DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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terça-feira, 23 de setembro de 2014




Apresento, com algum orgulho, o meu décimo segundo livro publicado em suporte de papel. Começou por ser uma biografia de Amílcar Cabral. Os capítulos, na sua forma inicial, foram sendo apresentados neste blogue. Ora, os livros têm dinâmicas próprias. A dada altura, constatei que a figura do fundador do PAIGC, apesar da sua relevância, ocupava apenas cerca de metade das páginas do volume. Dei-lhe, portanto, um título mais abrangente.



    Espero poder apresentar o livro de contos intitulado «Ofício de contar» dentro de um ou dois meses. Será uma forma de compensar o facto de não ter feito sair qualquer obra durante o ano de 2013.

 António Trabulo

quarta-feira, 10 de julho de 2013


                              LIV

      A GUERRA ALÉM FRONTEIRAS


A guerra de libertação da Guiné foi, desde o início, um conflito  em parte internacional. Os guerrilheiros eram vestidos, armados e (no começo) treinados por potências estrangeiras. Atacavam muitas vezes as nossas posições a partir de santuários instalados nos países limítrofes e voltavam para lá quando eram perseguidos. O PAIGC era apoiado pela China, por Cuba e pelo bloco de leste. No entanto, na parte final na guerra, também os países nórdicos forneceram aos guerrilheiros uma ajuda importante.
Os portugueses preparavam o próprio exército, mas apenas fabricavam as espingardas semiautomáticas G3, as munições para elas e o fardamento. Para todo o material mais pesado, incluindo as metralhadoras ligeiras e pesadas, os lança-granadas-foguete, a artilharia, os carros de combate, as lanchas armadas e os aviões de transporte e de combate dependiam dos fornecimentos dos seus aliados da NATO.
Pelo menos durante os primeiros anos de luta armada, o chão da Guiné-Bissau foi palco de um dos múltiplos conflitos do confronto este-oeste. A chamada “guerra fria” chegou com frequência a escaldar.
À luta entre os rebeldes nacionalistas e as tropas coloniais portuguesas associou-se, quase desde o início, um componente de guerra civil que atingiu o auge quando a “africanização” das tropas que combatiam sob a bandeira portuguesa se desenvolveu mais.         
 Portugal nunca esteve em guerra com a República da Guiné. No entanto, beneficiando da conjuntura internacional, o presidente Sekou Touré acolhia fraternalmente no seu território os guerrilheiros que combatiam os portugueses. Ali tinham campos de treino e ali encontravam abrigo sempre que necessário. Era pelo território da Guiné-Conakry que entrava o armamento destinado ao PAIGC, ainda que as más-línguas dissessem que os guineenses, quando podiam, ficavam com parte das remessas. Conakry era a residência habitual de Amílcar Cabral. Funcionava na capital guineense uma escola-piloto para quadros do partido. O facto provavelmente mais grave era a existência, num país soberano oficialmente alheio ao conflito armado, de uma prisão onde eram aferrolhados os prisioneiros de guerra portugueses.
Seriam razões de sobra para Portugal levar a cabo ações militares contra a República da Guiné e dos seus dirigentes, se fosse outro o panorama político internacional.
Mais tarde, também o Senegal acoitou os guerrilheiros e deu apoio logístico e militar a quem combatia uma Nação à qual não tinham declarado guerra. O Direito Internacional estava feito em pedaços. Nenhum dos lados o respeitava.
As grandes organizações internacionais favoreciam claramente os guerrilheiros. O colonialismo era condenado repetidamente. Com o tempo, também as opiniões públicas internacionais se inclinaram nitidamente para o lado dos que defendiam as independências dos próprios países. Portugal era dos pouco países no mundo que ainda conservava possessões ultramarinas, numa altura em que o colonialismo se fizera já anacrónico. Os colonos eram os maus da fita. Tudo o que se fizesse contra eles estava justificado pela História.
Essa questão ainda hoje não é pacífica na sociedade portuguesa. Passaram quarenta anos sobre o 25 de abril e as independências das colónias e estabeleceram-se relacionamentos normais e até laços de amizade com todos os Estados Africanos anteriormente colonizados por Portugal, mas as feridas subsistem. Os soldados portugueses que se bateram pelo que lhes tinham ensinado ser a sua Pátria devem ser considerados heróis ou criminosos de guerra? A meu ver, nem uma coisa nem outra. Foram simplesmente soldados de Portugal, embora houvesse entre eles heróis e criminosos.
Cada época tem a sua moral.
Os militares portugueses começaram cedo a passar para o outro lado das fronteiras na perseguição dos seus inimigos. Adiantavam-se geralmente poucos quilómetros e voltavam a recuar. Essas operações eram habitualmente de pequena envergadura. Com o tempo, a guerra transfronteiriça subiu de intensidade.
Entre 1969 e 1970, a situação militar deteriorou-se na região norte da Guiné. A dada altura, tornou-se necessário desalojar um contingente importante do PAIGC colocado numa base situada do lado de lá da fronteira com a Guiné-Conakry. Coube a Carlos Fabião fazer o primeiro ataque importante a instalações do PAIGC na República da Guiné. Ouçamo-lo:
A operação foi planeada a nível do comandante-chefe e, quando foi altura de reunir o comando da unidade, Spínola disse: «Disseram-me que há aí um oficial que foi promovido por distinção e que é muito conceituado. Vai esse.» Ele não me conhecia, foi assim que me nomeou. Fui ao palácio, falei com o Spínola, que me deu instruções. Comandei essa operação, que correu muitíssimo bem. Tivemos sorte. Tinha três companhias de caçadores, uma bateria de artilharia e a aviação. Os homens do PAIGC estavam na República da Guiné, tinham uma base encostada à fronteira e eu, quando fui de avião, vi a base e pedi ao oficial de Artilharia que ia comigo para fazer um plano de fogo. À tarde, quando estávamos na reunião, eu disse a Spínola que tinha visto a base do lado de lá e ele ordenou-me que bombardeasse. Fiquei indeciso e Spínola perguntou-me se eu estava com medo. Depois deu-me a ordem por escrito. A artilharia acertou em cheio. Tivemos a sorte daquilo cair nos paióis e incendiou-se tudo. Foi a primeira vez que atacámos a República da Guiné. Foi talvez a operação em que eles tiveram mais baixas. A partir daí criou-se o gosto de atacar bases na República da Guiné.
Ouçamos também Pereira da Costa, outro dos “rapazes” de Spínola:
Na Guiné, onde a ameaça antiaérea obrigou a reduzir substancialmente o apoio aéreo que muitas vezes resolvia a situação tática que se vivia no terreno, o "empréstimo" de artilharia de campanha por parte da República da Guiné ao PAIGC, permitiu criar uma situação de superioridade pontual na fronteira Sul.
A operação Mar Verde foi, de todas as intervenções além-fronteiras, a que dispôs de meios mais importantes e de planeamento mais pormenorizado. Falhou, no essencial, por incompetência da PIDE: ninguém sabia que Amílcar Cabral se ausentara de Conakry, o que ainda se podia aceitar, nem que os MIG da Força Aérea da Guiné haviam sido mudados para outro aeroporto, o que se mostrou determinante para o insucesso parcial da aventura. O eventual apoio aos adversários de Sekou Touré com vista a um golpe de estado foi obviamente sobre avaliado.
No rescaldo, Portugal foi enxovalhado na imprensa internacional, que aceitava, com certo despudor, o apoio ativo a atos de guerra da parte dos países fronteiriços (República da Guiné e Senegal). O maior perdedor da Operação Mar Verde não foi, contudo, o governo português. Terá sido a NATO. A União Soviética aproveitou a oportunidade para instalar a almejada base em Conakry. O pretexto foi, naturalmente, obviar a outros ataques da marinha imperialista portuguesa.
Fica no ar a suspeita de alguma loucura no imaginar da expedição. Se as vantagens do derrube do regime de Sekou Touré e a sua substituição por um governo mais favorável aos interesses portugueses são fáceis de entender, a captura ou assassinato de Amílcar Cabral iria servir-nos de pouco.  O PAIGC era já um partido em movimento imparável e a perda do seu líder histórico não o iria abalar de forma significativa. Isso viu-se em janeiro de 1973, quando os seus companheiros o mataram. Pelo contrário, perdia-se um interlocutor. Spínola, quando autorizou a operação, devia ter o monóculo embaciado.



domingo, 7 de julho de 2013

Os rapazes de Spínola

                       
                   AMILCAR CABRAL

                            LI

              OS RAPAZES DE SPÍNOLA


As academias proporcionam a informação essencial, mas os verdadeiros chefes militares revelam-se em combate. Muitos não frequentaram qualquer academia. 
Comissões sucessivas nos diversos teatros de operações contribuíram para formar nas Forças Armadas Portuguesas um escol de oficiais. Alguns combateram na Guiné, às ordens do general António de Spínola. Chamavam-lhe “os rapazes de Spínola” e havia quem os apelidasse de “os sete magníficos”.
Carlos Fabião foi um deles. Foi promovido por distinção e muitas vezes louvado e condecorado. Tratava-se de um homem completo: comandante militar, cidadão, político e chefe de família. O facto de gostar de escrever e de ter deixado muitos artigos publicados facilita as referências que lhe fazemos. Ouçamo-lo falar dos outros centuriões:
Eram o Ricardo Durão, o tenente-coronel Firmino Miguel, o major Pereira da Costa, o major Bruno, o major Carlos Azeredo e o major Carlos Morais. Posteriormente, o major Dias de Lima substituiu o Carlos Morais e o tenente-coronel Artur Baptista veio a substituir o Firmino Miguel. Juntou-se também a este grupo o capitão António Ramos. Era este o núcleo duro do "staff" do general. Otelo esteve também na Guiné, mas colocado numa repartição.
Marcelino da Mata também os conheceu bem:
“O comandante-chefe era o general Spínola, de quem eu tinha tudo o que queria: eu dizia que havia qualquer coisa em qualquer lado e ele dizia para eu ir e fazer o que entendesse melhor. Durante essa época, quem fez muitas operações comigo foi o capitão paraquedista António Ramos, que era um grande guerreiro – fizemos mais de 200 operações juntos. Os outros bons guerreiros que conheci foram: no Exército, o major de cavalaria Carlos Azeredo e o major de infantaria Carlos Fabião; na Marinha, o primeiro-tenente fuzileiro Rebordão de Brito e o Alpoim Calvão. Na Força Aérea, o major piloto-aviador Zuquete, o tenente-coronel piloto-aviador Almeida Brito que foi abatido junto à fronteira sul da Guiné por um míssil “Strella” e o major piloto-aviador Fernando Vasquez que hoje é general. Dos que foram graduados em generais depois do 25 de Abril, o Fabião era o único que merecia: foi um homem muito corajoso no mato, que nunca virou as costas ao inimigo e limpou a zona sul toda em 4 anos. Já o capitão de artilharia Otelo Saraiva de Carvalho nunca participou numa operação.”
Voltemos a Carlos Fabião:
Quando me mandaram para a Guiné, tinha duas coisas a meu favor. Tinha seis anos de Guiné em tempo de paz - conhecia toda a Guiné - e os conhecimentos da guerra subversiva em Angola devido à comissão de 27 meses que tinha feito e que correu muito bem. A minha companhia em Angola era conhecida como «a companhia dos camelos». Na Guiné, comandei uma companhia de caçadores, entre 1965 e 1967. Na altura, era a companhia mais prestigiada da Guiné e isso fez com que eu fosse condecorado com a medalha de Valor Militar de Prata e fosse promovido a major, por distinção. Foi aqui que começou a ser conhecido, digamos assim, o nome de Fabião.        
Há muita gente que diz que houve grandes diferenças entre a guerra em Angola e a guerra na Guiné, mas eu não notei nenhuma. A guerra subversiva era igual em qualquer sítio. Para mim, que era uma máquina que subia mal mas andava bem na planície, a guerra na Guiné foi melhor, porque o terreno era plano. Apesar de na época das chuvas o terreno ser pantanoso, eu deslocava-me melhor na Guiné do que em Angola. Em Angola, na zona do Cuanza Norte, onde estive, os terrenos eram altos, muito altos, mas fazia-se quase tudo de carro porque as distâncias não permitiam andar a pé. Quando estive na Guiné, antes da guerra, caçava muito e, portanto, estava habituado ao terreno. A minha companhia era de intervenção. Havia um batalhão que cobria uma área, tinha duas ou três companhias em quadrícula e uma companhia liberta que fazia as operações. Era a minha. Fazíamos todo o tipo de operações imagináveis: operações, golpes de mão, emboscadas, patrulhamentos, rusgas. O comandante de batalhão fazia as operações, nomeava, pedia os reforços, entregava-me e eu estudava aquilo no terreno. Gostava muito de funcionar com africanos. Já vinha do tempo de paz. Tinha sempre negros de confiança que trabalhavam comigo e que planeavam as operações comigo e me informavam. A princípio, a maioria deles, estavam nos caçadores nativos ou  nas milícias. Mais tarde, quando fiz a minha última comissão na Guiné, Spínola resolveu rendibilizar ao máximo esses africanos e convidou-me para ir para lá e organizar um corpo especial com esses indivíduos. Criei assim o Comando Geral das Milícias.

João de Almeida Bruno, oficial de cavalaria com a especialidade de Comando, foi o primeiro Comandante do Batalhão de Comandos Africanos. Desempenhou essas funções entre maio de 1968 e julho de 1970. O batalhão tinha como principal missão atacar as bases do PAIGC instaladas nas regiões fronteiriças da Guiné-Conakry e do Senegal. Para dificultar a identificação formal dos autores das incursões, que todos conheciam, eram equipados com armamento soviético capturado ao inimigo (Kalashinikov, Degtyarev, RPG2 e RPG79).
Almeida Bruno foi ajudante de campo do general Spínola. Gostou sempre de dar o nome de pedras preciosas às operações que dirigia. Em maio de 1973, planeou e comandou uma arriscada ação militar no interior do território do Senegal. Objetivo: atacar e destruir a base do PAIGC instalada na zona de Kumbamory. Era a partir daqui que as forças da guerrilha flagelavam a nossa posição em Guidaje, no norte da Guiné mesmo em cima da fronteira.
Após o 25 de abril, desempenhou vários altos cargos militares. Reformou-se como general.

 Mário Firmino Miguel era natural de Sintra. Oficial notável, de feitio conciliador, foi Chefe do Estado-Maior do Exército entre 1987 e 1991. Viria aintegrar, como ministro da Defesa os três primeiros governos constitucionais. Faleceu aos 59 anos num acidente de automóvel.

Carlos Manuel de Azeredo Pinto Melo e Leme nasceu perto do Marco de Canaveses. Oficial de cavalaria, cumpriu cinco comissões no Ultramar: duas na Índia, uma em Cabinda e duas na Guiné. No antigo Estado Português da Índia, foi aprisionado pelas tropas indianas.
Dirigiu o Planeamento e comandou a execução do movimento militar do 25 de abril no norte de Portugal.
Foi o último governador civil da Madeira. Mais tarde, foi assessor militar do Primeiro Ministro Francisco Sá Carneiro, 2º comandante da Região Militar Norte e Inspetor para a Arma de Cavalaria. Depois de promovido a general, dirigiu a Arma de Cavalaria e a Região Militar Norte.
       Apesar de ser monárquico, foi o chefe da Casa Militar do Presidente da República Mário Soares. Nas eleições autárquicas de 1997, candidatou-se à presidência da Câmara Municipal do Porto, chefiando uma coligação do PSD com o CDS. Derrotado por Fernando Gomes, cumpriu o mandato de vereador durante os quatro que lhe competiam.
O seu feitio peculiar dificultou-lhe as relações com alguns superiores hierárquicos, tendo sido punido algumas vezes. Não foram tantas como as ocasiões em que foi condecorado. Recebeu a Cruz de Guerra de 1ª Classe, duas medalhas de Serviços Distintos - Ouro e Prata com Palma - as Grãs- Cruzes das Ordens de Cristo e de Avis, do Império Britânico e outras de menor importância.
      É autor de vários livros, entre os quais se contam: “Trabalhos e Dias de um Soldado do Império”, de cariz autobiográfico, e “Invasão do norte: 1809 - A Campanha do General Silveira contra o Marechal Soult”.

Ricardo Ferreira Durão realizou quatro missões em África: uma em  Angola, duas na Guiné (entre 1965 e1970) e uma em São Tomé.
Falou do período em que esteve na Guiné.
“Fui para a Guiné como oficial de operações do batalhão, para o leste, uma área fula, que era uma etnia favorável aos portugueses. Era uma área muito extensa, com uma população razoável. Nós andávamos no meio da população com à vontade. Havia amizade. O leste não era tão florestal como o resto do território, era savana aberta, onde era muito difícil eles terem esconderijos. De maneira que atravessavam a fronteira com grupos muito fortes que dizimavam aldeias e povoações e pegavam fogo a tudo. Nós tínhamos de intervir e quando o fazíamos deparávamos com grupos militarmente muito fortes que depois saíam. Havia situações em que as forças inimigas eram na ordem dos duzentos homens bem armados. Tinham tudo quanto havia de armamento moderno na altura, ido da União Soviética, da Checoslováquia, etc. Estavam bem organizados, fardados, com aspeto militar, orientação e força. Na Guiné eles transitavam livremente ali perto, no Senegal, na República da Guiné, com grupos bem constituídos, entravam e saíam com grande capacidade de combate. Mao Tsé Tung dizia que um guerrilheiro devia estar entre a população como um peixe na água e o P.A.I.G.C. seguia isso. Eles tinham o apoio dos comunistas porque tinham que ter um apoio qualquer, mas se nós lhes déssemos apoio para o futuro da Guiné, eles ficariam do nosso lado”.
 Segundo Ricardo Durão, era frequente haver um alferes branco a dirigir um grupo de trinta homens africanos. Os soldados que serviam Portugal eram de etnia maioritariamente fula.
Durão acompanhou as negociações com elementos do PAIGC que levou à morte dos majores Passos Ramos, Pereira da Silva e Osório.
Reformou-se como general.

Carlos Alexandre de Morais, nascido em 1931 na vila de Valpoi, distrito de Goa, foi oficial de cavalaria do Exército Português.
No 25 de abril estava já na reserva, como major. Serviu de intermediário entre Otelo Saraiva de Carvalho e Spínola. Foi promovido a coronel.
 Escreveu "A Queda da Índia Portuguesa. Crónica da Invasão e do Cativeiro”. Os acontecimentos reportam-se a 1962 e ao campo de concentração de Pondá, onde estiveram presos durante largos meses cerca de 1750 militares e civis, na sequência da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.
Faleceu em abril de 2007.

Não consegui reunir muita informação sobre o major Jorge Viana Pereira da Costa. Chefiou o Serviço de Informações Militares na Guiné, onde era conhecido pela alcunha de «Astérix». Desempenhou um papel importante na preparação do livro «Portugal e o futuro».

Como vemos, António de Spínola soube rodear-se de oficiais que, para além de terem demonstrado o seu valor em combate, possuíam uma craveira intelectual acima da média.
Seria tarefa árdua contabilizar as condecorações com que foram agraciados, ao longo da vida, os “sete magníficos” oficiais do general do monóculo. Curiosamente, esses militares de elite eram também homens de cultura. Para o comprovar, bastará dar uma vista de olhos à lista de livros e artigos que deixaram escritos.



quinta-feira, 27 de junho de 2013

                                                               
                                                   AMÍLCAR CABRAL

                                                             LVIII 
                                     
                A MORTE DOS GUERREIROS


    O Acordo do Alvor obrigou as forças armadas portuguesas a desarmar as tropas africanas sob o seu controlo. A maioria desses combatentes ficou na Guiné após a independência. Previa-se a sua reintegração na vida civil. As boas intenções ficaram no papel.
    O PAIGC publicou em 1973 a sua lei de justiça militar. O artigo 86º dizia, entre outras coisas: o crime de traição tem lugar quando, sendo originário da Guiné ou Cabo Verde, o acusado pegue voluntariamente em armas contra as forças nacionalistas.
    Logo após o cessar-fogo, o PAIGC começou a capturar soldados portugueses africanos. Nunca mais se soube deles.
   Segundo uma fonte, foram executados, sem julgamento, 7.447 antigos militares negros que tinham lutado ao lado das tropas coloniais. Incluíam soldados, comandos e elementos das milícias. Foram também fuzilados alguns civis. A maioria das execuções foi levada a cabo meses após a independência. Muitas ocorreram por ocasião da tentativa de golpe de estado em Portugal a 11 de março de 1975. Os matadores estariam à espera de um pretexto.
     O PAIGC teria prometido a Carlos Fabião, último governador português da Guiné, nada lhes fazer. Promessas dessas não são para cumprir. Na véspera do embarque definitivo para Portugal, Marcelino da Mata já estava em Lisboa. Fabião reuniu todos os comandantes negros e convidou-os a acompanharem-no. Recusaram. A terra deles era ali. Ficaram.
    A oferta foi dirigida unicamente aos oficiais. O governo português receava eventuais convulsões sociais decorrentes da entrada em Portugal dos milhares de combatentes negros que tinham lutado pela bandeira das quinas. Abandonou-os ao seu destino.
É difícil aceitar contas tão exatas como as referidas acima. Ocorreram seguramente milhares de execuções.  Conhecem-se alguns casos concretos. Em 1976 decorreu o fuzilamento público de dois régulos e de Didi Ferreira, ex-comando, acusados de colaborarem com os colonialistas. No final de 1978, foram fuziladas centenas de militares guineenses que tinham servido na tropa colonial. A execução foi ordenada por António Buscardini, chefe da polícia política, com o apoio de outros dirigentes do PAIGC. Os corpos foram enterrados em valas comuns na mata em lugares tão diversos como Cumeré, Portogole, Cuntima, Farim, Bafatá, Cacheu, Canchungo, Pirada, Bambadinca, Biombo e Bissorá. É difícil entender estas execuções (ou assassinatos) quatro anos após a independência. Consta que Manhe Sanhé, ex-comando ao serviço de Portugal, poderia estar a preparar um golpe de estado contra o governo da Guiné.
Não foram mortos todos os antigos soldados africanos portugueses, que seriam mais de 15.000. Só os membros das milícias eram cerca de 9.000. Uns poucos conseguiram vir para Lisboa e muitos fugiram para o Senegal. Mesmo lá, foram perseguidos. Outros ficaram nas suas terras com o medo por companhia. 
Os conflitos com as forças senegalesas, em 1998, terão ajudado a sarar as feridas velhas. Militares que tinham lutado sob bandeiras diferentes na guerra da independência, bateram-se nessa altura, lado a lado.

Nota: Este livro aproxima-se do final. Encontra-se em fase de reorganização e aperfeiçoamento. As 130 páginas actuais irão converter-se em cerca de 180, mas os textos revistos não serão republicados no blogue. Continuarão a sair os últimos capítulos novos.
                                                                                         A.T.


quarta-feira, 8 de maio de 2013



                           AMÍLCAR CABRAL    
    

                           XXVII


 UM OLHAR SOBRE A DESCOLONIZAÇÃO DA GUINÉ-BISSAU

             (ARTIGO APOIADO NUM TEXTO DE CARLOS FABIÃO)





Amílcar Cabral foi capaz de reunir em redor de uma quimera os movimentos nacionalistas das colónias portuguesas da Guiné e de Cabo Verde. Quem morre cedo presta-se a forjar lendas. Cabral foi um líder determinado, esclarecido, inteligente, disciplinado e disciplinador, com elevadas preocupações humanitárias. Sem nunca fazer concessões ao culto da personalidade, acabou por construir uma imagem maior que a própria estatura.
No xadrez da História, o governo português foi-lhe opondo adversários sucessivos. O general António de Spínola terá sido o mais destacado de todos. Ainda assim, nada ganhou. No campo militar, venceu batalhas e perdeu a guerra. No aspeto político, teve razão antes do tempo, mas o tempo retirou-lhe depressa a razão. Inovador na abordagem do processo de descolonização portuguesa, foi rapidamente ultrapassado pela vertigem dos acontecimentos. Foi Presidente da República Portuguesa quando a maioria dos seus concidadãos pretendia já outros chefes. Dois anos após a sua publicação, o seu livro “Portugal e o futuro”, que ajudou a abrir os olhos da História a muitos militares de abril, poderia já intitular-se “Portugal e o passado”. Spínola teve um destino que se pode comparar ao de alguns treinadores de futebol. Não passou de bestial a besta, mas foi considerado progressista num dia e reacionário poucos dias depois.
Não deixa de ser curioso reproduzir a opinião de Carlos Fabião, um dos seus centuriões por altura do consulado na Guiné e seu opositor, por opinião e por inerência de funções, quando o rebelde Spínola o chamou a Tancos. Comecemos por lembrar um fragmento duma entrevista concedida por Fabião ao jornal Público e conduzida por Maria João Avilez.

P. - Qual foi a sua reação aos acontecimentos do 11 de março?
R. - Eu não sabia o que se estava a passar - estava no meu gabinete a falar com o Lemos Pires, que viera cá tratar dos assuntos de Timor. De repente, entram no meu gabinete o Mendes Dias e o Lemos Ferreira dizem-me que o general Spínola estava em Tancos e pedia para eu lá ir. Respondi que não iria e disse ao Mendes Dias - na altura chefe do Estado-Maior da Força Aérea - que ele também não deveria ir. Mas os nossos dois chefes de gabinete foram.
P. - Achou que não deveria ir. Porquê?
R. - Repare nisto: o general Spínola, fechado numa base, manda chamar o chefe do Estado-Maior do Exército, ou seja eu próprio. Ora eu, naquele momento, não estava em condições de me meter numa coisa sem saber o que se passava. Mandei ver o que era, disseram-me que o general Spínola me queria ao seu lado quando entrasse em Lisboa. Fui então perguntar ao Costa Gomes o que se passava e optei por ficar na dependência dele.
P. - Permita-me então que lhe pergunte: nesse momento troca objetivamente o general Spínola pelo general Costa Gomes? Ou tratava-se simplesmente de um problema de disciplina militar?
R. - Mantive-me dentro da minha linha hierárquica.

O bom senso e o respeito pelos valores militares são duas características geralmente reconhecidas a Carlos Fabião. O seu posicionamento ao lado do general Costa Gomes ajudou a evitar em Portugal a tragédia da guerra civil. Apesar das divergências políticas com António de Spínola. Fabião recordou-o sempre como o chefe e o amigo. O artigo que publicou sobre a descolonização da Guiné-Bissau ilustra bem o seu modo de ver. 

Visto do lado português, o Marechal António de Spínola foi, sem qualquer dúvida, a figura central da guerra da Guiné… … Antes e depois de Spínola, tudo mais não foi que uma «apagada e vil tristeza» …
… Logo nos primeiros tempos das hostilidades, Portugal perdeu o controlo do sul e do centro-oeste da colónia. Conservou o domínio da região leste, graças ao facto da etnia fula se ter mantido fiel à soberania portuguesa; do «chão manjaco», incaracterístico, sem se afirmar por nenhuma das partes em confronto e da ilha de Bissau, como era natural dada a concentração de forças militares ali existentes.
O novo Governador e Comandante-Chefe promoveu uma reunião em Bissau, no palácio do Governo, de todos os Comandantes de Unidades e Subunidades dos três ramos das Forças Armadas em serviço na Guiné. Nessa importante reunião, Spínola esboçou o seu plano de ação definindo, com muita clareza, os seguintes pontos:
- uma guerra subversiva não se ganha militarmente;
- portanto, ele não ia pedir aos militares que a ganhassem, ia apenas pedir-lhes que a não perdessem;
- a vitória essa teria de ser conseguida pelo governo no campo político.
Com base nestes princípios, foram redefinidas as missões militares de todas as Unidades e subunidades do teatro operacional, de acordo com as suas reais possibilidades. A manobra militar passou a ficar estreitamente subordinada à manobra sócio/política, sendo dada a esta uma alta prioridade…  
… O Marechal tinha também um projeto nacional para vencer o impasse a que o país chegara com a institucionalização da guerra. Esse projeto admitia que a unidade se podia conservar por uma reestruturação nacional fortemente descentralizada que tomasse na devida consideração a heterogeneidade do todo português…
…A estratégia que Spínola montou na Guiné foi um reflexo deste projeto, ao qual ficou, desde o início, subordinada. Ela consistia numa acelerada promoção sócio/económico/cultural de todas as populações tribalizadas, dentro das respetivas estruturas convencionais, de modo a fazer ascender todos os grupos étnicos, paralela e simultaneamente numa mesma direção, de modo a atingirem uma plataforma comum a que se convencionou chamar portugalidade…
… Os Congressos do Povo da Guiné institucionalizavam, de certo modo a divisão étnica dos guineenses, mas permitiam auscultar as insatisfações, os desejos e os anseios das populações nativas, procurar entender os mecanismos que as motivavam e informar o governo dos seus erros próprios e dos cometidos pelos seus agentes e ainda dos choques da lei portuguesa com o direito tradicional dos povos…
 …Dentro da sua estratégia, Spínola procurou estabelecer o diálogo com o opositor. Militarmente criou as condições que lhe permitiam aceitar o diálogo numa posição cómoda; conservou o controlo do leste e impediu a sublevação do «chão» manjaco.
 O Marechal tinha a plena consciência que o problema da Guiné não era possível de resolver sem o PAIGC. Mas esta tentativa não ia ser fácil de realizar. Spínola conseguiu interessar no caso o Presidente Senghor do Senegal, que se prestou a servir de intermediário.

Em 1971, Léopold Senghor informou António de Spínola que Amílcar Cabral estava disposto a encontrar-se com ele em Bissau para negociar a autonomia da Guiné.
O governador-geral da Guiné pediu, por escrito, ao primeiro-ministro português autorização para o encontro. Alegou que, se a oportunidade não fosse aproveitada, Portugal poderia perder a situação transitória de vantagem militar. Era conveniente negociar em posição de força. Marcello Caetano recusou.
A Operação Mar Verde tivera lugar em Janeiro de 1970. Fragilizara a imagem de Portugal no mundo e reforçara a posição dos nacionalistas.
Em Maio de 1972, Spínola e Senghor encontraram-se num complexo turístico de Casamance, a sul do Senegal.
Carlos Fabião acompanhou o general e resumiu as conversações.
Senghor levava uma proposta estudada. Tratava-se, no essencial, de interromper as hostilidades e de entregar o poder, na Guiné e em Cabo Verde, durante um período transitório de dez anos, a uma administração mista, constituída por elementos nomeados pelo PAIGC e pelo governo português. Presumia-se que, no final desse período, fosse acordada a independência.
Curiosamente, o projeto estava em conformidade com as ideias defendidas por Caetano anos atrás. Por outro lado, dificilmente teria sido formulado sem o consentimento tácito de Amílcar Cabral, um homem que o destino pusera à frente de um movimento armado mas a quem o feitio predispunha às negociações.
Era a solução política que Spínola perseguia. 
     Caetano recusou. Mudara de ideias. Em 1972, considerava que, no quadro global da guerra em três territórios, a derrota militar na Guiné era preferível à negociações. O governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par. Logo que chegou à fase de concretização do Plano, Marcelo Caetano proibiu a Spínola a continuação dos contactos e negociações com o argumento de que na Guiné se aceitava um desastre militar mas nunca uma cedência política.
Face a esta posição de intransigência e de cegueira política do governo português, perdeu-se, ingloriamente, a última oportunidade de se poder negociar uma solução política para a guerra da Guiné.

… Ao Marechal Spínola não restava outra solução que não fosse a de continuar a guerra. Como tinha a plena consciência de que esta era uma solução antinacional, ia começar a conspirar. Só restava uma alternativa: o derrube do governo que impunha uma guerra desgastante e impossível de vencer…

Amílcar Cabral foi assassinado em Janeiro de 1973. Depois da sua morte, o PAIGC intensificou os ataques contra as forças portuguesas.
Numa carta enviada a Caetano em Março de 1973, Spínola afirmava que a continuação de ações exclusivamente militares levaria a um desastre semelhante ao que ocorrera em Goa.
As coisas estavam a correr mal às nossas tropas. As operações Nô Pincha, no norte do território e Amílcar Cabral, no sul desequilibraram a situação militar. Começaram a ser utilizados mísseis terra-ar SAM-7 Strela, de fabrico soviético. Em quinze dias, foram abatidos cinco aviões das FAP. Sem apoio aéreo, o moral de oficiais e soldados portugueses foi-se abaixo. O PAIGC tomou a praça-forte de Guilagé e apoderou-se de artilharia e de material de transmissões. Nesse mesmo dia, Spínola pediu a exoneração das funções que desempenhava e informou o ministro do Ultramar e o Chefe do Estado-Maior general das Forças Armadas, General Costa Gomes, de que a derrota militar já não poderia ser evitada. A ofensiva do PAIGC só foi interrompida pela chuva, a meio do ano. As derrotas portuguesas sucediam-se umas às outras. Cabral triunfava, meio ano após a sua morte.