DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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sexta-feira, 5 de março de 2021

         

        OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH


            FUGA PARA O EGITO




Lígia, a parteira, ajudou a mãe a dar o menino à luz. Quando a parturiente, exausta, adormeceu, enfaixou a criança em panos limpos e roubou-a. Tencionava entregá-la a Satanás, para cumprir o pacto estabelecido.

Colocou a alcova de ama-seca no dorso duma ratazana enorme e sentou-se nela. Mostrou-se, então, com o aspeto que tinha nas noites de terça-feira e em alguns sábados. As pernas desapareceram, dando lugar a uma longa cauda de peixe. O rosto tornou-se esverdeado, enquanto cobria a cabeça com um tronco de árvore morta. Os dedos cresceram a afilaram-se como ramos secos. Foi desse modo que Bosh a retratou. A bruxa sentia-se melhor assim do que na forma e nas vestes dos dias comuns, em que pouca gente lhe dava importância.

A viagem seria curta. O Inferno não era longe. Está quase sempre mais perto de nós do que imaginamos.

Entretanto, Lígia baixou o olhar para o menino enfaixado que tinha nos braços. O bebé sorriu-lhe.

A mulher achou que nunca vira um recém-nascido que fosse logo capaz de sorrir. Estava perante um encantamento e talvez um sinal.

Alguma coisa mudou repentinamente dentre dela. Do borralho que definhava no seu coração brotou um fogo novo que se espalhou alegremente por artérias e veias, aquecendo-lhe mesmo a alma. Aquele menino não seria para o Diabo. Ela iria encarregar-se de o criar.

A jovem que dera à luz a criança era mãe solteira. Perdera muito sangue e dificilmente seria capaz de sobreviver. A parteira não sabia quem era o pai do bebé, embora tivesse as suas desconfianças.

Estremeceu quando se lembrou do pacto que assinara com o próprio sangue. Os acordos com o Diabo não podiam ser desfeitos.

Lígia não nascera bruxa. Nenhuma menina nasce com esse fado. Tinha sido uma criança normal e crescera numa família remediada de Hertogenbosch. O pai era operário numa pequena fábrica que produzia facas e punhais. A cutelaria da cidade era conhecida, mesmo além-fronteiras. O homem ganhava menos mal e era respeitado entre os seus.

O mal atacara a rapariga junto ao calor da forja.

No esplendor dos dezasseis anos, sem ser invulgarmente bonita, atraía os olhares dos rapazes.

No fim duma manhã de verão fora levar a merenda ao pai. O operário tivera de sair, para ajudar a reparar uma avaria numa fábrica próxima. Quem recebeu a moça à porta foi o Julião. Era um homem feito, já casado e pai de filhos, mas fazia tempo que não tirava os olhos dela. Sorriu-lhe, quando a viu. Tinha um sorriso bonito.

− O teu pai não está, mas não deve demorar. Entra e senta-te. O que é que trazes aí?

− É a merenda do meu pai.

− Trouxeste vinho?

− Algum, numa garrafa pequena. Ele diz que aqui faz muito calor e que a água lhe sabe melhor.

− Hum… Acho que ele não se importa, seu provar um bocadinho. Também queres um golo?

− Não… Acho que não… Não estou habituada a essas bebidas.

− Ora… é só um trago.

Lígia provou e depois bebeu um pouco mais. O Julião era tão bonito e sabia falar tão bem às mulheres… Era pena ser casado.

Fazia calor junto à forja e ele tirou a camisa. Tinha um tronco musculado.

− E tu, não tens calor?

− Calor tenho, mas…

− Eu ajudo-te a tirar a blusa…

− Mas não tenho mais nada por baixo…

− Nem faz falta, garanto-te.

Às tantas, Lígia estava deitada no solo, com a saia levantada e Julião em cima dela. Não tentou escapar. Sonhava com aquele momento havia meses.

Depois de satisfeito, o homem manifestou pressa de a afastar dali.

− Lígia! És uma maravilha de mulher, mas é preciso que te vás embora antes que chegue o teu pai.

As visitas à oficina continuaram, a horas a que o pai da rapariga tinha já saído.

Pouco tempo depois, a rapariga viu que a menstruação lhe faltava. A seguir, viu que a barriga lhe crescia. Estava grávida.

Foi ter com o amante. Afogada em lágrimas, contou-lhe o que se passava. Ouviu palavras que eram tão duras como sensatas.

− Lígia! És uma rapariga bonita e doce. Gosto muito de ti, mas sou casado e tenho as minhas responsabilidades. Terás de fazer um aborto. Eu conheço uma mulher experiente e discreta. O mais que posso fazer é pagar o trabalho dela. De outro modo, já viste como iria ser a tua vida nesta terra?

Lígia aceitou e tirou o menino.

Quando voltava, sozinha e a pé, da casa da abortadeira, pareceu-lhe ouvir uma gargalhada rouca, ao mesmo tempo que as janelas da casa dela se avermelhavam, como se houvesse fogo lá dentro.

O resto da sua história pessoal tem interesse reduzido, até chegar o momento da grande decisão da sua vida. Lígia não casou. Fez-se, primeiro, abortadeira e, depois, parteira. Diz-se que se juntou a um pequeno grupo de mulheres más que, nas noites de terça-feira iam dançar nuas atrás do cemitério da cidade. Diz-se, mas nunca houve ninguém que o pudesse comprovar. Nem os mais valentes se atreviam a espreitá-las. Afinal de contas, cada um tem apenas uma alma e será prudente tomar boa conta dela.

Tudo isso parecia agora muito distante.

Lígia olhou o menino. Já não sorria. Adormecera.

A mulher encolheu os ombros e deitou fora o tronco seco que a toucara. O mundo era grande, muito grande, e as garras de Satanás não podiam chegar a todo o lado.

Resolveu fugir para o Egito, como tinham feito Maria e José para que Jesus escapasse à sanha de Herodes. Nessa terra distante mandariam outros deuses e haveria outros demónios.

Não sabia onde ficava o Egito, mas não se assustou com a própria ignorância. Iria perguntando. Alguém havia de lhe indicar o caminho.

Arrenegou Satanás mas, antes, fez os últimos encantamentos. Recuperou as próprias pernas, fez crescer os peitos secos e encheu-os de leite. Depois, transformou a ratazana em burra e de meteu-se ao caminho.

 

 

 

 

 


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

 


                OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH    

  ESTIVE NO INFERNO


Estive no Inferno. Fiz por lá uma passagem rápida.

Não tive a companhia de um poeta cuja harpa soasse de modo a serenar o cão das três cabeças e a pôr travão aos destemperos dos diabos. No entanto, não entrei lá sozinho. Tão pouco fui tentar rever a mulher amada. A minha “Beatriz” está bem e recomenda-se. Deixou a juventude lá muito para trás, engordou e piorou o feitio, mas vamo-nos entendendo.

Entrei naquele espaço maldito seduzido pelo olhar de Jerónimo Bosch. Pretendia entender as raízes dos seus medos e conhecer mais de perto os pesadelos que assombravam os homens da Flandres na época em que pintou.

Perdoem-me por não falar ainda do meu guia. Prometo que o irei apresentar numa das páginas seguintes.

Haverá quem pense de forma diferente da minha, mas considero que Bosh ilustrou melhor o Mal do que o Bem. Todos conhecemos artistas que desenharam anjos mais perfeitos que os dele. Não acontece o mesmo com os monstros e demónios. Nesse aspeto, o artista é inigualável. Preencheu as suas telas com uma escrita pictórica intensa e assustadora.

Cheguei a imaginar que o pintor tivesse procurado adentrar as almas de familiares e vizinhos para soletrar nelas os medos primordiais. Não era possível fazê-lo, nem seria necessário. Bastou a Bosch recorrer às próprias memórias e chamar de volta os pesadelos incutidos na sua alma ao longo dos primeiros anos de vida. O miúdo Jeroen terá ouvido falar da proximidade do ano de 1500 e da possibilidade de estar a chegar o fim do mundo. Os padres que pregavam nas igrejas e as tias velhas que contavam histórias junto à fogueiras de inverno foram imprimindo os seus terrores no espírito duma criança saudável, mas sensível. Os espetros estavam guardados no saco das recordações. Quando chegou à idade adulta, Bosh foi capaz de os chamar e de lhes dar vidas novas nas telas que ia pintando.

Quererão saber como entrei no Inferno e como saí de lá são e salvo.

Vou contar-vos o que aconteceu, mas não estou certo de que acreditem no que escrevo. Na verdade, não poderia ter entrado nem saído sem a ajuda do meu amigo Joaquim. Será a altura de vos falar dele.

Tinha passado tanto tempo a olhar aquele quadro que imaginava tratar por tu cada personagem. Pior, pensei. A dada altura, achei que certas figuras ali representadas se tinham habituado a mim. Terá sido o caso desse pequeno monstro.

Não se chama mesmo Joaquim. Tem um desses nomes flamengos impronunciáveis, mas compreende a minha dificuldade linguística e não se importa que o trate deste modo.

Coloquei aqui o retrato do Joaquim, para que reparem bem nele.


Gosta de usar um enorme gorro de cor alaranjada. É um ser desconfiado e, enquanto fala comigo, vai espreitando os cantos do quadro. A sua bela barba grisalha quase o faz parecer respeitável. Quase, porque tem bem à vista os pés de batráquio e não se esforça por esconder a cauda comprida e ondulada. Terá os ouvidos vulneráveis, pois cobre-os com escudos metálicos de onde saem espigas de ferro.

Tenho pouco de padre e confesso que raramente me preocupa o destino dos meus interlocutores. A palavra escapou-me, mas não a retiro. A verdade é que uns tantos desses figurantes dialogam comigo. Bosh tentou empurrar os seus monstros para o lado do Mal, mas apenas o terá conseguido em parte. Palpitam em muitos deles corações humanos. Alguns desses pequenos seres poderão escapar à eterna danação.

Nas primeiras ocasiões em que nos encontrámos não se mostrou simpático mas, de certo modo, acabou por me aceitar. Não terá muita gente com quem conviver.

Foi até ele quem primeiro rompeu o silêncio. Perguntou-me:

− Quem és? O que fazes aqui?

− Vou responder primeiro à segunda pergunta. Sou um admirador dos quadros do pintor que te criou.

− És como ele?

Fiquei, durante instantes, sem saber o que dizer. Quem conheceria os grupos em que o pequeno ser enquadrava os outros? Existiam maneiras diferentes de classificar os entes vivos e um número ainda maior de possibilidades de situar os personagens de ficção. Como ele não parecia ter a mente complicada, escolhi a resposta mais simples.

 − Sim, sou humano. Isso não se nota?

− Aprendi há muito que nem tudo o que parece é.

− Achas que me visto de maneira muito diferente do artista que te fez?

− Sei lá como é que ele se vestia… Passam aqui em frente muitas pessoas que trajam como tu.

− Não sabes o nome dele?

− Não. Nunca mo disse. 

− E o rosto dele? Esqueceste-o?

O homem das barbas grisalhas pareceu entristecer.

− Mal o vi. A última coisa que me pintou foram os olhos. Deve ter-se ido embora antes de a tinta secar.

A esta conversa, seguiram-se outras. O pequeno monstro do barrete flamejante não tinha muita gente com quem tagarelar e habituou-se a escutar-me. Era reservado. Eu, habitualmente, falava pelos dois.

Às tantas, veio o Inferno à baila. Julgo que fui eu a abordar primeiro a questão.

− O teu criador preocupava-se muito com a perdição e com o inferno. Pintou-os muitas vezes.

− Pintou? Eu só conheço um dos quadros. É aquele em que está o homem-árvore.

− Bem sei. É um dos painéis laterais do “Jardim das Delícias”. Sabes? Estou convencido de que a melhor maneira de conhecer a alma de um homem é apreciar-lhe a obra.

− Crês que é mesmo preciso conhecer as almas? Não são todas parecidas umas com as outras?

− Acho que não. Julgo que diferem mais do que as caras.

− É a tua opinião…

− Pois… Gostaria de saber mais sobre Jerónimo Bosch, o teu criador. No meu modo de pensar, para o entender é preciso olhar de perto os infernos que pintou.

− Queres ir lá?

Quase me engasguei com a pergunta.

− Aonde? Ao Inferno?

− Era disso que estávamos a falar.

− Deixam-me entrar? E depois, como é que de lá saio? E se os diabos me agarram?

− Um destes dias disseste que não acreditavas neles…

− Bem… Eu…

− Queres ir ou não? Posso levar-te e trazer-te. Conhecem-me lá bem. Terás é de vestir outra roupa, para não dares tanto nas vistas. Ou, então, vais nu. Os condenados andam quase todos assim.

Reparei que o Joaquim falava dos danados como se referisse os hóspedes dum hotel. Nunca o vi emitir sobre eles juízos de valor.

E um dia, lá fomos. Esperei por uma altura em que não estivesse ninguém na sala do museu, despi-me e escondi a roupa atrás de um caixote de lixo. Depois, segui o Joaquim até ao quadro e entrei com ele na grande caixa metálica cilíndrica.

Senti que a estrutura descia, antes de se deter.

Quando a porta se abriu, eu estava no Inferno. Curiosamente, não senti calor. Ou já não ardia como dantes, ou a parte de mim que ali entrou não entendia as temperaturas.

Logo à minha frente, meia dúzia de cães infernais com focinhos e caudas muito compridos e três dedos em cada pata devoravam as entranhas de um cavaleiro que conservava vestida a parte de cima da armadura e ainda segurava uma taça na mão esquerda. Suponho que se tratava  de um sacrílego.

Um pouco acima, um demónio de armadura com cabeça de peixe e barbatanas no lugar das orelhas trespassava com a grande espada um condenado que tinha a cabeça tapada com um elmo metálico.

O homem-árvore, de tronco e rosto pálidos, estava perto de nós, mas olhava para a direita, para a frente do quadro. Mais abaixo corria um rio estreito. Depois, via-se uma série de enormes instrumentos musicais rodeados de demónio e de amaldiçoados.

Um grande pássaro sentado num cadeirão ia comendo e defecando gente.

O que mais me impressionou foi a porca no fundo do painel, a abraçar e beijar um condenado. Em frente, estava um monstro coberto com uma armadura metálica que apenas lhe deixava de fora os membros inferiores. Tinha uma seta espetada numa das coxas e levava, pendurado no penacho do elmo, um pé humano decepado.

A dada altura, o meu guia chamou-me discretamente:

− Vem! O museu está quase a encerrar.

Segui-o de volta até ao cilindro metálico. Subimos e encontrei-me fora do quadro.

Corri a vestir-me. Felizmente, não havia ninguém na sala.

Despedi-me do Joaquim e agradeci-lhe a visita guiada. Tinha-lhe dito que me chamava António. Não percebi por que razão, quando nos despedimos, me chamou Tundal.



Nessa noite, tive um pesadelo, o que não admirava. Sonhei que a porca da touca de freira tentava meter-se na minha cama.

 





sábado, 20 de fevereiro de 2021

 


 NÃO PODES ACREDITAR
   EM TUDO O QUE TE DIZEM!
  



− Eu não sou quem pareço. Os teus olhos enganam-te. Sou um Anjo do Senhor e saúdo-te. O teu Pai enviou-me para te tranquilizar.

Jesus ganhou algum alento. A sua parte humana suportara com dificuldade os tratos já sofridos.

O que tinha forma de homem e que se proclamava Anjo mantinha a mão direita apoiada firmemente no seu ombro. Vestia demasiado bem para um soldado, mas usava uma coleira de pregos, semelhante às dos cães habituados a enfrentar lobos. Deveria tratar-se de um símbolo. Em combate, de pouco serviria.

Homem ou Anjo, continuou a falar.

− Não terás de beber todo esse vinho amargo. Quando chegar a hora, eu e os meus companheiros viremos soltar-te. O céu fica mais perto do que pensas. Daqui até lá, são dois voos de andorinha. O teu Pai amoroso espera-te no alto.

Afastou-se e sumiu na multidão.

Cristo não se mexeu. Era embaraçoso permanecer naquele palanque, nu, com tantos olhos postos nele. 

Os soldados mandaram-no descer. Jesus experimentou o peso da cruz e achou-a demasiado pesada para um homem só. Como ninguém o ajudava, lá a alçou. Começou a subir a calçada íngreme que levava ao calvário. Os que o viam passar zombavam dele.

− Rei dos judeus… Que bela coroa te puseram…

Enquanto ajeitava melhor a cruz sob o ombro direito, lembrou-se do curto espaço de tempo em que vivera com Madalena. Aquela mulher era tão doce… Poderia ter casado com ela. Partiriam para longe e iriam morar numa terra onde ninguém os conhecesse. Talvez para o Egito, onde vivera os seus anos mais verdes e de que mal se lembrava. Um bom carpinteiro arranjava emprego em qualquer lado. Seria bom terem tido filhos. Gostava tanto de crianças…

Madalena nunca abrira a alma para contar o que a empurrara para aquela vida e ele tivera o cuidado de não fazer perguntas.

Acabara por a deixar para trás. Deus Pai mandava. Cabia-lhe obedecer.

Ao trocar Nazaré pelas estradas do mundo, pusera de lado o conforto relativo de que gozava, com refeições modestas mas servidas a horas certas e um teto sob o qual se abrigar. Metera-se a caminho sem um plano definido. Sabia que tinha o dever de espalhar a palavra do Pai, do modo como aprendera a lê-la na própria alma. Os sacerdotes e os fariseus falavam de um Lei antiga em que o Todo-Poderoso se conservava distante do povo humilde que O adorava. Ainda não sabiam disso, mas o tempo deles passara. Fazia falta um novo testemunho. Cabia-lhe proclamá-lo. Dirigia-se a quem lhe dava atenção, quase como se Deus modelasse parte do Seu pensamento quando falava pela sua boca.

A despedida da mãe fora difícil. Ambos tiveram dificuldade em se fitar de olhos nos olhos. Maria, por nunca ter partilhado as palavras do Anjo. O filho, por não ser capaz de compartir com ela o essencial da sua missão. Saíra de casa levando apenas a roupa que vestia, um manto comprido de lã e um bornal com uma merenda modesta.

Sabia que acabaria por ser ouvido, mas não esperava que acontecesse tão depressa. As gentes pareciam ávidas por palavras de conforto. Passou a ser seguido por um pequeno grupo de homens e mulheres. Aos poucos, selecionou uns tantos discípulos. Acabaram por ser doze, como as tribos de Israel. Recusou as mulheres. O grupo andava por onde calhava e, muitas vezes, dormia ao relento. Se calhava chover, abrigavam-se numa estalagem, com quatro, ou mesmo cinco, a dormir no chão do mesmo quarto. Não tinham condições para levarem companheiras. Mesmo os que tinham esposa e filhos, deixaram-nos para o seguirem. Os homens maduros que o acompanhavam abandonaram as terras e os trabalhos, para integrarem uma família nova.

Deixaram de ter meios de subsistência e comiam o que lhes davam. Os camponeses e pescadores das aldeias em que Jesus pregava eram pobres, mas partilhavam o que tinham: pão, azeitonas, cebolas, peixe (se estivessem junto ao rio) ocasionalmente alguns ovos. Havia entre eles alguns que sabiam ler e escrever, como Mateus e João, mas a maioria dos apóstolos era analfabeta.

Jesus, por vezes, surpreendia-se com as expressões dos rostos dos ouvintes. O seu entendimento ultrapassava o deles. Por isso lhe chamavam Mestre. Era como se lhe bebessem as palavras e as tentassem fixar para serem capazes de as reproduzir mais tarde.

O condenado estava aflito para urinar. Tinham passado longas horas sobre a sua prisão e não estivera em qualquer lugar com alguma privacidade. Falou da sua necessidade ao soldado que seguia a seu lado. O romano riu-se dele:

− Aguenta-te… Ou faz aí mesmo…

Ao chegar ao calvário, Jesus poisou a cruz no chão. Começou a desconfiar do Anjo quando o mandaram deitar em cima dela.

Sentiu dores violentas quando lhe pregaram um cravo de bronze em cada pulso. Agora, já nem podia abençoar. Depois, colocaram-lhe um pé em cima do outro e espetaram-lhe, à martelada, uma cavilha comprida, das que usavam na construção de casas e embarcações. Jesus teve de morder os lábios para não gritar.

Quando elevaram a cruz, julgou que os pulsos se iam rasgar sob o peso do corpo. A ajuda tardava. Já não restava muito tempo para que o pudessem retirar dali com vida.

Passaram horas. Escurecia e os curiosos afastavam-se. Jesus sentia a dor maior nos pulsos e na alma. Aproximava-se do momento em que receberia a morte como uma bênção.

Que seria da mãe? As notícias corriam e Nazaré não era longe. A esta hora, Maria devia estar a caminho para tentar confortar o filho nos momentos finais. Apesar do sofrimento, Jesus sentiu-se abraçado.

Que saberia a mãe do seu destino? Provavelmente, bem mais do que confessava. Lembrava-se de uma vez, quando era muito pequeno, a mãe lhe chamar filho de Deus. De vez em quando, começava a contar uma história em que entrava um anjo, mas interrompia-se, antes de a terminar.

Quando o horizonte começou a clarear a nascente, Jesus Cristo entendeu que tinha sido enganado. O que falara com ele não era Anjo. O Pai não estava perto. Abandonara o Filho à sanha dos inimigos.

Lamentou-se, poucos minutos antes de morrer:

− Meu Pai, meu Pai, por que me abandonaste?




Mostra-se um pormenor da Coroação de Espinhos. O quadro encontra-se em Londres, na Galeria Nacional. Terá sido oferecido por Damião de Góis à Igreja de Nossa Senhora da Várzea, em Alenquer e posteriormente negociado, em circunstâncias desconhecidas. . 



 

 


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

 

        CONTOS DE HERTOGENBOSCH

A PEDRA DA LOUCURA

                               

 


 

Era voz corrente, na Europa Central e no fim da Idade Média, que a loucura se devia à influência de uma pedra que se formava no interior do cérebro e que poderia ser removida mediante uma intervenção cirúrgica. Essa lenda inspirou grandes pintores europeus, incluindo Jerónimo Bosch.

É sua a pintura que vou descrever. Servirá de ponto de partida para a história breve que conto a seguir.

A obra de Bosch representa uma pretensa intervenção cirúrgica realizada ao ar livre. O artista retrata um aldrabão com um funil a fazer de chapéu, fingindo operar um homem à cabeça.

O pretenso neurocirurgião é assistido por um velho de roupagem escura. A observar, está uma mulher que equilibra um livro sobre a cabeça. O pintor quererá mostrar que a sabedoria não entrou naquele cérebro.

A mensagem inscrita na tela (em flamengo) pode ser traduzida assim: "Mestre, retira esta pedra, meu nome é Das Lubbert." Das Lubbert era uma designação aplicada aos patetas. Bosch aproveitou o tema para ilustrar a credulidade humana.

Vou contar a história de Das Lubbert mais ou menos como a recolhi na tradução francesa de um velho livro flamengo. Como o texto era pouco apaladado, introduzi-lhe algumas alterações, pelas quais me responsabilizo. Confesso também que aportuguesei os nomes, para facilitar a leitura

O nome verdadeiro deste Das Lubbert era Lucas Veren. O homem não foi sempre doido e muito menos tolo. Era um próspero negociante de tecidos da vila holandesa insular de Marken.

Vivia-se a época da Renascença e sopravam ventos novos, mas pouca gente dava por eles na ilha. Lucas era casado e tinha cinco filhos. Ajudara a encarreirá-los na vida. Alguns já lhe haviam dado netos.

Os problemas de Lucas Veren começaram quando Matias, o seu segundo filho, voltou a casar, após a mulher ter morrido de parto. Matias não procurou esposa na terra: engraçou com uma rapariga de Monickendam. Chamava-se Ana e era bonita demais. Apesar de ser filha de um agricultor, não parecia ter nascido para trabalhar no campo. De estatura média, corpo esbelto, cabelo cor de palha, testa direita, nariz curto e olhos verdes, exibia, por tudo e por nada, um sorriso deslumbrante. Tratava bem sogros e cunhados e afeiçoou-se ao único enteado, um menino magro de dois anos. Aparentemente, Matias tinha feito uma boa escolha, mas a pedra da loucura já se começara a formar na cabeça do pai.

O homem vivera cinquenta anos ajuizados e era respeitado na terra. A chegada da nova nora semeou-lhe a confusão na alma. Cada vez que o sorriso alumiava aquele rosto, o sogro sentia-se perto dos anjos. Só pensava nela. Perdeu o sono e começou a desleixar os negócios.

Como seria de esperar, a primeira pessoa a reparar no interesse de Lucas foi a própria Ana. A atitude do sogro nada tinha de paternal. O homem andava sempre atrás dela e olhava-a com olhos de carneiro mal morto. Quando se cumprimentavam, tardava a largar-lhe a mão.

Ana era uma mulher simples que pretendia uma vida normal. Estava habituada a que os homens se interessassem por ela mas, em solteira, isso pouca importância tinha e alimentava-lhe alguma vaidade.

Nas comunidades holandesas daquele tempo, as regras eram para cumprir e os caminhos de uma mulher séria tinham limites apertados. Ana não sabia como fugir ao assédio do sogro. Procurava esquivar-se e evitava encontrá-lo sem estar acompanhada. Só entrava em casa dele com o marido ao lado. Mal o olhava e dirigia-lhe poucas palavras, procurando, apenas, não ser mal-educada. Mantinha, contudo, o feitio extrovertido e o sorriso fácil.

A paixão proibida de Lucas Veren afundou raízes.

Lisa, a esposa, foi a segunda a dar pela perturbação do seu homem. Como as mulheres atentam mais em certos comportamentos, identificou cedo a razão do problema. Pensou em afastar a nora do marido, mas a terra tinha poucas ruas e Matias morava logo ao lado.

Eram bonitas, as casas de Marken, feitas de madeira e assentes em estacas, para não serem inundadas quando viesse uma das cheias periódicas. Comportavam geralmente um piso térreo e grandes águas furtadas com uma janela aberta para a frente. Naquele tempo, era moda pintarem-nas de verde.  

Lisa pensou que a alteração do comportamento do marido se poderia dever a mau-olhado. Contratou os serviços de uma mulher de virtudes para tentar desfazer o enredo. A bruxa bem se esforçou por justificar os honorários. A amarração era forte e o resultado foi nulo.

O tempo melhora umas coisas e piora outras. O negociante de tecidos estava a tornar-se cada vez mais atrevido. Entrava em casa da nora com o filho ausente, fazia-lhe declarações dramáticas de amor e procurava abraçá-la. Por vezes, enchia-se de cerveja e começava a tornar-se violento. Ana receou ser violada.

Precisava de proteção. Olhava o marido grande, soturno, bondoso mas com explosões de mau génio e achava que era melhor não lhe dizer nada. Era difícil prever a sua reação. E se ele entontecesse com o ciúme e matasse o próprio pai? Ficariam duas casas destruídas e duas mulheres sem meios de sustento.

Encheu-se de coragem e resolveu abrir-se com a sogra. Certa tarde, espreitou atrás das cortinas até ver o sogro sair de casa. Deixou o enteado a dormir e foi bater à porta dele. Lisa atendeu prontamente.

− Senhora! Vim aqui pedir a sua ajuda. Tenho um problema sério e não sou capaz de o resolver sozinha.

Lisa olhou a nora. Era realmente muito bonita e parecia boa rapariga. Não sabia, contudo, se a havia de olhar como esposa do filho ou como rival. Aguardou.

Ana fez-lhe um relato nervoso, entrecortado de lágrimas. Confessou que receara falar do caso ao marido. Rematou assim:

− Peço perdão por ter trazido este problema para sua casa, mas juro que nada fiz para o provocar.

− Fizeste bem em vires ter comigo, comentou a sogra. − Eu já sabia o que se passava. Tenho andado desgostosa. Acho que o meu marido endoideceu. Juntas, somos mais fortes, mas não chegamos. Falar com ele, não adianta. Está obcecado. Seria possível que me batesse, embora nunca o tenha feito antes. Vamos reunir um conselho de família.

Falou aos filhos, à exceção de Matias, que não parecia conveniente informar tão cedo. Convocou também os dois irmãos e o tio materno de Lucas, que era apenas dez anos mais velho que o sobrinho e desempenhava as funções de burgomestre.

À hora aprazada, Lisa era a única mulher presente. Com voz firme, explicou aos familiares o que estava a suceder e pediu-lhes conselhos e ajuda.

A família era respeitada na terra. Todos gostavam do pai, ou parente, que tinha tido, até data recente, um comportamento exemplar. Concordaram com o diagnóstico feito pela esposa de Lucas. O homem endoidecera.

− Aquilo trata-se, afirmou o burgomestre. É preciso retirar-lhe a pedra da loucura.

Quando Lucas Veren regressou a casa encontrou os parentes reunidos e com ar circunspecto. Envergonhado, ouviu o tio burgomestre comunicar-lhe o diagnóstico e o tratamento proposto. Humilhado e com um aperto no peito, aceitou submeter-se.

Não havia na povoação mestre capacitado para uma operação tão melindrosa. Foi preciso chamar um de fora.

Sou forçado a reconhecer que a intervenção que descrevo não se pareceu com a que Jerónimo Bosh ridicularizou. Assemelhou-se mais à que pintou David Teniers, o Jovem.

 Foi levada a cabo dentro de casa, com a iluminação proporcionada pela janela aberta. Aterrado, o enfermo procurava manter-se imóvel, enquanto o mestre, como um pé apoiado no banco onde se sentava o doente, executava o procedimento.

O livrinho que li não fala do resultado da intervenção cirúrgica. Diz apenas que Matias Veren e a esposa se mudaram para Monickendam, onde viriam a nascer todos os seus filhos. A história de Lucas e de Ana interrompe-se ali.

Poderia inventar outro final para esta narrativa. Os escritores detêm poderes que não são de menosprezar. Seria capaz de sujeitar Lucas Veren a uma morte dolorosa infligida pelo segundo filho, ou fazê-lo raptar a nora e ir viver com ela para longe. Existiam outras possibilidades de desenvolvimento.

Achei, contudo, que não devia seguir esses caminhos. As coisas são como são. Há histórias que é melhor não modificar em demasia.