DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

terça-feira, 29 de outubro de 2013


           O PRÉMIO NOBEL DA PAZ 

       PARA EDWARD SNOWDEN?


Num mundo em que centenas de milhões de pessoas partilham as mesmas notícias, há milhares que pensam de modo aproximado. Cada vez resta menos espaço para a originalidade.
Há menos de 12 horas, comuniquei a uma das minhas filhas que ia escrever e publicar no meu blogue alguns artigos sobre as ameaças à privacidade nos dias que correm. O título genérico iria ser “O Prémio Nobel da Paz para Eduard Snowden?”
Hoje, consultei a Wikipedia e verifiquei que alguém se antecipara. O professor sueco de Sociologia Stefan Svallfors, em carta dirigida ao Comité Nobel norueguês, apresentou este ano a candidatura de Snowden, afirmando que os seus feitos eram heroicos e tinham implicado grandes sacrifícios pessoais. O seu exemplo poderia incentivar outras pessoas a denunciarem atos contrários aos direitos humanos. 


A minha falta de originalidade não termina aqui. Julian Assange, fundador da WikiLeaks, e Bradley Manning, soldado dos EUA que divulgou documentos secretos do exército, haviam sido propostos para o mesmo Prémio em 2011 e 2012.


Edward Joseph Snowden é um norte-americano de 30 anos que trabalhou como administrador de sistemas informáticos para uma empresa subcontratada pela Agência de Segurança Nacional do seu país. Ganhava 122 mil dólares por ano, o que parece suficiente para assegurar uma vida confortável. Não seria o dinheiro que o motivaria.
Em maio de 2013 revelou aos jornais "The Guardian" e "The Washington Post" informações altamente confidenciais sobre o programa PRISM de vigilância eletrónica de comunicações, utilizado pelos governos dos Estados Unidos da América e do Reino Unido. O programa monitoriza conversas telefónicas e mensagens de e-mail de cidadãos dos EUA de outros países, um pouco por todo o mundo. Logo a seguir, Snowden fugiu do Havai, onde trabalhava, para Hong Kong. Pediu asilo político a uma vintena de países. Teve resposta positiva da Venezuela e da Bolívia, mas permanece em território russo, depois de ter passado mais de um mês na área de trânsito do aeroporto de Moscovo. O governo americano acusa-o de espionagem e de roubo e divulgação de segredos de estado.
As suas inconfidências desencadearam nos aliados dos EUA uma série de reações de desconforto e irritação. François Hollande, Dilma Rousseff e Angela Merkel exprimiram publicamente as suas preocupações e pediram explicações ao governo norte-americano.


Snowden não terá grande vontade de deixar Moscovo. Em agosto de 2013, Bradley Edward Manning, agora Chelsea Elizabeth Manning, foi condenado a 35 anos de prisão por ter confiado à WikiLeaks informações referentes à atuação das tropas americanas no Iraque. Os guardiões do puritanismo ianque acusam-no(?a) de violar a sagrada confiança que merecem os assuntos nacionais.


Não conheço as motivações de Snowden nem de Manning. Poderão ter sido diferentes. Há muitas razões capazes de virar um homem contra a instituição onde trabalha. Poderão estar em causa a necessidade moral de publicitar procedimentos que se consideram injustos, o desejo de vingança contra um chefe ou contra a suposta injustiça na apreciação do trabalho feito, o ciúme, a vontade de obter compensações materiais, ou até perturbações de comportamento induzidas por afeções psiquiátricas.
Julgo que os protestos dos dirigentes políticos se destinam essencialmente a apaziguar os eleitores. Angela Merckel e Dilma Roussef não são donzelas púdicas que tenham sentido agora, pela primeira vez, a mão insidiosa do amigo americano debaixo das suas saias. Os seus países dispõem, como quase todos os do mundo, de serviços de informações sofisticados. Quem com ferros mata…

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

                  

 ECOS DA FEIRA DE TRANCOSO

                         (SÃO BARTOLOMEU)

                                          António Porfírio Moreirão

Neste breve apontamento, falaremos da região que margina o Douro e o Côa, onde a terra, a sul, se desdobra e estende pela Beira Alta, enquanto, a nascente, se alonga por terras de Espanha.
É desta rica região, onde oliveiras e amendoeiras se erguem em desafio, onde toda a espécie de searas atapeta montes e vales, onde, aqui e além, se alinham grandes vinhedos, é da rica e histórica vila de Almendra – repositório de ecos, memórias e vivências da Feira de Trancoso – que falaremos.
Recuaremos a tempos idos e distantes, para melhor compreendermos como a Feira de Trancoso (S. Bartolomeu), naquelas paragens, era vivida e sentida, nas vertentes económicas, sociais e lúdico-culturais.
Nessa feira eram negociados e transacionados os tractores da época (machos, vacas e cavalos), tão necessários aos transportes e ao revolver das terras: lavra das vinhas, olivais e amendoais e arar das sementeiras. Por isso, no decurso do ano agrícola, os almendrenses imaginavam e planeavam as compras, as vendas ou as trocas desses animais e assentavam na ida à Feira de Trancoso – a mãe de todas as feiras.


Assim, familiares, compadres e amigos faziam circular, entre si, os seus sonhos e os seus planos e, neste envolvimento, pensam e aprazam a viagem.
Chegado o dia, aí vão eles, em grupos, dormindo no caminho, neste ou naquele povoado, para, pela manhã, atingirem a tão afamada feira.
Feitos os negócios, vivida a feira, adquiridas as lembranças, deitavam-se à viagem de regresso, enquanto os de “olho para o negócio” continuavam a comprar, a vender ou a trocar, até ao final da feira, procurando engordar a carteira e, às vezes, ganhavam um “dinheirão”, o que lhes dava vanglória. 
De regresso à terra, eram recebidos com alegre gritaria e grande algazarra dos “putos” que, postados no caminho, que se alonga a perder de vista, procuravam descortinar e reconhecer cada vulto que, ao longe, ia surgindo.
A distância ia-se encurtando e os miúdos opinavam:
− O pai do Manel traz um macho preto!
− O pai do Chico um castanho!
− O pai do Joaquim traz um buçalo!
Buçalo é um macho novo ainda incapaz de trabalhar.


E, deste modo, a todos faziam referência.
Havia tendência e todo o interesse em comprar buçalos, porque os buçalos contavam para a pequena economia agrícola – custavam pouco dinheiro, custavam pouco a sustentar, porque apascentavam “à rédea solta”, sob vigia dos donos e, quando já machos, rendiam bom dinheiro ou, então, eram exercitados no trabalho e, se agradavam, ficavam.
À medida que os feirantes iam chegando, logo os miúdos iam identificando os animais: “burreiros” uns, enquanto “eguariços” outros. A sua ascendência era conhecida pelo tamanho das orelhas – grandes as do “burreiro” e pequenas as do “eguariço”.
No entanto, uma coisa era certa; o seu, o que o pai trazia, era o melhor e o mais bonito e, até, já era o mais valente.
Acabado este pequeno reconhecimento, todos perguntavam pela “lembrança da Feira”. E as lembranças eram mostradas e entregues aos destinatários - a flauta (pífaro), o realejo (harmónica de beiços) ou o primeiro canivete ou aquilo que a imaginação do pai havia preferido. E para as jovens, as companheiras de caminhada, não havia prenda? Claro que havia – a boneca de papelão – a única prenda destinada às miúdas do tempo.
Chegados a casa, satisfeitas as primeiras curiosidades, refeitas as forças, era o feirante quem fazia relato pormenorizado do que vira, ouvira e vivera: gente do todo o lado, de perto e de longe e muito gado, de todo o gado – todos os dias entrava gado e saía gado!
De tudo dera conta: coisas que viu, coisas que ouviu, coisas que nunca pensou ver e viver.
E as mulheres a venderem água, ao copo!...
E os animais a beberem águas das grandes gamelas espalhadas pela feira do gado!...
Que feira, a de Trancoso! Lá, de tudo se faz dinheiro – tudo se vende e tudo se compra.
E o “dinheirão” que os trancosenses ganhavam com o aluguer das lojas (estábulos), para a pernoita das pessoas e dos animais! Que gananciosos aqueles trancosenses – até parecem aparentados aos judeus…
De um momento, lembrando-se, tira um panfleto do bolso da jaqueta e estende-o à mulher, dizendo: são uns versos que um homem e uma mulher cantavam – é o caso do “maneta que, à machadada, matou o cunhado e a irmã, na cama”. Ao ouvi-los, havia pessoas que choravam… e toda a gente comprava.
E, assim, era aumentado o repertório das cantigas que as moças cantavam durante as mondas e os outros trabalhos agrícolas.
Nos dias seguintes os relatos continuavam, agora na rua e na frescura da noite e, sentados à porta de casa, com agrupamentos de familiares e amigos, cada um opinava. Relatos de todas as horas vividas e de todas as surpresas acontecidas.
Porém, durante muito tempo continuavam os almendrenses a pensar na Feira de Trancoso e a falar de Trancoso, quando, aos domingos, dividiam o tempo entre as “visitas às capelas” e os longos e minuciosos exames às adventícias alimárias: tiravam-nas das lojas, passavam-lhes as mãos afavelmente pela testa, alongavam-lhe as orelhas, amaciavam-lhe o lombo, davam-lhe duas pancadinhas nas ancas e, escorrendo a mão pelo rabo, tomavam-lhe a pata. Feito o exame elegiam as vedetas.
Depois, de tempos a tempos, voltavam a observá-los e faziam conjecturas sobre o seu aspeto e desenvolvimento.
Trancoso é bonito e tem muralhas em toda a volta, tem torres (antigamente eram quinze) e tem um grande castelo. E tem teatro – tem uma casa de teatro, dentro do castelo, à entrada, do lado esquerdo. É uma grande e bonita casa!
Fomos, à noite, ver teatro e foi lindo: uma peça que fazia chorar e outra que fazia rir.
Tudo havia em Trancoso, até Teatro!


E agora, em jeito de quem se despede, deixarei duas notas aos trancosenses: em Almendra, todo o indivíduo que se prezava, no ano do seu casamento, levava a mulher à feira de Trancoso (viagem de núpcias diferida no tempo).
Tomem lá segunda, não menos singular: à época, a ligação Almendra–Trancoso era feita através de caminhos vicinais que se interligavam e se enrolavam e desenrolavam, em curvas e contracurvas, num nunca mais acabar, ladeira acima, ladeira abaixo. E, se para aqueles que já tinham calcorreado o caminho, a distância era grande, para os que o não conheciam era maior porque tinha a medida da imaginação.
Ora, quando à refeição, ao fazer do molho, se deitava o azeite, de maneira demorada e abundante (em curvas e contracurvas) alguém sussurrava do lado -Trancoso… Trancoso… Trancoso… - alusão metafórica ao longo e tortuoso caminho para esta vila, que, deste modo, entrou no quotidiano dos almendrenses.
Estes são os ecos que ressoaram em Almendra e voltaram à mítica, histórica e nobre Vila de Trancoso, pela mão de um Almendrense.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

  CRÓNICAS DE NOVA IORQUE


                                IV

                      OBAMACARE



A televisão americana passa muitos jogos de basebol e algumas partidas de futebol europeu ou sul-americano. Não é a época do basquetebol. O futebol americano e o hóquei no gelo estarão também na estação baixa.
As notícias de crimes ocupam no pequeno ecrã um espaço semelhante ao que lhe dedicam as nossas emissoras. Como a cidade é grande, os repórteres têm mais por onde escolher. Ainda assim, fixam-se às notícias, desenvolvem-nas e espremem-nas. Só as largam quando o público começa a ficar cansado delas.


Durante a minha estadia, a atualidade política foi dominada pelo “shutdown” (encerramento de atividades governamentais por falta de orçamento), imposto ao governo mais poderoso do mundo pela maioria republicana da Câmara dos Representantes. Lembremos que o Congresso americano é formado por duas câmaras, inspiradas no parlamento inglês. O Senado (Câmara Alta) conta cem membros. Atualmente o partido democrático está ali em maioria, com 53 lugares contra 45 dos republicanos. A Câmara dos Representantes (Câmara Baixa) tem 435 assentos. Estão ocupados por 234 republicanos e 201 democratas.


Curiosamente, as peculiaridades do sistema eleitoral americano permitem que os republicanos detenham a maioria na Câmara Baixa com um milhão e trezentos mil votos menos que o conjunto dos seus colegas democratas.
Na origem do braço de ferro entre o presidente Obama e os republicanos estão os limites impostos à dívida pública e o ambicioso programa de estender a assistência médica à grande maioria dos cidadãos americanos. A medida, conhecida como “obamacare”, constituiu uma das bandeiras eleitorais de Barack Obama. O povo americano ratificou-a nas eleições presidenciais. Terá entendido que comporta custos apreciáveis.


       As administrações dos EUA estão habituadas a elevar sucessivamente os patamares de endividamento federal. Provavelmente, as crises das dívidas soberanas em alguns países europeus fizeram crescer a apreensão acerca dessa matéria. No entanto, não se trata apenas de dinheiro. Há também ideologia. Muitos americanos continuam a pensar que um cidadão tem apenas direito aquilo que é capaz de pagar com o produto do seu trabalho.
O financiamento dos serviços governamentais americanos é diversificado e os efeitos práticos do “shutdown” limitaram-se, até agora, ao encerramento dos parques nacionais e de alguns monumentos.


A questão do endividamento é antiga. O controlo legal do Congresso sobre o Governo conta mais de um século. Ainda assim, a gestão pública  americana tem assentado em empréstimos externos sucessivos.
O desemprego continua elevado. Apenas 63 % da população tem trabalho e só 43,7% dos adultos têm atualmente emprego a tempo inteiro.


O que significa, afinal, o Affordable Care Act, o “Obamacare”? A nova lei entrou já em vigor.
Os cidadãos a quem a entidade patronal não garanta seguro de saúde podem candidatar-se ao Obamacare. Os jovens até aos 26 anos são protegidos pelos seguros de saúde dos pais.
Os planos de saúde (privados) variam de estado para estado e são pagos, em parte, pelos interessados. Dentro do mesmo estado, as pessoas podem escolher o que considerarem melhor. Quem ganha menos de 80.000 dólares por ano receberá alguma ajuda da nova segurança social. A maioria da população norte-americana acabará por receber algum apoio do Affordable Care Act. Existem quatro opções, escalonadas de “bronze” a “platina”. Variam nos custos e nos benefícios recebidos, que incluem a frequência das consultas médica e de internamentos hospitalares. O “bronze” é o mais barato e o que assegura menos vantagens.


Para nós, europeus, isto não parece grande coisa, mas a realidade americana é diferente da nossa. Até agora, uma percentagem elevada dos eleitores da economia mais poderosa do mundo tinha acesso limitado a cuidados de saúde.
Os americanos continuam à espera de que um compromisso entre republicanos e democratas resolva o problema do teto da dívida e alcance um compromisso orçamental que possa durar.

Nota: as imagens 1 e 3 foram retiradas da Internet.


sábado, 12 de outubro de 2013

 CRÓNICAS DE NOVA IORQUE

                                III

                                        HARLEM


Durante a década de 1920, Harlem conheceu um desenvolvimento notável. Tornou-se, no dizer de alguns, a “capital mundial da cultura negra”. A sua especificidade cultural é ainda hoje bem aparente, mesmo para quem visita o bairro a correr.


Saímos do metro na estação Malcolm X, frente ao Hospital de Harlem e perguntámos pela igreja. Existiam muitas. Escolhemos um templo metodista em que o serviço religioso estava prestes a começar.


Havia automóveis de gama alta estacionados em segunda fila na rua da igreja. Deles saíam senhoras negras vestidas como se fossem para um casamento de duas décadas atrás. As vestes eram demasiado elaboradas. Muitas damas usavam chapéus de dimensões consideráveis, enquanto outras exibiam os cabelos encanecidos cuidadosamente desfrisados. 


Passou por nós um homem de meia-idade, de fato completo, sobretudo e chapéu de coco. Não sei como aguentava o calor. Nunca tinha visto um chapéu daqueles, exceto em filmes.
A igreja não era bonita, mas tinha um grande órgão e excelentes condições acústicas. Quase todos os fiéis eram velhos. Viam-se raras crianças e algumas adolescentes.
O coro ficava atrás e acima do altar. O organista era também o maestro.


No interior do templo, um homem baixo e magro, de bigode, sentado duas filas à nossa frente, na ala da esquerda, exibia um grande laço negro. De onde estava, não lhe via a mão esquerda, mas a direita tinha anéis de ouro em todos os dedos.


 No altar, sem imagens, as cadeiras e o púlpito estavam envoltos em panos brancos. Os oficiantes eram duas mulheres e três homens. Um deles usava colarinho eclesiástico e teria mais de um metro e noventa de altura. Foi ele quem disse duas frases curtas para abrir a cerimónia. Começaram logo os cânticos. As melodias eram lindas. Reconheci a música duma. Circulará em gravações comerciais. O coro tinha grande qualidade. Havia duas solistas. Uma era uma negra magra que andaria por volta dos sessenta anos e outra uma mulata jovem e gorda. As vozes de ambas eram magníficas.
A assistência agitava-se ao sabor da música. Sobretudo as senhoras, erguiam uma das mãos, ou as duas, e movimentavam-nas para um lado e outro, em gestos largos. A minha mulher disse-me baixinho que achava que algumas estavam prestes a entrar em transe. O gospel está pujante e faz parte dos domingos de muita gente, no Harlem.
Após quatro ou cinco canções, o oficiante do colarinho duro tomou conta da cerimónia. Leu algumas linhas do Novo Testamento em que os apóstolos pediam a Jesus mais fé. O texto continha uma conveniente alusão a um escravo. O pastor foi-se entusiasmando com o próprio discurso. Não era preciso mais fé, dizia. Cada um deveria usar a que tinha. Era um orador notável e daria um excelente ator de teatro dramático. Elevava a voz até gritar, descia o tom, abria pausas e voltava a subir para acentuar a emoção do discurso. Lentificava a fala quando achava conveniente, mas via-se que se entregava com mais agrado às tiradas arrebatadoras. Geria bem os instantes de silêncio e aproveitava-os para limpar o suor do rosto e do pescoço com uma toalha branca. Na assistência, algumas mulheres abanavam-se com leques de papel com a fotografia do pastor colada.


O homem seria capaz de conduzir um exército para a batalha. Julgo que alguns pecadores ficavam com medo de prevaricar.  Não conheço nenhum político português com aquela capacidade de comunicação. De padres, pouco sei – só vou às igrejas a batismos e funerais. 

Nota: Não tirei fotografias em Harlem. As imagens que apresento foram retiradas da Internet.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013


      CRÓNICAS DE NOVA IORQUE


                                  II

Nova Iorque conta cerca de oito milhões e meio de habitantes e resulta da fusão de cinco municípios: Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island. Diz-se que é a cidade do mundo onde se falam mais línguas diferentes. Apesar da prosperidade de muitos dos seus habitantes, 20% vivem abaixo da linha considerada de pobreza.


A maior parte da cidade assenta em três ilhas: Manhattan, Staten Island e Long Island. Brooklyn e Queens ficam em Long Island. Bronx é o único distrito da cidade de Nova Iorque que se situa no continente.  



A ilha de Manhattan fica na foz do rio Hudson. Está ligada ao resto da cidade por mais de quatro dezenas de pontes e túneis. 


Manhattan conta um milhão e seiscentos mil habitantes a residir na área. Atingem rapidamente o dobro, nas manhãs de cada dia útil. Um eficaz sistema de transportes trá-los da periferia aos locais de emprego. Alguns vêm de longe. Às horas de ponta, as ruas enchem-se de milhares e milhares de transeuntes apressados.


Anos atrás, Manhattan era mais populosa, tendo chegado a ser a zona mais densamente habitada do mundo. Na década de 1970, deu-se uma crise económica. Foram encerradas fábricas e estabelecimentos comerciais e muitos moradores mudaram-se para as zonas vizinhas, onde a habitação é mais barata.
Conheço várias cidades cheias de arranha-céus. Vêm-me à ideia Xangai e Hong Kong. A diferença é que, em Nova Iorque, alguns são antigos.


Passam muitas ambulâncias barulhentas, a tentar abrir caminho através do tráfico denso da cidade. Curiosamente, Manhattan é, em Nova Iorque, a ilha que tem menos automóveis por habitante. 75 % da população não utiliza carro, nem para se deslocar até ao local de trabalho, nem nas horas de lazer. Compreende-se por quê. Por um lado, o sistema de transportes públicos é muito diversificado. Por outro, o estacionamento é difícil e caro. Só pode comprar carro quem tem onde o guardar.


À noite, o barulho da cidade filtrado pelos vidros das janelas fechadas faz lembrar o rumor das ondas em Santa Luzia, no Algarve, quando há Levante.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

   CRÓNICAS DE NOVA IORQUE

                                  I


                                     CHEGADA
A nossa chegada Nova Iorque ficou assinalada pelo encontro com um agente de polícia de fronteira invulgarmente grosseiro.
Ao longo da vida, visitei três dezenas de países espalhados por cinco continentes e nunca tinha visto tanto desprezo pelos turistas. O chui nem precisou de falar para mostrar que era uma cavalgadura: apontou para o modelo dum impresso que deveria ter sido apresentado e com gestos bruscos de mão, mandou embora a minha mulher, que me precedera na fila.
O nosso impresso estava corretamente preenchido. Cabia um a cada família e levava-o eu.
Mudamos para a fila do lado. O polícia era gentil. Resolveu-se de imediato o não problema.
Aqueles dois agentes ganham ambos o mesmo, ainda que um deles transmita uma imagem péssima do seu país. Também temos cá disso…  


O direito à estupidez não está claramente inscrito na constituição americana, mas há quem o exerça com liberalidade. Vê-se gente frustrada que se agarra o melhor que pode a migalhas de poder.
Há razões históricas para isso. Alguns emigrantes, logo que se fixavam no país, passavam a hostilizar os que pretendiam entrar. 
Entre o princípio do século XIX e os meados do século XX, Nova Iorque foi a principal porta de entrada de emigrantes nos Estados Unidos. Os recém-chegados desembarcavam no que é hoje Downtown Manhattan, nas docas das margens dos rios Hudson e East. Em 1855 foi criado em Castle Garden o primeiro centro de controlo de emigrantes. 


Sucedeu-lhe, em 1892, Ellis Island, junto à estátua da Liberdade. Por ali passaram, ao longo de dezenas de anos, mais de doze milhões de emigrantes. Uma minoria (à volta de 2%) era recusada e obrigada a fazer a viagem de volta. A percentagem era baixa, porque a seleção começava a ser feita nos portos de partida. Só vinha quem se julgava forte. Os Estados Unidos aceitavam apenas gente cheia de saúde. 


Diz-se que a América é terra de oportunidades. É verdade que Gates e Rockfeller nasceram lá e que a maioria dos cidadãos americanos consegue alcançar um modo de vida confortável. Gera, contudo, muitos frustrados. A crispação é bem aparente no trânsito da cidade. Os motoristas vão ralhando uns com os outros e com os peões por meio das buzinas, tanto de dia como de noite. 


     Os animadores das viagens guiadas parecem tristes e um tanto loucos. Estarão fartos de repetir vezes sem conta longos discursos que pouca gente ouve. O espírito de competição enraizado na sociedade americana tem o seu lado negativo: nem todos são capazes de ganhar. Os que não chegam ao sucesso, os “losers”, são mal vistos pelos outros e nem sequer gostam de si próprios. 



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

                                  TRANCOSO


Trancoso é terra linda, de verão e de inverno. A parte velha da vila permanece entre muralhas e o coração das gentes continua a bater mais forte no interior do peito couraçado. No entanto, o casario extravasou há muito do castelo. Armando gostava de o comparar aos ovos de uma galinha gigantesca que, não cabendo já no ninho, se espalhassem no espaço em redor.
Maria Helena e Armando entraram por uma das portas amplas da fortificação e estacionaram o automóvel logo a seguir, junto à Câmara Municipal. 



    No largo fronteiro, a estátua do profeta parecia deslocada, no tempo e no lugar. A escultura era estranha. A figura nada tinha de sapateiro. Parecia antes um fidalgo baixote e bem trajado, como os viam os ilustradores de contos infantis. Bandarra não adivinhara que iria ter um monumento. Provavelmente, não gostaria de ser ver assim representado. Os artífices do couro e da sovela eram modestos, mas pareciam gente a valer.
Era fácil a Helena imaginar o homem subir ao banquinho de trabalho e recitar rimas coxas para quem o quisesse ouvir. Gonçalo Anes Bandarra previra uma sucessão de desgraças e, para os portugueses que sobrevivessem às tragédias que anunciava, o advir de nova era de glória e prosperidade. Morrera antes de nascer o rei cujo mito ajudara a construir.
Percorreram a pé uma rua com mais lojas que fregueses. Armando reparou num livro sobre as profecias do Bandarra, exposto na montra duma papelaria. Ombreava com uma biografia do padre Costa, o cidadão mais prolífico de Trancoso e talvez do País. Tivera cerca de 300 filhos de mais de cinquenta mulheres. Eram os dois best-sellers locais. Helena entrou para comprar o volume de trovas, ainda que achasse a capa demasiado vistosa. 


  Prosseguiram até ao largo onde se via a igreja de S. Pedro e o pelourinho de gaiola. Maria Helena foi tirando fotografias com a sua pequena máquina digital.
− O pelourinho é muito bonito – declarou Armando.
− Era neles que se administravam a primeira justiça – informou Maria Helena. Os presos eram ali amarrados e depois chicoteados, em público. Os liberais consideraram-nos símbolos da tirania e derrubaram uns tantos, por volta de 1834. Acontece o mesmo em muitas revoluções. Deita-se abaixo património cultural.
O templo ficava mesmo em frente. Armando comentou:
− Sabes? Nunca gostei muito das igrejas da minha terra. Acho que Trancoso merecia melhor.
Maria Helena não fez comentários. As críticas ficam melhor aos indígenas.
Deram a volta ao templo. Parecia fechado. Um pouco a medo, Helena carregou na alavanca da fechadura. A porta estava no trinco e abriu-se.
A campa do Bandarra ficava logo à entrada. Estava protegida por um vidro grosso que tinha sido colocado tarde demais. Os dizeres gravados na pedra já não se podiam ler. Uma placa, ao lado, substituía-os.

Aqui jaz Gonçaliannes Bandarra natural desta Villa que profitizou a restauração deste Reino, e que havia de ser no anno de seiscentos e quarenta por el Rey Dom João o quarto noso Senhor, que hoje Reina.


  A sepultura fora mandada fazer pelo Governador das Armas da Província da Beira em 1642. O profeta tinha morrido quase um século antes.
Pouca gente na terra se importava com as Trovas. Quase ninguém as lia. No entanto, a campa do sapateiro era ponto de passagem obrigatório dos circuitos turísticos.
Maria Helena olhou a pedra levantada e pareceu-lhe tão falsa como outras que conhecia. Que importava? Alguém queria saber do que dissera o sapateiro? Ficara-lhe a fama de adivinho. Espíritos ilustres, como Vieira e Pessoa, tinham procurado interpretar as suas quadras e dar-lhes sentidos novos. A seu ver, não tinham acrescentado glória aos próprios nomes.

Texto extraído do romance "O Túmulo de Camões", de António Trabulo