DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 7 de julho de 2013

Os rapazes de Spínola

                       
                   AMILCAR CABRAL

                            LI

              OS RAPAZES DE SPÍNOLA


As academias proporcionam a informação essencial, mas os verdadeiros chefes militares revelam-se em combate. Muitos não frequentaram qualquer academia. 
Comissões sucessivas nos diversos teatros de operações contribuíram para formar nas Forças Armadas Portuguesas um escol de oficiais. Alguns combateram na Guiné, às ordens do general António de Spínola. Chamavam-lhe “os rapazes de Spínola” e havia quem os apelidasse de “os sete magníficos”.
Carlos Fabião foi um deles. Foi promovido por distinção e muitas vezes louvado e condecorado. Tratava-se de um homem completo: comandante militar, cidadão, político e chefe de família. O facto de gostar de escrever e de ter deixado muitos artigos publicados facilita as referências que lhe fazemos. Ouçamo-lo falar dos outros centuriões:
Eram o Ricardo Durão, o tenente-coronel Firmino Miguel, o major Pereira da Costa, o major Bruno, o major Carlos Azeredo e o major Carlos Morais. Posteriormente, o major Dias de Lima substituiu o Carlos Morais e o tenente-coronel Artur Baptista veio a substituir o Firmino Miguel. Juntou-se também a este grupo o capitão António Ramos. Era este o núcleo duro do "staff" do general. Otelo esteve também na Guiné, mas colocado numa repartição.
Marcelino da Mata também os conheceu bem:
O comandante-chefe era o general Spínola, de quem eu tinha tudo o que queria: eu dizia que havia qualquer coisa em qualquer lado e ele dizia para eu ir e fazer o que entendesse melhor. Durante essa época, quem fez muitas operações comigo foi o capitão paraquedista António Ramos, que era um grande guerreiro – fizemos mais de 200 operações juntos. Os outros bons guerreiros que conheci foram: no Exército, o major de cavalaria Carlos Azeredo e o major de infantaria Carlos Fabião; na Marinha, o primeiro-tenente fuzileiro Rebordão de Brito e o Alpoim Calvão. Na Força Aérea, o major piloto-aviador Zuquete, o tenente-coronel piloto-aviador Almeida Brito que foi abatido junto à fronteira sul da Guiné por um míssil “Strella” e o major piloto-aviador Fernando Vasquez que hoje é general. Dos que foram graduados em generais depois do 25 de Abril, o Fabião era o único que merecia: foi um homem muito corajoso no mato, que nunca virou as costas ao inimigo e limpou a zona sul toda em 4 anos. Já o capitão de artilharia Otelo Saraiva de Carvalho nunca participou numa operação.”
Voltemos a Carlos Fabião:
Quando me mandaram para a Guiné, tinha duas coisas a meu favor. Tinha seis anos de Guiné em tempo de paz - conhecia toda a Guiné - e os conhecimentos da guerra subversiva em Angola devido à comissão de 27 meses que tinha feito e que correu muito bem. A minha companhia em Angola era conhecida como «a companhia dos camelos». Na Guiné, comandei uma companhia de caçadores, entre 1965 e 1967. Na altura, era a companhia mais prestigiada da Guiné e isso fez com que eu fosse condecorado com a medalha de Valor Militar de Prata e fosse promovido a major, por distinção. Foi aqui que começou a ser conhecido, digamos assim, o nome de Fabião.        
Há muita gente que diz que houve grandes diferenças entre a guerra em Angola e a guerra na Guiné, mas eu não notei nenhuma. A guerra subversiva era igual em qualquer sítio. Para mim, que era uma máquina que subia mal mas andava bem na planície, a guerra na Guiné foi melhor, porque o terreno era plano. Apesar de na época das chuvas o terreno ser pantanoso, eu deslocava-me melhor na Guiné do que em Angola. Em Angola, na zona do Cuanza Norte, onde estive, os terrenos eram altos, muito altos, mas fazia-se quase tudo de carro porque as distâncias não permitiam andar a pé. Quando estive na Guiné, antes da guerra, caçava muito e, portanto, estava habituado ao terreno. A minha companhia era de intervenção. Havia um batalhão que cobria uma área, tinha duas ou três companhias em quadrícula e uma companhia liberta que fazia as operações. Era a minha. Fazíamos todo o tipo de operações imagináveis: operações, golpes de mão, emboscadas, patrulhamentos, rusgas. O comandante de batalhão fazia as operações, nomeava, pedia os reforços, entregava-me e eu estudava aquilo no terreno. Gostava muito de funcionar com africanos. Já vinha do tempo de paz. Tinha sempre negros de confiança que trabalhavam comigo e que planeavam as operações comigo e me informavam. A princípio, a maioria deles, estavam nos caçadores nativos ou  nas milícias. Mais tarde, quando fiz a minha última comissão na Guiné, Spínola resolveu rendibilizar ao máximo esses africanos e convidou-me para ir para lá e organizar um corpo especial com esses indivíduos. Criei assim o Comando Geral das Milícias.

João de Almeida Bruno, oficial de cavalaria com a especialidade de Comando, foi o primeiro Comandante do Batalhão de Comandos Africanos. Desempenhou essas funções entre maio de 1968 e julho de 1970. O batalhão tinha como principal missão atacar as bases do PAIGC instaladas nas regiões fronteiriças da Guiné-Conakry e do Senegal. Para dificultar a identificação formal dos autores das incursões, que todos conheciam, eram equipados com armamento soviético capturado ao inimigo (Kalashinikov, Degtyarev, RPG2 e RPG79).
Almeida Bruno foi ajudante de campo do general Spínola. Gostou sempre de dar o nome de pedras preciosas às operações que dirigia. Em maio de 1973, planeou e comandou uma arriscada ação militar no interior do território do Senegal. Objetivo: atacar e destruir a base do PAIGC instalada na zona de Kumbamory. Era a partir daqui que as forças da guerrilha flagelavam a nossa posição em Guidaje, no norte da Guiné mesmo em cima da fronteira.
Após o 25 de abril, desempenhou vários altos cargos militares. Reformou-se como general.

 Mário Firmino Miguel era natural de Sintra. Oficial notável, de feitio conciliador, foi Chefe do Estado-Maior do Exército entre 1987 e 1991. Viria aintegrar, como ministro da Defesa os três primeiros governos constitucionais. Faleceu aos 59 anos num acidente de automóvel.

Carlos Manuel de Azeredo Pinto Melo e Leme nasceu perto do Marco de Canaveses. Oficial de cavalaria, cumpriu cinco comissões no Ultramar: duas na Índia, uma em Cabinda e duas na Guiné. No antigo Estado Português da Índia, foi aprisionado pelas tropas indianas.
Dirigiu o Planeamento e comandou a execução do movimento militar do 25 de abril no norte de Portugal.
Foi o último governador civil da Madeira. Mais tarde, foi assessor militar do Primeiro Ministro Francisco Sá Carneiro, 2º comandante da Região Militar Norte e Inspetor para a Arma de Cavalaria. Depois de promovido a general, dirigiu a Arma de Cavalaria e a Região Militar Norte.
       Apesar de ser monárquico, foi o chefe da Casa Militar do Presidente da República Mário Soares. Nas eleições autárquicas de 1997, candidatou-se à presidência da Câmara Municipal do Porto, chefiando uma coligação do PSD com o CDS. Derrotado por Fernando Gomes, cumpriu o mandato de vereador durante os quatro que lhe competiam.
O seu feitio peculiar dificultou-lhe as relações com alguns superiores hierárquicos, tendo sido punido algumas vezes. Não foram tantas como as ocasiões em que foi condecorado. Recebeu a Cruz de Guerra de 1ª Classe, duas medalhas de Serviços Distintos - Ouro e Prata com Palma - as Grãs- Cruzes das Ordens de Cristo e de Avis, do Império Britânico e outras de menor importância.
      É autor de vários livros, entre os quais se contam: “Trabalhos e Dias de um Soldado do Império”, de cariz autobiográfico, e “Invasão do norte: 1809 - A Campanha do General Silveira contra o Marechal Soult”.

Ricardo Ferreira Durão realizou quatro missões em África: uma em  Angola, duas na Guiné (entre 1965 e1970) e uma em São Tomé.
Falou do período em que esteve na Guiné.
“Fui para a Guiné como oficial de operações do batalhão, para o leste, uma área fula, que era uma etnia favorável aos portugueses. Era uma área muito extensa, com uma população razoável. Nós andávamos no meio da população com à vontade. Havia amizade. O leste não era tão florestal como o resto do território, era savana aberta, onde era muito difícil eles terem esconderijos. De maneira que atravessavam a fronteira com grupos muito fortes que dizimavam aldeias e povoações e pegavam fogo a tudo. Nós tínhamos de intervir e quando o fazíamos deparávamos com grupos militarmente muito fortes que depois saíam. Havia situações em que as forças inimigas eram na ordem dos duzentos homens bem armados. Tinham tudo quanto havia de armamento moderno na altura, ido da União Soviética, da Checoslováquia, etc. Estavam bem organizados, fardados, com aspeto militar, orientação e força. Na Guiné eles transitavam livremente ali perto, no Senegal, na República da Guiné, com grupos bem constituídos, entravam e saíam com grande capacidade de combate. Mao Tsé Tung dizia que um guerrilheiro devia estar entre a população como um peixe na água e o P.A.I.G.C. seguia isso. Eles tinham o apoio dos comunistas porque tinham que ter um apoio qualquer, mas se nós lhes déssemos apoio para o futuro da Guiné, eles ficariam do nosso lado”.
 Segundo Ricardo Durão, era frequente haver um alferes branco a dirigir um grupo de trinta homens africanos. Os soldados que serviam Portugal eram de etnia maioritariamente fula.
Durão acompanhou as negociações com elementos do PAIGC que levou à morte dos majores Passos Ramos, Pereira da Silva e Osório.
Reformou-se como general.

Carlos Alexandre de Morais, nascido em 1931 na vila de Valpoi, distrito de Goa, foi oficial de cavalaria do Exército Português.
No 25 de abril estava já na reserva, como major. Serviu de intermediário entre Otelo Saraiva de Carvalho e Spínola. Foi promovido a coronel.
 Escreveu "A Queda da Índia Portuguesa. Crónica da Invasão e do Cativeiro”. Os acontecimentos reportam-se a 1962 e ao campo de concentração de Pondá, onde estiveram presos durante largos meses cerca de 1750 militares e civis, na sequência da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.
Faleceu em abril de 2007.

Não consegui reunir muita informação sobre o major Jorge Viana Pereira da Costa. Chefiou o Serviço de Informações Militares na Guiné, onde era conhecido pela alcunha de «Astérix». Desempenhou um papel importante na preparação do livro «Portugal e o futuro».

Como vemos, António de Spínola soube rodear-se de oficiais que, para além de terem demonstrado o seu valor em combate, possuíam uma craveira intelectual acima da média.
Seria tarefa árdua contabilizar as condecorações com que foram agraciados, ao longo da vida, os “sete magníficos” oficiais do general do monóculo. Curiosamente, esses militares de elite eram também homens de cultura. Para o comprovar, bastará dar uma vista de olhos à lista de livros e artigos que deixaram escritos.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Peço desculpa!


Peço desculpa!

Peço desculpa à Bolivia pelo modo como o seu Presidente foi tratado pelas autoridades aeronáuticas portuguesas. O pretexto nem foi relevante. Evo Morales foi desrespeitado. É um líder digno de um País amigo e deveria ter sido tratado como tal. Não o foi!
Falo em nome próprio. Não represento ninguém, embora saiba que há muitos portugueses que pensam como eu. Cidadão livre de uma Nação que já foi livre e hoje se verga ao protetorado da finança internacional e ao império de vontades estrangeiras, pouco posso fazer, além de aguardar que os tempos melhorem. Isso não me impede de me envergonhar.
Volto a pedir perdão e reitero a minha amizade pela Bolivia.


António Trabulo

terça-feira, 2 de julho de 2013

ASSASSÍNIO EM NOTRE DAME

                            

                            Capítulo IX

Pouco tempo depois, chegaram a Reims.
- O chefe chegou. – Disse Megnon, ao abrir a porta.
- Já fizeram os testes de segurança necessários? – Perguntou Lasone, apressado.
Os guardas não tiveram tempo de responder, pois Fréderique aproximou-se logo do bilhete e começou a lê-lo:
“Já fomos bastante pacientes. Entregue-nos MacLarens. Não tem nem nunca irá ter provas suficientes para descobrir quem sou. Não vale a pena fugir, nós vimos e ouvimos tudo e encontrá-lo-emos em qualquer local do planeta.
Assinado: XX”
- Outra ameaça… – Suspirou Lasone. – Diz que não vale a pena fugir.
- O que fazemos agora? – Inquiriu Joshua, preocupado.
- Vamos ter de o levar para um sítio seguro. Ninguém poderá saber para onde vai. Sem exceções! Sairemos daqui o mais rápido possível. – Disse Fréderique ao ouvido de MacLarens.
No dia seguinte, de madrugada, Lasone e os seguranças acordaram MacLarens e levaram-no para um carro. Não dos blindados em que ele costumava movimentar-se desde que fora para Reims, mas dos mais normais. Não sabia ao que se devia aquela troca de veículo, mas também não perguntou. Simplesmente entrou e ficou calado, durante toda a viagem.
- Para onde me levam. – Disse, passada uma hora.
- Saber coloca-o em perigo. – Avisou Lasone.
MacLarens estava cansado que lhe dissessem que era perigoso saber as informações sobre a sua própria vida, mas não ripostou. Um dia ele descobriria o porquê de esconderem tanta coisa dele.
Pouco tempo, depois chegaram a uma casa muito acolhedora. Era quase o contrário da sede em Reims. Esta parecia uma vivenda como as outras todas. Entraram e as esperanças de Joshua confirmaram-se: tinha dois quartos, uma cozinha e uma sala com uma televisão e um sofá bege. 
- É aqui que vou ficar? – Perguntou Joshua.
- Sim, pelo menos nos próximos meses. Achámos que uma casa num bairro daria menos nas vistas. Mas o senhor nunca poderá sair daqui em horário nobre. E ninguém poderá vir visitá-lo. – Explicou Fréderique.
MacLarens não queria acreditar que agora que arranjara uma rapariga de quem realmente gostava iria ficar fechado ali, como se estivesse na prisão.
- Jean! Leva o senhor MacLarens ao seu quarto. – Ordenou Lasone.
Joshua seguiu o guarda até ao seu quarto, uma divisão alegre. As paredes eram amarelas e a mobília era uma cama e uma estante clara, cheia de livros. Joshua apreciava bastante ler e, por isso aquela foi a parte que ele mais gostou da casa.
Depois de observar todos os cantos do quarto, voltou para a sala. Estava lá Fréderique que lhe disse:
- Gosta da casa? Reparei que esteve a ver os livros. Soubemos que gosta de ler e quisemos que se sentisse em casa.
MacLarens acenou e regressou para o quarto. Sozinho sentia-se mais seguro.

                              Capítulo X

Tinham passado duas semanas. Joshua estava sentado na cama a pensar se algum dia iria sair daquela casa. O mais longe a que tinha chegado desde que tinha  ido para aquela casa era o terraço. Aquele período de tempo desde que descobrira que Marc morrera tinha sido o pior da sua vida. E por isso, tentava encontrar algo que o distraísse.
- Senhor, tenho uma coisa para lhe dar. – Chamou Lasone da sala.
MacLarens foi até ele e viu que estava com uma caixa nas mãos.
-Isto é para si. – Disse, entregando-lhe a caixa.
Joshua abriu o presente e descobriu que era um telemóvel. No dia em que fora para Reims, deixara lá o seu. Investigou o telemóvel e descobriu que tinha apenas dois contactos: o de Fréderique e um desconhecido.
- De quem é o segundo contacto?
- Ligue. Ficará feliz por descobrir. – Disse Fréderique, saindo da casa.
De quem poderia ser? MacLarens não conseguia ficar sem saber. Era demasiado curioso para isso. E por isso, telefonou ao número.
- Boa tarde. Quem fala? – Perguntou, quando lhe atenderam.
- Onde estás? – Disse o remetente.
Joshua reconheceu logo a voz. Era Mellie. Tinha tantas saudades dela. Será que lhe tinham dito que ele tinha de ficar num local seguro ou tê-la-iam apenas deixado esperar?
- Mellie! Tinha tantas saudades! Eu não te posso dizer onde estou, porque eu também não sei. Faz parte do protocolo de segurança - Respondeu o homem.
- Está tudo bem contigo? Também tenho muitas saudades.
- Quando sair daqui, irei logo ver-te.
MacLarens deixou escorrer uma lágrima.
Depois de falarem durante um longo período de tempo, Joshua foi para o quarto onde passava a maioria do tempo e começou a pensar no que aconteceria se fugisse dali. E foi isso que fez até adormecer num longo sono. Nessa noite, teve um sonho em que via Marc a sair de uma casa e ir com uma pessoa com uma máscara preta. Não conseguiu reconhecer se era um homem ou uma mulher. Estava escuro no sonho. Marc estava assustado e com uma arma apontada a ele. Nada mais conseguiu ver, pois acordou com uma ideia.
Levantou-se e mal se vestiu, abriu a janela e fugiu. Foi difícil, pois teve de passar pelo guarda e correr a toda a velocidade. Quando já tinha a certeza de que ninguém o seguia, foi a uma loja e procurou um mapa. Tinha trazido algum dinheiro e, por isso conseguiu comprá-lo.
Estava em Bordéus. Para ir para Paris ainda era uma viagem longa e por isso apanhou um comboio.
Durante a viagem, um rapaz com cerca de treze anos, sentou-se ao lado dele e começaram a falar.
- Para onde vai? – Perguntou o rapaz.
- Vou para Paris.
- Eu também. Os meus pais desapareceram sem deixar rasto uma semana depois de nos mudarmos para Lyon. Ando às voltas por França desde aí.
- A sério? Não tens amigos ou familiares que te possam ajudar. – Perguntou MacLarens, preocupado.
- Não. E o senhor, o que vai fazer a Paris?
- Eu também tenho uma história difícil. O meu irmão e o meu pai foram assassinados. O meu irmão foi morto o mês passado e o meu pai há dois anos. Acham que é a mesma pessoa que me quer matar a mim. E por isso levaram-me para um sítio secreto. Mas a pessoa descobriu-me e então mudaram-me para uma casa. Mas estava farto de não poder ver a minha namorada e então fugi. – Explicou Joshua.
- Ambos temos motivos difíceis de explicar para estarmos neste autocarro… – disse o rapaz. Sou o Mitchell, mas tratam-me por Mitch. E o senhor, como se chama?
- Sou o Joshua MacLarens. O teu nome não é francês. De onde és? – Inquiriu MacLarens.
- Sou de Inglaterra. Londres, mas o meu pai arranjou um emprego cá e tivemos de nos mudar. Não tenho amigos nem família nesta terra. Vou para Paris, pois é no único sítio que conheço em França. – Respondeu Mitch.
Um tempo depois, a criança adormeceu encostada a MacLarens. Este não conseguiria deixá-la sozinho no meio de Paris. Tinha de fazer alguma coisa. Mas o quê? Tinha deixado o telemóvel na casa, para não ser localizado e agora nunca conseguiria ligar a Mellie. E por isso, quando o comboio chegou a Paris acordou Mitch e pediu-lhe para o acompanhar.
A criança aceitou, porém um pouco desconfiada. Joshua pegou num mapa e tentou descobrir para onde ir. Na realidade, ele nunca tinha ido a casa de Mellie e não podia ir para o laboratório. E foi aí que se lembrou. Ele tinha tido uma visão com a casa da irmã dela. Era o número dezoito, da Rua Cloître Notre Dame.
- Vamos. – Disse a Mitch.
Depois de andarem alguns minutos, chegaram ao destino. Joshua não sabia o que iria dizer à irmã de Mellie. Ele nunca a vira e não queria que ela pensasse que ele lhe estava a enganar. Depois de pensar um pouco, tocou à campainha e quando a irmã de Mellie abriu a porta disse:
- Desculpe, a Mellie disse para nos encontrarmos aqui. Ela já chegou? – Perguntou MacLarens á mulher.
- Não, ela não vive cá e a estas horas deve estar no laboratório.
Dito isto, deixou escorrer uma lágrima.
- O que se passa? – Perguntou Joshua.
- O senhor lembra-me uma pessoa que me era muito querida. – Respondeu a irmã de Mellie.
- O Marc, certo? Sempre disseram que eu e o meu irmão éramos muito parecidos. – Respondeu Joshua.
Durante aquela conversa, Mitch não sabia o que dizer. Estava à porta da casa duma estranha com um desconhecido. Mas mesmo assim sentia-se reconfortado e seguro. Durante todo aquele tempo quem mais o tinha ajudado tinha sido um simples estranho.
- O senhor é o Joshua? O Marc falava muito de si, mas nunca disse que tinha um filho.
- Ele não é meu filho, é um amigo. O meu irmão falava de mim? Fréderique disse que ele nunca falava de mim. – Disse MacLarens.
- Fréderique não era noiva dele. Eu era. Ele contou-me muitos segredos. Entre, eu vou telefonar à Mellie a dizer-lhe que tem uma visita cá em casa.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

                                      
                               AMÍLCAR CABRAL  
                                        L

     ENCONTRO DE SPÍNOLA COM SENGHOR

                              


Fragoso Alas era agente da PIDE. Possuía um talento invulgar para a espionagem. Tinha estado dois anos na embaixada portuguesa de Kinshasa, sob a capa de adido comercial. Conhecia bem Mobutu e era ouvido por ele. Foi Fragoso quem conseguiu pôr Léopold Senghor, Presidente do Senegal, em contacto com o general Spínola.
Foi agendado um encontro no território República do Senegal. O tema da reunião era do conhecimento de Marcello Caetano. Tratava-se de estudar as hipóteses de estabelecer conversações tendo em vista alcançar uma solução negociada para o problema da Guiné-Bissau.
A reunião teve lugar a 18 de Maio de 1972. A equipa de que o comandante-em-chefe e governador-geral da Guiné se fez acompanhar na sua deslocação a um complexo turístico de Casamance (Clube Mediterranée), situado próximo da fronteira, era pequena. Constituíam-na Carlos Fabião, Fragoso Alas e o capitão Nunes Barata.  
A segurança imediata incluía dois helicópteros. Os jatos da Força Aérea Portuguesa sobrevoavam o lugar e um batalhão de paraquedistas estava de prevenção. As circunstâncias eram inéditas e havia de ter em conta a possibilidade de traição, quer da parte do PAIGC, que sabia do que se passava, quer do lado das forças senegalesas.
Entraram na sala de reuniões o general Spínola, o capitão Nunes Barata e Fragoso Alas. Carlos Fabião permaneceu junto aos helicópteros. Era o responsável pela segurança do general. Cabia-lhe a responsabilidade de comandar o ataque, se as coisas corressem mal. O plano de emergência consistia em bombardear de imediato a zona e fazer depois avançar os paraquedistas para liquidarem qualquer possível resistência e recolherem os vivos e os corpos dos nossos mortos.
Léopold Senghor fez jogo limpo. Verificou-se a coincidência de muitos pontos de vista do presidente da República do Senegal e do comandante das forças portuguesas na Guiné e foi possível traçar um plano de atuação, a submeter ao governo de Lisboa e aos movimentos independentistas. Projectava-se declarar, assim que possível, o cessar-fogo e organizar uma conferência sem condições prévias. Os representantes do governo português negociariam diretamente com os movimentos de libertação da Guiné-Bissau: o PAIGC e a FLING. A inclusão deste movimento, com pouca expressão no terreno, denunciava a vontade de Senghor continuar a proteger os interesses do Senegal no quadro duma futura independência. Tratava-se de um projeto a médio prazo. Durante um período de dez anos, enquanto se preparavam os quadros necessários para garantir a administração, o poder, na Guiné e em Cabo Verde, seria entregue a uma administração mista, constituída por elementos nomeados pelos movimentos independentistas e pelo governo português.  Seria então dada a palavra aos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, que decidiriam os termos do seu relacionamento futuro com Portugal: independência total, federação de estados ou inclusão numa comunidade afro-luso-brasileira. Curiosamente, o projeto estava em conformidade com as ideias defendidas por Caetano anos atrás. Por outro lado, dificilmente teria sido formulado sem o consentimento tácito de Amílcar Cabral, um homem que o destino pusera à frente de um movimento armado mas a quem o feitio predispunha às negociações.
Era a solução política que Spínola perseguia.
Ficou marcado um segundo encontro. 
António de Spínola deslocou-se a Lisboa e expôs ao primeiro-ministro português os resultados da reunião. Caetano tivera tempo para refletir e para tomar o pulso ao equilíbrio de forças em que assentava o poder. Considerava que, no quadro global da guerra em três territórios, a derrota militar na Guiné era preferível à negociações. O governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par.  Marcello Caetano exigiu o fim imediato dos contactos com Senghor. Portugal poderia ser vencido na Guiné, mas não negociaria. 
   Ao general Spínola não restava outra solução que não fosse a de continuar a guerra. Como achava que a continuação da política do governo português ia contra os interesses do país, começou a conspirar. 
Fica por saber se o PAIGC, seguro do seu poder militar, com as forças armadas portuguesas na defensiva, iria aceitar uma moratória de dez anos para o seu projecto de independência. Provavelmente, não o faria. De qualquer modo seria preferível começar a negociar, numa altura em que a luta armada se encontrava em fase de relativo equilíbrio.


quinta-feira, 27 de junho de 2013


Nota: Um pequeno acidente fez apagar os capítulos V e VI 
de "Assassínio em Notre Dame". São agora repostos.


         Capítulo V 

         - E agora? – inquiriu Joshua.
- Agora usaremos as suas visões para encontrarmos provas, suspeitos… até descobrirmos o assassino do seu irmão. – Disse Fréderique. - O primeiro passo para isso é irmos ao local do crime.
Nessa tarde foram á catedral de Notre Dame.
MacLarens já lá tinha ido, mas mesmo assim continuava maravilhado com a beleza e majestosidade da catedral. Mas Joshua nunca tinha ouvido falar de nenhuma sala secreta.
Entraram no monumento e após Fréderique carregar num botão situado em baixo do altar, atrás de uma pedra falsa, uma parede moveu-se, abrindo um túnel.
MacLarens estava pasmado a olhar para aquilo.  Como é que nunca ninguém tinha reparado ?
- Venha comigo. – Disse Lasone.
MacLarens seguiu Fréderique através do túnel, desceu umas escadas e quando abriram uma porta, viu uma grande sala com quadros, coisas que se pensavam perdidas e outras das quais nunca ninguém tinha ouvido falar.
- O que é isto? – Perguntou Joshua.
- A sala secreta de Notre Dame.
- Porque mantém isto escondido?
- Para não haver roubos e para proteger as coisas mais antigas e valiosas que o mundo tem. – explicou Lasone. – Mas não nos preocupemos com isso agora. Temos de trabalhar.
MacLarens não sabia o que fazer no local de um crime. Ele era um simples relojoeiro, dos poucos que ainda havia.
- Senhor, vá ter com Mellie Diagrone, - disse Lasone, apontando para uma mulher – ela saberá o que fazer consigo.
Mellie era uma mulher com trinta e poucos anos, cabelo castanho e olhos verdes. Era baixa e magra.
MacLarens foi até ela e apresentou-se, porém um pouco envergonhado.
Mellie fez o mesmo e de seguida, disse que ele poderia ajudá-la a recolher as provas.
Enquanto lhe ensinava, Joshua fazia muitas perguntas. Até que passado um tempo lhe perguntou onde trabalhava.
- Trabalho na AFCC de Paris. Sou cientista. – respondeu a mulher.
- Paris? Adoro esta cidade. Vivia cá antes de me mudar para Marselha.
- Marselha?
- Sim, antes de me “raptarem” ontem á noite. – disse com ironia. – Vivia cá com o meu irmão, mas depois ele fugiu. Quis acabar com as más recordações e por isso mudei-me para Marselha. – Explicou MacLarens.
- Eu conheci o Marc. Éramos muito chegados, pois ele namorava com a minha irmã. Ainda não consegui contar-lhe. Ela irá ficar devastada.
- É triste que tudo tenha acabado tão cedo. – declarou Joshua.
-Joshua, venha cá. Posso ter descoberto algo. – chamou Fréderique.
Lasone tinha estado a observar o cartucho da bala e o corpo de Marc.
- Veja isto: o tiro foi certeiro. O assassino deveria ser experiente.
- Mas na minha visão, o Marc dizia que daria o que o assassino queria, ou seja conheciam-se ou tinham algo em comum.
MacLarens e Lasone continuaram a pairar sobre o assunto até voltarem para casa.
          
     Capítulo VI

No dia seguinte, Joshua acordou cedo. Não por não ter sono, mas porque o alarme começou a tocar. Todos gritavam, corriam e tentavam descobrir o que tinha activado o alarme.
Até que Megnon, o guarda mandou todos pararem. Ele tinha descoberto a razão do barulho. Estava um cesto de fruta à porta. Depois de confirmarem que era seguro, Fréderique aproximou-se e leu o bilhete, baixinho.
“Entregue-nos o MacLarens, já matámos um e mataremos o outro da mesma maneira. Para bem do mundo, entreguem-no ou terão problemas.
Assinado: XX”
Enquanto lia o bilhete, todos olhavam para ele, pois queriam saber o que dizia. Mas Lasone, mal leu a carta, chamou o guarda e segredou-lhe algo. Jean pegou no bilhete e, juntamente com Fréderique, deixou a sala.
- Leve o bilhete a Mellie. Ela é a melhor cientista de França, decerto descobrirá algo. – ordenou Lasone ao guarda.
Lasone voltou para dentro e chamou MacLarens. Este segui-o até ao seu quarto, onde Fréderique lhe disse:
- O senhor está em perigo. As nossas suspeitas confirmam-se. Quem matou o seu irmão, quer matá-lo e para saber onde é esta sede, tem de trabalhar ou ter trabalhado cá.
- Acha que alguém que trabalha aqui, poderá ter matado o meu irmão?

- Infelizmente, parece ter sido assim.

                                                               
                                                   AMÍLCAR CABRAL

                                                             LVIII 
                                     
                A MORTE DOS GUERREIROS


    O Acordo do Alvor obrigou as forças armadas portuguesas a desarmar as tropas africanas sob o seu controlo. A maioria desses combatentes ficou na Guiné após a independência. Previa-se a sua reintegração na vida civil. As boas intenções ficaram no papel.
    O PAIGC publicou em 1973 a sua lei de justiça militar. O artigo 86º dizia, entre outras coisas: o crime de traição tem lugar quando, sendo originário da Guiné ou Cabo Verde, o acusado pegue voluntariamente em armas contra as forças nacionalistas.
    Logo após o cessar-fogo, o PAIGC começou a capturar soldados portugueses africanos. Nunca mais se soube deles.
   Segundo uma fonte, foram executados, sem julgamento, 7.447 antigos militares negros que tinham lutado ao lado das tropas coloniais. Incluíam soldados, comandos e elementos das milícias. Foram também fuzilados alguns civis. A maioria das execuções foi levada a cabo meses após a independência. Muitas ocorreram por ocasião da tentativa de golpe de estado em Portugal a 11 de março de 1975. Os matadores estariam à espera de um pretexto.
     O PAIGC teria prometido a Carlos Fabião, último governador português da Guiné, nada lhes fazer. Promessas dessas não são para cumprir. Na véspera do embarque definitivo para Portugal, Marcelino da Mata já estava em Lisboa. Fabião reuniu todos os comandantes negros e convidou-os a acompanharem-no. Recusaram. A terra deles era ali. Ficaram.
    A oferta foi dirigida unicamente aos oficiais. O governo português receava eventuais convulsões sociais decorrentes da entrada em Portugal dos milhares de combatentes negros que tinham lutado pela bandeira das quinas. Abandonou-os ao seu destino.
É difícil aceitar contas tão exatas como as referidas acima. Ocorreram seguramente milhares de execuções.  Conhecem-se alguns casos concretos. Em 1976 decorreu o fuzilamento público de dois régulos e de Didi Ferreira, ex-comando, acusados de colaborarem com os colonialistas. No final de 1978, foram fuziladas centenas de militares guineenses que tinham servido na tropa colonial. A execução foi ordenada por António Buscardini, chefe da polícia política, com o apoio de outros dirigentes do PAIGC. Os corpos foram enterrados em valas comuns na mata em lugares tão diversos como Cumeré, Portogole, Cuntima, Farim, Bafatá, Cacheu, Canchungo, Pirada, Bambadinca, Biombo e Bissorá. É difícil entender estas execuções (ou assassinatos) quatro anos após a independência. Consta que Manhe Sanhé, ex-comando ao serviço de Portugal, poderia estar a preparar um golpe de estado contra o governo da Guiné.
Não foram mortos todos os antigos soldados africanos portugueses, que seriam mais de 15.000. Só os membros das milícias eram cerca de 9.000. Uns poucos conseguiram vir para Lisboa e muitos fugiram para o Senegal. Mesmo lá, foram perseguidos. Outros ficaram nas suas terras com o medo por companhia. 
Os conflitos com as forças senegalesas, em 1998, terão ajudado a sarar as feridas velhas. Militares que tinham lutado sob bandeiras diferentes na guerra da independência, bateram-se nessa altura, lado a lado.

Nota: Este livro aproxima-se do final. Encontra-se em fase de reorganização e aperfeiçoamento. As 130 páginas actuais irão converter-se em cerca de 180, mas os textos revistos não serão republicados no blogue. Continuarão a sair os últimos capítulos novos.
                                                                                         A.T.