DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

                             FOZ COA


Zé Arcanjo deu uma volta pela terra. Não era grande, mas tinha pontos de interesse. Iam passando automóveis, mas não se via muita gente a caminhar. A população era reduzida. Na véspera, fizera uma consulta rápida na Internet. A informação sobre o concelho era relativamente limitada. O vale do Coa e as gravuras rupestres chamavam mais as atenções do que a antiga Vila Nova. Ainda assim, pôde ler que, décadas atrás, algumas das suas dezassete freguesias tinham mais gente do que possuía agora a cidade. As pessoas fugiam do interior. Ou emigravam para França, ou se mudavam para mais perto, indo estabelecer-se na faixa costeira do País, onde era mais fácil conseguir emprego e governar a vida.


A Rua de São Miguel, pavimentada em calçada portuguesa, fora vedada ao trânsito. Era ladeada por casas de dois pisos, de idades e estilos de construção desiguais. Muitas apresentavam varandas salientes. As mais antigas tinham as esquadrias de portas e janelas em blocos de granito que o tempo acastanhara e conservavam nas varandas as proteções de ferro forjado. Algumas lojas conservavam os nomes antigos mas estavam encerradas. Eram efeitos da crise.


Zé Velasco caminhou durante alguns minutos e foi ter à Praça da República. Seguiu em frente até ao Largo do Município onde se tinham concentrado os antigos poderes do concelho: a administração, a cargo da Câmara Municipal, a direção espiritual, abrigada na igreja matriz e a Justiça, simbolizada pelo pelourinho.


A Câmara Municipal era um belo palacete do século XIX. 


    O pelourinho, em estilo manuelino, datava do século XVI. Era constituído uma coluna quadrangular encimada por um capitel complexo, decorado por quatro pináculos com escudetes, a rodear uma flor-de-lis.
Como outras, a igreja fora sendo alterada ao longo dos anos. 


De manuelino, conservava o belo pórtico, encimado pela imagem de Nossa Senhora do Pranto, ladeada por dois escudos reais e por um par de esferas armilares. 


     A rosácea era pequena, deixando adivinhar a penumbra no interior. O coroamento era de influência castelhana, com três ventanas abertas para os sinos, a fazer lembrar a proximidade da fronteira. A abraçar a bela fachada de granito, o reboco pintado de branco revestia as paredes do resto do templo.


Velasco entrou na igreja. As robustas colunas cilíndricas de granito tinham sido abaladas pelo terramoto de 1755. Resistiram, mas deixaram-se inclinar, sobretudo à direita e ao fundo. Pareciam fatigadas, como velhos funcionários públicos à espera da reforma. Aquela obliquidade insólita não chegava a meter medo, mas não tranquilizava os visitantes. Indiferentes às zangas do planeta, erguiam-se os altares barrocos, em talha dourada. O teto, de madeira pintada em tons que o tempo fizera escuros, retirava luz ao espaço de culto.

Texto adaptado do romance FÁTIMA, de António Trabulo, que aguarda publicação.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

                   SINCELO




                              António Moreirão

O sincelo deriva da cristalização de gotas de água extremamente ténues, ínfimas, só visíveis ao microscópio, que constituem o nevoeiro e assentam numa superfície sólida a temperatura negativa. Porém, para acontecer sincelo, é necessário que haja uma combinação especial, resultante da proporção adequada dos elementos “frio” e “nevoeiro”. Tem acontecido que logo que algum destes elementos se altera, o sincelo desaparece.


Dando um salto para a culinária, podemos fazer a analogia com o “ponto de rebuçado”. Para dada quantidade de açúcar deve existir determinada medida de água e vice-versa.



Como o meu amigo António Moreirão economizou no texto, achei por bem acrescentá-lo com uma nota tirada da Wikipedia.


    Sincelo é um fenómeno meteorológico que acontece em situações de nevoeiro aliado a uma temperatura de -2º C a -8º C e resulta do congelamento das gotas de água em suspensão, quando estas entram em contacto com a superfície. Quando sob um nevoeiro muito denso, pode produzir o mesmo efeito que uma nevada e ocorrer a precipitação de cristais de gelo em pleno nevoeiro, sem haver nuvens no céu. Não deve ser confundido com geada. A película de gelo forma-se em qualquer superfície que contacte com a neblina, dando às folhas e caules das árvores uma aparência vítrea.
  

As fotografias provém da Foto Arco-Íris, de Trancoso.

domingo, 15 de setembro de 2013


                                                   CAPÍTULO XIV



            No dia seguinte, quando passava pouco das nove, o som da campainha acordou toda a casa. No momento em que Mellie foi ver quem era, encontrou Nicole e Sebastien.
        − Vejo que já se conheceram. Entrem.
        Além dos agentes, encontrava-se lá também um homem fardado.
        − Este é Francis. É agente em Bordéus e eu sabia que ele queria vir para a cidade. Como ontem me disse para trazer alguém, decidi chamá-lo. Confio nele mais do que em ninguém. – Disse Nicole, apresentando-o sem grandes demoras.
        − Muito bem. Vou chamar o Joshua, para conhecerem a história dele e decidirem horários.
        Quando Joshua desceu, cumprimentaram-se. O rapaz contou a sua história e os motivos para precisar deles. Começou por falar da sua discussão com Marc seis anos antes dele falecer. Depois descreveu o seu rapto, as ameaças e as visões, seguido de como fugira do abrigo até chegar ali.
          Os agentes não sabiam o que dizer. Nunca tinham sabido daquela história e tinham ficado espantados como tanto acontecera a MacLarens em apenas três meses. Permaneceram os três calados até Nicole dizer:
        − A primeira coisa a fazermos é uma lista de quem tem acesso a todos os seus movimentos. Eu lamento dizer-lhe isto, mas tem de ser alguém perto de si. É a única maneira do assassino saber tudo isto.
        − Mas tem de ser alguém que também conhecesse Marc muito bem. – Interferiu Francis.
        − Ou então o assassino tem um espião. São as únicas hipóteses. – Concluiu Sebastien.
        − Todas as pessoas que me conhecem daqui, também conheceram Marc. Nessa lista, vão integrar-se todos, com poucas exceções. – Disse Joshua, interrompendo os pensamentos dos três agentes.
        − Tem razão. Mas temos de começar por algum lado. Todos os dessa enorme lista são suspeitos. Por isso, teremos de reduzi-la pelos álibis de todos os indivíduos. Assim, poderemos descartar os que estavam fora ou com testemunhas. – Declarou a agente.
        − Isso é muito inteligente. Por onde começamos?
        − Tem de ser alguém que tenha acesso a uma AFCC. O primeiro bilhete foi impresso numa impressora da empresa. Isso diminuirá a lista. – Disse MacLarens.
        − Tem razão. Mesmo assim, ainda temos todos os agentes, cientistas e guardas que conhecem a sua história e a de Marc. E não são assim tão poucos. – Proferiu Sebastien.
        − Por isso, é melhor começarmos já a reduzir a lista. Nicole, fique aqui, enquanto eu e Sebastien vamos à agência. Não é seguro o senhor MacLarens ficar sozinho. – Propôs Francis.
        E dito isto, os dois agentes saíram pela porta principal.
        − Preciso de ir trabalhar. Até logo. Vou com a Margaret e ela vai levar os rapazes a casa da Dionise. Ficas bem? – Perguntou Mellie, apesar de saber a resposta.
        − Sim, claro. Até logo. – Despediu-se.
        − Então, como é que conheceu a doutora? – Inquiriu Nicole, fazendo conversa.
        − Na AFCC. Fui lá levar um bilhete para ela examinar. Depois começámos a conversar e vimos que tínhamos muito em comum. – Mentiu MacLarens. Tinha receio que a agente não soubesse da sala secreta da catedral e não queria ter de inventar uma história para se redimir por isso aquela era a opção mais fácil. Conheceu Marc?
        − Sim. Eu fui agente dele durante o tempo em que ele esteve em Reims. Não nos conhecíamos muito bem, mas ele contava-me algumas coisas. Contou-me umas histórias de quando era pequeno, mas nunca falou em ter um irmão. – Respondeu Nicole.
        − É normal. Pelo que parece, ele só contou sobre mim a Margaret. Agora fiquei curioso. Que histórias é que ele lhe contou sobre a sua infância?
        − Assim, rapidamente, lembro-me de uma sobre um cachorro chamado Max que Marc tinha treinado, mas nunca fazia nada do que lhe mandavam. O seu irmão gostava muito dele e costumava contar várias histórias sobre o cão. Até que eu lhe disse para escrever um livro de contos sobre as aventuras dele e do seu cachorro. E foi essa a sua atividade diária em Reims. Depois, eu saí daquela sede e vim para o laboratório, nos arredores de Paris. Nunca soube se ele acabou o livro ou se o trouxe sequer para a cidade. – Explicou a mulher.

        − Eu lembro-me do Max. Ele e Marc eram os melhores amigos. Gostava muito de ler esses contos. Tanto eu como o meu irmão, implorávamos a nossos pais para ter um cachorro desde que me lembro. Até que nos anos de Marc, ele recebeu-o. Claro que os meus pais diziam que era dos dois, mas ele desde logo adotou o pequeno cão. – Contou MacLarens, deixando escorrer uma lágrima.
                             ANTÓNIO MOREIRÃO


Conheci o António Moreirão em Coimbra, no rescaldo da crise académica de 1962, em que ele teve uma participação assinalável. Como éramos ambos de Almendra, íamos conversando durante as férias de verão e tornámo-nos amigos.
O Moreirão pertencia a uma família em clara ascensão na terra. Apesar de ser dotado de uma inteligência bem acima da média, perdeu-se noutras andanças e nunca completou o curso de Direito.
Com alguma marca de ADN missionário nas veias, o António Moreirão empregou-se nas bibliotecas itinerantes da fundação Calouste Gulbenkian e calcorreou as estradas do Alto Douro e da Beira Alta a distribuir cultura. Nas paragens, sentava-se no chão da carrinha, frente a pequenos grupos de jovens ávidos de saber e improvisava pequenas palestras com tempero antissalazarista. Acabou por se fixar em Trancoso.
Lembro-me do tempo em que, à falta de melhores opositores, elegeu como inimigo de eleição o pároco da nossa aldeia e se divertiu a complicar-lhe a vida.
Já não testemunhei a sua amizade, em Almendra, com o padre Maximino (Max). Contou-me que chegou a ser seu treinador de futebol e lhe gritava das bancadas:
− Max! Mostra que és homem!


O padre Maximino Barbosa de Sousa aceitou candidatar-se a deputado pela UDP (União Democrática Popular) em 1976. Foi cobardemente assassinado à bomba, juntamente com a jovem Maria de Lurdes Correia, que seria sua aluna ou, como outros pretendem, sua namorada. O Ministério Público não foi capaz de apresentar provas que permitissem condenar os criminosos e os processos foram arquivados. O famoso cónego Melo, de Braga, cuja estátua polémica aguarda inauguração, consta da lista dos possíveis autores morais do crime. Alguns dos executantes estariam ligados a Trancoso.
Foi bom voltar a ver o Moreirão, após tantos anos de distanciamento. Envelhecemos ambos, mas o António mantém nos olhos espertos o brilho maroto da juventude. Não deixou que o tempo lhe tocasse na memória. É um depositário espantoso das histórias do passado da nossa Almendra natal e dos enredos da Trancoso contrabandista.
Tenho alguma ligação familiar a Trancoso. O meu pai foi ali chefe dos Correios meia dúzia de anos antes de eu nascer, enquanto ia fazendo o curso de Direito, como aluno voluntário, em Coimbra.

O António Moreirão ainda não sabe que dei o seu nome ao personagem principal do mais longo dos contos que escrevi até hoje: «O Geronte dos Mares».

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

                                                 ALMENDRA



  Os amigos que visitam este blogue com alguma regularidade têm certamente reparado no ritmo variável da publicação de novos artigos. Esclareço que não sofro de uma perturbação maníaco-depressiva da personalidade, com períodos alternados de sentimentos de exaltação e de minoração. O que se passa é que quando me empenho na escrita de livros, deixo os blogues para trás. A obra que estou a ultimar sobre Amílcar Cabral representou uma exceção, uma vez que foi sendo publicada em rascunho à medida que nascia. Terminei agora a revisão «grande» deste trabalho. Irá seguir-se um estágio na gaveta, para que possa madurar antes de receber os retoques finais.  
   O «Historinhas da Medicina» tem sido mais prejudicado pela minha falta de disponibilidade. Curiosamente, apesar de contar com pouco mais da quarta parte das 263 publicações do «De cá e de lá», tem visto o número de leitores crescer. As suas visitas representam já 40% do conjunto dos dois blogues, com a particularidade de a maioria provir do Brasil e incluir uma participação significativa de alguns países de língua espanhola da América Latina.
  Julgo que é tempo de dar mais atenção neste blogue à terra que me viu nascer.
 Aproveitando o reencontro com o meu conterrâneo e amigo de longa data António Moreirão, iremos publicar uma dúzia de pequenos artigos sobre Almendra e a região em que está inserida.
   Almendra é a maior freguesia do concelho de Foz Coa. Em anos recentes, Foz Coa deixou de ser «Vila Nova» para ser promovida a cidade enquanto   Almendra voltava a ser vila, como tinha sido durante mais de cinco séculos (desde 1298 até à reforma administrativa de Fontes Pereira de Melo, em 1855). São visíveis as ruínas da sua Câmara Municipal.
    A estação de Almendra, na extinta Linha do Douro, era a última antes da fronteira de Barca d`Alva. Da linha do caminho-de-ferro à vila vão 13 quilómetros de estrada serpenteante.




   Almendra é terra de amêndoa, azeitona e vinho. Em anos recentes, as suas terras voltaram a receber bacelos, uma prática interrompida pela praga de filoxera que devastou as vinhas portuguesas por volta de 1870. A conhecida marca de vinhos «Barca Velha» é produzida a partir de uvas produzidas nas terras de Almendra.


sábado, 31 de agosto de 2013



                     

                            CAPÍTULO  XIII




− Por favor, isto é muito importante. Tem de nos ajudar! – Implorou Guillermo, quase chorando, a um agente.
− Lamento rapaz, mas isso é uma proposta complicada. Eu e o centro da cidade não funcionamos bem juntos. Mais uma vez, lamento. – Disse o homem, despenteando o cabelo de Guillermo.
− Com quem falamos a seguir? – Perguntou a criança, desapontada.
− Também não sei. Só conheço as pessoas deste departamento e, infelizmente, já falámos com todas as que nos poderiam ajudar.
Mas Guillermo não desistiu. Atravessou o corredor até ao elevador e desceu para o andar imediatamente abaixo. Mellie seguiu-o, porém mais lentamente e menos animada. Ela não sabia o que iria o pequeno rapaz fazer, mas confiava nele a cem por cento e por isso não tinha o que temer.
Guillermo falou com três agentes que recusaram até que chegou a uma mulher alta e vestida de uma maneira diferente da de todas as outras que ali se situavam. Tinha calças pretas e uma camisa da mesma cor. Parecia ser uma polícia bastante trabalhadora e, por isso, a criança aproximou-se.
− Desculpe, o meu nome é Guillermo e eu gostaria de lhe fazer uma proposta.
− Não és um pouco novo para andares por aqui sozinho? – Inquiriu a mulher.
− Ele não está sozinho. – Disse Mellie, aproximando-se.
− Que proposta é essa? Ah, já agora chamo-me Nicole.
− Decerto conhece Fréderique Lasone, director da AFCC. Ele fez umas experiências com um homem chamado Marc MacLarens. Já ouviu este nome? – Interrogou Mellie, após se apresentar.
− Sim, ouvi falar, em especial da morte dele. Mas, porque me fala dele?
− Joshua MacLarens, o meu namorado, é seu irmão e tem igualmente o dom de Marc. Tal como este, corre perigo de morte e precisa de segurança. A opção a ficar sozinho num abrigo fechado, sem poder ver aqueles que ama é arranjar três agentes, dispostos a protegê-lo diariamente, em turnos. – Explicou Mellie. – Pode parecer que não, mas isto é muito importante para nós.
− Onde se situa a casa onde eu teria de ficar?
− Na Rua Cloître Notre Dame. É uma bela zona para morar, perto da catedral. – Declarou.
− E porque razão ainda ninguém aceitou esse trabalho? É por algo em especial que ainda não me tenha contado? – Questionou Nicole. – Parece-me um trabalho razoável, sem contar com o horário de alguns turnos.
       - Eu não sei se já alguém concordou com este emprego. Estamos sem contato com a casa, pois não podemos usar telemóveis diretamente para MacLarens ou para quem esteja perto dele. Por uma questão de segurança. Mas em relação ao trabalho, as pessoas que trabalham na AFCC têm um certo pavor da cidade, por razões que eu desconheço. – Esclareceu Mellie.
− A mim parece-me um bom emprego. Não tenho razões para odiar a cidade e Paris é o meu lar. Nasci e cresci lá.
− Isso quer dizer que aceita? – Inquiriu Guillermo, que estava atento à conversa.
O rapaz, que não conhecia Joshua muito bem, queria muito que ele ficasse, pois se ele fosse para o abrigo, Mitch sairia dali também. E se isso acontecesse, o novo amigo do rapaz latino iria embora e Guillermo ficaria sozinho outra vez. Além disso, ele e Marc eram grandes amigos, mesmo com aquela diferença de idades e ele achava que os irmãos MacLarens eram muito parecidos, tanto na forma física como na personalidade.
− Sim, acho que aceito a proposta. Mas vou ter de contatar com MacLarens e com os outros agentes contratados. É importante conhecer os nossos protegidos antes de começar o trabalho. – Comunicou Nicole.
Mellie não sabia que diria Joshua. Aquilo era perigoso. Mas como podem contratar uma agente se não confiam nela?
− Sim, claro. Dê-me o seu número de telemóvel e logo entrarei em contato consigo.
− Conseguimos. Será que o Mitch, a Margaret e o Joshua já arranjaram mais dois agentes? Estou esfomeado. – Disse Guillermo.
− Não sei, mas vamos regressar a casa. Também já tenho alguma fome e, dentro de pouco, o laboratório fecha portas.
Regressaram a casa e encontraram os três que lá tinham ficado a descansar.
− Voltámos. Arranjámos uma agente que quer falar contigo e falámos com quase toda a gente do laboratório e, Fréderique tem razão, todos têm um certo ódio pela cidade. – Declarou Mellie. – E vocês?
− Um agente que me parece ser muito responsável. Vamos jantar fora. Conheço um restaurante ótimo aqui perto. – Afirmou Joshua.
− Tu sabes que não podes sair de casa. Mandamos vir uma pizza. É mais simples e menos perigoso. Não queremos arranjar confusões com Lasone, senão ainda muda de ideias quanto ao abrigo.
− Tens razão, é melhor. Quando é que contatamos a agente? Tem de ser o mais rápido possível. O Sebastien vem já amanhã de manhã para tratar dos horários. – Declarou Joshua.
− Eu vou ligar-lhe a dizer que venha à mesma hora.
E dito isto afastou-se da sala, dirigindo-se à varanda.
“Nicole, é a Mellie. Falou comigo há umas horas. – Sim, tem novidades? – O Joshua diz para vir amanhã de manhã. Se conhecer alguém de confiança que esteja disposto a aceitar este emprego, traga-o. Irá estar aqui Sebastien, o outro segurança. Vemo-nos amanhã? – Sim, claro, aí estarei.” Quando Nicole se despediu, a cientista desligou o seu telemóvel e voltou para a divisão onde estavam os outros.
− Muito obrigado. – Agradeceu MacLarens ao rapaz das entregas que lhe acabara de trazer as pizzas. – Pizza para todos!
Tanto as crianças como os mais velhos aproximaram-se, mas pararam quando viram um bilhete dentro da caixa.
− O que diz? – Perguntaram em coro a Mitch, que tinha pegado no papel.
“Como já referi anteriormente, eu irei saber sempre onde está Joshua. Para quê demorarem tanto tempo a entregarem-mo? Durante este tempo de espera, eu vou ganhando raiva e depois a sua morte será mais dolorosa.”
- Mitch, pára de ler! – Ordenou Joshua, limpando a lágrima do rosto da criança. – Eu acabo de ler.
Dito isto, tirou-lhe a carta e continuou.
“Deixem-no numa carrinha à frente da catedral e a chave debaixo dela. Não vale a pena esperarem lá por mim, eu mando alguém ir lá buscá-la. Têm dois dias ou eu ficarei muito zangado. E não se esqueçam: não se podem esconder de mim.
Assinado: XX.”
− Outra ameaça. Não sei o que mais podemos fazer. Tem de ser alguém perto de mim, mas eu confio em todos vocês.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

                                   
                              AMÍLCAR CABRAL     

                                           LVIII                   

     AMÍLCAR CABRAL – A ALMA E AS CONTRADIÇÕES




Para alguns escritores e jornalistas, Amílcar Cabral foi o maior pensador político africano do seu tempo.
Muitos intelectuais vindos das colónias interiorizaram o marxismo, muito em voga nas universidades europeias que frequentavam. Ora, Karl Marx elaborara as suas teorias a partir do conhecimento da história, da sociologia e da economia das sociedades europeias industrializadas. A África não entrara nas suas contas. Compreende-se que os pensadores negros tenham sentido a necessidade de adaptar o marxismo ao continente africano, em que tanto o proletariado como a burguesia constituíam minorias sociais.
Cabral propôs modificações a aspetos fundamentais da teoria marxista-leninista e houve quem lhe chamasse neomarxista.
A mais importante das suas reflexões diz respeito à luta de classes como motor da história. Na inexistência desse motor, quase todos os povos africanos eram excluídos dela.
«Será que a história só começa a partir do momento em que se desencadeia o fenómeno classe e, consequentemente, a luta de classes?
Responder pela afirmativa seria situar fora da história todo o período da vida dos agrupamentos humanos, que vai da descoberta da caça e, posteriormente, da agricultura nómada e sedentária à criação do gado e à apropriação privada da terra. Mas seria também — o que nos recusamos a aceitar — considerar que vários agrupamentos humanos da África, Ásia e América Latina viviam sem história ou fora da história no momento em que foram submetidos ao jugo do imperialismo.»
A intrusão colonial em África interrompera o processo de desenvolvimento natural dos povos indígenas. Nem Amílcar, nem qualquer teórico da Negritude, se preocupou em quantificar o tempo de evolução que o esperava: séculos ou milénios.
«O nível das forças produtivas, determinante essencial do conteúdo e da forma da luta de classes, é a verdadeira e a permanente força motora da história.»
As trocas culturais tiveram muitas vezes custos sangrentos, mas conduziram a Humanidade para diante. Os países colocados nas charneiras das civilizações chocaram culturas novas. Portugal estava no extremo da Europa. As ideias levavam anos a atravessar a Ibéria, quase sempre transportadas por povos que a história tornara nómadas. Ao contrário, o norte de África entrou cedo na rota das civilizações. A sul, ficavam, primeiro, o deserto e, depois, a inóspita zona equatorial. Durante muitos séculos, uma parte importante da Península Ibérica foi colonizada por africanos.
Depois, a história seguiu o seu curso. Acabaram por ser os portugueses, que não tinham outro horizonte além do mar, os primeiros europeus a fazer chegar ao continente negro novas ideias e novos grilhões.
O colonialismo erodiu as culturas étnicas, mas só o fez muito devagar, começando pela população urbanizada. Os camponeses, mais distantes do colono e menos influenciados por ele, continuaram a ser os guardiões da tradição e do saber antigo. Os indígenas urbanos, muitas vezes descendentes de escravos que não chegaram a ser exportados e ficaram ao serviço dos patrões, assimilaram mais cedo a cultura europeia.
Um negro “assimilado” nem era de cá nem de lá e, às tantas, já não sabia se pertencia ao lado dos brancos ou o ao dos pretos. O apelo do modo de vida dos brancos era forte, mas os patrões não o aceitavam plenamente entre eles. Tratavam melhor a minoria que sabia falar a língua europeia e adotara o modo de vestir e o comportamento dos brancos, mas a cor da pele continuava bem à vista. Os outros negros desconfiavam dessa gente desenraizada.
Cabral não escreveu isso mas terá entendido que, a dada altura, todos, ou quase todos os negros assimilados desejaram ser brancos. Foi uma realidade que Frantz Fanon denunciou como intimamente fraturante.
Em termos históricos, esse fenómeno só atingiu um número importante de negros durante menos de um século. Antes da Conferência de Berlim e da ocupação efetiva do interior dos territórios, os contactos entre as raças davam-se apenas nas feitorias africanas do litoral, sendo muito mais limitados.
Alguns dos filhos das classes médias que iam nascendo nas colónias prosseguiam os estudos na antiga Metrópole. Conheceram o movimento da Negritude. A Negritude permitiu aos intelectuais negros o reforço do amor-próprio através da reafricanização das mentalidades.
Foi a essa pequena burguesia, a este grupo de assimilados, que coube o papel histórico de liderar as lutas de independência das colónias europeias em África. Boa parte dos quadros dirigentes do PAIGC, incluindo o próprio secretário-geral, provinha dela. O peso do pensamento teórico não deixava de assustar Amílcar Cabral. Os vícios da pequena burguesia tinham sido proclamados bem alto pela literatura marxista.  A conclusão de Amílcar foi radical:
«Os pequenos burgueses que construíram a sociedade nova devem suicidar-se como classe política para se integrarem verdadeiramente no meio do povo.»
A elite colonial que assumia a luta revolucionária devia renunciar aos seus privilégios de classe e à cultura assimilada à portugalidade. Era a utopia no seu melhor. Cabral não tinha razão. Até ver, o marxismo falhou em África.
Se alguém tiver necessidade de catalogar a ideologia de Cabral deverá fazê-lo de forma abrangente. O pensamento de Cabral tem tonalidades marxista, democrática e africana negra. Para Amílcar Cabral, a libertação nacional era também um ato de cultura.
Amílcar Cabral foi um homem afável, um teórico com sentido prático que completou a formação intelectual vivendo. Defendeu, mais do que outros, que a guerra de libertação só tinha valor se a provação infligida ao povo servisse para lançar os alicerces de uma nova nacionalidade.
O problema era que, mais do que outros, precisava dela. Cabral renegou a Portugalidade, que se opunha à Negritude. A questão é que as opções dum homem criam uma realidade nova, mas não apagam de todo a anterior. Não é possível amputar um membro nem lançar for metade do coração. Amílcar Cabral combateu o colonialismo. Fê-lo denodadamente, durante uma década, sem nunca deixar de todo de ser português.