DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 3 de outubro de 2015

                

                 MORREU O PASCOAL



Morreu José Vilhena.
Acabou-se o Pascoal!
A minha geração aguardava alegremente as edições sucessivas dos magníficos desenhos de Vilhena. Volta e meia, os livros eram apreendidos.
Ao tempo, a proibição era uma forma de publicidade. A polícia política (PIDE) era muito menos eficiente do que se imagina hoje. Os volumes ilustrados acabavam por chegar a quem os queria ver. O autor acabou (quase) por se familiarizar com os calabouços da ditadura.
Mais tarde, José Vilhena caricaturizou de forma notável as figuras políticas do regime democrático. Desconheço os números, mas atrevo-me a supor que as edições da “Gaiola Aberta” terão alcançado as tiragens mais elevadas de todas as publicações impressas em Portugal.
Passou o tempo e todos envelhecemos. Hoje, em véspera de eleições, até a Democracia mostra um ou outro sinal de senescência.
Tenho saudades do Pascoal. Era um homem de olhar libidinoso que apreciava a generosa anatomia feminina com a triste certeza de não ser capaz de a alcançar. A Bíblia bem dizia: não cobiceis a mulher do próximo! Falava em vão. Atrevo-me a pensar que há um pouco do Pascoal no fundo de cada um de nós.
Morreu José Vilhena. Um pouco da graça que pairava por aí abandonou o mundo.

Apresento à família, e em especial ao meu amigo Professor Fonseca Ferreira, as minhas condolências.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015




     




Revelação - João Diogo Pereira Barreira, "Pentapétalo"

Poesia - João Carlos Costa  da Cruz, "Na luz das janelas pestanejam as sombras"


Ensaio - António Alberto Sancho Trabulo, "Bocage no Oriente"


quinta-feira, 30 de julho de 2015

                          MARCOS NO CAMINHO


A soma dos visitantes dos meus blogues passou hoje dos 100.000.
O decaedela, mais velho, continua à frente em número de visitas, embora a diferença para o historinhasdamedicina tenda a diminuir.
Dei início ao decaedela em setembro de 2009. Dois anos mais tarde, em 2011, tinha publicado 100 mensagens que despertaram o interesse de 6.700 leitores.
Em maio de 2013, os blogues registavam 50.000 vistas.
Até à data, publiquei 300 pequenos artigos no decaedela e 113 na Historia da Medicina. Perfazem mais de 400, em seis anos, o que se traduz numa média de 1,3 por semana. A periodicidade foi bastante irregular, com “picos” e “vales” relacionados sobretudo com a intensidade da escrita de ficção. Escrevo mais nos blogues quando termino um livro ou quando regresso de viagens. Cheguei a transcrever no decaedela o esboço inteiro do meu livro “Guerra da Guiné”.
  Curiosamente, houve semanas em que o historinhasdamedicina foi visitado por gente de todos os continentes.


domingo, 26 de julho de 2015

       NINHO DE ANDORINHA


As andorinhas passam os invernos em terras quentes. Diz-se que chegam a fazer viagens de 10.000 quilómetros, ao longo de quatro a seis semanas. Podem percorrer mais de 300 quilómetros num dia. Há bandos que atravessam o deserto do Saara e sobrevoam as florestas centro-africanas antes de atingirem os abrigos de inverno.
Alimentam-se durante o voo e passam as noites em zonas húmidas já conhecidas.
Muitas ficam pelo caminho.
Têm boa memória. As que resistem são capazes de voltar aos ninhos que construíram com lama e palha.


No outono passado, destruí um ninho que tapava um respiradouro. Na primavera, foi refeito, exatamente no mesmo lugar.




segunda-feira, 1 de junho de 2015

ONDE ESTÁ O TSIPRAS PORTUGUÊS?

 

 Alexis Tsipras é presidente do partido grego Synaspismos e líder da coligação da esquerda radical grega SYRIZA. É também o primeiro-ministro do seu país desde janeiro de 2015.
 Enfrenta, neste momento, grandes dificuldades nas negociações com as instituições europeias e com o FMI, sendo uma incógnita o futuro próximo da Grécia. O país poderá sair da zona Euro e, eventualmente, abandonar a União Europeia, dentro de dias ou meses.
 Desencadeou, contudo, uma onda de fundo contra o poder instituído no velho continente e pôs em causa a estabilidade dos partidos políticos convencionais. O seu exemplo deu frutos noutros países.


 Na vizinha Espanha, o partido Podemos, que desfralda a bandeira do combate contra a austeridade, obteve recentemente resultados históricos nas eleições municipais e regionais. Deverá integrar a coligação que vai governar Barcelona e aproximou-se do poder em Madrid. Politicamente colocados mais ao centro, os Ciudadanos conseguiram também votações expressivas. O Partido Popular, no poder, e o PSOE, terão perdido a hegemonia eleitoral a que os espanhóis os habituaram.
 No SYRISA e no Podemos, os resultados eleitorais estão em relação com os carismas dos seus líderes e o modo como souberam canalizar o desagrado pelas políticas de austeridade levadas a cabo pelos governos de direita.
 O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras vai apenas nos 40 anos e militou na juventude comunista. É licenciado em engenharia e tem algumas pós-graduações. Num discurso em Berlim, em maio de 2014, manifestou a sua oposição à política neo-liberal, vigente na Europa sob a batuta de Angela Merkel.
 Levou o SYRISA à vitória nas eleições gregas de 25 de janeiro de 2015, obtendo 36% dos votos e garantindo 149 dos 300 lugares no parlamento.
 Foi nomeado primeiro-ministro. No decurso da primeira reunião do seu gabinete, expôs as suas prioridades para o governo da Grécia: combater o desemprego e a crise humanitária, negociar com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional a reestruturação da dívida grega e cumprir as promessas eleitorais do SYRISA, incluindo o fim das privatizações.
 Passemos para Espanha. Pablo Iglésias é escritor, professor universitário e apresentador de televisão. Usa, emblematicamente, o cabelo comprido seguro na nuca com uma fita e tem-se mostrado capaz de mobilizar o descontentamento de boa parte do eleitorado espanhol. O seu partido está a crescer e ninguém sabe onde irá parar. Poderá, contudo, acompanhar o destino do SYRIZA, em quem boa parte da esquerda europeia depositou a sua esperança.
 Aparentemente, a crise económica fez-se sentir com maior intensidade em Portugal do que em Espanha e seria de esperar uma evolução política semelhante.
 Onde é que estão o SYRISA português e o seu Tsipras?
 Terá ocorrido dedo demais a eclosão de um líder carismático na esquerda portuguesa. Francisco Louçã, economista de grande prestígio, coordenou o Bloco de Esquerda de 2005 a 2012. Ao longo desse tempo, apresentou no Parlamento uma série considerável de projectos inovadores, obtendo mesmo a aprovação de uns tantos.


 O Bloco de Esquerda conseguiu eleger oito deputados nas legislativas de fevereiro de 2005. No mesmo ano, Louçã foi nomeado porta-voz da comissão Política do Bloco. Nas eleições legislativas de setembro de 2009, o BE aumentou para 16 o número de deputados eleitos, tornando-se na 4ª força política do país.
 A euforia não iria durar muito. Nas eleições legislativas de 2011, o Bloco de Esquerda viu reduzir para metade a sua representação parlamentar. As divergências internas acentuaram-se. No ano seguinte, Francisco Louçã abandonaria a liderança. Aparentemente, os seus sucessores não souberam tirar partido das condições políticas extremamente favoráveis ao desenvolvimento de soluções políticas alternativas.
 O “Barómetro Eurosondagem” de meados de maio de 2015 mostra as intenções de voto no Partido Socialista um pouco à frente da coligação PSD/CDS. A CDU anda pelos 10 % e o Bloco de Esquerda não chega aos 5%. O PDR de Marinho Pinto ronda os 2,5 %, enquanto o Livre fica abaixo dos 2%.
 Se olharmos para as sondagens da Aximage da mesma altura, veremos equilibradas as intenções de voto no PS e na coligação que está no governo. A CDU ronda os 7,7 % das intenções de voto, enquanto o Bloco de Esquerda ultrapassa ligeiramente os 4 %. O Livre/ Tempo de Avançar alcançaria 2% dos votos e o partido de Marinho Pinto teria pouco mais de 2,5. As conclusões são fáceis de tomar: os portugueses desconfiam dos resultados das mudanças políticas bruscas e, ainda que com a fé reduzida, continuam a acreditar mais nos partidos tradicionais.
 Louçã fará 60 anos em 2016. A evolução da situação política europeia poderá não esperar pelo surgimento de um novo líder carismático na esquerda portuguesa. Entre nós, o necessário “arejamento” do sistema político-partidário corre o risco de ficar adiado para as calendas gregas.

domingo, 31 de maio de 2015


AINDA O ACORDO ORTOGRÁFICO





  Há alguns anos (21/01/10), expus, neste espaço, a minha opinião sobre o Acordo Ortográfico. 
  Antes e depois de o fazer, encontrei quem concordasse comigo e, também, quem discordasse. A falta de consenso leva a pensar que se procurou e conseguiu, um certo “acordo” internacional (pelo menos com portugueses, brasileiros e cabo-verdianos) mas que não se obteve um “acordo” dentro de portas.
 Em Cabo Verde, o Acordo está em fase de implementação.
No Brasil, segundo o linguista José Luiz Fiorin, “o Acordo já está completamente implantado porque os jornais, revistas e livros utilizam a nova ortografia e não havia necessidade de se prorrogar o início do período de obrigatoriedade para 2016”.
  O governo angolano não aprovou o Acordo ortográfico, não sendo certo que o venha a fazer. Em Moçambique, o Acordo ainda não foi ratificado pelo parlamento.
  No passado dia 13 de Maio, cumpriram-se os seis anos do período de transição e o Acordo tornou-se obrigatório em Portugal. A polémica foi imediatamente relançada. Ai, Deus, que nos roubam a língua!
  Há dias, Sampaio da Nóvoa, candidato presidencial, declarou, em Amarante, que “o acordo ortográfico deve ser reavaliado com muita determinação”. Não consta que o antigo reitor da Universidade Nova se tenha manifestado publicamente nesse sentido, antes de enveredar pela vida política ativa. Felizmente, no nosso regime semipresidencialista, as opiniões de um candidato a presidente, em matéria de linguística, valem o mesmo que as dum cidadão comum, embora tenham uma divulgação muito maior. Que me perdoe Sampaio da Nóvoa, mas pretende mesmo lançar a confusão nas cabeças dos nossos netos? Os que iniciaram a escolaridade no decurso dos últimos anos não aprenderam outra grafia.



   Eu não sou linguista, mas penso, falo e escrevo em português.
  Considero que, antes de se chegar a um acordo internacional, se deveria ter discutido a questão, até alcançar um consenso nacional. Os “puristas” (alguns dos quais encontram argumentos na raiz latina de muitos dos nossos vocábulos) defendem que a correção da linguagem portuguesa deve passar pelo respeito escrupuloso das regras gramaticais vigentes. Outros pensam que a escrita deve acompanhar de perto a linguagem, indo buscar a legitimidade das novas formas às expressões orais que se vão popularizando. Julgo que qualquer acordo deveria harmonizar as duas tendências.
  Pessoalmente, acho que era mais do que tempo de reformular a ortografia da nossa língua. Teria sido mais fácil proceder à sua revisão dentro de portas, à semelhança do que foi feito, repetidamente, no passado. Já ninguém pretende ver escrito “parochias”. Há muito que o “s” que precedia o “c” no início das palavras foi abolido (lembre-se “sciência”). O “ph” de “pharmacia” e “philosofia” desapareceu e não deixou saudades.
  A meu ver, a revisão da ortografia poderia ter ido mais além. De que servem os “h” no início das palavras?
  Em tempos de computadores e de mensagens ”SMS” (abreviatura de Short Service Messages) será difícil conter a tendência para a simplificação dos textos. Na ausência de estatísticas que a permitam confirmar, fica a suposição de que, hoje, o SMS é a forma mais usada de escrita em língua portuguesa. Nessa prática, já caíram, há muito, o “ch”, substituído pelo “x” e o “qu”, que tem dois herdeiros a competir: o “k”, ou o “q” (a substituir o “qu”, omitindo a vogal). Tratando-se de uma prática de massas, sobretudo entre a população jovem, seria surpreendente que não conduzisse, a prazo, a modificações significativas na escrita oficial.
  A internacionalização do Acordo espevitou nacionalismos e deu mesmo azo, a um certo chauvinismo. “Então, levaram-nos as colónias e agora, querem roubar-nos a língua?”
  Não precisariam de o fazer. A língua portuguesa é tanto deles como nossa.
  Repare-se que o Acordo ortográfico modifica a grafia das palavras (1,6% em Portugal e 0,5% no Brasil), mas não interfere na pronúncia.
Para os brasileiros, as diferenças maiores assentam no uso do hífen e na acentuação dos ditongos.
 Para nós, a modificação mais importante reside no abandono das consoantes mudas. Secundariamente, desaparece o hífen, em algumas conjugações do verbo haver, e modifica-se a acentuação de diversos vocábulos.
  Compreendem-se as reticências de países como Angola e Moçambique em relação ao Acordo ortográfico. A verdade é que uma parte não contada mas significativa da população desses dois países africanos desconhece a língua portuguesa. As massas camponesas continuam a comunicar nos dialetos gentílicos. Nessas paragens, o domínio do português é um privilégio das elites.
 Como era de prever, a introdução de corretores de texto, que adotam instantaneamente a grafia antiga à nova, simplificou o processo de transição e reduziu o número de oponentes ao Acordo ortográfico.
  Prevejo que, mais do que livros, revistas e jornais, serão as telenovelas (acima do cinema, em que nenhum país lusófono mantém notoriedade) os elementos unificadores da linguagem falada, incluindo o aspeto da pronúncia.
  Com a profusão de neologismos de raiz tecnológica, quase todos os povos do mundo falam cada vez mais inglês, ou incorporam vocábulos anglo-saxões nas suas línguas nacionais. O inglês é a língua franca dos tempos modernos. No entanto, não me parece necessário um “esperanto”. As grandes línguas mundiais, entre as quais se conta o português, continuarão a ser faladas no futuro previsível.
  Nós, portugueses, deveríamos estar orgulhosos por termos desenvolvido uma língua que é das mais usadas no mundo. Deixou há muito de ser exclusivamente nossa, para se afirmar como património cultural da Humanidade.    

segunda-feira, 6 de abril de 2015



          

      NECROFILIA NA LITERATURA PORTUGUESA


      CAMILO CASTELO BRANCO



No caso de Camilo, chegou a tomar-se o texto pelo autor e o nosso grande escritor nunca se livrou de todo da fama de necrófilo.
A ideia de necrofilia foi, a meu ver e no de outros, forjada pelo próprio escritor quando publicou na «Aurora do Lima», em Viana, a narrativa «Impressão indelével», que seria incluída, no mesmo ano no volume «Duas horas de leitura». Voltei a ler três contos seus com o agrado de sempre. Camilo escreve tão bem que até as suas obras menores se leem com prazer.
“Impressão indelével” não foi a primeira história em que Camilo recorreu a associações macabras para impressionar os leitores.



Neste livro publicado recentemente os editores juntaram dois contos e uma pequena novela, escritos em alturas diferentes. “O esqueleto” data de 1848, enquanto “A caveira” é de 1855 e a “Impressão indelével” remonta a 1857. Entram neste pequeno volume dois esqueletos completos e uma caveira avulsa. Nas duas últimas narrativas, os protagonistas são enterrados juntamente com as ossadas das mulheres amadas. Mesmo sem lhes juntar na história de Fanny Owen, já é necrofilia de sobra…
Vou concentrar-me na “Impressão indelével” porque nela o escritor descreve, na primeira pessoa, a exumação do cadáver de Maria do Adro e fá-lo com tal realismo que até o próprio sobrinho António de Azevedo Castelo Branco, levou a história a sério. António de Azevedo declarou, em 1890, ao biógrafo do tio materno, Alberto Pimentel, que, em casa do padre António de Azevedo, seu tio paterno, estiveram, durante anos, os ossos de Maria, sem que o inocente sacerdote disso desse conta.


Esta é a casa do padre António, cunhado de Carolina, a irmã de Camilo. O escritor morou ali durante vários meses, na sua adolescência.
A suposta exumação foi relativamente precoce (um mês após o óbito) e não consta que padre António sofresse de anósmia.
Por outro lado, a paixão platónica que o nosso Camilo terá tido por Margarida Maria Dias, a Maria do Adro, coincide, no tempo, com o seu casamento com a Joaquina de Friúme, de quem viria a ter uma criança. O futuro escritor abandonou mãe e filha. Ambas faleceram cedo.


Maria do Adro era filha duma viúva pobre e morreu de tuberculose. Morou nesta casa, também em Vilarinho da Samardã.
Maria do Adro era cinco anos mais velha que Camilo, que casou aos quinze ou dezasseis. De forma para mim inexplicável, no conto, a iniciativa da profanação do cadáver parte do cunhado médico, Francisco José de Azevedo, que perguntou a Camilo, no dia seguinte ao seu regresso e ao recebimento da notícia da morte da Maria do Adro:
−Sabe alguma coisa de anatomia?
−Eu fiz um exame.
−Atreve-se a ajudar-me a preparar um esqueleto?
−Poderei ajudá-lo.
−Então guarde segredo, porque é preciso que meu mano padre o não saiba. Temos de ir à igreja desenterrar o cadáver duma rapariga que morreu tísica.
−A Maria do Adro? – atalhei eu com estranha vivacidade.
Lembre-se que Camilo chegou a estudar Medicina e obteve aprovação em duas cadeiras, uma das quais foi Anatomia.



Para que quereria o Doutor Azevedo um cadáver em putrefação? O autor não se dá ao trabalho de explicar as intenções do cunhado.
                                                         


O nosso grande Egas Moniz foi um dos que enfiaram o barrete, abordando a suposta necrofilia de Camilo na sua interessante obra «A vida Sexual». Eu tenho um exemplar desse livro, mas não o consegui encontrar. Tive de procurar outras fontes.
Ainda era o tempo em que a patologia psiquiátrica era encarada com preocupações morais. Os médicos faziam juízos de valor ético sobre as perturbações mentais dos doentes. Escreveu Moniz:
“ A necrofilia é a mais repugnante de todas as matérias que aviltam a vida sexual do homem”. Continuou adiante, referindo-se a Camilo:
“O que apenas desejei patentear é que, pelo exame das provas que as biografias publicadas nos fornecem (baseava-se essencialmente no trabalho de Alberto Pimentel, “O romance do romancista”) não podemos deixar a suspeita de que Camilo fosse um necrófilo”. Dito de outro modo: absolvia-o por falta de provas, sem deixar de sugerir aspetos reprováveis da vivência de Camilo. Não seria propriamente um necrófilo, mas…


Em 1925, comemorou-se o centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. As comemorações incluíram a inauguração de um busto do escritor, a atribuição do seu nome a uma rua da cidade do Porto e a publicação de uma obra intitulada “In memoriam de Camilo”, com contributos de muitas personalidades notáveis da vida pública e intelectual do país. Egas Moniz deu também colaborou na coletânea de textos. Foi pouco feliz na escolha do título do seu trabalho. Intitulou-o “A necrofilia em Camilo”.
De facto, no texto desmente o cabeçalho. Apesar de continuar a acreditar o homenageado desenterrara o corpo de Maria do Adro – “Não há dúvida que Camilo assistiu com seu cunhado à exumação do cadáver da sua antiga namorada” − Egas Moniz conclui o seu artigo afirmando que ”...Camilo não só nunca foi um anormal genésico, mas não mostra, por este relato, o mais leve pendor para o campo das perversões sexuais”. O comportamento do escritor teria “roçado pelo normal”.
A meu ver e no de Alexandre Cabral, o nosso Prémio Nobel da Medicina não tem razão neste caso.
Não foi, contudo, o único a pensar assim. António Sardinha, ideólogo do “fundamentalismo lusitano”, bem distante politicamente de Egas Moniz, também colaborou no “In memoriam de Camilo”. Aceitou a anormalidade de Camilo e atribuiu-a à sua ascendência hebraica.
Já em 1965, o médico João de Araújo Correia no prefácio ao livro “Camilo em Ribeira de Pena”, do também médico Mário de Menezes, escreveu: “Egas Moniz não andou longe da verdade, considerando necrófilo o extravagante Camilo”.
Tanto quanto sei, deixaram-se levar pelo génio do escritor. Até Egas Moniz, de cujo espírito arguto todos nos orgulhamos, se deixou enganar.


Nas suas novelas, Camilo recorria a tudo o que pudesse cativar o interesse dos leitores. Nada há, no seu percurso de vida, que aponte para a existência de parafilias. Como os psiquiatras sabem, tais comportamentos repetem-se.
Em tempos, eu pus estas palavras na boca de Camilo: “É verdade, ou não, o que escrevo? Umas vezes é. Noutras, passa a ser. Um texto, ao verter-se no papel, ganha existência própria; faz-se real”.
Ao molhar o aparo no tinteiro, ainda sou eu; mudo no traçar das primeiras frases. Transformo-me; faço-me personagem e moro nos capítulos do romance; exponho a alma em cada artigo de gazeta.
Sou quem escreve. Sou também o que está escrito.
Disse Camilo ao seu amigo Freitas Fortuna, que lhe disponibilizou o jazigo de família para o último repouso:
Caveiras, só tive uma perto de mim quando estudava anatomia.