DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 15 de junho de 2013

                            
                               AMÍCAR CABRAL  
                                            
                                      LVIII

                     PIDJIGUITI


Na segunda metade do século XX, a opinião pública, interna e internacional, tornou-se um fator importante para a propaganda dos povos que travavam guerras de guerrilha. As notícias de massacres em regiões remotas geravam emoções no mundo inteiro. Fortaleciam internamente a oposição aos governos que conduziam guerras impopulares e criavam condições favoráveis ao incremento do apoio externo aos movimentos de libertação. Aconteceu assim com as matanças de My Lai, no Vietname, em 1968 e de Wiriyamu em Moçambique, em 1969. A Guiné-Bissau teve também um massacre emblemático, ainda que de proporções menores. Aconteceu no porto de Pidjiguiti, em Bissau, a 3 de agosto de 1959.
Os estivadores reivindicavam aumentos salariais. Tinham visto as suas pretensões satisfeitas por diversos estabelecimentos comerciais, mas a Casa Gouveia, sucursal da CUF, então administrada pelo historiador António Carreira, cabo-verdiano da ilha do Fogo, recusou ceder. Os estivadores responderam com a greve.
O patrão-mor chamou os trabalhadores à capitania, para serem identificados. Três deles foram levados pela PIDE para as oficinas navais.
Os ânimos aqueceram e a revolta subiu de tom. Os estivadores tentaram libertar os seus colegas detidos. A polícia encerrou os portões e pediu reforços. Um marinheiro terá ameaçado um agente da autoridade e foi agredido por ele. Estabeleceu-se a confusão. Os cerca de cem trabalhadores, quase todos manjacos, receberam à pedrada os reforços policiais que se abeiravam do cais. Vieram também militares e civis portugueses. O tiroteio começou. Ficaram muitos homens caídos no chão.
As partes não se entenderam quanto ao número de baixas. Para o Comando Militar da Guiné, «do lado dos grevistas, há a contar 7 mortos e cerca de 20 feridos e 20 prisioneiros». O Comando da Defesa Marítima refere «nove marítimos mortos, 16 feridos, um dos quais é o chefe da polícia, e 23 presos». Alguns dos grevistas feridos acabaram por falecer.
O PAIGC, no ano seguinte, acusou os portugueses de terem abatido a tiro meia centena de trabalhadores guineenses em greve. Aristides Pereira, em carta a Lúcio Lara, fala em 24 mortos e 35 feridos. Com maior ou menor número de vítimas, a notícia da matança correu mundo e prejudicou a imagem internacional do governo de Lisboa.  
Na greve de Pidjiguiti não havia motivações políticas. Os trabalhadores do porto tinham razões de queixa e a questão podia e devia ter sido resolvida mediante negociações. A situação agravou-se devido à impreparação dos agentes policiais que recorreram desnecessariamente ao uso das armas de fogo.
No dia do massacre, Amílcar Cabral estava em Luanda. Teve conhecimento da situação pelos jornais no dia seguinte, durante o voo de regresso a Lisboa. Fez, como lhe competia, o aproveitamento político do incidente, acabando por associar simbolicamente o massacre de Pidjiguiti à fundação do PAIGC.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

        

                 AMÍLCAR CABRAL


                         LVII

      HONÓRIO BARRETO – UM GUINEENSE INVULGAR

   O mais conhecido dos naturais da Guiné-Bissau é seguramente Amílcar Cabral. Honório Barreto vem logo a seguir. Ambos tiveram pais cabo-verdianos. 
     Filho de mãe guineense, Honório nasceu em Cacheu em 1813, cento e onze anos antes de Cabral. Comerciante e grande proprietário de terras, foi por três vezes nomeado Administrador da Guiné. Ocupou, por períodos consideráveis de tempo, esse lugar político, o mais importante da Guiné portuguesa.
No começo do século XIX, a França e a Inglaterra instalaram-se na África Equatorial. Os franceses pretendiam incluir nas suas colónias a região centrada em Bissau. Os ingleses queriam ficar com a ilha de Bolama, o arquipélago dos Bijagós, Buba e o litoral costeiro.
Barreto defendeu com firmeza e sagacidade as fronteiras do território que governava. Sem ele, a Guiné-Bissau seria hoje bem menor ou inexistente. Reconstruiu Bolama, meio destruída pelos incêndios ateados pelos ingleses. Enfrentou a cobiça estrangeira e conseguiu, umas vezes lutando e outras comprando terrenos, preservar várias parcelas do território. É graças aos seus esforços que Bolama pertence hoje à Guiné-Bissau.
O diferendo entre Portugal e a Inglaterra foi sujeito à arbitragem do Presidente dos EUA, Ulysses Grant, que, em 1970, decidiu a questão a favor dos portugueses. As negociações com a França conduziram, em Maio de 1886, à delimitação das fronteiras entre a Guiné então portuguesa e a África Ocidental Francesa. Barreto morrera há mais de vinte anos. Conhecia bem a sua terra e opôs-se tenazmente à troca de Casamança por Quitafine (Cacine, sul da Guiné). Casamança, a norte, era uma região muito rica. Integra hoje a República do Senegal. 
Barreto não renegou as suas origens mas assumiu-se como um português da Guiné. Foi Provedor de Cacheu e Capitão- Mor de Cacheu e de Bissau. Em 1853, bateu-se valentemente contra os papeis e, três anos mais tarde, conduziu a campanha contra os «nagos». Na chefia do território, reformou a administração e desenvolveu agricultura, o comércio, a instrução e a saúde.
O seu valor foi reconhecido pelo governo de Lisboa. Honório Barreto foi promovido a Tenente-Coronel de Artilharia de segunda linha e condecorado com os graus de Comendador da Ordem Militar de Cristo e de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada. Faleceu em Bissau em 1859. É o melhor exemplo conhecido de “assimilação”. Nenhum outro nativo do Império Português recebeu tantas honrarias.
A história corre e os pontos de vista modificam-se. Os guineenses de hoje valorizam mais o lado escuro da sua vida. A verdade é que, numa época em que Portugal abolira já oficialmente a escravatura, Barreto mantinha em Cacheu um lucrativo comércio de escravos.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

                                  
                                AMÍLCAR CABRAL

                                         LVI


            AS GUERRAS DA GUINÉ

Os romanos encerravam as portas do tempo do deus Jano quando havia paz em toda a extensão do império. Raramente aqueles portões estiveram fechados. Ora de um ponto, ora doutro, chegavam quase continuamente notícias de combates e de derramamento de sangue.   
Respeitadas as proporções, a analogia é pertinente. Todos os impérios são entendidos pelos povos dominados como forças do mal. Também nas colónias portuguesas a luta contra a ocupação alienígena passou por uma série sucessiva de revoltas. A chamada «pacificação» tardou. Em Angola, por exemplo, ocorreu apenas por volta de 1916 e durou até 1961. Na Guiné-Bissau, manteve-se entre 1935 e 1963.
Enquanto as feitorias situadas no litoral foram geralmente toleradas, a penetração no interior desencadeou a resistência das populações. As características geográficas do território, as disenterias e a endemia de malária dificultaram sempre a progressão das tropas europeias.
Embora a lista de conflitos e de ataques de variados povos da Guiné às posições portuguesas seja extensa, os confrontos armados de maior relevo deram-se a partir de 1879. Sintomaticamente, data desse ano a autonomia administrativa da Guiné em relação a Cabo Verde, com o reforço das verbas e dos efetivos militares atribuídos ao governo da colónia. Ganhava força o critério da «ocupação efetiva dos territórios» como fonte de soberania. Viria a ser oficializado em 1885 pela conferência de Berlim.
Em 1871, o governador português morreu em combate contra os grumetes. Saiu da Praia (Cabo Verde) uma expedição punitiva com duzentos homens que atacaram as tabancas revoltadas. Em 1978, os felupes capturaram um barco português e mataram a meia centena de tripulantes.
Em 1979 é criado o posto militar de Buba, guarnecido por 20 soldados cabo-verdianos chefiados por um tenente português. Foi atacado pelos fulas logo no ano seguinte.
A partir desta altura, intensificaram-se as campanhas chamadas de «pacificação».
As autoridades portuguesas esforçaram-se sempre por aliar o esforço militar à diplomacia, procurando e conseguindo acordos com os régulos mais complacentes. No entanto, o «imposto de palhota», que obrigava os agricultores a comercializarem os excedentes das suas produções, catalisava a resistência.
Durante o ano de 1882 decorreram campanhas contra os beafadas, os fulas, os nalus e os balantas. Com maior ou menor intensidade, as lutas prosseguiram durante os anos seguintes. Em 1886, as fronteiras da Guiné-Bissau foram traçadas pelas chancelarias francesa e portuguesa. Houve permuta de territórios. Casamança ficou para a França e a faixa de Cacine para Portugal. Nascia oficialmente a colónia portuguesa da Guiné.
Entre guerras e compromissos, a presença europeia foi-se afirmando no interior da nova colónia. Instalaram-se em Bissau algumas casas comerciais,  maioritariamente estrangeiras.
Entretanto, ocorriam combates com quase todas as etnias da Guiné. O ano de 1891 ficou marcado pelos confrontos com os grumetes e os papéis. Nesse ano e nos seguintes, Bissau foi atacada por diversas vezes, apesar de se ter tornado num campo fortificado.
Em 1896, as autoridades portuguesas já se achavam em condições de proibir a circulação das moedas de prata de proveniência externa, até então dominantes nas trocas comerciais no território.
O novo século começou como tinha acabado o velho. Eram organizadas campanhas militares quase todos os anos. Os povos da Guiné resistiam à ocupação colonial. Não se levantavam todos ao mesmo tempo. Umas vezes, a guerra era contra os manjacos e beafadas e outras contra os felupes e balantas.  Em 1912, as autoridades portuguesas proibiram os comerciantes de venderem armamento aos negros.
Por volta de 1913, Teixeira Pinto entra na história da Guiné. Enfrentou com sucesso os manjacos do Oio, os balantas, os papeis e os Bijagós. Juvenal Cabral, pai de Amílcar, chamou-lhe herói, num texto publicado na imprensa cabo-verdiana.
As ações de «pacificação» cessaram por volta de 1935. A paz iria durar 28 anos.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

                                         
                             AMÍLCAR CABRAL

                                        LIV

 O RECONHECIMENTO INTERNACIONAL





A figura de Amílcar Cabral pode, como outras, ser olhada de pontos de vista diferentes que conduzirão a apreciações desencontradas. Homem do seu tempo, procurou sempre ver mais adiante, nem que fosse com a mirada do sonho. Conhecia, contudo, a realidade da sua terra e da sua época e assentava nelas os seus projetos.
      A 20 de dezembro de 1961, as tropas indianas puseram fim à ocupação portuguesa dos territórios de Goa, Damão e Diu. O Império Colonial Português começava a desmoronar-se.
      No final do ano seguinte, Amílcar Cabral seria recebido pela Comissão das Nações Unidas que tratava da descolonização.
      Com o sucesso da luta armada, os sinais de reconhecimento internacional foram-se multiplicando. O Brasil ofereceu bolsas de estudo a militantes nacionalistas das colónias portuguesas. Leopold Senghor concedeu asilo político aos cabo-verdianos e guineenses exilados. Amílcar Cabral foi nomeado conselheiro técnico do Ministro da Economia Rural da Guiné-Conakry. O engenheiro voltava a estar empregado.
Em relação à política externa, Cabral soube sempre distanciar-se do conflito sino-soviético e manter uma posição de não-alinhamento que lhe permitiu continuar a receber ajudas dos dois lados. Em termos de política interna, foi capaz de conservar o partido relativamente afastado das questões teóricas que dividiam o campo socialista.
      O tempo foi passando. No início de 1972, o PAIGC declarou publicamente que controlava dois terços do território da Guiné-Bissau. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido em Adis-Abeba, em fevereiro de 1972, Amílcar Cabral pôde afirmar: «a situação na Guiné é comparável à dum Estado soberano que tem certas partes do seu território nacional ocupadas por forças armadas estrangeiras».
      Numa reunião em Rabat, a Organização da Unidade Africana reconheceu aos movimentos de libertação das colónias portuguesas o estatuto de observadores nas suas reuniões. No mesmo ano, uma comissão da ONU visitou as zonas libertadas da Guiné-Bissau. No regresso, declarou que o PAIGC era o único representante legítimo dos guineenses. Em agosto, uma reunião plenária do Comité Especial para o Colonialismo reiterou essa declaração.
Ainda nesse ano, em outubro, Amílcar Cabral discursou perante a Quarta Comissão da Assembleia Geral da ONU. Solicitou a aceitação dos delegados do PAIGC como membros associados ou observadores em todos os organismos especializados da ONU. Apelou ainda ao «desenvolvimento de uma ajuda concreta destes organismos especializados, sobretudo da UNESCO, da UNICEF, da OMS e da FAO, ao povo guineense».
      Em dezembro de 1972, o secretário-geral do PAIGC Amílcar deslocou-se pela última vez a Moscovo. O objetivo da viagem era conseguir armamento antiaéreo moderno que pudesse atingir os aviões a jato Fiat e dificultar a atuação dos helicópteros da força aérea portuguesa
        Amílcar Cabral foi abatido a tiro por camaradas seus, a 20 de janeiro de 1973. No dia seguinte, os assassinos foram esquartejados. Eram todos guineenses.
        O PAIGC pôs rapidamente de lado as divergências e deu um salto em frente. Os mísseis soviéticos Strela, recentemente introduzidos no combate, puseram rapidamente fim à supremacia aérea portuguesa. Foram lançadas ofensivas decisivas contra as forças coloniais. A vitória da guerrilha estava à vista.

                      

terça-feira, 11 de junho de 2013

RACISMO - UM MOTOR SEM AVARIAS

Amilcar Cabral, ao definir a luta de classes como motor da História teve algumas dificuldade teóricas em adaptar a sua definição concreta à luta anti-colonial, já que, na verdade, o verdadeiro motor da História, nessas circunstâncias, foi o racismo.
As direcções de tantos movimentos de libertação que foram sendo fundados em África, ficaram, em determinada altura do seu crecimento, com um problema: os brancos e mestiços que a eles aderiam eram , em si mesmos, uma contradição insolúvel: a maioria dos guerrilheiros não aceitava de bom grado a integração na sua luta de gente que era "naturalmente" inimiga.
Na verdade, o próprio Amilcar Cabral, que acabou sendo vítima desta contradição, tentou, do ponto de vista teórico, "dar a volta" ao problema, aconselhando os membros das sociedades coloniais, brancos e mestiços, a "suicidarem-se" como classe.
Na prática tal suicídio nunca resultou.
Os CAC (comités Amilcar Cabral) que nasceram em Angola consistiam como que uma ante-camara para o dito suicídio. O MPLA, defensor da angolanidade pura, atirou muitos dos canditatos para a cadeia de S. Paulo. Hoje nem se fala disso, nem deles.
Em África - talvez com algumas nações crioulas em que o fenómeno é mais diluído - o racismo continua a ser o motor da História
                                 
                        AMÍLCAR CABRAL

                               LIII



               A LUTA DE CLASSES

       (EXCERTO DE UM TEXTO DE AMÍLCAR CABRAL)

Aqueles que afirmam — e quanto a nós com razão — que a força motora da história é a luta de classes, decerto estariam de acordo em rever esta afirmação, para precisá-la e dar-lhe até maior aplicabilidade, se conhecessem em maior profundidade as características essenciais de alguns povos colonizados. Com efeito, na evolução geral da humanidade e de cada um dos povos nos agrupamentos humanos que a constituem, as classes não surgem nem como um fenómeno generalizado e simultâneo na totalidade desses agrupamentos, nem como um todo acabado, perfeito, uniforme e espontâneo. A definição das classes no seio dum agrupamento ou de agrupamentos humanos resulta fundamentalmente do desenvolvimento progressivo das forças produtivas e das características da distribuição das riquezas produzidas por esse agrupamento ou usurpadas a outros agrupamentos. Quer dizer: o fenómeno socioeconómico da classe surge e desenvolve-se em função de pelo menos duas variáveis essenciais e interdependentes: o nível das forças produtivas e o regime de propriedade dos meios de produção.
Esse desenvolvimento opera-se lenta, desigual e gradualmente, por acréscimos quantitativos, em geral impercetíveis, das variáveis essenciais, os quais conduzem, a partir de certo momento de acumulação, a transformações qualitativas que se traduzem no aparecimento da classe, das classes e do conflito entre classes.
No plano estritamente interno, pode variar o ritmo do processo, mas ele permanece contínuo e progressivo, sendo os avanços bruscos só possíveis em função de aumentos ou alteração bruscas - mutações - no nível das forças produtivas ou no regime da propriedade. A estas transformações bruscas operadas no interior do processo de desenvolvimento das classes como resultado de mutações no nível das forças produtivas ou no regime de propriedade, convencionou-se chamar, em linguagem económica e política, revoluções.
Vê-se, por outro lado, que as possibilidades de esse processo ser influenciado significativamente por fatores externos, em particular pela interação de conjuntos humanos, foi grandemente aumentada pelo progresso dos meios de transporte e de comunicações que veio criar o mundo e a humanidade, eliminando o isolamento entre os agrupamentos humanos duma mesma região, entre regiões dum mesmo continente e entre os continentes. Progresso que caracteriza uma longa fase da história que começou com a invenção do primeiro meio de transporte, se evidenciou já nas viagens púnicas e na colonização grega e se acentuou com as descobertas marítimas, a invenção das máquinas a vapor e a descoberta da eletricidade. Será que a história só começa a partir do momento em que se desencadeia o fenómeno classe e, consequentemente, a luta de classes?
Responder pela afirmativa seria situar fora da história todo o período da vida dos agrupamentos humanos, que vai da descoberta da caça e, posteriormente, da agricultura nómada e sedentária à criação do gado e á apropriação privada da terra. Mas seria também — o que nos recusamos a aceitar — considerar que vários agrupamentos humanos da África, Ásia e América Latina viviam sem história ou fora da história no momento em que foram submetidos ao jugo do imperialismo.
Seria considerar que populações dos nossos países, como os Balantas da Guiné, os Cuanhamas de Angola e os Macondes de Moçambique, vivem ainda hoje, se nos abstrairmos das muito ligeiras influências do colonialismo a que foram submetidas, fora da história ou não têm história. Esta recusa, aliás, baseada no conhecimento concreto da realidade socioeconómica dos nossos países e na análise do processo de desenvolvimento do fenómeno classe tal como foi feita acima, leva-nos a admitir que, se a luta de classes é a força motora da história, ela é-o durante um certo período da história. Isto quer dizer que antes da luta de classes (e, necessariamente, depois da luta de classes, porque neste mundo não há antes sem depois) algum fator (ou alguns fatores) foi e será o motor da história. Não nos repugna admitir que esse fator da história de cada agrupamento humano é o modo de produção (o nível das forças produtivas e o regime de propriedade) que caracteriza esse agrupamento. Mas, como se viu, a definição da classe e a luta de classes são, elas mesmas, um efeito do desenvolvimento das forças produtivas conjugado com o regime da propriedade dos meios de produção. Parece-nos portanto lícito concluir que o nível das forças produtivas, determinante essencial do conteúdo e da forma da luta de classes, é a verdadeira e a permanente força motora da história e que o imperialismo pode ser definido como a expressão mundial da procura gananciosa e da obtenção de cada vez maiores mais-valias pelo capital monopolista e financeiro, acumulado em duas regiões do mundo: primeiro na Europa e, mais tarde, na América do Norte. E, se queremos situar o fato imperialista na trajetória geral da evolução deste fator transcendente que modificou a face do mundo - o capital e os processos da sua acumulação - poderíamos dizer que o imperialismo é a pirataria transplantada dos mares para a terra firme, reorganizada, consolidada e adaptada ao objetivo da espoliação dos recursos materiais e humanos dos nossos povos. Mas se formos capazes de analisar com serenidade o fenómeno imperialista, não escandalizaremos ninguém ao termos de reconhecer que o imperialismo - que tudo mostra ser na realidade a fase última da evolução do capitalismo - foi uma necessidade da história, uma consequência do desenvolvimento das forças produtivas e das transformações do modo de produção, no âmbito geral da humanidade, considerada como um todo em movimento. Uma necessidade, como o são no presente a libertação nacional dos povos, a destruição do capitalismo e o advento do socialismo.
O que importa aos nossos povos é saber se o imperialismo, na sua condição de capital em ação, cumpriu ou não nos nossos países a missão histórica reservada a este: aceleração do processo do desenvolvimento das forças produtivas e transformação, no sentido da complexidade, das características do modo de produção; aprofundamento da diferenciação das classes com o desenvolvimento da burguesia e intensificação da luta de classes; aumento significativo do standard geral médio do nível de vida económica, social e cultural das populações. Interessa além disso averiguar quais as influências ou efeitos da ação imperialista sobre as estruturas sociais e o processo histórico dos nossos povos.
Não vamos fazer aqui o balanço condenatório nem a elegia do imperialismo, mas diremos apenas que, quer no plano económico, quer nos planos social e cultural, o capital imperialista ficou longe de cumprir nos nossos países a missão histórica desempenhada pelo capital nos países de acumulação. Isso implica que, se, por um lado, o capital imperialista teve na grande maioria dos países dominados a simples função de multiplicador de mais-valias, constata-se, por outro lado, que a capacidade histórica do capital (como acelerador indestrutível do processo de desenvolvimento das forças produtivas) está estritamente dependente da sua liberdade, quer dizer, do grau de independência com que é utilizado. Devemos, no entanto, reconhecer que em alguns casos o capital imperialista ou capitalismo moribundo teve interesse, força e tempo bastante para, além de edificar cidades, aumentar o nível das forças produtivas, permitir a uma minoria da população nativa um standard de vida melhor ou até privilegiado, contribuindo assim, em processo que alguns chamariam dialético, para o aprofundamento das contradições no seio das sociedades em causa. Noutros casos ainda, mais raros, houve a possibilidade de acumulação do capital, dando lugar ao desenvolvimento duma burguesia local.



segunda-feira, 10 de junho de 2013

                                     
                                                AMÍLCAR CABRAL

                                                              LII

                                                           

   EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO POLÍTICO


A minha geração aprendeu, na escola primária, a conhecer os nomes, os cognomes e os feitos de três dinastias de reis. O povo que fazia realmente a história ficava na sombra. D. Henrique, “O Navegador”, era filho de rei. Dos mareantes que iniciaram as descobertas, conhecem-se os nomes de alguns capitães. Dos comerciantes empreendedores que armaram as caravelas, pouco se sabe. Alguns historiadores levaram tão longe a revolta contra a interpretação personalizada dos acontecimentos que caíram no extremo oposto, menorizando sistematicamente o papel das lideranças. A verdade é que existiram homens que desenvolveram ao longo das suas vidas conjuntos de ações capazes de acelerar ou de retardar o processo histórico. Amílcar Cabral foi um deles.
Ninguém nasce ensinado. Cabral teve de apreender as ideias dominantes do ambiente que o rodeava. Na sua juventude, poderá ter sido partidário da adjacência. Alguns dos seus primeiros escritos sugerem a possibilidade de evolução de Cabo Verde à sombra da bandeira portuguesa.
Durante a guerra, enquanto Amílcar Cabral frequentava o liceu, permaneceu no Mindelo um destacamento de militares portugueses. Integrava oficiais milicianos que tinham interrompido os cursos. Os ideais marxistas começavam a expandir-se entre os estudantes universitários. É possível que Amílcar Cabral tenha feito os primeiros contactos com a literatura marxista-leninista ainda em Cabo Verde, no final da adolescência, mas não se conhecem dados que confirmem ou infirmem tal suposição.
Em Portugal, durante alguns anos, muitos estudantes africanos alinharam com a Esquerda portuguesa no combate comum contra a ditadura salazarista. O jovem Amílcar Cabral participou na luta política antifascista, em que os comunistas assumiam papéis de vanguarda. Agostinho Neto foi militante do Partido Comunista Português. Amílcar Cabral foi comunista, embora não tenha estado filiado no PCP.
Aos poucos, a interiorização dos movimentos do pan-africanismo e da negritude levou os universitários oriundos das colónias a mudar de estratégia. Chegava a “africanização dos espíritos”, a necessidade de conhecer a história e a cultura de África. Com ela, a questão das independências passou a ser encarada de modo diferente. Poderia (e talvez devesse) separar-se da luta pela democracia.
O pan-africanismo precedeu a formação das consciências nacionais africanas. Ajudou a resolver o conflito interno de quem se sentia, ao mesmo tempo, negro e português.
      Quaisquer dúvidas existentes quanto ao modo de pensar de Amílcar Cabral, ao menos em determinada fase da sua vida, serão desfeitas pela leitura do texto que apresentamos no capítulo seguinte. O líder do PAIGC não se limita a reproduzir ideias marxistas. Enriquece-as com as suas reflexões.
Uma das preocupações teóricas dos intelectuais africanos era adaptar o marxismo, que nascera em cidades europeias industrializadas, à África camponesa, em que os proletários tinham expressão demográfica reduzida.
    Outro tema de reflexão de Amílcar Cabral dizia respeito à ideologia pequeno-burguesa de boa parte dos quadros dirigentes do PAIGC, incluindo o próprio secretário-geral. A elite colonial que assumia a luta revolucionária devia renunciar aos seus privilégios de classe e à cultura assimilada à portugalidade. “Para se identificar com o seu povo em luta, teria de suicidar-se simbolicamente. Para existir, teria de aceitar morrer”.
Aos olhos de Amílcar Cabral e de muita gente, o mundo, antes da Segunda Grande Guerra, estava dividido em dois blocos inconciliáveis. De um lado, perfilavam-se o fascismo e o colonialismo. Do outro, a democracia e o socialismo. Esperava-se que o fim do conflito pusesse termo à exploração do homem pelo homem e permitisse o estabelecimento de uma nova ordem mundial. Os regimes totalitários foram derrotados, mas os vencedores logo se desentenderam. Apressaram-se a dividir a Europa ao meio e a desencadear uma guerra “fria” pelo controlo do planeta. Estavam, contudo, criadas as condições para o começo da dignificação de raças humanas até então menorizadas.
No final da década de 50, as ideias universalistas de Amílcar Cabral foram ganhando formas mais concretas. Para libertar a Humanidade era necessário começar por libertar o Homem Negro. A libertação teria de se fazer nas vertentes psicológica e territorial. Também Cabral procurou conhecer as suas raízes. Passou a olhar a cabo-verdianidade de um ponto de vista africano. Dedicou muitas páginas dos seus textos a reinstalar Cabo Verde em África.
Os líderes das independências das colónias portuguesas, com a possível exceção de Eduardo Mondlane, que se mudou cedo para a América, aprenderam a conhecer a realidade africana em Lisboa.
A personalidade de Amílcar Cabral destacava-se do conjunto dos estudantes da Guiné e de Cabo Verde. Era inteligente, sensato e bom comunicador. Possuía aquele conjunto mal definido de qualidades que se costuma designar por “carisma”.  Era o líder dos intelectuais do seu povo e sabia disso. Tinha uma missão histórica a cumprir. Terá hesitado algum tempo antes de a assumir na totalidade.
O pan-africanismo entendia a África como um todo. “Era um patriotismo sem pátria definida”. Por outro lado, espalhara-se a ideia da conveniência de modificar as fronteiras coloniais, tantas vezes desenhadas a régua e esquadro em gabinetes europeus, para as substituir por outras mais conformes com as realidades étnicas e geográficas, eventualmente integradas em federações regionais. Nasceram diversas iniciativas federais, mas não resistiram ao tempo. Ficou apenas a Tanzânia.
Cabo-verdiano nascido na Guiné, Cabral sonhou reunir numa única nação os territórios e as gentes das colónias portuguesas da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. A Guiné era um destino tradicional da emigração cabo-verdiana. Na década de 50, viviam ali cerca de 1.700 cabo-verdianos. Uns tantos ocupavam cargos administrativos.
As características geográficas tornavam quase impossível começar e desenvolver uma guerra de guerrilha numa das ilhas do arquipélago de Cabo Verde.  A vegetação, com zonas de mata cerrada, o tarrafo, os múltiplos braços de mar e a proximidade das fronteiras com países já independentes e dispostos a servir de refúgio aos combatentes ditou a escolha da Guiné para berço da luta armada de libertação.
Embora reconhecesse a necessidade da disciplina no PAIGC, dentro e fora da luta armada, Amílcar Cabral foi sempre um democrata e um homem de diálogo. Afirmava: “A opressão não é e nunca será uma escola de virtudes e de aptidões”.