DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015



SINOPSE DA HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO 

DE ANGOLA


          III

 MOÇÂMEDES E SÁ DA BANDEIRA

A OCUPAÇÃO DO INTERIOR DE ANGOLA PELOS PORTUGUESES.

Em Angola, a presença portuguesa era antiga nas cidades costeiras, sobretudo em Luanda e Benguela, e em algumas regiões vizinhas. Dos grandes espaços interiores e das gentes que os habitavam, pouco se sabia.


A vila de Moçâmedes foi construída junto à praia, de acordo com um plano simples e geométrico. Quatro ruas paralelas entre si eram cortadas por travessas e formavam quarteirões regulares. Havia iluminação a petróleo. As casas, de um só piso, tinham quase todas quintal. 
A povoação teve origem num presídio para degredados. O clima era benigno e havia terras férteis. Existiam no Brasil nesse tempo, como noutros, portugueses na miséria. Viviam-se tempos de agitação social e a colónia lusitana de Pernambuco era hostilizada. O governo de Lisboa precisava de brancos em Angola e proporcionou-lhes meios de transporte.
A barca “Tentativa Feliz”, protegida pelo brigue “Douro”, fundeou em Moçâmedes, em agosto de 1849, trazendo 180 portugueses.
A instalação dos colonos processou-se com alguma dificuldade. Mesmo assim, como a crise social em Pernambuco se agudizava, em novembro de 1850 desembarcaram mais 107 emigrantes. Moçâmedes foi desenvolvida por gente de torna-viagem.  



Os que vieram do Brasil aproveitaram os terrenos de aluvião das margens dos rios Bero e Giraúl. Giraúl quer dizer “fim do caminho”. Eram terras férteis mas escassas. Não dispondo de mais espaços de cultura, desenvolveram o comércio e a pesca. A vila foi progredindo.
Alguns negociantes exportavam gado para longe. Não o criavam, porque não havia pastos na região. Recebiam-no dos negociantes que o compravam no interior.
    Em Luanda e Benguela, os descendentes dos escravos constituíam o grosso da população negra urbana. Desenraizados e esquecidos das antigas tradições, falavam um português modificado e vestiam à europeia. Em Moçâmedes, terra fundada após a abolição oficial da escravatura, eram poucos os filhos dos libertos.
Ali, chamavam funantes aos que andavam pelo mato a comerciar. Aquela gente ia a toda a parte. Deixava as cidades costeiras e subia as margens dos rios secos. Por vezes, fixava-se. Havia povoações espalhadas por uma grande área: Munhino, Curoca, Bibala, Bruco, Tchivinguiro, Humpata, Huíla, Chibia. Um grupo de pescadores algarvios tinha-se estabelecido em Porto Alexandre, a sul, na costa deserta.

                                              Bernardo de Sá, Marquês de Sá da Bandeira

Em 1836, Em Portugal, a vitória setembrista levou ao governo, entre outros, Passos Manuel e Bernardo de Sá Nogueira, visconde e mais tarde marquês de Sá da Bandeira. Foi o visconde quem assinou, em dezembro desse ano, o decreto que punha fim ao tráfico de escravos. Foi também o responsável pela elaboração de um projeto de desenvolvimento dos territórios coloniais. Pretendia-se que as colónias africanas abastecessem a “metrópole” com os seus produtos, em troca dos têxteis e dos vinhos portugueses. Cabia-lhes substituir o Brasil, que se tornara independente.
Entre 1870 e 1890 alguns países europeus deitaram olhares cobiçosos ao continente negro. Queriam garantir o fornecimento de matérias-primas e conseguir mercados para a produção industrial. Estas ambições iam contra os direitos que Portugal julgava seus, por prioridade nas descobertas.
Em 1877, o madeirense D. José da Câmara Leme era aspirante de marinha. Trabalhara em Luanda, Benguela e Moçâmedes. Sabia que as colónias de África eram invejadas por ingleses e alemães. Ou se povoavam, ou se ficava sem elas. 
Escreveu ao Governador-geral de Angola, Ferreira do Amaral, expondo-lhe as suas ideias. Os portugueses mais à mão eram os da ilha da Madeira. A população crescera e a terra não chegava para todos. Havia muita gente disposta a partir em busca de vida melhor.
Ferreira do Amaral apadrinhou o plano e apresentou-o ao governo de Lisboa. O ministro do Ultramar era quem podia decidir.
 A resposta à iniciativa do Condutor de Obras Públicas foi relativamente rápida. Câmara Leme foi nomeado Diretor da nova Colónia e, paralelamente, encarregado de construir dois troços de estrada para ligar o Lubango à Humpata e à carreteira que ia da Chela à Huíla. 
Em 1885, a Conferência de Berlim instituiu o princípio da ocupação efetiva dos territórios como fonte de soberania. Tocou em Lisboa a sineta de alarme. A emigração para África ganhou prioridade.
A bacia do Lubango situa-se a uma altitude de 1.800 metros e cobre uma área superior a 1.000 hectares. É rodeado por uma cadeia de serras que se abre apenas a leste. É por ali que entra o vento e sai o rio.

                      Ponta do Lubango, ou Ponta da Chela

Quem olha em volta, pela primeira vez, fixa os olhos no sul. A Ponta do Lubango interrompe bruscamente a serra do Mucoto e ganha para sempre espaço nos sonhos.
Há pequenos ribeiros que levam água todo o ano. Juntam-se no lugar da Machiqueira, ali bem perto, para formar o rio Caculovar, que vai desaguar no Cunene.


A caravana que transportava os emigrantes alcançou uma extensa colina no meio da bacia e fez alto. As carroças foram descarregadas. Na manhã seguinte, os bóeres voltaram com os carros, serra abaixo, para buscar a gente que ficara.
Os madeirenses deitaram logo mãos à obra. Os primeiros trabalhos foram coletivos. Na margem direita do rio Caculovar abriu-se uma clareira onde foram construídos dois grandes barracões de pau-a-pique, um para os homens e o outro para as mulheres e crianças. Edificaram-se, em acampamento separado, cubatas para instalar o diretor da Colónia, o médico, a secretaria provisória e a ambulância.


    A história que se segue é conhecida. Pelo menos, uma cidade em África nasceu do sonho de um europeu, neste caso, um ilhéu da Madeira, e foi desenhada, com régua e esquadro, nas secretarias de Lisboa.

Fonte: Os fragmentos deste texto foram retirados do romance "Os Colonos" (António Trabulo, Esfera do Caos, Lisboa, 2007) e reagrupados.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015




SINOPSE DA HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO DE ANGOLA

II

DE CAMBAMBE A BENGUELA. A RAINHA GINGA

Manuel Cerveira Pereira exerceu por duas vezes o cargo de Capitão-general de Angola. Na primeira, entre 1603 e 1606, atingiu Cambambe e mandou erigir ali um presídio. 
    As tentativas de conquistar Cambambe, onde, segundo alguns jesuítas, a prata era tanta que o brilho das montanhas ofuscava o olhar, haviam já custado centenas de vidas portuguesas. Desfez-se, então, um sonho que os nossos acalentavam há décadas: o das minhas de prata. Afinal, em Cambambe havia apenas chumbo.


                              Ruínas do presídio de Cambambe

Entretanto, a vila de S. Paulo de Luanda alcançou certo desenvolvimento e foi promovida a cidade. Em 1618, foi levantada a fortaleza de São Pedro da Barra e, em 1634, a de São Miguel.


                                      Luanda antiga

     Foi mais ou menos por esta altura que a pequena colónia portuguesa passou a chamar-se Angola. O nome provém do título “Ngola”, dado aos sobas da região.
A fixação europeia seguia um modelo mais ou menos uniforme. Os brancos erguiam as suas povoações junto à costa, ao abrigo da artilharia dos navios. Neles se poderiam refugiar, em casos de extrema necessidade. Ali estabeleciam contactos comerciais com os povos vizinhos. 
    A ambição dos recém-chegados a África era insaciável e os conflitos iam acontecendo. Os comerciantes que se aventuravam pelo sertão constituíam elementos fundamentais do processo de colonização.
     Sempre que podiam, as autoridades portuguesas nomeavam sobas complacentes.
Por volta de 1578, começaram a fixar-se colonos portugueses em Benguela-a-Velha, onde é agora Porto Amboim. A iniciativa não resultou e os colonos acabaram por se mudar mais para sul. Levaram com eles o nome da povoação: Benguela. Iria tornar-se a segunda cidade de europeus a ganhar espaço no território angolano.


                                Vista antiga de Benguela

Os presídios, ocupados por degredados e pelos seus guardas, foram aumentando de número. Muxima foi fundada em 1600, Cambambe em 1604 e Ambaca, junto ao rio Lucala, em 1614.
No ano de 1615, entraram em cena os holandeses que ocuparam o porto de Mpinda, situado na margem sul do Zaire, junto à foz. É a atual cidade angolana de Soyo. Na época, era o principal porto da costa angolana. Seriam mais de 4.000 os cativos que dali eram levados anualmente para o Brasil, com escala em S. Tomé.
Note-se que era na ilha atlântica e não em Angola que, de começo, se instalavam os mercadores mais prósperos.
Os holandeses deram-se tão bem naquele porto que até os pombeiros portugueses lhes vendiam escravos. A explicação para o facto era simples: os dos Países Baixos pagavam melhor que a concorrência.
Nesse mesmo ano de 1615, o rei Filipe II de Portugal decidiu separar administrativamente os Reinos de Benguela e de Angola. Tratava-se de encontrar e explorar as minas de cobre que se julgavam existirem na região.
Manuel Cerveira Pereira iniciou o segundo mandato de Capitão-general de Angola em 1615. Acumulou as funções com o governo de Benguela.
Em maio de 1617, fundeou na Baía das Vacas. Desembarcou e fez construir o forte de São Filipe de Benguela.
A miragem do cobre durou ainda menos do que a da prata. As jazidas encontradas eram pobres.
As coisas correram mal a Cerveira Pereira e o Reino de Benguela teve uma existência fugaz. Ano e meio após a chegada, no começo de 1619, o governador foi expulso da povoação e metido num bote. A corrente marítima foi misericordiosa e arrastou-o para Luanda, onde arribou passadas quase três semanas.
Por volta de 1623, João Correia de Sousa, novo governador da colónia, começou uma guerra com o Congo. Seria breve. Desagradados com a interrupção do negócio de escravos, os colonos juntaram-se e expulsaram o governador. O governo português não se incomodou e nomeou prontamente um substituto para João de Sousa. Chamava-se Fernão de Sousa e dirigiu os destinos da colónia de 1624 a 1630. Foi ele quem deu início ao conflito com Nzinga Mbandi, a celebrada rainha Ginga. A luta intermitente iria prolongar-se por quatro décadas.



Em 1641, quando os portugueses se preparavam para a Guerra da Restauração, os holandeses tomaram Luanda. Benguela foi também ocupada.
Os nossos refugiaram-se no forte de Massangano, onde se defenderam como puderam dos ataques de bandos armados do Reino do Congo e da rainha Ginga, que se haviam passado para o lado dos holandeses. Parece ser uma lei da história: os povos subjugados, ou em risco de o serem, tomam sempre o partido de quem é circunstancialmente mais forte.
A guerra da independência prolongou-se e D. João IV não podia dispensar forças que defendessem as colónias africanas. O auxílio veio do Brasil. Em 1648, Salvador Correia, curiosamente nascido em Cádis e filho de mãe espanhola, comandou a frota que expulsou os neerlandeses.



O último rei do Ndongo morreu em 1671, junto ao rio Cuanza, em luta com os portugueses. Nascia o reino português de Angola. Ocupava o território do Reino do Ndondo e de parte do do Reino de Matamba.
A rainha Ginga morrera de velhice, em 1663. Por altura da sua morte, o Reino da Matamba continuava independente. Centrava-se na Baixa de Cassange, na região da atual Malanje.
Morta Nzinga Mbandi, o seu reino mergulhou num período de instabilidade que facilitou o avanço das forças portuguesas, uma vez mais aliadas aos imbangalas. Em 1681, o rei de Matamba, batizado com o nome de Francisco Guterres, morreu em combate. Sucedeu-lhe a rainha Verónica que assinou, em 1683, um tratado de paz com os portugueses. O reino da Matamba perdia a autonomia.
No conjunto, os reinos do Ndongo e da Matamba resistiram dois séculos às investidas dos colonos portugueses.

Fontes: 
Fonseca Santos, Henrique. A conquista de Angola. Os três reinos. Chiado Editora, Lisboa, 2013.
Internet.
Imagens: Internet.





domingo, 29 de novembro de 2015


SINOPSE DA HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO 

DE ANGOLA


I

DE DIOGO CÃO A  PAULO DIAS DE NOVAIS


Desde as viagens de Diogo Cão, de 1483 a 1486, até às explorações levadas a cabo por Hermenegildo Capelo, Roberto e Ivens e Alexandre Serpa Pinto, entre 1877 e 1875, a história da presença portuguesa em Angola decorreu de forma lenta e progressiva. Não fossem os abalos provocados pela tentativa holandesa de substituição dos interesses portugueses na costa ocidental de África, em 1641, interrompida em 1647 pela intervenção dos homens e navios de Salvador Correia de Sá e Benevides, e tudo se resumiria a uma sucessão de pequenos combates e ao fazer e desfazer de alianças com os sobas que dominavam o interior, tendo como fim principal a aquisição de escravos, exportados essencialmente para os engenhos de açúcar do Brasil. Os portugueses tornaram-se exímios em aproveitar as rivalidades entre reinos e sobados e foram estendendo aos poucos as suas áreas de influência.
A instalação progressiva de presídios, ocupados por degredados e pelos seus guardas, deu apoio aos negociantes que se aventuravam pelo interior do território


Em 1483, Diogo Cão chegou ao Zaire e enviou emissários rio acima, numa primeira tentativa de estabelecer contacto com o rei do Congo. Abandonou-os e prosseguiu a viagem para sul, até ao cabo Lobo, tencionando recolhê-los no regresso. De volta, fundeou na foz do grande rio e esperou algum tempo pelos seus embaixadores. Como eles não vieram, fez alguns reféns africanos e rumou a Lisboa.


Diogo Cão regressou ao Zaire dois anos depois e, acompanhado por um guia, subiu o rio até às cataratas de Ielala, a 90 milhas da foz. Recuperou os seus emissários, por troca com os prisioneiros de torna-viagem. Começavam as relações entre os reinos de Portugal e do Congo.

         Inscrições de Diogo Cão em rochas da foz do tio Mponzo

A nossa presença militar em África foi quase sempre complementada com a ação missionária. O missal e o arcabuz davam-se bem e ganhavam força acrescida ao atuarem juntos.


O tráfico de escravos continuou sempre a crescer. A partir de 1530 intensificou-se, com a multiplicação dos engenhos de açúcar no Brasil. As outras exportações do território de Angola eram o marfim e o cobre.
Em 1543, aproximaram-se do litoral norte de Angola os imbangalas, tribos jagas guerreiras provenientes de leste. Começaram por enfrentar os portugueses, mas acabaram por se tornar seus aliados nas lutas contra os potentados regionais.
As relações dos portugueses com o reino do Ndondo, que ia do rio Dande, a norte de Luanda, até além do Cuanza, a sul, tiveram um início complicado. Ndondo ficava a sul do grande reino do Congo e prestava-lhe vassalagem.  Em 1560, Catarina de Áustria, viúva de D. João III e regente do reino, enviou ao Ndondo uma embaixada dirigida por Paulo Dias de Novais. O rei fez-se caro e Paulo Dias esperou meio ano, na foz do Cuanza, pela autorização para viajar para o interior. Chegada a Cabassa, a embaixada foi retida na corte durante cinco anos. Quando o rei a deixou regressar, guardou ainda como reféns os padres jesuítas que a integravam.


Paulo Dias regressou a Angola em 1575, comandando uma frota considerável que aportou à Ilha de Luanda. A ilha, então chamada "das cabras", delimitava uma baía com um excelente porto natural. Estavam lá estabelecidos cerca de 40 portugueses. A ilha era importante por fornecer conchas de zimbo, que serviam de moeda.
    Os navios transportavam 700 homens. Metade eram soldados. Os outros eram mercadores, funcionários, religiosos e artífices, incluindo sapateiros, pedreiros e alfaiates. O objetivo da expedição era retirar ao reino do Congo o monopólio do fornecimento de escravos. A partir de então, o tráfico passou a fazer-se também a sul do rio Dande.
No ano seguinte, Paulo Dias fundou Luanda. Ali, a água potável abundava e o morro, que foi chamado de S. Paulo, constituía uma boa posição defensiva.


 A população branca teve dificuldade em adaptar-se ao clima e padeceu com as doenças tropicais. Ainda assim, a povoação foi-se alargando e dividiu-se em “cidade alta”, a zona nobre, destinada às autoridades civis e religiosas e a “cidade baixa”, onde se instalava a maioria dos habitantes.
Organizavam-se as primeiras expedições armadas para a conquista do interior. Os sobas locais resistiam e o sucesso dos combates variava. Aos poucos, e com a ajuda dos imbangalas, os portugueses foram alargando a sua área de influência.


Foi Paulo Dias de Novais quem fundou o primeiro presídio português em terras de Angola: Massangano.

Fonte: Fonseca Santos, H. A conquista de Angola; Os três reinos. Chiado Editora, Lisboa, 2013.
Imagens: Internet.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013




         CONTOS ANGOLANOS


A literatura tradicional angolana assenta na transmissão oral de contos, provérbios, lendas e canções. Foi recolhida e registada em linguagem escrita por etnólogos amadores que residiram durante muitos anos na vizinhança das populações. Será justo destacar entre eles Héli Chatelain, Carlos Estermann, Alfredo Hauenstein e, mais recentemente, Óscar Ribas. Os três primeiros foram missionários de confissões cristãs diversas.
Os etnólogos registam as palavras com a preocupação de objetividade indispensável ao rigor científico mas estranha ao processo de contar. A maior parte das recolhas foi efetuada antes da divulgação das máquinas de fixar imagens e sons. Não foi possível reproduzir as vozes nem os gestos e a mímica.
Os contos tradicionais africanos, tal como os nossos, foram feitos para serem escutados. Ao passarem à forma escrita garantem a perenidade, mas transformam-se. Perdem-se a prosódia do narrador e as reações da assistência. Ainda assim, encantam. Há situações claramente preparadas para espantar o ouvinte (e, neste caso, o leitor). Resulta curiosa a mistura entre os ensinamentos morais e a falta deles e a proximidade da lógica ao absurdo.
Decidi apresentar on line, com alterações e acrescentos, um conjunto de histórias em parte publicadas em papel oito anos atrás pela editora Europress, sob o título No Tempo do Caparandanda. Chamam-se agora CONTOS ANGOLANOS. Trata-se de quarenta narrativas que incluem fábulas, contos e mitos. Algumas são protagonizadas por animais, enquanto outras tratam de gente comum ou se ocupam de papões.
Ao reescrever, procurei respeitar o fio das histórias, adaptando-as. Usei, aqui e além, da liberdade permitida aos contadores. Afinal, o ato de narrar foi sempre criativo.

                                                                                         António Trabulo

Nota: a capa baseia-se numa pintura de Toia Neuparth


terça-feira, 8 de novembro de 2011


                        ÁFRICA A PÉ
       
         DE ANGOLA À CONTRACOSTA  

                        OS ANTECEDENTES

Foi Domingos Abreu de Brito quem, em 1592, primeiro traçou um plano bem delineado para ligar as duas costas, sugerindo a construção de uma série de postos militares a partir de Angola.


As tentativas de ir por terra de Angola e Moçambique foram-se sucedendo durante os séculos XVII, XVIII e XIX. Vou mencionar apenas algumas.
Em 1606, D. Manuel Pereira Forjaz, governador de Angola, encarregou Baltazar Rebelo de Aragão de encontrar um caminho para a contracosta. Aragão terá penetrado no interior 80 léguas a contar da fronteira de Angola e alcançou um grande lago, que devia ser o Niassa. Tendo-lhe chegado a notícia de que o rei de Angola atacara a fortaleza de Cambambe, Baltazar Rebelo de Aragão voltou para trás para socorrer os portugueses sitiados. Não se sabe quanto demorou a informação a alcançá-lo nem se entende como foi capaz de regressar em tempo útil.



Por volta de 1765, o governador geral Sousa Coutinho interessou-se pela ligação por terra entre Angola e Moçambique. Alguns escravos trazidos do interior diziam que a travessia não só era possível como até relativamente fácil
Em 1808, Honorato da Costa, tenente-coronel estabelecido em Cassange, organizou uma expedição bem apetrechada e encarregou dois dos seus pombeiros mais hábeis, Pedro Baptista e Amaro José de alcançarem Tete. Os exploradores saíram de Cassange em Novembro de 1802. Estiveram retidos durante três anos nas terras de de Mussico e depois mais quatro nos domínios de Cazembe. Os pombeiros não desistiram e chegaram ao seu destino a 2 de Fevereiro de 1811. A expedição gastou 9 anos no caminho. No dizer de Capello e Ivens, os exploradores “tinham partido novos, chegavam ali já encanecidos”. Tomaram o caminho de regresso em Maio de 1811 e chegaram a Luanda em 1815. Tinham completado a primeira travessia do continente africano de costa a costa, com ida e regresso. A falta de instrução dos pombeiros não permitiu que à dimensão humana do empreendimento se aliassem os resultados científicos.



Em 1831, Correia Monteiro e António Pedroso Gamito viajaram do Zambeze à Lunda de Cazembe e regressaram a Tete.



Em 1852, Silva Porto, comerciante estabelecido no Bié, organizou uma importante expedição que se dirigiu para o Genji e depois para o Alto Zambeze. O sertanejo deteve-se aí, mas enviou um grupo de gente sua com a missão de levar a Moçambique dois ofícios do governo geral de Angola. Os pombeiros atingiram Ibo com sucesso, depois de darem muitas voltas. Silva Porto descreveu a proeza em “Uma viagem à contracosta”.



Referências:
De Angola à Contra-Costa, H.Capello e R. Ivens, Imprensa Nacional, Lisboa, 1886.
Do Cabo de Stª Catarina à Serra Parda, Carlos Alberto Garcia, Edições CITA, 1971.
Os portugueses em Angola. Gastão Sousa Dias, Agência Geral do Ultramar, 1959.

Imagens: Internet.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011


                                 
                            REGRESSO AO LUBANGO


Já falei aqui do meu regresso a Angola. Após uma ausência de 47 anos, voltei ao Lubango.
Ao passar pelo Picadeiro, domingo de manhã, um negro bem vestido achou-me com ar de turista e proclamou:
Angola é bela!
Não respondi. Sabia disso quatro dezenas de anos antes de ele ter nascido.
A minha mulher é de Benguela e aproveitou a nossa deslocação para tratar da dupla nacionalidade. A cidadania angolana tem pouco interesse prático para nós e para as nossas filhas, mas poderá ser útil para os netos. Ninguém sabe como vai ser o amanhã e é sempre bom ter portas abertas. O processo burocrático, embora agilizado pela gentileza do Conservador do Registo Civil de Benguela, consumiu algum tempo. Acabei por passar apenas um dia na cidade angolana que me interessa mais.


Fiquei, assim, à porta do meu Liceu, que agora é Universidade. Não sei se me deixariam entrar, se fosse dia útil. Tinha pensado oferecer à Biblioteca exemplares dos dez livros que já publiquei. Os meus amigos dissuadiram-me. Títulos como “Retornados” ou “Colonos”, ainda despertam muitos anticorpos na sociedade angolana.
Vi de fora a Escola Primária nº 60, que frequentei da primeira à quarta classe. As instalações não são as do meu tempo. Quando estive em Sá da Bandeira, em 1964, já existia o edifício novo. Lembro-me de ter ficado triste com o progresso. Vivi, pela primeira vez, a frustração de não poder sobrepor as recordações à realidade.  
Tão pouco entrei no Parque Infantil. Quando eu era miúdo, havia lá um campo de terra batida onde jogávamos à bola, com balizas improvisadas. Lembro-me do Rio, um mulato baixinho que varria o lado direito da defesa com vigorosos pontapés para diante. Finda a instrução primária, não o voltei a ver. Anos mais tarde, soube que uma prostituta que frequentava o nosso bairro era irmã dele. Julgo que foi a primeira vez que me confrontei dolorosamente com a noção de extremas desigualdades sociais entre colegas da mesma escola.
Acima do campo de futebol, ficava uma bela mata onde abundavam os tchiriquatas. Dediquei centenas das horas verdes da minha vida a persegui-los, de tchifuta (fisga) na mão. Raras vezes acertava. Terá sido por essa altura que comecei a aprender a perder. É um saber que dá jeito a toda a gente, e mais a um adepto do Vitória de Setúbal.
Não entrei nas casas onde, em tempos, morei. Não fui ao cemitério da Mitcha procurar a campa de meu pai, nem fui à Maxiqueira. Não fui ver o Colégio Paula Frassinetti, onde íamos fazer serenatas às miúdas das madres.  Não visitei a Humpata, a Huíla, o Tchivinguiro, nem a Chibia. Não fui espreitar a Leba, o Bimbe nem a Hunguéria.
Foram mais as coisas que não vi do que as que pude visitar.
Hei de voltar!