DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017


A NARRATIVA TELÚRICA
   EM ESCRITORES MÉDICOS TRANSMONTANOS

      A PROPÓSITO DE MIGUEL TORGA E BENTO DA CRUZ

     III




Voltemo-nos agora para Bento da Cruz.
Bento Gonçalves da Cruz nasceu na aldeia de Peireses (Montalegre, Trás-os-Montes), em 1925 e faleceu no Porto, em 2015.


18 anos mais novo que Torga, teve uma vida longa e produziu uma obra literária extensa. Publicou 14 livros de ficção (entre romances e contos), 3 estudos biográficos e 3 volumes de crónicas.
Na sua obra central, o Planalto de Gostofrio, descreveu ao pormenor o trabalho infantil a que foi sujeito, colaborando para o sustento da família na pastorícia e na rega dos campos.
Aos quinze anos, ingressou na Escola Claustral de Singeverga, dirigida por monges beneditinos, e ali estudou durante seis anos. Durante esse período, dirigiu duas revistas estudantis.
Dois anos mais tarde, matriculou-se em Medicina, em Coimbra.
Já médico, exerceu clínica geral e estomatologia na região do Barroso. Acabou por se fixar no Porto, em1971.
Em 1974, fundou o jornal «Correio do Planalto», que dirigiria até perto do final dos seus dias. Reuniu as crónicas que ali publicou sobre a região natal nos três volumes dos «Prolegómenos», que recordam a aldeia da sua infância e narram histórias antigas.
 Para preparar este texto, apoiei-me no Planalto de Gostofrio, um romance de inspiração autobiográfica recheado de imagens poéticas, nas Histórias da Vermelhinha, uma coletânea de contos recolhidos da tradição rural do Barroso e em dois volumes dos Prolegómenos.


A escrita de Bento da Cruz é alegre e fácil de ler.

Gostofrio (Peireses) tem crescido comigo. É hoje uma aldeia com ares de burgo, mas ainda me lembro dela de tamancos e burel, toda negra nas casitas de colmo e pedra bruta, sem o menor fogacho de telha ou desmaio de cal. Os sobrados contavam-se pelos dedos e, todos juntos, não somariam tantas janelas de vidraça como dias tem o mês.

Peireses tem um anel de montanhas à volta. Nos dias de sol, as montanhas afastam-se e o mundo é grande. Nos de vento e chuva, as montanhas apertam o cerco, o mundo é pequeno e as pessoas sentem um constrangimento de angústia no coração.


Bento da Cruz escreveu, no Prefácio de Histórias da Vermelhinha:
A fauna desses caminhos do Senhor era um espetáculo variegado e ininterrupto: lavradores que subiam da Ribeira com a carga do vinho ou de Ruivães, com a carga do sal; almocreves de ou dois machos que mercadejavam em tudo e morriam pobres; mendigos com alforges nem sempre cheios de esmolas, mas sempre repletos de desilusões; ciganos, olho vivo, mão ligeira, buena dicha, contrabandistas de fardo às costas e pé furtivo; galegos escachapernados em montes de peles e boas mulas; saltimbancos dos sete instrumentos e setenta artimanhas; ourives ambulantes de baú a tiracolo e credo na boca… …feirantes, romeiros, cumpridores de promessas, pedintes para a «casa ardida»;

Assim como nenhum espadachim saía à rua desarmado duma boa espada, também nenhum barrosão viajava desprevenido dum bom lodo.

Esquematicamente, poderíamos dizer que os nossos avós se vestiam de burel no inverno e de linho no verão. Do que a terra dava e a dona fiava.
De linho era toda a roupa interior, os lençóis e travesseiros da cama, as toalhas de rosto e da mesa, os sacos de farinha e do grão, os alforges da burra. De lã de ovelha as capas, as calças, as saias, os coletes, os saiotes, os aventais, os carpins, as meias, as polainas, as mantas e os cobertores.

Tendo em comum o amor profundo à terra natal, Miguel Torga e Bento da Cruz, sentem o telurismo de formas diferentes.
Em Torga, o sentimento telúrico é dramático e quase obsessivo. A terra é o ventre materno, é a deusa procriadora. Torga tem saudades de si próprio.
Tal como Torga, Bento da Cruz sente necessidade de se revigorar no contacto periódico com a terra mãe. É, contudo, um otimista. Bento da Cruz tem saudades do passado. Procura preservar a sua memória nos seus escritos.

Para o diabo os pensamentos tristes. Eu fico-me com esta beleza. Com este solo atapetado de folhas, esta irradiação de luz que sobe pelas árvores e ilumina o firmamento.
Com a graciosidade de uma carvalha de copa mais aparada e redonda que jarra de centro de mesa e um círculo de folhas na relva como a sua imagem refletida na colina. Com as cabriolas de um gato amarelo que afia as garras na ervagem seca e rosna como a dizer-me: agarra-te à vida; não te deixes ir abaixo.

Em ambos, o contacto com a terra mãe, com as origens, renova o vigor do homem. É, no essencial, o mito de Anteu. Anteu era filho de Poseidon, deus do mar, e de Gaia, a terra. Anteu era um gigante malvado e extraordinariamente forte com os pés assentes na terra, sua mãe, mas que perdia as forças se fosse levantado no ar. Foi derrotado e morto por Hércules, que o sustentou nos braços, impedindo-o de poisar no chão.



Este bronze é de António de Poillaiolo, pintor, escultor e anatomista, 20 anos mais velho que Leonardo da Vinci.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017


 A NARRATIVA TELÚRICA
   EM ESCRITORES MÉDICOS TRANSMONTANOS

      A PROPÓSITO DE MIGUEL TORGA E BENTO DA CRUZ

     II


    Ao falar na narrativa telúrica em escritores médicos transmontanos, começarei por Miguel Torga. Imagino que seria assim que ele gostava de se ver.


    Torga nasceu em S. Martinho de Anta, no concelho de Sabrosa em 1907, numa família humilde. Aos 10 anos, foi trabalhar para casa de familiares ricos, no Porto, e não se deu bem. Foi despedido por rebeldia e, em 1918, entrou para o seminário de Lamego, onde passou apenas um ano. Recusou fazer-se padre. Poderá ter perdido a fé.


    Com 13 anos, foi enviado para o Brasil, para junto do tio, que possuía uma fazenda de café em Minas Gerais. O tio deu conta das qualidades invulgares da criança e, quatro ou cinco anos depois, matriculou-o no Ginásio, em Leopoldina. O ginásio equivale mais ou menos ao nosso liceu. O moço distinguiu-se nos estudos e o tio entusiasmou-se com ele, a ponto de lhe pagar o resto do estudo liceal e o curso de Medicina.
    Em 1928 Adolfo Coelho da Rocha, entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Publicou o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade.


    Em 1929, aos vinte e dois anos, deu início à colaboração com a revista Presença, com o poema Altitudes. A “Presença”, fundada em 1927 por José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca foi publicada até 1940. Centrou o movimento literário chamado “segundo modernismo” ou “presencismo”, que se haveria de revelar mais crítico do que criador. A revista ajudou a celebrar o primeiro modernismo e a divulgar as suas figuras de proa: Fernando Pessoa, Mário Sá-Carneiro e Almada Negreiros.
    Torga abandonou o grupo no ano seguinte, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana».


    Casou, em 1940, com uma belga nascida em França, Andrée Crabbé, que tinha vindo a Coimbra para fazer um curso de verão com Vitorino Nemésio.


    Aqui está Miguel Torga, à esquerda. Vitorino Nemésio é o senhor da direita e tem a seu lado Paulo Quintela. Avesso a correntes literárias, Torga foi sempre um individualista, um poeta solitário, para quem a independência e a liberdade de criar eram valores fundamentais. O chamado da terra, o apego às origens e a necessidade de revisitar o chão onde nascera, para se revitalizar, estão presentes em boa parte da sua obra.
    Torga publicou mais de 50 livros. Para ilustrar o meu tema, da sua vasta obra poderia ter escolhido contos, versos, ou um dos seus poucos romances. Optei pelos diários, essencialmente porque cobrem um período vasto da sua vida, e permitem acompanhar a evolução do escritor ao longo do tempo.
    Saíram 16 volumes do Diário, entre 1932 e 1993. São mais de sessenta anos. O escritor morreu em Coimbra, em janeiro de 1995. Está sepultado em S. Martinho de Anta.
    Escrutinei os volumes I, X e XIV dos diários, que me pareceram constituir uma amostragem razoável. A terra natal aparece logo nas primeiras páginas do volume inicial com um chamado forte e quase irresistível.

SMA, 5 de março de 1934
Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende – é esta. A comida que o meu estômago deseja – é esta. O chão que os meus pés sabem pisar - é este. E, contudo, eu não sou já daqui.
Pareço uma dessas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal!
Ao partir, primeiro para o Porto e depois para o Brasil, de onde seguiria para Coimbra, Adolfo Coelho da Rocha ficou com o coração quebrado. Julgo que essa racha a meio da personalidade o acompanhou até aos dias finais.

SMA, 20 de abril de 1938
Tirei hoje o leite à cabra. Mas a minha mão já não é a mão justa do lavrador que conhece a medida da sua fome. Tirei tudo. Sequei tudo. Deixei o cabrito sem ração. Meu Pai olhou-me desanimado, e a cabra também.

Torga não se demorou no Brasil tempo que bastasse para o amar. Em Coimbra, onde decorreu a maior parte da sua vida de escritor e de médico, sentiu-se sempre um pouco inadaptado, com se nunca tivesse deixado de ser um estranho.

Saltemos agora 27 anos. Mal se dá pela passagem do tempo na escrita de Torga.

SMA, 12 de abril de 1965
Leio o nome da povoação nos marcos da estrada. Vejo logo a Senhora da Azinheira a branquejar no alto da serra, oiço o sino a badalar, sabe-me a boca a tabafeira, cheira-me a rosmaninho. 

Tabafeira, ou tabafeia, é uma alheira.

Já dentro da terra, tropeço em cada pedra, bebo em cada fonte, vou de anjo em procissão. Enquanto ando lá por baixo, esqueço-me de que tenho cá dentro um tal rosário de reações à espera de estímulo. Prova evidente de que os ramos e as folhas estão longe das raízes.
Tudo o que sou claramente não é daqui. Mas tudo o que sou obscuramente pertence a este chão. A minha vida é uma corda de viola esticada entre dois mundos. No outro, oiço-lhe a música; neste, sinto-lhe as vibrações.


29  SMA, 16 de agosto de 1966
S. Martinho é um reduto ideal. Uma fortaleza a que me abrigo duas ou três vezes por ano, e onde me sinto inexpugnável todos os dias.

SMA, 16 de abril de 1967
Seja qual for a estação do ano e a direção seguida, antes de sair de casa já sei que alimento os olhos vão ter pelo caminho. Neve no Larouco, rododendros cor de fogo em Magueija, soutos a pingar castanhas em Carrazedo de Montenegro. Mas é sempre com o mesmo alvoroço que parto, e com o mesmo deslumbramento que regresso. Para o verdadeiro crente, a missa nunca se repete. E a minha missa é esta. Uma íntima e diária comunicação com a natureza, nos transes da sua perpétua agonia, morte e ressurreição.

Sarraquinhos, Barroso, 17 de setembro de 1967
Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que o deus vivo de ricos e pobres, de alfabetos e analfabetos, é o toiro do povo.
Um deus de cornos e testículos que, depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura.
Um deus a quem se dão gemadas e cervejas para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações.
Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original.

SMA, 23 de dezembro de 1982
Lá em baixo sou uma ficção entre ficções; aqui sou uma criatura entre criaturas.

Após a morte da irmã, ocorrida em abril de 1983, as visitas a S. Martinho de Anta tornam-se mais espaçadas.

SMA, 19 de setembro de 1984     

Estou que não posso. Pareço quebrado dos rins. A suar em bica, esfalfado, não dou tréguas ao corpo enquanto não vejo a terra limpa como a herdei dos antepassados. Pedem muito as raízes! Aqui, debaixo do seu império, pouco ou nada se me dá de ser bom ou mau escritor. Sinto-me, sim na obrigação de ser um bom cavador.

                                                                  (Continua)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

                   
  A NARRATIVA TELÚRICA
   EM ESCRITORES MÉDICOS TRANSMONTANOS

      A PROPÓSITO DE MIGUEL TORGA E BENTO DA CRUZ

       I

O conceito de narrativa telúrica, ou de telurismo literário, é sul-americano. É pouco referenciado na cultura europeia.
O sentimento telúrico é a consciência da aliança natural do homem com a terra, o respeito pelas forças da natureza e a aceitação da influência que o solo natal exerce nos costumes e no caráter dos seus habitantes. Veremos adiante como a sua presença é bem viva na obra de escritores médicos transmontanos. A novela telúrica configura uma moral própria, com um código de conduta adequado ao mundo.


O telurismo parece ter nascido na Colômbia. Eduardo Pachón Padilla, notável crítico literário colombiano falecido em 1995, organizou uma antologia de contos, sucessivamente revista e aumentada. Elaborou também uma teoria sobre a relação do homem hispano-americano com o elemento telúrico. No seu modo de ver, a Europa privilegiou a história, o humano, enquanto a América deu lugar à geografia, ao território. A novela hispano-americana refletiria o processo de adaptação do homem ao ambiente que o rodeava e o respeito pelo poder da natureza indomada, a qual iria, aos poucos, modelando o seu temperamento e os seus hábitos. As fronteiras literárias não são tão nítidas como as dos continentes e as influências telúricas estão bem presentes em escritores europeus.
A novela terrígena, novela da terra, ou telúrica, foi assim chamada porque a terra era protagonista dela. Terá nascido com José Eustasio Rivera, também colombiano.


“La voragine”, publicada em 1924, é considerada por muitos a primeira novela genuinamente americana, após séculos de dominação da literatura europeia. A “agressividade maligna e misteriosa da selva tropical” lançaria o homem contra o homem.
A Rivera seguiram-se o argentino Ricardo Güiraldes, que publicou em 1926 o romance Don Segundo Sombra, uma história sobre a decadência dos gaúchos e o venezuelano Rómulo Gallegos, cuja obra fundamental, Dona Bárbara, saiu em 1929.


Curiosamente, Gallegos chegou a ser presidente do seu país. Foi eleito por voto secreto e universal, mas exerceu o mandado durante menos de um ano, tendo sido derrubado por um golpe militar. Foi um dos primeiros novelistas sul-americanos a granjear fama universal.
No espaço andino, e em particular, na Bolívia, Peru e Equador, a literatura da terra ganhou características especiais quando se envolveu na questão dos índios. Deu origem a um movimento literário, ideológico e político bem definido que ficou conhecido como “indigenismo”.
Desse caldo de culturas, nasceria o realismo mágico, de Miguel Ángel Asturias e Gabriel Garcia Marques. O realismo tradicional foi enriquecido com lendas e elementos mágicos e fantásticos.
A novela telúrica desenvolveu-se de 1920 a 1945. Cronologicamente coincidiu, em parte, com o neorrealismo europeu, que emergiu do modernismo para dar seguimento, de uma forma nova, ao realismo e ao naturalismo do século XIX. 


O neorrealismo literário desenvolveu-se entre os finais dos anos 30 e os 50. Em Portugal representou uma revolta intelectual contra o salazarismo e assentou largamente na cultura marxista. Curiosamente, além da influência literária italiana, agregou uma componente brasileira, iniciada por Graciliano Ramos e José Lins do Rego, que denunciava as injustiças sociais no nordeste do Brasil. No nosso país, nasceu em 1940, com Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol e continuou com Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio e outros, entre os quais o nosso colega Fernando Namora. 
As sensações que suportam a literatura telúrica são demasiado fortes para se espartilharem em correntes literárias. Quem as procurar, há de encontrar indícios delas em continentes e épocas diversas. Em contacto com a natureza, os homens estabeleceram há muito as regras e o saber que possibilitavam a paz interior e exterior.

                                                                     (Continua)

domingo, 8 de outubro de 2017


TROTSKY


Passou segunda-feira na RTP 2 o filme soviético “Outubro”. É mudo e foi dirigido por Sergei Eisenstein e Grigori Aleksandrov. A realização é excelente e a fotografia de boa qualidade. Data de 1928 e pretendia celebrar os 10 anos da Revolução de Outubro.
Confesso que fiquei chocado ao ver o filme. É que Leon Trotsky, o chefe do Comité Militar Revolucionário que assaltou o Palácio de Inverno do Czar, assegurando o triunfo da revolução russa, não é referido uma única vez.
Na altura em que o filme foi rodado, Lenine falecera há quatro anos, Trotsky encontrava-se exilado no Cazaquistão e José Estaline tornara-se suficientemente poderoso para se poder desembaraçar de Zinoviev e Kamenev, com quem estabelecera um triunvirato em 1922, quando a doença incapacitara Lenine.
Estaline conseguiu também que os seus seguidores reescrevessem a História. José Estaline desconheceria a vergonha e Leon Trotsky desexistiu.
Não sou trotskista. Também não sou marxista, assim como não sou cristão, apesar de o marxismo e o cristianismo fazerem parte do meu património cultural. Escrevi, há mais de três anos, integrado num romance por publicar, uma pequena biografia de Trotsky. Foi apresentada neste espaço, dividida em capítulos. Na altura em que se celebram 100 anos sobre a Revolução de Outubro, que teve no mundo um impacto comparável à Revolução Francesa, irei reproduzir aqui um resumo do que escrevi sobre Trotsky. 
O facto de artistas com a categoria de Eisenstein se dobrarem ao poder político, ou se fiarem cegamente no líder messiânico da União Soviética até ao ponto de falsearem, grosseira e deliberadamente a História, dá que pensar.
Leon Trotsky destacou-se pela capacidade organizativa e pelo talento para a agitação. Foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Em outubro de 1917 comandou o assalto ao Palácio de Inverno do czar Nicolau.
  Com os bolcheviques no Poder, tornou-se um dos membros iniciais do Politburo, o Bureau Político do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética. Foi nomeado Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros, com a missão de negociar o armistício como a Alemanha. As negociações não correram bem. O Exército russo, já de si frágil, encontrava-se abalado pela Revolução. Um ataque alemão bem-sucedido obrigou o governo soviético a aceitar o tratado de Brest-Litovski, em março de 1918.
Trotsky demitiu-se do cargo, depois de ter sido forçado a assinar esse acordo, que prejudicava gravemente os interesses russos.  
Leon Trotsky saiu dos Negócios Estrangeiros e foi nomeado Comissário do Povo para os Assuntos Militares e Navais e chefe do Supremo Conselho Militar. Era o comandante do Exército Vermelho e respondia apenas perante a direção do Partido Comunista.
 O recém-formado Exército Vermelho era pequeno, indisciplinado e mal comandado. Trotsky sabia que os oficiais não se improvisavam e que os únicos disponíveis na Rússia tinham servido o czar.
 Transformou os pequenos destacamentos independentes numa grande e disciplinada máquina militar. Introduziu o recrutamento forçado e aceitou a colaboração de oficiais czaristas, vistos por boa parte dos bolcheviques como traidores potenciais. Os efetivos do Exército Vermelho subiram de menos de 300.000, em maio de 1918, para cerca de um milhão, em outubro do mesmo ano. Os pontos de vista de Trotsky foram muito contestados, inclusive por Estaline e Lenine, mas o Exército Vermelho continuava a crescer e, já com cerca de três milhões de soldados, enfrentou com sucesso dezasseis exércitos inimigos.
Estaline aproveitou-se habilmente do cargo de secretário-geral para dominar o aparelho do Partido. Nomeava os funcionários locais, o que lhe permitia controlar a maioria dos delegados ao Congresso, fazendo eleger para o Comité Central homens da sua confiança.
O novo líder livrou-se da concorrência logo que pôde. Os seus aliados Zinoviev e Kamenev cada vez tinham menos peso político. Trotsky, o mais brilhante dos seus adversários, foi afastado do Poder. Em janeiro de 1925, foi obrigado a demitir-se das funções de Comissário do Povo para as questões do Exército e da Marinha e de Chefe do Conselho Revolucionário Militar. Em outubro de 1927, foi expulso do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética. Em janeiro do ano seguinte, foi exilado para o Cazaquistão e, meses depois, deportado.
Partiu acompanhado pela esposa, Natália Sedova e pelo filho Lev Sedov. Passou quatro anos na Turquia, dois em França e outros dois na Noruega. O presidente mexicano Lázaro Cardenas acabou por o acolher.
O homem que chefiara o assalto ao Palácio de Inverno dos czares e que defendera militarmente a revolução comunista contra inimigos poderosos não voltaria a pôr os pés no solo pátrio.
  As ideias políticas de Leon Trotsky constituem a base do trotskismo, uma corrente ainda importante no marxismo contemporâneo. Trotsky rejeitou a teoria da implantação inicial do socialismo num único país e advogou a necessidade de uma «revolução permanente». Afirmou que uma nação socialista não poderia viver sem democracia e opôs-se ao totalitarismo estalinista. O conceito de «revolução permanente», habitualmente associado ao trotskismo, é, contudo, mais antigo. Foi formulado por Marx e Engels, no rescaldo da revolução de 1848. 
  Estaline não perdoava aos seus adversários. Trotsky era o mais notório de todos. A repressão estalinista assumiu foros de demência. Os filhos, genros, noras, netos e outros parentes de Trotsky foram desaparecendo em purgas sucessivas, na década de 30. Escapou apenas um neto, que se juntara ao avô, no México.
Lev (Leão) Davidovich Bronshtein, que passou à História como Leon Trotsky, foi assassinado em Coyacán, na Cidade do México, a 21 de agosto de 1940. Ia nos sessenta anos e estava a escrever um livro sobre José Estaline.
A 20 de agosto de 1940, foi atacado em casa pelo agente soviético Jaime Ramón Mercader del Río Hernández, que ganhara a sua confiança. Logo que pode, espetou-lhe uma picareta de alpinismo na cabeça. 
Trotsky foi levado para um hospital. Ainda foi operado, mas faleceu no dia seguinte.

terça-feira, 4 de julho de 2017


ESPANHÓIS EM ALMENDRA


Durante a guerra civil espanhola, um grupo de republicanos espanhóis desarmados atravessou a fronteira a pé e internou-se várias léguas em território português para escapar às balas dos franquistas. Falo dum conjunto que chegou a Almendra e acampou no olival que ficava (e fica) frente à escola.
Foi o António Moreirão quem me relatou este episódio. A seu ver, poucos, em Almendra, terão dado conta dele.
O meu amigo António é mais velho que eu. Era criança quando os factos se deram. Acha que o episódio de terror que presenciou terá ocorrido no verão, durante as férias grandes de 1936, ou logo a seguir.
“ Sabes onde é a Rua Nova? Vai da Fonte Grande até à escola. Termina numa curva. Antes de se chegar ao cimo, nem a escola se vê. Eu ia sozinho e ouvi gritos. Acelerei o passo. Eram crianças que gritavam. Um grupo de soldados com uma farda que eu não conhecia estava a obrigar algumas famílias a entrar num camião, a meio do largo. Às tantas, tive medo de ser levado também. Escondi-me atrás duma moita, para que não me vissem. Percebi que falavam espanhol. Nessa altura, eu tinha sete ou oito anos”.
Os espanhóis fugidos eram homens, na sua maioria, mas traziam com eles algumas mulheres e crianças. Consta que o médico da terra, representante local da União Nacional salazarista, alertou os franquistas de Ciudad Rodrigo, que os vieram buscar. Quase ninguém em Almendra terá dado conta dos gritos de pavor e angústia soltados pelos infelizes quando se viram capturados.
Nasci em Almendra há 74 anos e só há meses soube desse acontecimento. Quantos casos semelhantes terão ocorrido ao longo da raia de Espanha? O nosso país terá sido olhado, à vez, como um santuário, pelas partes em luta.
Ora, o olival em causa ainda existe e dista poucas centenas de metros da rua principal da povoação. É quase impossível que os brados e os pedidos de ajuda dos republicanos não tenham sido escutados. Naqueles tempos revoltos, as pessoas tinham até medo de ouvir. Muitas consciências consideram aceitável fazer por ignorar o mal.
Como poderiam ter ajudado? É provável que ambas as partes tivessem partidários na terra. Não se pediria aos camponeses de Almendra que enfrentassem os franquistas armados. Não teriam, aliás, necessidade de o fazer. Provavelmente, bastaria que os da terra se mostrassem para que os estrangeiros largassem as presas e batessem em retirada. Teriam os almendrenses medo ao médico? Seria o caso de alguns.
Há histórias que ninguém gosta de lembrar. O medo habitava ambos os lados da fronteira.  Calavam-se bocas e almas em troca da segurança das vidas.


quinta-feira, 15 de junho de 2017


ESQUERDA E DIREITA


III

Enganei-me em diversas ocasiões e conto viver o suficiente para me enganar em muitas mais.
Um amigo meu pergunta-me, de tempos a tempos, de modo mais ou menos demagógico: ainda há Esquerda? E o que é a Direita? 
É fácil responder-lhe: a Direita é o ponto de vista pelo qual ele honestamente espreita o mundo. A Esquerda é a visão oposta da mesma realidade. Espero ter razão mais vezes do que ele.


A classificação política geral em Esquerda e Direita teve lugar após a Revolução Francesa e começou, não propriamente pelas orientações políticas dos deputados, mas pela localização das cadeiras em que se sentavam. Na Assembleia Nacional francesa e na Assembleia Legislativa que a substituiu, em 1791, os partidários, primeiro da religião, do rei e, depois, do imperador, ocupavam os assentos da direita, enquanto os entusiastas da revolução se sentavam no lado esquerdo. Durante o século XIX, e ainda na França, a Esquerda era republicana e a Direita monárquica.


       Com o tempo, as noções de Direita e Esquerda políticas ultrapassaram as fronteiras da França e espalharam-se pelo mundo. Aos poucos, foram-se juntando advérbios aos vocábulos primordiais: movimento e evolução, à Esquerda e estabilidade e ordem, à Direita.
Nos longos anos da chamada “guerra fria”, a Esquerda apoiava a União Soviética, comunista e autoritária e a Direita os Estados Unidos, capitalistas e democráticos.
Após a queda do muro de Berlim, os partidos de Direita e de Esquerda modificaram-se, quando não se confundiram. O mundo deixou de ser polarizado e as diferenças esbateram-se.
O politólogo português Nogueira Pinto aponta os que são, no seu modo de ver, os traços distintivos essenciais: à esquerda temos o otimismo antropológico, o utopismo, o igualitarismo, o democratismo, o economicismo, o internacionalismo; e à direita o pessimismo antropológico, o antiutopismo, o direito à diferença, o elitismo, o antieconomicismo, o nacionalismo.

No entanto, não é sempre assim. Ouvem-se muitas vezes os partidos de Esquerda criticarem o economicismo e é frequente o PCP defender políticas”patrióticas”. Por outro lado, o direito à diferença, pelo menos em termos de opções sexuais é mais apregoado por quem se considera de Esquerda.
Voltarei brevemente a este tema.


quarta-feira, 14 de junho de 2017



ESQUERDA E DIREITA

II

Os partidos comunistas desapareceram praticamente dos quadros políticos das nações europeias. O Partido Comunista Português é um sobrevivente. Em grande parte graças ao carisma e à inteligência de Álvaro Cunhal, logrou manter a sua base de apoio nos sindicatos de transportes e em muitos concelhos alentejanos. A prática autárquica honesta e eficaz colou-se à sua nova imagem de marca.

Militei vagamente no PCP durante um ou dois anos, após o 25 de Abril. Nos tempos da velha senhora, recebera na minha casa do Beco da Carqueja, em Coimbra, algumas reuniões de célula, sem participar nelas.
O mundo modificava-se e os comunistas não. Repetiu-se comigo algo que se tinha passado meia vida antes. Sem resposta para as questões religiosas, tornei-me ateu sozinho, aos quinze anos, numa cidade em que toda a gente que eu conhecia era mais ou menos religiosa. Face ao PCP, não senti a mesma solidão. Éramos vários os que compartilhávamos as críticas e a ausência de perspetivas. Aguardávamos uma mudança que não chegava e, pior, a que não éramos capazes de desenhar os contornos desejáveis.
Afastei-me do Partido, mas deixei lá amigos. Não é preciso concordar com as pessoas para as respeitar. 



Depois, tenho votado ou aqui, ou ali, mas sempre à chamada Esquerda. Devo referir uma exceção clara. Votei em Marcelo Rebelo de Sousa. Foi o único candidato presidencial que manifestou, ao longo da vida, interesse pela Cultura. 
Ainda não encontrei um partido político com cujo ideário me sinta confortável. Entre um candidato presidencial esquerdista inculto, e um alinhado ao centro que tenha prazer em ler, o meu voto, se não ficar em branco (como já aconteceu) há de escorregar para a Direita.