DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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segunda-feira, 3 de junho de 2013


                   AMÍLCAR CABRAL           

                           L

      DISSENSÕES E LUTAS INTERNAS

ZIGUINCHOR

Entre 1967 e 1969, a estratégia implementada por António de Spínola e o desgaste que a guerra prolongada foi produzindo nos combatentes anticoloniais conduziram a um certo equilíbrio na situação militar. No interior do PAIGC multiplicavam-se as expressões de desagrado. Abriram-se cisões e a liderança era contestada.
Em Novembro de 1967 desencadeou-se um projeto fracionista. Nasceu a ideia de fundar, a partir do PAIGC, o Partido Democrático Orgânico da Guiné (PDONG). Teria sido projetada a eliminação de Amílcar Cabral. Os dois cabecilhas do PDONG foram descobertos e fuzilados. Ocorreram ainda algumas prisões.
O secretário-geral estava a par das dissensões ainda que, oficialmente, as atribuísse sempre a manobras do inimigo. Reagiu procurando centralizar no secretariado toda a correspondência interna do partido.
Em 1968, a PIDE tomou conhecimento de nova tentativa de cisão. Desta vez, teve origem em combatentes da etnia mandinga. Foi fundada uma Junta Militar de Patriotas da Guiné-Bissau (JMPGB) que acusava Cabral do impasse na guerra de libertação. A Junta pretendia demitir Amílcar Cabral e afastar-se do PAIGC para se juntar à FLING. Era outra vez o anticaboverdianismo a mostrar os dentes.
Em Junho de 1969, foi a própria FLING que tomou a iniciativa de propor a certo número de guerrilheiros do PAIGC um encontro no Senegal para o planeamento de ações comuns. Um dos pressupostos era a expulsão dos cabo-verdianos das estruturas dirigentes do partido independentista. A FLING pretendia mesmo ocupar algumas bases do PAIGC no norte do país, unificar todos os movimentos da Guiné e constituir em Farim um governo provisório.  O presidente da FLING foi aprisionado numa área controlada pelo partido de Cabral e fuzilado.
Os guerrilheiros estavam desmoralizados. A independência que os dirigentes prometiam para breve nunca mais chegava. À fadiga de anos sucessivos de guerra, juntava-se o efeito da alimentação deficiente e do paludismo, inevitável para quem vivia dia e noite em florestas infestadas por mosquitos. A fértil região de Quitafine, a sul, chegara a ser considerada o “celeiro” do PAIGC. Era bombardeada sistematicamente pela aviação portuguesa que incendiava as culturas.
Sempre que a insatisfação dos combatentes aumentava, despertava o antagonismo aos cabo-verdianos. Dispondo de uma escolaridade superior, eram escolhidos para os lugares de chefia, enquanto os guineenses permaneciam na mata, de armas na mão.
As deserções tornaram-se comuns. A partir de 1968, o PAIGC teve de recorrer ao recrutamento compulsivo. Os guerrilheiros entravam nas tabancas e arrebanhavam os jovens em idade militar.
O baixo moral afetava a combatividade. Entre 1968 e 1969, o número de ataques desferidos contra as forças portuguesas decaiu significativamente.
As queixas contra Cabral repetiam-se e subiam de tom. Para além de privilegiar os cabo-verdianos no acesso aos lugares na direção do PAIGC, passaria demasiado tempo no estrangeiro, acabando por dirigir a luta armada com alguma displicência.
Amílcar Cabral não era um líder incontestado. A guerra de libertação passou por fases muito difíceis. O seu inegável carisma não bastava para suprir todas as dificuldades de organização. Eram noticiados, com alguma frequência, atentados contra ele. Uns terão sido reais e outros inventados.
A PIDE noticiou alguns. Três deles terão ocorrido na região de Ziguinchor, no Senegal. Terão sido levados a cabo, em ocasiões sucessivas, por um desconhecido, um manjaco e um balanta.
Os boatos repetiam-se. Falou-se em tentativas de rapto. Em 1969, contudo, foi preparado um atentado real. Um grupo de combatentes planeou uma emboscada contra o secretário-geral. É o próprio Cabral quem confirma o episódio, num relatório escrito em 1970. Um número importante de agentes do inimigo, cujo objetivo era o assassinato de dirigentes do partido, fora capturado no ano anterior.
A PIDE tentou, por mais do que uma vez, aliciar dissidentes do PAIGC para eliminar Amílcar Cabral. Falhou sempre.
Em março 1972, num documento de doze páginas, o secretário-geral denunciava um plano “diabólico” para o eliminar. Estariam em causa militantes descontentes, em conluio com as autoridades portuguesas. A publicação do secretário-geral não bastou para pôr fim imediato à intentona. Terão sido presos cerca de 40 elementos do PAIGC, mas apenas três meses depois. O nome de Inocêncio Cani veio pela primeira vez à baila. Falava-se com insistência de desentendimentos entre Amílcar Cabral e “Nino” Vieira.
Inocêncio Cani era manjaco. Teria boas relações com Osvaldo Vieira. Foi um prestigiado comandante da guerrilha do PAIGC na frente norte (Morés). Juntou-se aos protestos contra o favorecimento dos quadros cabo-verdianos na hierarquia do partido. Cabral chamou-o a Conakry. Para o distanciar, enviou-o para a URSS onde se dedicou à formação em marinha de guerra. Não terá modificado os seus pontos de vista. Em 1971 foi preso, depois de julgado num tribunal militar, acusado de corrupção.  Não ficaria muito tempo na cadeia. O líder do PAIGC era avesso a detenções prolongadas.
De Amílcar Cabral, García Márquez poderia dizer também que teve a morte anunciada.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

                                       
                                       AMÍLCAR CABRAL

                              XLVI

            MOVIMENTAÇÃO DAS GENTES




O censo português de 1970 contou 487.448 habitantes na Guiné-Bissau. Eram menos 32 mil almas que dez anos atrás.
Durante a década não ocorreram grandes epidemias no território. Não consta que a guerra tenha provocado razias de tamanha proporção entre os civis. Assim, a redução populacional traduz, por um lado, a impossibilidade de os censores trabalharem nas zonas controladas pelos guerrilheiros e, por outro, a fuga de muita gente para os países limítrofes. 
    A região senegalesa de Casamanse acolheu a maioria dos refugiados de guerra. O seu número cresceu de cerca de 45 mil em 1965 para perto de 82 mil em 1971. Ao mesmo tempo, os centros urbanos viram o número dos seus habitantes subir significativamente. As pessoas fugiam das zonas de conflito.
O movimento de abandono das áreas rurais prejudicava a guerrilha, que via reduzir o escudo humano e o apoio alimentar. Cabral deu instruções aos seus homens para tentarem impedir a fuga das populações das regiões controladas, fustigadas pelos bombardeamentos. Proibiu a saída de gado e impôs outras medidas coercivas.
A propaganda desempenha um papel importante nas guerras modernas. Em abril de 1965, Amílcar Cabral anunciava publicamente em Londres que o seu partido controlava cerca de 350 mil guineenses. Representariam mais de setenta por cento do total da população. No entanto, mesmo sabendo-se que nem todos os cidadãos são eleitores, o número oficial de inscritos no interior do território para votarem, em 1972, para a primeira Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, foi de 83 mil. Estes dados são do PAIGC.
A divergência é clara. Resultará, em boa parte, da guerra dos números devida às necessidades da propaganda, com a tendência para o exagero que se verifica, por exemplo, na estimativa das baixas do inimigo. 
      Poderão ser apontadas mais causas para a discrepância numérica. Uma delas será a definição de “áreas controladas”. Em termos militares, o controlo é muitas vezes relativo. Lembremos o mapa colorido traçado no tempo de Spínola para representar o território guineense. Existiam as áreas azuis, sob domínio português, onde crescia o número de “aldeias estratégicas” que contribuía para a concentração das populações. As áreas controladas pelo “inimigo” estavam representadas a vermelho e eram de bombardeamento livre. Entre umas e outras, havia extensas regiões pintadas de amarelo, que nenhuma das forças em luta controlava.
   Com altos e baixos, a situação foi-se modificando progressivamente a favor da revolução. Nas áreas “libertadas”, os embriões de governação autónoma começaram a desenvolver-se entre 1965 e 1966.



segunda-feira, 22 de abril de 2013

                        
               AMÍLCAR CABRAL

                        XIII

                    OPERAÇÃO MAR VERDE


                          A RESSACA


                Lancha de fiscalização "Orion"

A operação Mar Verde constituiu uma pequena vitória militar e uma enorme derrota diplomática. O ataque a um país soberano com o qual Portugal não estava em guerra acentuou ainda mais o isolamento internacional do governo de Lisboa.
Sekou Touré queixou-se a várias organizações internacionais e o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou Portugal por duas vezes.
A solidariedade dos amigos da República da Guiné recebeu um fôlego novo. A Nigéria ofereceu-se para enviar um contingente de tropas para o território guineense e a União Soviética fez seguir para Conakry três navios de guerra. O PAIGC saiu reforçado do escândalo internacional e beneficiou de significativas ofertas de armamento soviéticas e chinesas. As seis embarcações Komar destruídas pelos fuzileiros portugueses foram substituídas por doze modernas lanchas de combate.
Kissinger enfureceu-se com os seus amigos portugueses e as relações entre os EUA e o governo de Lisboa deterioram-se. 
Quanto a Spínola, descarregou a ira em Alpoim Calvão. Escreveu o comandante da Defesa Marítima da Guiné, comodoro Luciano Bastos, relatando uma conversa com o general:

Disse-me então, por vezes com grande excitação, que o Calvão, embora tivesse planeado tudo muito bem e que, sem ele, a operação não se realizaria, havia falhado redondamente no campo da execução, havia desembarcado as equipas e nada mais fizera, que não atuara, que não empregara em pleno os meios ao seu dispor, pois sabia de equipas que após meia hora haviam regressado a bordo sem mais nada para fazer, chegando mesmo a haver outra gente que nem sequer chegara a desembarcar, que procedera como um simples guarda-marinha e que já estava arrependido de não ter mandado outro oficial mais graduado como o Robin para controlar a operação.
Acrescentou ainda que o Calvão atuara como para realizar um golpe de mão sem ter percebido que o fundamental ali era o golpe de estado. Que o Calvão se tinha embebedado com o tal sargento preto Marcelino da Mata, que o trouxera com ele para Bissau e que ele, agora, anda para aí a exibir pistolas capturadas e a falar dos acontecimentos de Conakry.

O general pediu a Luciano Bastos para ter uma conversa com Alpoim Calvão. O comodoro relatou o encontro.

O Calvão, conservando sempre a maior calma, respondeu que estaria absolutamente seguro da justeza da forma como procedera em Conakry, que não temia os juízos de ninguém, que mais não fizera porque, fundamentalmente, não encontrara os MIG`s no aeródromo de Conakry, que logo que o capitão Morais o informou que não encontrara os MIG`s no aeródromo, o Calvão, de acordo com o plano previamente estudado em todas as hipóteses, se preparara para reembarcar e regressar pois tinha de salvar os seis navios de guerra que, de um momento para o outro poderiam atacar e afundá-los facilmente. De nada serviria tomar a emissora e outros pontos da cidade para virem os MIG`s atacar os navios e a cidade. Que não temia o general e que se este lhe levantasse a voz, ele a levantaria também, pois para o general dá resultado falar duro.