DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
Mostrar mensagens com a etiqueta História de África. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História de África. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de abril de 2013


          AMÍLCAR CABRAL


                      V

POR TRÁS DOS ASSASSINOS

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. 
Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Mamamou Djai era mesmo o responsável pela sua segurança.
Os assassinos (Inocêncio Cani, Mamou Touré, Bacar Cani, Aristides Barbosa, Mamadou N`Djai e outros) eram membros guineenses do PAIGC. Pretenderiam afastar da direção do partido os cabo-verdianos e “brumedjos” (mulatos guineenses).
        Alguns revoltosos confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.  
        Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Todos os cabecilhas do assassínio de Amílcar Cabral estiveram presos juntos na cadeia do PAIGC, “A Montanha”, entre abril e setembro de 1971.             
 Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e de penas de prisão. Alegadamente, Amílcar Cabral protegeria os cabo-verdianos, por quem distribuiria cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Segundo Fernando Baginha, “havia desentendimentos por vezes violentos entre Cabral e Osvaldo Vieira, devido a problemas de condução militar das operações. Os «homens do mato» eram os executores da guerra e Cabral permitia-se, por vezes depois de longas ausências no estrangeiro, alterar completamente planos já estabelecidos. Para mais, Cabral já não entrava nas zonas libertadas da Guiné-Bissau havia cerca de três anos.”
         A 20 de Janeiro de 1973, Osvaldo Vieira estava em Conakry. Terá assistido a tudo, sem nada fazer para evitar a tragédia. Foi levado, sob prisão, para Madina do Boé. Algum tempo mais tarde, foi veiculada a informação de que teria sucumbido a um problema gástrico. Terá sido executado. Não integrou a lista dos culpados oficiais pela morte do líder histórico do PAIGC, de que constavam apenas cinco nomes.
        Sekou Touré não autorizou fuzilamentos dentro do território da República da Guiné. Os implicados no golpe foram levados para o interior da Guiné-Bissau. Após o inquérito do PAIGC, foram executados cerca de 100 presumíveis implicados no golpe. Osvaldo Vieira foi um deles. 
Conhecem-se as mãos criminosas. Quem as terá ajudado, se é que foi precisa ajuda?
        Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas.
 No Portugal daquele tempo, atribuía-se à PIDE tudo o que de mau acontecia no país. A verdade é que a PIDE/ DGS detinha menos poder do que se supunha. A probabilidade de elementos da PIDE terem estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenham participado na conjura. 
        Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
        O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
        No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie.Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
        Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais, com a participação de Samora Machel. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.

     O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Stinger que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes. 

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes. 

                                             
                   AMÍLCAR CABRAL


                                IV
            
              O ASSASSINATO

Sobre a morte do líder histórico do PAIGC sabe-se quase tudo e quase nada.
O crime aconteceu em Conakry. As circunstâncias foram relatadas pelo jornalista moçambicano Aquino de Bragança e coincidem com a versão oficial dos factos.
Passava das vinte e duas horas da noite de 20 de janeiro de 1973. Amílcar Cabral, acompanhado da esposa Ana Maria, tinha saído de uma receção na Embaixada da Polónia. Segundo uma versão, o casal teria seguido no carro do embaixador russo. De acordo com outros, Cabral teria preferido conduzir o seu Volkswagen. Quando o casal abandonou o automóvel, já perto de casa, um grupo de militantes do seu partido barrou-lhe o caminho. Cabral foi atingido a tiro a curta distância. Apesar da falta de iluminação, Ana Maria Cabral foi capaz de identificar alguns dos assassinos. Conhecia-os bem.
À hora do atentado, a maioria dos dirigentes do PAIGV estava a assistir a uma palestra de Joaquim Chissano nas instalações da escola-piloto do Partido.

                    Fotografado com o assassino
Amílcar Cabral na União Soviética.
O marinheiro da direita é Inocêncio Cani.

 Os assassinos (Inocêncio Cani, Momo Touré, Bacar Cani, Aristides Barbosa e outros) eram membros guineenses do PAIGC. Pretenderiam afastar da direção do partido os cabo-verdianos e “brumedjos” (mulatos guineenses).
Quase simultaneamente, outro grupo de conspiradores sequestrou Aristides Pereira, secretário-geral adjunto do PAIGC e conduziu-o ao porto de Conakry onde o fez embarcar numa vedeta que zarpou, juntamente com outras duas, alegadamente em direção a Bissau. Segundo algumas fontes, a intenção dos conjurados não era eliminar fisicamente os dirigentes cabo-verdianos do Partido, mas sim entregá-los às autoridades portuguesas. Há também quem sugira que estava planeado conduzi-los até o interior da Guiné-Bissau, a uma zona controlada pelos guerrilheiros, para aí serem “julgados”. Amílcar Cabral estaria armado, o que não é de surpreender. Terá oferecido resistência aos atacantes.
Logo após a morte de Cabral e o sequestro de Aristides Pereira, os revoltosos prenderam vários quadros do PAIGC que saíam da reunião que atrás referimos com a comitiva moçambicana.
Tratou-se de uma conspiração anunciada. Os segredos em Conakry eram difíceis de guardar e havia muita gente que sabia que estava a ser preparado um atentado. Amílcar Cabral recebeu vários avisos. Foi informado por elementos duma delegação da FRELIMO, que se encontrava de visita à capital guineense. A informação terá sido confirmada por dois diplomatas da Embaixada da Checoslováquia em Conakry e por enviados do próprio Sekou Touré. Cabral subvalorizou o perigo que corria.
Ainda nessa noite, uma comitiva de conjurados, encabeçada por Mamou Touré, foi acolhida no palácio presidencial. Contaria aparentemente com o pragmatismo de Sekou Touré, que poderia estar disposto a aceitar as mudanças no PAIGC. À reunião, além de todos os membros do governo guineense, compareceram os embaixadores de Cuba e da Argélia e ainda Samora Machel, presidente da FRELIMO. Os conspiradores terão admitido a autoria da morte de Cabral.
No final dessa reunião, Sekou Touré terá ordenado o resgate de Aristides Pereira. Na versão oficial dos acontecimentos, a operação foi levada a cabo por militares guineenses. Na realidade, foi efetuada pelo contratorpedeiro russo “Experiente” que patrulhava as costas da Guiné-Conakry a pedido das autoridades guineenses que procurariam evitar ataques navais portugueses do tipo da operação Mar Verde, lançada pelos fuzileiros especiais em Outubro de 1970.   
Sékou Touré ouviu os revoltosos. No final da reunião, mandou-os prender.
Jean-Paul Alatas, um francês preso desde 1970 por cumplicidade na operação Mar Verde testemunhou a entrada dos revoltosos na prisão e descreveu-a, anos mais tarde. Eram três dezenas de pessoas, descalças e vestidas com camuflados, com a cabeça erguida, parecendo muito orgulhosos do que tinham feito. Esperavam que o presidente da Guiné- Conakry acabasse por apoiar o golpe.

sexta-feira, 12 de abril de 2013






                                AMÍLCAR CABRAL

                                  III
                 CABO VERDE

Em Cabo Verde, nos últimos meses, não há notícias escaldantes a explorar. Escolhemos duas que nos parecem ter algum significado, tanto atual como prognóstico.

A SEMANA, primeiro diário cabo verdiano em linha, em 9/4/2013.
FITCH BAIXA RATING DE CABO VERDE DE ESTÁVEL PARA NEGATIVO
A agência Fitch baixou rating de Cabo Verde de estável para negativo, o que torna o país menos atrativo para os investidores. Esta perspetiva negativa constitui também mais um obstáculo no acesso ao crédito internacional, numa altura em que se aproxima o término da transição para País de Rendimento Médio, alcançado em 2008.
O crescimento do PIB cabo-verdiano foi mais fraco do que as previsões. A estimativa é agora de 2,6%, em lugar de 5,1%. O défice orçamental subiu de 9,5 em 2012 para 12,3 em 2013. A expansão da base tributária em 2013, com a introdução de vários impostos, foi neutralizada pelos aumentos dos custos de salários públicos, bens e serviços.

A SEMANA (também a 9/4/2013)
FERNANDA MARQUES ABRE CONFERÊNCIA SOBRE MEIO AMBIENTE
Fernanda Marques, Ministra da Educação e Desportos, abre esta quinta-feira, 04, a 2ª edição da Conferência Nacional Infanto-Juvenil  pelo Meio Ambiente, no Salão Josina Machel do Liceu Domingos Ramos, cidade da Praia.
O Ministério da Educação e Desporto pretende desenvolver nos sistemas de ensino a preocupação com o ambiente, em especial com as mudanças climáticas e a proteção do ambiente costeiro e marítimo.

As preocupações parecem radicalmente diferentes em cada um dos países apreciados. Aceitamos que a escolha das notícias possa ser criticada. No entanto, não procurámos influenciar os leitores, mas apenas fornecer-lhe termos de comparação. Apesar da pobreza do território e do flagelo das secas, a República de Cabo Verde é uma das democracias mais amadurecidas de África. As estatísticas permitirão uma comparação mais aproximada das duas realidades.
Superfície – 4.000 quilómetros quadrados
População – 500.000 habitantes
Economia – A agricultura é frágil. Cerca de 90% dos produtos alimentares consumidos são importados. As exportações de pescado são reduzidas. Os serviços (comércio, transportes e serviços públicos) formam cerca de 70% do PIB. As remessas de emigrantes constituem perto de 20% do PIB. O turismo contribui de forma crescente para a formação de riqueza no arquipélago. O número de visitantes anuais já ultrapassou o da população local. Entre 2000 e 2009, o PIB cresceu anualmente cerca de 7%.
Rendimento per capita – 3.947 dólares (International Monetary Fund, 2011)
Saúde – A população cabo-verdiana é das mais saudáveis de África. A prevalência da SIDA e da malária são relativamente baixas.
Expectativa de vida ao nascer - 77.7  anos para o sexo feminino e 70,5 para o masculino.
Mortalidade materna (número de mortes de mãe por cada 100.000 nados vivos) – 79 (Fonte: CIA, World Factbook na Wikipedia).
Mortalidade infantil até 1 ano, por 100.000 nados-vivos - 26,02 (Estimativas da CIA World Factbook, na Wikipedia).

Seriam a Guiné – Bissau e Cabo Verde muito diferentes do que são hoje se Amílcar Cabral não tivesse existido? A dúvida permanece. Muitos historiadores retiram importância às individualidades no desenrolar do processo histórico. Escreveu Julião Soares, guineense e biógrafo de Amílcar: tornou-se moda, no decurso das últimas décadas, menorizar o papel das lideranças na formação da História, processo que envolve necessariamente o contributo de grandes massas populares. Sendo fútil reduzir o processo histórico à enumeração dos chefes e dos seus feitos, será limitativo ignorar o papel de alguns líderes que souberam interpretar claramente as aspirações dos seus povos em determinados períodos e acelerar ou lentificar as mudanças em curso.

quarta-feira, 10 de abril de 2013


                      AMÍLCAR  CABRAL

       A UTOPIA      
                             I
                 INTRODUÇÃO

 É costume dizer-se que as árvores se reconhecem pelos frutos. A luta a que Amílcar Cabral dedicou a sua vida esteve na origem do nascimento de dois países, em lugar da nação única que o sonhador pretendeu construir.
 Embora a História não detenha os seus passos, os trinta e nove anos decorridos sobre as independências permitem fazer análises com algum distanciamento. Eu e o Leston Bandeira combinámos, há alguns meses, escrever a meias um livro sobre a vida e a obra de Amílcar Cabral.
 Como tinha de ser, fui preparando a minha parte do trabalho, Tive, contudo, dificuldade em imaginar maneira eficaz de abordar o tema. As biografias estão feitas e algumas têm grande qualidade. O recurso à ficção pareceu-me difícil e desajustado do projeto.
 Ocorreu-me há dias uma estratégia diferente para me aproximar de Amílcar Cabral. Trata-se de escrever uma série de artigos, um pouco detrás para a frente, embora sem respeitar rigorosamente a cronologia. Poderemos intercalar escritos do próprio e dos seus adversários com apontamentos históricos e biográficos e ainda com as nossas opiniões pessoais, que não terão necessariamente de coincidir. Temos vivências substancialmente distintas. Une-nos o facto de, enquanto europeus, partilharmos um grande amor a África.
     Recorreremos a excertos dos textos de Amílcar Cabral, abreviando-os quando parecer necessário, mas tendo o cuidado de nunca lhes modificar o sentido. 
       Um projeto assim presta-se a ir sendo publicado enquanto se progride. O tamanho dos capítulos que imaginei adapta-se ao formato de blogue. Irá começar assim. No final, há de valer a pena reuni-los em suporte de papel. 
      Os eventuais leitores poderão assistir ao nascimento de um livro e colaborar nele com comentários.  

                                                           António Trabulo