DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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quarta-feira, 28 de março de 2018



 KARL MARX

I


Comemora-se, este ano, o segundo centenário do nascimento de Karl Marx, o economista, filósofo e político que ajudou a fundar a sociologia como ciência. Há quem diga e escreva que se tratou de uma das personalidades mais influentes na História da Humanidade, logo a seguir a Jesus Cristo. 
Eu fui cristão e depois marxista, em fases sucessivas dos meus anos mais verdes. Hoje não sou uma coisa nem outra. Deixei de acrescentar “ismos” ou “istas” à minha forma de pensar, que nem sequer é bem sistematizada e assenta mais em dúvidas que em convicções. Esse facto não retira Cristo nem Marx do meu património cultural. Foram ambos humanistas.
Em termos de solidariedade moral e social, Karl Marx foi, a meu ver, mais além que Jesus Cristo, o que não é de admirar, dados os quase dois milénios que separam os pensamentos de ambos. “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades” é um princípio que, no meu entender, ultrapassa as normas cristãs de fraternidade.
Tenciono ir apresentando, neste blogue, algumas reflexões sobre Karl Marx, o marxismo e as implicações que tiveram no mundo. É provável que especule sobre as que poderão vir a ter no futuro.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

                                   
                              AMÍLCAR CABRAL     

                                           LVIII                   

     AMÍLCAR CABRAL – A ALMA E AS CONTRADIÇÕES




Para alguns escritores e jornalistas, Amílcar Cabral foi o maior pensador político africano do seu tempo.
Muitos intelectuais vindos das colónias interiorizaram o marxismo, muito em voga nas universidades europeias que frequentavam. Ora, Karl Marx elaborara as suas teorias a partir do conhecimento da história, da sociologia e da economia das sociedades europeias industrializadas. A África não entrara nas suas contas. Compreende-se que os pensadores negros tenham sentido a necessidade de adaptar o marxismo ao continente africano, em que tanto o proletariado como a burguesia constituíam minorias sociais.
Cabral propôs modificações a aspetos fundamentais da teoria marxista-leninista e houve quem lhe chamasse neomarxista.
A mais importante das suas reflexões diz respeito à luta de classes como motor da história. Na inexistência desse motor, quase todos os povos africanos eram excluídos dela.
«Será que a história só começa a partir do momento em que se desencadeia o fenómeno classe e, consequentemente, a luta de classes?
Responder pela afirmativa seria situar fora da história todo o período da vida dos agrupamentos humanos, que vai da descoberta da caça e, posteriormente, da agricultura nómada e sedentária à criação do gado e à apropriação privada da terra. Mas seria também — o que nos recusamos a aceitar — considerar que vários agrupamentos humanos da África, Ásia e América Latina viviam sem história ou fora da história no momento em que foram submetidos ao jugo do imperialismo.»
A intrusão colonial em África interrompera o processo de desenvolvimento natural dos povos indígenas. Nem Amílcar, nem qualquer teórico da Negritude, se preocupou em quantificar o tempo de evolução que o esperava: séculos ou milénios.
«O nível das forças produtivas, determinante essencial do conteúdo e da forma da luta de classes, é a verdadeira e a permanente força motora da história.»
As trocas culturais tiveram muitas vezes custos sangrentos, mas conduziram a Humanidade para diante. Os países colocados nas charneiras das civilizações chocaram culturas novas. Portugal estava no extremo da Europa. As ideias levavam anos a atravessar a Ibéria, quase sempre transportadas por povos que a história tornara nómadas. Ao contrário, o norte de África entrou cedo na rota das civilizações. A sul, ficavam, primeiro, o deserto e, depois, a inóspita zona equatorial. Durante muitos séculos, uma parte importante da Península Ibérica foi colonizada por africanos.
Depois, a história seguiu o seu curso. Acabaram por ser os portugueses, que não tinham outro horizonte além do mar, os primeiros europeus a fazer chegar ao continente negro novas ideias e novos grilhões.
O colonialismo erodiu as culturas étnicas, mas só o fez muito devagar, começando pela população urbanizada. Os camponeses, mais distantes do colono e menos influenciados por ele, continuaram a ser os guardiões da tradição e do saber antigo. Os indígenas urbanos, muitas vezes descendentes de escravos que não chegaram a ser exportados e ficaram ao serviço dos patrões, assimilaram mais cedo a cultura europeia.
Um negro “assimilado” nem era de cá nem de lá e, às tantas, já não sabia se pertencia ao lado dos brancos ou o ao dos pretos. O apelo do modo de vida dos brancos era forte, mas os patrões não o aceitavam plenamente entre eles. Tratavam melhor a minoria que sabia falar a língua europeia e adotara o modo de vestir e o comportamento dos brancos, mas a cor da pele continuava bem à vista. Os outros negros desconfiavam dessa gente desenraizada.
Cabral não escreveu isso mas terá entendido que, a dada altura, todos, ou quase todos os negros assimilados desejaram ser brancos. Foi uma realidade que Frantz Fanon denunciou como intimamente fraturante.
Em termos históricos, esse fenómeno só atingiu um número importante de negros durante menos de um século. Antes da Conferência de Berlim e da ocupação efetiva do interior dos territórios, os contactos entre as raças davam-se apenas nas feitorias africanas do litoral, sendo muito mais limitados.
Alguns dos filhos das classes médias que iam nascendo nas colónias prosseguiam os estudos na antiga Metrópole. Conheceram o movimento da Negritude. A Negritude permitiu aos intelectuais negros o reforço do amor-próprio através da reafricanização das mentalidades.
Foi a essa pequena burguesia, a este grupo de assimilados, que coube o papel histórico de liderar as lutas de independência das colónias europeias em África. Boa parte dos quadros dirigentes do PAIGC, incluindo o próprio secretário-geral, provinha dela. O peso do pensamento teórico não deixava de assustar Amílcar Cabral. Os vícios da pequena burguesia tinham sido proclamados bem alto pela literatura marxista.  A conclusão de Amílcar foi radical:
«Os pequenos burgueses que construíram a sociedade nova devem suicidar-se como classe política para se integrarem verdadeiramente no meio do povo.»
A elite colonial que assumia a luta revolucionária devia renunciar aos seus privilégios de classe e à cultura assimilada à portugalidade. Era a utopia no seu melhor. Cabral não tinha razão. Até ver, o marxismo falhou em África.
Se alguém tiver necessidade de catalogar a ideologia de Cabral deverá fazê-lo de forma abrangente. O pensamento de Cabral tem tonalidades marxista, democrática e africana negra. Para Amílcar Cabral, a libertação nacional era também um ato de cultura.
Amílcar Cabral foi um homem afável, um teórico com sentido prático que completou a formação intelectual vivendo. Defendeu, mais do que outros, que a guerra de libertação só tinha valor se a provação infligida ao povo servisse para lançar os alicerces de uma nova nacionalidade.
O problema era que, mais do que outros, precisava dela. Cabral renegou a Portugalidade, que se opunha à Negritude. A questão é que as opções dum homem criam uma realidade nova, mas não apagam de todo a anterior. Não é possível amputar um membro nem lançar for metade do coração. Amílcar Cabral combateu o colonialismo. Fê-lo denodadamente, durante uma década, sem nunca deixar de todo de ser português.



segunda-feira, 10 de junho de 2013

                                     
                                                AMÍLCAR CABRAL

                                                              LII

                                                           

   EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO POLÍTICO


A minha geração aprendeu, na escola primária, a conhecer os nomes, os cognomes e os feitos de três dinastias de reis. O povo que fazia realmente a história ficava na sombra. D. Henrique, “O Navegador”, era filho de rei. Dos mareantes que iniciaram as descobertas, conhecem-se os nomes de alguns capitães. Dos comerciantes empreendedores que armaram as caravelas, pouco se sabe. Alguns historiadores levaram tão longe a revolta contra a interpretação personalizada dos acontecimentos que caíram no extremo oposto, menorizando sistematicamente o papel das lideranças. A verdade é que existiram homens que desenvolveram ao longo das suas vidas conjuntos de ações capazes de acelerar ou de retardar o processo histórico. Amílcar Cabral foi um deles.
Ninguém nasce ensinado. Cabral teve de apreender as ideias dominantes do ambiente que o rodeava. Na sua juventude, poderá ter sido partidário da adjacência. Alguns dos seus primeiros escritos sugerem a possibilidade de evolução de Cabo Verde à sombra da bandeira portuguesa.
Durante a guerra, enquanto Amílcar Cabral frequentava o liceu, permaneceu no Mindelo um destacamento de militares portugueses. Integrava oficiais milicianos que tinham interrompido os cursos. Os ideais marxistas começavam a expandir-se entre os estudantes universitários. É possível que Amílcar Cabral tenha feito os primeiros contactos com a literatura marxista-leninista ainda em Cabo Verde, no final da adolescência, mas não se conhecem dados que confirmem ou infirmem tal suposição.
Em Portugal, durante alguns anos, muitos estudantes africanos alinharam com a Esquerda portuguesa no combate comum contra a ditadura salazarista. O jovem Amílcar Cabral participou na luta política antifascista, em que os comunistas assumiam papéis de vanguarda. Agostinho Neto foi militante do Partido Comunista Português. Amílcar Cabral foi comunista, embora não tenha estado filiado no PCP.
Aos poucos, a interiorização dos movimentos do pan-africanismo e da negritude levou os universitários oriundos das colónias a mudar de estratégia. Chegava a “africanização dos espíritos”, a necessidade de conhecer a história e a cultura de África. Com ela, a questão das independências passou a ser encarada de modo diferente. Poderia (e talvez devesse) separar-se da luta pela democracia.
O pan-africanismo precedeu a formação das consciências nacionais africanas. Ajudou a resolver o conflito interno de quem se sentia, ao mesmo tempo, negro e português.
      Quaisquer dúvidas existentes quanto ao modo de pensar de Amílcar Cabral, ao menos em determinada fase da sua vida, serão desfeitas pela leitura do texto que apresentamos no capítulo seguinte. O líder do PAIGC não se limita a reproduzir ideias marxistas. Enriquece-as com as suas reflexões.
Uma das preocupações teóricas dos intelectuais africanos era adaptar o marxismo, que nascera em cidades europeias industrializadas, à África camponesa, em que os proletários tinham expressão demográfica reduzida.
    Outro tema de reflexão de Amílcar Cabral dizia respeito à ideologia pequeno-burguesa de boa parte dos quadros dirigentes do PAIGC, incluindo o próprio secretário-geral. A elite colonial que assumia a luta revolucionária devia renunciar aos seus privilégios de classe e à cultura assimilada à portugalidade. “Para se identificar com o seu povo em luta, teria de suicidar-se simbolicamente. Para existir, teria de aceitar morrer”.
Aos olhos de Amílcar Cabral e de muita gente, o mundo, antes da Segunda Grande Guerra, estava dividido em dois blocos inconciliáveis. De um lado, perfilavam-se o fascismo e o colonialismo. Do outro, a democracia e o socialismo. Esperava-se que o fim do conflito pusesse termo à exploração do homem pelo homem e permitisse o estabelecimento de uma nova ordem mundial. Os regimes totalitários foram derrotados, mas os vencedores logo se desentenderam. Apressaram-se a dividir a Europa ao meio e a desencadear uma guerra “fria” pelo controlo do planeta. Estavam, contudo, criadas as condições para o começo da dignificação de raças humanas até então menorizadas.
No final da década de 50, as ideias universalistas de Amílcar Cabral foram ganhando formas mais concretas. Para libertar a Humanidade era necessário começar por libertar o Homem Negro. A libertação teria de se fazer nas vertentes psicológica e territorial. Também Cabral procurou conhecer as suas raízes. Passou a olhar a cabo-verdianidade de um ponto de vista africano. Dedicou muitas páginas dos seus textos a reinstalar Cabo Verde em África.
Os líderes das independências das colónias portuguesas, com a possível exceção de Eduardo Mondlane, que se mudou cedo para a América, aprenderam a conhecer a realidade africana em Lisboa.
A personalidade de Amílcar Cabral destacava-se do conjunto dos estudantes da Guiné e de Cabo Verde. Era inteligente, sensato e bom comunicador. Possuía aquele conjunto mal definido de qualidades que se costuma designar por “carisma”.  Era o líder dos intelectuais do seu povo e sabia disso. Tinha uma missão histórica a cumprir. Terá hesitado algum tempo antes de a assumir na totalidade.
O pan-africanismo entendia a África como um todo. “Era um patriotismo sem pátria definida”. Por outro lado, espalhara-se a ideia da conveniência de modificar as fronteiras coloniais, tantas vezes desenhadas a régua e esquadro em gabinetes europeus, para as substituir por outras mais conformes com as realidades étnicas e geográficas, eventualmente integradas em federações regionais. Nasceram diversas iniciativas federais, mas não resistiram ao tempo. Ficou apenas a Tanzânia.
Cabo-verdiano nascido na Guiné, Cabral sonhou reunir numa única nação os territórios e as gentes das colónias portuguesas da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. A Guiné era um destino tradicional da emigração cabo-verdiana. Na década de 50, viviam ali cerca de 1.700 cabo-verdianos. Uns tantos ocupavam cargos administrativos.
As características geográficas tornavam quase impossível começar e desenvolver uma guerra de guerrilha numa das ilhas do arquipélago de Cabo Verde.  A vegetação, com zonas de mata cerrada, o tarrafo, os múltiplos braços de mar e a proximidade das fronteiras com países já independentes e dispostos a servir de refúgio aos combatentes ditou a escolha da Guiné para berço da luta armada de libertação.
Embora reconhecesse a necessidade da disciplina no PAIGC, dentro e fora da luta armada, Amílcar Cabral foi sempre um democrata e um homem de diálogo. Afirmava: “A opressão não é e nunca será uma escola de virtudes e de aptidões”.