DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 10 de junho de 2013




                            CAPÍTULO III

 − Jean, traz a caixa. – ordenou Laisone a um guarda. – Megnon, traz o leitor de DVD’s e a televisão.
 MacLarens estava confuso com todas aquelas ordens. Que vídeo lhe iria mostrar Fréderique?
 Ficou nestes pensamentos até que Lasone regressou ao quarto, sentou-se ao lado de Joshua, ligou a televisão, tirou um DVD com o título de “Marc  A descoberta” de uma caixa poeirenta e pôs o DVD no leitor. Mal a fez, o vídeo começou a reproduzir.
 No vídeo aparecia Marc a dormir, com o seu cérebro representado em ressonância. MacLarens já tinha visto cérebros assim e sabia que se passava alguma coisa de diferente ali.
 Até que no vídeo, Marc acorda e a gritar, tal como acontecera com Joshua. E a partir daí tudo se passou exatamente como naquela manhã acontecera com MacLarens: Fréderique a ir ao quarto de Marc, Marc a contar um pesadelo sobre a morte de seu pai e por fim, Lasone a contar exatamente a mesma história.
O vídeo acabou. MacLarens estava estupefacto. Fréderique fizera exatamente as mesmas perguntas, respondera da mesma maneira e dera as mesmas explicações. Mas o que mais intrigava Joshua eram as ondas vermelhas no cérebro de Marc. As ondas que deveriam ser curvas, eram retas.
− Porque está o cérebro de Marc daquela maneira? – inquiriu MacLarens.
− Aquelas ondas, tais como as do seu cérebro, ligam-se diretamente às do que acontecerá amanhã. É por isso que você está aqui. Para sua proteção. Quem matou Marc, poderá também querer matá-lo.
  Acha que posso estar em perigo? – perguntou Joshua, preocupado.
 − Não sei, mas aqui está protegido. Venha, tenho de lhe mostrar algo.

                             CAPÍTULO IV

 MacLarens seguiu Fréderique e chegou a uma sala com uma cadeira e fios de variadas cores.
 − Sente-se – pediu Lasone a MacLarens.
 Joshua assim o fez, porém um pouco assustado.
 Fréderique ligou um computador a vários monitores e, de seguida, pegou nos fios com ventosas e pô-los na cabeça de Joshua.
 MacLarens não entendia exatamente o que estava ali a fazer, mas estava disposto a descobrir. Pacientemente via Lasone a mexer e a remexer no computador até que ele parou e sem dizer nada saiu da sala. MacLarens não sabia o que fazer, por isso não se mexeu e esperou até Fréderique voltar. Trazia com ele um chá, que deu a Joshua, quando se aproximou dele. Este bebeu-o, até que começou a sentir-se sonolento.
 − Isto é para seu próprio bem. – disse Lasone com uma voz calma.
 Lasone tinha posto algo naquele chá, pois MacLarens adormeceu pouco depois de o beber.
 Passada uma hora, Joshua acordou atordoado.
− O que me pôs no chá?
− Ervas calmantes. – Respondeu Lasone como se nada se passasse.
 − Porquê?  – Perguntou MacLarens já acordado.
 − Só se têm sonhos a dormir. E o senhor só tem visões em sonhos.
 MacLarens estava fulo. Como poderia Fréderique dizer que o tinha drogado tão naturalmente? Mas quando Lasone começou a falar acalmou-se.
 − Para o senhor ter a certeza de que nós não o estamos a enganar, fizemos esta experiência. Veja: as ondas estão retas, tal como na ressonância do seu irmão.
 Depois de dizer isto, mostrou num dos três monitores como a ressonância deveria estar.
  Por muito que MacLarens quisesse continuar a questionar aquilo, as provas eram reais.
  − Como descobriram que o meu irmão tinha estas visões? – inquiriu Joshua.
 − O seu pai procurou-nos antes de falecer. Quando pesquisámos melhor, descobrimos que era genético. Como o seu irmão morreu sem deixar herdeiros, pensámos que tínhamos perdido o dom, mas depois descobrimo-lo a si – explicou Lasone.


domingo, 9 de junho de 2013


                                                    AMÍLCAR CABRAL

                                                                     LI

                  OS MILICIANOS


O número de oficiais licenciados anualmente pela Academia Militar era insuficiente para as necessidades da guerra colonial e a falta de capitães começou a sentir-se muito cedo.
A maioria dos oficiais subalternos (alferes e tenentes) provinha das universidades. Era a Arma de Infantaria quem mais precisava deles. Licenciados ou não, milhares de jovens frequentaram em Mafra a Escola Prática de Infantaria que, em cursos de seis meses de duração, os preparava para comandar combatentes. 
     Com o arrastar do conflito, os subalternos passaram também a escassear. As autoridades militares recorreram a expedientes variados para garantirem os comandos de pelotões e companhias. 
A partir de 1965, foram sendo mobilizados os tenentes milicianos com menos de 45 anos que, tendo cumprido o serviço militar obrigatório, haviam passado à disponibilidade sem irem à guerra. Faziam um curso de comandante de companhia, eram graduados em capitães e enviados para as colónias. Como, depois de 1961, quase todos os oficiais milicianos cumpriam comissões no ultramar, os tenentes disponíveis eram poucos. 
Foram sendo introduzidos outros mecanismos para "fabricar" capitães ou para acelerar a sua formação. Os oficiais subalternos com boas provas dadas no teatro de guerra eram convidados a frequentar o Curso de Promoção a Capitão. "Meter o Xico” era a expressão usada no tempo da guerra colonial para designar quem, depois de cumprir o serviço militar obrigatório, escolhia esse caminho. O curso durava um ano letivo. Seguia-se nova comissão, agora no comando de uma companhia. Posteriormente, era possível o ingresso no Quadro Permanente.
As motivações para tal empenhamento pessoal na guerra eram diversas. Não as conheço todas. Uma parte dos oficiais subalternos desiludira-se com os cursos universitários interrompidos pela chamada às fileiras. Outros estariam em vias de constituir família e pretendiam receber pontualmente um ordenado no fim de cada mês. Havia também quem se sentisse realizado com a experiência militar e assumisse a vocação castrense como a realização da sua vida.
Com o arrastar da guerra, acentuou-se a falta de capitães e a preparação dos futuros comandantes de companhia foi sendo facilitada. A partir de 1971, alguns cadetes que terminavam a primeira parte dos Cursos de Oficiais Milicianos eram deslocados para uma companhia operacional onde cumpriam um estágio de três meses. Regressavam a Mafra já graduados em tenentes milicianos e frequentavam durante outro trimestre um curso de Comandantes de Companhia. No final, eram graduados em capitães milicianos e enviados para a guerra. Nem eram voluntários nem tinham acesso ao quadro permanente. Independentemente do valor de cada um, a insuficiência do treino de comando notava-se no campo de batalha. Eram depreciativamente designados de “capitães-proveta” pelos seus colegas de armas.
A falta progressiva de oficiais subalternos levou a facilitar o acesso ao Curso de Oficiais Milicianos a uma parte dos jovens que frequentavam os cursos de sargentos. Como escasseavam também sargentos e praças, aumentou-se o recrutamento local, com a consequente "africanização dos efetivos". Nasceram assim os Comandos Africanos, os Grupos Especiais (GE), as Tropas Especiais (TE) e as Milícias Africanas, vocacionadas para a segurança dos aldeamentos estratégicos. 


                           BARCELONA




Voltei a Barcelona após uma longa ausência. Vivi lá durante quatro meses, há três décadas e meia, a treinar microcirurgia.
Desde então, a cidade cresceu, tal como o seu prestígio internacional. Hospedou os Jogos Olímpicos de 1992 e viu o seu principal clube de futebol tornar-se ainda mais conhecido em todo o mundo.


A capital da Catalunha conta agora um milhão e seiscentos mil habitantes, dentro dos limites da cidade. Os lisboetas são três vezes menos. Contudo, se compararmos as respetivas áreas urbanas, a desproporção é menor.
O coração da cidade permanece igual. 


O bairro gótico mostra o encanto de sempre e o interior da catedral continua a deslumbrar. 


Notam-se diferenças, aqui e ali. Embora as Ramblas continuem cheias de gente, as lojas de bairro estão mais vazias.
A inacabada Igreja da Sagrada Família, o mais notório ex-líbris da cidade, está em obras.


No Museu Picasso decorre uma magnífica exposição temporária de autorretratos do artista.


A mudança maior está na língua que se ouve nas ruas. Quase toda a gente fala catalão. É na língua nacional que se expressam as televisões locais e se escrevem os anúncios publicitários.
Em 1978, a Generalidad de Cataluña tinha sido restabelecida há poucos meses. O castelhano tomara conta das vozes e funcionava como língua franca. Eram sobretudo os de mais idade que usavam a língua antiga. 
Via-se que muitas pessoas se afadigavam a aprender catalão à pressa. Parecia bem e era uma exigência para o preenchimento de vários lugares administrativos. O esforço resultou e a língua nacional saiu das povoações pequenas e da memória dos velhos para se afirmar de vez na região que a viu nascer. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013


Apesar dos convites que fiz a alguns amigos, os pouco mais de duzentos artigos publicados até hoje neste blogue foram escritos por mim, com uma honrosa exceção: um conto da minha neta Leonor. É com orgulho que volto a colocar aqui um trabalho dela. A Nini tem agora treze anos e virou-se para a literatura policial. Como o texto tem já muitas páginas, irá saindo em partes, sempre às segundas-feiras.
                                                   António Trabulo      

             

        ASSASSÍNIO EM NOTRE DAME


                                PRÓLOGO


      − Vem comigo – disse uma voz rouca. 
Marc seguiu a voz, assustado. Saiu, ainda de pijama para a rua.
Estava uma noite sombria. Naquela zona havia pouca luz e por isso o único brilho na escuridão era o brilho da Lua.
Depois de andar alguns metros, entrou num edifício, a mando da voz. Quando o fez, a voz disse-lhe para parar. Marc obedeceu, mas arrependeu-se quando viu a arma que a voz trazia
−  Por favor, não me mate! Eu dou-lhe tudo o que quiser! – implorou  Marc.
− Não quero nada que me possas dar.
A voz calou-se e o som da bala a cair no chão foi o último barulho que se ouviu na silenciosa noite.

                             CAPÍTULO I


− Acorde, senhor! – gritou Charles, batendo à porta de MacLarens. – Tem uma visita.
− Ninguém é suficiente importante para me acordar às cinco da manhã. – respondeu Joshua. – Tenho de dormir, amanhã é um dia especial . Manda-os…
Mas MacLarens foi interrompido por dois homens que entraram de rompante no seu quarto.
Os homens eram altos, encorpados e capazes de pegar em Joshua. E foi isso que fizeram. Levaram-no até á rua até que chegaram a um carro com vidros blindados. Um dos homens apontou para o carro, sinal para MacLarens entrar no veículo.
Joshua permaneceu em silêncio, pois apercebeu-se de que a situação era séria. Mal entrou no carro, o motorista acelerou.
− O chefe vai gostar de o ver. – disse o motorista, quebrando o silêncio.
− Lamento, mas hoje tenho um encontro importante. Não me poderei encontrar com o seu chefe. – respondeu MacLarens.
− O seu irmão não poderá encontrar-se consigo hoje. – disse o homem mais silencioso.
− Como sabe que o meu irmão e eu nos iremos encontrar hoje? Só nós dois sabíamos.
− O Marc morreu. Foi assassinado.
Naquele momento, uma brisa de recordações atacou o coração de Joshua. As últimas palavras que ele havia proferido a Marc tinham sido “Longe estás melhor” e naquele dia, o dia em que se reencontrariam, algo tão horrível havia acontecido ao seu irmão. MacLarens tinha tantas perguntas, mas a única coisa que conseguiu inquirir foi “Como?”.
− O chefe ainda não tem suspeitos ou provas. É por isso que precisa de toda a ajuda que puder arranjar .
MacLarens não fez mais nenhuma questão. Chorava. Não com lágrimas, mas com o coração. Apesar de ele e Marc nunca terem tido uma boa relação, naquela noite uma parte de Joshua morrera com Marc.
Passadas umas horas em silêncio, o carro parou num campo de terra batida.

                            CAPÍTULO II


− Senhor MacLarens, sou Fréderique Laisone, dirigente da AFCC (agência francesa de combate ao crime). Lamento a sua situação.
Fréderique Lasone era um homem baixo, gordo com um capachinho e bigode pretos como o betão e óculos muito grandes e redondos.
− Por que quer uma agência federal  investigar o caso do meu irmão? – perguntou Joshua a Fréderique.
− O caso do seu irmão é – Lasone calou-se por uns momentos. – diferente.
 − Como “diferente”?
 − O seu irmão morreu na sala secreta de Notre Dame. E é por isso que o senhor cá está. Nós queremos saber como pode ele ter chegado a um sítio tão confidencial como este.
 − Eu adoraria poder ajudar, mas já não falo com o meu irmão há seis anos. Muita coisa mudou desde aí. – disse MacLarens.
− Decerto que em algo nos poderá ajudar. Agora vá descansar. Encontramo-nos à hora do almoço. Aí teremos tempo para conversar sobre toda esta situação.
Acompanhado por um dos homens que o haviam trazido até ali, MacLarens chegou ao quarto. Este não era muito acolhedor. Era pequeno, escuro e a única entrada de luz era uma janela com vidros embaciados. Quando se sentou na cama, uma nuvem de pó esvoaçou, mas MacLarens estava tão cansado que adormeceu, mal se deitou.
− “Não me mate! Eu dou-lhe o que quer!”
MacLarens acordou de rompante. Tinha tido um pesadelo sobre Marc, muito real.
Ouviu passos no corredor e viu Fréderique abrir a porta.
− Está tudo bem, senhor? – perguntou Lasone, colocando os óculos.
− Sim, foi só um pesadelo.
− Acerca de Marc, penso eu?
− Sim, exatamente. Pareceu tão real... – contou Joshua.
− Sobre isso… Joshua, eu tenho de lhe contar uma coisa. – disse Fréderique seriamente. − Tanto o senhor  como o seu irmão descendem de um nobre inglês chamado Cameron. Há trezentos anos, Cameron veio para França  para se casar com Caroline Delmar, filha de um nobre francês. Anos depois, tiveram um filho chamado Jacques. Este era uma criança muito especial, pois…
− Desculpe interromper, mas porque é que me está a contar isto?
Fréderique ignorou e continuou a falar.
− … pois nos seus sonhos via o futuro. Ninguém acreditou nele e por isso prenderam-no. Mas certo dia, Jacques disse que a rainha ia descobrir uma coisa que a faria sofrer e nesse mesmo dia, o Rei ficou muito doente. Desde aí, as pessoas começaram a acreditar nele e soltaram-no. Anos depois, Jaques teve um filho com Marie Lesmonde e na noite em que Jacques morreu, o seu filho ficou com o mesmo dom. E assim se passou de geração em geração até ao seu irmão mais velho: Marc. Como ele morreu, o dom passou para si.
− Que ideia a sua! Eu tive apenas um sonho. Uma mera fantasia do meu cérebro. – disse MacLarens, rindo-se.
Fréderique, sério, levantou-se e dirigiu-se até à sala.


                   AMÍLCAR CABRAL           

                           L

      DISSENSÕES E LUTAS INTERNAS

ZIGUINCHOR

Entre 1967 e 1969, a estratégia implementada por António de Spínola e o desgaste que a guerra prolongada foi produzindo nos combatentes anticoloniais conduziram a um certo equilíbrio na situação militar. No interior do PAIGC multiplicavam-se as expressões de desagrado. Abriram-se cisões e a liderança era contestada.
Em Novembro de 1967 desencadeou-se um projeto fracionista. Nasceu a ideia de fundar, a partir do PAIGC, o Partido Democrático Orgânico da Guiné (PDONG). Teria sido projetada a eliminação de Amílcar Cabral. Os dois cabecilhas do PDONG foram descobertos e fuzilados. Ocorreram ainda algumas prisões.
O secretário-geral estava a par das dissensões ainda que, oficialmente, as atribuísse sempre a manobras do inimigo. Reagiu procurando centralizar no secretariado toda a correspondência interna do partido.
Em 1968, a PIDE tomou conhecimento de nova tentativa de cisão. Desta vez, teve origem em combatentes da etnia mandinga. Foi fundada uma Junta Militar de Patriotas da Guiné-Bissau (JMPGB) que acusava Cabral do impasse na guerra de libertação. A Junta pretendia demitir Amílcar Cabral e afastar-se do PAIGC para se juntar à FLING. Era outra vez o anticaboverdianismo a mostrar os dentes.
Em Junho de 1969, foi a própria FLING que tomou a iniciativa de propor a certo número de guerrilheiros do PAIGC um encontro no Senegal para o planeamento de ações comuns. Um dos pressupostos era a expulsão dos cabo-verdianos das estruturas dirigentes do partido independentista. A FLING pretendia mesmo ocupar algumas bases do PAIGC no norte do país, unificar todos os movimentos da Guiné e constituir em Farim um governo provisório.  O presidente da FLING foi aprisionado numa área controlada pelo partido de Cabral e fuzilado.
Os guerrilheiros estavam desmoralizados. A independência que os dirigentes prometiam para breve nunca mais chegava. À fadiga de anos sucessivos de guerra, juntava-se o efeito da alimentação deficiente e do paludismo, inevitável para quem vivia dia e noite em florestas infestadas por mosquitos. A fértil região de Quitafine, a sul, chegara a ser considerada o “celeiro” do PAIGC. Era bombardeada sistematicamente pela aviação portuguesa que incendiava as culturas.
Sempre que a insatisfação dos combatentes aumentava, despertava o antagonismo aos cabo-verdianos. Dispondo de uma escolaridade superior, eram escolhidos para os lugares de chefia, enquanto os guineenses permaneciam na mata, de armas na mão.
As deserções tornaram-se comuns. A partir de 1968, o PAIGC teve de recorrer ao recrutamento compulsivo. Os guerrilheiros entravam nas tabancas e arrebanhavam os jovens em idade militar.
O baixo moral afetava a combatividade. Entre 1968 e 1969, o número de ataques desferidos contra as forças portuguesas decaiu significativamente.
As queixas contra Cabral repetiam-se e subiam de tom. Para além de privilegiar os cabo-verdianos no acesso aos lugares na direção do PAIGC, passaria demasiado tempo no estrangeiro, acabando por dirigir a luta armada com alguma displicência.
Amílcar Cabral não era um líder incontestado. A guerra de libertação passou por fases muito difíceis. O seu inegável carisma não bastava para suprir todas as dificuldades de organização. Eram noticiados, com alguma frequência, atentados contra ele. Uns terão sido reais e outros inventados.
A PIDE noticiou alguns. Três deles terão ocorrido na região de Ziguinchor, no Senegal. Terão sido levados a cabo, em ocasiões sucessivas, por um desconhecido, um manjaco e um balanta.
Os boatos repetiam-se. Falou-se em tentativas de rapto. Em 1969, contudo, foi preparado um atentado real. Um grupo de combatentes planeou uma emboscada contra o secretário-geral. É o próprio Cabral quem confirma o episódio, num relatório escrito em 1970. Um número importante de agentes do inimigo, cujo objetivo era o assassinato de dirigentes do partido, fora capturado no ano anterior.
A PIDE tentou, por mais do que uma vez, aliciar dissidentes do PAIGC para eliminar Amílcar Cabral. Falhou sempre.
Em março 1972, num documento de doze páginas, o secretário-geral denunciava um plano “diabólico” para o eliminar. Estariam em causa militantes descontentes, em conluio com as autoridades portuguesas. A publicação do secretário-geral não bastou para pôr fim imediato à intentona. Terão sido presos cerca de 40 elementos do PAIGC, mas apenas três meses depois. O nome de Inocêncio Cani veio pela primeira vez à baila. Falava-se com insistência de desentendimentos entre Amílcar Cabral e “Nino” Vieira.
Inocêncio Cani era manjaco. Teria boas relações com Osvaldo Vieira. Foi um prestigiado comandante da guerrilha do PAIGC na frente norte (Morés). Juntou-se aos protestos contra o favorecimento dos quadros cabo-verdianos na hierarquia do partido. Cabral chamou-o a Conakry. Para o distanciar, enviou-o para a URSS onde se dedicou à formação em marinha de guerra. Não terá modificado os seus pontos de vista. Em 1971 foi preso, depois de julgado num tribunal militar, acusado de corrupção.  Não ficaria muito tempo na cadeia. O líder do PAIGC era avesso a detenções prolongadas.
De Amílcar Cabral, García Márquez poderia dizer também que teve a morte anunciada.


domingo, 2 de junho de 2013


                      AMÍLCAR CABRAL

                                                XLIX

                ORGANIZAÇÃO NAS ZONAS LIBERTADAS




O amendoim era praticamente o único produto que se podia trocar por mercadorias. A sua área de cultura crescia de ano para ano. No entanto, havia pouco para trocar. A guerra expulsara os comerciantes portugueses das áreas de conflito e até os “djilas” (vendedores ambulantes) passaram a ver o seu trabalho dificultado quando a moeda deixou de circular nas zonas libertadas. O PAIGC procurou que tanto a população como os guerrilheiros aumentassem os campos de cultivo e diversificassem a produção. Pretendia-se colher não apenas arroz, mas também milho, mandioca, batatas e legumes. O partido incentivou o uso de outros produtos, como o amendoim, a cola, o óleo de palma e as peles de crocodilo como moedsa de troca. Serviriam para adquirir bens essenciais como o sal, o sabão, as sandálias e o vestuário.
A aviação portuguesa procurava destruir os campos de cultura para retirar o sustento aos guerrilheiros e às populações que os apoiavam.
A guerra arrasou a economia e impôs o recurso à ajuda externa. Foi esse apoio que permitiu a criação de “armazéns do povo” nas áreas libertadas. O seu número foi sempre insuficiente e as suas prateleiras estavam muitas vezes desguarnecidas. Em resposta aos apelos de Cabral, países como a União Soviética, a China, a Bulgária e Cuba ofereceram uma ajuda alimentar importante que consistia em produtos que resistiam ao transporte e se podiam armazenar. Era o caso do açúcar, da margarina, das conservas de peixe e do leite condensado.
A transformação pretendida na sociedade passava pela melhoria do nível cultural da população, maioritariamente analfabeta. O PAIGC começou por abrir escolas ligadas às bases de guerrilha onde tanto a população como os combatentes pudessem ser ensinados.
Entre 1964 e 1965, funcionaram nas regiões libertadas 50 escolas frequentadas por perto de 4 mil alunos. Nos anos seguintes, foi crescendo o número de alunos, de escolas e de professores. Em 1972 teriam sido construídas cerca de 200 escolas em que duas centenas e meia de professores ensinavam mais de 14 mil alunos. As escolas funcionavam graças à cooperação de países do norte da Europa (Suécia, Finlândia e Noruega), e do bloco socialista.
Foram criados, tanto no interior como no exterior do território da Guiné-Bissau postos sanitários e hospitais que pudessem tratar militares e civis. Na República da Guiné, o PAIGC dispunha do Hospital de Solidariedade, situado em Boké, e de uma clínica ortopédica em Conakry. Em Ziguinchor (Senegal), tinha outro hospital. Em 1971 estavam a funcionar, dentro das fronteiras da Guiné-Bissau, 120 postos sanitários e 13 hospitais regionais ou setoriais, com um número total de 500 camas.
Amílcar Cabral preocupou-se sempre com o desenvolvimento da preparação ideológica do povo da Guiné-Bissau. Não deixava, contudo, de ser pragmático. Dizia: “Lembre-se sempre de que o povo não luta por ideias, por coisas que estão na cabeça dos homens. O povo luta e aceita os sacrifícios exigidos pela luta, mas para obter vantagens materiais, para poder viver em paz e melhor, para ver a sua vida progredir e para garantir o futuro dos filhos”.
A dada altura, o PAIGC considerou ter chegado o momento de oficializar a constituição dum Estado nas zonas libertadas. Multiplicaram-se as reuniões preparatórias. Foi decidido eleger conselheiros regionais que escolheriam depois os deputados que iriam integrar a Assembleia Nacional Popular.
      “A nossa primeira Assembleia ia ser constituída, na sua maior parte, por eleitos saídos do seio do povo trabalhador e combatente, para que ela pudesse exprimir as suas aspirações mais profundas. As candidaturas eram apresentadas pelos responsáveis ou pelos próprios interessados. Um a um, o povo ia eliminando os que não interessavam, acabando por escolher o seu candidato. Uma lista única era submetida às populações que deviam dizer se – SIM ou NÃO – estavam de acordo com ela. Os boletins correspondentes às duas respostas possíveis, de cores diferentes, eram distribuídos aos eleitores, depois de estes se identificarem e serem inscritos na lista eleitoral cujo controlo era exercido pela própria gente do local, que conhecia bem os seus concidadãos. A urna estava atrás de um biombo feito de esteiras”.
      “Cento e vinte conselheiros foram selecionados entre as figuras de maior prestígio entre o povo e os combatentes, para formarem o órgão legislativo constituinte supremo da nossa terra. Eram os primeiros deputados da nossa história e cabia-lhes uma tarefa que não mais se ia repetir: a proclamação do nosso estado da Guiné e a aprovação da sua Lei Fundamental”.

sábado, 1 de junho de 2013

                    
                      AMÍLCAR CABRAL

                             LXVIII

   A ORGANIZAÇÃO DA GUERRILHA                                     



          Do lado da guerrilha, verificou-se relativamente cedo que as primeiras bases criadas no começo da luta armada tinham deixado de corresponder à realidade da situação militar. Por um lado, a maioria dos ataques envolvia efetivos reduzidos. Por outro, constituíam alvos fáceis para a aviação portuguesa. Foi decidido reorganizar os combatentes em grupos mais pequenos que poderiam reunir-se ocasionalmente para iniciativas mais ambiciosas. 
Em novembro de 1964 juraram bandeira os elementos das primeiras unidades do Exército Popular pensado no Congresso de Cassacá. Com guerreiros melhor preparados, foi possível abrir novas frentes de combate. No mesmo Congresso fora criado um Conselho de Guerra que dependia diretamente do secretário-geral e funcionava como estado-maior.
O Exército Popular compunha-se de unidades chamadas bigrupos. Contavam com cerca de 40 elementos cada, podendo ser reforçados.
A organização dos combatentes revolucionários modificou-se ao longo do conflito, de acordo com o equilíbrio de forças e as alterações no modo português de fazer a guerra.
Em 1965, os comandos militares inter-regiões mudaram de nome e de funções. Passaram a ser chamados comandos gerais do norte e do sul. Coordenavam todas ações de combate nas suas áreas. No ano seguinte, passaram a ser designados por comandos de frente.  Em 1969 deu-se nova reorganização. Foi criada a Comissão Nacional das Regiões Libertadas. Em termos militares, o rio Geba passou a separar as frentes norte e sul, as quais foram subdivididas em zonas ou setores.  
Em 1971, ocorreu uma nova reestruturação. A marinha ganhara importância. Passou a ser chamada Marinha Nacional Popular. Juntamente com o Exército Nacional Popular e as Forças Armadas Locais, compunha as Forças Armadas Nacionalistas.
A marinha integrava unidades navais e unidades de fuzileiros, cuja organização assentava também em bigrupos. Em 1971 instrutores russos começaram a treinar em Conakry uma unidade de homens-rãs.
O exército compunha-se de unidades de infantaria, artilharia e grupos especiais. A infantaria continuava a assentar a sua organização nos bigrupos de grande poder de fogo. A dada altura, até as forças coloniais adotaram esse modelo. Três ou quatro bigrupos formavam um corpo de exército. A artilharia compreendia grupos mais ou menos clássicos de 50 homens, unidades de canhões e morteiros com cerca de metade desses efetivos e grupos ainda mais pequenos de foguetões associados a outros meios antiaéreos. Os grupos especiais incluíam comandos, atiradores especiais com miras telescópicas e operadores de lança-granadas foguete (bazucas).
As Forças Armadas Locais substituíam as milícias. Assentavam em grupos de dezanove elementos armados com espingardas Simonov, pistolas-metralhadoras PPSH e bazucas (RPG-2). Existiam destacamentos femininos que não entravam em combate. As Forças Armadas Locais combatiam ocasionalmente ao lado do exército. Desempenhavam essencialmente missões de segurança, aliadas ao trabalho político. Colaboravam com as populações nos trabalhos agrícolas e na reconstrução das estruturas destruídas pelo fogo inimigo.
Entre 1972 e 1974, os serviços de informação de Lisboa estimavam em cerca de 7.500 os combatentes que enfrentavam na Guiné. Pouco mais de 5.000 integrariam o exército popular, enquanto outros 2.000 fariam parte das forças armadas locais.
Haveria 2.800 homens a combater na chamada Inter-Região Norte e 2.500 na Inter-Região Sul. O maior contingente (1.230 homens) enfrentava as forças portuguesas na zona Buba/Quitafine.
As dificuldades de comunicação entre as várias chefias militares e entre elas e a direção do partido, sediada em Conakry, repetiram-se ao longo da luta armada. Foi preocupação constante de Amílcar Cabral subordinar os militares aos políticos. Não foi tarefa fácil.
Havia mais problemas. O cansaço de guerra atingiu muitos combatentes. O PAIGC chamava os jovens ao combate apelando ao dever cívico e patriótico. Os guerrilheiros não eram pagos nem tinham um tempo de serviço contratado. Viviam com dificuldades e alimentavam-se mal.
A colocação dos militares em áreas distantes das suas moranças originava dificuldades de adaptação. “No Gabu, mais de 40% dos efetivos abandonaram as suas unidades, saindo à procura do caminho para regressar às suas casas”. Os dirigentes do PAIGC procuraram contornar este problema passando a distribuir preferencialmente os combatentes pelas suas regiões de origem.
Embora, numa guerra de guerrilha, o número de soldados revolucionários, distribuídos por unidades de grande mobilidade, seja sempre muitas vezes inferior ao número de efetivos dos exércitos regulares, que combatem mais fixados a posições defensivas, nem sempre o recrutamento de voluntários para o PAIGC correspondeu às expectativas dos seus dirigentes.