DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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terça-feira, 23 de setembro de 2014




Apresento, com algum orgulho, o meu décimo segundo livro publicado em suporte de papel. Começou por ser uma biografia de Amílcar Cabral. Os capítulos, na sua forma inicial, foram sendo apresentados neste blogue. Ora, os livros têm dinâmicas próprias. A dada altura, constatei que a figura do fundador do PAIGC, apesar da sua relevância, ocupava apenas cerca de metade das páginas do volume. Dei-lhe, portanto, um título mais abrangente.



    Espero poder apresentar o livro de contos intitulado «Ofício de contar» dentro de um ou dois meses. Será uma forma de compensar o facto de não ter feito sair qualquer obra durante o ano de 2013.

 António Trabulo

sábado, 4 de maio de 2013


                  AMÍLCAR CABRAL

                               XXIII
          
               UM TEXTO DE ALPOIM CALVÃO

              OPERAÇÃO “GATA BRAVA”
  (transcrito com modificações mínimas do livro “De Conakry ao M.D.L.P.”)


Nos primeiros dias de fevereiro de 1970, recebeu-se no Quartel General do Comandante Chefe em Bissau uma informação referente ao transporte, num barco a motor, de Boké para Kadigné, do elemento inimigo Marcel (nome de código). Dizia ainda que a data provável do transporte seria 25.
Fui encarregado de planear e executar a operação. Armou-se uma emboscada à entrada de Kadigné na noite de 24 para 25, com dois botes de borracha e oito homens. Contudo, a neblina cerrada que se verificou fez malograr a tentativa.
No princípio de março, nova informação referia o movimento inverso de Marcel, desta vez para o dia 7.
  Embarcámos na lancha de fiscalização grande “LIRA” às 19.00, largando em seguida o navio para a foz do Cacine e deu ferro junto à marca SAMBA, dia 6, às 01.30.
Foram lançados à água dois botes de borracha, sendo o primeiro comandado por mim e o outro pelo segundo tenente Barbieri, num total de oito homens. Às 03.00 os botes largaram da LIRA, que forneceu apoio radar para a entrada do canal. O percurso foi executado com os motores a trabalhar a baixo regime de rotações e depois de terminado o apoio radar, a navegação fez-se por bússola, aproveitando ainda a enchente. Pelas 05.30 atingiu-se o ilhéu Calebe, emboscando os dois botes numa abertura de tarrafo que tinha sido feita durante a Operação Nebulosa, realizada em agosto, e que se mantinha desconhecida do inimigo, como se demonstrou ao encontrar no local dois sacos de ração de combates que lá tinham sido deixados, a quando da realização da citada operação.
Os botes ficaram com as proas voltadas para o exterior, prontos a largar.
Às 08.00 a maré começou a vazar e às 08.10 contactou-se com uma parelha de FIAT`s que, depois de fazer um reconhecimento visual, informou que o N/M BANDIM não se encontrava em Kadigné.
Resolveu-se aguardar pela maré da noite e cerca de duas horas depois os botes já se encontravam completamente em seco.
Pelas 16.00 a água da enchente começou a penetrar no esteiro aonde os botes se encontravam e pelas 17.30 já estes flutuavam. Às 18.00, aproveitando o crepúsculo, aproximaram-se os botes da abertura de saída, para mais prontamente poderem entrar em ação se fosse necessário.
Às 19.00 horas ouviram-se vozes relativamente perto e o barulho de remos de uma canoa.
Às 19.10 começou-se a distinguir o ruído dum motor que se foi avolumando e pelas 19.30 avistou-se, a cerca de 200 metros, a silhueta do navio motor BANDIM que levava somente uma pequena luz acesa na casa do leme. Mandou-se arrancar com os motores. O bote nº1 colocou-se nos setores de popa do BANDIM, enquanto o nº 2 seguia a ocupar uma posição no través de estibordo. O bote nº 1 fez um tiro de lança granadas foguete (bazuca, LGF) a 150 metros de distância, tendo-se o rebentamento verificado muito perto do alvo, enquanto se abria fogo de metralhadora ligeira.  
O BANDIM respondeu com fogo de armamento ligeiro automático, guinando acentuadamente para a margem da República da Guiné.
Entretanto, continuou-se a fazer fogo de bazuca, obtendo-se um impacto em cheio ao terceiro tiro, manobrando os botes rapidamente, procurando manter uma posição desfasada de 90.º em relação ao objetivo.
Duma posição a oeste da vila de Kadigné, verificaram-se muitas tracejantes de metralhadora antiaérea – calculadas em número de seis – na direção aproximada do local do contacto, mas passando bastante altas. Desse mesmo ponto, foi feito tiro de artilharia ou de morteiro de grande calibre em vários azimutes, ouvindo-se um total de 20 rebentamentos, uns curtos, outros compridos, revelando uma certa desorientação. Simultaneamente e a norte desta posição, já na nossa ilha de Canefaque, fez fogo uma metralhadora pesada, com tiro tracejante, ao lume da água, bastante mais ajustada. Da canoa referida anteriormente, foi feito fogo de metralhadora ligeira sobre os botes, tendo contudo retirado rapidamente da zona de contacto.
O combate com o BANDIM continuou, obtendo-se outro impacto de LGF, que obrigou o alvo a começar a navegar em círculo, acabando por penetrar num esteiro, encalhando profundamente na posição e desaparecendo de vista. Perseguia-se a BANDIM por dentro do esteiro, obtendo-se novo impacto de LGF, aproximando-mos a cerca de 10 metros para o lançamento de granadas de mão. Do tarrafo foi feito fogo de arma automática, a que se respondeu com rajadas de metralhadora ligeira, abordando-se o navio.
Logo que se penetrou no N/M BANDIM, foram encontrados vários indivíduos mortos – posteriormente veio a verificar-se que eram seis – dois dos quais à entrada da casa da máquina e da casa do leme.
Procurou-se por entre os destroços as alavancas do comando da máquina, porém veio a verificar-se que o citado navio era manobrado da própria casa da máquina.
Desceu-se a esse compartimento com o intuito de engrenar os motores à ré, de forma a desencalhar o navio. Porém, depois do exame efetuado, verificou-se que a alavanca da manobra do motor não introduzia a marcha à ré, provavelmente por qualquer estilhaço que provocara o bloqueio da alavanca (uma conduta de gasóleo estava igualmente atingida por vários estilhaços, vertendo abundantemente).
Decidiu-se parar a máquina, com o intuito de rebocar o BANDIM apenas com a força de tração dos botes. Assim, foi lançado um cabo à ré do BANDIM, o outro de través, na proa do navio.
Porém, a maré já vazava desde as 20.30, pelo que o navio se encontrava perfeitamente encalhado. Face à impossibilidade de se processar o reboque, decidiu-se realizar a sua destruição.
Enquanto se procedia ao espalhar de gasolina pelos pontos inflamáveis do navio, terminaram-se as buscas ao porão, tendo-se abandonado o BANDIM com a certeza de que não transportava qualquer material. Os poucos colchões espalhados no porão deram indicação de que o navio não transportava muita gente.
O fogo foi iniciado por meio de uma granada de mão defensiva, lançada para o interior da casa das máquinas. O BANDIM começou a arder lentamente e só quando os botes alcançaram o meio do Rio Inxanxe se verificou uma explosão surda, seguida de altas labaredas. Quando se atingiu o ponto de reunião ainda se distinguia nitidamente o clarão do BANDIM.
O regresso a bordo da LIRA iniciou-se pelas 21.00. Chegou-se às 22.00 ao ponto de reunião e verificou-se que a LFG ainda não se encontrava no local. Tentou-se a comunicação, em VHF, durante duas horas, sem resultado. Pelas 23.50 ordenou-se à LFG caso ouvisse os botes para acender as luzes. Avistou-se em seguida no azimute 230 um clarão para lá do horizonte visual, cerca de 12 milhas da Marca Samba. Soltou-se um rumo para essa posição e em 070100 atracou-se à LFG LIRA, que uma avaria na máquina obrigara a fundear tão longe do local do ponto de reunião.
A destruição do BANDIM e a morte dos seis homens que o guarneciam lançaram uma certa confusão no inimigo, como se deduziu pelos seus comunicados na rádio. No espaço de seis meses tinham-se destruído dois barcos a motor do PAIGC prejudicando-lhe gravemente a frota de transporte.

domingo, 21 de abril de 2013


                                             AMÍLCAR CABRAL

                                                               XII

            OPERAÇÃO MAR VERDE



              O ATAQUE A CONAKRY





          Antes da 1 da manhã de 22 de Novembro de 1970, um grupo de 14 fuzileiros especiais iniciou o ataque às oito embarcações militares acostadas no porto de Conakry. Os navios foram tomados de surpresa. Os fuzileiros afundaram três vedetas e deitaram fogo a outras quatro com granadas incendiárias.
Outro pequeno grupo de combate atacou a central elétrica e deixou metade da capital guineense às escuras.
A bordo do navio chefe Orion avistou-se o clarão das explosões e o fogo de armas ligeiras do lado do porto e assistiu-se ao apagar das luzes de parte da cidade. As coisas tinham começado bem.
Não aconteceu assim com todos os objectivos programados. Logo no começo da missão, o capitão Morais, que comandava o grupo de paraquedistas encarregado de tomar o aeroporto, comunicou via rádio para o seu navio de apoio: o filho da puta do tenente Januário fugiu com vinte dos meus homens; traiu-me miseravelmente. Não foi possível destruir os MIG`s, que não estavam no aeroporto nem nos hangares. O serviço de informações falhara. Os MIG`s tinham sido transferidos dias antes para Labé, cerca de 150 quilómetros a norte da capital. 
 Sem o necessário domínio do espaço aéreo, a operação corria um risco sério de fracasso.
Um grupo de assalto atacou as instalações do PAIGC, destruindo edifícios e viaturas e abatendo vários militares. As residências dos dirigentes foram também assaltadas, mas Amílcar Cabral não se encontrava em Bissau. A “inteligência falhara outra vez.
Outro grupo, composto por fuzileiros, tomou de assalto o complexo residencial de Sekou Touré, que estava noutra parte da cidade. Foi atacado o Grupo das Milícias Populares.
Na prisão La Montaigne estavam detidos 25 militares portugueses. Contava-se entre eles o sargento aviador António Lobato, preso desde que o se T6 se despenhara, em maio de 1963. Foram libertados, depois de se abrir um rombo no muro, a tiro de bazooka.
Um grupo de 40 homens integrando comandos africanos e membros do Front e comandada por Tomás Camará e pelo alferes Ferreira, atacou a Gendarmerie, há pouco transformada em prisão política. Ouçamos o então furriel Marcelino da Mata, que integrou este grupo:

    No dia 19 de Novembro de 1970 arrancámos para Conackry com uma companhia de Comandos e um destacamento de Fuzileiros especiais guineenses, que só souberam para onde iam já dentro dos barcos – só os oficiais e eu sabíamos antes. Houve tipos que começaram a chorar, porque se contavam muitas histórias acerca de Conackry: um furriel enfermeiro, que tinha andado no PAIGC e se entregou, dizia que estava tudo eletrificado, que se tocava num arame e morríamos todos  e eu perguntei-lhe como é que eles tinham dinheiro para fazer armadilhas elétricas, se nem tinham dinheiro para comer.  O meu grupo de assalto, com quarenta homens era comandado por um alferes branco (Abílio Rodrigues Ferreira) que ia na sua primeira operação: era de Administração, com a especialidade “ranger” e nunca tinha ouvido um tiro em combate; recebeu a informação de que o seu objetivo era tomar o controlo de um quartel onde estavam apenas 30 homens; afinal era um regimento de tropas especiais (Guarda Nacional da Guiné-Conackry) que tinha sido treinado por checos.
   Fui o primeiro a entrar no quartel. Entrei sem arma. Não tinha arma, só tinha uma faca e o cantil da água, porque quando desembarquei do barco para o bote deixei cair a arma ao mar. Quando cheguei à porta de armas estavam lá 4 pessoas a conversar. Viram-me, avisaram as sentinelas e fecharam o portão. Nós tínhamos chapéus grandes, do tipo daqueles que os americanos usam para não apanhar sol, enfiei o chapéu pela cabeça, mandei uma cabeçada no vidro e entrei pela janela. Caí em cima da mesa do sargento da guarda, ele pôs-se debaixo da mesa e dei-lhe 2 punhaladas, matei-o. Depois, dei a volta e fui abrir o portão e o grupo entrou. Mal entrámos, o corneteiro começou a tocar a corneta e os gajos começaram a aparecer. O alferes, em vez de entrar, ficou ao meu lado e levou uma rajada. A partir daí dei ordem para abater tudo o que aparecesse. Ou morríamos ou matávamos. A nossa sorte foi que eles não valiam nada – éramos quarenta e ao fim de meia hora tomámos conta do quartel. Agarrámos os inimigos e pusemo-los sentados debaixo do pau da bandeira. Só tivemos um morto, que foi o alferes.

Foram libertados cerca de 600 presos e abatidos todos os militares inimigos que foram encontrados. No final da missão, o grupo apoderou-se dum jipe para transportar o corpo do alferes Ferreira.
A grande altitude, um grupo de MIG sobrevoou a flotilha portuguesa, sem atacar. Provocou ansiedade ente a nossa gente, apesar de o sargento António Lobato ter informado Calvão de que os pilotos guineenses ainda não tinham completado a formação e dificilmente seriam capazes de atingir uma força naval.
O comandante não podia arriscar mais os seus homens. Depois de recolherem todo o pessoal desembarcado, os navios formaram em losango e navegaram de regresso à ilha de Sogo. Traziam dois mortos e um ferido grave. A operação em terra durara cerca de dez horas.
Não ocorreu o esperado levantamento popular contra Sekou Touré. A centena de elementos do Front que participara na operação optou por ficar em terra. Foi vencida e liquidada pelo exército da República da Guiné.
Spínola ficou transtornado com o resultado da operação. Sonhara com o Golpe de Estado que iria destituir Sekou Touré e instalar no poder um governo favorável aos interesses portugueses.
 Alpoim Calvão afirmaria anos mais tarde que Amílcar Cabral, se fosse capturado, seria transportado para Bissau enquanto Sekou Touré seria entregue aos elementos da Front. Escreveu no seu relatório: sob o ponto de vista estritamente militar, a operação decorreu de forma muito satisfatória; o estado actual de funcionamento dos nossos serviços de informações é confrangedor.


sábado, 20 de abril de 2013





                                         AMÍLCAR CABRAL

                                                              XI

                  OPERAÇÃO MAR VERDE

                      (PREPARAÇÃO)



Para preparar em segredo a operação, foi improvisado um aquartelamento na ilha isolada e despovoada de Sogo, no arquipélago dos Bijagós. Foram ali treinados os opositores ao regime de Sekou Touré que iriam participar naquela aventura. Os cuidados com a preparação foram levados ao ponto de conduzir para lá umas tantas prostitutas de Bissau. Quem entrava na ilha não saía, até ao final da operação.
Conta Marcelino da Mata, lendário comando africano de exército português, que ajudou a preparar os opositores de Sekou Touré:

Um dia apareceu-me em Farim, o comandante Alpoim Calvão e disse que precisava que eu fosse para Cabo Verde dar recruta aos cabo-verdianos, de quem eu não gostava. Uma semana depois, estava no mato, veio um helicóptero buscar-me; também fui de helicóptero de Bissau para a ilha de Sogo. No dia seguinte, encostou lá uma lancha de desembarque militar, com uns gajos pretos e a falar uma língua que eu não conhecia.
No terceiro dia apareceu o Calvão, que me disse para eu os preparar. Eles falavam francês, mas eu não percebia nada de francês e perguntei-lhe: “Como é que eu vou preparar estes gajos se não percebo a língua deles?”. Ele então arranjou-me um intérprete, um guineense que vivia no Senegal e falava crioulo e francês. Eram homens da Guiné-Conackry. A princípio eram uns 30.
 Depois apareceu o Rebordão de Brito e perguntou-me o que é que nós estávamos ali a fazer. Disse-lhe para ter calma, porque eu também não sabia de nada. Foram vindo mais grupos de homens da Guiné-Conackry, até que se juntaram 400; eu e o Rebordão éramos os únicos portugueses e dávamos-lhes instrução. Passámos sete meses nisto, ninguém mais sabia de nada a não ser o Calvão e Lisboa.

Um fuzileiro naval que desertara e que, arrependido, se voltara a apresentar às nossas forças, deu um contributo precioso para o planeamento do ataque. Ajudou e explicar a carta da cidade e serviu de guia após o desembarque.
Alguns dos oficiais portugueses chamados a participar na operação manifestaram  frontalmente discordância. Houve quem argumentasse que o ataque à capital de um país com o qual Portugal não estava em guerra poderia acarretar consequências deletérias para o interesse nacional. Spínola e Calvão mantiveram-se firmes. Alguns descontentes foram ameaçados com sanções disciplinares e o major Leal de Almeida recebeu mesmo voz de prisão. Acabaria por participar na ação militar, apesar do desagrado de Alpoim Calvão.
Não era imaginável deixar em Conakry vestígios diretos da presença de militares portugueses. Amadú Bailo Djaló, outro comando africano do exército português descreveu nestes termos os últimos preparativos para a invasão de Conakry:

O comandante falou sobre a forma como devíamos agir. Primeiro, não levávamos as nossas fardas, nem as nossas armas. Levávamos Kalashs e íamos vestidos com roupa do PAIGC, equipamentos, chapéus, tudo de cor castanha. Segundo, que havia um capitão do Exército da Guiné-Conakry que comandava uma companhia que ia connosco. E terceiro que todos nós levávamos um braçal, de cor verde, no ombro esquerdo que serviria de sinal da operação “Mar Verde”. E que qualquer pessoa que, em Conacry, nos mostrasse um pano, grande ou pequeno, desde que fosse de cor verde, era dos nossos. Tínhamos, em Conakry, gente à nossa espera, mesmo militares que apoiavam a nossa ação.


Os navios que faziam parte da flotilha foram pintados de cores diferentes das habituais na Marinha portuguesa e as inscrições identificadoras foram apagadas. Os militares portugueses brancos pintaram o corpo de preto.
Voltemos ao relatório do 1º cabo Djaló, referente ao início da operação:
Por volta das 10.00, avistámos um barco muito velho a navegar na nossa direção. Trazia o general Spínola, corremos para a formatura. Quando chegou, o capitão João Bacar mandou apresentar armas, o general correspondeu à continência e depois iniciou um pequeno discurso.
Que se não fosse governador ia connosco. Mas que nós iríamos participar com o espírito dele e que havíamos todos de regressar, se Deus quisesse. Gritámos o nosso grito “Comandos ao ataque”, três vezes. Depois desse grito, já não podíamos voltar atrás, era o nosso juramento.



 A flotilha zarpou, de luzes apagadas, no começo da noite do dia 20. Uma força do Exército tinha sido colocada de prevenção em Buruntuma, próximo da fronteira da República da Guiné. Os aviões FIAT G91 estavam prontos a descolar. De pouco serviriam, se os velozes MIG da República na Guiné não fossem previamente neutralizados no solo. 



sexta-feira, 19 de abril de 2013


                 AMÍLCAR CABRAL

                                X

      OPERAÇÃO MAR VERDE

      

        AS CIRCUNSTÂNCIAS




A Segunda Grande Guerra Mundial fragilizou de vez a velha Europa e as antigas potências coloniais deixaram de ter poderio económico e militar suficientes para conservarem os seus imensos impérios. A Europa já não era o centro do mundo. Teve de se adaptar aos novos equilíbrios de poder. Tanto os inimigos como os aliados oficiais da França, Inglaterra, Holanda, Congo Belga, Espanha e Portugal cobiçavam a liberdade de comércio nas possessões que estes países tinham conservado durante séculos.
A História de África não decorreu da maneira que é ensinada nos compêndios escolares das novas nações. Todos os países, e nós também, embelezam os seus passados de forma a incrementar a autoestima dos seus nacionais. Não fosse o apoio empenhado da União Soviética e dos Estados Unidos da América e a história das independências africanas teria levado algumas décadas mais a escrever. Alguns países de mentalidade pragmática, como o Reino Unido, mediram cedo os ventos da História e cederam prontamente perante forças que não podiam controlar. Outros, como a França e Portugal, envolveram-se em guerras inglórias.  
Por volta de 1970, quase todas as antigas colónias europeias na África e na Ásia tinham obtido o estatuto de nações independentes. O governo de Lisboa agarrava-se obstinadamente ao seu velho império. As grandes organizações internacionais condenavam a persistência da política colonialista portuguesa e até o Vaticano recebia oficialmente os líderes das nossas colónias. Se não estávamos orgulhosamente sós, como terá dito Salazar, pouca companhia tínhamos, para além da África do Sul.
Em geral, nem a vida nem a política são lineares. Numa e noutra, abundam os meandros. Curiosamente, a Operação Mar Verde foi secretamente apoiada por países da NATO, receosos de que a independência de Cabo Verde facilitasse a instalação de bases militares soviéticas naquele arquipélago, alterando o equilíbrio geoestratégico vigente.
Portugal nunca esteve em guerra com a República da Guiné. No entanto, beneficiando da conjuntura internacional, o presidente Sekou Touré acolhia fraternalmente no seu território os guerrilheiros que combatiam os portugueses. Ali tinham campos de treino e ali encontravam abrigo sempre que necessário. Era pelo território da Guiné-Conakry que entrava o armamento destinado ao PAIGC, ainda que as más-línguas dissessem que os guineenses, quando podiam, ficavam com parte das remessas. Conakry era a residência habitual de Amílcar Cabral. Funcionava na capital guineense uma escola-piloto para quadros do partido. O facto provavelmente mais grave era a existência, num país soberano oficialmente alheio ao conflito armado, de uma prisão onde eram aferrolhados os prisioneiros de guerra portugueses. Seriam razões de sobra para Portugal levar a cabo ações militares contra a República da Guiné e dos seus dirigentes, se fosse outro o panorama político internacional.
Em Janeiro de 1970, o comandante Alpoim Calvão ia nos 33 anos. Foi ele quem apresentou ao general António de Spínola, comandante militar e governador-geral da Guiné portuguesa, a proposta da operação que viria a ficar conhecida sob o nome de “Mar Verde”. Os seus objetivos podiam dividir-se em cinco alíneas:
1 – Promover um golpe de estado na República da Guiné-Conakry, de forma a substituir o regime de Sekou Touré por outro mais favorável aos interesses portugueses.
2 – Atingir as instalações do PAIGC em Conacry, provocando o maio número possível de baixas entre o inimigo.
3 – Eliminar as embarcações de guerra do PAIGC abrigadas no porto de Conakry.
4 – Capturar ou eliminar Amílcar Cabral.
5 – Libertar os militares portugueses detidos na prisão do partido.
Spínola deu o seu aval ao ataque a Conacry. Ao serem informados do projeto, tanto o ministro do Ultramar, Silva Cunha, como o ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo se opuseram a ele. Temiam as repercussões internacionais do ataque a Conakry. Foi o próprio Alpoim Calvão quem se deslocou a Lisboa para entregar pessoalmente ao primeiro-ministro português Marcello Caetano uma carta do general Spínola. Caetano autorizou o desencadear da operação.
Alpoim Calvão é uma figura incontornável da guerra da independência da Guiné. Apesar da sua juventude, foram-lhe confiadas a preparação e o comando da operação. Chegou a exercer diplomacia paralela. Deslocou-se várias vezes a Genebra e a Paris, acompanhado de um graduado da DGS (PIDE) para contactar individualidades do “Front” que se opunha a Sekou Touré. Tratava-se de estabelecer alianças para o futuro e de conseguir informações que facilitassem a expedição naval a Conakry.
Nenhum aspecto da preparação foi descurado. Três elementos do "Front" mudaram-se para Bissau onde elaboraram uma lista das individualidades que iriam integrar o governo de Conakry após o afastamento de Touré. Chegaram a ser escritas as primeiras declarações a serem emitidas pela rádio em casa de vitória do golpe.