DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017



   A MORTE DE JOÃO PAULO I



Na madrugada do dia 28 de setembro de 1978, a freira Vincenza Taffarel deu com o papa João Paulo I morto.
Trabalhava para ele havia 18 anos e servia-lhe habitualmente o café da manhã. Na versão oficial dos factos, terá sido o padre Diego Lorenzi, um dos secretários do papa, a encontrar o cadáver. A causa da morte foi «possivelmente associada com enfarte do miocárdio». A freira fez depois voto de silêncio, o que levantou suspeitas. Que terá sido obrigada a calar?
O fim súbito dum papado tão breve alimentou rumores. Aldo Moro tinha sido assassinado quatro meses antes. Multiplicaram-se os boatos. Alguns deles estiveram na origem de teorias conspirativas.
Albino Luciani nasceu no norte de Itália, em 1912. Tinha sido Patriarca de Veneza. Foi eleito Papa, num conclave rápido, a 26 de agosto de 1978 e entronizado a 3 de setembro. O cardeal Giuseppe Siri, tido como conservador, era, para a imprensa, o favorito, mas a imprensa engana-se com frequência. Falava-se de outros nomes. Luciani nunca trabalhara no Vaticano, o que lhe reduziria as probabilidades de ser eleito. Muita gente ficou surpreendida com a nomeação, a começar pelo novo papa. Diz-se mesmo que tentou recusar o cargo.
A hora exata da sua morte é desconhecida. Foi avistado vivo pela última vez por volta das 23.30. O corpo foi encontrado às 4.30 da manhã.
Conta-se que previu o próprio fim. «Alguém mais forte que eu e que merece estar nesse lugar estava sentado à minha frente, durante o conclave. Ele virá, porque eu me vou.» Diz-se que esse homem era o polaco Karol Wojtyla.



O papa terá falado na possibilidade da sua morte ao cardeal John Magee um dia antes de falecer. Ou se sentia doente, ou ameaçado. A verdadeira causa do óbito é desconhecida. O cadáver não terá sido autopsiado. As leis canónicas dificultariam a autópsia do Sumo Pontífice e a família não concordaria com ela.
A Santa Sé declarou que o papa João Paulo I morreu na sua cama de um ataque cardíaco. Contudo, treze anos mais tarde, alguns familiares afirmaram que o papa não faleceu na cama, mas no seu gabinete de trabalho.
Esta e outras incongruências deixam no ar a hipótese de morte violenta de João Paulo I que, segundo alguns, terá sido envenenado.
O Papa foi embalsamado depressa demais. De acordo com um comunicado da Ansa, uma agência de notícias italiana, um automóvel do Vaticano foi buscar às suas casas os embalsamadores Renato e Ernesto Sinoracci às cinco da manhã, meia hora depois de ter sido encontrado o corpo do Papa.
O Vaticano segue, em parte, o paradigma dos impérios: chefe por eleição e vitalício. Em teoria, o Papa tem um poder quase absoluto. Não existe, contudo, poder sem conhecimento e não é certo que os altos funcionários da Santa Sé facultem de imediato aos novos chefes os segredos mais comprometedores. Lembremos que há secretários que desempenham funções durante papados consecutivos.
Uma vez posta a hipótese de assassinato, foram apontados muitos presumíveis culpados: a Opus Dei, que se erigira em estado dentro do Estado Pontifício; a Cúria Romana, avessa a mudanças políticas ou doutrinárias; a Maçonaria, que há muito infiltrara o Vaticano, apesar das ameaças de excomunhão; a Máfia, ligada a alguns membros da hierarquia católica e às instituições financeiras da Igreja.
O Banco católico Ambrosiano fora fundado no final do sec. XIX, em Milão. O seu nome provém de Santo Ambrósio, antigo arcebispo da cidade. Em 1971, Roberto Calvi, apoiado pela loja maçónica P2 (Propaganda Dois), de que era membro, assumiu a sua presidência e criou, na América do Sul, uma rede complexa de companhias fantasma destinadas a retirar dinheiro de Itália. Calvi aproximou-se do Banco do Vaticano, oficialmente designado por Istituto per le Opera di Religione e do seu presidente, bispo Paul Marcinkus. Financiou o jornal Corriere della Sera, alguns partidos italianos de Direita e o ditador da Nicarágua, Anastasio Somoza, que enfrentava a rebelião sandinista. Terá também enviado fundos para o sindicato polaco Solidariedade. Em 1978, ano da morte de João Paulo I, o Banco da Itália elaborou um relatório sobre o Ambrosiano, prevendo o seu colapso financeiro e desencadeando uma investigação policial.
O escândalo do Banco Ambrosiano veio relançar as suspeitas sobre o eventual assassinato de João Paulo I.


                                     Roberto Calvi

Em 1981, a polícia irrompeu pelas instalações da loja maçónica P2. Prendeu Licio Gelli, o grão-mestre, e encontrou provas que incriminavam Roberto Calvi. Calvi foi condenado à pena de quatro anos de cadeia, mas recorreu da sentença e conseguiu ser libertado.
No ano seguinte, não foi possível esconder por mais tempo as dívidas da instituição. A secretária de Calvi, Graziella Corrocher, de 55 anos, deixou um bilhete a denunciar os prejuízos que o seu chefe causara ao banco e aos empregados, antes de se atirar duma janela do 5º andar do edifício do Banco Ambrosiano
Calvi fugiu do país com um passaporte falso. A 18 de julho, deram com ele enforcado na ponte Blackfriars, em Londres. 



    Poderá ter-se tratado de suicídio, mas um homem, para se matar, precisa de viajar para tão longe?
O Banco do Vaticano perdeu, também, muitos milhões de dólares.
O escândalo com os investimentos da Santa Sé não terminou aí. Em 1994, o primeiro-ministro Bettino Craxi, socialista, o ministro da Justiça Claudio Martelli e Licio Gelli, da loja P2, foram acusados de cumplicidade no caso do Banco Ambrosiano. Gelli foi condenado a doze anos de prisão.
Verdadeiro ou falso, o assassinato dum Papa é um excelente tema jornalístico e literário. Sucederam-se as publicações a explorar o assunto. No seu livro Em nome de Deus, o escritor inglês David Yallop sugeriu que o Papa fora assassinado por ter descoberto esquemas de corrupção no Istituto per le Opera di Religione. De acordo com Yallop, Albino Luciano teria sido feito papa por ser considerado um homem modesto e influenciável. Ao assumir funções, revelara um caráter determinado que lhe iria custar a vida.
A obra de David Yallop não ficou isolada a defender a teoria da conspiração. Outras se lhe seguiram. A Santa Sé defendeu-se. Num livro muito bem documentado a que deu o nome de Um Ladrão na noite, John Cornwell refutou a argumentação de Yallop e dos seus seguidores. Segundo ele, Albino Luciani morrera de doença natural.
Nenhum deles merece inteira confiança. Se Yallop é um jornalista de investigação especializado em escrever sobre mortes suspeitas de gente famosa, Cornwell, ex-seminarista, terá tido a sua publicação encomendada e paga pelo Vaticano.



O estado aparente de saúde do papa é também objeto de controvérsia. Cornwell afirma que o Papa estava muito doente. Escreveu, perto do final do seu livro: «João Paulo I quase de certeza morreu de embolia pulmonar. Necessitava de descanso e de medicação. Se estes tivessem sido receitados, provavelmente sobreviveria. As advertências de uma doença mortal estavam à vista de todos. Pouco ou nada foi feito para socorrê-lo».
As suposições de John Cornwell vão no interesse do Vaticano, que, desejoso de explicar a morte do papa por causas naturais, tentou convencer a opinião pública que Albino Luciani tinha a saúde debilitada. São, porém, negadas pelo testemunho do seu médico pessoal desde os tempos de Veneza, Dr. António Da Ros. Quinze anos após a morte do Papa, Ros declarou à revista 30 Giorni que o tinha observado cinco dias antes da morte e que a sua saúde era excelente. Aliás, os conclaves evitam, há muito, elevar ao papado cardeais demasiado doentes.
Há quem tente ligar a morte de João Paulo I a vaticínios e premunições. 



     Segundo alguns, o Papa teria adivinhado a morte próxima. Dizem outros que a profecia feita por Nostradamus no séc. XVI se refere a ele:

   O papa eleito será traído pelos seus eleitores,
   Esta pessoa prudente será reduzida ao silêncio.
   Irão matá-lo por ele ser muito bondoso,
   Atacados pelo medo, tratarão da sua morte à noite.



De acordo com um dos irmãos de João Paulo I, a Irmã Lúcia, que ele visitou no Carmelo de Coimbra quando era Arcebispo de Veneza, teria também feito uma profecia. Tratou o Cardeal Luciani por Santo Padre. Luciani ficou intrigado e perguntou «Porquê?» Lúcia terá respondido: «Vossa Eminência será feito papa… Mas terá um pontificado muito breve…»
Lúcia nunca teve muito juízo e gostou sempre de dar nas vistas. Não foi, contudo, a vidente quem associou Albino Luciani ao «bispo vestido de branco» que terá sido avistado por ela e pelos seus primos Jacinta e Francisco durante uma das supostas aparições de Nossa Senhora de Fátima, em 1917.
Luciani foi Papa durante trinta e três dias. Pode ter tido morte natural, mas as declarações oficiais da Santa Sé, cheias de imprecisões, contribuíram para alimentar a teoria do seu assassinato. Nada teria acontecido de novo no palácio de São Pedro. Muitos dos seus antecessores tiveram morte violenta. Pelo menos dez foram envenenados. 
    A pressa em chamarem os embalsamadores aumentou as suspeitas. Não se vê para ela outra explicação, senão o descontrolo dos responsáveis do Vaticano e a urgência em se desembaraçarem das evidências do suposto crime.

(Capítulo do livro de António Trabulo, por publicar, Estranho ofício de Matar)

domingo, 15 de outubro de 2017



A EXECUÇÃO DE ALDO MORO



Poderão existir anjos na terra, mas não acedem ao Poder. Se lá chegassem (por milagre) seriam incapazes de o exercer. Depressa veriam as asas queimadas.
Aldo Moro foi assassinado em maio de 1978, após um cativeiro que durou quase dois meses. Não se tratava de um cidadão qualquer. Tinha sido, durante perto de uma década, o personagem mais destacado em Itália, depois do Papa. Chefiou cinco governos. Politicamente, conservou-se sempre próximo da Igreja Católica.
A 16 de março de 1978, na Via Fani, em Roma, um grupo de militantes da organização italiana de extrema-esquerda «Brigadas Vermelhas», comandado por Mario Moretti, intercetou os dois carros da comitiva de Moro, liquidou os cinco guarda-costas que deveriam protegê-lo e raptou-o. Por essa altura, todos os membros fundadores das Brigadas Vermelhas tinham sido detidos. Os brigadistas queriam demonstrar que estavam vivos e ativos e que nem as mais altas figuras da República Italiana estavam a salvo dos seus ataques. Retomavam, desta forma, o protagonismo nos noticiários internacionais.


Aldo Moro era o líder da Democracia Cristã italiana e Giulio Andreotti um dos seus dirigentes mais destacados. Moro foi sequestrado quando se dirigia para a Câmara dos Deputados, para assistir à tomada de posse de Andreotti como primeiro-ministro.
O governo italiano recusou negociar com os sequestradores e Aldo Moro foi assassinado, após um longo cativeiro.
Muito se disse e pouco se provou sobre o envolvimento de diversas personagens e organizações italianas, americanas e, até, soviéticas, no caso Moro. O historiador Sergio Flamigni afirma que Moretti foi colocado pela Gladio à frente das Brigadas Vermelhas.
 Entre 1969 e a segunda metade da década de 80, a Itália viveu os chamados «anos de chumbo». A «guerra fria» estava no auge. Os eurocomunistas de Enrico Berlinguer eram o partido comunista mais importante do mundo capitalista. O PCI ocupava 34% das cadeiras parlamentares, sendo apenas suplantado pela Democracia Cristã.

                            Enrico Berlinger
 Aldo Moro era um político pragmático. Menorizou porém alguns dos aspetos mais radicais da política italiana e mundial. O seu «compromisso histórico» iria juntar a Direita e a Esquerda, assegurando uma base parlamentar sólida a um governo inédito de democratas-cristãos e comunistas. A iniciativa desagradava a muita gente, dentro e fora do país. Nessa altura, a “geringonça” estava por inventar. 
 Para os americanos, a entrada de comunistas no governo de Itália iria permitir-lhes não só influenciar decisões políticas que poderiam contrariar os seus interesses, como também aceder a informações estratégicas sobre instalações e planos militares, podendo eventualmente comunicá-las a agentes soviéticos. Em caso extremo, a NATO poderia mesmo deixar de ter acesso a portos estratégicos no Mediterrâneo.
A União Soviética receava ver abalar o equilíbrio tático estabelecido na Europa, no final da guerra. A embaixada soviética em Roma terá manifestado a Aldo Moro a sua discordância quanto ao «compromisso histórico». Aliás, as relações dos russos com o PCI de Berlinger não eram as melhores.
No plano interno, o projeto de Moro levantou objeções à esquerda e à direita. À direita, dentro da própria Democracia Cristã, a ideia tinha adversários de peso. À esquerda, havia quem falasse de traição à causa socialista. Os extremistas dos dois campos opunham-se à paz social.
As Brigadas Vermelhas assumiram publicamente a autoria do rapto e do assassinato de Moro. A motivação e as associações conjunturais do grupo esquerdista é que são menos claras.
Há quem diga que a Gladio, braço secreto da NATO, instrumentalizou os membros das Brigadas com a finalidade de agudizar o ódio aos comunistas na sociedade italiana. Era importante inviabilizar o controlo de alguns ministérios pelo PCI e recorreu-se à «estratégia de tensão». Tratava-se de diabolizar a Esquerda, para que a opinião pública exigisse do Estado o reforço das medidas de segurança. Não se trataria de um acontecimento isolado: de acordo com um suposto antigo agente da Gladio, Vincenzo Vinciguerra, o atentado bombista que vitimou 85 pessoas, em 1980, num comboio de Bolonha, foi preparado e executado por agentes dos serviços secretos italiano e americano.
Os meandros da política italiana eram complexos, envolvendo múltiplos protagonistas. A Máfia enriquecera no pós-guerra com o boom das obras públicas e pagava a individualidades políticas bem colocadas para ser favorecida nos concursos abertos pelo governo e pelas autarquias. Certas lojas maçónicas tinham feito profissão de fé anticomunista. Alguns dos seus dirigentes colaboravam abertamente com a direita italiana, não se coibindo de confraternizar com a CIA e com a Gladio. Lembro que o gládio romano era uma espada de dois gumes. Por coincidência ou não, faz parte do logótipo da NATO.
O antigo membro das Brigadas Vermelhas Alberto Franceschini publicou um livro em que apontou Aldo Moro como um dos fundadores da Gladio. A ser assim, ganharia força o ditado: «quem com ferros mata…»
Na extrema-esquerda do leque político italiano havia quem ainda sonhasse impor o comunismo no país através da ação revolucionária. 


O certo é que o assassinato de Moro pôs fim ao «compromisso histórico». A decisão de deixar morrer Aldo Moro poderá ter sido tomada em conjunto pela CIA e pela direita política italiana. Terá sido precipitada quando Moro começou, nas suas cartas, a revelar segredos de estado, incluindo a existência da Gladio.
A dada altura, o destino de Moro ficou traçado. O governo italiano negou-se a fazer um acordo com bandidos. O ministro do interior, Francesco Cossiga, adotou uma posição intransigente e recusou qualquer negociação com os sequestradores, que se declaravam dispostos a trocar o antigo primeiro-ministro por um grupo de militantes esquerdistas presos.
A prisão de Aldo Moro e a ameaça de morte que sobre ele pendia ocuparam boa parte dos noticiários televisivos em Itália e um pouco em todo o mundo e encheram os cabeçalhos dos jornais. O antigo primeiro-ministro esteve cativo durante 55 dias. Escreveu quase duas cartas diárias. Endereçou-as à família, ao governo e até ao Papa. O conteúdo de algumas foi silenciado durante décadas. Moro esmolou negociações e piedade, mas não as obteve. Frustradas as tentativas de compromisso, as Brigadas assassinaram o líder democrata-cristão. O corpo de Aldo Moro, crivado de balas, foi abandonado no interior dum automóvel junto ao rio Tibre, no dia 9 de maio de 1978.


Cossiga, mais tarde presidente da República italiana, viria a declarar que, se tivesse admitido negociar com as Brigadas Vermelhas, faria o país mergulhar numa crise profunda e duradoura. O Estado italiano poderia mesmo desagregar-se. Admitiu que o gabinete de crise a que presidia tinha feito passar a notícia falsa da execução de Moro, um dia antes dela ocorrer. A desinformação fora emitida para testar a reação da opinião pública e para colocar um ponto final nas hipóteses de negociação. O anúncio equivaleu a uma sentença de morte. Para o governo italiano, Moro era já um cadáver. 
      Steve Pieczenik, enviado do presidente Jimmy Carter ao gabinete de crise italiano, admitiu 28 anos mais tarde, numa entrevista pública, que tinham sacrificado Aldo Moro para manter a estabilidade em Itália.
Com Moro afastado da cena política, Giulio Andreotti assumiu o cargo de primeiro-ministro e pôs em prática uma política declaradamente anticomunista.

                             Giulio Andreotti
Infiltradas ou não, ao matarem Aldo Moro após quase dois meses de cativeiro, as Brigadas Vermelhas suicidaram-se politicamente. Poucos italianos as apoiariam, depois da publicação repetida de cartas a pedir a misericórdia de negociações, escritas por um homem respeitado em toda a Itália pela sua estatura moral e intelectual. Moro quis pacificar o seu país, congregando os setores moderados da Esquerda e da Direita num acordo parlamentar que asseguraria ao governo o apoio de uma maioria estável. Em vez disso, desencadeou um maremoto que o engoliu a ele e ao seu projeto.
Custa entender como foi tão fácil a um grupo, bem armado mas sem experiência de combate, atacar os dois automóveis, matar os guarda-costas com rajadas de metralhadora e retirar sem oposição, transportando a vítima para um refúgio previamente preparado. Os carros não eram à prova de bala. De outro modo, teria havido uma resistência eficaz.
Os sequestradores acabaram por ser presos. Os carabinieri do general Dalla Chiesa desmantelaram o agrupamento revolucionário italiano. Em janeiro de 1983, 25 elementos das Brigadas Vermelhas foram condenados a prisão perpétua pelo assassinato de Aldo Moro e dos seus guarda-costas.
À execução de Moro, seguiram-se outras mortes violentas, alegadamente associadas à sua. No próprio mês da execução, o jornalista italiano Mino Pecorelli publicou um artigo explosivo. Sugeria a conexão entre o caso Moro e a Gladio. Apontava o dedo acusador à CIA e afirmava que o comandante dos carabinieri Carlo Alberto Dalla Chiesa, tinha informado o ministro do Interior Francesco Cossiga do local do cativeiro de Moro, ainda em vida do sequestrado. O general teria recebido ordens para não atuar, devido à oposição de uma loja maçónica poderosa. Pecorelli profetizou então o assassinato de Dalla Chiesa.

                            Dalla Chiesa
Tanto Chiesa como Pecorelli eram maçons. O nome de Mino Pecorelli constava da lista de membros da loja P2 de Lício Gelli.
Carlo Alberto Dalla Chiesa foi transferido para Palermo. Muitos italianos acreditam que foi enviado para a Sicília por saber demais sobre as circunstâncias que rodearam o cativeiro e a morte de Aldo Moro. O general e a sua esposa foram abatidos a tiro pela Máfia, quatro anos mais tarde.


Pecorelli viveu menos tempo. Foi assassinado por dois desconhecidos, em março de 1979. Acabara de anunciar a intenção de publicar novos factos que comprometiam Giulio Andreotti. Andreotti foi acusado de ter ordenado a morte do jornalista. Tinha sido por diversas vezes primeiro-ministro de Itália e estava estreitamente ligado à Máfia. Curiosamente, foi ele quem primeiro reconheceu publicamente a existência da Gladio. Estava-se já em outubro de 1990.   



   O processo judicial parece confuso para os não italianos. Em 1999, decorridas duas décadas sobre o crime, o tribunal absolveu-o, no final dum julgamento que durou três anos. Houve recurso e, em novembro de 2001, Andreotti, já octogenário, foi condenado a 24 anos de prisão. Não chegou a ser encarcerado porque a sua condição de senador vitalício lhe conferia imunidade. Em outubro do ano seguinte, um tribunal superior anulou a decisão prévia e absolveu Giulio da acusação de homicídio. Em 2003, o tribunal de Palermo absolveu-o também da acusação de ligação à Máfia por ter prescrito o prazo dos supostos delitos. 

(Capítulo do livro por publicar, de António Trabulo, Estanho Ofício de Matar).
          


quinta-feira, 12 de outubro de 2017


A NARRATIVA TELÚRICA
   EM ESCRITORES MÉDICOS TRANSMONTANOS

      A PROPÓSITO DE MIGUEL TORGA E BENTO DA CRUZ

     III




Voltemo-nos agora para Bento da Cruz.
Bento Gonçalves da Cruz nasceu na aldeia de Peireses (Montalegre, Trás-os-Montes), em 1925 e faleceu no Porto, em 2015.


18 anos mais novo que Torga, teve uma vida longa e produziu uma obra literária extensa. Publicou 14 livros de ficção (entre romances e contos), 3 estudos biográficos e 3 volumes de crónicas.
Na sua obra central, o Planalto de Gostofrio, descreveu ao pormenor o trabalho infantil a que foi sujeito, colaborando para o sustento da família na pastorícia e na rega dos campos.
Aos quinze anos, ingressou na Escola Claustral de Singeverga, dirigida por monges beneditinos, e ali estudou durante seis anos. Durante esse período, dirigiu duas revistas estudantis.
Dois anos mais tarde, matriculou-se em Medicina, em Coimbra.
Já médico, exerceu clínica geral e estomatologia na região do Barroso. Acabou por se fixar no Porto, em1971.
Em 1974, fundou o jornal «Correio do Planalto», que dirigiria até perto do final dos seus dias. Reuniu as crónicas que ali publicou sobre a região natal nos três volumes dos «Prolegómenos», que recordam a aldeia da sua infância e narram histórias antigas.
 Para preparar este texto, apoiei-me no Planalto de Gostofrio, um romance de inspiração autobiográfica recheado de imagens poéticas, nas Histórias da Vermelhinha, uma coletânea de contos recolhidos da tradição rural do Barroso e em dois volumes dos Prolegómenos.


A escrita de Bento da Cruz é alegre e fácil de ler.

Gostofrio (Peireses) tem crescido comigo. É hoje uma aldeia com ares de burgo, mas ainda me lembro dela de tamancos e burel, toda negra nas casitas de colmo e pedra bruta, sem o menor fogacho de telha ou desmaio de cal. Os sobrados contavam-se pelos dedos e, todos juntos, não somariam tantas janelas de vidraça como dias tem o mês.

Peireses tem um anel de montanhas à volta. Nos dias de sol, as montanhas afastam-se e o mundo é grande. Nos de vento e chuva, as montanhas apertam o cerco, o mundo é pequeno e as pessoas sentem um constrangimento de angústia no coração.


Bento da Cruz escreveu, no Prefácio de Histórias da Vermelhinha:
A fauna desses caminhos do Senhor era um espetáculo variegado e ininterrupto: lavradores que subiam da Ribeira com a carga do vinho ou de Ruivães, com a carga do sal; almocreves de ou dois machos que mercadejavam em tudo e morriam pobres; mendigos com alforges nem sempre cheios de esmolas, mas sempre repletos de desilusões; ciganos, olho vivo, mão ligeira, buena dicha, contrabandistas de fardo às costas e pé furtivo; galegos escachapernados em montes de peles e boas mulas; saltimbancos dos sete instrumentos e setenta artimanhas; ourives ambulantes de baú a tiracolo e credo na boca… …feirantes, romeiros, cumpridores de promessas, pedintes para a «casa ardida»;

Assim como nenhum espadachim saía à rua desarmado duma boa espada, também nenhum barrosão viajava desprevenido dum bom lodo.

Esquematicamente, poderíamos dizer que os nossos avós se vestiam de burel no inverno e de linho no verão. Do que a terra dava e a dona fiava.
De linho era toda a roupa interior, os lençóis e travesseiros da cama, as toalhas de rosto e da mesa, os sacos de farinha e do grão, os alforges da burra. De lã de ovelha as capas, as calças, as saias, os coletes, os saiotes, os aventais, os carpins, as meias, as polainas, as mantas e os cobertores.

Tendo em comum o amor profundo à terra natal, Miguel Torga e Bento da Cruz, sentem o telurismo de formas diferentes.
Em Torga, o sentimento telúrico é dramático e quase obsessivo. A terra é o ventre materno, é a deusa procriadora. Torga tem saudades de si próprio.
Tal como Torga, Bento da Cruz sente necessidade de se revigorar no contacto periódico com a terra mãe. É, contudo, um otimista. Bento da Cruz tem saudades do passado. Procura preservar a sua memória nos seus escritos.

Para o diabo os pensamentos tristes. Eu fico-me com esta beleza. Com este solo atapetado de folhas, esta irradiação de luz que sobe pelas árvores e ilumina o firmamento.
Com a graciosidade de uma carvalha de copa mais aparada e redonda que jarra de centro de mesa e um círculo de folhas na relva como a sua imagem refletida na colina. Com as cabriolas de um gato amarelo que afia as garras na ervagem seca e rosna como a dizer-me: agarra-te à vida; não te deixes ir abaixo.

Em ambos, o contacto com a terra mãe, com as origens, renova o vigor do homem. É, no essencial, o mito de Anteu. Anteu era filho de Poseidon, deus do mar, e de Gaia, a terra. Anteu era um gigante malvado e extraordinariamente forte com os pés assentes na terra, sua mãe, mas que perdia as forças se fosse levantado no ar. Foi derrotado e morto por Hércules, que o sustentou nos braços, impedindo-o de poisar no chão.



Este bronze é de António de Poillaiolo, pintor, escultor e anatomista, 20 anos mais velho que Leonardo da Vinci.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017


 A NARRATIVA TELÚRICA
   EM ESCRITORES MÉDICOS TRANSMONTANOS

      A PROPÓSITO DE MIGUEL TORGA E BENTO DA CRUZ

     II


    Ao falar na narrativa telúrica em escritores médicos transmontanos, começarei por Miguel Torga. Imagino que seria assim que ele gostava de se ver.


    Torga nasceu em S. Martinho de Anta, no concelho de Sabrosa em 1907, numa família humilde. Aos 10 anos, foi trabalhar para casa de familiares ricos, no Porto, e não se deu bem. Foi despedido por rebeldia e, em 1918, entrou para o seminário de Lamego, onde passou apenas um ano. Recusou fazer-se padre. Poderá ter perdido a fé.


    Com 13 anos, foi enviado para o Brasil, para junto do tio, que possuía uma fazenda de café em Minas Gerais. O tio deu conta das qualidades invulgares da criança e, quatro ou cinco anos depois, matriculou-o no Ginásio, em Leopoldina. O ginásio equivale mais ou menos ao nosso liceu. O moço distinguiu-se nos estudos e o tio entusiasmou-se com ele, a ponto de lhe pagar o resto do estudo liceal e o curso de Medicina.
    Em 1928 Adolfo Coelho da Rocha, entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Publicou o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade.


    Em 1929, aos vinte e dois anos, deu início à colaboração com a revista Presença, com o poema Altitudes. A “Presença”, fundada em 1927 por José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca foi publicada até 1940. Centrou o movimento literário chamado “segundo modernismo” ou “presencismo”, que se haveria de revelar mais crítico do que criador. A revista ajudou a celebrar o primeiro modernismo e a divulgar as suas figuras de proa: Fernando Pessoa, Mário Sá-Carneiro e Almada Negreiros.
    Torga abandonou o grupo no ano seguinte, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana».


    Casou, em 1940, com uma belga nascida em França, Andrée Crabbé, que tinha vindo a Coimbra para fazer um curso de verão com Vitorino Nemésio.


    Aqui está Miguel Torga, à esquerda. Vitorino Nemésio é o senhor da direita e tem a seu lado Paulo Quintela. Avesso a correntes literárias, Torga foi sempre um individualista, um poeta solitário, para quem a independência e a liberdade de criar eram valores fundamentais. O chamado da terra, o apego às origens e a necessidade de revisitar o chão onde nascera, para se revitalizar, estão presentes em boa parte da sua obra.
    Torga publicou mais de 50 livros. Para ilustrar o meu tema, da sua vasta obra poderia ter escolhido contos, versos, ou um dos seus poucos romances. Optei pelos diários, essencialmente porque cobrem um período vasto da sua vida, e permitem acompanhar a evolução do escritor ao longo do tempo.
    Saíram 16 volumes do Diário, entre 1932 e 1993. São mais de sessenta anos. O escritor morreu em Coimbra, em janeiro de 1995. Está sepultado em S. Martinho de Anta.
    Escrutinei os volumes I, X e XIV dos diários, que me pareceram constituir uma amostragem razoável. A terra natal aparece logo nas primeiras páginas do volume inicial com um chamado forte e quase irresistível.

SMA, 5 de março de 1934
Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende – é esta. A comida que o meu estômago deseja – é esta. O chão que os meus pés sabem pisar - é este. E, contudo, eu não sou já daqui.
Pareço uma dessas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal!
Ao partir, primeiro para o Porto e depois para o Brasil, de onde seguiria para Coimbra, Adolfo Coelho da Rocha ficou com o coração quebrado. Julgo que essa racha a meio da personalidade o acompanhou até aos dias finais.

SMA, 20 de abril de 1938
Tirei hoje o leite à cabra. Mas a minha mão já não é a mão justa do lavrador que conhece a medida da sua fome. Tirei tudo. Sequei tudo. Deixei o cabrito sem ração. Meu Pai olhou-me desanimado, e a cabra também.

Torga não se demorou no Brasil tempo que bastasse para o amar. Em Coimbra, onde decorreu a maior parte da sua vida de escritor e de médico, sentiu-se sempre um pouco inadaptado, com se nunca tivesse deixado de ser um estranho.

Saltemos agora 27 anos. Mal se dá pela passagem do tempo na escrita de Torga.

SMA, 12 de abril de 1965
Leio o nome da povoação nos marcos da estrada. Vejo logo a Senhora da Azinheira a branquejar no alto da serra, oiço o sino a badalar, sabe-me a boca a tabafeira, cheira-me a rosmaninho. 

Tabafeira, ou tabafeia, é uma alheira.

Já dentro da terra, tropeço em cada pedra, bebo em cada fonte, vou de anjo em procissão. Enquanto ando lá por baixo, esqueço-me de que tenho cá dentro um tal rosário de reações à espera de estímulo. Prova evidente de que os ramos e as folhas estão longe das raízes.
Tudo o que sou claramente não é daqui. Mas tudo o que sou obscuramente pertence a este chão. A minha vida é uma corda de viola esticada entre dois mundos. No outro, oiço-lhe a música; neste, sinto-lhe as vibrações.


29  SMA, 16 de agosto de 1966
S. Martinho é um reduto ideal. Uma fortaleza a que me abrigo duas ou três vezes por ano, e onde me sinto inexpugnável todos os dias.

SMA, 16 de abril de 1967
Seja qual for a estação do ano e a direção seguida, antes de sair de casa já sei que alimento os olhos vão ter pelo caminho. Neve no Larouco, rododendros cor de fogo em Magueija, soutos a pingar castanhas em Carrazedo de Montenegro. Mas é sempre com o mesmo alvoroço que parto, e com o mesmo deslumbramento que regresso. Para o verdadeiro crente, a missa nunca se repete. E a minha missa é esta. Uma íntima e diária comunicação com a natureza, nos transes da sua perpétua agonia, morte e ressurreição.

Sarraquinhos, Barroso, 17 de setembro de 1967
Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que o deus vivo de ricos e pobres, de alfabetos e analfabetos, é o toiro do povo.
Um deus de cornos e testículos que, depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura.
Um deus a quem se dão gemadas e cervejas para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações.
Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original.

SMA, 23 de dezembro de 1982
Lá em baixo sou uma ficção entre ficções; aqui sou uma criatura entre criaturas.

Após a morte da irmã, ocorrida em abril de 1983, as visitas a S. Martinho de Anta tornam-se mais espaçadas.

SMA, 19 de setembro de 1984     

Estou que não posso. Pareço quebrado dos rins. A suar em bica, esfalfado, não dou tréguas ao corpo enquanto não vejo a terra limpa como a herdei dos antepassados. Pedem muito as raízes! Aqui, debaixo do seu império, pouco ou nada se me dá de ser bom ou mau escritor. Sinto-me, sim na obrigação de ser um bom cavador.

                                                                  (Continua)