DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quinta-feira, 18 de março de 2021

 

          CONTOS DE HERTOGENBOSCH


      

    A MENINA E A SERPENTE



Quando a vi no inferno, achei que já a conhecia.

Talvez me lembrasse dela de algum sonho. Conservava os olhos baixos para fingir modéstia, tinha seios pequenos e uma silhueta elegante. A longa cabeleira, loira e ligeiramente ondulada, descia-lhe até abaixo dos joelhos.

Era vigiada por um monstro com forma de lagarto que empunhava na mão direita um comprido círio aceso. Desconheço o significado do círio. Há muitas coisas na obra de Bosch que não entendo.

Já nem sei por que razão falei da serpente. Não há lá serpente alguma. Vê-se é outro lagarto estranho, esguio e com apenas duas patas, que a abraça e lhe aproxima a cabeça do sexo.

Se a avistasse noutro contexto, poderia deixar levar-me por aquela expressão de candura. Não faltariam cavalheiros tontos dispostos a arriscar a vida para arrancar a virgem às garras do demónio.

Virgem é que ela não pode ser. Não há nenhum anúncio escrito à entrada, mas estou em crer que não aceitam virgens no inferno. Pareceu-me que a rapariga não era indiferente às carícias do lagarto magro.

Aos poucos, as recordações foram chegando e o nome dela desenhou-se-me no espírito: Isabela. Em tempos, a moça escapara-se de um conto meu inacabado.

Tratou-se uma história invulgar que me deixou perplexo durante um par de semanas.

Embora tivesse de me levantar cedo na manhã seguinte, não resisti a fixar por escrito a ideia para um conto. É que já me acontecera adiar o registo de um pensamento e esquecer-me dele por completo. Escrevi duas páginas, quase três. Não cheguei a delinear o final, mas isso acontecia muitas vezes com as minhas narrativas. O resto viria a seu tempo.

Deixei as folhas manuscritas em cima da secretária e fui-me deitar.

No final da tarde do dia seguinte, depois do trabalho, voltei a sentar-me à secretária para continuar a minha obra inacabada. Estava lá apenas uma folha. Era a primeira. As duas outras tinham sumido.

Naquele tempo, eu vivia sozinho. A mulher-a-dias não viera naquela manhã. Não entrava mais ninguém em casa. Poderia ter sido roubado, mas não dei pela falta de mais nada e ninguém assalta uma residência para levar apenas duas folhas de papel.

Senti-me confuso. Seria capaz de jurar que tinha escrito mais, na noite anterior. Estranhamente, não me lembrava de nenhuma das palavras que plantara nas páginas seguintes do meu conto. Sabia apenas (ou julgava saber) que entrava nele uma cobra.

Acabei por concluir que experimentara um sonho demasiado vivido. A página que me restava continha apenas a descrição das feições e dos modos duma rapariga loira. Não sabia se lhe começara a inventar uma vida, mas isso deixara de ter importância. Zanguei-me comigo próprio e deitei a folha isolada para o cesto dos papéis. Fixei apenas o nome que lhe tinha dado.

Vim dar com ela, agora, no inferno. Aquela era a loira do meu conto.  Já lá está há muitos anos. A tinta com que o pintor preencheu a tela secou há meio milénio. Parece-me que nada, nesta história, aconteceu para ser compreendido.

Devagar, devagarinho, ganhou forma no meu espírito uma ideia surpreendente. A rapariga recolhera as folhas que a poderiam comprometer e desaparecera da minha vida.

Olhei de novo a Isabela. Achei que seria bem capaz de ter inventado também o lagarto. Escrevi diversos livros e alguns contêm narrativas invulgares.

Nada disso tinha agora importância. Voltei-lhe as costas e saí do museu.

 


terça-feira, 16 de março de 2021

 

  CONTOS DE HERTOGENBOSCH


  ANDEI PERTO DO CÉU




Há imprudências que nem em sonhos se devem cometer.

Andei perto do céu e quase me perdi.

Eu era jovem e tolo. Usava a imaginação para me deslocar para onde bem entendesse. Esse meu pequeno dom servia-me de escada para me elevar acima dos companheiros de escola e do trabalho. Dali à soberba, distariam poucos degraus.

Fui procurando chegar cada vez mais alto e avizinhei-me da vertigem. Alguma vez acabaria por tropeçar.  

Certa noite, penetrei num quadro de Bosch e dispus-me a acompanhar Santo Antão, o eremita, que fora levado pelos demónios para cima das nuvens.

O Santo suporta tudo. Deixou-se arrastar por sapos e lobisomens para um universo fantástico onde o céu se confundia com o mar. Para os menos avisados, devo referir que falo do painel esquerdo das Tentações de Santo Antão.

À direita e um pouco abaixo dele, um pequeno monstro arredondado mergulha. Arrasta para o fundo uma foice de cabo longo, semelhante às que a tradição medieval associava à Morte. Enquanto desce, bufa-se.

Um espetro cavalga um peixe grande e abraça outro. Dificilmente irá longe sem tombar.

Em cima e à direita, desenha-se uma cena de pesadelo. Paira no ar uma barca suportada por peixes monstruosos. Outro peixe de aspeto feroz parece querer abocanhar o cavername. A bordo, um tonto despido vira o traseiro para o Santo. Está todo dobrado e tem a cabeça entre os joelhos.

O único tripulante, sentado à ré, tenta inutilmente soltar uma âncora.

O Santo combate o Mal como sabe: rezando. Impávido, nem sequer deixa que a capa lhe escorregue dos ombros.

Foi aí que eu pretendi modificar o quadro. Fui sempre impulsivo e pouco respeitador. Deu-me para puxar a capa de Santo Antão. Era uma espécie de desafio. Achava que o manto o ajudava a resistir às tentações e tive curiosidade em saber como iria reagir, se lho tirasse.

Não cheguei a concretizar a ideia. Senti um puxão no ombro e fui obrigado a voltar repentinamente para trás, o que me fez acordar. Estou quase certo de que foi o meu Anjo da Guarda quem me livrou do Mal.

Andei perto do céu e não gostei de lá estar.


domingo, 14 de março de 2021

 

           CONTOS DE HERTOGENBOSCH


                           O OVO




Olhamos o Jardim das Delícias.

Serão perto de uma dúzia os homens nus que saem da água e se acotovelam para entrar no ovo de casca quebrada. O ovo é descomunal. A ave que o pôs deve ter o tamanho de um grande avião de passageiros. Ainda assim, não sei se caberão todos lá, por mais que se apertem.

Vão apressados. Quererão resguardar-se de olhares estranhos para se dedicarem ao sexo em grupo.

Existem outras explicações possíveis, mas parecem improváveis. Os jovens não pretendem escapar da borrasca, pois não há nuvens no céu. Aliás, molhados já eles estão. Não fogem de crocodilos nem de tubarões, porque não existem naquelas águas. 

Não haverá mulheres atraentes no interior do ovo. Mesmo que as houvesse, duvido de que esses moços se interessassem por elas. Tão pouco parecem pretender regressar ao útero materno.

Será a música que os chama? A sereia não é. Arranjou outro entretenimento.

Poderá estar a começar um combate de galos. Eram espetáculos muito apreciados na Flandres, na época em que Bosch viveu.

Alguém lá dentro terá anunciado a abertura de um barril de cerveja fresquinha.

Quem terá quebrado o ovo? Acho que foi o artista, com um dos seus pincéis. Não creio que tenha sido o pássaro novo a sair.

O melhor será calar a imaginação e abrir os ouvidos. Se escutarem com cuidado, darão por um grito que se repete:

− Lá dentro há bons cus!

Por vezes, a primeira impressão que nos chega é a certeira. É a carne que os chama. Estão a organizar uma orgia homossexual.

Que se cuidem! Os demónios entretêm-se a semear armadilhas nos caminhos dos homens. Quem sabe se o ovo não constitui uma entrada dissimulada para o painel da direita? 




 


sexta-feira, 12 de março de 2021

           

           CONTOS DE HERTOGENBOSCH


            A ESPADA E A LUZ





Aconteceu em Santa Luzia, há meia dúzia de anos.

O sol pusera-se há coisa de meia hora. Dentro em breve, iria escurecer.

Caminhei para poente, ao longo da margem da ria, como se perseguisse o rasto do dia que findava.

De repente, adivinhou-se um vulto luminoso no céu. Aproximou-se rapidamente e pareceu crescer enquanto se precipitava. Pensei que era um avião que caía. Temi pelas vidas encerradas nele.

Acabou por mergulhar nas águas a curta distância de mim. Não se tratava duma aeronave. Posso jurar-vos que tombou um anjo lá de cima. Distingui-o com clareza.

Nunca tinha avistado um. Confesso que duvidava que existissem.

Era igualzinho aos que aparecem nas pinturas sagradas, como rosto e corpo de homem e grandes asas brancas atrás dos ombros. Vinha nu e segurava uma grande espada na mão direita.

Estava ferido no peito, mas não largou a arma até se afundar.

As águas revolveram-se, antes de o aceitarem. A ondulação produzida pelo impacto levou as águas até perto da marca da maré cheia.

Instantes mais tarde, nada indicava na superfície líquida o lugar da queda.

Olhei em volta. O mundo parecia tranquilo, como se nada de especial se tivesse passado e fosse acontecimento corriqueiro despenharem-se anjos em Santa Luzia.

Deu-se apenas uma mudança. A ria mudou de cor. Não foi o vermelho do sangue que a tingiu. Foi como se alguém a tivesse pintado com uma tinta luminosa magnífica de um azul irreal.

Não sou pintor, nem entendo de cores. Outros poderão compreender e recriar as tonalidades que avisto. No entanto, para se deslumbrar, um homem não precisa saber muito.

Relato o que vi, o melhor que sei. Tratava-se de um azul estranho, metálico, na fronteira com o verde. Há ferros que luzem assim e matam.

Fui andando, sem tentar compreender. Limitei-me a sentir. É uma impressão que fica um passo adiante de testemunhar.

Luta-se nos céus.

Não sei contra quem combatem os anjos. Talvez defendam o Universo de uma ameaça estranha. Serão, então, os nossos guerreiros mais avançados. Há de haver alguma forma de os ajudar.

Poderão travar uma guerra civil. Não seria a primeira. As Escrituras referem uma, ocorrida no começo dos dias. Os anjos são criaturas submissas, mas influenciáveis. De tempos a tempos, nasce um líder entre eles.

Olhei e entristeci. Crescia da ria uma impressão profunda de derrota. No entanto, tive que fechar os olhos, para os proteger. A essa hora, a superfície das águas devolvia aos céus uma luminosidade maior que a que recebera ao longo do dia inteiro.

 



quarta-feira, 10 de março de 2021

 

      OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH


                       O FAROL



Apresento um pormenor do painel que representa o Paraíso, no Jardim das Delícias Terrenas. Situa-se no canto superior esquerdo do quadro. Não inspirou um conto, pois já estava escrito, mas fez-mo recordar.

Entendo pouco de pássaros. Ia chamar estorninhos aos que saem da gruta e voam em bando, mas poderei estar errado. Não sei se os que estão poisados no solo aguardam o momento de se juntar a eles, ou se apenas testemunham um movimento inusitado.

Seria quase impossível não me lembrar de “O Farol”.

Não sei bem como consegui chegar ao cimo do comprido edifício circular. Arfava. Os degraus eram muitos e a escadaria assustava. Esforcei-me por subir, para impressionar a Sandra. Procuro parecer jovem perto dela.

Cá estamos, no topo. Caminhamos à roda do patamar, protegidos pela balaustrada.

O horizonte alarga-se sobre a terra e sobre o mar. Vemos nascer as ondas ao longe. Vão-se crescendo até morrerem contra as rochas.

As gaivotas voam sem propósito aparente, como se tivessem sido contratadas para enfeitar a paisagem. Não deixa de ser estranho olhá-las de cima.

O farol não foi construído para servir de miradouro, mas para ser avistado de longe pelos navegantes. De noite, a luz dá um ponto de referência aos marinheiros. De dia, as faixas horizontais alternadamente brancas e vermelhas proporcionam uma medida da distância a terra. Como a superfície do mar é redonda, quanto mais alto parece o farol, mais perto se está da costa. Calculo que cada lista dê a medida de uma milha, ou coisa assim.

A dado momento, deu-me para falar de anjos. É tema que me agrada e que impressiona quase sempre as raparigas.

− Olha em volta. E se avistasses um anjo a voar?

− Achava que tinha abusado do vinho branco – respondeu a minha amiga.

− Os anjos e os demónios são eternos. Foram criados como irmãos. Segundo algumas fontes hebraicas, Deus fez o mundo há perto de cinco mil anos.

− É muito mais antigo – objetou a Sandra.

− Deixemos a questão para os especialistas. Dizem que alguns demónios têm filhos, mas fizeram-nos cá na terra. Quanto aos anjos, ninguém lhes conhece descendência.

− Não são seres carnais – informou a Sandra.

− Já viste algum?

− Não. Ninguém vê os anjos.

− Acho que não se adaptam aos tempos modernos. É provável que se tenham extinguido, como as fadas e os gnomos.

− Estás a brincar, ou a falar a sério?

A ingenuidade desta jovem seduz-me. Talvez alguns homens gostem de mulheres menos espertas que eles.

− Acho que estou a brincar com coisas sérias.

Nesse momento, baixei os olhos para o mar. O vento encorpara de forma estranha. Parecia incidir, em especial sobre uma zona limitada das ondas, como se uma lente gigantesca tivesse concentrado uma força desmedida sobre um ponto específico a devastar. Ali, a água fervilhava, incomodada. Nunca vos pareceu que, às vezes, o mar se assusta, como se investisse contra a terra com os cornos do medo?

As ondas pareciam encarniçar-se de encontro à falésia do lado sul. O mar entrava, enrolava-se e saía, numa ejaculação maligna de espuma. Estaria a escavar uma caverna, como se perfurasse um hímen.

Apreciei a minha conjetura apenas por instantes. Enganara-me. Afinal, a caverna engravidara há muito.

Vi, ou julguei ver, uma criatura escapar-se do buraco, bater desajeitadamente as asas e elevar-se nos céus, conservando-se abaixo do nível das nuvens. Como se estivesse cansada, pairou, aproveitando as correntes de ar e foi desenhando voltas largas. Parecia esperar por alguém.

A Sandra viu o mesmo que eu. Comentou:

− Estão a sair dali pássaros.

A incapacidade dela para se maravilhar espantava-me. Comentei:

− Nunca vi pássaros tão grandes.

− Nem eu...

A moça recordou-se da conversa de minutos atrás e perguntou, envergonhada, como se estivesse com medo de fazer figura de parva:

− Serão mesmo anjos?

Era nisso que eu estava a pensar. Já não a achava assim tão burra.

Os seres alados continuavam a libertar-se e juntavam-se aos outros, em voos circulares.

A minha cabeça era pequena para conter o rápido suceder dos pensamentos. Parecia-me que não cabiam lá todos. Esgotadas as possibilidades alternativas, o horizonte lógico estreitava-se.

Concordei com a Sandra:

− São anjos.

Quase nem me espantei com aquela conclusão inverosímil.

A máquina de pensar, contudo, não se detinha. Apenas me ocorria uma explicação para aquele fenómeno único. Deus soltara-os.

Lembrei-me de um versículo de Ezequiel:

Tu eras querubim da guarda ungido. Perfeito eras nos teus caminhos até que se achou iniquidade em ti.

Recordei, a seguir, outros, que julgo que eram de Isaías:

Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações!

Tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono,

Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.

Acho que o que se segue é do Apocalipse:

Houve batalha no céu; o dragão e os seus anjos pelejaram contra Miguel e os seus anjos e não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles; e foi expulso o grande dragão, que se chama Satanás, o sedutor de todo o mundo; foi precipitado na terra e os seus anjos foram lançados com ele.

Não me lembro de mais versículos; acho mesmo que os que citei já não são poucos. O dragão, antes de inchar de vaidade, tinha o nome de Lúcifer. Terá ido habitar o inferno com os seus seguidores.

Tanto quanto me era dado ver, o Senhor considerava que eles tinham já cumprido as penas a que haviam sido condenados. Libertos, iriam possivelmente juntar-se à grande hoste celestial.

Os seres alados eram cada vez mais e davam voltas largas centradas no farol. As gaivotas sumiram, assustadas com aquele movimento inusitado.

À medida que crescia, o bando escurecia. Às tantas, era uma nuvem negra rodopiante como um tornado. Roubava a luz ao farol.

E se se Deus não os tivesse autorizado a sair? Se o bando tivesse ganhado força suficiente para romper as rochas?

Teria tido ajuda de fora. O vento que impelira o mar contra a falésia não me parecera normal.

A Sandra assustou-se. Agarrou a minha mão e apertou-a com força.

Às tantas, o guia do bando interrompeu as voltas e voou por sobre o mar, seguido da sua legião alada. O vento acalmou e o mar também. O horizonte retomou o seu aspeto habitual. Avistava-se mesmo um barco navegar ao longe.

Descemos as escadas com o coração apertado e foi a medo que espreitámos os noticiários televisivos da noite. Eram as notícias de sempre. Os jornais do dia seguinte não referiam qualquer acontecimento extraordinário.

Será que aquele prodígio foi presenciado somente por mim e pela Sandra?

Andamos ambos como mesmo medo, o que nos aproxima. Estamos à espera de ouvir falar de combates nos céus.

 

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

 

        OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH


          O HOMEM-ÁRVORE





Jeroen nasceu numa família de pintores. O seu tio Jan, também artista, visitava a família com alguma frequência e ia espreitando os rabiscos do rapaz. Calhou encontrá-lo duas vezes seguidas a desenhar árvores mortas. Confidenciou ao irmão Anthonius:

− O teu filho tem talento, mas parece que faz sempre o mesmo desenho.

Não era verdade. Tratara-se apenas de uma coincidência. Jeroen gostava de árvores, mas não estava obcecado por elas. Desenhava tudo o que via e até muitas coisas que não tinha avistado. De algumas, nem sequer ouvira falar. Era capaz de ilustrar as histórias que escutava à lareira.

Já era crescido quando desenhou a árvore morta que conhecemos hoje, com um ninho de coruja no buraco do tronco. Terá, colmo de costume, amalgamado as memórias, os contos lidos e ouvidos e os produtos da imaginação. Apôs-lhe uma legenda: os campos têm olhos, os bosques têm ouvidos; quero ver, escutar e ficar calado.

 

                     


 

A família de Jeroen vivia na Praça do Mercado, mas o miúdo gostava de passear pela povoação e pelos arredores.

Herstogenborg era uma das quatro cidades maiores do ducado de Brabante. Menor que Bruxelas e Antuérpia, era contudo maior que Lovaina. A sua riqueza provinha do comércio e da indústria da cutelaria. Possuía, como era conveniente, um número considerável de tabernas e dois ou três prostíbulos.

O rapaz foi crescendo. Alimentava as fantasias eróticas de todos os adolescentes, mas escondia dos pais e do tio os desenhos de mulheres nuas. Traçava-as sem modelo vivo, pois nunca avistara uma rapariga despida. Copiara gravuras grosseiras que circulavam entre os adolescentes e imaginara retirar a roupa a algumas santas das pinturas da Igreja de San Juan. Espreitara as portas dos prostíbulos, como os demais rapazes que ainda não eram autorizados a entrar. Como não podia ver, imaginava.

Curiosamente, a imagem do bordel de difícil acesso acabaria por ser, mais tarde, corporizada na personagem do homem-árvore, que domina o painel direito do Jardim das Delícias Terrenas. É, pelo menos, nesse sentido que apontam as opiniões de alguns entendidos.

Para um leigo como eu, dificilmente o homem-árvore fará lembrar uma casa de passe. Onde é que estão as prostitutas? A única mulher à vista é a que retira vinho de um barril para um jarro. Não tem aspeto atraente. Parece velha. Usa um toucado com orelhas altas e tem o nariz comprido e brilhante. Seria preciso alguém estar desesperado (ou muito bêbado) para se querer deitar com ela.

O homem-árvore é uma das figuras mais icónicas do panteão de imagens prodigiosas que Bosch nos deixou. Julgo que acabará por dar lugar a mais interpretações.

O corpo tem forma oval. Poderia corresponder a um frango depenado e estripado.

A árvore sustenta-se em dois troncos. O de cá continua o corpo e assemelha-se a um membro humano. O do lado oposto, grosseiramente simétrico, ajuda a equilibrar o conjunto. Os troncos não mergulham as raízes no chão, mas assentam no fundo de barcaças onde que se reconhecem alguns tripulantes. Flutuam num riacho estreito onde alguns rapazes parecem brincar.

Há fila para subir a escada comprida. À frente dum homem despido, vão dois monstros. O de baixo tem asas de borboleta e cabeça de pássaro. O de cima é gordo. Tem capuz e botas, mas não usa calças. Leva uma flecha espetada no ânus. Não parece incomodá-lo.

Vêm-se homens nus à volta de uma mesa. Um deles está sentado numa ratazana. Não parecem divertidos. Da frente, chega o fulgor das chamas que tanto apraz a Bosh. Para além da bebida, não estão à vista outras fontes de prazer.

O chapéu redondo parece pertencer a outro mundo. É centrado por uma gaita-de-foles que uma monstra de touca branca procura tocar. À volta, desfilam pares de monstros e pecadores.

O homem-árvore olha para trás com uma expressão que se poderá situar entre a paciência e o desengano. É como se o tivessem contratado e lhe pagassem mal.

Junto ao ponto de apoio da escada, está um homem debruçado numa espécie de amurada. Tem o rosto redondo e as feições mal definidas e apoia a cabeça na mão sustentada pelo cotovelo. Ainda pensei que fosse vomitar, mas não é o caso.

Ampliei a imagem no computador e quase dei um salto na cadeira. É o Alfredo!

Como é que terá ido ali parar?

Conheço-o há cerca de uma dúzia de anos. Na altura, ele negociava em antiguidades. Vendeu-me um machado de bronze. Era uma falsificação. Curiosamente, comprei-lhe também um morteiro de salva. É feito do mesmo material e parece ter permanecido muitos anos, talvez séculos, no fundo do mar. Um arqueólogo meu amigo quase garante que é autêntico. A sua experiência ensina que as falsificações se vendem melhor se for introduzida no lote uma peça autêntica.

Depois, encontrei-o em lugares improváveis: a bordo do avião que nos levou de Frankfurt para Hong Kong, num passeio a pé pelo centro histórico de Praga e em Angola, à saída do aeroporto de Luanda. Habitualmente, cumprimenta-me de forma efusiva, mas já dei com ele a fingir que não me via e a misturar-se rapidamente na multidão. Não pretenderá ver publicitadas algumas das suas atividades.

O Alfredo nunca foi um homem honrado, mas não se pode dizer que fosse completamente desonesto. Será essa a imagem de marca de alguns comerciantes.

Cheguei a sonhar com ele, um par de vezes. Não foram sonhos bons, nem maus. O homem não aquece, nem arrefece. Vi-o como delegado de propaganda médica à porta do Serviço onde comecei a minha carreira hospitalar. Noutro sonho, encontrei-o a trabalhar numa agência de viagens que propunha destinos estranhos.

Nunca o tinha imaginado a deslocar-se no tempo. 

O mais provável é que a ampliação tenha alterado as feições do personagem que Bosch desenhou. Existem tipos de rostos que se repetem ao longo de gerações na mesma área geográfica e o Alfredo nunca chegou a dizer-me em que terra nasceu.

A outra explicação mais ou menos racional é eu estar a sonhar que contemplo “O Jardim das Delícias Terrenas” e que me deixe empurrar pelo devaneio para uma opinião tendenciosa: o Alfredo está ali para propor mulheres para o lupanar. Não seria a primeira vez que alguém o acusava de proxenetismo.

A julgar pela expressão do rosto, o negócio correu-lhe mal.

 


sexta-feira, 5 de março de 2021

         

        OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH


            FUGA PARA O EGITO




Lígia, a parteira, ajudou a mãe a dar o menino à luz. Quando a parturiente, exausta, adormeceu, enfaixou a criança em panos limpos e roubou-a. Tencionava entregá-la a Satanás, para cumprir o pacto estabelecido.

Colocou a alcova de ama-seca no dorso duma ratazana enorme e sentou-se nela. Mostrou-se, então, com o aspeto que tinha nas noites de terça-feira e em alguns sábados. As pernas desapareceram, dando lugar a uma longa cauda de peixe. O rosto tornou-se esverdeado, enquanto cobria a cabeça com um tronco de árvore morta. Os dedos cresceram a afilaram-se como ramos secos. Foi desse modo que Bosh a retratou. A bruxa sentia-se melhor assim do que na forma e nas vestes dos dias comuns, em que pouca gente lhe dava importância.

A viagem seria curta. O Inferno não era longe. Está quase sempre mais perto de nós do que imaginamos.

Entretanto, Lígia baixou o olhar para o menino enfaixado que tinha nos braços. O bebé sorriu-lhe.

A mulher achou que nunca vira um recém-nascido que fosse logo capaz de sorrir. Estava perante um encantamento e talvez um sinal.

Alguma coisa mudou repentinamente dentre dela. Do borralho que definhava no seu coração brotou um fogo novo que se espalhou alegremente por artérias e veias, aquecendo-lhe mesmo a alma. Aquele menino não seria para o Diabo. Ela iria encarregar-se de o criar.

A jovem que dera à luz a criança era mãe solteira. Perdera muito sangue e dificilmente seria capaz de sobreviver. A parteira não sabia quem era o pai do bebé, embora tivesse as suas desconfianças.

Estremeceu quando se lembrou do pacto que assinara com o próprio sangue. Os acordos com o Diabo não podiam ser desfeitos.

Lígia não nascera bruxa. Nenhuma menina nasce com esse fado. Tinha sido uma criança normal e crescera numa família remediada de Hertogenbosch. O pai era operário numa pequena fábrica que produzia facas e punhais. A cutelaria da cidade era conhecida, mesmo além-fronteiras. O homem ganhava menos mal e era respeitado entre os seus.

O mal atacara a rapariga junto ao calor da forja.

No esplendor dos dezasseis anos, sem ser invulgarmente bonita, atraía os olhares dos rapazes.

No fim duma manhã de verão fora levar a merenda ao pai. O operário tivera de sair, para ajudar a reparar uma avaria numa fábrica próxima. Quem recebeu a moça à porta foi o Julião. Era um homem feito, já casado e pai de filhos, mas fazia tempo que não tirava os olhos dela. Sorriu-lhe, quando a viu. Tinha um sorriso bonito.

− O teu pai não está, mas não deve demorar. Entra e senta-te. O que é que trazes aí?

− É a merenda do meu pai.

− Trouxeste vinho?

− Algum, numa garrafa pequena. Ele diz que aqui faz muito calor e que a água lhe sabe melhor.

− Hum… Acho que ele não se importa, seu provar um bocadinho. Também queres um golo?

− Não… Acho que não… Não estou habituada a essas bebidas.

− Ora… é só um trago.

Lígia provou e depois bebeu um pouco mais. O Julião era tão bonito e sabia falar tão bem às mulheres… Era pena ser casado.

Fazia calor junto à forja e ele tirou a camisa. Tinha um tronco musculado.

− E tu, não tens calor?

− Calor tenho, mas…

− Eu ajudo-te a tirar a blusa…

− Mas não tenho mais nada por baixo…

− Nem faz falta, garanto-te.

Às tantas, Lígia estava deitada no solo, com a saia levantada e Julião em cima dela. Não tentou escapar. Sonhava com aquele momento havia meses.

Depois de satisfeito, o homem manifestou pressa de a afastar dali.

− Lígia! És uma maravilha de mulher, mas é preciso que te vás embora antes que chegue o teu pai.

As visitas à oficina continuaram, a horas a que o pai da rapariga tinha já saído.

Pouco tempo depois, a rapariga viu que a menstruação lhe faltava. A seguir, viu que a barriga lhe crescia. Estava grávida.

Foi ter com o amante. Afogada em lágrimas, contou-lhe o que se passava. Ouviu palavras que eram tão duras como sensatas.

− Lígia! És uma rapariga bonita e doce. Gosto muito de ti, mas sou casado e tenho as minhas responsabilidades. Terás de fazer um aborto. Eu conheço uma mulher experiente e discreta. O mais que posso fazer é pagar o trabalho dela. De outro modo, já viste como iria ser a tua vida nesta terra?

Lígia aceitou e tirou o menino.

Quando voltava, sozinha e a pé, da casa da abortadeira, pareceu-lhe ouvir uma gargalhada rouca, ao mesmo tempo que as janelas da casa dela se avermelhavam, como se houvesse fogo lá dentro.

O resto da sua história pessoal tem interesse reduzido, até chegar o momento da grande decisão da sua vida. Lígia não casou. Fez-se, primeiro, abortadeira e, depois, parteira. Diz-se que se juntou a um pequeno grupo de mulheres más que, nas noites de terça-feira iam dançar nuas atrás do cemitério da cidade. Diz-se, mas nunca houve ninguém que o pudesse comprovar. Nem os mais valentes se atreviam a espreitá-las. Afinal de contas, cada um tem apenas uma alma e será prudente tomar boa conta dela.

Tudo isso parecia agora muito distante.

Lígia olhou o menino. Já não sorria. Adormecera.

A mulher encolheu os ombros e deitou fora o tronco seco que a toucara. O mundo era grande, muito grande, e as garras de Satanás não podiam chegar a todo o lado.

Resolveu fugir para o Egito, como tinham feito Maria e José para que Jesus escapasse à sanha de Herodes. Nessa terra distante mandariam outros deuses e haveria outros demónios.

Não sabia onde ficava o Egito, mas não se assustou com a própria ignorância. Iria perguntando. Alguém havia de lhe indicar o caminho.

Arrenegou Satanás mas, antes, fez os últimos encantamentos. Recuperou as próprias pernas, fez crescer os peitos secos e encheu-os de leite. Depois, transformou a ratazana em burra e de meteu-se ao caminho.