DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 6 de abril de 2014


    A MINHA EXPERIÊNCIA COMO MÉDICO DO

NAVIO HOSPITAL GIL EANNES



                                         II                                                    O PRIMEIRO GIL EANNES

A história do primeiro Gil Eannes começou em 1916. Os submarinos alemães estavam a infligir pesadas perdas à marinha mercante britânica. Os ingleses pretendiam apoderar-se das várias dezenas de cargueiros alemães refugiados nos nossos portos. Em março, os navios foram requisitados e a Alemanha declarou guerra a Portugal.
Alguns navios ficaram cá. Um deles chamava-se Lahneck. Media 85 metros de comprimento e era capaz de transportar 2.000 toneladas de carga.


O cargueiro alemão mudou de nome e foi transformado em cruzador auxiliar da Marinha portuguesa. Durante a guerra, foi usado no transporte de tropas. Serviu depois a carreira dos Açores.
O bacalhau ganhara um lugar importante na alimentação dos portugueses. No interior do País, que não tinha acesso ao peixe fresco, constituía uma das fontes mais baratas de proteínas. Em especial, a região norte consumia uma parte importante do bacalhau seco pescado ou importado. O Poder estava interessado em alcançar a autossuficiência nacional neste produto.


Os pescadores portugueses que se dedicavam à pesca do bacalhau trabalhavam em condições difíceis. Ocorriam muitas doenças e algumas mortes.
Era necessário um navio que apoiasse a frota em lugar de cada um interromper a pesca e ir a terra sempre que necessitava de água, carvão, isco, sal ou alimentos frescos. Fazia falta, sobretudo, a assistência médica. Seria importante o exame médico dos pescadores antes do embarque, mas a prevenção tardou a ser efetuada. A tuberculose pulmonar era frequente entre os pescadores.

                         SAINTE JEANNE D`ARC
Os franceses tinham um navio hospital, o Sainte Jeanne d´Arc, que acompanhava a sua frota pesqueira e prestava pontualmente apoio a pescadores portugueses doentes. Os franceses ajudavam, mas queixavam-se das despesas que tinham de suportar e achavam que os armadores portugueses deveriam participar no financiamento.
A marinha francesa dispunha de navios hospitais de assistência à pesca longínqua desde o fim do século XIX. O primeiro foi o Saint Pierre, lançado ao mar em 1886.


Em janeiro de 1922, a Associação dos Oficiais da Marinha Mercante de Ílhavo dirigiu um requerimento ao Ministro da Marinha. Lembravam que a pesca do bacalhau ocupava mais de 50 navios portugueses que empregavam cerca de 3.000 homens.

     LUGRE PORTUGUÊS DE TRÊS MASTROS (FINAL DO SE. XIX)
Pediam que uma das várias embarcações nacionais disponíveis fosse adaptada a navio hospital e acompanhasse a nossa frota bacalhoeira até aos Bancos da Terra Nova.
O governo levou a petição a sério. Em 1917, os capitães dos navios bacalhoeiros tinham feito diversas exigências aos armadores. O conflito laboral arrastou-se e, nesse ano, os lugres não partiram para a pesca do bacalhau.
O cruzador Carvalho Araújo, que levava um médico a bordo, foi destacado para a Terra Nova, na campanha de 1923.

                           CARVALHO ARAÚJO
Decidiu-se então adaptar o Lahneck/Gil Eannes a navio de assistência. Foi à Holanda fazer as transformações necessárias e partiu para a Terra Nova em maio de 1927. Dispunha de médico, farmácia e enfermeiro. Era muito mais do que um navio hospital. Fornecia água, carvão e sal aos navios de linha. Trazia de terra animais para abate, melhorando a alimentação dos pescadores, sempre deficitária em produtos frescos antes da introdução das instalações frigoríficas, ocorrida quase três décadas mais tarde. Como saía depois dos navios de pesca, transportava o correio entretanto enviado. Além disso, tinha serviço telegráfico.


A viagem inaugural não teve seguimento imediato e, em 1928, o Gil Eannes foi usado no transporte de presos políticos para a Guiné e para Angola. Regressaria à Terra Nova nos dois anos seguintes. Foi, depois, utilizado para transportar guarnições para Macau e presos políticos para Timor. Fez viagens para a Inglaterra até 1936.
Nesse ano, foi lançado um programa de renovação da frota pesqueira portuguesa, tendo sido melhorados ou construídos perto de 50 navios. A partir de 1940, passariam a construir-se sobretudo arrastões.
Em 1937 foram instituídas as Casas dos Pescadores, integradas na organização cooperativa do trabalho marítimo. Tinham essencialmente funções de previdência social, de acordo com os ideais da Democracia Cristã. Salazar, enquanto estudava em Coimbra fora dirigente do Centro Académico de Democracia Cristã (C.A.D.C.). Anos mais tarde, teve o cuidado de esclarecer que a ênfase estava na palavra «cristã» e não em «democracia».
       Algum tempo depois, a Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau transformou-se em Grémio.
Foi, significativamente, a partir do ano de 1937 que o Gil Eannes passou a servir regularmente a frota bacalhoeira, após um intervalo de 10 anos. Navegou integrado na nossa Marinha de Guerra até 1941. Em 1942 foi desarmado e entregue à Sociedade Nacional de Armadores de Bacalhau. Estava-se em plena guerra. 


Em agosto de 1942, os serviços secretos britânicos suspeitaram de que tanto o arrastão Álvaro Martins Homem como o Gil Eannes estavam a comunicar aos alemães, via rádio, a posição de navios aliados com que se cruzavam. Os ingleses pensaram em afundar o Gil Eannes, mas reconsideraram. Intercetaram o nosso navio hospital na viagem de regresso a Lisboa. Prenderam e levaram com eles o alegado espião Gastão Ferraz, operador de rádio.

Fontes: Gil Eannes. Câmara Municipal de Viana do Castelo. Comissão Especial pró Gil Eannes, 1997.

Fotografias: Revista Oceanos nº 45, Internet, arquivo pessoal.

Também publicado no blogue historinhasdamedicina.

sábado, 5 de abril de 2014

         A MINHA EXPERIÊNCIA COMO MÉDICO 

                       DO NAVIO HOSPITAL GIL EANNES
                       I

        Um Pouco de História


 Não se sabe há quanto tempo se dedicam os portugueses à pesca do bacalhau. Será, pelo menos, desde o reinado de D. Dinis. 


A História regista lutas antigas pelo controlo das áreas de pesca. Em 1478, as autoridades dinamarquesas encerraram aos estrangeiros os pesqueiros da Islândia que, à data, controlavam. Os pescadores bretões, bascos, ingleses e portugueses tiveram de procurar outras zonas de pesca.
Os portugueses descobriram então a Terra Nova. Dizia-se que havia tanto peixe nos seus Bancos que os cardumes chegavam a impedir o avanço das embarcações. Notícias destas, verdadeiras ou falsas, propagaram-se depressa. As frotas pesqueiras da Europa deslocaram-se para lá.


Esta carta data de 1546 e mostra a Terra Nova, que os portugueses consideravam sua. Estabeleceram pequenas povoações em terra, durante os meses quentes.
Nos primeiros anos do Século XVI saíam anualmente, só de Aveiro, 60 navios com destino à Terra Nova. Em 1550, eram 150, muitos mais do que os que partiam para uma Índia.
A perda da independência nacional, em 1580, e o declínio do poderio ibérico levaram a que portugueses e espanhóis fossem expulsos da Terra Nova.

                               Armada Invencível
A pesca do bacalhau foi reiniciada apenas em 1885. Os portugueses já não sabiam capturar bacalhau. Tiveram de reaprender.
Entre o fim da terceira década do Século XX e o começo da sétima, a pesca do bacalhau andou ligada a dois navios hospitais que se sucederam com o mesmo nome: Gil Eannes. 

Tratava-se de homenagear  o comandante da primeira embarcação que passou o cabo Bojador, em 1434. 
No prolongamento do temido cabo, até longe da costa, as águas eram rasas e os recifes abundavam. Perderam-se diversas embarcações a tentar contorná-lo e nasceram histórias fantásticas de monstros marinhos.



Gil Eannes viajou na primavera, numa barca dum só mastro. Próximo do Bojador, afastou-se da costa e transpôs o Cabo do Medo sem sobressaltos. Deixou de haver obstáculos para a navegação dos navios portugueses ao longo da costa ocidental de África.

Fontes: 
Semedo de Matos, Luís. O Atlântico Noroeste e a Terra Nova (Terra dos Corte Reais). Em: Oceanos nº 45 - janeiro/março 2001. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. 
 Varela, Consuelo. O controlo das Rotas do Bacalhau nos séculos XV e XVI. Em: Oceanos nº 45 - janeiro/março 2001. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. 
Fotografias: Revista Oceanos, Internet, coleção particular.

domingo, 23 de março de 2014

                    JERÓNIMO BOSH


              O JARDIM DAS DELÍCIAS


                             II
                                          

A razão de pertencerem atualmente ao Museu do Prado alguns dos melhores trabalhos de Bosh reside no gosto do rei Filipe II de Espanha (o nosso Filipe I, primo direito de D. Sebastião) pelas suas obras. Adquiriu algumas.
Filipe II era o mais conservador dos monarcas católicos. Leria Bosh à sua maneira.



Hieronimus Bosh criou figuras complexas, originais e difíceis de entender.
Utilizou símbolos variados e por vezes ambíguos do Mal e do Bem para descrever a loucura do mundo que escorregava (tal como escorrega agora e quase me atrevo a dizer que escorregou sempre) para a perdição moral. Julgo que há mais vagas nos hotéis do Céu do que na concorrência.


Voltemos ao Jardim das Delícias. No painel da esquerda está representado o Paraíso.


Há animais africanos mais ou menos fantasiados. Em lugar dum Paraíso tranquilo em que os animais vivem na paz de Deus, há um leão preparado para devorar um veado e um javali a perseguir uma figura estranha com duas pernas. Perto do tanque, um leopardo abocanha um lagarto e uma ave come uma rã.

                                                     
Deus, figurado como Cristo, está de pé, e apresenta a Adão a Eva acabadinha de criar e pronta para o pecado.

                                            


O painel da direita representa o inferno. É um painel sombrio que contrasta com os antecedentes.
Há quem lhe chame o Inferno da Música, tantos são os instrumentos musicais apresentados.                                             
No estrato superior são representados o fogo e os tormentos.                 
O andar médio contém figuras de pesadelo.
A faca ligada às orelhas tem sido interpretada como um símbolo fálico.
O painel é dominado pela figura do homem-árvore, que olha para o observador. 


Tem na cabeça um disco em que dançam pequenos demónios. Os braços são troncos de árvore e apoiam-se em barcaças. 
O peito é oco e dá abrigo a monstros.

                                             
O andar inferior é o da orquestra. Os instrumentos musicais são aparelhos de tortura.
                     
                  
Em lugar do maestro está um demónio que devora condenados e os vai defecando para um poço negro.

                                       


Em baixo, à direita, um homem é abraçado por uma porca com touca de freira.

                                 
   
A maior parte dos críticos atribui a Bosh intenções moralizantes. Mostrar os horrores do inferno pode facilitar a entrada nos caminhos do céu. Também as catedrais antigas exibem gárgulas com aspeto demoníaco.
No entanto, Bosh gasta-se mais na descrição do perverso que na promoção do Bem. Para ele, a tolice e o pecado fariam parte da natureza humana. Há quem diga que se limitou a apontar factos, desistindo de dar conselhos.




sábado, 22 de março de 2014

             JERÓNIMO BOSH




       O JARDIM DAS DELÍCIAS TERRENAS


                          I

                  PAINEL CENTRAL


Jeroen (Hieronymus) van Anken nasceu na Holanda em 1450 e viveu 56 anos. A sua obra é absolutamente invulgar e não se parece com a de qualquer artista que o tenha precedido. É o pintor mais original da história da cultura europeia.
Bosh preferia temas alegóricos em que criticava os excessos e a desonestidade dos homens. Pintou diversos quadros seguindo textos bíblicos. Muitos perderam-se. Alguns foram mesmo destruídos por altura da Reforma.

             AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO

Existem perto de 40 quadros seus dispersos por museus da Europa e da América. Entre os mais conhecidos contam-se As Tentações de Santo Antão, exposto no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e O Jardim das Delícias Terrenas, que se encontra no Museu do Prado, em Madrid.


                O JARDIM DAS DELÍCIAS TERRENAS

Julga-se que o quadro foi pintado entre 1503 e 1504. Há quem diga que foi produzido para uma seita herética adamita que praticava a liberdade sexual. Para outros, a pintura foca-se no pecado da luxúria.
 Aberto o tríptico, figura de um lado o Paraíso e do outro o Inferno. Entre os dois extremos fica a Vida. Está simbolizada no painel central: o homem deixa-se levar pelos prazeres dos sentidos.
                                       

     
Começaremos pelo centro. O painel do meio está organizado em três estratos, ou andares. No espaço superior, ao meio, uma estrutura cilíndrica encimada por uma torre que se vai afilando flutua num lago, ou assenta no seu fundo. Tem no equador um estrado em que se veem figuras humanas, enquanto outras se banham mais abaixo. Os homens e as mulheres representados neste quadro estão despidos. No campo vizinho abundam as árvores de fruto.
                                    
         
À esquerda, um círculo de pessoas sentadas na relva parece tentar comer um morango gigantesco.
Alguns frutos e animais foram considerados símbolos eróticos, influenciados por canções e provérbios daquele tempo. Os peixes, por exemplo, eram símbolos fálicos, enquanto “apanhar frutos” designava o ato sexual.
                              


O estrato mediano é centrado pela fonte da vida ou da eterna juventude onde se refresca um grupo de mulheres. Há negras entre elas. À volta da fonte desfila um grupo de cavaleiros montados em animais fantásticos agrupados em quadrigas irregulares. 
Veem-se grandes pássaros, que simbolizarão a luxúria.

                                                               
O andar inferior é ocupado por dezenas de figuras nuas. Trata-se muitas vezes de casais, mas em alguns agrupamentos são mais complexos.
Os observadores mal intencionados veem neles cenas de luxúria. Há quem diga que Bosh pintou ali todo o tipo de relações carnais: heterossexuais, homossexuais e onanistas. Alguns personagens trocam carícias com animais e com plantas.
       
                                
Curiosamente, os pecadores de Bosh não mostram sinais de arrependimento. Entregam-se alegremente à perdição.


Alguns observadores atentos fizeram notar que ali não se dá pela passagem do tempo. Não se veem velhos nem crianças. Ninguém trabalha. Comem-se os frutos que a terra dá espontaneamente.                                                                                                                                                                      (Continua) 


Fontes: 
Bosing, Walter. A Obra de Pintura - BOSH. Taschen, Público, 2003.
Vários, Hieronymus Bosh, Grandes Pintores do Mundo, E-Ducation.it portfolio.
     Vários. Bosh. Em: Génios da Pintura, Góticos e Renascentistas, Abril Cultural, São Paulo, 1980. 
       Vários. Renascimento e Maenirismo. Em: A grande História da Arte. Público, 2006.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014






   A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


       LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


               NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
                        IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
                        E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA

                                                 III

Quando Nino Vieira apeou Luís Cabral da Presidência da República, Juvelina encontrava-se em S. Paulo, no Brasil, integrada na Delegação da Guiné-Bissau ao 1º Simposium Afro-Brasileiro de Comércio Externo. Logo que a notícia da deposição e prisão do seu irmão Luís chegou, a postura de um dos elementos da delegação modificou-se radicalmente, passando das mesuras da véspera à falta de respeito.



Juvelina achou prudente não regressar a Bissau. Viajou para Lisboa, onde tinha casa, e ficou a aguardar o desenvolvimento da situação.  O marido e o filho mais velho permaneceram na Guiné, enquanto o mais novo estudava em Portugal. 
     O marido, Abel Ventura, regressou três anos mais tarde. Gerira mal o património, deixando a família em situação económica periclitante.



Quando foi posto em liberdade, Luís Cabral acolheu-se em Cuba, onde viveu de 1981 a 1983. Tentou regressar a Cabo Verde, mas as várias cartas que escreveu a Aristides Pereira a manifestar essa intenção ficaram sem resposta. O governo português, com o apoio do Presidente Ramalho Eanes, ofereceu-lhe asilo político em Lisboa.



Juvelina ainda pensou em regressar a Cabo Verde, onde nascera e vivera os primeiros quinze anos da sua vida. Aristides Pereira, o presidente da República, não a quis de volta. Argumentou que ela não tinha família em Cabo Verde. Aristides era um homem cauteloso. Recearia a sombra do prestígio aliado ao nome “Cabral”.



Luís Cabral chegou a Portugal no início de 1984. A princípio, instalou-se com a mulher e os filhos em casa da irmã.
No ano seguinte, pressionada pelas dificuldades financeiras, Juvelina Cabral voltou à Guiné. Pretendia reaver os seus bens e renegociar o aluguer do prédio da família onde se instalara a Embaixada da China, pagando uma renda que seria vinte vezes inferior ao valor de mercado.  Foi ali que conheceu o que viria a ser o seu segundo marido.



António Rocha é licenciado em Economia pela Universidade do Porto. Ainda adolescente, atreveu-se a emigrar sozinho para Moçambique, onde trabalhou. Voltou três anos depois e retomou os estudos. Ingressou na SACOR (depois PETROGAL) a meio do curso. Em 1985, foi contratado como assessor da Direção Geral da DICOL, empresa monopolista de combustíveis da Guiné-Bissau, então dirigida pelo futuro primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.
Waldemar Oliveira, ligado às empresas de petróleo em Portugal e na Guiné e casado com Armanda Cabral, constituiu o elo entre António e Juvelina. António passou a estar presente em todos os eventos da família Cabral. Ele e Juvelina acabaram por se apaixonar. Trataram dos divórcios e, em junho de 1990, formalizaram o casamento na Embaixada de Portugal em Bissau.
António Rocha deixou de vez a PETROGAL e passou a trabalhar para organismos internacionais que prestavam ajuda à Guiné. Em 1996, o casal vivia de novo em Bissau. Tornaram-se ambos sócios duma empresa agrícola que acabaram por deter na totalidade, e geriram um restaurante e uma piscina.
Curiosamente, Nino Vieira respeitava a irmã de Luís Cabral e parecia estimá-la. O casal vivia bem. António chegou a ser Assessor Económico da Presidência da República (na dependência direta do Ministro de Estado da Presidência, Fidelis Cabral de Almada) e, durante dois mandatos, Presidente da Escola Portuguesa em Bissau.
Luís Cabral, após a queda de Nino Vieira, ainda esteve na Guiné por um curto período de tempo.
A Guiné-Bissau era um país instável e, a dada altura, o Dr. António Rocha passou a ser mal visto pelos responsáveis pelo poder político.
 Em 2010, mudou-se para Angola, onde trabalhou como consultor e assessor do Governo da Província de Luanda. O casal vive agora em Nova Oeiras.



Luís Cabral o primeiro Presidente da República da Guiné-Bissau, morreu em Torres Vedras, em maio de 2009. Repousa no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Teria preferido descansar em África.



Ana Maria Cabral, a viúva de Amílcar, vive em Cabo Verde.
Iva, a filha mais velha de Amílcar Cabral e de Maria Helena, nascida na Guiné, é hoje reitora da Universidade Lusófona de Cabo Verde, em S. Vicente.




Amílcar e o seu irmão Luís, tanto quanto sei, sempre se deram bem. Curiosamente, não fui capaz de encontrar uma fotografia em que figurassem juntos.


FOTOGRAFIAS: JUVELINA ROCHA, INTERNET.

AGRADECIMENTOS: A JUVELINA E ANTÓNIO ROCHA, PELA GENTILEZA COM QUE SE DISPUSERAM A PARTILHAR AS SUAS MEMÓRIAS.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014




  A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


       LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


               NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
                        IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
                        E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA

                                                  II


Durante a guerra da independência, a presença das mães dos dois líderes revolucionários era tolerada pelo regime português, embora a PIDE se lembrasse ocasionalmente de incomodar a família. Adelina chegou a ser interrogada durante várias horas seguidas. Levavam fotografias ao local de trabalho de Juvelina e pediam-lhe que identificasse as pessoas que conhecia. Um dia, um oficial perguntou-lhe se ela não gostaria de estar antes a secretariar os irmãos. Juvelina disse logo que sim.

LUÍS CABRAL, NO TEMPO DA GUERRA DA INDEPENDÊNCIA

Apesar de viverem relativamente perto uma da outra,Iva e Adelina não se falavam. Conta António Rocha: «A Juvelina diz que se lembra apenas de as duas falarem, após a independência, com o Luís já Presidente, mas só quando eram obrigadas a encontrarem-se.» Faleceram ambas em Bissau.


                         AMÍLCAR NUMA EMBARCAÇÃO ARTESANAL

   No dia da morte de Amílcar Cabral, a mãe encontrava-se em Moçambique (Xai-Xai), de visita ao filho Toy. Adelina Rodrigues Correia estava na Guiné. Para além de chocada, encheu-se de medo de que matassem também o seu Luís. Luís Cabral encontrava-se em Zinguinchor. Viajou nesse dia para Dakar para coordenar a receção de doações, sobretudo de arroz. Soube da morte do irmão na tarde do dia 21. Ao aproximar-se das instalações do partido, deparou com um aglomerado de militantes do PAIGC. Havia muita gente a chorar.
Juvelina viveu na Guiné até ao golpe de estado de João Bernardo Vieira, ocorrido a 14 de novembro de 1980. Fez o Curso Comercial e começou por trabalhar, durante perto de dois anos, como funcionária das Obras Públicas do governo da colónia. Empregou-se depois na Casa Gouveia, pertencente ao grupo CUF. Passou a seguir por várias empresas e acabou por se fixar na Farquímica, do ramo farmacêutico.
  Após o 25 de abril e o reconhecimento formal da independência da Guiné por parte de Portugal, Luís Cabral tornou-se o primeiro presidente da República da Guiné-Bissau.

  JUVELINA COM JOÃO PAULO II (Castel Gandolfo, verão de 1979)

Algum tempo depois, Juvelina foi convidada a integrar a equipa fundadora da empresa estatal destinada a regular a importação e a distribuição de medicamentos, a Central Farmedi. Apoiada por um conselheiro técnico sueco, por um técnico de contas português e por alguns quadros nacionais, criou uma rede de farmácias e ajudou fazer crescer a Farmedi, que se tornou uma das maiores empresas públicas guineenses. O seu trabalho foi reconhecido e Juvelina ascendeu ao cargo de Diretora-geral adjunta.

REENCONTRO COM O PAPA. 
ANTÓNIO ROCHA ESTÁ À DIREITA DA ESPOSA
             Palácio presidencial de Bissau, 28/1/1990

Juvelina casou em 1959 com Abel Ventura e teve 2 filhos, ambos já falecidos (Luís Abel e João Carlos). O mais velho deixou-lhe um neto Chama-se João Carlos Gonçalves Cabral Ventura Rocha e vai nos 21 anos. Foi adotado por António José e criado pelo casal desde os quatro de idade. Queixa-se com ternura e ironia: «é chato ter de explicar que o meu pai é o marido da minha avó!»
  António Rocha tem uma filha do primeiro casamento, agora com 37 anos.

     LUÍS CABRAL, O MARECHAL TITO DA JUGOSLÁVIA E JUVELINA

O pós-guerra foi difícil no jovem país. Uma plêiade de combatentes magníficos nada sabia fazer sem as armas na mão. O conflito armado reduzira a pouco a já frágil estrutura económica do território. Os quadros disponíveis eram maioritariamente cabo-verdianos, mal aceites pela população local. Apesar da ajuda internacional, a incompetência e a corrupção iam tomando parte do País. A verdade é que os colonos faziam alguma falta.
A utopia da ligação fraterna entre a Guiné e Cabo Verde chegou ao fim com certa naturalidade. Em novembro de 1980, Luís Cabral foi deposto, num golpe de estado quase sem derramamento de sangue, pelo seu primeiro-ministro e antigo chefe das forças armadas, João Bernardo (Nino) Vieira.

JOÃO BERNARDO VIEIRA

O ex-presidente foi acusado de abuso do poder e condenado à morte. Uma das acusações era a corresponsabilidade pela execução, em dezembro de 1978, de centenas de militares africanos (quase todos guineenses) que tinham lutado ao lado de Portugal. 


                  COMANDOS AFRICANOS AO SERVIÇO DE PORTUGAL

     Os fuzilamentos foram decididos por um grupo de dirigentes do PAIGC liderados por António Buscardini, chefe da polícia política. Os corpos foram enterrados, em valas comuns, nas matas de Cumeré, Portogole, Cuntima, Farm, Bafatá, Cacheu, Canchungo, Pirada, Bambadinca, Biombo e Bissorã. As razões para justificar estas execuções sumárias, prendem-se com o facto das autoridades instituídas temerem um golpe de estado, liderado por Malam Sanhá, ex-comando da tropa colonial. Buscardini era o todo-poderoso diretor nacional da Segurança do Estado. Suicidou-se, ou foi morto, no dia do levantamento de Nino Vieira.
Luís Cabral acabou por ficar 13 meses em regime de prisão domiciliária, antes de ser autorizado a deixar a Guiné.

LUÍS CABRAL COM GUERRILHEIROS DO PAIGC

     António Rocha conta que Luís Cabral chegara a recear o chefe da sua polícia política. Segundo a família, Luís era um homem romântico, sensível e generoso, sem «queda» para ser um Presidente à moda Africana. No entanto, é bem sabido que, por vezes, o hábito faz o monge. 



FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL DE JUVELINA ROCHA, INTERNET.