DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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domingo, 21 de abril de 2013


                                             AMÍLCAR CABRAL

                                                               XII

            OPERAÇÃO MAR VERDE



              O ATAQUE A CONAKRY





          Antes da 1 da manhã de 22 de Novembro de 1970, um grupo de 14 fuzileiros especiais iniciou o ataque às oito embarcações militares acostadas no porto de Conakry. Os navios foram tomados de surpresa. Os fuzileiros afundaram três vedetas e deitaram fogo a outras quatro com granadas incendiárias.
Outro pequeno grupo de combate atacou a central elétrica e deixou metade da capital guineense às escuras.
A bordo do navio chefe Orion avistou-se o clarão das explosões e o fogo de armas ligeiras do lado do porto e assistiu-se ao apagar das luzes de parte da cidade. As coisas tinham começado bem.
Não aconteceu assim com todos os objectivos programados. Logo no começo da missão, o capitão Morais, que comandava o grupo de paraquedistas encarregado de tomar o aeroporto, comunicou via rádio para o seu navio de apoio: o filho da puta do tenente Januário fugiu com vinte dos meus homens; traiu-me miseravelmente. Não foi possível destruir os MIG`s, que não estavam no aeroporto nem nos hangares. O serviço de informações falhara. Os MIG`s tinham sido transferidos dias antes para Labé, cerca de 150 quilómetros a norte da capital. 
 Sem o necessário domínio do espaço aéreo, a operação corria um risco sério de fracasso.
Um grupo de assalto atacou as instalações do PAIGC, destruindo edifícios e viaturas e abatendo vários militares. As residências dos dirigentes foram também assaltadas, mas Amílcar Cabral não se encontrava em Bissau. A “inteligência falhara outra vez.
Outro grupo, composto por fuzileiros, tomou de assalto o complexo residencial de Sekou Touré, que estava noutra parte da cidade. Foi atacado o Grupo das Milícias Populares.
Na prisão La Montaigne estavam detidos 25 militares portugueses. Contava-se entre eles o sargento aviador António Lobato, preso desde que o se T6 se despenhara, em maio de 1963. Foram libertados, depois de se abrir um rombo no muro, a tiro de bazooka.
Um grupo de 40 homens integrando comandos africanos e membros do Front e comandada por Tomás Camará e pelo alferes Ferreira, atacou a Gendarmerie, há pouco transformada em prisão política. Ouçamos o então furriel Marcelino da Mata, que integrou este grupo:

    No dia 19 de Novembro de 1970 arrancámos para Conackry com uma companhia de Comandos e um destacamento de Fuzileiros especiais guineenses, que só souberam para onde iam já dentro dos barcos – só os oficiais e eu sabíamos antes. Houve tipos que começaram a chorar, porque se contavam muitas histórias acerca de Conackry: um furriel enfermeiro, que tinha andado no PAIGC e se entregou, dizia que estava tudo eletrificado, que se tocava num arame e morríamos todos  e eu perguntei-lhe como é que eles tinham dinheiro para fazer armadilhas elétricas, se nem tinham dinheiro para comer.  O meu grupo de assalto, com quarenta homens era comandado por um alferes branco (Abílio Rodrigues Ferreira) que ia na sua primeira operação: era de Administração, com a especialidade “ranger” e nunca tinha ouvido um tiro em combate; recebeu a informação de que o seu objetivo era tomar o controlo de um quartel onde estavam apenas 30 homens; afinal era um regimento de tropas especiais (Guarda Nacional da Guiné-Conackry) que tinha sido treinado por checos.
   Fui o primeiro a entrar no quartel. Entrei sem arma. Não tinha arma, só tinha uma faca e o cantil da água, porque quando desembarquei do barco para o bote deixei cair a arma ao mar. Quando cheguei à porta de armas estavam lá 4 pessoas a conversar. Viram-me, avisaram as sentinelas e fecharam o portão. Nós tínhamos chapéus grandes, do tipo daqueles que os americanos usam para não apanhar sol, enfiei o chapéu pela cabeça, mandei uma cabeçada no vidro e entrei pela janela. Caí em cima da mesa do sargento da guarda, ele pôs-se debaixo da mesa e dei-lhe 2 punhaladas, matei-o. Depois, dei a volta e fui abrir o portão e o grupo entrou. Mal entrámos, o corneteiro começou a tocar a corneta e os gajos começaram a aparecer. O alferes, em vez de entrar, ficou ao meu lado e levou uma rajada. A partir daí dei ordem para abater tudo o que aparecesse. Ou morríamos ou matávamos. A nossa sorte foi que eles não valiam nada – éramos quarenta e ao fim de meia hora tomámos conta do quartel. Agarrámos os inimigos e pusemo-los sentados debaixo do pau da bandeira. Só tivemos um morto, que foi o alferes.

Foram libertados cerca de 600 presos e abatidos todos os militares inimigos que foram encontrados. No final da missão, o grupo apoderou-se dum jipe para transportar o corpo do alferes Ferreira.
A grande altitude, um grupo de MIG sobrevoou a flotilha portuguesa, sem atacar. Provocou ansiedade ente a nossa gente, apesar de o sargento António Lobato ter informado Calvão de que os pilotos guineenses ainda não tinham completado a formação e dificilmente seriam capazes de atingir uma força naval.
O comandante não podia arriscar mais os seus homens. Depois de recolherem todo o pessoal desembarcado, os navios formaram em losango e navegaram de regresso à ilha de Sogo. Traziam dois mortos e um ferido grave. A operação em terra durara cerca de dez horas.
Não ocorreu o esperado levantamento popular contra Sekou Touré. A centena de elementos do Front que participara na operação optou por ficar em terra. Foi vencida e liquidada pelo exército da República da Guiné.
Spínola ficou transtornado com o resultado da operação. Sonhara com o Golpe de Estado que iria destituir Sekou Touré e instalar no poder um governo favorável aos interesses portugueses.
 Alpoim Calvão afirmaria anos mais tarde que Amílcar Cabral, se fosse capturado, seria transportado para Bissau enquanto Sekou Touré seria entregue aos elementos da Front. Escreveu no seu relatório: sob o ponto de vista estritamente militar, a operação decorreu de forma muito satisfatória; o estado actual de funcionamento dos nossos serviços de informações é confrangedor.


sábado, 20 de abril de 2013





                                         AMÍLCAR CABRAL

                                                              XI

                  OPERAÇÃO MAR VERDE

                      (PREPARAÇÃO)



Para preparar em segredo a operação, foi improvisado um aquartelamento na ilha isolada e despovoada de Sogo, no arquipélago dos Bijagós. Foram ali treinados os opositores ao regime de Sekou Touré que iriam participar naquela aventura. Os cuidados com a preparação foram levados ao ponto de conduzir para lá umas tantas prostitutas de Bissau. Quem entrava na ilha não saía, até ao final da operação.
Conta Marcelino da Mata, lendário comando africano de exército português, que ajudou a preparar os opositores de Sekou Touré:

Um dia apareceu-me em Farim, o comandante Alpoim Calvão e disse que precisava que eu fosse para Cabo Verde dar recruta aos cabo-verdianos, de quem eu não gostava. Uma semana depois, estava no mato, veio um helicóptero buscar-me; também fui de helicóptero de Bissau para a ilha de Sogo. No dia seguinte, encostou lá uma lancha de desembarque militar, com uns gajos pretos e a falar uma língua que eu não conhecia.
No terceiro dia apareceu o Calvão, que me disse para eu os preparar. Eles falavam francês, mas eu não percebia nada de francês e perguntei-lhe: “Como é que eu vou preparar estes gajos se não percebo a língua deles?”. Ele então arranjou-me um intérprete, um guineense que vivia no Senegal e falava crioulo e francês. Eram homens da Guiné-Conackry. A princípio eram uns 30.
 Depois apareceu o Rebordão de Brito e perguntou-me o que é que nós estávamos ali a fazer. Disse-lhe para ter calma, porque eu também não sabia de nada. Foram vindo mais grupos de homens da Guiné-Conackry, até que se juntaram 400; eu e o Rebordão éramos os únicos portugueses e dávamos-lhes instrução. Passámos sete meses nisto, ninguém mais sabia de nada a não ser o Calvão e Lisboa.

Um fuzileiro naval que desertara e que, arrependido, se voltara a apresentar às nossas forças, deu um contributo precioso para o planeamento do ataque. Ajudou e explicar a carta da cidade e serviu de guia após o desembarque.
Alguns dos oficiais portugueses chamados a participar na operação manifestaram  frontalmente discordância. Houve quem argumentasse que o ataque à capital de um país com o qual Portugal não estava em guerra poderia acarretar consequências deletérias para o interesse nacional. Spínola e Calvão mantiveram-se firmes. Alguns descontentes foram ameaçados com sanções disciplinares e o major Leal de Almeida recebeu mesmo voz de prisão. Acabaria por participar na ação militar, apesar do desagrado de Alpoim Calvão.
Não era imaginável deixar em Conakry vestígios diretos da presença de militares portugueses. Amadú Bailo Djaló, outro comando africano do exército português descreveu nestes termos os últimos preparativos para a invasão de Conakry:

O comandante falou sobre a forma como devíamos agir. Primeiro, não levávamos as nossas fardas, nem as nossas armas. Levávamos Kalashs e íamos vestidos com roupa do PAIGC, equipamentos, chapéus, tudo de cor castanha. Segundo, que havia um capitão do Exército da Guiné-Conakry que comandava uma companhia que ia connosco. E terceiro que todos nós levávamos um braçal, de cor verde, no ombro esquerdo que serviria de sinal da operação “Mar Verde”. E que qualquer pessoa que, em Conacry, nos mostrasse um pano, grande ou pequeno, desde que fosse de cor verde, era dos nossos. Tínhamos, em Conakry, gente à nossa espera, mesmo militares que apoiavam a nossa ação.


Os navios que faziam parte da flotilha foram pintados de cores diferentes das habituais na Marinha portuguesa e as inscrições identificadoras foram apagadas. Os militares portugueses brancos pintaram o corpo de preto.
Voltemos ao relatório do 1º cabo Djaló, referente ao início da operação:
Por volta das 10.00, avistámos um barco muito velho a navegar na nossa direção. Trazia o general Spínola, corremos para a formatura. Quando chegou, o capitão João Bacar mandou apresentar armas, o general correspondeu à continência e depois iniciou um pequeno discurso.
Que se não fosse governador ia connosco. Mas que nós iríamos participar com o espírito dele e que havíamos todos de regressar, se Deus quisesse. Gritámos o nosso grito “Comandos ao ataque”, três vezes. Depois desse grito, já não podíamos voltar atrás, era o nosso juramento.



 A flotilha zarpou, de luzes apagadas, no começo da noite do dia 20. Uma força do Exército tinha sido colocada de prevenção em Buruntuma, próximo da fronteira da República da Guiné. Os aviões FIAT G91 estavam prontos a descolar. De pouco serviriam, se os velozes MIG da República na Guiné não fossem previamente neutralizados no solo. 



sexta-feira, 19 de abril de 2013


                 AMÍLCAR CABRAL

                                X

      OPERAÇÃO MAR VERDE

      

        AS CIRCUNSTÂNCIAS




A Segunda Grande Guerra Mundial fragilizou de vez a velha Europa e as antigas potências coloniais deixaram de ter poderio económico e militar suficientes para conservarem os seus imensos impérios. A Europa já não era o centro do mundo. Teve de se adaptar aos novos equilíbrios de poder. Tanto os inimigos como os aliados oficiais da França, Inglaterra, Holanda, Congo Belga, Espanha e Portugal cobiçavam a liberdade de comércio nas possessões que estes países tinham conservado durante séculos.
A História de África não decorreu da maneira que é ensinada nos compêndios escolares das novas nações. Todos os países, e nós também, embelezam os seus passados de forma a incrementar a autoestima dos seus nacionais. Não fosse o apoio empenhado da União Soviética e dos Estados Unidos da América e a história das independências africanas teria levado algumas décadas mais a escrever. Alguns países de mentalidade pragmática, como o Reino Unido, mediram cedo os ventos da História e cederam prontamente perante forças que não podiam controlar. Outros, como a França e Portugal, envolveram-se em guerras inglórias.  
Por volta de 1970, quase todas as antigas colónias europeias na África e na Ásia tinham obtido o estatuto de nações independentes. O governo de Lisboa agarrava-se obstinadamente ao seu velho império. As grandes organizações internacionais condenavam a persistência da política colonialista portuguesa e até o Vaticano recebia oficialmente os líderes das nossas colónias. Se não estávamos orgulhosamente sós, como terá dito Salazar, pouca companhia tínhamos, para além da África do Sul.
Em geral, nem a vida nem a política são lineares. Numa e noutra, abundam os meandros. Curiosamente, a Operação Mar Verde foi secretamente apoiada por países da NATO, receosos de que a independência de Cabo Verde facilitasse a instalação de bases militares soviéticas naquele arquipélago, alterando o equilíbrio geoestratégico vigente.
Portugal nunca esteve em guerra com a República da Guiné. No entanto, beneficiando da conjuntura internacional, o presidente Sekou Touré acolhia fraternalmente no seu território os guerrilheiros que combatiam os portugueses. Ali tinham campos de treino e ali encontravam abrigo sempre que necessário. Era pelo território da Guiné-Conakry que entrava o armamento destinado ao PAIGC, ainda que as más-línguas dissessem que os guineenses, quando podiam, ficavam com parte das remessas. Conakry era a residência habitual de Amílcar Cabral. Funcionava na capital guineense uma escola-piloto para quadros do partido. O facto provavelmente mais grave era a existência, num país soberano oficialmente alheio ao conflito armado, de uma prisão onde eram aferrolhados os prisioneiros de guerra portugueses. Seriam razões de sobra para Portugal levar a cabo ações militares contra a República da Guiné e dos seus dirigentes, se fosse outro o panorama político internacional.
Em Janeiro de 1970, o comandante Alpoim Calvão ia nos 33 anos. Foi ele quem apresentou ao general António de Spínola, comandante militar e governador-geral da Guiné portuguesa, a proposta da operação que viria a ficar conhecida sob o nome de “Mar Verde”. Os seus objetivos podiam dividir-se em cinco alíneas:
1 – Promover um golpe de estado na República da Guiné-Conakry, de forma a substituir o regime de Sekou Touré por outro mais favorável aos interesses portugueses.
2 – Atingir as instalações do PAIGC em Conacry, provocando o maio número possível de baixas entre o inimigo.
3 – Eliminar as embarcações de guerra do PAIGC abrigadas no porto de Conakry.
4 – Capturar ou eliminar Amílcar Cabral.
5 – Libertar os militares portugueses detidos na prisão do partido.
Spínola deu o seu aval ao ataque a Conacry. Ao serem informados do projeto, tanto o ministro do Ultramar, Silva Cunha, como o ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo se opuseram a ele. Temiam as repercussões internacionais do ataque a Conakry. Foi o próprio Alpoim Calvão quem se deslocou a Lisboa para entregar pessoalmente ao primeiro-ministro português Marcello Caetano uma carta do general Spínola. Caetano autorizou o desencadear da operação.
Alpoim Calvão é uma figura incontornável da guerra da independência da Guiné. Apesar da sua juventude, foram-lhe confiadas a preparação e o comando da operação. Chegou a exercer diplomacia paralela. Deslocou-se várias vezes a Genebra e a Paris, acompanhado de um graduado da DGS (PIDE) para contactar individualidades do “Front” que se opunha a Sekou Touré. Tratava-se de estabelecer alianças para o futuro e de conseguir informações que facilitassem a expedição naval a Conakry.
Nenhum aspecto da preparação foi descurado. Três elementos do "Front" mudaram-se para Bissau onde elaboraram uma lista das individualidades que iriam integrar o governo de Conakry após o afastamento de Touré. Chegaram a ser escritas as primeiras declarações a serem emitidas pela rádio em casa de vitória do golpe.

sábado, 13 de abril de 2013


          AMÍLCAR CABRAL


                      V

POR TRÁS DOS ASSASSINOS

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. 
Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Mamamou Djai era mesmo o responsável pela sua segurança.
Os assassinos (Inocêncio Cani, Mamou Touré, Bacar Cani, Aristides Barbosa, Mamadou N`Djai e outros) eram membros guineenses do PAIGC. Pretenderiam afastar da direção do partido os cabo-verdianos e “brumedjos” (mulatos guineenses).
        Alguns revoltosos confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.  
        Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Todos os cabecilhas do assassínio de Amílcar Cabral estiveram presos juntos na cadeia do PAIGC, “A Montanha”, entre abril e setembro de 1971.             
 Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e de penas de prisão. Alegadamente, Amílcar Cabral protegeria os cabo-verdianos, por quem distribuiria cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Segundo Fernando Baginha, “havia desentendimentos por vezes violentos entre Cabral e Osvaldo Vieira, devido a problemas de condução militar das operações. Os «homens do mato» eram os executores da guerra e Cabral permitia-se, por vezes depois de longas ausências no estrangeiro, alterar completamente planos já estabelecidos. Para mais, Cabral já não entrava nas zonas libertadas da Guiné-Bissau havia cerca de três anos.”
         A 20 de Janeiro de 1973, Osvaldo Vieira estava em Conakry. Terá assistido a tudo, sem nada fazer para evitar a tragédia. Foi levado, sob prisão, para Madina do Boé. Algum tempo mais tarde, foi veiculada a informação de que teria sucumbido a um problema gástrico. Terá sido executado. Não integrou a lista dos culpados oficiais pela morte do líder histórico do PAIGC, de que constavam apenas cinco nomes.
        Sekou Touré não autorizou fuzilamentos dentro do território da República da Guiné. Os implicados no golpe foram levados para o interior da Guiné-Bissau. Após o inquérito do PAIGC, foram executados cerca de 100 presumíveis implicados no golpe. Osvaldo Vieira foi um deles. 
Conhecem-se as mãos criminosas. Quem as terá ajudado, se é que foi precisa ajuda?
        Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas.
 No Portugal daquele tempo, atribuía-se à PIDE tudo o que de mau acontecia no país. A verdade é que a PIDE/ DGS detinha menos poder do que se supunha. A probabilidade de elementos da PIDE terem estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenham participado na conjura. 
        Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
        O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
        No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie.Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
        Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais, com a participação de Samora Machel. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.

     O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Stinger que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes. 

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes.