DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quarta-feira, 10 de março de 2021

 

      OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH


                       O FAROL



Apresento um pormenor do painel que representa o Paraíso, no Jardim das Delícias Terrenas. Situa-se no canto superior esquerdo do quadro. Não inspirou um conto, pois já estava escrito, mas fez-mo recordar.

Entendo pouco de pássaros. Ia chamar estorninhos aos que saem da gruta e voam em bando, mas poderei estar errado. Não sei se os que estão poisados no solo aguardam o momento de se juntar a eles, ou se apenas testemunham um movimento inusitado.

Seria quase impossível não me lembrar de “O Farol”.

Não sei bem como consegui chegar ao cimo do comprido edifício circular. Arfava. Os degraus eram muitos e a escadaria assustava. Esforcei-me por subir, para impressionar a Sandra. Procuro parecer jovem perto dela.

Cá estamos, no topo. Caminhamos à roda do patamar, protegidos pela balaustrada.

O horizonte alarga-se sobre a terra e sobre o mar. Vemos nascer as ondas ao longe. Vão-se crescendo até morrerem contra as rochas.

As gaivotas voam sem propósito aparente, como se tivessem sido contratadas para enfeitar a paisagem. Não deixa de ser estranho olhá-las de cima.

O farol não foi construído para servir de miradouro, mas para ser avistado de longe pelos navegantes. De noite, a luz dá um ponto de referência aos marinheiros. De dia, as faixas horizontais alternadamente brancas e vermelhas proporcionam uma medida da distância a terra. Como a superfície do mar é redonda, quanto mais alto parece o farol, mais perto se está da costa. Calculo que cada lista dê a medida de uma milha, ou coisa assim.

A dado momento, deu-me para falar de anjos. É tema que me agrada e que impressiona quase sempre as raparigas.

− Olha em volta. E se avistasses um anjo a voar?

− Achava que tinha abusado do vinho branco – respondeu a minha amiga.

− Os anjos e os demónios são eternos. Foram criados como irmãos. Segundo algumas fontes hebraicas, Deus fez o mundo há perto de cinco mil anos.

− É muito mais antigo – objetou a Sandra.

− Deixemos a questão para os especialistas. Dizem que alguns demónios têm filhos, mas fizeram-nos cá na terra. Quanto aos anjos, ninguém lhes conhece descendência.

− Não são seres carnais – informou a Sandra.

− Já viste algum?

− Não. Ninguém vê os anjos.

− Acho que não se adaptam aos tempos modernos. É provável que se tenham extinguido, como as fadas e os gnomos.

− Estás a brincar, ou a falar a sério?

A ingenuidade desta jovem seduz-me. Talvez alguns homens gostem de mulheres menos espertas que eles.

− Acho que estou a brincar com coisas sérias.

Nesse momento, baixei os olhos para o mar. O vento encorpara de forma estranha. Parecia incidir, em especial sobre uma zona limitada das ondas, como se uma lente gigantesca tivesse concentrado uma força desmedida sobre um ponto específico a devastar. Ali, a água fervilhava, incomodada. Nunca vos pareceu que, às vezes, o mar se assusta, como se investisse contra a terra com os cornos do medo?

As ondas pareciam encarniçar-se de encontro à falésia do lado sul. O mar entrava, enrolava-se e saía, numa ejaculação maligna de espuma. Estaria a escavar uma caverna, como se perfurasse um hímen.

Apreciei a minha conjetura apenas por instantes. Enganara-me. Afinal, a caverna engravidara há muito.

Vi, ou julguei ver, uma criatura escapar-se do buraco, bater desajeitadamente as asas e elevar-se nos céus, conservando-se abaixo do nível das nuvens. Como se estivesse cansada, pairou, aproveitando as correntes de ar e foi desenhando voltas largas. Parecia esperar por alguém.

A Sandra viu o mesmo que eu. Comentou:

− Estão a sair dali pássaros.

A incapacidade dela para se maravilhar espantava-me. Comentei:

− Nunca vi pássaros tão grandes.

− Nem eu...

A moça recordou-se da conversa de minutos atrás e perguntou, envergonhada, como se estivesse com medo de fazer figura de parva:

− Serão mesmo anjos?

Era nisso que eu estava a pensar. Já não a achava assim tão burra.

Os seres alados continuavam a libertar-se e juntavam-se aos outros, em voos circulares.

A minha cabeça era pequena para conter o rápido suceder dos pensamentos. Parecia-me que não cabiam lá todos. Esgotadas as possibilidades alternativas, o horizonte lógico estreitava-se.

Concordei com a Sandra:

− São anjos.

Quase nem me espantei com aquela conclusão inverosímil.

A máquina de pensar, contudo, não se detinha. Apenas me ocorria uma explicação para aquele fenómeno único. Deus soltara-os.

Lembrei-me de um versículo de Ezequiel:

Tu eras querubim da guarda ungido. Perfeito eras nos teus caminhos até que se achou iniquidade em ti.

Recordei, a seguir, outros, que julgo que eram de Isaías:

Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações!

Tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono,

Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.

Acho que o que se segue é do Apocalipse:

Houve batalha no céu; o dragão e os seus anjos pelejaram contra Miguel e os seus anjos e não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles; e foi expulso o grande dragão, que se chama Satanás, o sedutor de todo o mundo; foi precipitado na terra e os seus anjos foram lançados com ele.

Não me lembro de mais versículos; acho mesmo que os que citei já não são poucos. O dragão, antes de inchar de vaidade, tinha o nome de Lúcifer. Terá ido habitar o inferno com os seus seguidores.

Tanto quanto me era dado ver, o Senhor considerava que eles tinham já cumprido as penas a que haviam sido condenados. Libertos, iriam possivelmente juntar-se à grande hoste celestial.

Os seres alados eram cada vez mais e davam voltas largas centradas no farol. As gaivotas sumiram, assustadas com aquele movimento inusitado.

À medida que crescia, o bando escurecia. Às tantas, era uma nuvem negra rodopiante como um tornado. Roubava a luz ao farol.

E se se Deus não os tivesse autorizado a sair? Se o bando tivesse ganhado força suficiente para romper as rochas?

Teria tido ajuda de fora. O vento que impelira o mar contra a falésia não me parecera normal.

A Sandra assustou-se. Agarrou a minha mão e apertou-a com força.

Às tantas, o guia do bando interrompeu as voltas e voou por sobre o mar, seguido da sua legião alada. O vento acalmou e o mar também. O horizonte retomou o seu aspeto habitual. Avistava-se mesmo um barco navegar ao longe.

Descemos as escadas com o coração apertado e foi a medo que espreitámos os noticiários televisivos da noite. Eram as notícias de sempre. Os jornais do dia seguinte não referiam qualquer acontecimento extraordinário.

Será que aquele prodígio foi presenciado somente por mim e pela Sandra?

Andamos ambos como mesmo medo, o que nos aproxima. Estamos à espera de ouvir falar de combates nos céus.

 

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

 

        OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH


          O HOMEM-ÁRVORE





Jeroen nasceu numa família de pintores. O seu tio Jan, também artista, visitava a família com alguma frequência e ia espreitando os rabiscos do rapaz. Calhou encontrá-lo duas vezes seguidas a desenhar árvores mortas. Confidenciou ao irmão Anthonius:

− O teu filho tem talento, mas parece que faz sempre o mesmo desenho.

Não era verdade. Tratara-se apenas de uma coincidência. Jeroen gostava de árvores, mas não estava obcecado por elas. Desenhava tudo o que via e até muitas coisas que não tinha avistado. De algumas, nem sequer ouvira falar. Era capaz de ilustrar as histórias que escutava à lareira.

Já era crescido quando desenhou a árvore morta que conhecemos hoje, com um ninho de coruja no buraco do tronco. Terá, colmo de costume, amalgamado as memórias, os contos lidos e ouvidos e os produtos da imaginação. Apôs-lhe uma legenda: os campos têm olhos, os bosques têm ouvidos; quero ver, escutar e ficar calado.

 

                     


 

A família de Jeroen vivia na Praça do Mercado, mas o miúdo gostava de passear pela povoação e pelos arredores.

Herstogenborg era uma das quatro cidades maiores do ducado de Brabante. Menor que Bruxelas e Antuérpia, era contudo maior que Lovaina. A sua riqueza provinha do comércio e da indústria da cutelaria. Possuía, como era conveniente, um número considerável de tabernas e dois ou três prostíbulos.

O rapaz foi crescendo. Alimentava as fantasias eróticas de todos os adolescentes, mas escondia dos pais e do tio os desenhos de mulheres nuas. Traçava-as sem modelo vivo, pois nunca avistara uma rapariga despida. Copiara gravuras grosseiras que circulavam entre os adolescentes e imaginara retirar a roupa a algumas santas das pinturas da Igreja de San Juan. Espreitara as portas dos prostíbulos, como os demais rapazes que ainda não eram autorizados a entrar. Como não podia ver, imaginava.

Curiosamente, a imagem do bordel de difícil acesso acabaria por ser, mais tarde, corporizada na personagem do homem-árvore, que domina o painel direito do Jardim das Delícias Terrenas. É, pelo menos, nesse sentido que apontam as opiniões de alguns entendidos.

Para um leigo como eu, dificilmente o homem-árvore fará lembrar uma casa de passe. Onde é que estão as prostitutas? A única mulher à vista é a que retira vinho de um barril para um jarro. Não tem aspeto atraente. Parece velha. Usa um toucado com orelhas altas e tem o nariz comprido e brilhante. Seria preciso alguém estar desesperado (ou muito bêbado) para se querer deitar com ela.

O homem-árvore é uma das figuras mais icónicas do panteão de imagens prodigiosas que Bosch nos deixou. Julgo que acabará por dar lugar a mais interpretações.

O corpo tem forma oval. Poderia corresponder a um frango depenado e estripado.

A árvore sustenta-se em dois troncos. O de cá continua o corpo e assemelha-se a um membro humano. O do lado oposto, grosseiramente simétrico, ajuda a equilibrar o conjunto. Os troncos não mergulham as raízes no chão, mas assentam no fundo de barcaças onde que se reconhecem alguns tripulantes. Flutuam num riacho estreito onde alguns rapazes parecem brincar.

Há fila para subir a escada comprida. À frente dum homem despido, vão dois monstros. O de baixo tem asas de borboleta e cabeça de pássaro. O de cima é gordo. Tem capuz e botas, mas não usa calças. Leva uma flecha espetada no ânus. Não parece incomodá-lo.

Vêm-se homens nus à volta de uma mesa. Um deles está sentado numa ratazana. Não parecem divertidos. Da frente, chega o fulgor das chamas que tanto apraz a Bosh. Para além da bebida, não estão à vista outras fontes de prazer.

O chapéu redondo parece pertencer a outro mundo. É centrado por uma gaita-de-foles que uma monstra de touca branca procura tocar. À volta, desfilam pares de monstros e pecadores.

O homem-árvore olha para trás com uma expressão que se poderá situar entre a paciência e o desengano. É como se o tivessem contratado e lhe pagassem mal.

Junto ao ponto de apoio da escada, está um homem debruçado numa espécie de amurada. Tem o rosto redondo e as feições mal definidas e apoia a cabeça na mão sustentada pelo cotovelo. Ainda pensei que fosse vomitar, mas não é o caso.

Ampliei a imagem no computador e quase dei um salto na cadeira. É o Alfredo!

Como é que terá ido ali parar?

Conheço-o há cerca de uma dúzia de anos. Na altura, ele negociava em antiguidades. Vendeu-me um machado de bronze. Era uma falsificação. Curiosamente, comprei-lhe também um morteiro de salva. É feito do mesmo material e parece ter permanecido muitos anos, talvez séculos, no fundo do mar. Um arqueólogo meu amigo quase garante que é autêntico. A sua experiência ensina que as falsificações se vendem melhor se for introduzida no lote uma peça autêntica.

Depois, encontrei-o em lugares improváveis: a bordo do avião que nos levou de Frankfurt para Hong Kong, num passeio a pé pelo centro histórico de Praga e em Angola, à saída do aeroporto de Luanda. Habitualmente, cumprimenta-me de forma efusiva, mas já dei com ele a fingir que não me via e a misturar-se rapidamente na multidão. Não pretenderá ver publicitadas algumas das suas atividades.

O Alfredo nunca foi um homem honrado, mas não se pode dizer que fosse completamente desonesto. Será essa a imagem de marca de alguns comerciantes.

Cheguei a sonhar com ele, um par de vezes. Não foram sonhos bons, nem maus. O homem não aquece, nem arrefece. Vi-o como delegado de propaganda médica à porta do Serviço onde comecei a minha carreira hospitalar. Noutro sonho, encontrei-o a trabalhar numa agência de viagens que propunha destinos estranhos.

Nunca o tinha imaginado a deslocar-se no tempo. 

O mais provável é que a ampliação tenha alterado as feições do personagem que Bosch desenhou. Existem tipos de rostos que se repetem ao longo de gerações na mesma área geográfica e o Alfredo nunca chegou a dizer-me em que terra nasceu.

A outra explicação mais ou menos racional é eu estar a sonhar que contemplo “O Jardim das Delícias Terrenas” e que me deixe empurrar pelo devaneio para uma opinião tendenciosa: o Alfredo está ali para propor mulheres para o lupanar. Não seria a primeira vez que alguém o acusava de proxenetismo.

A julgar pela expressão do rosto, o negócio correu-lhe mal.

 


sexta-feira, 5 de março de 2021

         

        OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH


            FUGA PARA O EGITO




Lígia, a parteira, ajudou a mãe a dar o menino à luz. Quando a parturiente, exausta, adormeceu, enfaixou a criança em panos limpos e roubou-a. Tencionava entregá-la a Satanás, para cumprir o pacto estabelecido.

Colocou a alcova de ama-seca no dorso duma ratazana enorme e sentou-se nela. Mostrou-se, então, com o aspeto que tinha nas noites de terça-feira e em alguns sábados. As pernas desapareceram, dando lugar a uma longa cauda de peixe. O rosto tornou-se esverdeado, enquanto cobria a cabeça com um tronco de árvore morta. Os dedos cresceram a afilaram-se como ramos secos. Foi desse modo que Bosh a retratou. A bruxa sentia-se melhor assim do que na forma e nas vestes dos dias comuns, em que pouca gente lhe dava importância.

A viagem seria curta. O Inferno não era longe. Está quase sempre mais perto de nós do que imaginamos.

Entretanto, Lígia baixou o olhar para o menino enfaixado que tinha nos braços. O bebé sorriu-lhe.

A mulher achou que nunca vira um recém-nascido que fosse logo capaz de sorrir. Estava perante um encantamento e talvez um sinal.

Alguma coisa mudou repentinamente dentre dela. Do borralho que definhava no seu coração brotou um fogo novo que se espalhou alegremente por artérias e veias, aquecendo-lhe mesmo a alma. Aquele menino não seria para o Diabo. Ela iria encarregar-se de o criar.

A jovem que dera à luz a criança era mãe solteira. Perdera muito sangue e dificilmente seria capaz de sobreviver. A parteira não sabia quem era o pai do bebé, embora tivesse as suas desconfianças.

Estremeceu quando se lembrou do pacto que assinara com o próprio sangue. Os acordos com o Diabo não podiam ser desfeitos.

Lígia não nascera bruxa. Nenhuma menina nasce com esse fado. Tinha sido uma criança normal e crescera numa família remediada de Hertogenbosch. O pai era operário numa pequena fábrica que produzia facas e punhais. A cutelaria da cidade era conhecida, mesmo além-fronteiras. O homem ganhava menos mal e era respeitado entre os seus.

O mal atacara a rapariga junto ao calor da forja.

No esplendor dos dezasseis anos, sem ser invulgarmente bonita, atraía os olhares dos rapazes.

No fim duma manhã de verão fora levar a merenda ao pai. O operário tivera de sair, para ajudar a reparar uma avaria numa fábrica próxima. Quem recebeu a moça à porta foi o Julião. Era um homem feito, já casado e pai de filhos, mas fazia tempo que não tirava os olhos dela. Sorriu-lhe, quando a viu. Tinha um sorriso bonito.

− O teu pai não está, mas não deve demorar. Entra e senta-te. O que é que trazes aí?

− É a merenda do meu pai.

− Trouxeste vinho?

− Algum, numa garrafa pequena. Ele diz que aqui faz muito calor e que a água lhe sabe melhor.

− Hum… Acho que ele não se importa, seu provar um bocadinho. Também queres um golo?

− Não… Acho que não… Não estou habituada a essas bebidas.

− Ora… é só um trago.

Lígia provou e depois bebeu um pouco mais. O Julião era tão bonito e sabia falar tão bem às mulheres… Era pena ser casado.

Fazia calor junto à forja e ele tirou a camisa. Tinha um tronco musculado.

− E tu, não tens calor?

− Calor tenho, mas…

− Eu ajudo-te a tirar a blusa…

− Mas não tenho mais nada por baixo…

− Nem faz falta, garanto-te.

Às tantas, Lígia estava deitada no solo, com a saia levantada e Julião em cima dela. Não tentou escapar. Sonhava com aquele momento havia meses.

Depois de satisfeito, o homem manifestou pressa de a afastar dali.

− Lígia! És uma maravilha de mulher, mas é preciso que te vás embora antes que chegue o teu pai.

As visitas à oficina continuaram, a horas a que o pai da rapariga tinha já saído.

Pouco tempo depois, a rapariga viu que a menstruação lhe faltava. A seguir, viu que a barriga lhe crescia. Estava grávida.

Foi ter com o amante. Afogada em lágrimas, contou-lhe o que se passava. Ouviu palavras que eram tão duras como sensatas.

− Lígia! És uma rapariga bonita e doce. Gosto muito de ti, mas sou casado e tenho as minhas responsabilidades. Terás de fazer um aborto. Eu conheço uma mulher experiente e discreta. O mais que posso fazer é pagar o trabalho dela. De outro modo, já viste como iria ser a tua vida nesta terra?

Lígia aceitou e tirou o menino.

Quando voltava, sozinha e a pé, da casa da abortadeira, pareceu-lhe ouvir uma gargalhada rouca, ao mesmo tempo que as janelas da casa dela se avermelhavam, como se houvesse fogo lá dentro.

O resto da sua história pessoal tem interesse reduzido, até chegar o momento da grande decisão da sua vida. Lígia não casou. Fez-se, primeiro, abortadeira e, depois, parteira. Diz-se que se juntou a um pequeno grupo de mulheres más que, nas noites de terça-feira iam dançar nuas atrás do cemitério da cidade. Diz-se, mas nunca houve ninguém que o pudesse comprovar. Nem os mais valentes se atreviam a espreitá-las. Afinal de contas, cada um tem apenas uma alma e será prudente tomar boa conta dela.

Tudo isso parecia agora muito distante.

Lígia olhou o menino. Já não sorria. Adormecera.

A mulher encolheu os ombros e deitou fora o tronco seco que a toucara. O mundo era grande, muito grande, e as garras de Satanás não podiam chegar a todo o lado.

Resolveu fugir para o Egito, como tinham feito Maria e José para que Jesus escapasse à sanha de Herodes. Nessa terra distante mandariam outros deuses e haveria outros demónios.

Não sabia onde ficava o Egito, mas não se assustou com a própria ignorância. Iria perguntando. Alguém havia de lhe indicar o caminho.

Arrenegou Satanás mas, antes, fez os últimos encantamentos. Recuperou as próprias pernas, fez crescer os peitos secos e encheu-os de leite. Depois, transformou a ratazana em burra e de meteu-se ao caminho.

 

 

 

 

 


quinta-feira, 4 de março de 2021

   

 OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH

               CLOTILDE



 

Contei atrás que fiz uma visita ao Inferno, conduzido pelo Joaquim.

Já vos falei dele. É um pequeno monstro bondoso mas desconfiado, meio humano e meio batráquio. Usa com certa vaidade um enorme gorro vermelho.

Tantas vezes o contemplei no painel do meio do Juízo Final que acabei por o fazer reparar em mim. Entabulámos conversa e acabámos por nos afeiçoar um ao outro.

Certo dia, aceitou acompanhar-me ao sítio onde nascera. Era o único lugar que ele conhecia no mundo. Relatei atrás essa minha experiência.

Tempos depois regressei lá, na mesma companhia. A curiosidade poderá vir a dar cabo de mim, mas quer-me parecer que não tenho emenda.

Da primeira vez, estava tão assombrado que olhei para tudo muito por alto. Espantei-me com a quantidade e variedade dos prodígios que me era dado presenciar. Não admira que me tenha sentido confuso e desorientado. Só assim se explica que não tenha reconhecido a minha prima Clotilde.

Encontrava-se (e encontra-se) no painel do homem-árvore, sentada um pouco acima da porca.

É verdade que eu nunca a vira nua. Não foi coisa que não tivesse tentado, mas a minha prima considerava-me um miúdo e não me dava importância. Gostava de rapazes crescidos. Passaram anos, mas o rosto dela pouco mudou.

A Clotilde era vaidosa e fazia do amor um campo de caça. Gastava mais em roupa do que lhe permitiam o bom senso e as finanças da família e entretinha-se a cativar novos e velhos. Iscava o anzol e esperava que o peixe mordesse. Depois, retirava-o, punha-o de lado e ia pescar noutras águas. Nunca ficava satisfeita. Pretendia ter cada vez mais admiradores.

Vivíamos numa cidade pequena e, embora as regras de conduta para as mulheres já não fossem tão apertadas como na geração anterior, o seu comportamento era fonte de escândalo.

O pai não sabia de nada. A mãe era uma pessoa pouco firme e não tinha mão nela.

Havia quem dissesse que a Clotilde não traria grande mal ao mundo. A sua figura garrida antecipava a primavera e alegrava a cidade. As velhas achavam que ela acabaria por assentar. 

Deixou de ser popular quando o Fernando Moreno se deitou a afogar no nosso rio, depois de ela o descartar, após um namoro fugaz. O moço era estimado na terra e, antes de a minha prima lhe estender as garras, estava para casar com a Luisinha Ferreira, que muitos consideravam mais linda do que a Clotilde e seguramente mais ajuizada. É que não se pode dizer que a minha prima fosse invulgarmente bonita, embora tivesse um corpo bem feitinho. Era o conjunto, a graça e o gosto de arriscar que a tornavam quase irresistível.

Não se sabe se a Clotilde foi abalada pela morte do rapaz. Não deu sinais exteriores disso. Continuou a exercitar o seu poder de sedução.

Terá dito Jesus Cristo que “quem com ferros mata, com ferros morre”. A minha pobre prima acabou por provar do seu próprio veneno. Apaixonou-se por uma homem casado, dez anos mais velho do que ela. Após uma aventura que durou um par de meses, o amante deixou-a. Fê-lo de modo um tanto cruel: declarou-lhe que ela era apenas bonita por fora, que lhe faltavam inteligência e bondade e que nem sequer valia grande coisa na cama.

A vaidade da Clotilde não suportou o desaforo. A jovem atirou-se ao mesmo rio em que se afundara o Fernando Moreno.

A desgraça que acabei de relatar é recente. Aconteceu há relativamente pouco tempo, já na segunda década do século XXI. Como é que a minha prima foi parar ao quadro de um pintor enterrado há quinhentos anos? Não faço a menor ideia.

Estou quase certo de a ter reconhecido. Se não é a Clotilde, é uma mulher extraordinariamente parecida com ela. Perdeu, contudo, o viço que a fazia ressaltar entre as outras raparigas, e a confiança em si própria que lhe emprestava um ar de rainha.

Tem sobre o peito o que parece ser um cágado. Não será apenas aos sapos que se associavam imagens de horror. O burro que a abraça com mãos parecidas com troncos de árvore tem o olhar ingénuo. Que se cuide! A Clotilde é bem capaz de lhe dar a volta.

A rapariga conserva os olhos fechados. Recusa mirar-se no espelho instalado no traseiro do demónio. Expiará a vaidade de que abusou em vida. O burro, ao contrário, parece contente com o que vê. 

Jerónimo Bosch sempre me espantou. É desse pasmo que provêm estas linhas. Ele não pode ter conhecido a minha prima. Algum demónio lhe terá mostrado o rosto, em sonhos. Depois, ou interpretou corretamente o essencial do feitio da Clotilde, ou teve conhecimento de vivências semelhantes.  

A interrogação que se segue é a mais perturbadora. E se lhe desse para me pintar lá a mim? Faria má escolha. Não serei um grande pecador, apesar de não levar propriamente uma vida de santo.

Até onde é que vai o poder dum artista? Será capaz de julgar vizinhos e conhecidos e de retratar nos infernos aqueles que considera de comportamento vicioso?

O grande pintor flamengo ilustra alguns dos próprios preconceitos. A meio das chamas infernais que lhe apraz pintar não figuram padres e, muito menos, bispos. Abundam por  lá os loucos e os pobres que, no seu modo de ver, serão mais sensíveis à influência do Mal.

A classe média urbana em que ele se integrou, ordeira, laboriosa e de boas contas, constituirá, na sua opinião, um relativo reservatório de virtudes.

E se a minha prima me tivesse avistado? Não deu sinal disso. Julgo que entristeceria por saber que a encontrei ali.

 

 


terça-feira, 2 de março de 2021

 

                    OS CONTOS DE HERTOGENBOSCH

         O ANJO DA ESCADA


                                             

Jerónimo Bosch pintou diversas povoações a arder.

O incêndio que destruiu parte de Hertogenbosch no verão de 1463 terá deixado marcas profundas na memória do adolescente. A casa da sua família foi poupada, mas o acontecimento influenciou-lhe a imaginação. Por outro lado, não existiu localmente um corte, ou um hiato, entre o fim das Idades Média e Moderna. Na Flandres, seguiram-se naturalmente uma à outra. As ideias modificaram-se lentamente e, na época em que Bosch viveu, as chamas continuavam a estar associadas, no espírito de muita gente, ao fogo infernal.

O tríptico “As tentações de Santo Antão” está exposto no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e constitui, para mim, uma das obras mais perturbadoras de Jerónimo Bosh.

Na tábua central, ao cimo e à esquerda, arde uma aldeia.

Os moradores desistiram de combater o incêndio e refugiaram-se do lado de cá, junto a um riacho. Parecem aguardar por uma embarcação que os traga para lugar seguro. No edifício situado atrás deles, vê-se uma roda e uma grande trave enegrecida. Será o que resta de um moinho de vento. 

Um pequeno ribeiro protege o bairro que se encontra mais próximo do observador.

É espantosa a tranquilidade com que a vida decorre na vizinhança da desgraça. Veem-se alguns animais domésticos. Um velho está sentado num banco, à porta de casa. Uma mulher lava roupa no riacho. Um homem subiu a uma árvore morta para recolher mel. Aves brancas estão pousadas no teto de colmo duma habitação, enquanto outras esvoaçam perto. Não parecem preocupadas com as chamas que avistam.

Deixei para o fim a que é, para mim, mais importante. Bosch recorre a simbologias complexas para nos transmitir as suas mensagens e nem todas são fáceis de entender. Espantam-me as figuras aladas que continuam a bater as asas, logo acima das chamas. Não pretendem fugir. Poderiam ter escapado facilmente, quando o incêndio deflagrou. Estão ali para tentar proteger alguém, ou alguma coisa que tem para elas um significado maior que o da vida. Não se sabe quantas já tombaram com as asas queimadas.

Há alarme nos céus e na terra. Quase se ouvem os sinos tocar a reabre.

Do lado direito, aproxima-se outro ser alado que transporta uma escada nas mãos. Seguem-no, um pouco atrás, uns tantos companheiros. Serão reforços para os que combatem a destruição causada pelo fogo. Os que chegam sabem que vão arriscar as vidas. Não os conheço. Se fossem humanos, pensariam como eu: a única razão válida para um ser se deixar matar, podendo fugir, é a proteção dos seus.

De que servirão as escadas, para um ser que voa? Não serão para subir. Haverá necessidade de descer a espaços confinados, onde as asas não poderão abrir.

Não tenho conhecimento de referências ao “Anjo da Escada”, o que não quer dizer que não existam. Poderão ter sido divulgadas. Longe vão os tempos em que o meu neto António dizia ao primo pequeno:”pergunta ao avô; ele sabe tudo”. Os meus netos aprenderam há muito a conhecer as minhas limitações.

Para mim, esta imagem é das mais perturbadoras que o grande pintor do Brabante nos deixou. Os anjos, ou lá o que forem, terão tentado salvar os ovos, a descendência. Falharam.

O quadro de Bosh não tem seguimento. A chave do enigma, a existir, há de encontrar-se dentro dos limites da moldura. As chamas, com o seu pesado significado simbólico repetem-se em muitos dos seus quadros.

Tão pouco sei se o Anjo da Escada provém de alguma lenda pouco conhecida ou se nasceu da prodigiosa imaginação do pintor de Hertogenbosch.

Julgo poder afirmar, que desde então, ninguém mais avistou Anjos. Os que contaram tê-los visto, ou eram mentirosos, ou alucinados.