DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014






   A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


       LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


               NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
                        IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
                        E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA

                                                 III

Quando Nino Vieira apeou Luís Cabral da Presidência da República, Juvelina encontrava-se em S. Paulo, no Brasil, integrada na Delegação da Guiné-Bissau ao 1º Simposium Afro-Brasileiro de Comércio Externo. Logo que a notícia da deposição e prisão do seu irmão Luís chegou, a postura de um dos elementos da delegação modificou-se radicalmente, passando das mesuras da véspera à falta de respeito.



Juvelina achou prudente não regressar a Bissau. Viajou para Lisboa, onde tinha casa, e ficou a aguardar o desenvolvimento da situação.  O marido e o filho mais velho permaneceram na Guiné, enquanto o mais novo estudava em Portugal. 
     O marido, Abel Ventura, regressou três anos mais tarde. Gerira mal o património, deixando a família em situação económica periclitante.



Quando foi posto em liberdade, Luís Cabral acolheu-se em Cuba, onde viveu de 1981 a 1983. Tentou regressar a Cabo Verde, mas as várias cartas que escreveu a Aristides Pereira a manifestar essa intenção ficaram sem resposta. O governo português, com o apoio do Presidente Ramalho Eanes, ofereceu-lhe asilo político em Lisboa.



Juvelina ainda pensou em regressar a Cabo Verde, onde nascera e vivera os primeiros quinze anos da sua vida. Aristides Pereira, o presidente da República, não a quis de volta. Argumentou que ela não tinha família em Cabo Verde. Aristides era um homem cauteloso. Recearia a sombra do prestígio aliado ao nome “Cabral”.



Luís Cabral chegou a Portugal no início de 1984. A princípio, instalou-se com a mulher e os filhos em casa da irmã.
No ano seguinte, pressionada pelas dificuldades financeiras, Juvelina Cabral voltou à Guiné. Pretendia reaver os seus bens e renegociar o aluguer do prédio da família onde se instalara a Embaixada da China, pagando uma renda que seria vinte vezes inferior ao valor de mercado.  Foi ali que conheceu o que viria a ser o seu segundo marido.



António Rocha é licenciado em Economia pela Universidade do Porto. Ainda adolescente, atreveu-se a emigrar sozinho para Moçambique, onde trabalhou. Voltou três anos depois e retomou os estudos. Ingressou na SACOR (depois PETROGAL) a meio do curso. Em 1985, foi contratado como assessor da Direção Geral da DICOL, empresa monopolista de combustíveis da Guiné-Bissau, então dirigida pelo futuro primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.
Waldemar Oliveira, ligado às empresas de petróleo em Portugal e na Guiné e casado com Armanda Cabral, constituiu o elo entre António e Juvelina. António passou a estar presente em todos os eventos da família Cabral. Ele e Juvelina acabaram por se apaixonar. Trataram dos divórcios e, em junho de 1990, formalizaram o casamento na Embaixada de Portugal em Bissau.
António Rocha deixou de vez a PETROGAL e passou a trabalhar para organismos internacionais que prestavam ajuda à Guiné. Em 1996, o casal vivia de novo em Bissau. Tornaram-se ambos sócios duma empresa agrícola que acabaram por deter na totalidade, e geriram um restaurante e uma piscina.
Curiosamente, Nino Vieira respeitava a irmã de Luís Cabral e parecia estimá-la. O casal vivia bem. António chegou a ser Assessor Económico da Presidência da República (na dependência direta do Ministro de Estado da Presidência, Fidelis Cabral de Almada) e, durante dois mandatos, Presidente da Escola Portuguesa em Bissau.
Luís Cabral, após a queda de Nino Vieira, ainda esteve na Guiné por um curto período de tempo.
A Guiné-Bissau era um país instável e, a dada altura, o Dr. António Rocha passou a ser mal visto pelos responsáveis pelo poder político.
 Em 2010, mudou-se para Angola, onde trabalhou como consultor e assessor do Governo da Província de Luanda. O casal vive agora em Nova Oeiras.



Luís Cabral o primeiro Presidente da República da Guiné-Bissau, morreu em Torres Vedras, em maio de 2009. Repousa no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Teria preferido descansar em África.



Ana Maria Cabral, a viúva de Amílcar, vive em Cabo Verde.
Iva, a filha mais velha de Amílcar Cabral e de Maria Helena, nascida na Guiné, é hoje reitora da Universidade Lusófona de Cabo Verde, em S. Vicente.




Amílcar e o seu irmão Luís, tanto quanto sei, sempre se deram bem. Curiosamente, não fui capaz de encontrar uma fotografia em que figurassem juntos.


FOTOGRAFIAS: JUVELINA ROCHA, INTERNET.

AGRADECIMENTOS: A JUVELINA E ANTÓNIO ROCHA, PELA GENTILEZA COM QUE SE DISPUSERAM A PARTILHAR AS SUAS MEMÓRIAS.



domingo, 14 de julho de 2013

                           LVI

                O CAPITÃO PERALTA



Da fronteira da Guiné-Bissau ainda se avistam os últimos contrafortes do maciço do Fouta Djalon. São já colinas, com manchas verdes de arrozais dispersos. Para cá, começa a savana. A erva chega aos ombros, a perder de vista. A floresta ladeia os rios e guarnece a fronteira com o Senegal. A faixa costeira é franjada por mangais que sobem ao longo dos estuários e mergulham as raízes, ocultando a terra firme.  
Entre a maré alta e a baixa, a superfície do território modifica-se em cerca de sete mil quilómetros quadrados. É muito, para uma área total que ultrapassa pouco os trinta e seis mil. Sobretudo a sul, o mar entra pela terra. Sucedem-se as rias, os riachos, os pântanos e as lagoas. Amílcar Cabral conhecia bem a geografia da terra onde nasceu. Ouçamo-lo:
Na Guiné, terra cortada por braços de mar, que nós chamamos rios, mas que no fundo não são rios: Farim só é rio para lá de Candjambari; o Geba só é rio de Bambadinca para cima e por vezes mesmo para lá de Bambadinca há água salgada; Mansoa só é rio depois de Mansoa, já a caminho de Sara, perto de Caroalo; Buba, esse não é rio de lado nenhum, porque até chegarmos a terra seca, é só água salgada; Cumbidjã, Tombali, são todos braços de mar, a não ser na parte superior com um bocadinho de água doce na época das chuvas, sobretudo o rio de Bedanda, que vem a Balama buscar água doce. O único rio de facto a sério, na nossa terra, é o Corubal.
Cuba prestou um apoio importante ao PAIGC, embora não se tenha empenhado tanto na Guiné como em Angola. Dizia-se que os condutores dos automóveis do partido, em Conakry, se conheciam por serem guiados por cubanos a fumar charutos.
O infeliz capitão Peralta foi, que eu saiba, o único conselheiro militar cubano apanhado pelas nossas tropas. Participou num ataque ao quartel de Buba, que tinha uma pista de aviação.
 Peralta andou a fazer reconhecimentos para preparar o assalto. Uma patrulha portuguesa encontrou vestígios de passagem de pessoas à volta do quartel e avisou o comandante. Um pelotão de soldados de infantaria foi mandado emboscar, nessa noite, num lugar apropriado.
 Avançaram três bigrupos pelo capim, que dificultava muito a visibilidade. Um bigrupo equivalia a meia companhia nossa. A tropa emboscada abriu fogo e os atacantes puseram-se em fuga. Peralta foi ferido e capturado. Tinha com ele os planos da operação.
 A guerra também tem episódios caricatos. Buba fica a sudoeste da Guiné, no extremo do Rio Grande que tem o seu nome. Peralta fez o reconhecimento da zona com a maré cheia e quase só viu água: o rio e os seus múltiplos braços. Os bigrupos avançaram pelo capim. Quando alcançaram a vizinhança da povoação, a maré vazara. Onde antes estava água, havia agora terra. O rio estava lá ao fundo. Parecia tratar-se duma região diferente.
Os guerrilheiros ainda montaram a artilharia ligeira mas, quando os soldados portugueses dispararam, tentaram escapar-se para o rio. Foram avistados pelos nossos fuzileiros e deu-se a debandada completa.  
O que espanta nessa história, que é relatada por Carlos Fabião, não é a ignorância das condições do terreno por parte de um capitão cubano. Admira é que os comandantes dos bigrupos, que conheciam bem o território onde lutavam, o tenham seguido. Grande seria o prestígio de Fidel Castro na África Equatorial…



sábado, 15 de junho de 2013

                            
                               AMÍCAR CABRAL  
                                            
                                      LVIII

                     PIDJIGUITI


Na segunda metade do século XX, a opinião pública, interna e internacional, tornou-se um fator importante para a propaganda dos povos que travavam guerras de guerrilha. As notícias de massacres em regiões remotas geravam emoções no mundo inteiro. Fortaleciam internamente a oposição aos governos que conduziam guerras impopulares e criavam condições favoráveis ao incremento do apoio externo aos movimentos de libertação. Aconteceu assim com as matanças de My Lai, no Vietname, em 1968 e de Wiriyamu em Moçambique, em 1969. A Guiné-Bissau teve também um massacre emblemático, ainda que de proporções menores. Aconteceu no porto de Pidjiguiti, em Bissau, a 3 de agosto de 1959.
Os estivadores reivindicavam aumentos salariais. Tinham visto as suas pretensões satisfeitas por diversos estabelecimentos comerciais, mas a Casa Gouveia, sucursal da CUF, então administrada pelo historiador António Carreira, cabo-verdiano da ilha do Fogo, recusou ceder. Os estivadores responderam com a greve.
O patrão-mor chamou os trabalhadores à capitania, para serem identificados. Três deles foram levados pela PIDE para as oficinas navais.
Os ânimos aqueceram e a revolta subiu de tom. Os estivadores tentaram libertar os seus colegas detidos. A polícia encerrou os portões e pediu reforços. Um marinheiro terá ameaçado um agente da autoridade e foi agredido por ele. Estabeleceu-se a confusão. Os cerca de cem trabalhadores, quase todos manjacos, receberam à pedrada os reforços policiais que se abeiravam do cais. Vieram também militares e civis portugueses. O tiroteio começou. Ficaram muitos homens caídos no chão.
As partes não se entenderam quanto ao número de baixas. Para o Comando Militar da Guiné, «do lado dos grevistas, há a contar 7 mortos e cerca de 20 feridos e 20 prisioneiros». O Comando da Defesa Marítima refere «nove marítimos mortos, 16 feridos, um dos quais é o chefe da polícia, e 23 presos». Alguns dos grevistas feridos acabaram por falecer.
O PAIGC, no ano seguinte, acusou os portugueses de terem abatido a tiro meia centena de trabalhadores guineenses em greve. Aristides Pereira, em carta a Lúcio Lara, fala em 24 mortos e 35 feridos. Com maior ou menor número de vítimas, a notícia da matança correu mundo e prejudicou a imagem internacional do governo de Lisboa.  
Na greve de Pidjiguiti não havia motivações políticas. Os trabalhadores do porto tinham razões de queixa e a questão podia e devia ter sido resolvida mediante negociações. A situação agravou-se devido à impreparação dos agentes policiais que recorreram desnecessariamente ao uso das armas de fogo.
No dia do massacre, Amílcar Cabral estava em Luanda. Teve conhecimento da situação pelos jornais no dia seguinte, durante o voo de regresso a Lisboa. Fez, como lhe competia, o aproveitamento político do incidente, acabando por associar simbolicamente o massacre de Pidjiguiti à fundação do PAIGC.


sábado, 1 de junho de 2013

                    
                      AMÍLCAR CABRAL

                             LXVIII

   A ORGANIZAÇÃO DA GUERRILHA                                     



          Do lado da guerrilha, verificou-se relativamente cedo que as primeiras bases criadas no começo da luta armada tinham deixado de corresponder à realidade da situação militar. Por um lado, a maioria dos ataques envolvia efetivos reduzidos. Por outro, constituíam alvos fáceis para a aviação portuguesa. Foi decidido reorganizar os combatentes em grupos mais pequenos que poderiam reunir-se ocasionalmente para iniciativas mais ambiciosas. 
Em novembro de 1964 juraram bandeira os elementos das primeiras unidades do Exército Popular pensado no Congresso de Cassacá. Com guerreiros melhor preparados, foi possível abrir novas frentes de combate. No mesmo Congresso fora criado um Conselho de Guerra que dependia diretamente do secretário-geral e funcionava como estado-maior.
O Exército Popular compunha-se de unidades chamadas bigrupos. Contavam com cerca de 40 elementos cada, podendo ser reforçados.
A organização dos combatentes revolucionários modificou-se ao longo do conflito, de acordo com o equilíbrio de forças e as alterações no modo português de fazer a guerra.
Em 1965, os comandos militares inter-regiões mudaram de nome e de funções. Passaram a ser chamados comandos gerais do norte e do sul. Coordenavam todas ações de combate nas suas áreas. No ano seguinte, passaram a ser designados por comandos de frente.  Em 1969 deu-se nova reorganização. Foi criada a Comissão Nacional das Regiões Libertadas. Em termos militares, o rio Geba passou a separar as frentes norte e sul, as quais foram subdivididas em zonas ou setores.  
Em 1971, ocorreu uma nova reestruturação. A marinha ganhara importância. Passou a ser chamada Marinha Nacional Popular. Juntamente com o Exército Nacional Popular e as Forças Armadas Locais, compunha as Forças Armadas Nacionalistas.
A marinha integrava unidades navais e unidades de fuzileiros, cuja organização assentava também em bigrupos. Em 1971 instrutores russos começaram a treinar em Conakry uma unidade de homens-rãs.
O exército compunha-se de unidades de infantaria, artilharia e grupos especiais. A infantaria continuava a assentar a sua organização nos bigrupos de grande poder de fogo. A dada altura, até as forças coloniais adotaram esse modelo. Três ou quatro bigrupos formavam um corpo de exército. A artilharia compreendia grupos mais ou menos clássicos de 50 homens, unidades de canhões e morteiros com cerca de metade desses efetivos e grupos ainda mais pequenos de foguetões associados a outros meios antiaéreos. Os grupos especiais incluíam comandos, atiradores especiais com miras telescópicas e operadores de lança-granadas foguete (bazucas).
As Forças Armadas Locais substituíam as milícias. Assentavam em grupos de dezanove elementos armados com espingardas Simonov, pistolas-metralhadoras PPSH e bazucas (RPG-2). Existiam destacamentos femininos que não entravam em combate. As Forças Armadas Locais combatiam ocasionalmente ao lado do exército. Desempenhavam essencialmente missões de segurança, aliadas ao trabalho político. Colaboravam com as populações nos trabalhos agrícolas e na reconstrução das estruturas destruídas pelo fogo inimigo.
Entre 1972 e 1974, os serviços de informação de Lisboa estimavam em cerca de 7.500 os combatentes que enfrentavam na Guiné. Pouco mais de 5.000 integrariam o exército popular, enquanto outros 2.000 fariam parte das forças armadas locais.
Haveria 2.800 homens a combater na chamada Inter-Região Norte e 2.500 na Inter-Região Sul. O maior contingente (1.230 homens) enfrentava as forças portuguesas na zona Buba/Quitafine.
As dificuldades de comunicação entre as várias chefias militares e entre elas e a direção do partido, sediada em Conakry, repetiram-se ao longo da luta armada. Foi preocupação constante de Amílcar Cabral subordinar os militares aos políticos. Não foi tarefa fácil.
Havia mais problemas. O cansaço de guerra atingiu muitos combatentes. O PAIGC chamava os jovens ao combate apelando ao dever cívico e patriótico. Os guerrilheiros não eram pagos nem tinham um tempo de serviço contratado. Viviam com dificuldades e alimentavam-se mal.
A colocação dos militares em áreas distantes das suas moranças originava dificuldades de adaptação. “No Gabu, mais de 40% dos efetivos abandonaram as suas unidades, saindo à procura do caminho para regressar às suas casas”. Os dirigentes do PAIGC procuraram contornar este problema passando a distribuir preferencialmente os combatentes pelas suas regiões de origem.
Embora, numa guerra de guerrilha, o número de soldados revolucionários, distribuídos por unidades de grande mobilidade, seja sempre muitas vezes inferior ao número de efetivos dos exércitos regulares, que combatem mais fixados a posições defensivas, nem sempre o recrutamento de voluntários para o PAIGC correspondeu às expectativas dos seus dirigentes.   

    


sábado, 11 de maio de 2013


                                     
                 AMÍLCAR CABRAL

                         XXX 

   AS ORIGENS. A INFÂNCIA NA GUINÉ




      Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, na colónia portuguesa da Guiné, a 12 de Setembro de 1924. Era filho de Juvenal António Lopes da Costa (Cabral) e de Iva Pinhel Évora. No registo de nascimento está escrito Hamílcar. O pai conhecia e apreciava os clássicos. Seria admirador dos generais cartagineses.
     Juvenal Cabral ficou órfão muito cedo. O avô de Amílcar terá sido assassinado. Juvenal acompanhou a madrinha Simoa quando ela se mudou para Portugal e viveu em Santiago de Cassuarães, na Beira Alta, durante alguns anos. Estudou no seminário de Viseu. Por dificuldades económicas, regressou a Cabo Verde em 1905, com dezassete anos. Em 1911, com 23 anos, emigrou para a Guiné, à procura de trabalho.
      Iva Pinhel Évora mudou-se para a Guiné em 1922, com 29 anos de idade. Viajou acompanhada do filho de 9 meses, Ivo Carvalho Silva, e do pai dele, João Carvalho Silva.
     A relação dos pais de Amílcar não foi exclusiva nem duradoura. Juvenal foi um povoador. Teve numerosos filhos (provavelmente mais de onze) de Ernestina Soares de Andrade, três de Iva Pinhel Évora e pelo menos um (Luís Cabral) da única mulher com quem casou oficialmente, Adelina Rodrigues Correia.
     Juvenal Cabral foi professor sem habilitações e funcionário administrativo adaptado. Para sustentar a família, deu aulas em Geba e noutras localidades e exerceu as funções de “subdelegado do Procurador da República e Procurador Judicial autorizado pelo Governador”, o que equivaleria mais ao menos ao papel de solicitador, tendo chegado a publicitar no Boletim Oficial da Guiné a sua disponibilidade para receber procurações para representar e defender as partes nos processos que corriam na Circunscrição de Bafatá. Paralelamente, seria proprietário de uma loja em Geba, a qual estaria em nome de Ernestina.
      Ensinando em Geba, deslocava-se com frequência a Bafatá para tratar de processos e fiscalizar o negócio. Aí conheceu Iva Pinhel, em 1922 ou em 1923. Terá aberto outra loja em nome dela.
      Juvenal Cabral tinha ideias próprias e gostava de escrever. Publicou diversos artigos e um livro intitulado «Memórias e reflexões». As suas opiniões políticas eram muito diferentes das que haveriam de ser assumidas anos mais tarde pelo filho Amílcar. Juvenal não se opunha ao Estado Novo salazarista. Criticava o sistema agrícola das ilhas e defendia reformas em Cabo Verde e na Guiné, mas dentro de um contexto de Portugalidade. Num artigo saído no jornal «A Voz de Cabo Verde» homenageou a intervenção do “herói” português Teixeira Pinto na guerra contra os papéis de Bissau, o que provocou em Bolama a ira dos elementos da Liga Guineense.      
     Juvenal passou alguns meses em Cabo Verde em 1926. Viajou com Ernestina e todos os filhos dela. Julga-se que a viagem visava encerrar a ligação de ambos. De regresso à Guiné, Juvenal terá passado a estar mais tempo com Iva, de quem teve, em 1927, duas filhas gémeas, Armanda e Arminda.
      Amílcar Cabral viveu na Guiné do nascimento até aos oito anos. Terá estado com a mãe em Bafatá de 1924 a 1927, enquanto o pai morava em Geba, e mais tarde em Geba, de 1927 a 1929, supostamente com a mãe e com o pai. Passou depois cerca de um ano em Cabo Verde, na companhia da mãe e das irmãs. Há documentos que demonstram que esteve na cidade da Praia em 1929. O pai e a mãe, nessa data, já se teriam separado. Juvenal Cabral casou com Adelina Rodrigues Correia em fevereiro de 1930.
      Amílcar voltou à Guiné com o pai e dois irmãos, enquanto a mãe permanecia em Cabo Verde. Iva não foi capaz de se manter na terra natal. Por “dificuldades de adaptação”, regressou à Guiné em 30 ou 31. Segundo Luís Cabral, partilhou a casa em Bissau com Juvenal e a sua nova família.
       Os tempos de Bissau (um ou dois anos) foram difíceis. O miúdo Amílcar vendia numa taberna coisas que a mãe fazia.
      Amílcar Cabral parece ter guardado poucas memórias da infância passada na Guiné natal. Pelo menos, nunca escreveu sobre ela.


terça-feira, 30 de abril de 2013


                   
                         AMÍLCAR CABRAL

                                       XIX


                    REALIDADE

                   (Excertos de um texto de Amílcar Cabral)

Uma coisa muito importante numa luta de libertação nacional é que aqueles que dirigem a luta nunca devem confundir aquilo que têm na cabeça com a realidade. Pelo contrário, quem dirige uma luta de libertação nacional deve ter muitas coisas na cabeça, cada dia mais, tanto a partir da própria realidade da sua terra, como da realidade doutras terras, mas ele deve medir, fazer planos, respeitando a realidade e não aquilo que tem na cabeça. Isso é muito importante, e o facto de não o respeitar tem criado muitos problemas na luta de libertação dos povos, principalmente em África. Eu posso ter a minha opinião sobre vários assuntos, sobre a forma de organizar a luta, de organizar um Partido, opinião que aprendi, por exemplo, na Europa, na Ásia, até mesmo talvez noutros países de África, nos livros, em documentos que li, com alguém que me influenciou. Mas não posso pretender organizar um Partido, organizar uma luta de acordo com aquilo que tenho na cabeça. Tem que ser de acordo com a realidade concreta da terra.
         A nossa realidade geográfica, ainda, é que a Guiné na sua quase maioria, não tem nenhuma montanha, nenhuma elevação, (só para os lados do Boé é que tem algumas colinas, com o máximo de 300 metros de altura) e Cabo Verde são ilhas vulcânicas e montanhosas. Mesmo nesse aspeto vemos que um completa o outro. Uma terra não tem nenhuma montanha e a outra é toda de montanhas.
         Isso também tem grande importância, não só na sua economia, como na vida social, cultural etc., que podemos encontrar na vida do nosso povo.
         Na Guiné, terra cortada por braços de mar, que nós chamamos rios, mas que no fundo não são rios: Farim só é rio para lá de Candjambari; o Geba só é rio de Bambadinca para cima e por vezes mesmo para lá de Bambadinca há água salgada; Mansoa só é rio depois de Mansoa para cima, já a caminho de Sara, perto de Caroalo; Buba, esse não é rio de lado nenhum, porque até chegarmos a terra seca, é só água salgada; Cumbidjã, Tombali, são todos braços de mar, a não ser na parte superior com um bocadinho de água doce na época das chuvas, sobretudo o rio de Bedanda, que vem a Balama buscar água doce. O único rio de fato a sério, na nossa terra, é o Corubal. Esta é uma realidade muito importante para nós, porque se, por um lado, temos muitos portos para entrar na nossa terra, com barcos, por outro lado podem ver o perigo que isso representa para nós.
       Se a nossa economia fosse desenvolvida, quer dizer que o nosso povo seria também culturalmente mais forte do ponto de vista moderno, com mais escolas, mais liceus, capaz de trabalhar com morteiros, canhões e até com aviões. Os comandantes seriam mais capazes de entender todos os problemas de estratégia, de tática e poderiam todos trabalhar com mapas.
A realidade cultural da nossa terra, em Cabo Verde, (pondo agora a questão dos colonialistas que não nos deixaram avançar muito) é o resultado do fato de os colonialistas terem deixado estudar os cabo-verdianos, na medida em que precisavam de gente para fazer agentes do colonialismo, como utilizaram os indianos. Como os ingleses também utilizavam os indianos na colonização, e os franceses utilizavam os daomeanos, assim também os portugueses utilizaram os cabo-verdianos, instruindo um certo número.
        Na Guiné, a cultura do nosso povo é o produto de muitas culturas da África: cada etnia tem a sua cultura própria, mas todas têm um fundo igual de cultura, a sua interpretação do mundo e as suas relações na sociedade. E sabemos que embora haja populações muçulmanas, no fundo eles também são animistas, como os balantas e os outros. Acreditam em Ala, mas também acreditam nos «irãs» e nos «djambacos ses». Têm Alcorão, mas também têm o seu «gri-gri» no braço e outras coisas. E o sucesso do Islamismo na nossa terra, como na África em geral, é que o Islão é capaz de compreender isso, de aceitar a cultura dos outros, enquanto os católicos querem acabar com isso tudo rapidamente só para crerem na Virgem Maria, na Nossa Senhora de Fátima e em Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 16 de abril de 2013



                 AMÍLCAR CABRAL  

                              VII



        O P.A.I.G.C. E A UNIDADE


       (Excerto de um texto de Amílcar Cabral)

  No nosso Partido ninguém dividiu, pelo contrário, cada dia nos unimos mais. Aqui não há papel, nem fula, nem mandinga, nem filhos de cabo-verdianos, nada disso. O que há é P.A.I.G.C. e vamos para diante.
  Os tugas estão desesperados. Então são eles mesmo, por exemplo, que hoje nas suas revistas, como esta, que se chama «Ultramar», têm grandes artigos, estudando a questão da Guiné e Cabo Verde, e escrevem: «A Guiné e as Ilhas de Cabo Verde —a sua unidade histórica e populacional». E sabem quem fez este artigo? António Carreira. Porque ele conhece de facto muitos problemas de história. E neste artigo ele reuniu todos os documentos que há nos arquivos dos tugas e estudou para onde é que os filhos da Guiné foram, quando foram enviados para Cabo Verde. Para S. Tiago ? Balantas, mandingas, beafadas - Para S. Vicente? Foram fulas. Com relatórios, sobre a chegada destes, etc. Eles sabiam que nós somos a mesma gente, na Guiné e Cabo Verde. Quer dizer, tanto do conhecimento da História, da realidade da nossa vida do passado, como do conhecimento dos interesses do nosso povo e da África, tanto na questão de estratégia de luta (porque qualquer pessoa que pensa na luta a sério, sabe que não há independência da Guiné sem a independência de Cabo Verde nem há independência da República da Guiné, nem do Senegal nem da Mauritânia, se eles querem ser países a sério, sem Cabo Verde ser independente, ouvem bem? Não há. Só quem não entende nada de estratégia é que pode pensar que esta África pode ser independente, com Cabo Verde ocupado pelos colonialistas. É impossível. Assim como, vice-versa, não pode haver independência de Cabo Verde a sério, sem a independência da Guiné, e sem a África ser independente a sério) qualquer um que põe o interesse do seu povo acima dos seus próprios interesses − a análise séria dos problemas acima de quaisquer manias ou ambições − só pode chegar a uma conclusão que é a seguinte: a coisa melhor que o P.A.I.G.C. fez, que o grupo daqueles que criaram o P.A.I.G.C. fez, foi estabelecer como base fundamental − Unidade e Luta − Unidade da Guiné, Unidade em Cabo Verde e Unidade da Guiné e Cabo Verde. Quem ainda não vir isso, verá mais tarde. Mas muitos africanos já começaram a vê-lo. Muitas forças amigas nossas começaram a ver, mas também os nossos inimigos já começaram a vê-lo. A preocupação dos imperialistas hoje, é a seguinte: «Cabral aceita ou não, a independência da Guiné, sem Cabo Verde?».
 Essa é que é a grande preocupação. «O P.A.I.G.C. aceita ou não a independência da Guiné sem Cabo Verde?». Isto é que o imperialista quer saber e perguntaram-no mesmo. Eu disse-lhe: «Ponha os tugas a perguntar, você não é tuga». Porque eles sabem muito bem qual é a importância que têm o nosso conjunto. Um dia um dirigente africano disse-nos: vocês são inteligentes (djiro). Perguntamos-lhe porquê e ele disse: Eu conheço a vossa gente na Guiné e a vossa gente em Cabo Verde. Se vocês conseguirem de facto o que estão a fazer, apesar de uma terra pequenina, vocês hão de ser um país forte dentro da África. Vamos a ver, dissemos. Camaradas, vamos pois para a frente, reforçados pela certeza da nossa razão: a criação do P.A.I.G.C., nas bases que acabo de expor, foi a maior realização do nosso povo, para a conquista da liberdade e a construção do seu progresso e felicidade na Guiné e Cabo Verde.

sábado, 13 de abril de 2013


                                             
                   AMÍLCAR CABRAL


                                IV
            
              O ASSASSINATO

Sobre a morte do líder histórico do PAIGC sabe-se quase tudo e quase nada.
O crime aconteceu em Conakry. As circunstâncias foram relatadas pelo jornalista moçambicano Aquino de Bragança e coincidem com a versão oficial dos factos.
Passava das vinte e duas horas da noite de 20 de janeiro de 1973. Amílcar Cabral, acompanhado da esposa Ana Maria, tinha saído de uma receção na Embaixada da Polónia. Segundo uma versão, o casal teria seguido no carro do embaixador russo. De acordo com outros, Cabral teria preferido conduzir o seu Volkswagen. Quando o casal abandonou o automóvel, já perto de casa, um grupo de militantes do seu partido barrou-lhe o caminho. Cabral foi atingido a tiro a curta distância. Apesar da falta de iluminação, Ana Maria Cabral foi capaz de identificar alguns dos assassinos. Conhecia-os bem.
À hora do atentado, a maioria dos dirigentes do PAIGV estava a assistir a uma palestra de Joaquim Chissano nas instalações da escola-piloto do Partido.

                    Fotografado com o assassino
Amílcar Cabral na União Soviética.
O marinheiro da direita é Inocêncio Cani.

 Os assassinos (Inocêncio Cani, Momo Touré, Bacar Cani, Aristides Barbosa e outros) eram membros guineenses do PAIGC. Pretenderiam afastar da direção do partido os cabo-verdianos e “brumedjos” (mulatos guineenses).
Quase simultaneamente, outro grupo de conspiradores sequestrou Aristides Pereira, secretário-geral adjunto do PAIGC e conduziu-o ao porto de Conakry onde o fez embarcar numa vedeta que zarpou, juntamente com outras duas, alegadamente em direção a Bissau. Segundo algumas fontes, a intenção dos conjurados não era eliminar fisicamente os dirigentes cabo-verdianos do Partido, mas sim entregá-los às autoridades portuguesas. Há também quem sugira que estava planeado conduzi-los até o interior da Guiné-Bissau, a uma zona controlada pelos guerrilheiros, para aí serem “julgados”. Amílcar Cabral estaria armado, o que não é de surpreender. Terá oferecido resistência aos atacantes.
Logo após a morte de Cabral e o sequestro de Aristides Pereira, os revoltosos prenderam vários quadros do PAIGC que saíam da reunião que atrás referimos com a comitiva moçambicana.
Tratou-se de uma conspiração anunciada. Os segredos em Conakry eram difíceis de guardar e havia muita gente que sabia que estava a ser preparado um atentado. Amílcar Cabral recebeu vários avisos. Foi informado por elementos duma delegação da FRELIMO, que se encontrava de visita à capital guineense. A informação terá sido confirmada por dois diplomatas da Embaixada da Checoslováquia em Conakry e por enviados do próprio Sekou Touré. Cabral subvalorizou o perigo que corria.
Ainda nessa noite, uma comitiva de conjurados, encabeçada por Mamou Touré, foi acolhida no palácio presidencial. Contaria aparentemente com o pragmatismo de Sekou Touré, que poderia estar disposto a aceitar as mudanças no PAIGC. À reunião, além de todos os membros do governo guineense, compareceram os embaixadores de Cuba e da Argélia e ainda Samora Machel, presidente da FRELIMO. Os conspiradores terão admitido a autoria da morte de Cabral.
No final dessa reunião, Sekou Touré terá ordenado o resgate de Aristides Pereira. Na versão oficial dos acontecimentos, a operação foi levada a cabo por militares guineenses. Na realidade, foi efetuada pelo contratorpedeiro russo “Experiente” que patrulhava as costas da Guiné-Conakry a pedido das autoridades guineenses que procurariam evitar ataques navais portugueses do tipo da operação Mar Verde, lançada pelos fuzileiros especiais em Outubro de 1970.   
Sékou Touré ouviu os revoltosos. No final da reunião, mandou-os prender.
Jean-Paul Alatas, um francês preso desde 1970 por cumplicidade na operação Mar Verde testemunhou a entrada dos revoltosos na prisão e descreveu-a, anos mais tarde. Eram três dezenas de pessoas, descalças e vestidas com camuflados, com a cabeça erguida, parecendo muito orgulhosos do que tinham feito. Esperavam que o presidente da Guiné- Conakry acabasse por apoiar o golpe.

quinta-feira, 11 de abril de 2013


                           AMÍLCAR CABRAL

                                                II

           GUINÉ-BISSAU

     As realidades económicas, sociais e culturais das duas antigas colónias portugueses na África Central eram substancialmente diferentes no tempo de Amílcar Cabral e continuam a sê-lo hoje em dia. Vamos abordá-las separadamente. Começaremos por esboçar retratos actuais da situação na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.
Como ponto de partida, escolhemos, para cada país, a revisão de artigos recentes da imprensa lusófona.



PÚBLICO, Lisboa, 7 de Abril de 2013.
Militar guineense foi preso em alto mar por dois agentes americanos que se fizeram passar por traficantes de droga.
A brigada de combate ao tráfico de droga dos Estados Unidos da América desenvolveu, a partir de Agosto do ano passado, uma operação que conduziu à captura, em alto mar, de um dos mais importantes oficiais generais guineenses. O almirante José Américo Bubo Na Tchuto foi preso e compareceu já perante um juiz, em Nova Iorque.
Os agentes da Drug Enforcement Agency (DEA) que efetuaram a prisão fizeram-se passar por negociantes de droga. O almirante Na Tchuto, um antigo combatente da guerra de libertação, supunha estar a contactar com um fornecedor de droga e com um intermediário. Estava referenciado desde 2006 como um elemento importante de ligação dos narcotraficantes latino-americanos às Forças Armadas Guineenses. Receberia um milhão de dólares por cada operação. A droga (cocaína) destinava-se aos Estados Unidos e à Europa.
O mesmo jornal desenvolvia a notícia no dia seguinte.
O ex-chefe do Estado Maior da Marinha da Guiné, ainda ligado ao poder em Bissau, era um dos elos de ligação numa rede de venda de droga e armas desmontada pelos Estados Unidos.
O almirante Bubo Na Tchuto foi preso no alto mar, perto da zona marítima de Cabo Verde. Nas negociações com os supostos negociantes de droga apresentaria as suas próprias condições e também (alegadamente) as do seu país, para permitir o trânsito de drogas pelo território guineense. A cocaína seria escondida em caixas de uniformes militares. 
Juntamente com Na Tchuto, foram também capturados mais dois  cidadãos guineenses. Outros dois foram presos, aparentemente no mesmo dia, num país não especificado da África Ocidental. Na segunda parte da mesma operação e no dia em que o almirante guineense foi apresentado a tribunal, foram capturados em Bogotá dois narcotraficantes colombianos. Tanto estes como dois dos guineenses foram indiciados por ligações às FARC colombianas.
Bubo Na Tchuto terá ajudado o atual chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, António Indjai, a consolidar o poder quando do golpe de 12 de Abril de 2012. 
O almirante detido terá declarado aos agentes que o iludiram que a fragilidade atual das instituições guineenses tornava o país propício a este tipo de negócios. 
É o vice-chefe do Estado-Maior, general Mamadu Ture Kuruma quem atualmente dirige o país nesta fase de transição. Tem estabelecido contactos com os partidos da oposição.
Há quem diga e escreva que a Guiné-Bissau é um estado falhado. Os heróis da independência têm-se matado uns aos outros em golpes de estado sucessivos. 
Vamos registar aqui alguns dados estatísticos sobre o país.
Superfície – 36.000 quilómetros quadrados.
População – 1.600.000 habitantes
Economia - continua a basear-se na agricultura e na pesca.
Rendimento per capita –  1.144 dólares (International Monetary Fund, 2011). É um dos mais baixos do mundo. Abaixo, há apenas 16 nações numa lista de 185. Mais de dois terços dos habitantes vivem abaixo do limiar de pobreza.
Mortalidade infantil até 1 ano (por cada 100.000 nados-vivos) – 94,4 (Estimativas da CIA World Factbook, na Wikipedia)
Mortalidade materna (número de mortes de mão por cada 100.000 nados-vivos) – 790. (Fonte: CIA World Factbook, na Wikipedia).
Expectativa de vida ao nascer – 49 anos (sexo feminino), 47 (sexo masculino).
Os indicadores sanitários são preocupantes. O país dispõe de menos de 5 médicos para cada 100.000 habitantes. A malária continua a ceifar muitas vidas, enquanto 1,8% da população adulta está infetada com SIDA.


quarta-feira, 10 de abril de 2013


                      AMÍLCAR  CABRAL

       A UTOPIA      
                             I
                 INTRODUÇÃO

 É costume dizer-se que as árvores se reconhecem pelos frutos. A luta a que Amílcar Cabral dedicou a sua vida esteve na origem do nascimento de dois países, em lugar da nação única que o sonhador pretendeu construir.
 Embora a História não detenha os seus passos, os trinta e nove anos decorridos sobre as independências permitem fazer análises com algum distanciamento. Eu e o Leston Bandeira combinámos, há alguns meses, escrever a meias um livro sobre a vida e a obra de Amílcar Cabral.
 Como tinha de ser, fui preparando a minha parte do trabalho, Tive, contudo, dificuldade em imaginar maneira eficaz de abordar o tema. As biografias estão feitas e algumas têm grande qualidade. O recurso à ficção pareceu-me difícil e desajustado do projeto.
 Ocorreu-me há dias uma estratégia diferente para me aproximar de Amílcar Cabral. Trata-se de escrever uma série de artigos, um pouco detrás para a frente, embora sem respeitar rigorosamente a cronologia. Poderemos intercalar escritos do próprio e dos seus adversários com apontamentos históricos e biográficos e ainda com as nossas opiniões pessoais, que não terão necessariamente de coincidir. Temos vivências substancialmente distintas. Une-nos o facto de, enquanto europeus, partilharmos um grande amor a África.
     Recorreremos a excertos dos textos de Amílcar Cabral, abreviando-os quando parecer necessário, mas tendo o cuidado de nunca lhes modificar o sentido. 
       Um projeto assim presta-se a ir sendo publicado enquanto se progride. O tamanho dos capítulos que imaginei adapta-se ao formato de blogue. Irá começar assim. No final, há de valer a pena reuni-los em suporte de papel. 
      Os eventuais leitores poderão assistir ao nascimento de um livro e colaborar nele com comentários.  

                                                           António Trabulo