DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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terça-feira, 23 de setembro de 2014




Apresento, com algum orgulho, o meu décimo segundo livro publicado em suporte de papel. Começou por ser uma biografia de Amílcar Cabral. Os capítulos, na sua forma inicial, foram sendo apresentados neste blogue. Ora, os livros têm dinâmicas próprias. A dada altura, constatei que a figura do fundador do PAIGC, apesar da sua relevância, ocupava apenas cerca de metade das páginas do volume. Dei-lhe, portanto, um título mais abrangente.



    Espero poder apresentar o livro de contos intitulado «Ofício de contar» dentro de um ou dois meses. Será uma forma de compensar o facto de não ter feito sair qualquer obra durante o ano de 2013.

 António Trabulo

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014




  A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


       LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


               NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
                        IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
                        E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA

                                                  II


Durante a guerra da independência, a presença das mães dos dois líderes revolucionários era tolerada pelo regime português, embora a PIDE se lembrasse ocasionalmente de incomodar a família. Adelina chegou a ser interrogada durante várias horas seguidas. Levavam fotografias ao local de trabalho de Juvelina e pediam-lhe que identificasse as pessoas que conhecia. Um dia, um oficial perguntou-lhe se ela não gostaria de estar antes a secretariar os irmãos. Juvelina disse logo que sim.

LUÍS CABRAL, NO TEMPO DA GUERRA DA INDEPENDÊNCIA

Apesar de viverem relativamente perto uma da outra,Iva e Adelina não se falavam. Conta António Rocha: «A Juvelina diz que se lembra apenas de as duas falarem, após a independência, com o Luís já Presidente, mas só quando eram obrigadas a encontrarem-se.» Faleceram ambas em Bissau.


                         AMÍLCAR NUMA EMBARCAÇÃO ARTESANAL

   No dia da morte de Amílcar Cabral, a mãe encontrava-se em Moçambique (Xai-Xai), de visita ao filho Toy. Adelina Rodrigues Correia estava na Guiné. Para além de chocada, encheu-se de medo de que matassem também o seu Luís. Luís Cabral encontrava-se em Zinguinchor. Viajou nesse dia para Dakar para coordenar a receção de doações, sobretudo de arroz. Soube da morte do irmão na tarde do dia 21. Ao aproximar-se das instalações do partido, deparou com um aglomerado de militantes do PAIGC. Havia muita gente a chorar.
Juvelina viveu na Guiné até ao golpe de estado de João Bernardo Vieira, ocorrido a 14 de novembro de 1980. Fez o Curso Comercial e começou por trabalhar, durante perto de dois anos, como funcionária das Obras Públicas do governo da colónia. Empregou-se depois na Casa Gouveia, pertencente ao grupo CUF. Passou a seguir por várias empresas e acabou por se fixar na Farquímica, do ramo farmacêutico.
  Após o 25 de abril e o reconhecimento formal da independência da Guiné por parte de Portugal, Luís Cabral tornou-se o primeiro presidente da República da Guiné-Bissau.

  JUVELINA COM JOÃO PAULO II (Castel Gandolfo, verão de 1979)

Algum tempo depois, Juvelina foi convidada a integrar a equipa fundadora da empresa estatal destinada a regular a importação e a distribuição de medicamentos, a Central Farmedi. Apoiada por um conselheiro técnico sueco, por um técnico de contas português e por alguns quadros nacionais, criou uma rede de farmácias e ajudou fazer crescer a Farmedi, que se tornou uma das maiores empresas públicas guineenses. O seu trabalho foi reconhecido e Juvelina ascendeu ao cargo de Diretora-geral adjunta.

REENCONTRO COM O PAPA. 
ANTÓNIO ROCHA ESTÁ À DIREITA DA ESPOSA
             Palácio presidencial de Bissau, 28/1/1990

Juvelina casou em 1959 com Abel Ventura e teve 2 filhos, ambos já falecidos (Luís Abel e João Carlos). O mais velho deixou-lhe um neto Chama-se João Carlos Gonçalves Cabral Ventura Rocha e vai nos 21 anos. Foi adotado por António José e criado pelo casal desde os quatro de idade. Queixa-se com ternura e ironia: «é chato ter de explicar que o meu pai é o marido da minha avó!»
  António Rocha tem uma filha do primeiro casamento, agora com 37 anos.

     LUÍS CABRAL, O MARECHAL TITO DA JUGOSLÁVIA E JUVELINA

O pós-guerra foi difícil no jovem país. Uma plêiade de combatentes magníficos nada sabia fazer sem as armas na mão. O conflito armado reduzira a pouco a já frágil estrutura económica do território. Os quadros disponíveis eram maioritariamente cabo-verdianos, mal aceites pela população local. Apesar da ajuda internacional, a incompetência e a corrupção iam tomando parte do País. A verdade é que os colonos faziam alguma falta.
A utopia da ligação fraterna entre a Guiné e Cabo Verde chegou ao fim com certa naturalidade. Em novembro de 1980, Luís Cabral foi deposto, num golpe de estado quase sem derramamento de sangue, pelo seu primeiro-ministro e antigo chefe das forças armadas, João Bernardo (Nino) Vieira.

JOÃO BERNARDO VIEIRA

O ex-presidente foi acusado de abuso do poder e condenado à morte. Uma das acusações era a corresponsabilidade pela execução, em dezembro de 1978, de centenas de militares africanos (quase todos guineenses) que tinham lutado ao lado de Portugal. 


                  COMANDOS AFRICANOS AO SERVIÇO DE PORTUGAL

     Os fuzilamentos foram decididos por um grupo de dirigentes do PAIGC liderados por António Buscardini, chefe da polícia política. Os corpos foram enterrados, em valas comuns, nas matas de Cumeré, Portogole, Cuntima, Farm, Bafatá, Cacheu, Canchungo, Pirada, Bambadinca, Biombo e Bissorã. As razões para justificar estas execuções sumárias, prendem-se com o facto das autoridades instituídas temerem um golpe de estado, liderado por Malam Sanhá, ex-comando da tropa colonial. Buscardini era o todo-poderoso diretor nacional da Segurança do Estado. Suicidou-se, ou foi morto, no dia do levantamento de Nino Vieira.
Luís Cabral acabou por ficar 13 meses em regime de prisão domiciliária, antes de ser autorizado a deixar a Guiné.

LUÍS CABRAL COM GUERRILHEIROS DO PAIGC

     António Rocha conta que Luís Cabral chegara a recear o chefe da sua polícia política. Segundo a família, Luís era um homem romântico, sensível e generoso, sem «queda» para ser um Presidente à moda Africana. No entanto, é bem sabido que, por vezes, o hábito faz o monge. 



FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL DE JUVELINA ROCHA, INTERNET.





quinta-feira, 2 de maio de 2013


                      AMÍLCAR CABRAL          

                                           XXI

              O CONSULADO DE SPÍNOLA




As características geográficas do território e a unidade e organização da guerrilha obrigaram os comandos militares portugueses a colocar na Guiné um número de soldados em clara desproporção com a superfície da colónia e o número dos seus habitantes. De um total de 79.823 efetivos militares metropolitanos que se encontravam em 1968 nos três Teatros de Operações, 37.547 estavam colocados em Angola, 22.717 em Moçambique e 19.559 na Guiné. Os números totais de soldados mortos nas três frentes, entre 1961 e 1974 foram de 3.258 em Angola, 2.962 em Moçambique e 2.070 na Guiné.
Em Maio de 1968, Schultz foi substituído. Teve início o consulado de Spínola.
António de Spínola encarava de maneira diferente a guerra de guerrilha. Tinha lido o Livro Vermelho de Mao Tsé Tung e outras obras populares entre os nacionalistas e os estudantes universitários europeus de  esquerda.
Procurou combinar os aspetos militares e sociais. Não seria preciso inovar, mas apenas adaptar os conhecimentos e experiências de outras guerras de guerrilha à realidade geográfica e social da Guiné.
O objetivo era criar uma ligação de simpatia e mesmo de gratidão entre o exército e a população. Spínola contava com um grupo de oficiais preparados para a guerra antissubversão em Lisboa e em estágios efetuados nos Estados Unidos e em vários países europeus da NATO. Tratava-se de militares corajosos, empenhados e ambiciosos: Carlos Fabião, Otelo Saraiva de Carvalho, Manuel Monge de Lima, Nunes Barata, José Blanco, Jorge Moreira da Costa, Carlos Azeredo e outros. Ficaram conhecidos como os rapazes de Spínola. Foi com eles que o general elaborou a sua estratégia de combate.
As forças armadas deixaram de ter um papel exclusivamente militar. Deviam também colaborar com as populações nas áreas da assistência sanitária e do ensino. A guerra da Guiné era essencialmente psicológica. Passava pela conquista das almas, a qual não poderia ser feita pela força mas sim pela persuasão. A ação de contra subversão visava afastar as populações dos movimentos de libertação, de modo que deixassem de apoiá-los.
Tal como tinha feito Amílcar Cabral, Spínola estudou a composição étnica dos povos da Guiné. Acabou por ser traçado um mapa colorido do território. As zonas azuis indicavam a presença de populações favoráveis aos portugueses. Eram sobretudo fulas e viviam a leste. As áreas vermelhas estavam controladas pelo inimigo, enquanto as amarelas eram áreas de transição e de equilíbrio instável entre as forças em luta. Para fins de bombardeamento, não havia distinção entre civis e militares nas regiões vermelhas.
Nas áreas azuis eram construídos os aldeamentos estratégicos semelhantes aos que ficaram famosos na guerra do Vietname. Eram para lá conduzidas as populações que o exército pretendia cativar. Esta estratégia desertificava territórios amplos, facilitando as operações de busca e destruição, geralmente efetuadas por tropas especiais helitransportadas.
No campo político, o general português procurou explorar as fraquezas e as contradições inerentes à formação do PAIGC. Estimulou o ódio aos cabo-verdianos e procurou obter a simpatia de alguns setores da população, como os muçulmanos (em especial os fulas) que constituíam a maioria religiosa do país e nunca tinham apoiado decididamente Amílcar Cabral. Lançou um projeto ambicioso, designado “Por uma Guiné melhor”. Destinava-se a compensar, em parte, o abandono a que os sucessivos governos de Lisboa tinham votado a sua colónia na África Equatorial.
A fatia que o Orçamento do Estado Português dedicava à Guiné engordou substancialmente. Foi possível abrir estradas novas. Alcatroaram-se 500 quilómetros das já existentes. Levantaram-se pontes e melhoraram-se as condições de funcionamento de alguns portos. Construíram-se 8.000 habitações e melhoraram-se seis dezenas de tabancas (aldeias). A rede escolar e as estruturas sanitárias que serviam a população foram objeto de uma atenção desconhecida até à data. Como aconteceu simultaneamente e em escala maior em Angola e Moçambique, a guerra tornou-se um fator de desenvolvimento do território.
António de Spínola estava atento ao que se passava no mundo. Aprendeu também com os teóricos ingleses e franceses da fase tardia da descolonização.
A melhor maneira de conter os nacionalismos africanos nascentes não consistia em europeizar as populações, integrando-as nas legislações nacionais e atribuindo-lhes direitos e deveres semelhantes. Era preferível enquadrá-las nas estruturas tribais reabilitadas.
Spínola procurou dignificar a autoridade tribal e inventou o Congresso dos Povos da Guiné. Em 1970, o primeiro Congresso reuniu representantes de fulas e mandingas. Reconhecendo a justeza das reivindicações mandingas, foi-lhes permitido eleger os próprios régulos, em lugar dos chefes fulas impostos pela administração colonial. Era a primeira vez que tal acontecia no chão mandinga de Farim – Oio. No ano seguinte, o Congresso abriu as portas a todas as etnias. 
Spínola implementou na Guiné um conceito quase global de guerra. Aos componentes civil e militar eram atribuídas importâncias quase iguais.
 No começo da sua governação, o PAIGC sofreu alguns reveses. Foram retiradas populações à guerrilha. Os combatentes nacionalistas viram o seu escudo humano reduzido.
 Os bombardeamentos tornaram-se mais fáceis e boa parte das estruturas trabalhosamente construídas pelos guerrilheiros nas zonas libertadas foram destruídas. O Exército Português abandonou posições isoladas e difíceis de abastecer, como Madina do Boé, e concentrou os seus efetivos nas aldeias fortificadas e nas grandes povoações. Durante algum tempo, a situação militar esteve equilibrada.
 A pressão diminuída sobre as forças armadas portugueses assentava, em parte, em fissuras sociais que se projetavam na guerrilha. Começou a questionar-se a continuação do esforço de guerra e aumentou consideravelmente o número de deserções.
   Estavam abertas as portas para a negociação política.