DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

                        LEON TRÓTSKI


Decidi publicar no decaedela as minhas reflexões sobre sete mortes violentas incluídas no romance O ASSASSINATO DE TRÓTSKI, que estou a ultimar. Uma parte delas foi esclarecida. Os contornos de outros permanecem mal definidos. Começo pela figura que deu o nome ao livro.
 Como este primeiro artigo é extenso, vou dividi-lo em duas partes. 

                                    I

       DA INFÂNCIA AO TRIUNFO 

   DA REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE

Lev Davidovich Bronshtein, que passou à História como Leon Trótski, foi assassinado em Coyacán, no México, a 21 de agosto de 1940. Ia nos sessenta anos e estava a escrever um livro sobre Joseph Stalin.
Trótski nasceu em novembro de 1979 na pequena povoação de Yanovka, situada atualmente em território ucraniano. Os pais tinham aproveitado o projeto de colonização da Crimeia para saírem da área de residência fixada aos judeus russos. Tornaram-se fazendeiros prósperos. Não eram religiosos. Em casa, falava-se russo e ucraniano e não iídiche.


Quando o miúdo fez nove anos, o pai mandou-o estudar para a cidade portuária de Odessa. Trotsky chegou a inscrever-se em Matemática na Universidade Nacional de Odessa, mas interessou-se cedo pela política. Envolveu-se na actividade revolucionária e aproximou-se do marxismo. Aos 17 anos ajudou a organizar em Nikolayev a União dos Trabalhadores do Sul da Rússia. Conheceu a prisão antes de completar 18 anos. Foi detido, juntamente com 200 membros da União, e esperou dois anos pelo julgamento. Aproveitou o tempo de cativeiro para estudar filosofia e, enquanto estava preso, casou com Alexandra Sokolovskaya, sua companheira das lutas políticas.


Foi condenado a quatro anos de exílio na região do Lago Baikal, na Sibéria. A esposa acompanhou-o. Foi na Sibéria que nasceram as duas filhas do casal, Zinaida e Nina.
Durante o degredo de Trótski, a divisão entre os sociais-democratas aprofundou-se. O jornal Iskra (faísca ou centelha em português), sediado em Londres, defendia a formação de um partido revolucionário bem organizado para derrubar o czarismo.
No verão de 1902, Trótski fugiu da Sibéria escondido numa carroça de feno e chegou a Irkutsk, onde os amigos lhe arranjaram um passaporte falso.
Até então, usara o seu nome verdadeiro. Adoptou nessa altura o pseudónimo de Trótski, curiosamente o apelido de um dos seus antigos carcereiros. Logo que pôde, mudou-se para Londres, onde conheceu Plekhanov, Martov e Lenine e se tornou colaborador do jornal Iskra. Por essa altura, eram já profundas as divergências entre Plekhanov e Lenine.
Foi em Londres que Lev Bronshtein encontrou Natalia Ivanovna Sedova, que viria a ser a sua segunda esposa. Divorciou-se de Alexandra, que escapara também da Sibéria com as filhas, mas manteve com ela, ao longo do tempo, um relacionamento cordial. Em 1935, durante as «grandes purgas» de Staline, Alexandra Sokolovskaya foi novamente presa e desterrada. Terá sido avistada pela última vez em 1938, num campo de trabalhos forçados, na Sibéria.
De Natália, Leon Trotsky teve dois filhos, Lev e Sergei. Deu-lhes o apelido de Sedov para tentar protegê-los da polícia czarista.
Os emigrados russos em Londres desenvolviam uma atividade política intensa e frequentemente conflituosa. Deu-se por essa altura a famosa cisão entre bolcheviques e mencheviques.


Trótski nem sempre esteve ao lado de Lenine. Entre 1904 e 1917 gostava de se considerar um «social-democrata sem facção». Esforçou-se, durante anos, por reconciliar as diversas tendência que divergiam no Partido. Ao mesmo tempo, desenvolveu a sua teoria da revolução permanente. Os choques com Lenine e com outros dirigentes russos foram inevitáveis. Vladimir Ilitch chegou a chamar-lhe «judas» e «canalha».



Em S. Petersburgo (então capital da Rússia), em janeiro de 1905, começou uma greve numa fábrica. As condições de vida dos operários russos eram muito más e o protesto alargou-se até englobar 140.000 trabalhadores. Uma marcha pacífica em direção ao Palácio de Inverno foi reprimida a tiro pela guarda do czar. Morreram mais de 1.000 manifestantes. A data ficou conhecida como Domingo Sangrento.
Trótski voltou secretamente à Rússia para apoiar os protestos contra o czar. Empenhou-se na ação política directa, agitando e organizando, mas pouco tempo depois viu-se obrigado a fugir para a Finlândia, onde prosseguiu a preparação da sua obra sobre a revolução permanente.
A agitação social continuava na Rússia. Em outubro, Trótski regressou a S. Petersburgo e empenhou-se no jornalismo revolucionário, sendo eleito pouco tempo depois para a direção do Soviete dos Trabalhadores da cidade. Após a prisão do primeiro presidente do Soviete, Leon Trótski foi escolhido para o substituir.


O Soviete foi cercado pelas tropas czaristas e os seus dirigentes foram presos. Em outubro de 1906, Trótski foi deportado para a Sibéria pela segunda vez na sua vida. Ia nos 27 anos. 
Evadiu-se durante o transporte e regressou a Londres. Fixou depois residência em Viena de Áustria, onde colaborou com o Partido Social Democrata Austríaco durante perto de sete anos. Foi em Viena que fundou o Pravda, um jornal escrito em russo e destinado aos trabalhadores do seu país.
Bolcheviques e mencheviques continuavam a não se entender. Trótski questionou várias vezes a atuação política de Lenine.
Em 1914, a I Grande Guerra pôs em confronto direto a Rússia e o Império Austro-Húngaro. Leon Trótski teve de fugir para a Suíça, para não ser detido como emigrante russo.
Lenine, Trótski e Martov assumiram posições pacifistas face ao conflito armado, enquanto Plekhanov e outros sociais-democratas apoiavam, de certo modo, o esforço de guerra do governo russo. Lenine achava conveniente a derrota russa na guerra. Por outro lado, advogava a rotura com a Segunda Internacional.


Trótski participou na conferência pacifista de Zimmerwald e propôs um compromisso entre os, que como Martov, queriam permanecer na Segunda Internacional e os que, como Lenine, pretendiam a formação de uma Terceira Internacional. A conferência adotou a proposta de Trótski.
O governo francês não apreciou a militância pacifista de Leon Trótski e deportou-o para Espanha. Os espanhóis também o não quiseram e despacharam-no para os Estados Unidos da América. Trótski viveu em Nova Yorque até rebentar a revolução de fevereiro de 1915 contra o czar Nicolau II. Ganhava a vida escrevendo artigos para jornais, em russo e em iídiche.
Tentou seguir para a Rússia, mas o navio em que viajava foi retido pelos britânicos em Halifax. Pôde continuar a viagem após intervenção do ministro russo dos negócios estrangeiros.
Na Pátria, aproximou-se das posições bolcheviques. Destacando-se de novo pela sua capacidade de organização e pelo seu talento para a agitação, foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Em outubro de 1917, chefiou o Comité Militar Revolucionário que assaltou o Palácio de Inverno, assegurando o triunfo da revolução russa.
Com os bolcheviques no Poder, tornou-se um dos membros iniciais do Politburo. Foi nomeado Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros, com a missão de negociar o armistício como a Alemanha. As negociações não correram bem. O Exército russo, já de si frágil, encontrava-se abalado pela Revolução. Um ataque alemão bem-sucedido obrigou o governo soviético a aceitar o tratado de Brest-Litovski, em março de 1918.
Trótski demitiu-se do cargo, depois de ter sido obrigado a assinar aquele acordo, que prejudicava gravemente os interesses russos.
Viviam-se tempos duros. O recém-formado Exército Vermelho era pequeno, indisciplinado e mal comandado. Alguns líderes bolcheviques sonhavam com um exército constituído por voluntários que elegeriam os próprios oficiais. Trótski considerava que o exército devia ser suficientemente numeroso e que, se os voluntários não chegassem, se teria de recorrer ao recrutamento compulsivo. Sabia também que os oficiais não se improvisavam e que os únicos disponíveis na Rússia haviam servido o czar.



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

      O ASSASSINATO DE TROTSKI



Vou ultimando a revisão de “A guerra da Guiné”  e comecei a escrever um livro novo. Vai chamar-se “O assassinato de Trótski”. Trata de um assassino profissional que perde o equilíbrio psíquico e deixa de ser fiável.
Até à data, escrevi quinze livros, onze dos quais estão publicados. Algum dia (ou amanhã, ou daqui a muito tempo) ficará um livro por acabar. Não queria que fosse este -  nunca se quer… Deposito grande esperança na interrelação dos personagens que já criei.
Enquanto espera que lhe dêem trabalho, Antero, o matador, entretém-se a espiolhar crimes antigos, reais ou supostos. Trótski, Aldo Moro, o Papa João Paulo I, Carrero Blanco, Eduardo Mondlane, Sá Carneiro, Anna Politovskaya e Alexander Litvinenko são lembrados nestas páginas e vêem os seus casos analisados. 
Publiquei o primeiro livro em 2003. Têm saído, deste então com uma periodicidade mais ou menos anual. A minha escrita não é popular nem se dirige aos apreciadores das telenovelas, mas vai havendo quem a leia. A crise que o nosso país atravessa teve impacto no mercado de bens não essenciais, como a literatura de ficção. Encerraram editoras e distribuidoras, mas as crises não duram sempre. Conto ver nas livrarias, durante o ano de 2014, pelo menos dois novos títulos. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013


                   JERÓNIMO BOSH 

     PINTOR DO LADO ESCURO DA ALMA                    


                                  II       

             O JARDIM DAS DELÍCIAS


     Jerónimo Bosh pintou magistralmente o medo e o grotesco. Recorreu a símbolos ambíguos do Mal e do Bem para descrever a loucura do mundo que escorregava (tal como escorrega agora e quase me atrevo a dizer que escorregou sempre) para a perdição moral. Julgo que há mais vagas nos hotéis do Céu do que na concorrência.


      Hieronymus retratou como ninguém o vício e o pecado. Foi muito melhor a pintar demónios do que a desenhar anjos.
      Pouco se sabe da sua vida e não há provas de que tenha trabalhado fora da sua terra natal, Hertogenbosh. Era filho e neto de pintores. Terá aprendido no atelier familiar.


    A estranheza dos seus desenhos levantou especulações.  Ao tempo, existiam variadas seitas que se dedicavam às ciências ocultas. Jeroen poderá ter recolhido delas alguns conhecimentos sobre os sonhos e a alquimia. Terá chegado a ser perseguido pela Inquisição.


    O Jardim das Delícias Terrenas está exposto no Museu do Prado, em Madrid. Julga-se que foi pintado entre 1503 e 1504.


   Antes de se abrir o tríptico, vêm-se as portadas, que representam o mundo no terceiro dia da criação. A terra está dentro de uma esfera de vidro, simbolizando provavelmente a sua fragilidade. Os animais ainda não tinham sido criados.
   Aberto o quadro, figuram de um lado o Paraíso e, do outro, o Inferno. A meio, fica a Vida. No painel central, o homem deixa-se levar pelos prazeres dos sentidos. Pessoalmente, não vejo mal nisso... 


     Comecemos pelo centro. O painel está organizado em três estratos, ou andares. No espaço superior, a meio, uma estrutura cilíndrica encimada por uma torre que se vai afilando, flutua num lago, ou assenta no seu fundo.

                           

   Tem no equador um estrado onde se vêem figuras humanas, enquanto outras se banham mais abaixo. Os homens e as mulheres representadas estão despidas. No campo vizinho, abundam árvores de fruto. Um círculo de pessoas sentadas no chão parece tentar comer um morango gigantesco. De cada lado há construções elevadas cujo significado me escapa. No céu, voam figuras fantásticas cavalgadas por humanos. Poderão representar a sedução do mal.


O estrato mediano é centrado pela fonte da juventude onde se refresca um grupo de mulheres. Há negras entre elas. Dificilmente Bosh terá visto muitas, no interior da Holanda do século XV. Os frutos são omnipresentes. 


À volta da fonte desfila um grupo numeroso de cavaleiros montados em animais fantásticos agrupados em quadrigas irregulares. 
Vêem-se grandes pássaros, que simbolizarão a lascívia. 


O andar inferior é ocupado por dezenas de figuras nuas. 


Trata-se muitas vezes de casais, mas alguns agrupamentos são mais complexos. Os observadores mal intencionados lêem neles cenas de luxúria. Segundo os escribas da Wikipedia, vê-se ali todo o tipo de relações carnais: heterossexuais, homossexuais, onanistas e até ligações entre animais e entre plantas.


As estruturas de vidro que aprisionam figuras nuas fazem lembrar os alambiques dos alquimistas.


Os pecadores de Bosh não mostram sinais de arrependimento. Entregam-se alegremente à perdição.
Alguns observadores atentos fizeram notar que ali não se dá ela passagem do tempo. Não se vêem velhos nem crianças. Ninguém trabalha. Comem-se os frutos que a terra dá espontaneamente.
O quadro foi comprado por Filipe II e esteve no dormitório do rei até à sua morte. Não sabemos com que é que o nosso monarca sonhava…


   No painel esquerdo está representado o Paraíso. Deus, figurado como Cristo, está de pé e apresenta a Adão a Eva acabadinha de criar e pronta para o pecado.

 
    Abundam os pássaros e há muitos animais africanos mais ou menos fantasiados. O centro do quadro volta a estar ocupado pela fonte da Vida, de que sai uma estrutura elevada cor-de-rosa que lembra um vaso de flores, ou mesmo uma guitarra. Há quem veja nela a flecha de uma catedral ou até um símbolo fálico... 
      Em vez dum Paraíso tranquilo em que os animais vivam na paz de Deus, vê-se um leão preparado para devorar um veado e um javali a perseguir uma figura estranha com duas pernas. Perto do tanque, um leopardo abocanha um lagarto e uma ave come uma rã.

                   

O painel da direita representa o Inferno. Há quem lhe chame O Inferno da Música, tantos são os instrumentos musicais apresentados.
Escrevi antes que, no meu entender, Bosh pinta melhor o Mal do que o Bem. Nenhuma das suas figuras sagradas  se aproxima do deslumbramento dos seus demónios e monstros.


É um painel sombrio que contrasta com os tons antecedentes. No estrato superior são representados o fogo e os tormentos.


O andar médio contem imagens de pesadelo.  É dominado pela figura do homem-árvore, que olha para o observador. Tem na cabeça um disco em que dançam pequenos demónios. Os braços são troncos de árvore e apoiam-se em barcaças. O peito é oco e dá abrigo a monstros.
A faca ligada às orelhas tem sido interpretada como um símbolo fálico.


O andar inferior é o da orquestra. Os instrumentos musicais são aparelhos de tortura. Em lugar do maestro está um demónio que devora condenados e vai defecando num poço negro. Em baixo, à direita, um homem é abraçado por uma porca com lenço de freira.


     Jerónimo Bosh foi um pintor singular. Ouçamos o que diz dele Frei José de Siguenza, o seu primeiro biógrafo: «a diferença entre a pintura de Bosh e a dos outros é que os demais procuram pintar o homem qual parece por fora; somente ele o ousa pintar como é por dentro».

       Fontes:
A Grande História da Arte – Renascimento e Maneirismo. Público, Porto, 2006.
Wikipedia.
Fotografias dos quadros: Internet.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

               JERÓNIMO BOSH

                                         


A descrença tem um preço e o positivismo paga-se caro. Pelo menos para alguns, o esforço de encarar o mundo e a vida de forma racionalista abre as portas ao gosto da fantasia.
Esta pequena introdução é um pretexto para falar de Jerónimo Bosh, um pintor que me fascina.
                                
Extração da pedra da loucura

Jeroen (Hieronymus) van Anken, nasceu na Holanda em 1450 e viveu 56 anos. Assinou alguns trabalhos como Bosh, abreviatura do nome da sua terra nata, Hertogenbosh. Os espanhóis chamam-lhe “El Bosco”.
Os seus quadros testemunham uma imaginação prodigiosa. Será o primeiro de todos os artistas fantásticos. Estranhamente, foi este visionário quem melhor representou a pintura renascentista na Flandres do início do século XVI.
A minha estranheza será fácil de entender quando se olha a sua pintura. O que chama primeiro a atenção do observador não é a aproximação do mestre às referências culturais da Antiguidade Clássica. O que salta à vista é a representação pictórica do pecado e do medo escondidos no fundo das almas dos seus contemporâneos.
                                
Navio dos loucos
                                                       
Existem perto de 40 quadros de Bosh dispersos por museus da Europa e dos Estados Unidos da América. O rei Filipe II de Espanha (o nosso Filipe I, primo de D. Sebastião) apreciava as suas obras e adquiriu algumas. Será essa a razão de pertencerem atualmente ao Museu do Prado alguns dos melhores trabalhos de Jeroen van Anken, incluindo «O Jardim das Delícias Terrenas».
O nosso museu das Janelas Verdes (Museu Nacional de Arte Antiga) tem o privilégio de acolher as «Tentações de Santo Antão», um dos quadros emblemáticos do pintor. O tríptico veio do antigo Palácio Real das Necessidades. Ninguém sabe como lá foi ter. Há quem diga que pertenceu ao humanista Damião de Góis.                              


O artista foi beber aos pesadelos próprios e alheios, à simbologia dos alquimistas e aos textos sagrados apocalípticos. Criou figuras complexas, originais e difíceis de entender. Produziu os seus melhores quadros à volta do ano 1500. Os profetas do fim do mundo e do anti-Cristo agarraram-se sempre aos números «redondos» do calendário. A Idade Média e os seus pavores ainda estavam próximos. Algumas das figuras que pintou, fantásticas e diabólicas, por vezes com vestes religiosas, refletem esses medos.
                           

Hoje vou falar das Tentações de Santo Antão. Nos próximos dias tratarei do «Jardim das Delícias» e das influências que o pintor holandês exerceu sobre colegas seus muito distanciados no tempo.
Santo Antão, um eremita egípcio do século III é considerado o fundador da vida monástica. Era muito popular na Idade Média, sendo considerado protetor contra o ergotismo, doença provocada pela cravagem do centeio. O santo é muitas vezes representado na companhia de um porco. Comer mais carne e menos pão diminuía a probabilidade de contrair a doença.
Antão distribuiu os seus bens pelos pobres e passou vinte anos a meditar no deserto, o que provocou a ira do diabo, que o tentou de todas as formas imagináveis.
Bosh retrata a seu modo as tentações a que o pobre santo foi exposto. Rodeou-o de monstros e demónios assustadores.


Conta Atanásio de Alexandria – e quem sou eu para duvidar das suas palavras? – que o diabo dispõe de mil maneiras para causar dano. «Aquela mesma noite ouviu-se um ruído tão grande que tremeu todo aquele lugar. Os muros da sua cela pareceram abrir-se, e entrou uma multidão de demónios; aparências de bestas selvagens e répteis, espetros de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, áspides, escorpiões e lobos enchiam o recinto».
O tríptico data provavelmente de 1505. Foi pintado em pleno Renascimento. Tanto esta obra como «O Jardim das Delícias» fazem a ponte, ou a transição, entre o imaginário medieval bem presente ainda na Europa e as influências renascentistas que iam ganhando terreno nas artes. 


As tentações começam no painel que fica à esquerda de quem olha. Em cima, o santo é arrastado aos ares pelos demónios. A meio, enfraquecido, é amparado por figuras piedosas. A parte mais interessante do painel está em baixo.



Há demónios que leem uma carta debaixo de uma ponte. Um  monstro patina no gelo para entregar outra. Bem gostava de saber o que diziam as missivas. Poderiam anunciar o fim dos nossos dias.


O painel da direita mostra uma mulher despida a tentar o santo. Antão desvia o olhar para o outro lado e lá estão outros seres maléficos a tentar conquistá-lo com comida e bebida.



 Ao alto, voa um peixe que transporta um casal.



No painel central vê-se um templo cilíndrico, em ruínas, com a figura de Cristo crucificado no seu interior. Ao fundo, arde uma aldeia.



As partes média e inferior do quadro são ocupadas por figuras diabólicas grotescas, em parte humanas e em parte compostas por animais, plantas ou objetos. 


É o painel central que transmite a mensagem essencial da obra. Estamos rodeados pelo mal.


Só com a renúncia às coisas do mundo e com a ajuda de Cristo se pode alcançar a salvação.




quinta-feira, 31 de outubro de 2013


            O PRÉMIO NOBEL DA PAZ PARA EDWARD SNOWDEN?

                         III

         BIG BROTHER IS WATCHING YOU



O caso Snowden trouxe de novo às primeiras páginas dos jornais uma questão inquietante e sem solução à vista: o desenvolvimento das tecnologias fez da privacidade uma miragem.



A capacidade das grandes organizações (incluindo os governos) recolherem e armazenarem informações sobre os passos do cidadão comum e sobre as atividades políticas e industriais de amigos e inimigos encontra apenas limites na percentagem de ficheiros que os analistas que os servem são capazes de tratar. A capacidade de guardar dados é quase ilimitada e tem custos baixos. O que encarece o processo são os salários dos técnicos.


O Google anota todas as nossas pesquisas. Creio que as não desgrava. Este e outros motores de busca permitem identificar os interesses, a capacidade económica, e até os vícios secretos de centenas de milhões de cidadãos nos quatro cantos do mundo. As informações disponibilizadas no Facebook não são fáceis de eliminar. É relativamente simples aceder ao nosso correio eletrónico. As empresas de telemóveis podem conservar os registos das nossas conversas e os telemóveis modernos permitem que se saiba onde estamos.


Sabem-se os programas de televisão que preferimos. As redes sociais põem à mostra muito do que antes apenas os nossos vizinhos conheciam. A própria noção de vizinhança tem hoje outro significado. Os percursos dos nossos cartões de crédito são fáceis de traçar. As grandes superfícies conservam os registos das nossas compras. Pela análise das faturas dos restaurantes podem conhecer-se as nossas preferências alimentares. Os hotéis ficam com o registo das nossas dormidas. O sistema GPS não serve apenas para nos orientarmos. Permite também que sejamos localizados. Nas filmagens de acontecimentos desportivos ou sociais, como os comícios dos partidos políticos, é fácil identificar tanto os participantes como a assistência.


Os satélites americanos têm capacidade para visualizar até a marca de cigarros utilizada pelos fumadores. Li algures (creio que foi na “Time”) que pela análise com raios infravermelhos do fumo das chaminés de qualquer habitação se pode detetar o consumo de “cannabis”.
Há pouco tempo, um conhecido advogado e político português foi acusado de assassinato pelas autoridades judiciais brasileiras. Em causa, estaria o registo de passagens do automóvel que alugou pelas portagens de estradas que ele negaria ter percorrido nas datas indicadas
As descrições das nossas doenças vão sendo partilhados por diversos hospitais e centros de saúde. Em breve, o conhecimento dos nossos genomas permitirá às Companhias de Seguros diferenciar os prémios de acordo com as durações previstas das nossas vidas.
Os cidadãos que, como eu, se sentem ciosos da sua privacidade deverão ir criando, aqui e ali, linhas de defesa. É conveniente considerar que as informações que disponibilizamos no correio eletrónico, nas redes sociais e nas conversas telefónicas deixam imediatamente de ser privadas. 
Existe legislação que visa proteger os dados individuais. Acompanha, com certa dificuldade, o desenvolvimento vertiginoso da tecnologia. As fronteiras entre o que é permitido e o que deve ser proibido não são estáticas: vão-se modificando com o tempo.



 Em tempos antigos, a necessidade de impor normas de comportamento social redundou no estabelecimento de padrões éticos. Deixava de ser preciso um polícia para para nos fazer cumprir a lei: a nossa consciência encarregava-se disso. É possível que esse procedimento se volte a repetir para a privacidade. Poderá, contudo, demorar séculos. Além disso, onde há moral, há sempre pecadores.


Sabe-se quase tudo o fazemos e até o que pensamos. A consolação que nos resta provém da estatística: as vidas comuns não têm interesse para os poderosos do mundo. Contamos apenas como números, como percentagem dos padrões de consumo. Ninguém quer saber se vais à Internet espreitar fotografias de raparigas despidas.


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

                

              O PRÉMIO NOBEL DA PAZ PARA EDWARD SNOWDEN?                            

                           II                   

       BRADLEY MANNING E JULIAN ASSANGE 



Alfred Nobel, o inventor da dinamite, deixou um legado destinado a premiar anualmente as figuras do mundo que mais se distinguissem em áreas específicas da atividade humana. Ao tempo, a Suécia e a Noruega formavam um único estado. A união desfez-se em 1905 e os prémios de Física, Química, Fisiologia ou Medicina, e Literatura passaram entregues em Estocolmo enquanto o prémio Nobel da Paz é anunciado em Oslo.
Nobel pretendia que o Prémio da Paz com o seu nome distinguisse a personalidade que mais tivesse feito pela fraternidade entre as nações, pela redução dos esforços de guerra e pela promoção de tratados de paz. Os júris de Oslo têm interpretado a seu modo as intenções do doador. No decurso das últimas décadas, têm sido atribuídos galardões a defensores dos direitos cívicos em países diversos, com um denominador comum: nenhum dos escolhidos hostilizou o império americano. Segundo os critérios em uso, Assange, Manning e Snowden estão bem longe de ser premiados.


Edward Bradley Manning foi colocado no Iraque em 2009, como analista do serviço de informações. Tinha acesso a ficheiros classificados. Acabou por comunicar à WikiLeaks uma grande quantidade de informação confidencial que foi sendo publicada entre abril e novembro de 2010, tanto pela própria organização como pelos jornais que colaboram com ela. Manning descarregou perto de 500.000 ficheiros secretos. Guardou o material em CD, antes de o copiar para o seu computador portátil. Passou-o em seguida para o cartão de memória da sua máquina de vídeo, para o poder transportar quando se deslocou aos Estados Unidos.
 

A mais chocante das inconfidências de Bradley Manning, que optou mais tarde por mudar de sexo e adotou o nome de Chelsea Elisabeth Manning, terá sido a gravação de vídeo a que o militar chamou “Assassinato colateral”. Mostra um helicóptero americano a atirar sobre um grupo de homens, em Bagdad. Um deles era jornalista. Outros dois eram empregados da agência Reuters. Empunhavam câmaras que o piloto tomou por granadas antitanque. O helicóptero abriu também fogo sobre uma carrinha que tinha parado para prestar ajuda aos feridos. Foram atingidas duas crianças que se encontravam no seu interior. O pai delas morreu.


A denúncia dos crimes de guerra levados a cabo pelas grandes potências desperta as opiniões públicas mundiais, que agem como contrapoderes. Um dos biógrafos de Manning sugere ainda que a divulgação das mensagens trocadas entre diplomatas, acusando os governos de corrupção, contribuiu para desencadear a chamada “Primavera Árabe”, que teve início em dezembro de 2010. Há quem considere que as informações publicadas por Manning ajudaram a entender melhor a natureza “assimétrica” das guerras do século XXI.


Um editorial do Washington Post questionou a facilidade com que um militar não graduado, com sinais de instabilidade emocional, teve acesso a segredos que deveriam ser dos mais bem guardados do mundo e pôde divulgá-los sem grandes entraves.
A WikiLeaks foi criada em 2006. Assentava na Internet e seguia o modelo da Wikipedia. Os colaboradores eram voluntários e as mensagens não eram assinadas. Destinava-se a publicar segredos de estado fornecidos por denunciantes anónimos. Julian Assange, nascido na Austrália e possuidor da cidadania sueca, chamou a si a tarefa de a editar e tornou-se o seu porta-voz mais conhecido. Iniciou na Internet uma cruzada contra a falta de direito e de moral dos serviços secretos de diversos governos. Os EUA foram os mais atingidos.


O jornalismo de intervenção de Julian Assange mereceu diversos galardões internacionais e granjeou-lhe inimigos poderosos. O seu trabalho sobre execuções extrajudiciais no Quénia foi premiado com o Amnesty International Media Award em 2009. Assange publicou também artigos controversos sobre a deposição de resíduos tóxicos em África e sobre as condições de detenção na prisão de Guantânamo.
A WikiLeaks estabeleceu parcerias informais com os jornais “El País”, “Le Monde”, “Der Spiegel”, “The Guardian” e “The New York Times”. Muitos segredos da administração americana foram divulgados. Tornaram-se conhecidos factos respeitantes às guerras do Afeganistão e do Iraque que o Pentágono gostaria de manter afastados dos olhos e dos ouvidos do mundo.
Assange continuou a ganhar prémios internacionais e viu a sua atividade jornalística ser reconhecida por jornais e revistas de prestígio como “The Economist”, em 2008, “Le Monde”, em 2010 e até a americana “Time”, em 2011.
Os seus inimigos atiçaram-lhe os cães às pernas. Julian Assange foi acusado de abuso sexual na Suécia. Perdeu a dupla cidadania, enquanto a Interpol o incluía na lista dos criminosos mais procurados. O Tribunal superior do Reino Unido pronunciou-se a favor da sua extradição para a Suécia, país tem com os Estados Unidos acordos que simplificam as extradições.  Se for julgado na América, Assange arrisca-se à prisão perpétua e mesmo à pena de morte.
Julian Assange encontrou maneira de entrar na embaixada do Equador em Londres. Pediu e obteve asilo político. O governo britânico ameaçou invadir as instalações equatorianas, à margem do direito internacional. Uma atitude irrefletida (e de legalidade mais do que duvidosa) seria estranha à tradição da diplomacia inglesa e desencadearia a hostilidade das nações centro e sul-americanas. Mais tarde ou mais cedo, abalaria o respeito pelas embaixadas e consulados do Reino Unido em todo o mundo e poria em causa a sua segurança. A situação entrou num impasse.
As reações aos escândalos diplomáticos despoletados por Assange, Manning e Snowden tiveram, como era de esperar, sentidos opostos. Por um lado, os governos sempre ambicionaram controlar a Internet e procuram aliados para estabelecerem acordos internacionais nesse sentido. Por outro lado, a maioria dos cidadãos comum gostaria de continuar a ver na Internet um espaço de liberdade. Receia que, no futuro, o ciberespaço se torne um feudo de caça das polícias políticas. As pessoas sentem-se cada vez mais vulnerável à exploração da sua privacidade pelos governos e pelos grandes grupos económicos que controlam o mundo. É fácil que quem denuncia as más práticas, as injustiças e as arbitrariedades dos poderosos seja, de certo modo olhado como herói. 

As fotografias foram retiradas da Internet