DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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terça-feira, 23 de setembro de 2014




Apresento, com algum orgulho, o meu décimo segundo livro publicado em suporte de papel. Começou por ser uma biografia de Amílcar Cabral. Os capítulos, na sua forma inicial, foram sendo apresentados neste blogue. Ora, os livros têm dinâmicas próprias. A dada altura, constatei que a figura do fundador do PAIGC, apesar da sua relevância, ocupava apenas cerca de metade das páginas do volume. Dei-lhe, portanto, um título mais abrangente.



    Espero poder apresentar o livro de contos intitulado «Ofício de contar» dentro de um ou dois meses. Será uma forma de compensar o facto de não ter feito sair qualquer obra durante o ano de 2013.

 António Trabulo

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014






   A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


       LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


               NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
                        IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
                        E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA

                                                 III

Quando Nino Vieira apeou Luís Cabral da Presidência da República, Juvelina encontrava-se em S. Paulo, no Brasil, integrada na Delegação da Guiné-Bissau ao 1º Simposium Afro-Brasileiro de Comércio Externo. Logo que a notícia da deposição e prisão do seu irmão Luís chegou, a postura de um dos elementos da delegação modificou-se radicalmente, passando das mesuras da véspera à falta de respeito.



Juvelina achou prudente não regressar a Bissau. Viajou para Lisboa, onde tinha casa, e ficou a aguardar o desenvolvimento da situação.  O marido e o filho mais velho permaneceram na Guiné, enquanto o mais novo estudava em Portugal. 
     O marido, Abel Ventura, regressou três anos mais tarde. Gerira mal o património, deixando a família em situação económica periclitante.



Quando foi posto em liberdade, Luís Cabral acolheu-se em Cuba, onde viveu de 1981 a 1983. Tentou regressar a Cabo Verde, mas as várias cartas que escreveu a Aristides Pereira a manifestar essa intenção ficaram sem resposta. O governo português, com o apoio do Presidente Ramalho Eanes, ofereceu-lhe asilo político em Lisboa.



Juvelina ainda pensou em regressar a Cabo Verde, onde nascera e vivera os primeiros quinze anos da sua vida. Aristides Pereira, o presidente da República, não a quis de volta. Argumentou que ela não tinha família em Cabo Verde. Aristides era um homem cauteloso. Recearia a sombra do prestígio aliado ao nome “Cabral”.



Luís Cabral chegou a Portugal no início de 1984. A princípio, instalou-se com a mulher e os filhos em casa da irmã.
No ano seguinte, pressionada pelas dificuldades financeiras, Juvelina Cabral voltou à Guiné. Pretendia reaver os seus bens e renegociar o aluguer do prédio da família onde se instalara a Embaixada da China, pagando uma renda que seria vinte vezes inferior ao valor de mercado.  Foi ali que conheceu o que viria a ser o seu segundo marido.



António Rocha é licenciado em Economia pela Universidade do Porto. Ainda adolescente, atreveu-se a emigrar sozinho para Moçambique, onde trabalhou. Voltou três anos depois e retomou os estudos. Ingressou na SACOR (depois PETROGAL) a meio do curso. Em 1985, foi contratado como assessor da Direção Geral da DICOL, empresa monopolista de combustíveis da Guiné-Bissau, então dirigida pelo futuro primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.
Waldemar Oliveira, ligado às empresas de petróleo em Portugal e na Guiné e casado com Armanda Cabral, constituiu o elo entre António e Juvelina. António passou a estar presente em todos os eventos da família Cabral. Ele e Juvelina acabaram por se apaixonar. Trataram dos divórcios e, em junho de 1990, formalizaram o casamento na Embaixada de Portugal em Bissau.
António Rocha deixou de vez a PETROGAL e passou a trabalhar para organismos internacionais que prestavam ajuda à Guiné. Em 1996, o casal vivia de novo em Bissau. Tornaram-se ambos sócios duma empresa agrícola que acabaram por deter na totalidade, e geriram um restaurante e uma piscina.
Curiosamente, Nino Vieira respeitava a irmã de Luís Cabral e parecia estimá-la. O casal vivia bem. António chegou a ser Assessor Económico da Presidência da República (na dependência direta do Ministro de Estado da Presidência, Fidelis Cabral de Almada) e, durante dois mandatos, Presidente da Escola Portuguesa em Bissau.
Luís Cabral, após a queda de Nino Vieira, ainda esteve na Guiné por um curto período de tempo.
A Guiné-Bissau era um país instável e, a dada altura, o Dr. António Rocha passou a ser mal visto pelos responsáveis pelo poder político.
 Em 2010, mudou-se para Angola, onde trabalhou como consultor e assessor do Governo da Província de Luanda. O casal vive agora em Nova Oeiras.



Luís Cabral o primeiro Presidente da República da Guiné-Bissau, morreu em Torres Vedras, em maio de 2009. Repousa no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Teria preferido descansar em África.



Ana Maria Cabral, a viúva de Amílcar, vive em Cabo Verde.
Iva, a filha mais velha de Amílcar Cabral e de Maria Helena, nascida na Guiné, é hoje reitora da Universidade Lusófona de Cabo Verde, em S. Vicente.




Amílcar e o seu irmão Luís, tanto quanto sei, sempre se deram bem. Curiosamente, não fui capaz de encontrar uma fotografia em que figurassem juntos.


FOTOGRAFIAS: JUVELINA ROCHA, INTERNET.

AGRADECIMENTOS: A JUVELINA E ANTÓNIO ROCHA, PELA GENTILEZA COM QUE SE DISPUSERAM A PARTILHAR AS SUAS MEMÓRIAS.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014




  A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


       LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


               NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
                        IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
                        E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA

                                                  II


Durante a guerra da independência, a presença das mães dos dois líderes revolucionários era tolerada pelo regime português, embora a PIDE se lembrasse ocasionalmente de incomodar a família. Adelina chegou a ser interrogada durante várias horas seguidas. Levavam fotografias ao local de trabalho de Juvelina e pediam-lhe que identificasse as pessoas que conhecia. Um dia, um oficial perguntou-lhe se ela não gostaria de estar antes a secretariar os irmãos. Juvelina disse logo que sim.

LUÍS CABRAL, NO TEMPO DA GUERRA DA INDEPENDÊNCIA

Apesar de viverem relativamente perto uma da outra,Iva e Adelina não se falavam. Conta António Rocha: «A Juvelina diz que se lembra apenas de as duas falarem, após a independência, com o Luís já Presidente, mas só quando eram obrigadas a encontrarem-se.» Faleceram ambas em Bissau.


                         AMÍLCAR NUMA EMBARCAÇÃO ARTESANAL

   No dia da morte de Amílcar Cabral, a mãe encontrava-se em Moçambique (Xai-Xai), de visita ao filho Toy. Adelina Rodrigues Correia estava na Guiné. Para além de chocada, encheu-se de medo de que matassem também o seu Luís. Luís Cabral encontrava-se em Zinguinchor. Viajou nesse dia para Dakar para coordenar a receção de doações, sobretudo de arroz. Soube da morte do irmão na tarde do dia 21. Ao aproximar-se das instalações do partido, deparou com um aglomerado de militantes do PAIGC. Havia muita gente a chorar.
Juvelina viveu na Guiné até ao golpe de estado de João Bernardo Vieira, ocorrido a 14 de novembro de 1980. Fez o Curso Comercial e começou por trabalhar, durante perto de dois anos, como funcionária das Obras Públicas do governo da colónia. Empregou-se depois na Casa Gouveia, pertencente ao grupo CUF. Passou a seguir por várias empresas e acabou por se fixar na Farquímica, do ramo farmacêutico.
  Após o 25 de abril e o reconhecimento formal da independência da Guiné por parte de Portugal, Luís Cabral tornou-se o primeiro presidente da República da Guiné-Bissau.

  JUVELINA COM JOÃO PAULO II (Castel Gandolfo, verão de 1979)

Algum tempo depois, Juvelina foi convidada a integrar a equipa fundadora da empresa estatal destinada a regular a importação e a distribuição de medicamentos, a Central Farmedi. Apoiada por um conselheiro técnico sueco, por um técnico de contas português e por alguns quadros nacionais, criou uma rede de farmácias e ajudou fazer crescer a Farmedi, que se tornou uma das maiores empresas públicas guineenses. O seu trabalho foi reconhecido e Juvelina ascendeu ao cargo de Diretora-geral adjunta.

REENCONTRO COM O PAPA. 
ANTÓNIO ROCHA ESTÁ À DIREITA DA ESPOSA
             Palácio presidencial de Bissau, 28/1/1990

Juvelina casou em 1959 com Abel Ventura e teve 2 filhos, ambos já falecidos (Luís Abel e João Carlos). O mais velho deixou-lhe um neto Chama-se João Carlos Gonçalves Cabral Ventura Rocha e vai nos 21 anos. Foi adotado por António José e criado pelo casal desde os quatro de idade. Queixa-se com ternura e ironia: «é chato ter de explicar que o meu pai é o marido da minha avó!»
  António Rocha tem uma filha do primeiro casamento, agora com 37 anos.

     LUÍS CABRAL, O MARECHAL TITO DA JUGOSLÁVIA E JUVELINA

O pós-guerra foi difícil no jovem país. Uma plêiade de combatentes magníficos nada sabia fazer sem as armas na mão. O conflito armado reduzira a pouco a já frágil estrutura económica do território. Os quadros disponíveis eram maioritariamente cabo-verdianos, mal aceites pela população local. Apesar da ajuda internacional, a incompetência e a corrupção iam tomando parte do País. A verdade é que os colonos faziam alguma falta.
A utopia da ligação fraterna entre a Guiné e Cabo Verde chegou ao fim com certa naturalidade. Em novembro de 1980, Luís Cabral foi deposto, num golpe de estado quase sem derramamento de sangue, pelo seu primeiro-ministro e antigo chefe das forças armadas, João Bernardo (Nino) Vieira.

JOÃO BERNARDO VIEIRA

O ex-presidente foi acusado de abuso do poder e condenado à morte. Uma das acusações era a corresponsabilidade pela execução, em dezembro de 1978, de centenas de militares africanos (quase todos guineenses) que tinham lutado ao lado de Portugal. 


                  COMANDOS AFRICANOS AO SERVIÇO DE PORTUGAL

     Os fuzilamentos foram decididos por um grupo de dirigentes do PAIGC liderados por António Buscardini, chefe da polícia política. Os corpos foram enterrados, em valas comuns, nas matas de Cumeré, Portogole, Cuntima, Farm, Bafatá, Cacheu, Canchungo, Pirada, Bambadinca, Biombo e Bissorã. As razões para justificar estas execuções sumárias, prendem-se com o facto das autoridades instituídas temerem um golpe de estado, liderado por Malam Sanhá, ex-comando da tropa colonial. Buscardini era o todo-poderoso diretor nacional da Segurança do Estado. Suicidou-se, ou foi morto, no dia do levantamento de Nino Vieira.
Luís Cabral acabou por ficar 13 meses em regime de prisão domiciliária, antes de ser autorizado a deixar a Guiné.

LUÍS CABRAL COM GUERRILHEIROS DO PAIGC

     António Rocha conta que Luís Cabral chegara a recear o chefe da sua polícia política. Segundo a família, Luís era um homem romântico, sensível e generoso, sem «queda» para ser um Presidente à moda Africana. No entanto, é bem sabido que, por vezes, o hábito faz o monge. 



FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL DE JUVELINA ROCHA, INTERNET.





terça-feira, 18 de fevereiro de 2014



   A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


        LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


   NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
   IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
   E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA


    ANTÓNIO E JUVELINA ROCHA

                                    I

     Foi a minha filha mais velha que me falou da Senhora Dona Juvelina. Sabia que eu estava a escrever sobre a guerra da Guiné e uma das suas doentes era irmã de Luís e Amílcar Cabral. Achei que poderia ser interessante conversar com ela. A Marisa obteve o consentimento da senhora para me comunicar o seu contacto.
Telefonei-lhe. Atendeu-me o marido, que já esperava que eu ligasse. Combinámos encontrar-nos na residência do casal, em Nova Oeiras.
Fui entrevistado umas tantas vezes, ao longo da última década, mas nunca tinha entrevistado ninguém. Armei-me de gravador e máquina fotográfica, antes de me meter no carro.
Dei umas voltas a mais, como é costume, mas lá atinei com a direção.
Fui recebido com extrema gentileza.


                                    JUVELINA ROCHA

Juvelina Maria de Almeida Cabral Rocha e o seu marido António José da Silva Rocha habitam num apartamento confortável decorado com motivos africanos. São ambos casados em segundas núpcias e já passaram dos setenta anos. Estão lúcidos e evidenciam excelentes memórias.
António Rocha é extrovertido e tem uma personalidade dominadora. Juvelina é doce e reservada. Foi necessário algum esforço para não entrevistar apenas o marido…
As informações que me prestaram permitiram corrigir algumas inexatidões no livro que estou a ultimar (A Guerra da Guiné – de Amílcar Cabral ao 24 de abril).


                            JUVENAL CABRAL NA JUVENTUDE

      Falámos da família. O pai de Juvelina, Juvenal António Lopes da Costa (Cabral), foi um povoador. Teve 18 filhos das três mulheres mais importantes da sua vida: nove de Ernestina Soares Andrade, quatro de Iva Pinhel Évora, cinco de Adelina Rodrigues Correia (a única mulher com quem casou oficialmente) e mais uns tantos de relações casuais. 

IVA PINHEL ÉVORA, MÃE DE AMÍLCAR CABRAL





     Enquanto Amílcar Cabral era filho de Iva, Juvelina e Luís Cabral eram filhos de Adelina. 

                   
                 ADELINA E OS QUATRO PRIMEIROS FILHOS
   Juvelina é a menina em frente e à esquerda. Luís, o mais velho, está à direita

    Não consegui saber com exatidão o número dos filhos de Juvenal Cabral. António Rocha fez contas há cerca de 20 anos e terá chegado aos 27. Há também quem fale em 23.


                             ADELINA RODRIGUES CORREIA

Será interessante referir as circunstâncias do único casamento de Juvenal. A fonte é uma entrevista de Pedro Matos a Ana Maria Cabral (viúva de Amílcar), publicada na Internet em 2013. «A madrinha de Juvenal Cabral, D. Simoa, natural de Santa Catarina, tinha uma família com grandes posses, mas não tinha filhos. Assim, resolveu contemplar o afilhado no seu testamento. No entanto, impôs uma condição. Uma família portuguesa de quem era muito amiga veio cá passar umas férias com as suas duas filhas gémeas. Uma delas, Adelina, gostou tanto de Cabo Verde que não quis voltar a Portugal com os pais e ficou em casa da D. Simoa. A condição que a madrinha impôs era que Juvenal casasse com Adelina. Assim, Juvenal teve de deixar a mãe de Amílcar para casar com a portuguesa, levando-a para Bissau. Desse casamento, nasceu Luís, o meio-irmão de Amílcar Cabral.»
Juvelina Cabral Rocha lembra-se bem dos tempos da mocidade, em Cabo Verde. O pai, Juvenal, era bondoso, mas introvertido. Falava pouco e passava muito tempo a escrever.



Amílcar e Toy (filho mais novo de Iva) eram quem mais frequentava a casa de Adelina, em Achada Falcão. Amílcar passava as férias com o pai e com o Luís. Aconselhava Juvelina a estudar. Era simpático, extrovertido e “charmoso”, no dizer da irmã. Já no Liceu, era um conquistador. De acordo com as más-línguas, continuou a sê-lo em Conacri.


                                                               AMÍLCAR CABRAL
No que se refere ao relacionamento entre as mulheres de Juvenal, passo a citar citar António Rocha:
 «Ernestina e a Iva chegaram a viver a poucos metros uma da outra, em Geba. Aí, o Juvenal vivia sozinho numa casa atribuída pelo Governo, pelo seu cargo de professor. A Adelina tinha boas relações com a Ernestina, com quem conviveu em Cabo Verde.»
Com a Iva, as relações foram mais difíceis, apesar de terem sido vizinhas durante bastante tempo.

                 UMA DAS ÚLTIMAS FOTOGRAFIAS DE JUVENAL CABRAL

Quando Juvenal Cabral morreu, em março de 1951, o Luís, que era o mais velho dos filhos de Adelina, interrompeu os estudos e arranjou dois empregos para ajudar a sustentar a família, que vivia pobremente.
Juvelina conheceu bem as duas esposas de Amílcar. Quando veio estudar para Portugal, instalou-se em casa do irmão e tornou-se amiga íntima de Maria Helena.

AMÍLCAR E MARIA HELENA
     Com Ana Maria, deu-se sempre bem, mas nunca foi tão chegada a ela.

FOTOGRAFIA RECENTE DE ANA MARIA CABRAL

     Juvelina recorda que a mãe entristeceu nos últimos de vida, apesar de ver o filho Luís a presidir aos destinos da Guiné. Chorava a morte de Fernando, o filho mais novo, falecido num acidente de viação. Fernando era médico. Estudou na União Soviética e especializou-se na Suécia.
Amílcar Cabral protegeu a família, na medida das suas possibilidades. Ao ser colocado na Guiné, como engenheiro, foi chamando os familiares para junto dele. Veio primeiro Luís Cabral, a quem arranjou emprego na Casa Gouveia. Chegou depois António, o irmão mais novo, e a seguir a mãe, acompanhada pelas filhas gémeas. Juntou-se-lhes, pouco tempo, Adelina Rodrigues Correia com os outros filhos, incluindo Juvelina, que tinha 15 anos. Estava-se em 1953.
Tanto Iva como Adelina ficaram na Guiné após o regresso de Amílcar a Portugal. Ali permaneceram durante toda a guerra. Quando os irmãos partiram para a luta, Amílcar disse-lhes que a missão das irmãs era, sobretudo, cuidar das respetivas mães.
                                                                       (Continua)


     
FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL DE JUVELINA ROCHA, INTERNET



quinta-feira, 18 de julho de 2013

                                   
                              AMÍLCAR CABRAL     

                                           LVIII                   

     AMÍLCAR CABRAL – A ALMA E AS CONTRADIÇÕES




Para alguns escritores e jornalistas, Amílcar Cabral foi o maior pensador político africano do seu tempo.
Muitos intelectuais vindos das colónias interiorizaram o marxismo, muito em voga nas universidades europeias que frequentavam. Ora, Karl Marx elaborara as suas teorias a partir do conhecimento da história, da sociologia e da economia das sociedades europeias industrializadas. A África não entrara nas suas contas. Compreende-se que os pensadores negros tenham sentido a necessidade de adaptar o marxismo ao continente africano, em que tanto o proletariado como a burguesia constituíam minorias sociais.
Cabral propôs modificações a aspetos fundamentais da teoria marxista-leninista e houve quem lhe chamasse neomarxista.
A mais importante das suas reflexões diz respeito à luta de classes como motor da história. Na inexistência desse motor, quase todos os povos africanos eram excluídos dela.
«Será que a história só começa a partir do momento em que se desencadeia o fenómeno classe e, consequentemente, a luta de classes?
Responder pela afirmativa seria situar fora da história todo o período da vida dos agrupamentos humanos, que vai da descoberta da caça e, posteriormente, da agricultura nómada e sedentária à criação do gado e à apropriação privada da terra. Mas seria também — o que nos recusamos a aceitar — considerar que vários agrupamentos humanos da África, Ásia e América Latina viviam sem história ou fora da história no momento em que foram submetidos ao jugo do imperialismo.»
A intrusão colonial em África interrompera o processo de desenvolvimento natural dos povos indígenas. Nem Amílcar, nem qualquer teórico da Negritude, se preocupou em quantificar o tempo de evolução que o esperava: séculos ou milénios.
«O nível das forças produtivas, determinante essencial do conteúdo e da forma da luta de classes, é a verdadeira e a permanente força motora da história.»
As trocas culturais tiveram muitas vezes custos sangrentos, mas conduziram a Humanidade para diante. Os países colocados nas charneiras das civilizações chocaram culturas novas. Portugal estava no extremo da Europa. As ideias levavam anos a atravessar a Ibéria, quase sempre transportadas por povos que a história tornara nómadas. Ao contrário, o norte de África entrou cedo na rota das civilizações. A sul, ficavam, primeiro, o deserto e, depois, a inóspita zona equatorial. Durante muitos séculos, uma parte importante da Península Ibérica foi colonizada por africanos.
Depois, a história seguiu o seu curso. Acabaram por ser os portugueses, que não tinham outro horizonte além do mar, os primeiros europeus a fazer chegar ao continente negro novas ideias e novos grilhões.
O colonialismo erodiu as culturas étnicas, mas só o fez muito devagar, começando pela população urbanizada. Os camponeses, mais distantes do colono e menos influenciados por ele, continuaram a ser os guardiões da tradição e do saber antigo. Os indígenas urbanos, muitas vezes descendentes de escravos que não chegaram a ser exportados e ficaram ao serviço dos patrões, assimilaram mais cedo a cultura europeia.
Um negro “assimilado” nem era de cá nem de lá e, às tantas, já não sabia se pertencia ao lado dos brancos ou o ao dos pretos. O apelo do modo de vida dos brancos era forte, mas os patrões não o aceitavam plenamente entre eles. Tratavam melhor a minoria que sabia falar a língua europeia e adotara o modo de vestir e o comportamento dos brancos, mas a cor da pele continuava bem à vista. Os outros negros desconfiavam dessa gente desenraizada.
Cabral não escreveu isso mas terá entendido que, a dada altura, todos, ou quase todos os negros assimilados desejaram ser brancos. Foi uma realidade que Frantz Fanon denunciou como intimamente fraturante.
Em termos históricos, esse fenómeno só atingiu um número importante de negros durante menos de um século. Antes da Conferência de Berlim e da ocupação efetiva do interior dos territórios, os contactos entre as raças davam-se apenas nas feitorias africanas do litoral, sendo muito mais limitados.
Alguns dos filhos das classes médias que iam nascendo nas colónias prosseguiam os estudos na antiga Metrópole. Conheceram o movimento da Negritude. A Negritude permitiu aos intelectuais negros o reforço do amor-próprio através da reafricanização das mentalidades.
Foi a essa pequena burguesia, a este grupo de assimilados, que coube o papel histórico de liderar as lutas de independência das colónias europeias em África. Boa parte dos quadros dirigentes do PAIGC, incluindo o próprio secretário-geral, provinha dela. O peso do pensamento teórico não deixava de assustar Amílcar Cabral. Os vícios da pequena burguesia tinham sido proclamados bem alto pela literatura marxista.  A conclusão de Amílcar foi radical:
«Os pequenos burgueses que construíram a sociedade nova devem suicidar-se como classe política para se integrarem verdadeiramente no meio do povo.»
A elite colonial que assumia a luta revolucionária devia renunciar aos seus privilégios de classe e à cultura assimilada à portugalidade. Era a utopia no seu melhor. Cabral não tinha razão. Até ver, o marxismo falhou em África.
Se alguém tiver necessidade de catalogar a ideologia de Cabral deverá fazê-lo de forma abrangente. O pensamento de Cabral tem tonalidades marxista, democrática e africana negra. Para Amílcar Cabral, a libertação nacional era também um ato de cultura.
Amílcar Cabral foi um homem afável, um teórico com sentido prático que completou a formação intelectual vivendo. Defendeu, mais do que outros, que a guerra de libertação só tinha valor se a provação infligida ao povo servisse para lançar os alicerces de uma nova nacionalidade.
O problema era que, mais do que outros, precisava dela. Cabral renegou a Portugalidade, que se opunha à Negritude. A questão é que as opções dum homem criam uma realidade nova, mas não apagam de todo a anterior. Não é possível amputar um membro nem lançar for metade do coração. Amílcar Cabral combateu o colonialismo. Fê-lo denodadamente, durante uma década, sem nunca deixar de todo de ser português.



sexta-feira, 12 de julho de 2013

                                            
                              AMÍLCAR CABRAL  

                                      LIV       

                  AS MULHERES



      São bem conhecidas as posições de Amílcar Cabral sobre a necessidade de promover a evolução social das mulheres. Isso é refletido em vários dos seus textos. Lembremos alguns:
“Nas condições da nossa terra, qualquer pessoa que manda pode ter, em geral, tantas mulheres quantas quer. Essa é que é a África de hoje ainda. Vejamos os ministros da África em geral: quantas mulheres têm? Mas não avançam nada com a sua terra. Temos que cortar isso na nossa terra completamente.”
“Um bom responsável do nosso Partido, um bom dirigente, tem que ser capaz, como um homem que tem necessidade de uma mulher, ou como uma mulher que tem necessidade de um homem − porque é normal ter-se uma companhia − de escolher seriamente a sua companhia, para dar exemplo como deve ser.”
 “Alguns camaradas fazem o máximo para evitar que as mulheres mandem, embora por vezes haja mulheres que têm mais categoria para mandar do que eles”. “
“Há camaradas homens, alguns, que não querem entender que a liberdade para o nosso povo quer dizer liberdade também para as mulheres, a soberania para o nosso povo quer dizer que as mulheres também devem participar nisso para mandarem também, com os homens. Muita gente diz que Cabral está com as suas manias de pôr as mulheres a mandar também”.
        “Aparece uma rapariga, esperta, mais ou menos bonita, em vez de a ajudar, dar-lhe a mão para avançar, para ser enfermeira, ser professora, para ir estudar, para ser uma boa miliciana, ou qualquer outra coisa, não, faz dela sua amante; porque é muito bonita e ele é que tem o direito de tomar conta dela. Temos de acabar com isso.”
“Quem quer uma bajuda, hoje ou amanhã, pode arranjá-la, conquistá-la, casar com ela, mas não utilizar a autoridade do Partido para ter tantas mulheres quantas deseja. Enquanto houver isso, estaremos a enganar-nos e a dar razão aos tugas e a todos os inimigos do nosso povo”.
Se o seu posicionamento político é claro, pouco se sabe, contudo, sobre o seu relacionamento íntimo com o belo sexo. Consta que, enquanto adolescente no Mindelo, chegou a ser conhecido como conquistador. Bebeu de culturas (a guineense, sobretudo,) em que a poligamia tinha raízes fundas. É natural que, nos meios urbanos, se começassem a generalizar as uniões monogâmicas, mas as bajudas eram uma atração a que só os santos se mostravam capazes de resistir e não consta que tenha havido muitos na África Equatorial. Verdadeiro ou falso, deixamos aqui este texto:  
 “Conhecido o fraco do secretário-geral por mulheres, Awa Cassamá, uma mulher fula conhecida pela sua invulgar beleza, com dois filhos já adultos a servirem nas FARP, foi abordada pelos conspiradores para atrair Cabral para uma cilada.” Recusou participar e procurou avisar Amílcar Cabral da ameaça. Foi assassinada".
Amílcar Cabral casou por duas vezes. Em Lisboa, desposou uma colega de curso, Maria Helena de Athayde Vilhena Rodrigues. Tiveram duas filhas, Iva e Ana Luísa.
 Maria Helena nascera em Chaves e era filha de um capitão médico que perdera em África as duas pernas. Conseguira bolsas de estudo para o Liceu e para a Universidade.
 O ensino era muito exigente no Instituto Superior de Agronomia (ISA). Só chegou ao terceiro ano uma minoria das duas centenas de alunos que tinham começado o curso juntos. Cabral ajudava Maria Helena nos estudos. O futuro líder do PAIGC distinguia-se no ISA pela inteligência e pelo trabalho. Estava sempre disposto a partilhar os seus conhecimentos e era popular entre os seus colegas. Helena considerava-o “uma pessoa extraordinária, com uma grande cabeça”. Admirava-lhe também a cultura. “Todas as vezes que nos encontrávamos, Amílcar trazia um livro sobre questões políticas ou sociais”.
 Quando se soube que Helena se dava com Amílcar Cabral e frequentava a Casa dos Estudantes do Império, começaram a chamar-lhe comunista.
  Amílcar foi a Chaves conhecer a mãe da namorada. Viu-se rodeado pela curiosidade dos miúdos da terra, muitos dos quais nunca tinham visto um negro. Ao passearem juntos em Lisboa, chegava a ser insultado por andar com uma branca. É provável que se sentisse magoado, mas relativizava esses incidentes, atribuindo-os à ignorância e à pobreza.
  As amigas aconselharam Maria Helena a deixar o preto. Ela não lhes deu importância. Casou e acabou por perder a bolsa de estudos, numa altura em que lhe faltavam poucas cadeiras para acabar o curso. O casamento foi modesto. A seguir à cerimónia, os noivos almoçaram sozinhos. Fizeram depois uma festa em que participaram Alda Espírito Santo, Julieta Espírito Santo, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto.
O jovem casal conheceu dificuldades. Para pagar as contas, foram dando explicações a alunos do liceu e da Faculdade.
Seguiu-se a estadia na Guiné-Bissau. Ali nasceu Iva, a primeira filha. Ao fim de três anos na Guiné, regressaram doentes. Enquanto Amílcar se empregou em Santos, na Brigada Fitossanitária, Maria Helena concluiu a tese.
Quando os antigos professores arranjaram trabalho para Amílcar em Angola, Maria Helena acompanhou-o. Deu aulas em Luanda e no Lobito.
De volta a Lisboa, e entre as idas e vindas de Amílcar, alugaram casa na Avenida Infante Santo. Por essa altura, perceberam que estavam a ser vigiados. À data, Marcelino dos Santos e Mário Pinto de Andrade já tinham deixado Portugal.
Os problemas do casal parecem ter começado quando Amílcar Cabral se deslocou a Paris e comunicou à esposa, por carta, que não regressava. Cabral fizera a escolha decisiva da sua vida e não sabia como gerir a situação da família. Maria Helena resolveu juntar-se ao marido em França. Ele ainda lhe pediu que voltasse a Lisboa. O receio da polícia política fê-lo mudar de ideias. A mulher e a filha estariam mais seguras no estrangeiro.
No ano seguinte, Ana Maria saiu de Portugal e instalou-se em Paris, em casa de amigos. Esteve ali 8 meses, mas Amílcar Cabral fez-lhes pouca companhia. Começara a grande aventura.
O casal acabou por se fixar em Conakry. Ao tempo, a debandada dos quadros franceses deixara o país sem funcionários qualificados. Maria Helena chegou à capital da República da Guiné com a pequena filha Iva e conseguiu facilmente emprego como professora do liceu. Cabral ainda se empregou como técnico agrícola, mas, algum tempo depois, deixou o trabalho para se dedicar exclusivamente à organização da revolta contra Portugal. Viviam com dificuldades, mas iam chegando os amigos: Luís Cabral, Aristides Pereira com a mulher e Abílio Duarte. Helena voltou a engravidar. Amílcar convenceu-a a passar a gravidez em Marrocos (Rabat), onde os cuidados médicos eram melhores.
Embora o que se passava no casal dentro de portas fosse mal conhecido, teriam crescido as divergências, inclusive de índole política. Cabral não quis a mulher de volta a Conakry após o nascimento da segunda filha.
O casal separou-se formalmente em 1966. Ainda antes do ano acabar, Cabral casou-se com Ana Maria Voss e Sá, natural da Guiné e antiga estudante na Checoslováquia. Foi dela que teve a terceira filha, N`Dira Abel.


Segundo um comentário da Internet, Ana Maria Voss e Sá teria casado em primeiras núpcias com José Alves Monteiro, o “Gin” do Ouro Negro, quando o conjunto musical era um trio. A notícia não é relevante, mas não deixa de ser curiosa. Não fui capaz de excluir uma coincidência de nomes.
Maria Helena ligou-se aos oposicionistas portugueses refugiados em Marrocos. Acabou por casar, em Rabat, com Henrique Cerqueira, ajudante de campo do general Humberto Delgado. Após o 25 de abril, Maria Helena regressou a Portugal.
Diana Andringa entrevistou Ana Maria: “Quando o conheci, numa casa da Rua Actor Vale, em Lisboa, não o associei a esse Amílcar Cabral de cujo trabalho na Guiné já tínhamos ouvido os ecos. O engenheiro que me apresentaram não parecia capaz de fazer nada disso…” Ana Maria Cabral ria-se, quando contou esta história.
Segundo o seu testemunho, a confiança exagerada do marido nos companheiros e camaradas abreviou-lhe a vida. Amílcar detestava escoltas e seguranças. Quando alguém do PAIGC procedia mal e era preso, procurava libertá-lo depressa.
Ana Maria testemunhou o assassinato do marido, frente à casa onde habitavam, em Conakry. Apesar da escuridão, foi capaz de reconhecer alguns dos matadores. Não lhe fizeram mal. Ela não era uma personalidade importante do partido e, afinal de contas, era guineense.
 Muitos casamentos são precários e falham por causas variadas. É fácil imaginar que Amílcar Cabral desse conta das dificuldades de aceitação da sua liderança de parte de alguns militantes guineenses do PAIGC. Já lhe bastava ser cabo-verdiano. Ainda por cima, ter uma esposa branca… 
Cabral morreu, mas as suas lições perduram. Disse, em tempos, aos seus companheiros de luta:

“Aqueles que entenderam bem que um homem enquanto tiver três, quatro mulheres, nunca será um homem de verdade e que não há nenhum povo que possa avançar com homens com quatro mulheres”