DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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domingo, 8 de outubro de 2017


TROTSKY


Passou segunda-feira na RTP 2 o filme soviético “Outubro”. É mudo e foi dirigido por Sergei Eisenstein e Grigori Aleksandrov. A realização é excelente e a fotografia de boa qualidade. Data de 1928 e pretendia celebrar os 10 anos da Revolução de Outubro.
Confesso que fiquei chocado ao ver o filme. É que Leon Trotsky, o chefe do Comité Militar Revolucionário que assaltou o Palácio de Inverno do Czar, assegurando o triunfo da revolução russa, não é referido uma única vez.
Na altura em que o filme foi rodado, Lenine falecera há quatro anos, Trotsky encontrava-se exilado no Cazaquistão e José Estaline tornara-se suficientemente poderoso para se poder desembaraçar de Zinoviev e Kamenev, com quem estabelecera um triunvirato em 1922, quando a doença incapacitara Lenine.
Estaline conseguiu também que os seus seguidores reescrevessem a História. José Estaline desconheceria a vergonha e Leon Trotsky desexistiu.
Não sou trotskista. Também não sou marxista, assim como não sou cristão, apesar de o marxismo e o cristianismo fazerem parte do meu património cultural. Escrevi, há mais de três anos, integrado num romance por publicar, uma pequena biografia de Trotsky. Foi apresentada neste espaço, dividida em capítulos. Na altura em que se celebram 100 anos sobre a Revolução de Outubro, que teve no mundo um impacto comparável à Revolução Francesa, irei reproduzir aqui um resumo do que escrevi sobre Trotsky. 
O facto de artistas com a categoria de Eisenstein se dobrarem ao poder político, ou se fiarem cegamente no líder messiânico da União Soviética até ao ponto de falsearem, grosseira e deliberadamente a História, dá que pensar.
Leon Trotsky destacou-se pela capacidade organizativa e pelo talento para a agitação. Foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Em outubro de 1917 comandou o assalto ao Palácio de Inverno do czar Nicolau.
  Com os bolcheviques no Poder, tornou-se um dos membros iniciais do Politburo, o Bureau Político do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética. Foi nomeado Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros, com a missão de negociar o armistício como a Alemanha. As negociações não correram bem. O Exército russo, já de si frágil, encontrava-se abalado pela Revolução. Um ataque alemão bem-sucedido obrigou o governo soviético a aceitar o tratado de Brest-Litovski, em março de 1918.
Trotsky demitiu-se do cargo, depois de ter sido forçado a assinar esse acordo, que prejudicava gravemente os interesses russos.  
Leon Trotsky saiu dos Negócios Estrangeiros e foi nomeado Comissário do Povo para os Assuntos Militares e Navais e chefe do Supremo Conselho Militar. Era o comandante do Exército Vermelho e respondia apenas perante a direção do Partido Comunista.
 O recém-formado Exército Vermelho era pequeno, indisciplinado e mal comandado. Trotsky sabia que os oficiais não se improvisavam e que os únicos disponíveis na Rússia tinham servido o czar.
 Transformou os pequenos destacamentos independentes numa grande e disciplinada máquina militar. Introduziu o recrutamento forçado e aceitou a colaboração de oficiais czaristas, vistos por boa parte dos bolcheviques como traidores potenciais. Os efetivos do Exército Vermelho subiram de menos de 300.000, em maio de 1918, para cerca de um milhão, em outubro do mesmo ano. Os pontos de vista de Trotsky foram muito contestados, inclusive por Estaline e Lenine, mas o Exército Vermelho continuava a crescer e, já com cerca de três milhões de soldados, enfrentou com sucesso dezasseis exércitos inimigos.
Estaline aproveitou-se habilmente do cargo de secretário-geral para dominar o aparelho do Partido. Nomeava os funcionários locais, o que lhe permitia controlar a maioria dos delegados ao Congresso, fazendo eleger para o Comité Central homens da sua confiança.
O novo líder livrou-se da concorrência logo que pôde. Os seus aliados Zinoviev e Kamenev cada vez tinham menos peso político. Trotsky, o mais brilhante dos seus adversários, foi afastado do Poder. Em janeiro de 1925, foi obrigado a demitir-se das funções de Comissário do Povo para as questões do Exército e da Marinha e de Chefe do Conselho Revolucionário Militar. Em outubro de 1927, foi expulso do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética. Em janeiro do ano seguinte, foi exilado para o Cazaquistão e, meses depois, deportado.
Partiu acompanhado pela esposa, Natália Sedova e pelo filho Lev Sedov. Passou quatro anos na Turquia, dois em França e outros dois na Noruega. O presidente mexicano Lázaro Cardenas acabou por o acolher.
O homem que chefiara o assalto ao Palácio de Inverno dos czares e que defendera militarmente a revolução comunista contra inimigos poderosos não voltaria a pôr os pés no solo pátrio.
  As ideias políticas de Leon Trotsky constituem a base do trotskismo, uma corrente ainda importante no marxismo contemporâneo. Trotsky rejeitou a teoria da implantação inicial do socialismo num único país e advogou a necessidade de uma «revolução permanente». Afirmou que uma nação socialista não poderia viver sem democracia e opôs-se ao totalitarismo estalinista. O conceito de «revolução permanente», habitualmente associado ao trotskismo, é, contudo, mais antigo. Foi formulado por Marx e Engels, no rescaldo da revolução de 1848. 
  Estaline não perdoava aos seus adversários. Trotsky era o mais notório de todos. A repressão estalinista assumiu foros de demência. Os filhos, genros, noras, netos e outros parentes de Trotsky foram desaparecendo em purgas sucessivas, na década de 30. Escapou apenas um neto, que se juntara ao avô, no México.
Lev (Leão) Davidovich Bronshtein, que passou à História como Leon Trotsky, foi assassinado em Coyacán, na Cidade do México, a 21 de agosto de 1940. Ia nos sessenta anos e estava a escrever um livro sobre José Estaline.
A 20 de agosto de 1940, foi atacado em casa pelo agente soviético Jaime Ramón Mercader del Río Hernández, que ganhara a sua confiança. Logo que pode, espetou-lhe uma picareta de alpinismo na cabeça. 
Trotsky foi levado para um hospital. Ainda foi operado, mas faleceu no dia seguinte.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

                     TRÓTSKI


                                II

ASCENÇÃO DE STALIN. EXPULSÃO DA URSS

   Em Março de 1918, Leon Trótski foi nomeado Comissário do Povo para os Assuntos Militares e Navais e chefe do Supremo Conselho Militar. Era o comandante do Exército Vermelho e respondia apenas perante a direção do Partido Comunista.
A guerra era agora civil. Tornava-se indispensável transformar os pequenos destacamentos independentes numa grande e disciplinada máquina militar, necessariamente não partidária. Trótski introduziu o recrutamento forçado e aceitou a colaboração de oficiais czaristas, vistos por boa parte dos bolcheviques como traidores potenciais. Os efetivos do Exército Vermelho subiram de menos de 300.000 em maio de 1918 para cerca de um milhão em outubro do mesmo ano. Foram introduzidos nas unidades militares os comissários políticos, que deveriam assegurar a lealdade dos antigos oficias do exército imperial.
Trótski esforçou-se por implementar no Exército Vermelho a seleção dos comandantes pelo mérito. Promoveu a postos importantes antigos oficiais czaristas que demonstraram a sua competência em combate e não se coibiu de mandar fuzilar uns tantos militantes comunistas que se acobardaram frente ao inimigo. Entregou as decisões puramente militares aos oficiais profissionais. Era, de facto, o principal comissário político do Exército Vermelho.
Os pontos de vista de Trótski foram muito contestados, inclusive por Estaline e Lenine, mas o Exército Vermelho continuava a crescer e, já com cerca de três milhões de soldados, enfrentou com sucesso 16 exércitos inimigos.
Durante o ano de 1921, os partidários de Lenine e Trótski equilibravam-se no Politburo. No 10º congresso do Partido, em maio de 1921, a balança de poder inclinou-se para o lado de Lenine.


Entretanto, a saúde de Vladimir Ilitch Ulianov deteriorou-se. O líder da revolução russa sofreu três acidentes vasculares cerebrais. O primeiro deixou-o com paralisia dos membros direitos e dificuldades na fala. Recuperou parcialmente. Em dezembro de 1922, o segundo agravou-lhe a hemiparesia e forçou-o a abandonar a atividade política. O terceiro acidente vascular ocorreu em março de 1923. Lenine não voltaria a falar. Permaneceu acamado até à sua morte, em 21 de janeiro de 1924.
Com Lenine incapacitado, Estaline, Zinoviev e Kamenev constituíram um triunvirato destinado a impedir que Lev Trótski, o segundo personagem mais importante do Partido e o herdeiro presumível de Lenine, tomasse conta do Poder.


                                   Trótski, Lenine e Kamenev
Os tempos tinham mudado e muitos bolcheviques pensavam que a época da turbulência revolucionária representado por Trótski chegara ao fim, sendo necessário estabilizar a Rússia. Por outro lado, Estaline aproveitou-se habilmente do seu cargo de secretário-geral para dominar o aparelho do Partido. Nomeava os funcionários locais, o que lhe permitia controlar a maioria dos delegados ao Congresso, fazendo eleger para o Comité Central homens da sua confiança.



O novo líder livrou-se da concorrência logo que pôde. Os seus aliados Zinoviev e Kamenev cada vez tinham menos peso político. Trótski, o mais brilhante dos seus adversários, foi afastado do Poder.
No final de 1922, Estaline resolveu fundir as repúblicas soviéticas emergentes num estado federal, a União das Repúblicas Soviéticas Socialistas, claramente dominada pela Rússia.


A economia soviética atravessava dificuldades consideráveis e rebentavam greves um pouco por toda a parte. Trótski atribuía essas dificuldades à falta de democracia entre os bolcheviques. Segundo ele, assistia-se a uma divisão progressiva entre uma hierarquia de funcionários, escolhidos de cima, e as massas populares. As discussões livres dentro do Partido tinham praticamente desaparecido. Eram os funcionários que escolhiam os delegados às conferências e aos congressos.
Era tarde para modificar a situação. A troika controlava o Partido Comunista da União Soviética, através do secretariado-geral José Estaline, e o jornal Pravda por intermédio do seu editor Bukharin. O Politburo já nada mandava. Todas as decisões importantes eram tomadas pela troika. O controle de Trótski sobre os militares ia também sendo minado.
Desenhava-se uma rotura definitiva, também no campo teórico. Trótski continuava a pensar que a União Soviética não se poderia transformar num verdadeiro estado socialista antes de ocorrer uma revolução mundial. Com os pés bem assentes no solo russo, Estaline defendia a construção inicial do socialismo num único país.


Trótski tornara-se um inimigo a abater e era alvo de ataques políticos sucessivos de parte dos aliados de José Estaline. Em Janeiro de 1925 foi obrigado a demitir-se das suas funções de Comissário do Povo para as questões do Exército e da Marinha e de Chefe do Conselho Revolucionário Militar. O seu velho inimigo Zinoviev pediu mesmo a sua expulsão do Partido Comunista. Estaline resolveu desempenhar um papel de moderado e opôs-se a essa medida extrema. Trótski conservou o seu lugar no Politburo, mas já não tinha qualquer poder de decisão.
1925 foi um ano difícil para Leon Trótski, mas não o foi menos para o seu cunhado e adversário Kamenev e para  Zinoviev. O triunvirato que haviam formado com Estaline chegara ao fim. José Estaline tornara-se suficientemente poderoso para se poder desembaraçar dos aliados. Em outubro de 1927, Trótski e Zinoviev foram expulsos do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética. Kamenev teve o mesmo destino em dezembro.
Trótski foi exilado para o Kazaquistão a 31 de Janeiro de 1928. No começo do ano seguinte, seria deportado.
Partiu acompanhado pela esposa, Natália Sedova e pelo filho Lev Sedov. O homem que chefiara o assalto ao Palácio de Inverno do czar Nicolau e que defendera militarmente a revolução comunista contra inimigos poderosos não voltaria a pôr os pés no solo pátrio. Passou quatro anos na Turquia, dois em França e outros dois na Noruega. O presidente mexicano Lázaro Cardenas acabou por o acolher no México.


                              Frida Kahlo e Diego Rivera
Leon Trótski hospedou-se em casa dos pintores Diego Rivera e Frida Kahlo em Coyoacán, na cidade do México. Frida era uma grande pintora, mas sofria de problemas graves na coluna e não parecia mulher atraente. Tal não terá sido o ponto de vista do revolucionário russo, que teve um curto romance com ela.



Incompatibilizado com Rivera, Trótski mudou-se para uma casa situada no mesmo bairro. Por essa altura, sofria de hipertensão arterial e receava vir a ter um acidente vascular cerebral. Terá mesmo pensado no suicídio.


Os problemas de saúde não o impediram de pensar e de escrever. Publicou diversos livros durante esse período. Contam-se entre eles a «História da Revolução Russa» e «A Revolução Traída».
 Longe do seu país, Trótski não deixou de fazer política. Durante algum tempo, receara dividir o movimento comunista internacional e recusara apadrinhar organizações que competissem com a Terceira Internacional. Em 1933, porém, quando os nazis tomaram o poder na Alemanha, mudou de ideias e reuniu os seus apoiantes, para projectar uma alternativa ao Comintern estalinista. A Quarta Internacional foi fundada em 1938, numa reunião em que participaram 25 delegados de 11 países. Pretendia ser uma alternativa revolucionária e internacionalista ao estalinismo.
Leon Trótski opôs-se ao pacto germano-soviético de não-agressão assinado por Molotov e Ribbentrop oito dias antes de rebentar a II Grande Guerra Mundial. O pacto riscava a Polónia do mapa e dividia os países bálticos e a Finlândia entre as duas potências signatárias. Durou até junho de 1941, quando as tropas nazis invadiram a União Soviética, sem aviso prévio.
As ideias políticas de Leon Trótski constituem a base do trotsquismo, uma corrente ainda importante no marxismo contemporâneo. Trótski rejeitou a teoria da implantação do socialismo num único país e advogou a necessidade de uma «revolução permanente». Afirmou que uma nação socialista não poderia viver sem democracia e opôs-se ao totalitarismo estalinista. O conceito de «revolução permanente», habitualmente associado ao trotsquismo, é, contudo, mais antigo. Foi formulado por Marx e Engels, no rescaldo da revolução de 1948. 


                              Frederic Engels e Karl Marx
Entretanto, sob o domínio de Estaline, a Rússia entrava numa fase negra. Em Agosto de 1936, Trótski foi julgado, juntamente com Zinoviev, Kamenev e catorze outros velhos bolcheviques. Os acusados presentes confessaram ter conspirado com Trótski para assassinar Estaline. Quem caía nas mãos da polícia política estalinista confessava tudo o que fosse conveniente. Todos os réus, incluindo Leon Trótski, foram condenados à morte.
Estaline não perdoava aos seus adversários. Trótski era o mais notório de todos. A repressão estalinista assumiu foros de demência. Filhos, genros, noras, netos, e outros parentes de Trótski foram desaparecendo em purgas sucessivas na década de 30. Escapou apenas um neto, que se juntara ao avô no México.
 Em maio de 1940, a casa de Trótski foi assaltada e o seu neto foi ferido a tiro num pé. Um dos guarda-costas foi sequestrado e assassinado. O velho líder bolchevique escapou ileso.
O falhanço deste atentado enfureceu José Stalin. Pavel Sudoplatov, que na altura era subdiretor do Departamento Estrangeiro da NKVD (antecessora da KGB), relata, no seu livro “Operações Especiais”, as circunstâncias em que foi decidida a eliminação física de Trótski:
 «Estaline franziu o cenho. Tinha o cachimbo na mão, apagado, embora cheio de tabaco. Em seguida, com o jornal do dia no colo, acendeu um fósforo, aproximou o cinzeiro, num gesto que aqueles que o conheciam bem antevia uma decisão crucial. Beria opinou que o Serviço de Inteligência Estrangeiro deveria mudar as suas tradicionais prioridades às vésperas de uma guerra de grandes proporções que se avizinhava. Trótski significava uma séria ameaça para os preparativos de guerra da URSS. Beria sugeriu que me pusessem no comando de todas as operações anti-trotskistas da NKVD, a fim de infligir o golpe decisivo no movimento trotskista. Trótski, era o «pior inimigo do povo». No movimento trotskista não há figuras importantes além do próprio Trótski, interrompeu Estaline. Eliminado Trótski, a ameaça desaparece.
Estaline pôs-se de pé e empertigou-se. Em tom baixo, escandindo as palavras, ordenou: Trótski deve ser eliminado antes que termine o ano e a guerra ecluda. E prosseguiu: como prova a experiência da Espanha, sem a eliminação de Trótski não podemos confiar nos aliados da Internacional Comunista, caso os imperialistas ataquem a União Soviética. Terão grandes problemas para levar a cabo sua tarefa de desestabilizar a retaguarda dos inimigos mediante sabotagens e guerrilhas se tiverem de fazer frente à traidora infiltração dos trotskistas em suas fileiras...»
A 20 de Agosto de 1940, Trótski foi atacado em casa pelo agente soviético Jaime Ramón Mercader del Río Hernández, que usava também os nomes de Jacques Monard ou de Frank Jacson.
 Ramón Mercader nasceu em Barcelona mas passou boa parte da juventude em França. Ainda jovem, nos meados dos anos 30, colaborou com organizações comunistas espanholas. Chegou a estar preso durante algum tempo.


                                          Ramón Mercader
Pouco antes do começo da guerra civil espanhola, recebeu treino de guerrilha em Moscovo. No final, foi nomeado agente no exterior do Comissariado do Povo para Assuntos Internos da URSS (NKVD).
Apresentou-se a Trótski com o nome de Frank Jacson e ganhou a sua confiança ao referir as suas relações com o movimento da Quarta Internacional na França e nos Estados Unidos.
Na tarde de 20 de Agosto apresentou-se na casa de Coyoacán e encontrou Trótski no quintal. Pediu-lhe a opinião sobre um artigo que acabara de escrever. Entraram para o escritório de Trótski. No decurso do julgamento, o assassino descreveu o crime:
 «Coloquei a minha capa de chuva na mesa, de forma que fosse capaz de tirar o “piolet” (pequena picareta de alpinismo) que estava dentro do bolso. Quando Trotski começou a ler meu artigo, retirei o “piolet” e, com os olhos fechados, dei-lhe um golpe na cabeça. Trótski emitiu um grito que eu nunca esquecerei. Um longo aaaa, interminavelmente longo, eu penso que ainda ecoa em meu cérebro. Depois, saltou em cima de mim e mordeu-me na mão. Ainda tenho as marcas de seus dentes. Empurrei-o e ele caiu no chão. Então, levantou-se e saiu do escritório a cambalear.»



Ao ouvir o ruído, os guarda-costas de Trótski precipitam-se para a sala e quase mataram Mercader. A vítima travou-os. Era preciso interrogar aquele homem. Trótski foi levado para um hospital e ainda foi operado. Faleceu no dia seguinte.
Entregue às autoridades mexicanas, Mercader recusou revelar a sua identidade verdadeira. Foi condenado a 20 anos de prisão. Nunca referiu as suas ligações à NKVD.
Cumpriu a totalidade da pena. No final, foi recebido em Cuba por Fidel Castro. No ano seguinte, deslocou-se à URSS e recebeu a medalha de de Herói da União Soviética, uma das condecorações mais importantes do país. Regressou a Havana, onde acabaria por morrer. Está sepultado em Moscovo.
Não me surpreende que o regime russo tenha gratificado Ramón Mercader pelo facto de o seu silêncio o deixar à margem dum assassinato comprometedor em território americano. Admira-me, sim, a postura castrista. Fico a pensar que, para o regime saído da revolução cubana, o herói da revolução russa de outubro de 1917 era também um traidor à causa do comunismo internacional.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

                        LEON TRÓTSKI


Decidi publicar no decaedela as minhas reflexões sobre sete mortes violentas incluídas no romance O ASSASSINATO DE TRÓTSKI, que estou a ultimar. Uma parte delas foi esclarecida. Os contornos de outros permanecem mal definidos. Começo pela figura que deu o nome ao livro.
 Como este primeiro artigo é extenso, vou dividi-lo em duas partes. 

                                    I

       DA INFÂNCIA AO TRIUNFO 

   DA REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE

Lev Davidovich Bronshtein, que passou à História como Leon Trótski, foi assassinado em Coyacán, no México, a 21 de agosto de 1940. Ia nos sessenta anos e estava a escrever um livro sobre Joseph Stalin.
Trótski nasceu em novembro de 1979 na pequena povoação de Yanovka, situada atualmente em território ucraniano. Os pais tinham aproveitado o projeto de colonização da Crimeia para saírem da área de residência fixada aos judeus russos. Tornaram-se fazendeiros prósperos. Não eram religiosos. Em casa, falava-se russo e ucraniano e não iídiche.


Quando o miúdo fez nove anos, o pai mandou-o estudar para a cidade portuária de Odessa. Trotsky chegou a inscrever-se em Matemática na Universidade Nacional de Odessa, mas interessou-se cedo pela política. Envolveu-se na actividade revolucionária e aproximou-se do marxismo. Aos 17 anos ajudou a organizar em Nikolayev a União dos Trabalhadores do Sul da Rússia. Conheceu a prisão antes de completar 18 anos. Foi detido, juntamente com 200 membros da União, e esperou dois anos pelo julgamento. Aproveitou o tempo de cativeiro para estudar filosofia e, enquanto estava preso, casou com Alexandra Sokolovskaya, sua companheira das lutas políticas.


Foi condenado a quatro anos de exílio na região do Lago Baikal, na Sibéria. A esposa acompanhou-o. Foi na Sibéria que nasceram as duas filhas do casal, Zinaida e Nina.
Durante o degredo de Trótski, a divisão entre os sociais-democratas aprofundou-se. O jornal Iskra (faísca ou centelha em português), sediado em Londres, defendia a formação de um partido revolucionário bem organizado para derrubar o czarismo.
No verão de 1902, Trótski fugiu da Sibéria escondido numa carroça de feno e chegou a Irkutsk, onde os amigos lhe arranjaram um passaporte falso.
Até então, usara o seu nome verdadeiro. Adoptou nessa altura o pseudónimo de Trótski, curiosamente o apelido de um dos seus antigos carcereiros. Logo que pôde, mudou-se para Londres, onde conheceu Plekhanov, Martov e Lenine e se tornou colaborador do jornal Iskra. Por essa altura, eram já profundas as divergências entre Plekhanov e Lenine.
Foi em Londres que Lev Bronshtein encontrou Natalia Ivanovna Sedova, que viria a ser a sua segunda esposa. Divorciou-se de Alexandra, que escapara também da Sibéria com as filhas, mas manteve com ela, ao longo do tempo, um relacionamento cordial. Em 1935, durante as «grandes purgas» de Staline, Alexandra Sokolovskaya foi novamente presa e desterrada. Terá sido avistada pela última vez em 1938, num campo de trabalhos forçados, na Sibéria.
De Natália, Leon Trotsky teve dois filhos, Lev e Sergei. Deu-lhes o apelido de Sedov para tentar protegê-los da polícia czarista.
Os emigrados russos em Londres desenvolviam uma atividade política intensa e frequentemente conflituosa. Deu-se por essa altura a famosa cisão entre bolcheviques e mencheviques.


Trótski nem sempre esteve ao lado de Lenine. Entre 1904 e 1917 gostava de se considerar um «social-democrata sem facção». Esforçou-se, durante anos, por reconciliar as diversas tendência que divergiam no Partido. Ao mesmo tempo, desenvolveu a sua teoria da revolução permanente. Os choques com Lenine e com outros dirigentes russos foram inevitáveis. Vladimir Ilitch chegou a chamar-lhe «judas» e «canalha».



Em S. Petersburgo (então capital da Rússia), em janeiro de 1905, começou uma greve numa fábrica. As condições de vida dos operários russos eram muito más e o protesto alargou-se até englobar 140.000 trabalhadores. Uma marcha pacífica em direção ao Palácio de Inverno foi reprimida a tiro pela guarda do czar. Morreram mais de 1.000 manifestantes. A data ficou conhecida como Domingo Sangrento.
Trótski voltou secretamente à Rússia para apoiar os protestos contra o czar. Empenhou-se na ação política directa, agitando e organizando, mas pouco tempo depois viu-se obrigado a fugir para a Finlândia, onde prosseguiu a preparação da sua obra sobre a revolução permanente.
A agitação social continuava na Rússia. Em outubro, Trótski regressou a S. Petersburgo e empenhou-se no jornalismo revolucionário, sendo eleito pouco tempo depois para a direção do Soviete dos Trabalhadores da cidade. Após a prisão do primeiro presidente do Soviete, Leon Trótski foi escolhido para o substituir.


O Soviete foi cercado pelas tropas czaristas e os seus dirigentes foram presos. Em outubro de 1906, Trótski foi deportado para a Sibéria pela segunda vez na sua vida. Ia nos 27 anos. 
Evadiu-se durante o transporte e regressou a Londres. Fixou depois residência em Viena de Áustria, onde colaborou com o Partido Social Democrata Austríaco durante perto de sete anos. Foi em Viena que fundou o Pravda, um jornal escrito em russo e destinado aos trabalhadores do seu país.
Bolcheviques e mencheviques continuavam a não se entender. Trótski questionou várias vezes a atuação política de Lenine.
Em 1914, a I Grande Guerra pôs em confronto direto a Rússia e o Império Austro-Húngaro. Leon Trótski teve de fugir para a Suíça, para não ser detido como emigrante russo.
Lenine, Trótski e Martov assumiram posições pacifistas face ao conflito armado, enquanto Plekhanov e outros sociais-democratas apoiavam, de certo modo, o esforço de guerra do governo russo. Lenine achava conveniente a derrota russa na guerra. Por outro lado, advogava a rotura com a Segunda Internacional.


Trótski participou na conferência pacifista de Zimmerwald e propôs um compromisso entre os, que como Martov, queriam permanecer na Segunda Internacional e os que, como Lenine, pretendiam a formação de uma Terceira Internacional. A conferência adotou a proposta de Trótski.
O governo francês não apreciou a militância pacifista de Leon Trótski e deportou-o para Espanha. Os espanhóis também o não quiseram e despacharam-no para os Estados Unidos da América. Trótski viveu em Nova Yorque até rebentar a revolução de fevereiro de 1915 contra o czar Nicolau II. Ganhava a vida escrevendo artigos para jornais, em russo e em iídiche.
Tentou seguir para a Rússia, mas o navio em que viajava foi retido pelos britânicos em Halifax. Pôde continuar a viagem após intervenção do ministro russo dos negócios estrangeiros.
Na Pátria, aproximou-se das posições bolcheviques. Destacando-se de novo pela sua capacidade de organização e pelo seu talento para a agitação, foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Em outubro de 1917, chefiou o Comité Militar Revolucionário que assaltou o Palácio de Inverno, assegurando o triunfo da revolução russa.
Com os bolcheviques no Poder, tornou-se um dos membros iniciais do Politburo. Foi nomeado Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros, com a missão de negociar o armistício como a Alemanha. As negociações não correram bem. O Exército russo, já de si frágil, encontrava-se abalado pela Revolução. Um ataque alemão bem-sucedido obrigou o governo soviético a aceitar o tratado de Brest-Litovski, em março de 1918.
Trótski demitiu-se do cargo, depois de ter sido obrigado a assinar aquele acordo, que prejudicava gravemente os interesses russos.
Viviam-se tempos duros. O recém-formado Exército Vermelho era pequeno, indisciplinado e mal comandado. Alguns líderes bolcheviques sonhavam com um exército constituído por voluntários que elegeriam os próprios oficiais. Trótski considerava que o exército devia ser suficientemente numeroso e que, se os voluntários não chegassem, se teria de recorrer ao recrutamento compulsivo. Sabia também que os oficiais não se improvisavam e que os únicos disponíveis na Rússia haviam servido o czar.



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

      O ASSASSINATO DE TROTSKI



Vou ultimando a revisão de “A guerra da Guiné”  e comecei a escrever um livro novo. Vai chamar-se “O assassinato de Trótski”. Trata de um assassino profissional que perde o equilíbrio psíquico e deixa de ser fiável.
Até à data, escrevi quinze livros, onze dos quais estão publicados. Algum dia (ou amanhã, ou daqui a muito tempo) ficará um livro por acabar. Não queria que fosse este -  nunca se quer… Deposito grande esperança na interrelação dos personagens que já criei.
Enquanto espera que lhe dêem trabalho, Antero, o matador, entretém-se a espiolhar crimes antigos, reais ou supostos. Trótski, Aldo Moro, o Papa João Paulo I, Carrero Blanco, Eduardo Mondlane, Sá Carneiro, Anna Politovskaya e Alexander Litvinenko são lembrados nestas páginas e vêem os seus casos analisados. 
Publiquei o primeiro livro em 2003. Têm saído, deste então com uma periodicidade mais ou menos anual. A minha escrita não é popular nem se dirige aos apreciadores das telenovelas, mas vai havendo quem a leia. A crise que o nosso país atravessa teve impacto no mercado de bens não essenciais, como a literatura de ficção. Encerraram editoras e distribuidoras, mas as crises não duram sempre. Conto ver nas livrarias, durante o ano de 2014, pelo menos dois novos títulos.