DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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segunda-feira, 25 de abril de 2022

 


OS ESPANHÓIS EM ALMENDRA



No tempo em que a guerra civil grassava no país vizinho, um grupo de republicanos espanhóis desarmados atravessou a pé a fronteira e internou-se algumas léguas em território português para escapar às balas dos franquistas.

É provável que situações como esta se tenham repetido ao longo da raia. Falo dum grupo que chegou a Almendra e acampou no olival que fica frente à escola. Foi o António Moreirão quem me relatou este episódio.

O meu amigo António era mais velho que eu. Ainda assim, seria criança quando os factos se deram. A guerra civil de Espanha acabou em 1939. O episódio de terror que me foi contado terá ocorrido antes do final da guerra.

Os espanhóis fugidos eram homens, na sua maioria, mas traziam com eles algumas mulheres e crianças. Consta que o doutor Caldeira, uma das pessoas mais importantes da terra e o representante local da salazarista União Nacional, alertou os franquistas de Ciudad Rodrigo, que os vieram buscar. Quase ninguém na terra terá dado conta dos gritos de pavor e de angústia soltados pelos infelizes espanhóis quando se viram cercados.

O olival em causa ainda existe e dista poucas centenas de metros da rua principal da povoação. É quase impossível que os brados e os pedidos de ajuda dos republicanos não tenham sido escutados. Naqueles tempos revoltos, as pessoas tinham até medo de ouvir. Muitas consciências terão considerado aceitável ignorar o mal.

Como poderiam ter ajudado? É provável que ambas as partes tivessem partidários na terra. Não se pediria aos camponeses de Almendra que enfrentassem os veteranos franquistas armados. Não teriam, aliás, necessidade de o fazer. Provavelmente, bastaria que os da terra se mostrassem, para que os estrangeiros largassem as presas e batessem em retirada. Teriam os almendrenses medo ao doutor Caldeira?

Seria o caso de alguns. De um modo geral, o povo português olhou sempre com reserva e alguma hostilidade os representantes do poder. Pouco recebiam dos governos. Pagavam os impostos a contragosto e cumpriam a servidão militar quando não lhe podiam escapar.

Conto 78 anos e nasci em Almendra. Soube há algum tempo desse acontecimento. Quantos casos semelhantes terão ocorrido ao longo da raia de Espanha?

O nosso país foi olhado como um santuário pelas partes em luta.

Há histórias que ninguém gosta de lembrar. O medo habitava ambos os lados da fronteira.  Os pactos de silêncio calavam as almas e as bocas em troca da segurança das vidas.

O Doutor Luna Caldeira tem em Almendra um largo com o seu nome. Será que merece a distinção?



quarta-feira, 25 de julho de 2018



CRÓNICAS DE VIAGEM


CIUDAD RODRIGO


Ciudad Rodrigo - muralha e catedral

Quando regressei de Angola, para estudar Medicina em Coimbra, habituei-me a passar as férias grandes em Almendra, a terra onde nasci. As férias grandes e, quase sempre, as do Natal e da Páscoa.
Apanhava um comboio que saía de Coimbra às primeiras horas da madrugada e seguia até Campanhã, onde me mudava para a Linha do Douro. Depois, era acompanhar as curvas do rio até Almendra, a última estação antes da Barca d`Alva, onde fica a fronteira com Espanha. Após a morte de meus pais, a seguir aos meus irmãos, era ali que tinha os parentes mais chegados.

  


A bolsa de estudos que recebia do governo-geral de Angola foi reduzida, ao fim do segundo ano, a dez prestações. Infelizmente, os anos continuaram a contar doze meses cada. Um automóvel era coisa com que nem sequer se sonhava. O comboio era a alternativa possível.

                          Fachada da Capela de Cerralbo (sec. XVII e XVII)
Os meus itinerários eram necessariamente limitados. Ia, de vez em quando, à Meda, onde o meu primo Francisco Trabulo, já ancião, me tratava com galhardia. Deslocava-me ocasionalmente a Figueira do Castelo Rodrigo, que a camioneta alcançava em menos de meia hora. Figueira desenvolveu-se na vizinhança do castelo medieval que faz parte de uma linha de fortificações que se distribuem ao longo da fronteira até Monsaraz e Marvão.

                                         Claustro da catedral
Mesmo anos mais tarde, quando a entrada no mercado de trabalho me proporcionou outras condições de vida, não me deu para viajar até Ciudad Rodrigo, a cidade espanhola mais perto de Almendra.
Sempre me intrigou a partilha de nomes, para mais em povoações fortificadas e relativamente próximas. Após a vitória do rei Ramiro II de Leão, na batalha de Simanca (939) deu-se a progressiva ocupação cristã dos territórios conquistados aos mouros. Rodrigo Tedoniz, cunhado de Mumadona Dias, viria a ser alcaide dos castelos do rei. É-lhe atribuída a reedificação do castelo de Penedono. Ignoro se está ligado a Castelo Rodrigo e a Ciudad Rodrigo, ou se se trata de coincidência de nomes.

                        Vista da catedral
Há alguns dias, eu e a minha mulher, acompanhados pela minha irmã Maria e pelo meu cunhado Sindulfo, saímos de Almendra com destino a Salamanca. No caminho, visitámos Ciudad Rodrigo, onde almoçámos.
É uma pequena cidade com a parte antiga situada no interior das muralhas construídas entre os séculos XII e XIV. Dista 25 quilómetros de Vilar Formoso. Foi, durante algum tempo sede da extinta diocese de Calábria.

                          Ayuntamiento
Tratando-se da única posição fortificada importante entre Salamanca e Portugal, sofreu dois cercos durante as invasões francesas.
Em 1810, o marechal francês Ney tomou a cidade. Os 24 dias que durou o cerco obrigaram Massena a adiar um mês a invasão de Portugal.

                         Plaza Mayor
Dois anos mais tarde, o general inglês Wellington tomou a fortificação aos franceses, no começo da campanha que conduziu à libertação da Península Ibérica. Ciudad Rodrigo foi saqueada tanto pelos franceses como pelos ingleses.

           Catedral. Nesta fotografia é clara a influência românica
A catedral tem uma imponência notável para o tamanho da povoação. Começada a construir no século XII e XIV, revela uma arquitetura mista de românico e de gótico.

terça-feira, 31 de março de 2015

A CIDADE PERDIDA DE CALIÁBRIA






Há cidades mortas por esse mundo fora. Terras onde homens e mulheres trabalharam, construíram as moradas, criaram os filhos, repousaram, fizeram versos e sonharam. Povoações em que se falava mal e bem dos vizinhos e dos dirigentes, se semeava o pão, se plantava a vinha e se colhia a castanha, em que se adoecia, se vivia melhor ou pior e em que os mortos eram enterrados sem sobressaltos. Quase todos esses burgos possuíam uma igreja, ou mais. Rezava-se a deuses diversos, consoante a região e a era.
Há muitas urbes assim. Estiolaram. Umas caíram pelo fogo e outras pela espada. Em alguns casos, as condições climáticas modificaram-se. Choveu a mais ou a menos e as populações deslocaram-se em busca de terrenos mais férteis. Uma parte delas não deixou vestígios e já ninguém lhes conhece os locais.


Vou falar duma cidade destas. Chamou-se Caliábria e existiu na margem sul do rio Douro, entre Foz Coa e a Barca d`Alva, no espaço que medeia entre as desembocaduras dos rios Águeda e Coa. A sua localização exata não é conhecida. Há crónicas medievais que a situam na atual Montánchez, hipótese que se afigura improvável. Outros autores apontam para Fermoselle (na Província de Zamora), para Coura (perto de Viseu), para os arredores de Escalhão e para Almendra. Os escritos mais recentes (a partir do século XVII) tendem a aceitar a correspondência entre Caliábria e o Monte Calabre, situado dentro do termo da freguesia de Almendra, junto ao Rio Douro.


Caliábria desenvolveu-se durante o império visigodo. Foi sede de diocese. Os seus bispos estiveram presentes nos concílios de Toledo entre os anos 633 e 693. O último bispo, São Zenão, terá sido ceifado pelas cimitarras muçulmanas em 717, juntamente com outros prelados da região. Findaram então as referências históricas à cidade visigoda. Muitos anos mais tarde, no tempo de Fernando II, o título de «episcopus Calabriensis» passou para a catedral de Ciudad Rodrigo.


Curiosamente, D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa falecido em 2014, foi bispo titular de Caliábria, o que o levou a interessar-se pela sua história. Escreveu um artigo que intitulou «A Cidade Romana e a diocese de Caliábria» e visitou o local. Eis a sua descrição:
«Encetámos a longa escalada de duas horas, tribulações de um bispo do século XX que pretende tomar posse duma diocese do século VII. Encontrámos, no alto do monte, hoje coberto de amendoeiras, uma espécie de planalto, em forma de ligeiro vale, onde se situa uma fonte, sendo a área murada por uma muralha, em pedra xistosa, em parte à superfície do terreno, aqui e acolá elevando-se ainda cerca de um metro. Tem a seus pés o rio Douro, no ângulo que forma com a ribeira de Aguiar, seu afluente. Pedras dispersas, explica-nos um pastor, são o que resta da antiga igreja. Cantámos vésperas, sentados na muralha. Eis como, sem ter participado em nenhum dos concílios de Toledo me encontrei como último bispo conhecido de Caliábria».
Hoje, continua a observar-se no local o monte Calabre, onde se diz ter existido a urbe. Nada o distingue dos cabeços vizinhos. Nas encostas viradas a sul, as videiras plantadas em socalco estendem-se quase até ao cume. Produzem o «vinho fino», que muda de nome no Porto.


 Na primeira metade do sec. XVII ainda se poderiam ali observar, para além das ruínas da fortificação, inscrições sepulcrais. A muralha era de xisto, pedra abundante na região. O granito que também ali se encontra foi trazido doutros lugares. Atualmente, em Almendra os mais velhos continuam a falar das Portas do Sol, que ficariam junto a uma nascente, próxima da capela de Nª Senhora do Campo. 
    A sul, corre a ribeira do Castelo que vai dar à Ribeira de Aguiar e, por esta, ao rio Douro. Há várzeas férteis nas terras baixas por onde passa. A nordeste, junto ao Douro, há solos planos aráveis. Não são extensos. A cidade não poderia ter sido muito grande. Não havia onde semear pão para sustentar muitas bocas. Nas colinas vizinhas há olivais e amendoais.

Fontes:
Cosme, S. Entre o Coa e o Águeda. Povoamento nas épocas romana e alto-medieval. Dissertação de mestrado em Arqueologia. Faculdade de Letras, Universidade do Porto, 2002.
Policarpo, J.C. A cidade romana e a diocese de Caliábria. Em: O tratado de Alcanices e a importância histórica das terras de Riba Coa. Universidade Católica Editora,
Vários. Civitas Calabriga (Monte do Castelo ou Calabre, Almendra). Portugal Romano.com, distrito da Guarda.  
Vários. Suevos e visigodos em Riba Coa. www.cm-fcr.pt/concelho/Documentos/suevos.pdf

Fotografias: Internet



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

                  

 ECOS DA FEIRA DE TRANCOSO

                         (SÃO BARTOLOMEU)

                                          António Porfírio Moreirão

Neste breve apontamento, falaremos da região que margina o Douro e o Côa, onde a terra, a sul, se desdobra e estende pela Beira Alta, enquanto, a nascente, se alonga por terras de Espanha.
É desta rica região, onde oliveiras e amendoeiras se erguem em desafio, onde toda a espécie de searas atapeta montes e vales, onde, aqui e além, se alinham grandes vinhedos, é da rica e histórica vila de Almendra – repositório de ecos, memórias e vivências da Feira de Trancoso – que falaremos.
Recuaremos a tempos idos e distantes, para melhor compreendermos como a Feira de Trancoso (S. Bartolomeu), naquelas paragens, era vivida e sentida, nas vertentes económicas, sociais e lúdico-culturais.
Nessa feira eram negociados e transacionados os tractores da época (machos, vacas e cavalos), tão necessários aos transportes e ao revolver das terras: lavra das vinhas, olivais e amendoais e arar das sementeiras. Por isso, no decurso do ano agrícola, os almendrenses imaginavam e planeavam as compras, as vendas ou as trocas desses animais e assentavam na ida à Feira de Trancoso – a mãe de todas as feiras.


Assim, familiares, compadres e amigos faziam circular, entre si, os seus sonhos e os seus planos e, neste envolvimento, pensam e aprazam a viagem.
Chegado o dia, aí vão eles, em grupos, dormindo no caminho, neste ou naquele povoado, para, pela manhã, atingirem a tão afamada feira.
Feitos os negócios, vivida a feira, adquiridas as lembranças, deitavam-se à viagem de regresso, enquanto os de “olho para o negócio” continuavam a comprar, a vender ou a trocar, até ao final da feira, procurando engordar a carteira e, às vezes, ganhavam um “dinheirão”, o que lhes dava vanglória. 
De regresso à terra, eram recebidos com alegre gritaria e grande algazarra dos “putos” que, postados no caminho, que se alonga a perder de vista, procuravam descortinar e reconhecer cada vulto que, ao longe, ia surgindo.
A distância ia-se encurtando e os miúdos opinavam:
− O pai do Manel traz um macho preto!
− O pai do Chico um castanho!
− O pai do Joaquim traz um buçalo!
Buçalo é um macho novo ainda incapaz de trabalhar.


E, deste modo, a todos faziam referência.
Havia tendência e todo o interesse em comprar buçalos, porque os buçalos contavam para a pequena economia agrícola – custavam pouco dinheiro, custavam pouco a sustentar, porque apascentavam “à rédea solta”, sob vigia dos donos e, quando já machos, rendiam bom dinheiro ou, então, eram exercitados no trabalho e, se agradavam, ficavam.
À medida que os feirantes iam chegando, logo os miúdos iam identificando os animais: “burreiros” uns, enquanto “eguariços” outros. A sua ascendência era conhecida pelo tamanho das orelhas – grandes as do “burreiro” e pequenas as do “eguariço”.
No entanto, uma coisa era certa; o seu, o que o pai trazia, era o melhor e o mais bonito e, até, já era o mais valente.
Acabado este pequeno reconhecimento, todos perguntavam pela “lembrança da Feira”. E as lembranças eram mostradas e entregues aos destinatários - a flauta (pífaro), o realejo (harmónica de beiços) ou o primeiro canivete ou aquilo que a imaginação do pai havia preferido. E para as jovens, as companheiras de caminhada, não havia prenda? Claro que havia – a boneca de papelão – a única prenda destinada às miúdas do tempo.
Chegados a casa, satisfeitas as primeiras curiosidades, refeitas as forças, era o feirante quem fazia relato pormenorizado do que vira, ouvira e vivera: gente do todo o lado, de perto e de longe e muito gado, de todo o gado – todos os dias entrava gado e saía gado!
De tudo dera conta: coisas que viu, coisas que ouviu, coisas que nunca pensou ver e viver.
E as mulheres a venderem água, ao copo!...
E os animais a beberem águas das grandes gamelas espalhadas pela feira do gado!...
Que feira, a de Trancoso! Lá, de tudo se faz dinheiro – tudo se vende e tudo se compra.
E o “dinheirão” que os trancosenses ganhavam com o aluguer das lojas (estábulos), para a pernoita das pessoas e dos animais! Que gananciosos aqueles trancosenses – até parecem aparentados aos judeus…
De um momento, lembrando-se, tira um panfleto do bolso da jaqueta e estende-o à mulher, dizendo: são uns versos que um homem e uma mulher cantavam – é o caso do “maneta que, à machadada, matou o cunhado e a irmã, na cama”. Ao ouvi-los, havia pessoas que choravam… e toda a gente comprava.
E, assim, era aumentado o repertório das cantigas que as moças cantavam durante as mondas e os outros trabalhos agrícolas.
Nos dias seguintes os relatos continuavam, agora na rua e na frescura da noite e, sentados à porta de casa, com agrupamentos de familiares e amigos, cada um opinava. Relatos de todas as horas vividas e de todas as surpresas acontecidas.
Porém, durante muito tempo continuavam os almendrenses a pensar na Feira de Trancoso e a falar de Trancoso, quando, aos domingos, dividiam o tempo entre as “visitas às capelas” e os longos e minuciosos exames às adventícias alimárias: tiravam-nas das lojas, passavam-lhes as mãos afavelmente pela testa, alongavam-lhe as orelhas, amaciavam-lhe o lombo, davam-lhe duas pancadinhas nas ancas e, escorrendo a mão pelo rabo, tomavam-lhe a pata. Feito o exame elegiam as vedetas.
Depois, de tempos a tempos, voltavam a observá-los e faziam conjecturas sobre o seu aspeto e desenvolvimento.
Trancoso é bonito e tem muralhas em toda a volta, tem torres (antigamente eram quinze) e tem um grande castelo. E tem teatro – tem uma casa de teatro, dentro do castelo, à entrada, do lado esquerdo. É uma grande e bonita casa!
Fomos, à noite, ver teatro e foi lindo: uma peça que fazia chorar e outra que fazia rir.
Tudo havia em Trancoso, até Teatro!


E agora, em jeito de quem se despede, deixarei duas notas aos trancosenses: em Almendra, todo o indivíduo que se prezava, no ano do seu casamento, levava a mulher à feira de Trancoso (viagem de núpcias diferida no tempo).
Tomem lá segunda, não menos singular: à época, a ligação Almendra–Trancoso era feita através de caminhos vicinais que se interligavam e se enrolavam e desenrolavam, em curvas e contracurvas, num nunca mais acabar, ladeira acima, ladeira abaixo. E, se para aqueles que já tinham calcorreado o caminho, a distância era grande, para os que o não conheciam era maior porque tinha a medida da imaginação.
Ora, quando à refeição, ao fazer do molho, se deitava o azeite, de maneira demorada e abundante (em curvas e contracurvas) alguém sussurrava do lado -Trancoso… Trancoso… Trancoso… - alusão metafórica ao longo e tortuoso caminho para esta vila, que, deste modo, entrou no quotidiano dos almendrenses.
Estes são os ecos que ressoaram em Almendra e voltaram à mítica, histórica e nobre Vila de Trancoso, pela mão de um Almendrense.



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

             

      PADRE JÚLIO GOMES

                 O HOMEM


                         António Moreirão

Natural de Almendra, nascido em 1871, o padre Júlio César Gomes descendia de uma família abastada e complementava uma prole numerosa: seis irmãos – quatro homens e duas mulheres.
Parafraseando, parcialmente, Sá de Miranda, tracemos o seu carácter:

        “Homem dum só parecer,
        De um só rosto e uma só fé,
        Tudo o mais pode ser,
        Mas frouxo e sem carácter é que não é.”

Este homem que amava Deus, que amava, ajudava e defendia os desditosos, ousou amar uma mulher: a filha do dono da casa onde se hospedara, quando nomeado pároco do Terrenho.
Um ano os separava na idade e o seu profundo e desmedido amor os uniu para a vida inteira.
Ela havia de ser encarcerada no seu próprio quarto, durante um ano, e ele transpôs a “Teja” e aquartelou em Moreira de Rei, sua nova paróquia.



Moreira de Rei havia de ser o Paraíso para os amores de Júlio e Carmina. Ela, sempre que podia, dava uma escapadela e aí se entregavam à grandeza e pureza dos seus amores sem limites.



Moreira acolheu, não hostilizou e beneficiou. Recebeu a inteligência e a capacidade de um homem superior que pôs todas as suas forças e influências – que haviam de ser muitas – ao serviço dos seus paroquianos, defendendo-os e orientando-os junto dos poderes públicos, onde era ouvido e se fazia ouvir… A eles se entregou, a todos defendeu, a todos ajudou e todos beneficiaram do seu lema: “Aos ricos nada levo porque são amigos – aos pobres nada levo por nada terem”.
Aplicando e desenvolvendo o seu espírito humanista, o padre Júlio, a breve trecho, se tornou a voz, o querer e o sentir das gentes de Moreira.
Entretanto, as visitas de Carmina são cada vez mais amiudadas e as presenças mais alongadas – presenças e ausências equilibram-se: mês cá, mês lá…
O Bispo impõe o corte cerce do relacionamento. O padre não cede. Sucedeu-se a suspensão do renitente, que durou dois meses. O Bispo, perante tão forte caráter, reconsiderou e recuou.
Os filhos sucedem-se: primeiro o varão, a que havia de chamar Hermínio, e que pouco tempo vivera (três ou quatro anos). Depois nasce a Carlota, que havia de morrer de parto, casada que foi com um professor. Do filho da infortunada Carlota havia de se ocupar, carinhosamente, sua avó Carmina. Mas a criança pouco tempo resistiu.
Mais novo que a Carlota apenas quatro anos, em 1913, nasce outro varão que, como o falecido irmão, se havia de chamar Hermínio. O por quê dos “Hermínios” deve encontrar-se na estima e admiração nutrida pelo padre Júlio em relação ao seu irmão doutor Hermínio Gomes, coronel médico.
E a Igreja, e o Bispo e o povo de Moreira de Rei… o que pensavam, como encaravam, como sentiam os amores inefáveis de Júlio e Carmina?
A Igreja, vencida – como noutros casos e muitos foram ao tempo – procurou ignorar, deixando que novos núcleos sociais (novas famílias), sã e claramente, nascessem, se desenvolvessem e multiplicassem… Era o devir, o devir natural…
O Bispo foi conquistado pela gentileza e simpatia da jovem Carlota, quando a Moreira se deslocou na preparação da Comunhão e aos seus préstimos se habituara e não mais os dispensara.



Quanto a Moreira de Rei, ainda se respira a lendária simpatia e admiração que os seus avós dedicavam ao seu padre e ao seu amigo. A simpatia e a sã convivência foram tais que a família Gomes deixou em Moreira mais de uma vintena de afilhados.
O último dos Gomes, o Hermínio Nunato, faleceu no Lar de Trancoso em 8 de Setembro de 1995. Foi o único sepultado em Trancoso, enquanto a restante família repousa no cemitério do Terrenho. Assim, o padre Júlio nem post mortem se separou de D. Carmina, a eterna companheira.
Fiquemos com a profunda e muitas vezes repetida frase do padre Júlio – situando-se no mundo e na vida – acerca dos seus amores: “ A Deus não me posso esconder – dos homens do mundo não me importo”.
Mas, para melhor conhecermos o homem, aludiremos a alguns episódios onde o seu timbre ficou bem patente. Assim, ao transpor a Teja, deixou para trás parte de uma paróquia – a Castanheira – a que não virou costas e onde se deslocava, sempre que a obrigação e a devoção por ele reclamavam.
É numa dessas deslocações à Castanheira que, no seu regresso, já noite dentro, uma espera lhe é feita – quiçá, contrapartida dos ousados amores… Porém o valente e corajoso padre Júlio não gostou do estorvo e desancou o primeiro, medindo-o um par de vezes com um varapau, seu companheiro das viagens noturnas.
Se um “viu estrelas, os outros viram relâmpagos” e, batendo com os calcanhares no rabo, deram às de Vila Diogo.
Muito ligado à família, era ele quem aconselhava e prestava auxílio aos pais, já idosos, até porque dos filhos era o que mais perto vivia. E, nesse contexto, consta em Almendra que o Conde, grande ricalhaço a tender para o usurpador, queria “apanhar” uns choupos, próximos de outros dele, ao pai do padre Júlio.
Ora, o pai Gomes escreveu uma carta ao filho, queixando-se das intenções e arremetidas do Conde. A resposta, num postal − para que o conteúdo pudesse ser alastrado e vulgarizado – foi peremptória, precisa e concisa: diga ao Conde que tenha juízo, porque senão vou aí, meto-lhe o dedo no cu e atiro-o para o telhado! O Conde, se não foi para o telhado, também não voltou a falar nos choupos.
É isso mesmo. Quem tem cu, tem medo!
Republicano e democrata fervoroso, acabou por estar ao lado de Afonso Costa – e contra a própria Igreja – no processo de laicização da sociedade, com a sua lei da separação da Igreja e do Estado – “novo quadro institucional e mental, centrado no respeito pela liberdade de consciência de cada um”.
Sabemos que o padre Júlio era inteligente, era valente…, mas também sabemos que não era incauto e, por isso mesmo, nesta agitação político-social (lutando ele abertamente contra o “statu quo ante”), astuciosamente se fazia acompanhar de duas pistolas que “religiosamente” entregava ao sacristão quando entrava na igreja, para “laicamente” as retomar quando dela saía.
Hoje falámos da forte personalidade e dos conturbados amores de um Homem que soube viver, para além do seu tempo e… de todos os tempos.



terça-feira, 17 de setembro de 2013

                             FOZ COA


Zé Arcanjo deu uma volta pela terra. Não era grande, mas tinha pontos de interesse. Iam passando automóveis, mas não se via muita gente a caminhar. A população era reduzida. Na véspera, fizera uma consulta rápida na Internet. A informação sobre o concelho era relativamente limitada. O vale do Coa e as gravuras rupestres chamavam mais as atenções do que a antiga Vila Nova. Ainda assim, pôde ler que, décadas atrás, algumas das suas dezassete freguesias tinham mais gente do que possuía agora a cidade. As pessoas fugiam do interior. Ou emigravam para França, ou se mudavam para mais perto, indo estabelecer-se na faixa costeira do País, onde era mais fácil conseguir emprego e governar a vida.


A Rua de São Miguel, pavimentada em calçada portuguesa, fora vedada ao trânsito. Era ladeada por casas de dois pisos, de idades e estilos de construção desiguais. Muitas apresentavam varandas salientes. As mais antigas tinham as esquadrias de portas e janelas em blocos de granito que o tempo acastanhara e conservavam nas varandas as proteções de ferro forjado. Algumas lojas conservavam os nomes antigos mas estavam encerradas. Eram efeitos da crise.


Zé Velasco caminhou durante alguns minutos e foi ter à Praça da República. Seguiu em frente até ao Largo do Município onde se tinham concentrado os antigos poderes do concelho: a administração, a cargo da Câmara Municipal, a direção espiritual, abrigada na igreja matriz e a Justiça, simbolizada pelo pelourinho.


A Câmara Municipal era um belo palacete do século XIX. 


    O pelourinho, em estilo manuelino, datava do século XVI. Era constituído uma coluna quadrangular encimada por um capitel complexo, decorado por quatro pináculos com escudetes, a rodear uma flor-de-lis.
Como outras, a igreja fora sendo alterada ao longo dos anos. 


De manuelino, conservava o belo pórtico, encimado pela imagem de Nossa Senhora do Pranto, ladeada por dois escudos reais e por um par de esferas armilares. 


     A rosácea era pequena, deixando adivinhar a penumbra no interior. O coroamento era de influência castelhana, com três ventanas abertas para os sinos, a fazer lembrar a proximidade da fronteira. A abraçar a bela fachada de granito, o reboco pintado de branco revestia as paredes do resto do templo.


Velasco entrou na igreja. As robustas colunas cilíndricas de granito tinham sido abaladas pelo terramoto de 1755. Resistiram, mas deixaram-se inclinar, sobretudo à direita e ao fundo. Pareciam fatigadas, como velhos funcionários públicos à espera da reforma. Aquela obliquidade insólita não chegava a meter medo, mas não tranquilizava os visitantes. Indiferentes às zangas do planeta, erguiam-se os altares barrocos, em talha dourada. O teto, de madeira pintada em tons que o tempo fizera escuros, retirava luz ao espaço de culto.

Texto adaptado do romance FÁTIMA, de António Trabulo, que aguarda publicação.

domingo, 15 de setembro de 2013

                             ANTÓNIO MOREIRÃO


Conheci o António Moreirão em Coimbra, no rescaldo da crise académica de 1962, em que ele teve uma participação assinalável. Como éramos ambos de Almendra, íamos conversando durante as férias de verão e tornámo-nos amigos.
O Moreirão pertencia a uma família em clara ascensão na terra. Apesar de ser dotado de uma inteligência bem acima da média, perdeu-se noutras andanças e nunca completou o curso de Direito.
Com alguma marca de ADN missionário nas veias, o António Moreirão empregou-se nas bibliotecas itinerantes da fundação Calouste Gulbenkian e calcorreou as estradas do Alto Douro e da Beira Alta a distribuir cultura. Nas paragens, sentava-se no chão da carrinha, frente a pequenos grupos de jovens ávidos de saber e improvisava pequenas palestras com tempero antissalazarista. Acabou por se fixar em Trancoso.
Lembro-me do tempo em que, à falta de melhores opositores, elegeu como inimigo de eleição o pároco da nossa aldeia e se divertiu a complicar-lhe a vida.
Já não testemunhei a sua amizade, em Almendra, com o padre Maximino (Max). Contou-me que chegou a ser seu treinador de futebol e lhe gritava das bancadas:
− Max! Mostra que és homem!


O padre Maximino Barbosa de Sousa aceitou candidatar-se a deputado pela UDP (União Democrática Popular) em 1976. Foi cobardemente assassinado à bomba, juntamente com a jovem Maria de Lurdes Correia, que seria sua aluna ou, como outros pretendem, sua namorada. O Ministério Público não foi capaz de apresentar provas que permitissem condenar os criminosos e os processos foram arquivados. O famoso cónego Melo, de Braga, cuja estátua polémica aguarda inauguração, consta da lista dos possíveis autores morais do crime. Alguns dos executantes estariam ligados a Trancoso.
Foi bom voltar a ver o Moreirão, após tantos anos de distanciamento. Envelhecemos ambos, mas o António mantém nos olhos espertos o brilho maroto da juventude. Não deixou que o tempo lhe tocasse na memória. É um depositário espantoso das histórias do passado da nossa Almendra natal e dos enredos da Trancoso contrabandista.
Tenho alguma ligação familiar a Trancoso. O meu pai foi ali chefe dos Correios meia dúzia de anos antes de eu nascer, enquanto ia fazendo o curso de Direito, como aluno voluntário, em Coimbra.

O António Moreirão ainda não sabe que dei o seu nome ao personagem principal do mais longo dos contos que escrevi até hoje: «O Geronte dos Mares».

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

                                                 ALMENDRA



  Os amigos que visitam este blogue com alguma regularidade têm certamente reparado no ritmo variável da publicação de novos artigos. Esclareço que não sofro de uma perturbação maníaco-depressiva da personalidade, com períodos alternados de sentimentos de exaltação e de minoração. O que se passa é que quando me empenho na escrita de livros, deixo os blogues para trás. A obra que estou a ultimar sobre Amílcar Cabral representou uma exceção, uma vez que foi sendo publicada em rascunho à medida que nascia. Terminei agora a revisão «grande» deste trabalho. Irá seguir-se um estágio na gaveta, para que possa madurar antes de receber os retoques finais.  
   O «Historinhas da Medicina» tem sido mais prejudicado pela minha falta de disponibilidade. Curiosamente, apesar de contar com pouco mais da quarta parte das 263 publicações do «De cá e de lá», tem visto o número de leitores crescer. As suas visitas representam já 40% do conjunto dos dois blogues, com a particularidade de a maioria provir do Brasil e incluir uma participação significativa de alguns países de língua espanhola da América Latina.
  Julgo que é tempo de dar mais atenção neste blogue à terra que me viu nascer.
 Aproveitando o reencontro com o meu conterrâneo e amigo de longa data António Moreirão, iremos publicar uma dúzia de pequenos artigos sobre Almendra e a região em que está inserida.
   Almendra é a maior freguesia do concelho de Foz Coa. Em anos recentes, Foz Coa deixou de ser «Vila Nova» para ser promovida a cidade enquanto   Almendra voltava a ser vila, como tinha sido durante mais de cinco séculos (desde 1298 até à reforma administrativa de Fontes Pereira de Melo, em 1855). São visíveis as ruínas da sua Câmara Municipal.
    A estação de Almendra, na extinta Linha do Douro, era a última antes da fronteira de Barca d`Alva. Da linha do caminho-de-ferro à vila vão 13 quilómetros de estrada serpenteante.




   Almendra é terra de amêndoa, azeitona e vinho. Em anos recentes, as suas terras voltaram a receber bacelos, uma prática interrompida pela praga de filoxera que devastou as vinhas portuguesas por volta de 1870. A conhecida marca de vinhos «Barca Velha» é produzida a partir de uvas produzidas nas terras de Almendra.