DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014



   A HISTÓRIA PERTO DE NÓS      


        LEMBRANDO AMÍLCAR E LUÍS CABRAL


   NOTAS RETIRADAS DA CONVERSA COM JUVELINA ROCHA, 
   IRMÃ DE LUÍS E MEIA-IRMÃ DE AMÍLCAR, 
   E COM O SEU MARIDO ANTÓNIO ROCHA


    ANTÓNIO E JUVELINA ROCHA

                                    I

     Foi a minha filha mais velha que me falou da Senhora Dona Juvelina. Sabia que eu estava a escrever sobre a guerra da Guiné e uma das suas doentes era irmã de Luís e Amílcar Cabral. Achei que poderia ser interessante conversar com ela. A Marisa obteve o consentimento da senhora para me comunicar o seu contacto.
Telefonei-lhe. Atendeu-me o marido, que já esperava que eu ligasse. Combinámos encontrar-nos na residência do casal, em Nova Oeiras.
Fui entrevistado umas tantas vezes, ao longo da última década, mas nunca tinha entrevistado ninguém. Armei-me de gravador e máquina fotográfica, antes de me meter no carro.
Dei umas voltas a mais, como é costume, mas lá atinei com a direção.
Fui recebido com extrema gentileza.


                                    JUVELINA ROCHA

Juvelina Maria de Almeida Cabral Rocha e o seu marido António José da Silva Rocha habitam num apartamento confortável decorado com motivos africanos. São ambos casados em segundas núpcias e já passaram dos setenta anos. Estão lúcidos e evidenciam excelentes memórias.
António Rocha é extrovertido e tem uma personalidade dominadora. Juvelina é doce e reservada. Foi necessário algum esforço para não entrevistar apenas o marido…
As informações que me prestaram permitiram corrigir algumas inexatidões no livro que estou a ultimar (A Guerra da Guiné – de Amílcar Cabral ao 24 de abril).


                            JUVENAL CABRAL NA JUVENTUDE

      Falámos da família. O pai de Juvelina, Juvenal António Lopes da Costa (Cabral), foi um povoador. Teve 18 filhos das três mulheres mais importantes da sua vida: nove de Ernestina Soares Andrade, quatro de Iva Pinhel Évora, cinco de Adelina Rodrigues Correia (a única mulher com quem casou oficialmente) e mais uns tantos de relações casuais. 

IVA PINHEL ÉVORA, MÃE DE AMÍLCAR CABRAL





     Enquanto Amílcar Cabral era filho de Iva, Juvelina e Luís Cabral eram filhos de Adelina. 

                   
                 ADELINA E OS QUATRO PRIMEIROS FILHOS
   Juvelina é a menina em frente e à esquerda. Luís, o mais velho, está à direita

    Não consegui saber com exatidão o número dos filhos de Juvenal Cabral. António Rocha fez contas há cerca de 20 anos e terá chegado aos 27. Há também quem fale em 23.


                             ADELINA RODRIGUES CORREIA

Será interessante referir as circunstâncias do único casamento de Juvenal. A fonte é uma entrevista de Pedro Matos a Ana Maria Cabral (viúva de Amílcar), publicada na Internet em 2013. «A madrinha de Juvenal Cabral, D. Simoa, natural de Santa Catarina, tinha uma família com grandes posses, mas não tinha filhos. Assim, resolveu contemplar o afilhado no seu testamento. No entanto, impôs uma condição. Uma família portuguesa de quem era muito amiga veio cá passar umas férias com as suas duas filhas gémeas. Uma delas, Adelina, gostou tanto de Cabo Verde que não quis voltar a Portugal com os pais e ficou em casa da D. Simoa. A condição que a madrinha impôs era que Juvenal casasse com Adelina. Assim, Juvenal teve de deixar a mãe de Amílcar para casar com a portuguesa, levando-a para Bissau. Desse casamento, nasceu Luís, o meio-irmão de Amílcar Cabral.»
Juvelina Cabral Rocha lembra-se bem dos tempos da mocidade, em Cabo Verde. O pai, Juvenal, era bondoso, mas introvertido. Falava pouco e passava muito tempo a escrever.



Amílcar e Toy (filho mais novo de Iva) eram quem mais frequentava a casa de Adelina, em Achada Falcão. Amílcar passava as férias com o pai e com o Luís. Aconselhava Juvelina a estudar. Era simpático, extrovertido e “charmoso”, no dizer da irmã. Já no Liceu, era um conquistador. De acordo com as más-línguas, continuou a sê-lo em Conacri.


                                                               AMÍLCAR CABRAL
No que se refere ao relacionamento entre as mulheres de Juvenal, passo a citar citar António Rocha:
 «Ernestina e a Iva chegaram a viver a poucos metros uma da outra, em Geba. Aí, o Juvenal vivia sozinho numa casa atribuída pelo Governo, pelo seu cargo de professor. A Adelina tinha boas relações com a Ernestina, com quem conviveu em Cabo Verde.»
Com a Iva, as relações foram mais difíceis, apesar de terem sido vizinhas durante bastante tempo.

                 UMA DAS ÚLTIMAS FOTOGRAFIAS DE JUVENAL CABRAL

Quando Juvenal Cabral morreu, em março de 1951, o Luís, que era o mais velho dos filhos de Adelina, interrompeu os estudos e arranjou dois empregos para ajudar a sustentar a família, que vivia pobremente.
Juvelina conheceu bem as duas esposas de Amílcar. Quando veio estudar para Portugal, instalou-se em casa do irmão e tornou-se amiga íntima de Maria Helena.

AMÍLCAR E MARIA HELENA
     Com Ana Maria, deu-se sempre bem, mas nunca foi tão chegada a ela.

FOTOGRAFIA RECENTE DE ANA MARIA CABRAL

     Juvelina recorda que a mãe entristeceu nos últimos de vida, apesar de ver o filho Luís a presidir aos destinos da Guiné. Chorava a morte de Fernando, o filho mais novo, falecido num acidente de viação. Fernando era médico. Estudou na União Soviética e especializou-se na Suécia.
Amílcar Cabral protegeu a família, na medida das suas possibilidades. Ao ser colocado na Guiné, como engenheiro, foi chamando os familiares para junto dele. Veio primeiro Luís Cabral, a quem arranjou emprego na Casa Gouveia. Chegou depois António, o irmão mais novo, e a seguir a mãe, acompanhada pelas filhas gémeas. Juntou-se-lhes, pouco tempo, Adelina Rodrigues Correia com os outros filhos, incluindo Juvelina, que tinha 15 anos. Estava-se em 1953.
Tanto Iva como Adelina ficaram na Guiné após o regresso de Amílcar a Portugal. Ali permaneceram durante toda a guerra. Quando os irmãos partiram para a luta, Amílcar disse-lhes que a missão das irmãs era, sobretudo, cuidar das respetivas mães.
                                                                       (Continua)


     
FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL DE JUVELINA ROCHA, INTERNET



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014


É com orgulho que publico hoje no decaedela a parte final do Assassínio em Notre Dame, o trabalho literário mais longo que a minha neta Leonor se atreveu até hoje a produzir. Terá tempo para muitos escritos: irá comemorar daqui a algumas semanas o seu décimo quarto aniversário. 

                                                     António Trabulo




                                      CAPÍTULO VI - FINAL


Saiu do quarto e chamou a sua irmã. Disse-lhe para ser verdadeira e não mentisse em nenhum pormenor. Dito isto foi ter com Mitch, que estava naquele momento a brincar com Guillermo.
Após Margaret falar com Mellie, esta foi chamada por Fréderique. Dirigiu-se à sala escura e Lasone começou a falar.
─ As perguntas já muitos lhe fizeram, hoje quero que seja a Mellie a contar-me o que aconteceu e quem acha que foi.
─ Eu quero contar-lhe algo, antes de qualquer outra coisa. Eu tive a falar com Nicole e ela contou-me que se não fosse Joshua a ter o “dom” seria ela. Após isto, disse-me que ela gostaria muito de o possuir. – Disse, mentindo.
─ Vou ter de confirmar esses factos. – Afirmou, já levantado.
Voltou quinze minutos depois e disse:
─ Confirmei o que me disse. Mas se Nicole fosse a culpada, porque lhe diria ela isso?
─ Ela disse-me, para parecer que não é a culpada. Foi tudo um truque. Fingir que queria trabalhar como segurança de Joshua, fingir que era nossa amiga. Além disso, ela trabalha numa AFCC, portanto poderia ter imprimido com as impressoras de lá.
Fréderique pensou em todas as palavras que Mellie lhe havia dito. Ele achava que Nicole não era capaz de tudo aquilo, mas todas as provas apontavam para ela. Levantou-se, chamou Jean e dirigiu-se à sala, onde se encontrava a agente.
─ Nicole, ─ Disse Jean ─ está presa pelo homicídio de Marc MacLarens. Tem o direito de permanecer calada. Tudo o que disser pode e será utilizado contra si no tribunal…
Nicole estava estupefacta. Ela não era culpada. Alguém tinha de ter mentido a Fréderique sobre ela. Pensativa, interrogava-se quem poderia ter sido até que chegou a uma conclusão. A única pessoa de que ninguém suspeitava. O motivo para Joshua estar tão perturbado. A pessoa em que todos confiavam. A pessoa que podia ter alterado todas as provas: Mellie.
Na sala onde estava, Joshua ouviu a confusão, dirigiu-se à grande sala e gritou. Gritou como se não houvesse amanhã.
Todos o contemplaram fixamente.
─ A verdadeira culpada não é Nicole. Quem matou o meu irmão foi a pessoa que eu achava que mais me amava. E essa pessoa foi….
─ Mellie. – Disse Nicole, terminando a frase de Joshua.
Fréderique apenas disse, sem a mirar defronte:
─ Porquê?
─ Marc era uma excelente pessoa. Mas se ele e a minha irmã se casassem, quando tivessem um filho, a criança seria infeliz para sempre. Nunca conseguiria viver uma vida normal. Teria de passar os seus dias num laboratório escuro, tal como Marc e Joshua passaram. Ninguém merecia isso. Quando descobri que o “dom” existia, já o vosso pai tinha morrido. E não precisou de ser assassinado. Ele matou-se, pois possuir tal responsabilidade não beneficia ninguém. O teu pai – disse virando-se para Joshua - pensou que se se matasse o “dom” desapareceria para sempre e nenhum de vocês teria de sofrer o que ele havia sofrido.
Joshua estava naquele momento a pensar que seu pai se tinha matado por ele e por Marc. E isso era mais doloroso do que tudo o resto.
─ Leva-a para longe de mim. – Disse Joshua a Jean.
Após soltar Nicole, prendeu Mellie e saiu juntamente com Fréderique.
Naquele momento, MacLarens não conseguia pensar em nada exceto no seu pai e no seu irmão. Duas pessoas que fizeram tanto por ele a que ele nunca teve tempo de agradecer por tudo. Porque ao tempo só se dá valor quando se nota a sua falta.
Vendo-o assim, Nicole aproximou-se dele e abraçou-o com todo o seu amor.
  Passados seis meses, Joshua e Nicole casaram-se na cerimónia mais bela das suas vidas. Além disso, mudaram-se para o centro de Paris e adotaram Mitch.
  Dois anos depois, a próxima possuidora do “dom” nasceu e o seu nome era Sophie.
  Nesse ano, Joshua abriu uma loja de relógios e Nicole começou a trabalhar na AFCC de Paris.
  Margaret e Francis casaram-se finalmente cinco anos depois da morte de Marc e uns meses depois tiveram gémeos: Marc e Francis Jr.

  Por fim, tudo na vida de Joshua corria bem e assim permaneceu até ao dia da sua morte. E nesse dia, Sophie recebeu o “dom” e ajudou a resolver muitos casos no mundo, sendo hoje conhecida como Sta. Sophie. E depois dela, o “dom” continuou a passar de geração em geração até ao dia em que o mundo não necessitou mais do “dom”, pois aí todos os problemas e preocupações acabaram e tudo devido à coragem e bravura de Joshua MacLarens.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014





Capítulo VI

   Doze dias passados e o ambiente na casa estava igual. Mitchell não referia Joshua e os outros também não falavam dele à sua frente. Mellie e Nicole continuavam sem entender o que se passava naquela casa. Era como se todos tivessem esquecido Joshua, à exceção delas as duas. Até Lasone, quando os ia visitar, não falava de MacLarens. Mas mesmo assim, as duas mulheres não conseguiam parar de pensar nele.
  Até que, no décimo terceiro dia, algo aconteceu. Enquanto todos almoçavam, ouviram-se berros. Seguiram o barulho até alcançarem de onde vinha. Quando chegaram à sala escura, viram Joshua a um canto, acordado e mais pálido do que nunca.
  ─ Joshua, o que aconteceu? – Perguntou Mellie, abraçando-o.
  O homem não respondeu. Apenas virou as costas para Mellie. Algo de mal tinha acontecido e todos naquela casa sabiam disso. Naquele momento, Fréderique estava a mexer nos seus muitos computadores. Ele tinha de encontrar algo para explicar o porquê de MacLarens ter acordado daquela maneira. Até que finalmente, Lasone percebeu que a resposta não estaria nos ecrãs dispostos à sua frente, mas sim no cérebro de Joshua. Ele tinha descoberto o assassino de seu irmão.
  Após esta conclusão, Lasone aproximou-se de MacLarens e expulsou todos os outros na pequena sala apenas com um grito. .
  ─ Joshua ─ Sussurrou ─ o senhor descobriu o causador de todos os problemas?
  Joshua permaneceu calado. Não conseguia falar, nem que fosse apenas uma palavra.
  Lasone estava pensativo. Sabia que MacLarens queria falar, mas também sabia que ele não iria esconder o nome do verdadeiro assassino de todos.              
Repentinamente, Fréderique teve uma ideia. Saiu do laboratório e dez minutos depois voltou, trazendo na mão folhas e canetas.
─ Escreva aqui o nome da pessoa. Assim será mais fácil para ambos. Joshua pegou na caneta e começou a desenhar. Passado um minuto devolveu a folha a Fréderique.
Como a letra estava tremida, Fréderique demorou tempo a examinar e a perceber que aquilo não era uma palavra. Era o desenho de uma mulher. Saiu do laboratório e dirigiu-se à sala. Tinha de falar com toda a gente que ali se encontrava.
─ Para Joshua estar assim tão perturbado, suponho que seja alguém que ele conheça bem. Todas as pessoas que Joshua conhecia bem estão neste preciso momento nesta casa. – Explicou Lasone.
Todos ficaram espantados e começaram a falar desordenadamente. Alguma das pessoas com quem todos eles tinham estado nos últimos tempos era um assassino.
─ Todos os rapazes e homens desta casa saiam imediatamente. Incluindo seguranças e crianças. Hoje só quero falar com as mulheres. – Disse com um tom sério.
Todos obedeceram sem hesitar, pois apesar do seu tamanho, Fréderique inspirava respeito quando falava.              
─ Uma de vocês matou Marc e ameaçou Joshua. - Disse para as três mulheres na sala: Margaret, Nicole e Mellie. Estas olhavam admiradas umas para as outras, quase que em choque. – Quero falar individualmente com cada uma de vocês.
Lasone movimentou-se para uma pequena sala e chamou consigo Margaret.
─ Margaret, você e Marc tinham uma relação das mais belas que vi na minha longa vida. A senhora foi quem mais afetada ficou com a sua morte. E, por isso, estar a fazer-lhe estas perguntas vai custar-me mais do que parece, mas mesmo assim tenho de as fazer.
─ Eu prefiro que faça o procedimento correto. Não quero que haja nenhum tipo de provas contra mim. – Disse, deixando escorrer uma lágrima pela cara.
─ Onde esteve no dia da morte de Marc?
─ Já me fizeram esta pergunta várias vezes desde que Marc morreu e eu hei de sempre responder o mesmo: tive numa viagem de trabalho. E como isto não me retira da lista de suspeitos, não sei o que lhe posso dizer mais.
─ Vá-se embora. Acompanhe os rapazes. Eu sei que a Margaret não seria capaz de matar ninguém, principalmente alguém que ama.

Margaret sentiu-se melhor que nunca. Agora a sua única preocupação era se Lasone culpasse a sua irmã. Mas ela sabia que isso nunca aconteceria, pois Mellie sempre fora uma grande pessoa e nunca mataria ninguém. Mesmo assim, Margaret sentia-se agora mais nervosa.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014



Capítulo XV

(continuação)

Quando já toda a gente estava reunida, Lasone começou a explicar.
─ A única maneira de fazer com que Joshua tenha visões sem esperarmos é induzi-lo num coma. E, obviamente, não está provado que seja seguro ou que funcione. Se o senhor não quiser aceitar, todos os que aqui estamos compreenderemos.
─ Eu não sei. E se isso me matar? O “dom” desaparece do mundo para sempre. Tenho de pensar.
Dito isso, retirou-se para o quarto.
Durante a explicação de Lasone, Mellie tinha estado pensativa. Não queria que Joshua soubesse, mas ela tinha tanto medo como ele. Se algo de mau acontecesse, além do “dom” acabar, perderia a pessoa que mais amava. Quando o namorado abandonou a sala para refletir sobre o assunto, seguiu-o e disse:
─ Não quero que faças isso! Se tu morreres, além do “dom” acabar, tu desapareces para sempre! Tu és mais importante que um simples “dom”!
─ A minha vida não salva outras, mas o “dom” pode salvar! ─ Exclamou MacLarens, tentando não chorar.
─ Não digas essas coisas! Tu és muito mais importante para mim que o “dom” e não quero que te aconteça o que aconteceu ao Marc!
Ficaram a discutir até que, na conversa, adormeceram numa longa noite.
No dia seguinte, mal o sol nasceu, Joshua aproximou-se de Lasone e disse, seriamente:
─ Eu aceito.
Nesse dia, não falou com mais ninguém nem saiu do seu quarto. Estava quase como que arrependido da sua decisão. Por um lado, queria ajudar a descobrir o assassino mas, por outro, temia pela própria vida.
À noite, após acabar o seu turno, Nicole foi conversar com o jovem. Bateu à porta e, após não obter resposta, entrou. MacLarens estava na sua secretária, a mexer nas peças dum relógio. Após aquela situação toda, a única coisa que ainda tinha em comum com a sua antiga vida era a sua paixão pelos relógios, pois estes sãos os únicos que podem parar o tempo.
─ Joshua, posso falar contigo? ─ Perguntou a mulher.
─ Claro – disse, rodopiando a cadeira ─ sobre o que quer conversar?
─ Reparei que não disse uma única palavra e fiquei preocupada. Eu entendo o seu receio em pôr-se em coma, mas também sei que é como uma obrigação para si, por isso eu percebo. Por essa razão, estarei sempre disponível para conversar.
─ Muito obrigado, Nicole! Pela sua maneira de falar, até parece que já passou por uma situação parecida.
De repente, um silêncio estranho encheu a sala. Assim permaneceu até que chegou à conclusão que a agente tinha algo a esconder.
─ O que é que não me está a contar? ─ Inquiriu Joshua.
─ Eu não conheci só Marc. Também conheci o seu pai. Este disse-me que o “dom” já tinha pertencido ao meu tetra-avô, o familiar mais próximo que temos em comum ─ explicou Nicole, assustada com a possível reação de Joshua.
─ Isso quer dizer que se o “dom” tivesse passado para o seu trisavô, em vez de ter passado para o meu, era você a possessora do dom?
─ Temo que sim.
Nessa noite, Joshua esteve a pensar em tudo o que Nicole lhe dissera. Logo de manhã, Lasone chamou-o para lhe induzir o coma.
Assim que o fez, Joshua começou com os sonhos. Não conseguiu descobrir muito no início mas, ao longo do tempo, começaram a ser mais explícitos.
Enquanto MacLarens sonhava, a casa foi acordando. A primeira pessoa a fazê-lo foi Mellie. Dirigiu-se para o quarto de Joshua para o acordar, mas este não estava lá. Gritou pela casa toda, até que Fréderique lhe contou o acontecido.
A cientista começou a chorar. Os seus olhos verdes brilhavam agora mais do que nunca. Passados alguns minutos, Nicole apareceu e seguiu o choro, até encontrar Mellie deitada na cama de Joshua.
Abraçou-a e tentou animá-la, mas em efeito. Depois, contou-lhe exatamente o que havia contado a MacLarens na noite anterior.
─ Então, se não fosse Joshua a ter o “dom”, serias tu? ─ Perguntou Mellie, confusa.
─ Sim, provavelmente. Mas talvez na minha família o “dom” já tivesse sido destruído.
─ Por que dizes isso?
─ Porque, na minha família, não precisariam do “dom” para serem assassinados. Sempre foram polícias e os polícias não duram para sempre. Mas eu também não gostaria de possuir o “dom” ─ afirmou Nicole.
─ Mas por quê?
─ Porque ter o “dom” significa ter um nível de responsabilidade a que eu não estou disposta a chegar. A Mellie gostava de o possuir?
─ Sim, adorava. Ter o “dom” significa poder mudar o futuro e, consequentemente, poder mudar o mundo. Além disso, significa poder oferecer uma vida quase perfeita a todos, sem ninguém precisar de se esforçar.
A agente ficou espantada com a resposta de Mellie, mas não teve tempo de responder pois, nesse momento, Mitch entrou no quarto, ainda meio a dormir.
─ O que se passa? ─ Disse, bocejando. ─ Ouvi choro aqui e fiquei preocupado.
─ Não se passa nada ─ afirmou Mellie, tentando esconder as lágrimas.
─ Sabes que eu não acredito. Contem-me o que aconteceu! Eu já não sou nenhuma criança para me esconderem coisas importantes.
─ O Joshua entrou em coma de madrugada. Agora, só resta esperar ─ informou Nicole.
Após Nicole lhe ter dado esta informação, Mitch parou uns segundos. Quando recomeçou a falar, não evidenciou Joshua na conversa. Não valia a pena ficar triste antecipadamente.
Enquanto a criança falava, Mellie foi parando de chorar, limpando as lágrimas e conversando. Por muito que tentasse, não conseguia perceber como Mitch podia estar feliz, estando Joshua em coma. Mesmo assim, não voltou a tocar no assunto.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


        ARREFECIMENTO GLOBAL?

      AFINAL, DEVEREMOS IMPORTAR CAMELOS OU FOCAS E PINGUINS?



Durante as últimas dezenas de anos assistimos à mobilização da opinião pública mundial para a luta contra o aquecimento global do planeta provocado pela acumulação na atmosfera de gases produzidos pela laboração industrial e também pela produção pecuária. Esses gases são o vapor de água, o anidrido carbónico, o metano, o óxido nitroso e os clorofluorocarbonos. Retêm parte da irradiação infravermelha emitida pela superfície da terra e devolvem-na à origem, mantendo o planeta aquecido e permitindo a existência da vida. 
Será o vapor de água que tem maior importância neste processo, mas a sua emissão depende essencialmente de causas naturais. No caso do metano, a criação intensiva de animais terá apenas substituído as emissões provenientes da fauna selvagem.


O que é bom mantido em proporções naturais pode tornar-se catastrófico se aumentar de forma desmedida. Em 1988, a ONU e a Organização Meteorológica Mundial criaram o IPCC (Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas). O IPCC afirma que o nosso planeta aqueceu no decurso dos últimos cinquenta anos e que esse aquecimento é provavelmente devido ao efeito do aumento dos gases de estufa. O consequente derretimento das calotas de gelo nos polos tenderá a fazer subir o nível médio das águas do mar, ameaçando inúmeras cidades ribeirinhas em todo o mundo. Têm-se realizado sucessivas conferências internacionais para debater o assunto e procurar responsabilizar as nações pela sua quota-parte de responsabilidade na contaminação atmosférica. Esta questão serve de bandeira a numerosas organizações ecologistas.



É facto que a revolução industrial, iniciada há perto de dois séculos, tornou mais espessa a camada de gases atmosféricos. O aquecimento exagerado das regiões tropicais e subtropicais poderá estar a contribuir para a expansão dos desertos, com a consequente redução das áreas de cultivo e de criação de gado. Por outro lado, têm-se verificado nos últimos fenómenos meteorológicos extremos. Ocorrem secas em várias regiões do globo, enquanto outras são afligidas pelas inundações. Os furacões começam a atingir zonas em que dantes eram desconhecidos.



No entanto, a meteorologia tem-se revelado mais volúvel que muitas mulheres e será bom lembrar que o planeta assistiu já a várias glaciações.
Semanas atrás, as televisões ocuparam-se da tentativa de salvamento de uma expedição ao Polo Sul, tentada por um navio quebra-gelos chinês que acabou por ficar também retido no gelo. Foi testemunhado, na altura, um incremento notável nas áreas congeladas do Árctico.  


   Agora é a Time que refere um aumento de 60% da área oceânica coberta de gelo, no decurso do último ano. Será que se trata de mais uma das variações em que a meteorologia é fértil, ou teremos outra glaciação à porta?


Quem terá razão? Os que nos aconselham a importar camelos ou os que sugerem que nos habituemos ao gosto da carne de foca?

Notas: O pinguim é da Time. As fotografias foram retiradas da Internet.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

ASSASSÍNIO EM NOTRE DAME

Tardou algum tempo, mas a Leonor levou até ao fim a sua pequena novela policial. O «decaedela» congratula-se com o facto e retoma a publicação.


Capítulo XV


As horas passaram e Nicole e Joshua continuavam à espera de notícias dos outros agentes. Ouviu-se bater à porta. Lá estavam eles, mas com má cara.
─ O que se passa? ─ Inquiriu MacLarens, preocupado.
─ De todas as pessoas a quem fizemos questões hoje, todas têm testemunhas fiáveis para os seus álibis. Além disso, nenhuma delas pareceu ter um motivo ─ esclareceu Francis, com um ar desiludido.
─ Vejamos pelo lado positivo: pelo menos, tirámos pessoas da lista. Estamos a diminuí-la ─ disse a agente, tentando animá-lo.
─ Mas se continuarmos com esse ritmo, nunca mais descobriremos o assassino ou, quando o fizermos poderá ser tarde demais – disse Francis.
─ Tens razão. Temos de pensar noutro método menos lento. O senhor tem alguma coisa que outra pessoa possa querer? ─ Inquiriu Nicole, virando-se para Joshua.
─ A única coisa que eu e o Marc temos em comum que alguém pudesse querer é o dom. Contudo, logo na primeira ameaça dizia ”para bem do mundo, entreguem-no…” Por isso, eu acho que quem matou o meu irmão quer eliminar do mundo o dom e só poderá fazê-lo matando-me também ─ explicou MacLarens tentando dar sentido às palavras.
─ Pode ter razão, mas por que quererá alguém destruir esse dom? Tem de haver uma explicação lógica.
─ Ou então não. Nem tudo tem uma explicação. Por exemplo, por que é que Joshua, Marc e todas as suas gerações passadas têm esse dom e o resto do mundo não? Isso não tem justificação possível.
─ Tens razão, Francis. Mas, mesmo assim, ninguém mata sem razão ─ explicou Nicole.
Durante estes minutos, Sebastien tinha permanecido calado, a pensar numa explicação, até que disse:
─ Consigo lembrar-me de três possíveis razões. Primeira: dizer que cabe a Deu decidir quem é alvo e quem morre. Segunda: ser descendente dos mesmos antepassados, mas não ser irmão mais velho. Terceira: ser pago por alguém para fazer estes serviços. Para nós é melhor que não seja a terceira opção e sim a primeira ou a segunda. É sempre difícil descobrir espiões, pois podem ser pessoas perto da vítima que estejam a dever favores ou a precisar de dinheiro.
─ Parecem-me boas razões. Além disso, facilitam a busca. Para a primeira, descobrimos as pessoas muito religiosas e os padres que ambos conheciam. Para a segunda, verificamos a linhagem de sangue dos MacLarens ainda vivos. A terceira hipótese é mais complicada ─ concluiu Francis.
Nos dias seguintes, tudo correu como planeado. Lasone veio verificar os agentes e ficou bastante satisfeito com a conquista de Joshua. A lista de suspeitos reduziu-se consideravelmente, não pareceu mais nenhuma ameaça e Joshua teve uma visão que ajudou no caso.
─ Joshua, já reduzimos a lista o mais que pudemos. Agora, precisamos da sua ajuda. Como é que costuma ter visões? ─ Inquiriu Francis.
─ Eu não costumo prever quando as tenho, mas são sempre durante o sono ─ respondeu MacLarens.
─ Acha que é possível e seguro fazermos com que as visões apareçam mais rápido? ─ Perguntou o agente.
─ Não sei, mas para me fazer acreditar nas visões, Fréderique pôs calmantes no meu chá.
─ Vou falar com Fréderique para ver se é seguro.
Dito isto, saiu da sala e fez um telefonema.
─ Fréderique, é Francis. Gostaria de saber se há alguma maneira de fazer Joshua ter visões manualmente. O caso está parado por falta de provas e precisamos que MacLarens nos ajude.
─ Há uma maneira, mas não sei se MacLarens aceitará. É um processo experimental que ainda não foi testado em ninguém. Vou para aí agora. Explico-vos melhor depois.
Dito isto, desligou a chamada.
Francis voltou à sala e contou tudo o que Fréderique Lasone tinha dito.
─ Como poderia eu não aceitar? Farei tudo o que puder para descobrir quem matou o meu irmão ─ disse MacLarens, um pouco irritado.
─ Não sei… Talvez por ser experimental. Lasone está a caminho para explicar tudo.
Passada pouco mais de hora e meia, Fréderique e os seus seguranças entraram, sem sequer tocarem à campainha.
─ Temos de falar ─ disse o homem baixo. ─ É importante estarem todos aqui para ouvirem. Chamam os restantes.



sábado, 21 de dezembro de 2013

            CARRERO BLANCO



Completaram-se ontem quarenta anos sobre a morte de Luís Carrero Blanco. 
No dia 20 de dezembro de 1973, Carrero Blanco, chefe do governo espanhol, foi vítima de um atentado bombista. Regressava da igreja de S. Francisco de Borja, onde assistira à missa, como era seu hábito, e voltava para casa, pela Calle Claudio Coello, quando a sua vida foi interrompida. A bomba estava colocada num túnel escavado sob a rua e tinha sido acionada a distância, no momento da passagem do automóvel. Com o almirante, morreram o inspetor da Polícia Bueno Fernandez e o motorista Pérez Mogena.


Carrero Blanco foi avisado da possibilidade de ocorrência de um atentado, mas não o levou suficientemente a sério e não se precaveu. Manteve os horários e os percursos habituais e recusou deslocar-se num veículo blindado.

                                 «Wilson»
A ETA designou este assassinato por «Operação Ogro». Um grupo de militantes, entre os quais se contavam Pedro Ignacio Pérez Beotegui, conhecido pelos pseudónimos de «Wilson» e «Txikia», alugou uma cave na rua e escavou um túnel onde foram colocados perto de 100 quilos do explosivo Goma-2. 


O rebentamento foi tão forte que fez subir a viatura subiu à altura dos telhados dos prédios vizinhos. 


Ocorreu um quarto de hora antes do início do julgamento de dez membros das Comissiones Obreras, um sindicato proibido na altura.


Vamos à história pessoal. Luís Carrero Blanco nasceu em 1904 em Santoña (Cantábria). Entrou cedo para a Escola Naval e participou na campanha de Marrocos, que teve lugar entre 1924 e 1926.
Quando a guerra civil rebentou, era Diretor da Escola Naval de Guerra, em Madrid. Refugiou-se, primeiro na embaixada mexicana e depois na francesa. Em junho de 1937, conseguiu passar para uma zona controlada pelos nacionalistas.
Findo o conflito, comandou navios de guerra e foi Chefe de Operações do Estado-Maior da Marinha. Alinhou pelos que defendiam a neutralidade de Espanha na II Grande Guerra.


Aproximou-se gradualmente de Francisco Franco. Foi Subsecretário da Presidência, Ministro da Presidência, Vice-presidente e Presidente do governo. Era um franquista com alguma abertura para o futuro. Opôs-se à Falange e promoveu a modernização do Estado espanhol. Apoiou o regresso do país à monarquia, abrindo o caminho de Juan Carlos para o trono.


 Era o delfim do caudilho, o homem de quem se esperava a continuação da Direita espanhola no Poder. Seria também um fiel da Opus Dei.


Até aqui, nada parece haver que justifique polémica. Fará parte da lógica do sistema uma organização separatista atentar contra os símbolos do Poder. Acontece porém que a Embaixada dos Estados Unidos da América do Norte em Madrid dista pouco mais de uma centena de metros da cave onde se abriu o túnel até ao meio da rua. Os etarras tiveram de fazer barulho para escavar. Terão procurado máscara sonora nos trabalhos de um escultor que trabalhava na vizinhança. Depois, houve que passar cabos elétricos pelo exterior dos prédios. Ainda não era o tempo das explosões telecomandadas. Nasceu um boato: as viaturas da embaixada americana habitualmente estacionadas na rua Claudio Coello não se encontravam lá naquele dia.
Pessoalmente, acho que os americanos não são suficientemente parvos para resolverem poupar meia dúzia de automóveis, correndo o risco de se verem envolvidos num magnicídio em terra alheia. A teoria conspirativa enriqueceu, porém, quando, em 1978, o único indivíduo que avistara o «homem da gabardina branca» que supostamente entregara aos etarras os horários e os percursos habituais do almirante Carrero Blanco no Hotel Mindanao, em Madrid, foi abatido por uma organização paramilitar.
Vêm, a seguir, as coincidências. O Secretário de Estado americano Henry Kissinger esteve reunido durante várias horas em Madrid com Carrero Blanco na véspera do atentado. Repito que os americanos não são estúpidos e não envolveriam a segunda figura política do país num assassinato.
Passados anos, porém, há sempre quem relacione outras coincidências. Por dever de ofício, Kissinger esteve em Roma pouco antes do rapto de Aldo Moro. Gianni Agnelli, o patrão da FIAT cognominado «rei de Itália» chegou a afirmar que os brigadistas eram os executores, mas que os mandantes viviam na Itália e nos Estados Unidos.
As ligações da extrema-direita à extrema-esquerda são reais, se não rotineiras, nos fabulários europeu e latino-americano. Segundo alguns, a Gladio e a CIA infiltraram muitas organizações revolucionárias europeias no pós-guerra. Depois, há sempre quem divulgue informações que, verdadeiras ou não, alimentam a confusão na mente do cidadão comum. Algum tempo antes da morte do almirante Carrero Blanco, foram entregues na base militar de Torrejon, em Madrid, dez minas antitanque provenientes de Fort Bliss, nos EUA, do tipo das usadas no Vietname. De que serviriam em Espanha? É fácil especular. Ninguém conhece o seu paradeiro. Teria alguma sido colocadas no túnel aberto pelos etarras na Calle Claudio Coello?

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