhores.  Passei, pelo menos, por três agências bancárias. Existem diversos minimercados geridos por levantinos.


A igreja, segundo dizem, é uma réplica da de Santa Comba Dão. Não tenho suficientemente presente na lembrança o modelo original para me poder abalizar a comparações. Encontra-se em bom estado e está aberta ao culto. Vi dois templos recentes que servem credos novos.
Almoçámos num restaurante recuperado, no centro da cidade.
Na vizinhança da Cela, as casas do velho colonato foram arranjadas, pintadas e distribuídas por antigos combatentes das FAPLA (do MPLA) e das FALA (da UNITA).
Esteve aqui recentemente um grupo de técnicos israelitas a treinar os angolanos em técnicas agrícolas intensivas. Aparentemente, tudo voltou à normalidade pouco intensa quando os especialistas judeus regressaram a casa.
Vêm-se algumas fábricas recuperadas. Porém, embora tenhamos efectuado a visita num dia útil, não me pareceu que estivessem a laborar.
A imagem que perdura nas pupilas é a das duas elevações de rocha escura que vigiam, desde tempos esquecidos, a passagem para o Huambo. A minha anfitriã não me soube dizer se o gigante que tenho em frente é o Waco ou o Kungo.

sábado, 11 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - PESCARIA

No terceiro dia que passei na fazenda, tentei ir à pesca com a São e a Licita. Não demos com a lagoa do Catófe e voltámos para trás, ao começarmos a pisar terreno alagadiço.
Fiz nova tentativa no dia seguinte, guiado pelo Chitaculo, que conhece bem o rio. Atravessámos uma lavra de ananás, abrimos a cancela da cerca dos bois e descemos por um caminho fácil. O percurso durou menos de vinte minutos.
Esperava-nos uma lagoa paradisíaca de água cantarolante, rodeada por vegetação altiva. Imaginei que acabara de entrar no cenário dum filme do Tarzan.
Não tínhamos canas de pesca nem carretos e fomos forçados a improvisar. Para obtermos bóias, dividimos a rolha da garrafa de vinho do almoço que, diga-se a verdade, não era nada mau. Cortámos duas canas verdadeiras para sustentar as linhas sem que se empachassem nas plantas da margem e tentámos pescar.
É sabido que um pescador devoto se sujeita a quase tudo. O cheiro do conteúdo das tripas de galinha que nos serviram de isco ficou agarrado aos meus dedos durante toda a tarde.
Sentia-se picar peixe miúdo, incapaz de abocanhar o anzol. Tive dois toques maiores mas inconsequentes.


Pescávamos numa pequena clareira com menos de três metros de diâmetro, encostada à berma da lagoa, pouco acima do nível da água. A dada altura, sentiu-se um rumorejar no capim, à nossa esquerda. Não lhe liguei importância. O Chitaculo perguntou:
- Está a ouvir?
Disse-lhe que sim. Pensei que se tratasse de um antílope pequeno ou de um macaco, embora desse conta de que o ruído se aproximava, em vez de se afastar. De repente, o Chitaculo gritou:
- Foge! Foge!
Larguei linha e cana e corri para longe do rio. Detive-me trinta metros adiante. O Chitaculo parou antes. Virou-se para trás, olhou e pareceu aliviado.
- Já foi.
- O que era?
- Jacaré.
- Grande?
- Não. Pequenino. Criança...
- Vamos embora!
- Não precisa...
- E a mãe dele, ou o tio?
- Não está. Era só o bebé...
Pelo espaçamento das mãos do Chitaculo, o crocodilo mediria cerca de um metro. Eu não cheguei a vê-lo.
- Tens a certeza de que não era um sengue?
- Tenho! Conheço bem o sengue.
Ainda tentámos pescar, mas o movimento afastara os peixes, que deixaram de picar. Voltámos a casa bem antes do pôr-do-sol. Não tínhamos peixe para o jantar mas, ao menos, trazíamos uma pequena história.


Para a lagoa ser de todo paradisíaca, fazia falta uma Eva. No que respeita à serpente, acho que foi bem substituída.