DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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terça-feira, 7 de julho de 2020



A BOMBA DE MONSANTO


Entre o verão de 1975 e a primavera de 1977, Portugal foi sacudido por cerca de seis centenas de atentados terroristas. Às ordens de António de Spínola, operacionais do chamado Movimento Democrático de Libertação de Portugal atacaram sedes do PCP e fizeram rebentar automóveis e residências de personalidades conotadas com a esquerda política.
O episódio que relato aconteceu em 1975, julgo que a 26 de setembro e relaciona-se com as histórias do Ângelo de Trancoso que o meu amigo Moreirão me ia relatando aos poucos.
Poderei faltar à verdade aqui e ali porque a minha memória já não é o que era e o meu amigo já não está entre nós para me esclarecer.
Chamemos Orlando ao homem que levou Spínola a salto para Espanha, quando a sua tentativa de tomar o poder correu mal. Talvez se chamasse mesmo assim. Segundo o meu amigo, trabalhava nas bibliotecas móveis da Gulbenkian nos meses quentes e chorou quando foi despedido. No começo do ano letivo foi para a Guarda para fazer o sexto ano do liceu e hospedou-se em casa de um agente da PIDE que acabaria por influenciar decisivamente as suas escolhas políticas. Quando voltava a Trancoso, dizia ao Moreirão, do meio da rua:
− O senhor qualquer dia também vai!
Suspeitaria que o Moreirão teria alguma coisa a ver com o seu despedimento. Depois, o meu amigo estava conotado com a esquerda desde os tempos de Coimbra. Curiosamente, era vizinho do Ângelo e conversava com ele com alguma frequência.
Contou-me que, quando se instalou em Trancoso, pediu emprestada ao Ângelo uma pistola para defesa pessoal. Meses depois, devolveu-lha. O Ângelo foi buscá-la a casa dele. Contou o meu amigo.
− Eu sabia que ele pensava. Se eu devolvia a arma, era porque adquirira outra. Imaginei que poderia estar a pensar onde a teria escondido. Nem seria preciso procurar longe. Estava debaixo do sofá onde ele estava sentado.
O Orlando era um excelente condutor. Ele e os seus amigos entretinham-se a rebentar à bomba sedes do Partido Comunista.
Segundo o meu amigo, chegou a trabalhar em Lisboa numa casa de câmbios.
No dia em que estava planeado o rebentamento da bomba na antena de Monsanto da RTP, o Orlando e dois correligionários seus foram recolhidos a 4 quilómetros de Aguiar da Beira. Dirigiam-se todos para Lisboa.
Os tempos corriam confusos e os comunistas não se ficavam. Andavam de olho neles e seguiram-nos de automóvel. Com as voltas que deram para se escapar, perderam bastante tempo.
Tratava-se duma bomba relógio e fora programada com antecedência. Os bombistas não chegaram a Monsanto. A bomba rebentou em plena estrada e ficaram feitos em pedaços.
O pai do de Trancoso deve ter recebido uma arroba de notas (foi a expressão do meu amigo) pois, daí em diante, passou a fazer vida larga, sem que se lhe conhecessem meios para isso.
Ainda segundo o meu amigo, as reuniões do ELP em Trancoso decorriam na casa da Guarda Florestal, onde funciona hoje a GNR. O tipo que estava à frente da Guarda Florestal era amigo do Ângelo. Apagavam as luzes exteriores e ninguém dava por nada.



terça-feira, 23 de setembro de 2014




Apresento, com algum orgulho, o meu décimo segundo livro publicado em suporte de papel. Começou por ser uma biografia de Amílcar Cabral. Os capítulos, na sua forma inicial, foram sendo apresentados neste blogue. Ora, os livros têm dinâmicas próprias. A dada altura, constatei que a figura do fundador do PAIGC, apesar da sua relevância, ocupava apenas cerca de metade das páginas do volume. Dei-lhe, portanto, um título mais abrangente.



    Espero poder apresentar o livro de contos intitulado «Ofício de contar» dentro de um ou dois meses. Será uma forma de compensar o facto de não ter feito sair qualquer obra durante o ano de 2013.

 António Trabulo

quarta-feira, 10 de julho de 2013


                              LIV

      A GUERRA ALÉM FRONTEIRAS


A guerra de libertação da Guiné foi, desde o início, um conflito  em parte internacional. Os guerrilheiros eram vestidos, armados e (no começo) treinados por potências estrangeiras. Atacavam muitas vezes as nossas posições a partir de santuários instalados nos países limítrofes e voltavam para lá quando eram perseguidos. O PAIGC era apoiado pela China, por Cuba e pelo bloco de leste. No entanto, na parte final na guerra, também os países nórdicos forneceram aos guerrilheiros uma ajuda importante.
Os portugueses preparavam o próprio exército, mas apenas fabricavam as espingardas semiautomáticas G3, as munições para elas e o fardamento. Para todo o material mais pesado, incluindo as metralhadoras ligeiras e pesadas, os lança-granadas-foguete, a artilharia, os carros de combate, as lanchas armadas e os aviões de transporte e de combate dependiam dos fornecimentos dos seus aliados da NATO.
Pelo menos durante os primeiros anos de luta armada, o chão da Guiné-Bissau foi palco de um dos múltiplos conflitos do confronto este-oeste. A chamada “guerra fria” chegou com frequência a escaldar.
À luta entre os rebeldes nacionalistas e as tropas coloniais portuguesas associou-se, quase desde o início, um componente de guerra civil que atingiu o auge quando a “africanização” das tropas que combatiam sob a bandeira portuguesa se desenvolveu mais.         
 Portugal nunca esteve em guerra com a República da Guiné. No entanto, beneficiando da conjuntura internacional, o presidente Sekou Touré acolhia fraternalmente no seu território os guerrilheiros que combatiam os portugueses. Ali tinham campos de treino e ali encontravam abrigo sempre que necessário. Era pelo território da Guiné-Conakry que entrava o armamento destinado ao PAIGC, ainda que as más-línguas dissessem que os guineenses, quando podiam, ficavam com parte das remessas. Conakry era a residência habitual de Amílcar Cabral. Funcionava na capital guineense uma escola-piloto para quadros do partido. O facto provavelmente mais grave era a existência, num país soberano oficialmente alheio ao conflito armado, de uma prisão onde eram aferrolhados os prisioneiros de guerra portugueses.
Seriam razões de sobra para Portugal levar a cabo ações militares contra a República da Guiné e dos seus dirigentes, se fosse outro o panorama político internacional.
Mais tarde, também o Senegal acoitou os guerrilheiros e deu apoio logístico e militar a quem combatia uma Nação à qual não tinham declarado guerra. O Direito Internacional estava feito em pedaços. Nenhum dos lados o respeitava.
As grandes organizações internacionais favoreciam claramente os guerrilheiros. O colonialismo era condenado repetidamente. Com o tempo, também as opiniões públicas internacionais se inclinaram nitidamente para o lado dos que defendiam as independências dos próprios países. Portugal era dos pouco países no mundo que ainda conservava possessões ultramarinas, numa altura em que o colonialismo se fizera já anacrónico. Os colonos eram os maus da fita. Tudo o que se fizesse contra eles estava justificado pela História.
Essa questão ainda hoje não é pacífica na sociedade portuguesa. Passaram quarenta anos sobre o 25 de abril e as independências das colónias e estabeleceram-se relacionamentos normais e até laços de amizade com todos os Estados Africanos anteriormente colonizados por Portugal, mas as feridas subsistem. Os soldados portugueses que se bateram pelo que lhes tinham ensinado ser a sua Pátria devem ser considerados heróis ou criminosos de guerra? A meu ver, nem uma coisa nem outra. Foram simplesmente soldados de Portugal, embora houvesse entre eles heróis e criminosos.
Cada época tem a sua moral.
Os militares portugueses começaram cedo a passar para o outro lado das fronteiras na perseguição dos seus inimigos. Adiantavam-se geralmente poucos quilómetros e voltavam a recuar. Essas operações eram habitualmente de pequena envergadura. Com o tempo, a guerra transfronteiriça subiu de intensidade.
Entre 1969 e 1970, a situação militar deteriorou-se na região norte da Guiné. A dada altura, tornou-se necessário desalojar um contingente importante do PAIGC colocado numa base situada do lado de lá da fronteira com a Guiné-Conakry. Coube a Carlos Fabião fazer o primeiro ataque importante a instalações do PAIGC na República da Guiné. Ouçamo-lo:
A operação foi planeada a nível do comandante-chefe e, quando foi altura de reunir o comando da unidade, Spínola disse: «Disseram-me que há aí um oficial que foi promovido por distinção e que é muito conceituado. Vai esse.» Ele não me conhecia, foi assim que me nomeou. Fui ao palácio, falei com o Spínola, que me deu instruções. Comandei essa operação, que correu muitíssimo bem. Tivemos sorte. Tinha três companhias de caçadores, uma bateria de artilharia e a aviação. Os homens do PAIGC estavam na República da Guiné, tinham uma base encostada à fronteira e eu, quando fui de avião, vi a base e pedi ao oficial de Artilharia que ia comigo para fazer um plano de fogo. À tarde, quando estávamos na reunião, eu disse a Spínola que tinha visto a base do lado de lá e ele ordenou-me que bombardeasse. Fiquei indeciso e Spínola perguntou-me se eu estava com medo. Depois deu-me a ordem por escrito. A artilharia acertou em cheio. Tivemos a sorte daquilo cair nos paióis e incendiou-se tudo. Foi a primeira vez que atacámos a República da Guiné. Foi talvez a operação em que eles tiveram mais baixas. A partir daí criou-se o gosto de atacar bases na República da Guiné.
Ouçamos também Pereira da Costa, outro dos “rapazes” de Spínola:
Na Guiné, onde a ameaça antiaérea obrigou a reduzir substancialmente o apoio aéreo que muitas vezes resolvia a situação tática que se vivia no terreno, o "empréstimo" de artilharia de campanha por parte da República da Guiné ao PAIGC, permitiu criar uma situação de superioridade pontual na fronteira Sul.
A operação Mar Verde foi, de todas as intervenções além-fronteiras, a que dispôs de meios mais importantes e de planeamento mais pormenorizado. Falhou, no essencial, por incompetência da PIDE: ninguém sabia que Amílcar Cabral se ausentara de Conakry, o que ainda se podia aceitar, nem que os MIG da Força Aérea da Guiné haviam sido mudados para outro aeroporto, o que se mostrou determinante para o insucesso parcial da aventura. O eventual apoio aos adversários de Sekou Touré com vista a um golpe de estado foi obviamente sobre avaliado.
No rescaldo, Portugal foi enxovalhado na imprensa internacional, que aceitava, com certo despudor, o apoio ativo a atos de guerra da parte dos países fronteiriços (República da Guiné e Senegal). O maior perdedor da Operação Mar Verde não foi, contudo, o governo português. Terá sido a NATO. A União Soviética aproveitou a oportunidade para instalar a almejada base em Conakry. O pretexto foi, naturalmente, obviar a outros ataques da marinha imperialista portuguesa.
Fica no ar a suspeita de alguma loucura no imaginar da expedição. Se as vantagens do derrube do regime de Sekou Touré e a sua substituição por um governo mais favorável aos interesses portugueses são fáceis de entender, a captura ou assassinato de Amílcar Cabral iria servir-nos de pouco.  O PAIGC era já um partido em movimento imparável e a perda do seu líder histórico não o iria abalar de forma significativa. Isso viu-se em janeiro de 1973, quando os seus companheiros o mataram. Pelo contrário, perdia-se um interlocutor. Spínola, quando autorizou a operação, devia ter o monóculo embaciado.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

                                      
                               AMÍLCAR CABRAL  
                                        L

     ENCONTRO DE SPÍNOLA COM SENGHOR

                              


Fragoso Alas era agente da PIDE. Possuía um talento invulgar para a espionagem. Tinha estado dois anos na embaixada portuguesa de Kinshasa, sob a capa de adido comercial. Conhecia bem Mobutu e era ouvido por ele. Foi Fragoso quem conseguiu pôr Léopold Senghor, Presidente do Senegal, em contacto com o general Spínola.
Foi agendado um encontro no território República do Senegal. O tema da reunião era do conhecimento de Marcello Caetano. Tratava-se de estudar as hipóteses de estabelecer conversações tendo em vista alcançar uma solução negociada para o problema da Guiné-Bissau.
A reunião teve lugar a 18 de Maio de 1972. A equipa de que o comandante-em-chefe e governador-geral da Guiné se fez acompanhar na sua deslocação a um complexo turístico de Casamance (Clube Mediterranée), situado próximo da fronteira, era pequena. Constituíam-na Carlos Fabião, Fragoso Alas e o capitão Nunes Barata.  
A segurança imediata incluía dois helicópteros. Os jatos da Força Aérea Portuguesa sobrevoavam o lugar e um batalhão de paraquedistas estava de prevenção. As circunstâncias eram inéditas e havia de ter em conta a possibilidade de traição, quer da parte do PAIGC, que sabia do que se passava, quer do lado das forças senegalesas.
Entraram na sala de reuniões o general Spínola, o capitão Nunes Barata e Fragoso Alas. Carlos Fabião permaneceu junto aos helicópteros. Era o responsável pela segurança do general. Cabia-lhe a responsabilidade de comandar o ataque, se as coisas corressem mal. O plano de emergência consistia em bombardear de imediato a zona e fazer depois avançar os paraquedistas para liquidarem qualquer possível resistência e recolherem os vivos e os corpos dos nossos mortos.
Léopold Senghor fez jogo limpo. Verificou-se a coincidência de muitos pontos de vista do presidente da República do Senegal e do comandante das forças portuguesas na Guiné e foi possível traçar um plano de atuação, a submeter ao governo de Lisboa e aos movimentos independentistas. Projectava-se declarar, assim que possível, o cessar-fogo e organizar uma conferência sem condições prévias. Os representantes do governo português negociariam diretamente com os movimentos de libertação da Guiné-Bissau: o PAIGC e a FLING. A inclusão deste movimento, com pouca expressão no terreno, denunciava a vontade de Senghor continuar a proteger os interesses do Senegal no quadro duma futura independência. Tratava-se de um projeto a médio prazo. Durante um período de dez anos, enquanto se preparavam os quadros necessários para garantir a administração, o poder, na Guiné e em Cabo Verde, seria entregue a uma administração mista, constituída por elementos nomeados pelos movimentos independentistas e pelo governo português.  Seria então dada a palavra aos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, que decidiriam os termos do seu relacionamento futuro com Portugal: independência total, federação de estados ou inclusão numa comunidade afro-luso-brasileira. Curiosamente, o projeto estava em conformidade com as ideias defendidas por Caetano anos atrás. Por outro lado, dificilmente teria sido formulado sem o consentimento tácito de Amílcar Cabral, um homem que o destino pusera à frente de um movimento armado mas a quem o feitio predispunha às negociações.
Era a solução política que Spínola perseguia.
Ficou marcado um segundo encontro. 
António de Spínola deslocou-se a Lisboa e expôs ao primeiro-ministro português os resultados da reunião. Caetano tivera tempo para refletir e para tomar o pulso ao equilíbrio de forças em que assentava o poder. Considerava que, no quadro global da guerra em três territórios, a derrota militar na Guiné era preferível à negociações. O governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par.  Marcello Caetano exigiu o fim imediato dos contactos com Senghor. Portugal poderia ser vencido na Guiné, mas não negociaria. 
   Ao general Spínola não restava outra solução que não fosse a de continuar a guerra. Como achava que a continuação da política do governo português ia contra os interesses do país, começou a conspirar. 
Fica por saber se o PAIGC, seguro do seu poder militar, com as forças armadas portuguesas na defensiva, iria aceitar uma moratória de dez anos para o seu projecto de independência. Provavelmente, não o faria. De qualquer modo seria preferível começar a negociar, numa altura em que a luta armada se encontrava em fase de relativo equilíbrio.


sexta-feira, 10 de maio de 2013


                                       
                          AMÍLCAR CABRAL

                                  XXIX

                   OS PRIMÓRDIOS DO 25 DE ABRIL




Foi na Guiné que os oficiais portugueses começaram a questionar a continuação da guerra.  Aos poucos, foi-se impondo o pensamento de Spínola, que defendia que a solução para o conflito era política e não militar.
No verão de 1972, alguns oficiais ligados ao general António de Spínola estabeleceram contactos com a chamada Ala Liberal da Assembleia Nacional. O objetivo era afastar Américo Tomás da Presidência da República e fazer eleger Spínola para o cargo.
Marcello Caetano avaliou os equilíbrios do poder dentro da situação e optou por apoiar a recandidatura de Tomás. Terá sido a última oportunidade para o regime encerrar a questão colonial em continuidade e não em rotura.
Em 1973 começou a agonia do Estado Novo.
O Dia Mundial da Paz foi celebrado por um grupo de católicos progressistas que organizaram uma vigília na Capela do Rato, Em Lisboa. Foi ali aprovada uma moção que reconhecia o direito dos povos colonizados à independência e condenava a política de guerra do governo. Esses católicos portugueses não fazia mais do que alinhar com a política oficial da Santa Sé.
No mesmo ano, foi anunciado para o começo de junho, no Porto, o Congresso dos Combatentes do Ultramar. Destinava-se essencialmente a apoiar a política colonial do governo. Desencadeou um movimento de contestação da parte de muitos oficiais do Quadro Permanente. Os protestos nasceram no grupo ligado a António de Spínola mas depressa contagiaram outros setores.
A situação piorou para a Ditadura com a publicação, no mês seguinte, do decreto-lei nº 353/73. Visava a continuação do esforço de guerra e permitia a entrada de oficiais milicianos nos quadros permanentes das armas de infantaria, artilharia e cavalaria, depois de frequentarem um curso intensivo na Academia Militar. Os oficiais de carreira sentiram-se prejudicados. Poderiam, em determinadas situações, ser ultrapassados em antiguidade pelos milicianos. Houve protestos que conduziram a um recuo parcial do governo.
No final de agosto, dezenas de oficiais em comissão de serviço na Guiné assinaram uma exposição contestatária dirigida às entidades superiores do governo. Seguiram-se documentos semelhantes com origem em Angola e em Moçambique.
 Estavam criadas as bases para o Movimento dos Capitães, que começou essencialmente por razões corporativas. Em geral, os oficiais portugueses eram pouco politizados e estavam habituados à disciplina. A politização desenvolveu-se rapidamente e os spinolistas foram marginalizados pela dinâmica do processo. A questão da guerra e o problema colonial tornaram-se o centro das discussões. O regime acabaria por cair por não ter sabido negociar a questão colonial.

quarta-feira, 8 de maio de 2013



                           AMÍLCAR CABRAL    
    

                           XXVII


 UM OLHAR SOBRE A DESCOLONIZAÇÃO DA GUINÉ-BISSAU

             (ARTIGO APOIADO NUM TEXTO DE CARLOS FABIÃO)





Amílcar Cabral foi capaz de reunir em redor de uma quimera os movimentos nacionalistas das colónias portuguesas da Guiné e de Cabo Verde. Quem morre cedo presta-se a forjar lendas. Cabral foi um líder determinado, esclarecido, inteligente, disciplinado e disciplinador, com elevadas preocupações humanitárias. Sem nunca fazer concessões ao culto da personalidade, acabou por construir uma imagem maior que a própria estatura.
No xadrez da História, o governo português foi-lhe opondo adversários sucessivos. O general António de Spínola terá sido o mais destacado de todos. Ainda assim, nada ganhou. No campo militar, venceu batalhas e perdeu a guerra. No aspeto político, teve razão antes do tempo, mas o tempo retirou-lhe depressa a razão. Inovador na abordagem do processo de descolonização portuguesa, foi rapidamente ultrapassado pela vertigem dos acontecimentos. Foi Presidente da República Portuguesa quando a maioria dos seus concidadãos pretendia já outros chefes. Dois anos após a sua publicação, o seu livro “Portugal e o futuro”, que ajudou a abrir os olhos da História a muitos militares de abril, poderia já intitular-se “Portugal e o passado”. Spínola teve um destino que se pode comparar ao de alguns treinadores de futebol. Não passou de bestial a besta, mas foi considerado progressista num dia e reacionário poucos dias depois.
Não deixa de ser curioso reproduzir a opinião de Carlos Fabião, um dos seus centuriões por altura do consulado na Guiné e seu opositor, por opinião e por inerência de funções, quando o rebelde Spínola o chamou a Tancos. Comecemos por lembrar um fragmento duma entrevista concedida por Fabião ao jornal Público e conduzida por Maria João Avilez.

P. - Qual foi a sua reação aos acontecimentos do 11 de março?
R. - Eu não sabia o que se estava a passar - estava no meu gabinete a falar com o Lemos Pires, que viera cá tratar dos assuntos de Timor. De repente, entram no meu gabinete o Mendes Dias e o Lemos Ferreira dizem-me que o general Spínola estava em Tancos e pedia para eu lá ir. Respondi que não iria e disse ao Mendes Dias - na altura chefe do Estado-Maior da Força Aérea - que ele também não deveria ir. Mas os nossos dois chefes de gabinete foram.
P. - Achou que não deveria ir. Porquê?
R. - Repare nisto: o general Spínola, fechado numa base, manda chamar o chefe do Estado-Maior do Exército, ou seja eu próprio. Ora eu, naquele momento, não estava em condições de me meter numa coisa sem saber o que se passava. Mandei ver o que era, disseram-me que o general Spínola me queria ao seu lado quando entrasse em Lisboa. Fui então perguntar ao Costa Gomes o que se passava e optei por ficar na dependência dele.
P. - Permita-me então que lhe pergunte: nesse momento troca objetivamente o general Spínola pelo general Costa Gomes? Ou tratava-se simplesmente de um problema de disciplina militar?
R. - Mantive-me dentro da minha linha hierárquica.

O bom senso e o respeito pelos valores militares são duas características geralmente reconhecidas a Carlos Fabião. O seu posicionamento ao lado do general Costa Gomes ajudou a evitar em Portugal a tragédia da guerra civil. Apesar das divergências políticas com António de Spínola. Fabião recordou-o sempre como o chefe e o amigo. O artigo que publicou sobre a descolonização da Guiné-Bissau ilustra bem o seu modo de ver. 

Visto do lado português, o Marechal António de Spínola foi, sem qualquer dúvida, a figura central da guerra da Guiné… … Antes e depois de Spínola, tudo mais não foi que uma «apagada e vil tristeza» …
… Logo nos primeiros tempos das hostilidades, Portugal perdeu o controlo do sul e do centro-oeste da colónia. Conservou o domínio da região leste, graças ao facto da etnia fula se ter mantido fiel à soberania portuguesa; do «chão manjaco», incaracterístico, sem se afirmar por nenhuma das partes em confronto e da ilha de Bissau, como era natural dada a concentração de forças militares ali existentes.
O novo Governador e Comandante-Chefe promoveu uma reunião em Bissau, no palácio do Governo, de todos os Comandantes de Unidades e Subunidades dos três ramos das Forças Armadas em serviço na Guiné. Nessa importante reunião, Spínola esboçou o seu plano de ação definindo, com muita clareza, os seguintes pontos:
- uma guerra subversiva não se ganha militarmente;
- portanto, ele não ia pedir aos militares que a ganhassem, ia apenas pedir-lhes que a não perdessem;
- a vitória essa teria de ser conseguida pelo governo no campo político.
Com base nestes princípios, foram redefinidas as missões militares de todas as Unidades e subunidades do teatro operacional, de acordo com as suas reais possibilidades. A manobra militar passou a ficar estreitamente subordinada à manobra sócio/política, sendo dada a esta uma alta prioridade…  
… O Marechal tinha também um projeto nacional para vencer o impasse a que o país chegara com a institucionalização da guerra. Esse projeto admitia que a unidade se podia conservar por uma reestruturação nacional fortemente descentralizada que tomasse na devida consideração a heterogeneidade do todo português…
…A estratégia que Spínola montou na Guiné foi um reflexo deste projeto, ao qual ficou, desde o início, subordinada. Ela consistia numa acelerada promoção sócio/económico/cultural de todas as populações tribalizadas, dentro das respetivas estruturas convencionais, de modo a fazer ascender todos os grupos étnicos, paralela e simultaneamente numa mesma direção, de modo a atingirem uma plataforma comum a que se convencionou chamar portugalidade…
… Os Congressos do Povo da Guiné institucionalizavam, de certo modo a divisão étnica dos guineenses, mas permitiam auscultar as insatisfações, os desejos e os anseios das populações nativas, procurar entender os mecanismos que as motivavam e informar o governo dos seus erros próprios e dos cometidos pelos seus agentes e ainda dos choques da lei portuguesa com o direito tradicional dos povos…
 …Dentro da sua estratégia, Spínola procurou estabelecer o diálogo com o opositor. Militarmente criou as condições que lhe permitiam aceitar o diálogo numa posição cómoda; conservou o controlo do leste e impediu a sublevação do «chão» manjaco.
 O Marechal tinha a plena consciência que o problema da Guiné não era possível de resolver sem o PAIGC. Mas esta tentativa não ia ser fácil de realizar. Spínola conseguiu interessar no caso o Presidente Senghor do Senegal, que se prestou a servir de intermediário.

Em 1971, Léopold Senghor informou António de Spínola que Amílcar Cabral estava disposto a encontrar-se com ele em Bissau para negociar a autonomia da Guiné.
O governador-geral da Guiné pediu, por escrito, ao primeiro-ministro português autorização para o encontro. Alegou que, se a oportunidade não fosse aproveitada, Portugal poderia perder a situação transitória de vantagem militar. Era conveniente negociar em posição de força. Marcello Caetano recusou.
A Operação Mar Verde tivera lugar em Janeiro de 1970. Fragilizara a imagem de Portugal no mundo e reforçara a posição dos nacionalistas.
Em Maio de 1972, Spínola e Senghor encontraram-se num complexo turístico de Casamance, a sul do Senegal.
Carlos Fabião acompanhou o general e resumiu as conversações.
Senghor levava uma proposta estudada. Tratava-se, no essencial, de interromper as hostilidades e de entregar o poder, na Guiné e em Cabo Verde, durante um período transitório de dez anos, a uma administração mista, constituída por elementos nomeados pelo PAIGC e pelo governo português. Presumia-se que, no final desse período, fosse acordada a independência.
Curiosamente, o projeto estava em conformidade com as ideias defendidas por Caetano anos atrás. Por outro lado, dificilmente teria sido formulado sem o consentimento tácito de Amílcar Cabral, um homem que o destino pusera à frente de um movimento armado mas a quem o feitio predispunha às negociações.
Era a solução política que Spínola perseguia. 
     Caetano recusou. Mudara de ideias. Em 1972, considerava que, no quadro global da guerra em três territórios, a derrota militar na Guiné era preferível à negociações. O governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par. Logo que chegou à fase de concretização do Plano, Marcelo Caetano proibiu a Spínola a continuação dos contactos e negociações com o argumento de que na Guiné se aceitava um desastre militar mas nunca uma cedência política.
Face a esta posição de intransigência e de cegueira política do governo português, perdeu-se, ingloriamente, a última oportunidade de se poder negociar uma solução política para a guerra da Guiné.

… Ao Marechal Spínola não restava outra solução que não fosse a de continuar a guerra. Como tinha a plena consciência de que esta era uma solução antinacional, ia começar a conspirar. Só restava uma alternativa: o derrube do governo que impunha uma guerra desgastante e impossível de vencer…

Amílcar Cabral foi assassinado em Janeiro de 1973. Depois da sua morte, o PAIGC intensificou os ataques contra as forças portuguesas.
Numa carta enviada a Caetano em Março de 1973, Spínola afirmava que a continuação de ações exclusivamente militares levaria a um desastre semelhante ao que ocorrera em Goa.
As coisas estavam a correr mal às nossas tropas. As operações Nô Pincha, no norte do território e Amílcar Cabral, no sul desequilibraram a situação militar. Começaram a ser utilizados mísseis terra-ar SAM-7 Strela, de fabrico soviético. Em quinze dias, foram abatidos cinco aviões das FAP. Sem apoio aéreo, o moral de oficiais e soldados portugueses foi-se abaixo. O PAIGC tomou a praça-forte de Guilagé e apoderou-se de artilharia e de material de transmissões. Nesse mesmo dia, Spínola pediu a exoneração das funções que desempenhava e informou o ministro do Ultramar e o Chefe do Estado-Maior general das Forças Armadas, General Costa Gomes, de que a derrota militar já não poderia ser evitada. A ofensiva do PAIGC só foi interrompida pela chuva, a meio do ano. As derrotas portuguesas sucediam-se umas às outras. Cabral triunfava, meio ano após a sua morte.

sexta-feira, 3 de maio de 2013


                                              
                         AMÍLCAR CABRAL

                                    XXII

               OS TRÊS MAJORES

                                    

As expectativas criadas pelo general Spínola para a resolução política da guerra e as conversações estabelecidas com Léopold Senghor, presidente da República do Senegal e possível intermediário de Amílcar Cabral, alimentaram um certo otimismo em Bissau e em Lisboa.  
Tanto a convicção de que a política da “Guiné Melhor” atrairia cada vez maior número de habitantes, incluindo combatentes do PAIGC, como a análise que o estado-maior de Spínola fazia das clivagens étnicas do país permitiam esperar que um número considerável de militantes inimigos abandonasse as fileiras e aderisse à nova política portuguesa. A situação militar no terreno parecia agora relativamente favorável às forças coloniais. Era o momento de adotar iniciativas mais ousadas.
Em 1969, devidamente autorizado pelo primeiro-ministro português Marcello Caetano, Spínola amnistiou 92 militantes do PAIGC detidos nas cadeias de Bissau. O mais conhecido deles era Rafael Barbosa, apresentado pela propaganda oficial do partido como exemplo de firmeza e de resistência ao poder colonial em condições de cativeiro.
Todos os que foram libertados juraram previamente fidelidade a António de Spínola. Na Guiné daquele tempo os juramentos eram, de modo geral, levados a sério. Segundo o general, aqueles homens estavam sinceramente arrependidos e dispostos a contribuir para a construção da sua “Guiné melhor” ao lado dos militares portugueses.
Rafael Barbosa tinha sido preso em março de 1962 na sede clandestina do PAIGC, em Bissau. Seria a segunda figura do partido, logo a seguir ao secretário-geral. Competir-lhe-ia estabelecer ligações entre os militantes que permaneciam nas zonas urbanas do interior do território e conquistar novos elementos para o partido. Terá acedido a colaborar com a PIDE, passando a beneficiar de um tratamento privilegiado. Segundo António Tomás, era-lhe permitido deambular por Bissau e dormir na própria casa. Aparentemente, tornou-se um agente duplo, transmitindo pontualmente informações à direção do PAIGC em Conakry.
Ao tempo, eram comuns as deserções de militantes do partido. Fartos de anos de luta e de dificuldades no mato, havia quem aproveitasse o perdão concedido pelo general Spínola a todos que depusessem as armas. Os dirigentes do partido reagiram, tendo ocorrido fuzilamentos.
A situação era instável e havia quem se arrependesse de se ter arrependido. Alguns dos que se abrigaram à sombra da bandeira portuguesa quiseram ser readmitidos no PAIGC para voltarem a combater pela independência. Ia-se e vinha-se, entre Bissau e Conakry. Uns eram aceites de volta e outros passados pelas armas.
 A dada altura, o estado-maior de Spínola julgou ser possível desmobilizar boa parte da guerrilha instalada em Cantchungo (na altura conhecida como Teixeira Pinto), no chão dos Manjacos, na frente norte.
 Estabeleceram-se contactos entre as duas partes. Começaram por recados transmitidos pela população que circulava na zona. Naturalmente, tanto os portugueses como os revoltosos dispunham de informadores. As negociações progrediram e subiram de nível hierárquico, pelo menos do lado português. Como sinal da importância que o general dava a esta iniciativa, foram designados interlocutores os majores Joaquim Pereira (da inteligência), Passos Ramos e Osório Magalhães. Os encontros multiplicaram-se. Do lado da guerrilha, terá negociado André Gomes, um comandante que se notabilizara no ano anterior por chefiar o grupo de combate que atacou o aeroporto de Bissau.
A proposta de Spínola incluía a interrupção das hostilidades e a integração no exército português de todos os guerrilheiros que o quisessem fazer. O general obtivera do Ministério do Ultramar uma verba substancial destinada ao pagamento dos salários da nova incorporação.
As conversações prosseguiram e estabeleceu-se um clima de certa confiança. Os majores deslocavam-se desarmados e ofereciam presentes ao inimigo: dinheiro, bebidas, maços de cigarros e gravadores de som. Era outra maneira de fazer a guerra.
Ao ser informado dos acontecimentos, Amílcar Cabral alarmou-se. Estava perante um aliciamento à traição em grande escala. Enviou para a frente norte Luís Correia, o responsável dos serviços secretos do PAIGC. Nasceu então a ideia de capturar o general Spínola, que tinha comparecido a um encontro com os guerrilheiros e prometera voltar.
    Conta-se que Luís Correia conferenciou com os comandantes locais e preparou uma armadilha destinada a prender ou eliminar fisicamente o general português. 
    Spínola não compareceu ao encontro. Logo que os majores Pereira, Ramos e Magalhães saíram das viaturas, acompanhados do alferes Joaquim Palmeiro Mosca e de alguns soldados (todos desarmados) foram abatidos a tiro. Os assassinos esquartejaram os corpos à catanada antes de retirarem. Aconteceu em Jolmete, a norte do Pelundo, junto ao Rio Cacheu.
Luís Cabral afirma que os guerrilheiros fingiram negociar para atraírem os oficiais portugueses. Parece mais provável que os comandantes militares da zona se tenham alarmado com a presença do enviado de Cabral e arrepiassem caminho. Há ainda quem sugira que os majores entabularam conversações com um determinado grupo de guerrilheiros e foram surpreendidos por outro, fiel a Cabral. Não se sabe tudo. Há pormenores da História que ficam parcialmente encobertos por uma névoa de silêncio.
António de Spínola ficou abalado com o sucedido. Sentiu-se responsável pela morte dos seus colaboradores próximos. O general vinha de uma escola de guerreiros com padrões éticos elevados. Era inadmissível abater inimigos desarmados. Considerava que se ocupavam de uma missão de paz, o que não é de admirar. Muitas das guerras de ocupação das colónias portuguesas foram apelidadas de campanhas de pacificação.
Spínola não podia desistir de procurar uma solução política, negocial, para a guerra da Guiné e não o fez. É possível que a ideia de prender ou eliminar fisicamente o secretário-geral do PAIGC tivesse criado há muito raízes no espírito de alguns militares portugueses. Desenvolveu-se mais nessa altura. Perspetivava-se no horizonte a operação Mar Verde.


quinta-feira, 2 de maio de 2013


                      AMÍLCAR CABRAL          

                                           XXI

              O CONSULADO DE SPÍNOLA




As características geográficas do território e a unidade e organização da guerrilha obrigaram os comandos militares portugueses a colocar na Guiné um número de soldados em clara desproporção com a superfície da colónia e o número dos seus habitantes. De um total de 79.823 efetivos militares metropolitanos que se encontravam em 1968 nos três Teatros de Operações, 37.547 estavam colocados em Angola, 22.717 em Moçambique e 19.559 na Guiné. Os números totais de soldados mortos nas três frentes, entre 1961 e 1974 foram de 3.258 em Angola, 2.962 em Moçambique e 2.070 na Guiné.
Em Maio de 1968, Schultz foi substituído. Teve início o consulado de Spínola.
António de Spínola encarava de maneira diferente a guerra de guerrilha. Tinha lido o Livro Vermelho de Mao Tsé Tung e outras obras populares entre os nacionalistas e os estudantes universitários europeus de  esquerda.
Procurou combinar os aspetos militares e sociais. Não seria preciso inovar, mas apenas adaptar os conhecimentos e experiências de outras guerras de guerrilha à realidade geográfica e social da Guiné.
O objetivo era criar uma ligação de simpatia e mesmo de gratidão entre o exército e a população. Spínola contava com um grupo de oficiais preparados para a guerra antissubversão em Lisboa e em estágios efetuados nos Estados Unidos e em vários países europeus da NATO. Tratava-se de militares corajosos, empenhados e ambiciosos: Carlos Fabião, Otelo Saraiva de Carvalho, Manuel Monge de Lima, Nunes Barata, José Blanco, Jorge Moreira da Costa, Carlos Azeredo e outros. Ficaram conhecidos como os rapazes de Spínola. Foi com eles que o general elaborou a sua estratégia de combate.
As forças armadas deixaram de ter um papel exclusivamente militar. Deviam também colaborar com as populações nas áreas da assistência sanitária e do ensino. A guerra da Guiné era essencialmente psicológica. Passava pela conquista das almas, a qual não poderia ser feita pela força mas sim pela persuasão. A ação de contra subversão visava afastar as populações dos movimentos de libertação, de modo que deixassem de apoiá-los.
Tal como tinha feito Amílcar Cabral, Spínola estudou a composição étnica dos povos da Guiné. Acabou por ser traçado um mapa colorido do território. As zonas azuis indicavam a presença de populações favoráveis aos portugueses. Eram sobretudo fulas e viviam a leste. As áreas vermelhas estavam controladas pelo inimigo, enquanto as amarelas eram áreas de transição e de equilíbrio instável entre as forças em luta. Para fins de bombardeamento, não havia distinção entre civis e militares nas regiões vermelhas.
Nas áreas azuis eram construídos os aldeamentos estratégicos semelhantes aos que ficaram famosos na guerra do Vietname. Eram para lá conduzidas as populações que o exército pretendia cativar. Esta estratégia desertificava territórios amplos, facilitando as operações de busca e destruição, geralmente efetuadas por tropas especiais helitransportadas.
No campo político, o general português procurou explorar as fraquezas e as contradições inerentes à formação do PAIGC. Estimulou o ódio aos cabo-verdianos e procurou obter a simpatia de alguns setores da população, como os muçulmanos (em especial os fulas) que constituíam a maioria religiosa do país e nunca tinham apoiado decididamente Amílcar Cabral. Lançou um projeto ambicioso, designado “Por uma Guiné melhor”. Destinava-se a compensar, em parte, o abandono a que os sucessivos governos de Lisboa tinham votado a sua colónia na África Equatorial.
A fatia que o Orçamento do Estado Português dedicava à Guiné engordou substancialmente. Foi possível abrir estradas novas. Alcatroaram-se 500 quilómetros das já existentes. Levantaram-se pontes e melhoraram-se as condições de funcionamento de alguns portos. Construíram-se 8.000 habitações e melhoraram-se seis dezenas de tabancas (aldeias). A rede escolar e as estruturas sanitárias que serviam a população foram objeto de uma atenção desconhecida até à data. Como aconteceu simultaneamente e em escala maior em Angola e Moçambique, a guerra tornou-se um fator de desenvolvimento do território.
António de Spínola estava atento ao que se passava no mundo. Aprendeu também com os teóricos ingleses e franceses da fase tardia da descolonização.
A melhor maneira de conter os nacionalismos africanos nascentes não consistia em europeizar as populações, integrando-as nas legislações nacionais e atribuindo-lhes direitos e deveres semelhantes. Era preferível enquadrá-las nas estruturas tribais reabilitadas.
Spínola procurou dignificar a autoridade tribal e inventou o Congresso dos Povos da Guiné. Em 1970, o primeiro Congresso reuniu representantes de fulas e mandingas. Reconhecendo a justeza das reivindicações mandingas, foi-lhes permitido eleger os próprios régulos, em lugar dos chefes fulas impostos pela administração colonial. Era a primeira vez que tal acontecia no chão mandinga de Farim – Oio. No ano seguinte, o Congresso abriu as portas a todas as etnias. 
Spínola implementou na Guiné um conceito quase global de guerra. Aos componentes civil e militar eram atribuídas importâncias quase iguais.
 No começo da sua governação, o PAIGC sofreu alguns reveses. Foram retiradas populações à guerrilha. Os combatentes nacionalistas viram o seu escudo humano reduzido.
 Os bombardeamentos tornaram-se mais fáceis e boa parte das estruturas trabalhosamente construídas pelos guerrilheiros nas zonas libertadas foram destruídas. O Exército Português abandonou posições isoladas e difíceis de abastecer, como Madina do Boé, e concentrou os seus efetivos nas aldeias fortificadas e nas grandes povoações. Durante algum tempo, a situação militar esteve equilibrada.
 A pressão diminuída sobre as forças armadas portugueses assentava, em parte, em fissuras sociais que se projetavam na guerrilha. Começou a questionar-se a continuação do esforço de guerra e aumentou consideravelmente o número de deserções.
   Estavam abertas as portas para a negociação política.