DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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segunda-feira, 1 de maio de 2017



 OS MARÇAIS DE FOZ COA

 As invasões francesas provocaram levantamentos populares um pouco por todo o país. Em Vila Nova de Foz Coa, em 1808, deram-se vivas ao Príncipe Regente. Gritou-se também: “morram os franceses e os judeus que os apoiam”. Os camponeses atacaram os pequenos comerciantes, acusando-os de serem judeus e protegerem os invasores franceses e os seus partidários
Segundo Vasco Polido Valente, um largo «ajuntamento de povo miúdo com espingardas, foices, piques, picaretas, e machados» atacou as casas dos poderosos. De acordo com o relato de um observador, «uns arrombaram as portas, outros fizeram buracos nas paredes, ou abateram os telhados, entraram todos, quebraram bancas, cadeiras, e tudo o que guarnecia as casas, e estas em pouco tempo ficaram destruídas, e até arrancados os seus pavimentos»; «os móveis preciosos e os objetos de valor, que podiam conduzir-se» foram levados e a pilhagem só cessou «com a total ruína de vinte e tantas famílias das mais ricas da terra».
António Joaquim Marçal contava, nessa altura, cinco anos de idade. Nascera em Foz Coa, em 1803, no seio de uma família peculiar. O seu avô tinha sido condenado à forca e o pai fora degredado para África. António Joaquim seria morto a tiro numa emboscada, quando viajava sozinho, a cavalo, para a sua quinta do  Farfão. Tinha 48 anos.
Não sei se os Marçais eram judeus. De acordo com Célia Taborda Silva, a família refugiou-se na Galiza, para fugir à fúria popular. Terá ficado arruinada.
Em 1820, com o triunfo da Revolução Liberal no Porto, os Marçais regressaram e procuraram recompor o património perdido.
António Marçal ficou com uma morte às costas logo aos 25 anos. As circunstâncias desse acontecimento são mal conhecidas. Poderá ter-se tratado de um ato de legítima defesa. Certo é que foi preso.
Evadiu-se em 1832 e tentou juntar-se ao exército liberal que combatia no Porto. Não se sabe se chegou lá. Em circunstâncias por esclarecer, viu-se a chefiar uma guerrilha contra os miguelistas. Finda a guerra, em 1834, António Marçal não mudou de rumo. Continuou a saquear os adversários políticos.


O Barão e Visconde de Vila Nova de Foz Coa era setembrista. Em 1846, a casa do Marçal foi incendiada. Perdeu-se gado e colheitas. Na véspera do natal do mesmo ano, o antigo Batalhão de Foz Coa, que já era apenas a quadrilha dos Marçais, entrou na vila para se vingar. Fugiram perto de cem famílias, incluindo três irmãos do visconde. Deram-se roubos, fogos postos, espancamentos e assassinatos.


Consta que António Marçal e o administrador de Moncorvo, António Joaquim Ferreira Pontes, ambos liberais, foram amigos chegados. A Patuleia separou-os. Quem fugia de Foz Coa e das terras de Riba Coa encontrava refúgio em Moncorvo. Chegaram a viver em Moncorvo 60 famílias de foz Coa.
Já em 1837, Marçal tinha alinhado pelo Duque de Saldanha, apoiando as suas tropas contra os setembristas. Por essa altura, comandava um grupo de 60 cartistas. Ocupou, entre outras, a povoação de Ferreiro, na estrada do Porto a Viseu. Em 20 de setembro do mesmo ano, a sua quadrilha tomara conta de Barca de Alva, Pocinho e Barca da Pesqueira. Em 1847, finda a Patuleia, foi nomeado comandante do Batalhão de Foz Coa.
A sua quadrilha não sossegou, quando o país reencontrou a estabilidade política. António Marçal continuou igual a si mesmo até ser assassinado, em 1851. O seu irmão Manuel António Marçal, nascido em 1819, seria também assassinado, dez anos mais tarde, por dois parentes.
Os Marçais de Foz Coa tinham péssima reputação. Eram ladrões e assassinos. Consta que no cemitério de Foz Coa existe uma pedra tumular que cobre os despojos de vários membros dessa família. Diz-se que quase todos eles foram decapitados.
A família do meu pai era de Foz Coa. Curiosamente, o meu pai também se chamou António Joaquim. Seria um nome corrente na vila. Eu nasci em Almendra, que é ali perto. Quando lá voltar, hei de ir ver o cemitério.

Fontes:

Pulido Valente, Vasco. O povo em armas: a Revolta Nacional de 1808-1809.  Análise Social, vol. XV (57), 1979-1.°, 7-48
Taborda Silva, Célia. Guerrilheiros e bandidos no Douro na primeira metade do século XIX. Douro – Estudos & Documentos, vol. I (3), 1997 (2º), 111-122.

quarta-feira, 26 de abril de 2017


 BANDOLEIROS EM PORTUGAL

NA PRIMEIRA METADE 

DO SÉCULO XIX

     João Brandão

O fenómeno das guerrilhas nasceu em Portugal, no começo do século XIX, como reação patriótica contra as invasões francesas.
Mais tarde, a instabilidade política e social em que o país mergulhou, com as lutas prolongadas entre liberais e absolutistas, com revoltas e golpes de estado sucessivos, enfraqueceu a autoridade pública e permitiu que proliferasse o banditismo. Com as quadrilhas engrossadas por desertores, as populações viviam alarmadas.
Durante esse período conturbado em que a lei não chegava a toda a parte, aconteceu algumas vezes que as forças políticas e militares que se defrontavam aceitassem a aliança de grupos de bandoleiros. Por outro lado, certos chefes de guerrilha resvalaram para atividades criminosas.
Tempos de exceção são fábricas de lendas. Irei falar de alguns personagens que se notabilizaram na época, nem sempre pelas melhores razões.

                                                      Remexido
José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido, miguelista, era de Lagoa e atuava no Algarve.
José do Telhado terá posto a sua quadrilha ao lado dos setembristas, durante a guerra civil de 1846-1847.
João Brandão, de Midões, espalhou o terror nas Beiras, ao serviço dos Cabrais. Com a Regeneração, passou a “influente” político local, aliando-se umas vezes ao governo e outras à oposição.
Os Marçais de Foz Coa, cartistas, desestabilizaram a região durante dezenas de anos.
Curiosamente, tanto o Zé do Telhado como o João Brandão e o António Marçal receberam altas condecorações militares. O Remexido, tanto quanto sei, não foi condecorado, mas foi nomeado, por D. Miguel, governador do Algarve.


A questão das guerrilhas e do banditismo tem sido teorizada.
Hobsbawm, citado por Célia Taborda da Silva, define aquele a quem chama “bandido social”: «é um camponês fora da lei que o senhor e o Estado consideram como um criminoso, mas que permanece no seio da sociedade camponesa, a qual vê nele um herói, um campeão, um vingador, um justiceiro, talvez mesmo um libertador e, em qualquer caso, um homem que convém admirar, ajudar e manter». O bandido seria “a ponta da lança” do protesto das massas rurais contra as estruturas sociais opressoras.
É impossível não lembrar, nesta altura, os textos de Mao Tse Tung e de Che Guevara.
Hobsbawm vai mais longe e divide os bandidos em três tipos:
«Bandido Generoso», que só mata em legítima defesa e rouba os ricos para dar aos pobres.
«Vingador», bandido cruel, temido e ao mesmo tempo admirado pela população.
 «Haiducs», específicos dos Balcãs, bandidos que atacam os opressores da comunidade.
 Nesta classificação, em Portugal, o único dos bandoleiros famosos a que se pode chamar “generoso” é o Zé do Telhado.  

Fonte: 
Taborda Silva, Célia. Guerrilheiros e bandidos no Douro na primeira metade do século XIX. Douro – Estudos & Documentos, vol. I (3), 1997 (2º), 111-122.