DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

                                                      
                                                     AMÍLCAR CABRAL

                                                                LII

          PEDRO PIRES, UM AFRICANO PREOCUPADO

 LIBERTOU A NAÇÃO     CONSTRUIU O ESTADO     CONSOLIDOU A DEMOCRACIA

Pedro Pires foi galardoado com o Prémio Mo Ibrahim, uma distinção pela boa governação de Cabo Verde, que ele desenvolveu, como primeiro-ministro entre 1975 e 1991 e como Presidente da República de 2001 a 2011.
" O Comité do Prémio ficou impressionado pela visão do Presidente Pedro Pires em transformar Cabo Verde num modelo de democracia, estabilidade e crescente prosperidade", considerou o presidente do júri, Salim Ahmed Salim.
Tenho a honra de me afirmar amigo deste homem notável e não posso deixar de me sentir orgulhoso por, finalmente, a comunidade internacional reconhecer os seus méritos excepcionais. Este reconhecimento a nível internacional deve tam bém ter enchido de orgulho os cabo-verdianos, mesmo aqueles que durante muito tempo o acusaram de coisas incríveis.
Pessoalmente acrescento a este contentamente o facto de ter produzido este texto muito tempo antes da atribuição do prémio e por constatar que as suas linhas gerais coincidem com as que foram adoptadas pelo júri do prémio Mo Ibrahim.
                                                                                                                                                  Leston Bandeira



Pedro Pires, cujo segundo e último mandato como presidente da República de Cabo Verde terminou em Setembro de 2011, anunciou em Agosto desse ano a intenção de iniciar de imediato a redacção das suas memórias . Citando o historiador Joseph Ki-Zerbo (1922-2006) , “enquanto os leões não tiverem os seus próprios historiadores, as histórias de caça continuarão a glorificar os caçadores”, o agora ex-presidente, em entrevista à Agência Lusa, explicou o seu respeito pela História e a necessidade de não haver apenas uma versão, permitindo, desse modo, aos historiadores uma informação que contemple todos os lados da intervenção histórica.
Este ano, na passagem do 36º aniversário da Independência do país, a cujas comemorações presidiu pela última vez, recordou “o valor da obra que realizámos de 5 de Julho de 1975 até aos dias de hoje. Este percurso de esperança, de perseverança e de autoconfiança deve continuar a inspirar-nos e a ser o suporte moral que nos assiste na concepção e na execução das pesadas e complexas tarefas que o futuro nos reserva”
Há uma tentativa de “ofuscar o gesto histórico” que foi o dos jovens africanos que fizeram a luta pela libertação da África Lusófona. “Se nós não tivéssemos lutado, se Angola e Moçambique, especialmente, não tivessem resistido, a África do Sul seria o que é hoje? Nelson Mandela seria tão elogiado, tão cantado hoje, se nós não tivéssemos lutado?” perguntou Pedro Pires, de quem se fica agora à espera de revelações importantes acerca dos processos históricos em que participou desde a sua juventude. Para os africanos será uma oportunidade de aprendizagem com um homem considerado hoje um verdadeiro SÁBIO.

Ao Encontro de Cabral e da Luta
PEDRO de Verona Rodrigues PIRES nasceu a 29 de Abril de 1934, no Concelho de S. Filipe, Ilha do Fogo, Cabo Verde, numa família de proprietários. Assistiu ao eclodir das grandes fomes de Cabo Verde, na década de 40 do século XX, provocadas pelas prolongadas secas no Arquipélago e pela pouca ou nenhuma atenção que as autoridades coloniais portuguesas prestavam à então mais pobre colónia do império.
Pedro Pires terminou os estudos secundário no Liceu de Gil Eanes, na Cidade do Mindelo, Ilha de S. Vicente, e seguiu, em 1956, para Lisboa onde se matriculou na Faculdade de Ciências.
Tendo sido chamado a prestar o serviço militar obrigatório na Força Aérea Portuguesa, em 29 de Junho de 1961, juntou-se a um grupo de jovens nacionalistas africanos e fugiu do país. Este grupo foi detido em Espanha, mas pressões políticas exercidas pelos países que já naquela data apoiavam a luta anti-colonial, foram libertos e conseguiram chegar a Paris. Daí segue para o Ghana onde se encontra com Amílcar Cabral , em seguida vai para a Guiné-Conakry, sede do Secretariado Geral do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Com a fundação da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), em Marrocos, parte para aquela capital para representar o PAIGC junto do secretariado da organização.
De 1962 a 1965 trabalha no Senegal e em França em acções de mobilização de combatentes e, a partir deste último ano até 1968, integra o primeiro núcleo de combatentes cabo-verdianos a receber formação militar em Cuba e na ex-URSS, com o objectivo de iniciarem a luta armada em território cabo-verdiano.
Este projecto não chegou a ser concretizado por razões que, seguramente, Pedro Pires explicitará melhor do que tem sido habitual, nas suas memórias. Nesse texto, aguardado com grande expectativa, não deixará de dar a sua versão da morte de Amílcar Cabral, ocorrida a 20 de Janeiro de 1973, ano em que Pires é escolhido para presidir à Comissão Nacional para Cabo Verde, como membro do Comité Executivo da Luta e do Concelho de Guerra.

Negociador hábil e primeiro chefe de Governo
Além destas funções políticas, no campo militar foi nomeado Comandante de Região Militar, qualidade que detinha em 1974, quando em Portugal ocorre o 25 de Abril, na sequência do qual o governo de Lisboa reconhece a Independência da Guiné Bissau, declarada unilateralmente em 24 de Setembro de 1973, ao mesmo tempo que aceita negociar a concessão da Independência a Cabo Verde. Estas negociações são chefiadas, pela parte cabo-verdiana, por Pedro Pires, que consegue um acordo, assinado em Londres a 19 Dezembro de 1974, segundo o qual a Independência de Cabo Verde teria lugar a 5 de Julho de 1975. Um mês antes é eleito deputado e escolhido para chefiar o Primeiro Governo Independente de Cabo Verde.
Durante mais de 15 anos (Julho de 1975 a Dezembro de 1991) Pedro Pires desenvolveu um plano de governação moderado com o fito de “garantir futuras parcerias no âmbito internacional”. Para que tal pensamento ficasse claro entre os membros dirigentes do PAIGC, dois dias antes do 5 de Julho de 1975 reuniu-se com a direcção do partido para defender que “este não podia ser um partido marxista-leninista”.
Todavia, as dificuldades para transformar o sonho de um país independente numa realidade que concretizasse as necessidades de um Povo no interior do qual ainda se morria de fome, eram muito maiores do que as imaginadas pelos homens que assumiram o peso de governar um país “impossível”, nos termos do relatório dos técnicos do Banco Mundial que visitaram Cabo Verde pela primeira vez em 1975/76.
Pires não aceitou a sentença do Banco Mundial com cuja delegação debateu calorosa e habilidosamente as conclusões, acabando por sugerir um relatório diferente: “digam pelo menos que há alguma possibilidade de reabilitação deste país”.
Com esta meia sentença de morte, Pedro Pires lançou o seu governo em direcção à cooperação internacional, aproveitando o grande prestígio granjeado pelo PAIGC durante a guerra anti-colonial na Guiné Bissau, junto das Nações Unidas e de países como a Holanda e a Suécia. Foram “as relações internacionais do PAIGC que permitem a afirmação de Cabo Verde como país independente” e, quando os seus ministros chegavam das suas viagens ao estrangeiro e se queixavam de que ninguém os conhecia, Pedro Pires explicava as razões e vaticinava: “um dia nós seremos um exemplo”.

Ruptura Com Bissau – PAICV
Entretanto, os dirigentes do PAIGC estavam divididos pela governação de dois países, a Guiné Bissau e Cabo Verde e, quando, em 14 de Novembro de 1980, Nino Vieira, então Comissário Principal do governo de Bissau deu um golpe de estado contra o primeiro presidente, Luís Cabral, irmão de Amílcar, os cabo-verdianos tiveram que abandonar a Guiné – muitos deles fugindo mesmo a uma perseguição racista que resultou do golpe de estado.
Na sequência destes acontecimentos, o braço cabo-verdiano do PAIGC fundou o PAICV, uma ruptura considerada pelo próprio Pedro Pires, em Julho de 2005 como uma decisão acertada, porque também deu “satisfação a alguns cabo-verdianos que não viam com bons olhos a unidade com Bissau sob o lema um partido dois estados”.
Foi, de resto, “ a partir desse momento que se começou a pensar no desenvolvimento de Cabo Verde através da liberalização da sua economia e abertura ao Mundo” – acrescentou Pires na mesma oportunidade (comemoração dos trinta anos de Independência).
Foi também a partir desta ruptura que os dirigentes cabo-verdianos começaram verdadeiramente a mobilizar o Povo das Ilhas para a recuperação do seu próprio ambiente. O programa de reflorestação atingiu mais de vinte milhões de árvores nos primeiros dez anos de Independência e as obras de engenharia agrícola levaram à construção de quilómetros e quilómetros de socalcos, destinados a segurar as águas das chuvas e impedir, dessa maneira, que as terras aráveis fossem para o mar.
Neste período, apesar de uma seca prolongada, foi possível multiplicar por mais de três as áreas agrícolas de regadio.
Estes projectos foram interrompidos durante os dois mandatos do MpD (Movimento para a Democracia), o que o PAICV de Pedro Pires viu com enorme desagrado, já que o país abandonou o seu grande projecto de “ser verde”, como queria Cabral.

Não às Alianças, Sim à Diplomacia
Esta abertura ao Mundo, todavia, foi sendo desenvolvida com algumas condições. Por exemplo, o governo de Pedro Pires não aceitava a distribuição gratuita da ajuda alimentar internacional pelas populações. Os géneros eram introduzidos no circuito comercial e o produto da sua venda constituía-se num “Fundo de Reconstrução Nacional” que pagava as obras públicas estruturantes da vida do país, tal como estradas por todas as Ilhas, utilizando mão de obra intensiva. Cada “frente de trabalho” devia ter emprego para pelo menos um membro de cada família da região onde se realizava a obra. E assim, alem de se reconstruir o país, evitava-se a criação de mais um povo assistido e dependente.
Esta política foi concretizada e avalizada, inclusivé pelos USA, que faziam muita questão na gratuitidade da ajuda alimentar, durante os trabalhos da Primeira Mesa Redonda dos Parceiros do Desenvolvimento de Cabo Verde, designação que substituiu a consagrada expressão “doadores”.
Esta reunião, realizada de 21 a 23 de Junho de 1982, contou com a presença de representantes de 22 países, 23 organizações internacionais e oito organizações não governamentais (ONG).
Pedro Pires aproveitou a oportunidade para defender a necessidade do apoio ao desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo e, “particularmente daqueles que tinham alcançado recentemente a Independência”. Considerou, na altura, tal apoio como “condição primordial ao exercício da soberania”.
No discurso de abertura, salientou que a via de desenvolvimento escolhida pelo seu país implicava igualmente “o respeito pelas tradições e pelas aspirações do povo cabo-verdiano, a favor da independência, da dignidade, da paz e da justiça social”.
É por isso – enfatizou - que “a despeito de todas as dificuldades que Cabo Verde possa encontrar para concretizar as suas metas de desenvolvimento económico, o governo manterá sem falta a sua recusa em implicar Cabo Verde nos antagonismos militares que dividem o Mundo”.
Na primeira grande reunião de carácter internacional, o chefe do governo da Praia aproveitava para se definir como um país neutro acerca das disputas Leste/Oeste e nessa linha, embora criticasse o regime do apartheid sul-africano, nunca impediu que os aviões da South African Airways escalassem a Ilha do Sal, onde, de resto, as tripulações faziam os descansos e respectivas rendições. A Pousada “Morabeza” era o hotel da SAA.

Abertura do Regime, a Caminho da Democracia
Enquanto, no plano externo Pedro Pires se distanciava de alianças manietadoras, no plano interno faltava-lhe cumprir a sua intenção de abrir a política à participação popular e foi definindo o partido por forma a contrariar os militantes que o viam não como um partido marxista-leninista, mas lá próximo. Será curioso ler as memórias de Pedro Pires a este propósito, já que a luta interna se acicatou com um seu discurso, na abertura do segundo encontro dos ministro da Justiça de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e S. Tomé e Príncipe, em Novembro de 1983 e em que preveniu que “o exercício absoluto do poder ameaça o futuro dos regimes”.
Perante uma assembleia mais ou menos surpreendida, Pires disse que “ a História recente de África tem-nos mostrado que o exercício absoluto do poder, traduzido na imposição de modelos não alicerçados no consenso social não garantem nem a paz social, nem a sobrevivência dos regimes”. Para o então primeiro-ministro o Direito era “um motor de transformação social”.
“A África dos golpes de estado, das permanentes convulsões sociais, não terá como fraqueza primeira a inexistência de estados institucionalizados, de um poder realmente enraizado no povo e de um sistema de normas e garantias assumidas conscientemente pela nação?”- perguntou.
Ao mesmo tempo que, claramente, indicava o caminho da abertura política como o próximo passo, Pedro Pires levou a diplomacia do seu pequeno país ao “atrevimento” de organizar encontros entre Sul-africanos e Angolanos com o objectivo de promover a paz na África Austral. A estes interlocutores juntaram-se, depois, americanos e representantes da SWAPO.
Foi em Cabo Verde, primeiro na Ilha do Sal e posteriormente em S. Vicente (Mindelo), com a sua orientação “discreta” – segundo fontes diplomáticas da época (1982/83) – que se construíram os primeiros passos para a solução da guerra que envolvia Angola a República da África do Sul e Cuba.
Cabo Verde desempenhou este papel, primeiro em segredo total e, posteriormente, com a discrição possível, admitindo, pela primeira vez, em Janeiro de 1983 “ a disposição de tudo fazer para propiciar condições ao desenvolvimento do diálogo que resolva conflitos abertos no Continente Africano”.
Esta disposição foi mal entendida mesmo por Cuba, cujo vice-presidente, Juan de Almeida Bosque, esteve na Cidade da Praia pressionando o governo de Pedro Pires, logo a seguir ao primeiro encontro entre angolanos e americanos, no sentido de desistir da iniciativa.
Ainda em 1983, durante um período de férias em Cuba, durante o qual se encontrou muitas vezes, informalmente, com Fidel de Castro, Pires disse ao líder cubano que “o sistema de partido único não fazia sentido em África”.
Os Estados Unidos, por sua vez, exerceram pressão sobre a República da África do Sul com a mesma intenção: recusa de negociações directas com Angola.
O Mundo, todavia, não deixou de reconhecer o papel de Cabo Verde, que daí para a frente, ficou conhecido como um “pequeno país com uma grande diplomacia”, ainda que tal ideia não agradasse aos países considerados como “grandes potências internacionais”.
Em simultâneo com esta movimentação diplomática e muitos anos antes da divulgação da Perestroika na URSS, era visível, por parte de Pedro Pires, a intenção de abrir o regime com o objectivo de terminar com o partido único. O discurso de Pedro Pires naquele Novembro de 1983 deu origem a um movimento de discussões interessantes acerca dos direitos humanos. Numa dessas discussões, transmitida em directo pela Rádio participou Carlos Veiga, que mais tarde viria a fundar o MpD e, por essa via, chegar ao poder em 1991.
Antes destes sinais de abertura, a oposição cabo-verdiana, primeiro ao PAIGC e depois ao PAICV passava sobretudo pela Igreja Católica, que patrocinava um jornal, o “Terra Nova”, cuja publicação era tolerada pelo regime, e pelos proprietários rurais absentistas, que pretendiam continuar com o sistema de rendeiros. Estes organizaram a 31 de Agosto de 1981, em Santo Antão, um protesto de que se falou durante muito tempo, mas que acabou com a condenação de um individuo por um Tribunal Militar, outra razão para que grupos de intelectuais, nomeadamente juristas, manifestassem o seu desacordo.

Primeiras Eleições Livres – a Derrota
O descontentamento dizia sobretudo respeito ao facto de a comunicação social ser tutelada pelo Estado, que, por sua vez, recebia indicações do partido. Pedro Pires fez algumas tentativas para abrir o jornal “Voz di Povo” à sociedade, bem como a Rádio oficial, mas a estrutura criada era insusceptível de mudanças. Só a ruptura seria eficaz.
A oposição, que entretanto se foi organizando, passou a recorrer a uma espécie de comunicação social clandestina, produzindo panfletos anónimos em que caluniava os ministros, os principais dirigentes políticos e a população começou a impacientar-se e a desejar a tal abertura política que só acontece em Fevereiro de 1990, quando, no IV Congresso do PAICV, Pedro Pires, ao mesmo tempo que é eleito à liderança, substituindo Aristides Pereira, anuncia a abertura do país ao pluralismo político.
Em Janeiro de 1991 realizam-se as primeiras eleições livres em Cabo Verde e o PAICV é derrotado pelo MpD.
O então primeiro-ministro, a quem os panfletos anónimos acusavam da corrupção mais ignominiosa, tem que ir viver para casa da mãe – não tinha casa própria, nem carro – .Os seus conterrâneos do Fogo, emigrados nos USA, ofereceram-lhe um.
Pedro Pires é eleito deputado pelo círculo eleitoral da Praia e, ainda nesse ano, no V Congresso do PAICV volta a ser eleito Secretário Geral, cargo que perde para José Maria Neves, actual Primeiro-ministro, em 1993. Todavia em Setembro de 1997 volta à liderança do partido e leva a peito a sua recuperação. Volta a viajar pela Europa; passa por Lisboa, sozinho, e hospeda-se em hotéis modestos; mobiliza os apoios necessários para que o PAICV ganhe as eleições autárquicas em 2000.

O Regresso Vitorioso
Nesse ano decide afastar-se da vida partidária activa e em Setembro anuncia a intenção de se candidatar à Presidência da República nas eleições de Fevereiro de 2001, onde vence Carlos Veiga, na segunda volta, com uma diferença de apenas 12 votos. O partido do seu adversário já havia perdido a maioria parlamentar e, por conseguinte, o poder, nas eleições legislativas de Janeiro desse mesmo ano.
Pedro Pires ganha as eleições e tem um governo do PAICV, chefiado pelo jovem que o havia derrotado na disputa partidária em 1993, José Maria Neves. As diferenças entre os dois são, todavia, apenas geracionais. José Maria é um produto do PAICV, enquanto construtor da sociedade cabo-verdiana, que o Banco Mundial considerou em 1975/76 como um “país impossível”. José Maria Neves foi adjunto de Renato Cardoso, o homem que iniciou a reestruturação da administração pública de Cabo Verde para a transformar num motor de progresso.
As relações entre os dois homens não terão sido as mais amistosas, mas, do ponto de vista institucional, José Maria teve sempre o apoio de Pedro Pires. Por exemplo, quando em Março de 2002 o Presidente da República promulgou o Orçamento Geral do Estado (OGE) contra toda a oposição parlamentar que argumentava com a necessidade de uma maioria qualificada para a sua aprovação na Assembleia Nacional (AN). Ora o PAICV tinha apenas uma maioria simples. Pedro Pires não hesitou, “mesmo correndo o risco de ser mal compreendido”.
Para ele, o essencial era que o Governo pudesse cumprir os seus compromissos e, entretanto, defendia alterações na Constituição que resolvessem, no futuro, aquele paradoxo constitucional.
Apesar desta colaboração, que irritou a oposição, já que perdeu uma oportunidade de colocar o Governo contra o Presidente da República, Pedro Pires não se demitiu das suas funções e, no mesmo mês, em que promulgou o OGE (Março de 2002) fez uma análise às Forças Armadas e defendeu a sua reforma, “tendo em conta os novos conteúdos que conceitos como a defesa e segurança adquiriram nos tempos modernos”.
Nesse mesmo mês dá posse ao governo remodelado elogiando a actuação do anterior, por ter sabido “conter a tentação da busca da popularidade fácil, enveredando por medidas nem sempre populares, mas que se impunham”.

Outro Sonho : a Nação Global
Ainda nesse ano (Abril) durante a realização do III Congresso de Quadros Cabo-verdianos na Diáspora, não deixou de teorizar sobre a natureza da condição da nacionalidade cabo-verdiana: “ a nação cabo-verdiana tem de encarar de frente a sua natureza «diasporizada» e assumir a dispersão pelos quatro cantos do Mundo como a sua verdadeira arquitectura. Nesse mesmo dia propôs o levantamento de um monumento ao “emigrante anónimo” e chamou a atenção dos quadros presentes no Congresso para a necessidade de não perder para a caboverdianidade os membros da segunda geração de emigrantes.

A 5 de Julho desse mesmo ano concretiza de forma objectiva a sua preocupação com a diáspora e vai comemorar a data da Independência Nacional aos Estados Unidos, com um programa especialmente dedicado às comunidades cabo-verdianas, embora – como sempre fez – não deixasse de aproveitar a oportunidade para se encontrar com individualidades norte-americanas, sobretudo ligadas aos apoios económicos a países como Cabo Verde.
Notoriamente houve uma estratégia concertada entre o Governo e a Presidência da República, já que José Maria Neves passou o 5 de Julho em Lisboa, junto das comunidades cabo-verdianas emigradas em Portugal.
À partida para os Estados Unidos, Pedro Pires disse aos jornalistas que ia “levar uma mensagem de caboverdianidade e homenagear e incentivar aqueles que sempre contribuíram para o desenvolvimento do país e para o bem estar de milhares dos seus familiares e amigos”. É a ideia na “Nação Glogal” que vai fazendo o seu caminho.
E, por isso, não pode deixar de cuidar dos interesses do Estado- Arquipélago e em Junho de 2002 discute com o presidente da Mauritânia, Maaouia Ould Sid Ahmed Taya, as fronteiras marítimas comuns. Na mesma altura assina um acordo aéreo que permite “às companhias de ambos os países voarem nos respectivos espaços aéreos sem muitas restrições e, além disso, transportar passageiros e carga para o espaço de uma e de outra e daí para países terceiros”.
Ainda em Junho, durante as comemorações do “Dia do Ambiente” volta a lembrar Amílcar Cabral, “agrónomo de profissão” e que sempre foi guiado pela “utopia de restaurar ecologicamente o Arquipélago e de o fazer verdadeiramente verde, honrando-lhe o nome”.
Ora dentro, ora fora, Pedro Pires não deixa de acompanhar o Mundo e no ano de 2002, no dia de África saúda a restauração da paz em Angola, para a qual tinha contribuído na década de oitenta do sec. XX. Nessa saudação não se esquece de recomendar que Angola “tem necessidade de um período de transição para a resolução dos problemas humanitários e a criação de um clima de confiança entre os vários actores políticos”.
Antes, em Abril, durante a sua primeira visita como chefe de estado a Portugal, defende, em Lisboa a introdução de currículos escolares sobre a cultura e história dos estados membros da CPLP, “para que a CPLP ande mais depressa”.

Um Africano Optimista mas Preocupado
O seu olhar não se fica, contudo, apenas pelos seus parceiros de língua e em Agosto de 2003 acha “prematura” a realização de eleições na Libéria “já em Outubro”, explicando que os liberianos precisam, “de um período de transição de pelo menos de dois anos”.
O exemplo da Libéria e outros dão-lhe força para no dia da comemoração do 28º aniversário da Independência do seu país afirmar que “em 28 anos mudámos completamente a face do nosso país” e assinala a “forma cívica” como se fizeram “as transições políticas em 1991 e em 2001.
Antes, em S. Tomé, já tinha chamado a atenção dos seus “irmãos” para o facto de “a estabilidade governativa e coesão social, bem como a governação capaz, constituem variáveis cruciais da equação da consolidação do regime democrático”.
Todavia, não se ficava pelos conselhos aos outros. Na sua terra, a 1 de Março desse terceiro ano como presidente, convocou extraordinariamente a Assembleia Nacional para apelar “à contenção dos principais partidos políticos”, envolvidos em acusações mútuas de comportamentos fraudulentos em eleições passadas, na expectativa das autárquicas que se avizinhavam.
Em Dezembro, na saudação de fim de ano, lembra que “ a consolidação do regime democrático” implica “ a tradição de que as instituições realizem os seus fins e cumpram integralmente os mandatos para os quais foram eleitos”.
“A virtude dos cidadãos é o fundamento de uma boa Republica” – acrescentou - e nesta altura alguém se lembrou das suas preocupações de Outubro de 2002 acerca da qualidade da democracia: “tem sido mais de partidos e menos de cidadãos”.

Diplomacia para o Futuro
Em 2004 dois acontecimentos internacionais marcam a presidência de Pedro Pires: pela primeira vez, depois de muitos anos de recusas, aceita participar na Cimeira da Organização da Francofonia (OIF) em Ouagadougou, capital do Burkina Faso.
Em Abril faz uma viagem relâmpago à Guiné Bissau para se inteirar da situação e no regresso faz a afirmação que há muito quereria proferir: ”não sou só amigo da Guiné Bissau, sinto-me guineense também. A Guiné é a minha segunda pátria”.
Em Janeiro de 2005, Pedro Pires volta a insistir na “garantia de uma maior eficiência das instituições do Estado de Direito, dotá-las de normas que garantam estabilidade, melhor governabilidade e removam factores geradores de bloqueios”.
Em Fevereiro defende a participação do Zimbabué na Cimeira União Europeia-África, a realizar em Lisboa. ”Por princípio” é contra o isolamento.
O Pedro Pires diplomata reaparece em força em Abril deste ano e, em Washington volta a discutir cooperação militar com os USA e a NATO, ao mesmo tempo que joga para a mesa das negociações a ajuda norte-americana através da “Conta do Depósito Milénio”, ao abrigo da qual Cabo Verde passa de “PMA” (País Menos Avançado) para País de Desenvolvimento Médio (PDM), o que determina mais dificuldades na obtenção de ajuda externa.
Nessa mesma altura – Abril de 2005 – discute o Exercício Naval da NATO, marcado para 2006 nas águas territoriais de Cabo Verde e o treino de forças especiais cabo-verdianas por unidades de fuzileiros navais dos USA.
Em Julho, no habitual discurso de comemoração da Independência – os 30 anos – Pedro Pires condenou “a negligência face ao trabalho e a indiferença face ao bem público”, mas não deixa de apelar ao orgulho cabo-verdiano: “Cabo Verde ganhou a Independência e afirmou-se como estado credível” (estaria a pensar no primeiro relatório do Banco Mundial…).

Estado de Direito, Um Apelo Permanente
Entretanto, o desenvolvimento do país em sectores importantes começa a levantar problemas novos e o Presidente Pires, durante uma visita à Universidade de Coimbra (Portugal), em Setembro, onde vai solicitar ajuda para a instalação da Universidade Pública de Cabo Verde, é confrontado com uma série de reivindicações de estudantes cabo-verdianos ligadas às dificuldades de sobrevivência sem apoios e à incerteza de trabalho no país aonde desejam regressar.
“É muito mais fácil formar pessoas do que criar emprego”, desabafa, acrescentando que “o Estado Cabo-verdiano tem reforçado a aposta na educação a uma velocidade que não é acompanhada pelo desenvolvimento económico”.

Recandidatura e Nova Vitória
Já na Cidade da Praia, na abertura da X Conferência dos Ministros da Justiça da Comunidade de Países de Língua Ofial Portuguesa (CPLP), diz que “os tribunais independentes são o aliado moral dos Estados de Direito”. Esta é a sua última intervenção pública antes de anunciar a sua recandidatura ao cargo de Presidente da República. Em Dezembro de 2005 faz o anúncio, afirmando que o seu nome “projecta uma imagem de honestidade” para um projecto de “credibilidade e desenvolvimento”, iniciado em 2001. Evoca igualmente a sua condição de “combatente anti-colonial”, a sua experiência como primeiro–ministro durante 16 anos e o seu contributo durante os últimos cinco anos como Presidente da República. Classifica-se a si próprio como “um homem de bom senso e construtor de consensos”.
A sua recandidatura, de novo contra Carlos Veiga, sai vitoriosa, desta vez por mais 3.500 votos e a sua missão de presidente defensor do estado de direito, da necessidade de África se entender sem necessitar de terceiros, bem como a construção de uma noção de caboverdianidade que abarque o Mundo tem mais cinco anos à frente. Esquece as habituais acusações de fraudes eleitorais e em Maio de 2006 está presente na IV Conferência de Tóquio sobre o Desenvolvimento em África.
Para ele, esta preocupação do Mundo com o desenvolvimento africano significa que África “está a ganhar visibilidade e interesse no plano internacional”, um continente “até há pouco tempo condenado”.
Todavia, não perde de vista outras realidades, outros possíveis aliados e no mês anterior recebe o Presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, que visitou Cabo Verde acompanhado de uma comitiva de empresários e a quem diz que é necessário “desenvolver as relações com os Açores para uma vertente económica”.

Movimentos Migratórios Ilegais, Outra Preocupação
Ainda em Abril volta-se, de novo para a diáspora, cujos quadros se reúnem no seu IV Congresso. Mais uma vez apela ao orgulho da caboverdianidade, explicando que o PIB per capita, em três anos multiplicou por sete, passando de 200 dólares para cerca de 1.500. Todavia, para ele, a “cultura é o primeiro factor de união dos cabo-verdianos espalhados pelo Mundo, a manutenção do cimento unificador dos cabo-verdianos” e exprime o seu “grande apreço pela forma empenhada como as comunidades cabo-verdianas exercem o seu direito de cidadania nas eleições, um dos actos de maior significado na vida de um país”.
Em Junho recusa participar na reunião Cimeira da Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO) porque as propostas de Cabo Verde para incluir na agenda a discussão da emigração ilegal não foi considerada.
Mas, em Julho, na VII Cimeira da União Africana (UA), realizada em Banjul, na Gâmbia, é criado um Centro de Estudos e Pesquisa sobre Migrações em África, o que, segundo Pedro Pires permitirá “um conhecimento mais profundo do fenómeno”, que preocupa particularmente Cabo Verde, já que o seu território, mercê das suas extensas fronteiras marítimas, funciona como plataforma para os movimentos migratórios clandestinos.
O mesmo tema é abordado com o Presidente da Região Autónoma das Canárias, Adam Martin, em visita à Cidade da Praia, em Setembro. Ambos reconhecem ser “necessária uma gestão dos fluxos migratórios e não permitir que se façam de forma caótica, descontrolada. Devemos discutir, negociar e estabelecer as regras”, concluíram.

Testamento Político
Ainda neste mesmo mês, Pedro Pires como que faz um testamento político e diz que “gostaria de deixar no espírito das pessoas uma vontade convergente de um país que ultrapasse as suas fronteiras e criar um futuro comum com todos os cabo-verdianos que se encontram espalhados pelo Mundo – uma Nação Global “. Faz esta declaração em Lisboa, quando perguntado sobre o que gostaria de deixar ao seu país.
No ano seguinte – 2007 - , em Maio visita a China, “um parceiro importante de Cabo Verde e de toda a região africana”, reúne-se com o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao e visita, em Xangai, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).
Ao mesmo tempo que vai tentando abrir mais caminhos para o desenvolvimento de Cabo Verde não deixa de olhar para o grande espaço africano. A 25 de Maio, no dia de África, que assinala a fundação, em Adis-Abeba, em 1963, da OUA (Organização de Unidade Africana) Pedro Pires regozija-se com o “crescimento do investimento directo estrangeiro” em África, que “cresceu 200 por cento entre 2000 e 2005. Além disso era possível nesse ano afirmar que o peso da dívida externa africana tinha diminuído: “A Nigéria, principal devedor africano, pagou toda a sua dívida”.
O crescimento “das exportações africanas em 25 por cento, em média, nos últimos três anos”, foi outra razão de contentamento para Pedro Pires.
Em Novembro, Pedro Pires defende na 34ª Conferência da FAO a produção de biocombustíveis, “desde que não concorram com a produção agrícola para a alimentação humana, não ponha em causa a segurança alimentar para todos, sem contribuir para a destruição das florestas primárias e se faça com as devidas precauções sociais e ambientais”.

Angola e França, Defesa da Emigração Cabo-verdiana
Em 2008 faz duas visitas importantes: a França, onde se encontra com Sarkozy, que salienta as “relações privilegiadas entre os dois países” e sugere a divulgação da língua francesa nas escolas cabo-verdianas. Quanto ao “avanço das relações de Cabo Verde com a Europa, falou da necessidade de se “criarem condições para que haja uma emigração cabo-verdiana legal”.
Em Dezembro, visita Angola, acompanhado de uma grande comitiva de empresários. Em Luanda considerou que os cabo-verdianos a viver em Angola “são angolanos de ascendência cabo-verdiana” e assina um primeiro acordo de Segurança Social com as autoridades de Luanda, que beneficia os trabalhadores cabo-verdianos a trabalhar em Angola.
No plano externo junta-se a Angola e defende a “necessidade de reformas” nas organizações de que ambos os países fazem parte: CPLP, ONU e UA
Em plena crise, dentro do país, vira-se para a questão energética e defende a ideia de que o Sol e o Vento devem ser utilizados na produção de energia para que o país “fuja à dependência do petróleo”, ao mesmo tempo que, perante a crise que assola o Mundo considera que “não são possíveis soluções improvisadas, individualistas ou de um grupo de pessoas ou interesses” e aponta as “revoltas contra a vida cara” e os “prenúncios de fome” como avisos. “Não podemos correr o risco de ver perder-se o que foi conseguido ao longo de três décadas”- afirma Pedro Pires aquando da visita à maior central do Mundo de energia fotovoltaica, na Amareleja, Alentejo, Portugal.

Reforma da ONU e Cooperação Inter-Africana
Em Setembro, na Assembleia Geral da ONU, tinha exigido a “modernização e aumento da produção e produtividade agrícolas” com o “envolvimento dos países ricos e tecnologicamente avançados” e requer o “apoio dos organismos internacionais”. Sugere ainda formas de “compensação financeira” aos países “mais lesados” com a subida do preço dos combustíveis. “estou a pensar no meu país e no Continente Africano”, esclareceu.
As suas preocupações com África tinham voltado a manifestar-se em Maio deste mesmo ano, sobretudo com a Somália, “um país que há vinte anos não tem Estado” e que, por isso “é o caso que merece as maiores preocupações no Continente”, que, segundo disse, “está melhor do que muitos pensam”.
É ainda a preocupação da defesa de uma África capaz de se entender que o leva a defender em Moçambique, durante uma visita de estado que ali realizou em Novembro de 2010, “um aprofundamento da relação Sul-Sul” e uma “cooperação inter-africana reforçada. É com certeza a mesma preocupação que o leva a insistir na necessidade de reformas das Nações Unidas e do seu Conselho de Segurança, “para que todos os países se sintam representados nesse órgão”.

Principais distinções recebidas por Pedro Pires:
De Cabo Verde – Ordem Amílcar Cabral
Da Guiné Bissau – Medalha Amílcar Cabral
Do Senegal – Ordem Nacional do Leão
De Portugal – Ordem Infante D. Henrique
Do Reino de Espanha – Colar da Ordem das Ilhas Canárias
Da Gambia – Rank of Grand Commander of the National Order
Da República de Timor Leste - Grande Colar da Ordem de Timor-Leste.
O agora ex-presidente de Cabo Verde também foi distinguido com os seguintes títulos académicos:
DOUTOR HONORIS CAUSA pelas Universidades do Ceará, no Brasil, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e Universidade Lusófona.

                                                                                                        Leston Bandeira

domingo, 7 de julho de 2013

Os rapazes de Spínola

                       
                   AMILCAR CABRAL

                            LI

              OS RAPAZES DE SPÍNOLA


As academias proporcionam a informação essencial, mas os verdadeiros chefes militares revelam-se em combate. Muitos não frequentaram qualquer academia. 
Comissões sucessivas nos diversos teatros de operações contribuíram para formar nas Forças Armadas Portuguesas um escol de oficiais. Alguns combateram na Guiné, às ordens do general António de Spínola. Chamavam-lhe “os rapazes de Spínola” e havia quem os apelidasse de “os sete magníficos”.
Carlos Fabião foi um deles. Foi promovido por distinção e muitas vezes louvado e condecorado. Tratava-se de um homem completo: comandante militar, cidadão, político e chefe de família. O facto de gostar de escrever e de ter deixado muitos artigos publicados facilita as referências que lhe fazemos. Ouçamo-lo falar dos outros centuriões:
Eram o Ricardo Durão, o tenente-coronel Firmino Miguel, o major Pereira da Costa, o major Bruno, o major Carlos Azeredo e o major Carlos Morais. Posteriormente, o major Dias de Lima substituiu o Carlos Morais e o tenente-coronel Artur Baptista veio a substituir o Firmino Miguel. Juntou-se também a este grupo o capitão António Ramos. Era este o núcleo duro do "staff" do general. Otelo esteve também na Guiné, mas colocado numa repartição.
Marcelino da Mata também os conheceu bem:
O comandante-chefe era o general Spínola, de quem eu tinha tudo o que queria: eu dizia que havia qualquer coisa em qualquer lado e ele dizia para eu ir e fazer o que entendesse melhor. Durante essa época, quem fez muitas operações comigo foi o capitão paraquedista António Ramos, que era um grande guerreiro – fizemos mais de 200 operações juntos. Os outros bons guerreiros que conheci foram: no Exército, o major de cavalaria Carlos Azeredo e o major de infantaria Carlos Fabião; na Marinha, o primeiro-tenente fuzileiro Rebordão de Brito e o Alpoim Calvão. Na Força Aérea, o major piloto-aviador Zuquete, o tenente-coronel piloto-aviador Almeida Brito que foi abatido junto à fronteira sul da Guiné por um míssil “Strella” e o major piloto-aviador Fernando Vasquez que hoje é general. Dos que foram graduados em generais depois do 25 de Abril, o Fabião era o único que merecia: foi um homem muito corajoso no mato, que nunca virou as costas ao inimigo e limpou a zona sul toda em 4 anos. Já o capitão de artilharia Otelo Saraiva de Carvalho nunca participou numa operação.”
Voltemos a Carlos Fabião:
Quando me mandaram para a Guiné, tinha duas coisas a meu favor. Tinha seis anos de Guiné em tempo de paz - conhecia toda a Guiné - e os conhecimentos da guerra subversiva em Angola devido à comissão de 27 meses que tinha feito e que correu muito bem. A minha companhia em Angola era conhecida como «a companhia dos camelos». Na Guiné, comandei uma companhia de caçadores, entre 1965 e 1967. Na altura, era a companhia mais prestigiada da Guiné e isso fez com que eu fosse condecorado com a medalha de Valor Militar de Prata e fosse promovido a major, por distinção. Foi aqui que começou a ser conhecido, digamos assim, o nome de Fabião.        
Há muita gente que diz que houve grandes diferenças entre a guerra em Angola e a guerra na Guiné, mas eu não notei nenhuma. A guerra subversiva era igual em qualquer sítio. Para mim, que era uma máquina que subia mal mas andava bem na planície, a guerra na Guiné foi melhor, porque o terreno era plano. Apesar de na época das chuvas o terreno ser pantanoso, eu deslocava-me melhor na Guiné do que em Angola. Em Angola, na zona do Cuanza Norte, onde estive, os terrenos eram altos, muito altos, mas fazia-se quase tudo de carro porque as distâncias não permitiam andar a pé. Quando estive na Guiné, antes da guerra, caçava muito e, portanto, estava habituado ao terreno. A minha companhia era de intervenção. Havia um batalhão que cobria uma área, tinha duas ou três companhias em quadrícula e uma companhia liberta que fazia as operações. Era a minha. Fazíamos todo o tipo de operações imagináveis: operações, golpes de mão, emboscadas, patrulhamentos, rusgas. O comandante de batalhão fazia as operações, nomeava, pedia os reforços, entregava-me e eu estudava aquilo no terreno. Gostava muito de funcionar com africanos. Já vinha do tempo de paz. Tinha sempre negros de confiança que trabalhavam comigo e que planeavam as operações comigo e me informavam. A princípio, a maioria deles, estavam nos caçadores nativos ou  nas milícias. Mais tarde, quando fiz a minha última comissão na Guiné, Spínola resolveu rendibilizar ao máximo esses africanos e convidou-me para ir para lá e organizar um corpo especial com esses indivíduos. Criei assim o Comando Geral das Milícias.

João de Almeida Bruno, oficial de cavalaria com a especialidade de Comando, foi o primeiro Comandante do Batalhão de Comandos Africanos. Desempenhou essas funções entre maio de 1968 e julho de 1970. O batalhão tinha como principal missão atacar as bases do PAIGC instaladas nas regiões fronteiriças da Guiné-Conakry e do Senegal. Para dificultar a identificação formal dos autores das incursões, que todos conheciam, eram equipados com armamento soviético capturado ao inimigo (Kalashinikov, Degtyarev, RPG2 e RPG79).
Almeida Bruno foi ajudante de campo do general Spínola. Gostou sempre de dar o nome de pedras preciosas às operações que dirigia. Em maio de 1973, planeou e comandou uma arriscada ação militar no interior do território do Senegal. Objetivo: atacar e destruir a base do PAIGC instalada na zona de Kumbamory. Era a partir daqui que as forças da guerrilha flagelavam a nossa posição em Guidaje, no norte da Guiné mesmo em cima da fronteira.
Após o 25 de abril, desempenhou vários altos cargos militares. Reformou-se como general.

 Mário Firmino Miguel era natural de Sintra. Oficial notável, de feitio conciliador, foi Chefe do Estado-Maior do Exército entre 1987 e 1991. Viria aintegrar, como ministro da Defesa os três primeiros governos constitucionais. Faleceu aos 59 anos num acidente de automóvel.

Carlos Manuel de Azeredo Pinto Melo e Leme nasceu perto do Marco de Canaveses. Oficial de cavalaria, cumpriu cinco comissões no Ultramar: duas na Índia, uma em Cabinda e duas na Guiné. No antigo Estado Português da Índia, foi aprisionado pelas tropas indianas.
Dirigiu o Planeamento e comandou a execução do movimento militar do 25 de abril no norte de Portugal.
Foi o último governador civil da Madeira. Mais tarde, foi assessor militar do Primeiro Ministro Francisco Sá Carneiro, 2º comandante da Região Militar Norte e Inspetor para a Arma de Cavalaria. Depois de promovido a general, dirigiu a Arma de Cavalaria e a Região Militar Norte.
       Apesar de ser monárquico, foi o chefe da Casa Militar do Presidente da República Mário Soares. Nas eleições autárquicas de 1997, candidatou-se à presidência da Câmara Municipal do Porto, chefiando uma coligação do PSD com o CDS. Derrotado por Fernando Gomes, cumpriu o mandato de vereador durante os quatro que lhe competiam.
O seu feitio peculiar dificultou-lhe as relações com alguns superiores hierárquicos, tendo sido punido algumas vezes. Não foram tantas como as ocasiões em que foi condecorado. Recebeu a Cruz de Guerra de 1ª Classe, duas medalhas de Serviços Distintos - Ouro e Prata com Palma - as Grãs- Cruzes das Ordens de Cristo e de Avis, do Império Britânico e outras de menor importância.
      É autor de vários livros, entre os quais se contam: “Trabalhos e Dias de um Soldado do Império”, de cariz autobiográfico, e “Invasão do norte: 1809 - A Campanha do General Silveira contra o Marechal Soult”.

Ricardo Ferreira Durão realizou quatro missões em África: uma em  Angola, duas na Guiné (entre 1965 e1970) e uma em São Tomé.
Falou do período em que esteve na Guiné.
“Fui para a Guiné como oficial de operações do batalhão, para o leste, uma área fula, que era uma etnia favorável aos portugueses. Era uma área muito extensa, com uma população razoável. Nós andávamos no meio da população com à vontade. Havia amizade. O leste não era tão florestal como o resto do território, era savana aberta, onde era muito difícil eles terem esconderijos. De maneira que atravessavam a fronteira com grupos muito fortes que dizimavam aldeias e povoações e pegavam fogo a tudo. Nós tínhamos de intervir e quando o fazíamos deparávamos com grupos militarmente muito fortes que depois saíam. Havia situações em que as forças inimigas eram na ordem dos duzentos homens bem armados. Tinham tudo quanto havia de armamento moderno na altura, ido da União Soviética, da Checoslováquia, etc. Estavam bem organizados, fardados, com aspeto militar, orientação e força. Na Guiné eles transitavam livremente ali perto, no Senegal, na República da Guiné, com grupos bem constituídos, entravam e saíam com grande capacidade de combate. Mao Tsé Tung dizia que um guerrilheiro devia estar entre a população como um peixe na água e o P.A.I.G.C. seguia isso. Eles tinham o apoio dos comunistas porque tinham que ter um apoio qualquer, mas se nós lhes déssemos apoio para o futuro da Guiné, eles ficariam do nosso lado”.
 Segundo Ricardo Durão, era frequente haver um alferes branco a dirigir um grupo de trinta homens africanos. Os soldados que serviam Portugal eram de etnia maioritariamente fula.
Durão acompanhou as negociações com elementos do PAIGC que levou à morte dos majores Passos Ramos, Pereira da Silva e Osório.
Reformou-se como general.

Carlos Alexandre de Morais, nascido em 1931 na vila de Valpoi, distrito de Goa, foi oficial de cavalaria do Exército Português.
No 25 de abril estava já na reserva, como major. Serviu de intermediário entre Otelo Saraiva de Carvalho e Spínola. Foi promovido a coronel.
 Escreveu "A Queda da Índia Portuguesa. Crónica da Invasão e do Cativeiro”. Os acontecimentos reportam-se a 1962 e ao campo de concentração de Pondá, onde estiveram presos durante largos meses cerca de 1750 militares e civis, na sequência da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.
Faleceu em abril de 2007.

Não consegui reunir muita informação sobre o major Jorge Viana Pereira da Costa. Chefiou o Serviço de Informações Militares na Guiné, onde era conhecido pela alcunha de «Astérix». Desempenhou um papel importante na preparação do livro «Portugal e o futuro».

Como vemos, António de Spínola soube rodear-se de oficiais que, para além de terem demonstrado o seu valor em combate, possuíam uma craveira intelectual acima da média.
Seria tarefa árdua contabilizar as condecorações com que foram agraciados, ao longo da vida, os “sete magníficos” oficiais do general do monóculo. Curiosamente, esses militares de elite eram também homens de cultura. Para o comprovar, bastará dar uma vista de olhos à lista de livros e artigos que deixaram escritos.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Peço desculpa!


Peço desculpa!

Peço desculpa à Bolivia pelo modo como o seu Presidente foi tratado pelas autoridades aeronáuticas portuguesas. O pretexto nem foi relevante. Evo Morales foi desrespeitado. É um líder digno de um País amigo e deveria ter sido tratado como tal. Não o foi!
Falo em nome próprio. Não represento ninguém, embora saiba que há muitos portugueses que pensam como eu. Cidadão livre de uma Nação que já foi livre e hoje se verga ao protetorado da finança internacional e ao império de vontades estrangeiras, pouco posso fazer, além de aguardar que os tempos melhorem. Isso não me impede de me envergonhar.
Volto a pedir perdão e reitero a minha amizade pela Bolivia.


António Trabulo

terça-feira, 2 de julho de 2013

ASSASSÍNIO EM NOTRE DAME

                            

                            Capítulo IX

Pouco tempo depois, chegaram a Reims.
- O chefe chegou. – Disse Megnon, ao abrir a porta.
- Já fizeram os testes de segurança necessários? – Perguntou Lasone, apressado.
Os guardas não tiveram tempo de responder, pois Fréderique aproximou-se logo do bilhete e começou a lê-lo:
“Já fomos bastante pacientes. Entregue-nos MacLarens. Não tem nem nunca irá ter provas suficientes para descobrir quem sou. Não vale a pena fugir, nós vimos e ouvimos tudo e encontrá-lo-emos em qualquer local do planeta.
Assinado: XX”
- Outra ameaça… – Suspirou Lasone. – Diz que não vale a pena fugir.
- O que fazemos agora? – Inquiriu Joshua, preocupado.
- Vamos ter de o levar para um sítio seguro. Ninguém poderá saber para onde vai. Sem exceções! Sairemos daqui o mais rápido possível. – Disse Fréderique ao ouvido de MacLarens.
No dia seguinte, de madrugada, Lasone e os seguranças acordaram MacLarens e levaram-no para um carro. Não dos blindados em que ele costumava movimentar-se desde que fora para Reims, mas dos mais normais. Não sabia ao que se devia aquela troca de veículo, mas também não perguntou. Simplesmente entrou e ficou calado, durante toda a viagem.
- Para onde me levam. – Disse, passada uma hora.
- Saber coloca-o em perigo. – Avisou Lasone.
MacLarens estava cansado que lhe dissessem que era perigoso saber as informações sobre a sua própria vida, mas não ripostou. Um dia ele descobriria o porquê de esconderem tanta coisa dele.
Pouco tempo, depois chegaram a uma casa muito acolhedora. Era quase o contrário da sede em Reims. Esta parecia uma vivenda como as outras todas. Entraram e as esperanças de Joshua confirmaram-se: tinha dois quartos, uma cozinha e uma sala com uma televisão e um sofá bege. 
- É aqui que vou ficar? – Perguntou Joshua.
- Sim, pelo menos nos próximos meses. Achámos que uma casa num bairro daria menos nas vistas. Mas o senhor nunca poderá sair daqui em horário nobre. E ninguém poderá vir visitá-lo. – Explicou Fréderique.
MacLarens não queria acreditar que agora que arranjara uma rapariga de quem realmente gostava iria ficar fechado ali, como se estivesse na prisão.
- Jean! Leva o senhor MacLarens ao seu quarto. – Ordenou Lasone.
Joshua seguiu o guarda até ao seu quarto, uma divisão alegre. As paredes eram amarelas e a mobília era uma cama e uma estante clara, cheia de livros. Joshua apreciava bastante ler e, por isso aquela foi a parte que ele mais gostou da casa.
Depois de observar todos os cantos do quarto, voltou para a sala. Estava lá Fréderique que lhe disse:
- Gosta da casa? Reparei que esteve a ver os livros. Soubemos que gosta de ler e quisemos que se sentisse em casa.
MacLarens acenou e regressou para o quarto. Sozinho sentia-se mais seguro.

                              Capítulo X

Tinham passado duas semanas. Joshua estava sentado na cama a pensar se algum dia iria sair daquela casa. O mais longe a que tinha chegado desde que tinha  ido para aquela casa era o terraço. Aquele período de tempo desde que descobrira que Marc morrera tinha sido o pior da sua vida. E por isso, tentava encontrar algo que o distraísse.
- Senhor, tenho uma coisa para lhe dar. – Chamou Lasone da sala.
MacLarens foi até ele e viu que estava com uma caixa nas mãos.
-Isto é para si. – Disse, entregando-lhe a caixa.
Joshua abriu o presente e descobriu que era um telemóvel. No dia em que fora para Reims, deixara lá o seu. Investigou o telemóvel e descobriu que tinha apenas dois contactos: o de Fréderique e um desconhecido.
- De quem é o segundo contacto?
- Ligue. Ficará feliz por descobrir. – Disse Fréderique, saindo da casa.
De quem poderia ser? MacLarens não conseguia ficar sem saber. Era demasiado curioso para isso. E por isso, telefonou ao número.
- Boa tarde. Quem fala? – Perguntou, quando lhe atenderam.
- Onde estás? – Disse o remetente.
Joshua reconheceu logo a voz. Era Mellie. Tinha tantas saudades dela. Será que lhe tinham dito que ele tinha de ficar num local seguro ou tê-la-iam apenas deixado esperar?
- Mellie! Tinha tantas saudades! Eu não te posso dizer onde estou, porque eu também não sei. Faz parte do protocolo de segurança - Respondeu o homem.
- Está tudo bem contigo? Também tenho muitas saudades.
- Quando sair daqui, irei logo ver-te.
MacLarens deixou escorrer uma lágrima.
Depois de falarem durante um longo período de tempo, Joshua foi para o quarto onde passava a maioria do tempo e começou a pensar no que aconteceria se fugisse dali. E foi isso que fez até adormecer num longo sono. Nessa noite, teve um sonho em que via Marc a sair de uma casa e ir com uma pessoa com uma máscara preta. Não conseguiu reconhecer se era um homem ou uma mulher. Estava escuro no sonho. Marc estava assustado e com uma arma apontada a ele. Nada mais conseguiu ver, pois acordou com uma ideia.
Levantou-se e mal se vestiu, abriu a janela e fugiu. Foi difícil, pois teve de passar pelo guarda e correr a toda a velocidade. Quando já tinha a certeza de que ninguém o seguia, foi a uma loja e procurou um mapa. Tinha trazido algum dinheiro e, por isso conseguiu comprá-lo.
Estava em Bordéus. Para ir para Paris ainda era uma viagem longa e por isso apanhou um comboio.
Durante a viagem, um rapaz com cerca de treze anos, sentou-se ao lado dele e começaram a falar.
- Para onde vai? – Perguntou o rapaz.
- Vou para Paris.
- Eu também. Os meus pais desapareceram sem deixar rasto uma semana depois de nos mudarmos para Lyon. Ando às voltas por França desde aí.
- A sério? Não tens amigos ou familiares que te possam ajudar. – Perguntou MacLarens, preocupado.
- Não. E o senhor, o que vai fazer a Paris?
- Eu também tenho uma história difícil. O meu irmão e o meu pai foram assassinados. O meu irmão foi morto o mês passado e o meu pai há dois anos. Acham que é a mesma pessoa que me quer matar a mim. E por isso levaram-me para um sítio secreto. Mas a pessoa descobriu-me e então mudaram-me para uma casa. Mas estava farto de não poder ver a minha namorada e então fugi. – Explicou Joshua.
- Ambos temos motivos difíceis de explicar para estarmos neste autocarro… – disse o rapaz. Sou o Mitchell, mas tratam-me por Mitch. E o senhor, como se chama?
- Sou o Joshua MacLarens. O teu nome não é francês. De onde és? – Inquiriu MacLarens.
- Sou de Inglaterra. Londres, mas o meu pai arranjou um emprego cá e tivemos de nos mudar. Não tenho amigos nem família nesta terra. Vou para Paris, pois é no único sítio que conheço em França. – Respondeu Mitch.
Um tempo depois, a criança adormeceu encostada a MacLarens. Este não conseguiria deixá-la sozinho no meio de Paris. Tinha de fazer alguma coisa. Mas o quê? Tinha deixado o telemóvel na casa, para não ser localizado e agora nunca conseguiria ligar a Mellie. E por isso, quando o comboio chegou a Paris acordou Mitch e pediu-lhe para o acompanhar.
A criança aceitou, porém um pouco desconfiada. Joshua pegou num mapa e tentou descobrir para onde ir. Na realidade, ele nunca tinha ido a casa de Mellie e não podia ir para o laboratório. E foi aí que se lembrou. Ele tinha tido uma visão com a casa da irmã dela. Era o número dezoito, da Rua Cloître Notre Dame.
- Vamos. – Disse a Mitch.
Depois de andarem alguns minutos, chegaram ao destino. Joshua não sabia o que iria dizer à irmã de Mellie. Ele nunca a vira e não queria que ela pensasse que ele lhe estava a enganar. Depois de pensar um pouco, tocou à campainha e quando a irmã de Mellie abriu a porta disse:
- Desculpe, a Mellie disse para nos encontrarmos aqui. Ela já chegou? – Perguntou MacLarens á mulher.
- Não, ela não vive cá e a estas horas deve estar no laboratório.
Dito isto, deixou escorrer uma lágrima.
- O que se passa? – Perguntou Joshua.
- O senhor lembra-me uma pessoa que me era muito querida. – Respondeu a irmã de Mellie.
- O Marc, certo? Sempre disseram que eu e o meu irmão éramos muito parecidos. – Respondeu Joshua.
Durante aquela conversa, Mitch não sabia o que dizer. Estava à porta da casa duma estranha com um desconhecido. Mas mesmo assim sentia-se reconfortado e seguro. Durante todo aquele tempo quem mais o tinha ajudado tinha sido um simples estranho.
- O senhor é o Joshua? O Marc falava muito de si, mas nunca disse que tinha um filho.
- Ele não é meu filho, é um amigo. O meu irmão falava de mim? Fréderique disse que ele nunca falava de mim. – Disse MacLarens.
- Fréderique não era noiva dele. Eu era. Ele contou-me muitos segredos. Entre, eu vou telefonar à Mellie a dizer-lhe que tem uma visita cá em casa.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

                                      
                               AMÍLCAR CABRAL  
                                        L

     ENCONTRO DE SPÍNOLA COM SENGHOR

                              


Fragoso Alas era agente da PIDE. Possuía um talento invulgar para a espionagem. Tinha estado dois anos na embaixada portuguesa de Kinshasa, sob a capa de adido comercial. Conhecia bem Mobutu e era ouvido por ele. Foi Fragoso quem conseguiu pôr Léopold Senghor, Presidente do Senegal, em contacto com o general Spínola.
Foi agendado um encontro no território República do Senegal. O tema da reunião era do conhecimento de Marcello Caetano. Tratava-se de estudar as hipóteses de estabelecer conversações tendo em vista alcançar uma solução negociada para o problema da Guiné-Bissau.
A reunião teve lugar a 18 de Maio de 1972. A equipa de que o comandante-em-chefe e governador-geral da Guiné se fez acompanhar na sua deslocação a um complexo turístico de Casamance (Clube Mediterranée), situado próximo da fronteira, era pequena. Constituíam-na Carlos Fabião, Fragoso Alas e o capitão Nunes Barata.  
A segurança imediata incluía dois helicópteros. Os jatos da Força Aérea Portuguesa sobrevoavam o lugar e um batalhão de paraquedistas estava de prevenção. As circunstâncias eram inéditas e havia de ter em conta a possibilidade de traição, quer da parte do PAIGC, que sabia do que se passava, quer do lado das forças senegalesas.
Entraram na sala de reuniões o general Spínola, o capitão Nunes Barata e Fragoso Alas. Carlos Fabião permaneceu junto aos helicópteros. Era o responsável pela segurança do general. Cabia-lhe a responsabilidade de comandar o ataque, se as coisas corressem mal. O plano de emergência consistia em bombardear de imediato a zona e fazer depois avançar os paraquedistas para liquidarem qualquer possível resistência e recolherem os vivos e os corpos dos nossos mortos.
Léopold Senghor fez jogo limpo. Verificou-se a coincidência de muitos pontos de vista do presidente da República do Senegal e do comandante das forças portuguesas na Guiné e foi possível traçar um plano de atuação, a submeter ao governo de Lisboa e aos movimentos independentistas. Projectava-se declarar, assim que possível, o cessar-fogo e organizar uma conferência sem condições prévias. Os representantes do governo português negociariam diretamente com os movimentos de libertação da Guiné-Bissau: o PAIGC e a FLING. A inclusão deste movimento, com pouca expressão no terreno, denunciava a vontade de Senghor continuar a proteger os interesses do Senegal no quadro duma futura independência. Tratava-se de um projeto a médio prazo. Durante um período de dez anos, enquanto se preparavam os quadros necessários para garantir a administração, o poder, na Guiné e em Cabo Verde, seria entregue a uma administração mista, constituída por elementos nomeados pelos movimentos independentistas e pelo governo português.  Seria então dada a palavra aos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, que decidiriam os termos do seu relacionamento futuro com Portugal: independência total, federação de estados ou inclusão numa comunidade afro-luso-brasileira. Curiosamente, o projeto estava em conformidade com as ideias defendidas por Caetano anos atrás. Por outro lado, dificilmente teria sido formulado sem o consentimento tácito de Amílcar Cabral, um homem que o destino pusera à frente de um movimento armado mas a quem o feitio predispunha às negociações.
Era a solução política que Spínola perseguia.
Ficou marcado um segundo encontro. 
António de Spínola deslocou-se a Lisboa e expôs ao primeiro-ministro português os resultados da reunião. Caetano tivera tempo para refletir e para tomar o pulso ao equilíbrio de forças em que assentava o poder. Considerava que, no quadro global da guerra em três territórios, a derrota militar na Guiné era preferível à negociações. O governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par.  Marcello Caetano exigiu o fim imediato dos contactos com Senghor. Portugal poderia ser vencido na Guiné, mas não negociaria. 
   Ao general Spínola não restava outra solução que não fosse a de continuar a guerra. Como achava que a continuação da política do governo português ia contra os interesses do país, começou a conspirar. 
Fica por saber se o PAIGC, seguro do seu poder militar, com as forças armadas portuguesas na defensiva, iria aceitar uma moratória de dez anos para o seu projecto de independência. Provavelmente, não o faria. De qualquer modo seria preferível começar a negociar, numa altura em que a luta armada se encontrava em fase de relativo equilíbrio.


quinta-feira, 27 de junho de 2013


Nota: Um pequeno acidente fez apagar os capítulos V e VI 
de "Assassínio em Notre Dame". São agora repostos.


         Capítulo V 

         - E agora? – inquiriu Joshua.
- Agora usaremos as suas visões para encontrarmos provas, suspeitos… até descobrirmos o assassino do seu irmão. – Disse Fréderique. - O primeiro passo para isso é irmos ao local do crime.
Nessa tarde foram á catedral de Notre Dame.
MacLarens já lá tinha ido, mas mesmo assim continuava maravilhado com a beleza e majestosidade da catedral. Mas Joshua nunca tinha ouvido falar de nenhuma sala secreta.
Entraram no monumento e após Fréderique carregar num botão situado em baixo do altar, atrás de uma pedra falsa, uma parede moveu-se, abrindo um túnel.
MacLarens estava pasmado a olhar para aquilo.  Como é que nunca ninguém tinha reparado ?
- Venha comigo. – Disse Lasone.
MacLarens seguiu Fréderique através do túnel, desceu umas escadas e quando abriram uma porta, viu uma grande sala com quadros, coisas que se pensavam perdidas e outras das quais nunca ninguém tinha ouvido falar.
- O que é isto? – Perguntou Joshua.
- A sala secreta de Notre Dame.
- Porque mantém isto escondido?
- Para não haver roubos e para proteger as coisas mais antigas e valiosas que o mundo tem. – explicou Lasone. – Mas não nos preocupemos com isso agora. Temos de trabalhar.
MacLarens não sabia o que fazer no local de um crime. Ele era um simples relojoeiro, dos poucos que ainda havia.
- Senhor, vá ter com Mellie Diagrone, - disse Lasone, apontando para uma mulher – ela saberá o que fazer consigo.
Mellie era uma mulher com trinta e poucos anos, cabelo castanho e olhos verdes. Era baixa e magra.
MacLarens foi até ela e apresentou-se, porém um pouco envergonhado.
Mellie fez o mesmo e de seguida, disse que ele poderia ajudá-la a recolher as provas.
Enquanto lhe ensinava, Joshua fazia muitas perguntas. Até que passado um tempo lhe perguntou onde trabalhava.
- Trabalho na AFCC de Paris. Sou cientista. – respondeu a mulher.
- Paris? Adoro esta cidade. Vivia cá antes de me mudar para Marselha.
- Marselha?
- Sim, antes de me “raptarem” ontem á noite. – disse com ironia. – Vivia cá com o meu irmão, mas depois ele fugiu. Quis acabar com as más recordações e por isso mudei-me para Marselha. – Explicou MacLarens.
- Eu conheci o Marc. Éramos muito chegados, pois ele namorava com a minha irmã. Ainda não consegui contar-lhe. Ela irá ficar devastada.
- É triste que tudo tenha acabado tão cedo. – declarou Joshua.
-Joshua, venha cá. Posso ter descoberto algo. – chamou Fréderique.
Lasone tinha estado a observar o cartucho da bala e o corpo de Marc.
- Veja isto: o tiro foi certeiro. O assassino deveria ser experiente.
- Mas na minha visão, o Marc dizia que daria o que o assassino queria, ou seja conheciam-se ou tinham algo em comum.
MacLarens e Lasone continuaram a pairar sobre o assunto até voltarem para casa.
          
     Capítulo VI

No dia seguinte, Joshua acordou cedo. Não por não ter sono, mas porque o alarme começou a tocar. Todos gritavam, corriam e tentavam descobrir o que tinha activado o alarme.
Até que Megnon, o guarda mandou todos pararem. Ele tinha descoberto a razão do barulho. Estava um cesto de fruta à porta. Depois de confirmarem que era seguro, Fréderique aproximou-se e leu o bilhete, baixinho.
“Entregue-nos o MacLarens, já matámos um e mataremos o outro da mesma maneira. Para bem do mundo, entreguem-no ou terão problemas.
Assinado: XX”
Enquanto lia o bilhete, todos olhavam para ele, pois queriam saber o que dizia. Mas Lasone, mal leu a carta, chamou o guarda e segredou-lhe algo. Jean pegou no bilhete e, juntamente com Fréderique, deixou a sala.
- Leve o bilhete a Mellie. Ela é a melhor cientista de França, decerto descobrirá algo. – ordenou Lasone ao guarda.
Lasone voltou para dentro e chamou MacLarens. Este segui-o até ao seu quarto, onde Fréderique lhe disse:
- O senhor está em perigo. As nossas suspeitas confirmam-se. Quem matou o seu irmão, quer matá-lo e para saber onde é esta sede, tem de trabalhar ou ter trabalhado cá.
- Acha que alguém que trabalha aqui, poderá ter matado o meu irmão?

- Infelizmente, parece ter sido assim.