DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 25 de maio de 2013


                      AMÍLCAR CABRAL

                              XLII

                      REGRESSO A LISBOA


Entre 1955 e 1959, Cabral voltou a ser mais engenheiro do que político. Os contactos que mantinha com professores do ISA e com antigos colegas asseguravam-lhe ocupações temporárias em Lisboa. Teve ainda oportunidade de se ocupar de missões agrárias ao serviço de grandes companhias angolanas. Durante este período, trabalhou para a Sociedade Agrícola do Cassequel, para a Companhia Angolana de Agricultura e para as fazendas Tentativa, São Francisco e Nhia. Deslocou-se também pela Europa, para visitar centros de produção de açúcar de beterraba. Foi aproveitando as viagens para estreitar os antigos contactos com os líderes nacionalistas das colónias portuguesas que tinham deixado o país.
Amílcar e Maria Helena viviam agora num bom apartamento da Avenida Infante Santo. As dificuldades económicas dos tempos de estudo tinham ficado para trás.
    Muitas organizações políticas fazem gala de apresentar uma data precisa de fundação, mesmo quando os seus trajetos se desenrolaram de forma progressiva e até os nomes adotados se foram modificando ao longo do tempo. Na versão oficial, o PAIGC terá sido fundado em 1956, em Bissau, por Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Júlio de Almeida, Elisée Turpin, Fernando Fortes e Luís Cabral. Não terá sido assim. Julião Soares, autor de Amílcar Cabral - vida e Morte de um Revolucionário Africano, afirma que Cabral não  esteve nesse ano em Bissau. Certo é que o PAI só ganharia o GC e a bandeira em Dakar, em outubro de 1960.
Enquanto residiu na capital portuguesa, Cabral foi sempre prudente na sua atividade revolucionária. Ao contrário de alguns dos seus companheiros de estrada, como Neto, o líder do PAIGC nunca foi incomodado a sério pela PIDE. Era um homem culto, inteligente, firme e cuidadoso. Estaria mais talhado, como Léopold Senghor, para chegar ao poder pelo voto e não pelas armas. Se assim foi, o destino trocou-lhe as voltas. A História impôs-lhe outro caminho.
No final de 1959, Amílcar Cabral almoçou num restaurante de Setúbal com Ário de Azevedo, seu professor e amigo, que lhe propôs um novo emprego. Desta vez, a resposta foi negativa. Amílcar não voltaria a trabalhar em África. Resolvera, finalmente, dar um rumo diferente à sua vida. A independência da Guiné-Conakri, declarada no ano anterior, marcara-o profundamente. Passara a haver condições para iniciar o processo que iria pôr fim ao colonialismo português. Era tempo de acordar a Guiné-Bissau. O PAIGC esperava por ele.
Cabral nascera na Guiné e era filho de cabo-verdianos. Não havia ninguém tão bem preparado como ele para assumir o comando dos povos da Guiné e Cabo Verde na luta revolucionária. Escreveu Agostinho Neto: Já não sou o que espera. Sou aquele por quem se espera. O verso poderia aplicar-se a Amílcar Cabral.
Por essa altura, o nacionalismo negro era essencialmente pan-africano. Ocorreram em África várias tentativas de uniões de jovens estados. Dessas experiências, ficou apenas a Tanzânia.
 Não existindo condições para a luta de guerrilha nas ilhas do arquipélago cabo-verdiano, Amílcar Cabral desencadeou a guerra de libertação nas selvas da Guiné então portuguesa.
                  


quinta-feira, 23 de maio de 2013



               AMÍLCAR CABRAL

                       XLI

                 A ADJACÊNCIA


No final do século XIX, Cabo Verde dispunha de instrumentos culturais superiores aos das restantes possessões ultramarinas portuguesas. O Seminário-liceu de S. Nicolau tinha uma frequência apreciável. Funcionavam diversas associações recreativas e existia uma imprensa virada para os problemas regionais. Tinha sido criada uma elite intelectual que se sentia diferente do conjunto dos cidadãos das outras colónias portuguesas.
O projeto da adjacência, que advogava para Cabo Verde um estatuto semelhante aos dos Açores e da Madeira foi defendido, com intermitências, por diversos pensadores do arquipélago. Se, de vez em quando, sobretudo por altura das secas, se levantavam vozes a defender a independência, pouco eco despertavam numa opinião pública inclinada a lutar pela autonomia administrativa e económica dentro do império português. Houve quem defendesse a ideia de que, em Cabo Verde, a mestiçagem atenuava a intensidade dos conflitos entre colonos e colonizadores
Não existia, em Cabo Verde, uma tradição de pura crítica anticolonial. A literatura do começo do século XX ligava frequentemente as noções de “nativismo” e de “adjacência”. Nativismo era um processo de busca de individualidade da terra-mãe. Muitos cabo-verdianos achavam que tinham duas pátrias. Uma vinha do nascimento, enquanto a outra era fabricada na escola pela aprendizagem da língua e da cultura portuguesas.
Em 1937, o governo português fez sair duas leis que iriam ter consequências desastrosas para as teses da portugalidade repartida por vários continentes. Uma impedia o acesso à oficialidade das Forças Armadas Portuguesas aos naturais das colónias. Outra proibia o casamento de oficiais portugueses com raparigas nascidas no Ultramar. Nove anos mais tarde, foi publicado um decreto-lei que reforçava os privilégios dos funcionários públicos de raça branca. Os negros e mestiços não podiam ganhar tanto como os seus colegas de pele clara e deixavam de ter acesso aos lugares de chefia. A lei aplicava-se a todos os territórios sob administração portuguesa mas era particularmente lesiva dos interesses doa quadros cabo-verdianos. Seria revogada cinco anos depois. A revisão constitucional de 1951 mudou o nome às colónias, que passaram a chamar-se “províncias ultramarinas”. A cosmética valeu de pouco. Os ventos da independência tinham já começado a soprar.
É provável que até perto do final da década de 50, Amílcar Cabral, como outros intelectuais africanos, tenha tido de lutar consigo mesmo para se livrar do sentimento de pertença a Portugal que lhe foi inculcado durante a aprendizagem escolar.
       Curiosamente, quase trinta anos após a independência, a questão da adjacência continua a suscitar discussões inflamadas na República de Cabo Verde. 


                   AMÍLCAR CABRAL

                             XL

         ENGENHEIRO NA GUINÉ



                              Amílcar e Maria Helena em Pessubé

Amílcar Cabral terminou o curso em 1950. Para obter a licenciatura, estagiou em Cuba, no Alentejo, em 1951 e princípio de 1952. O relatório final daquele estágio tratava da erosão dos solos e obteve uma classificação elevada. Depois, Amílcar escolheu a Guiné para trabalhar.
Não são conhecidas as razões que o chamaram para lá. Certo é que foi contratado pelo Ministério do Ultramar como diretor-adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais e diretor da Granja Experimental de Pessubé. O facto de um recém-licenciado se estrear logo como diretor faz presumir que não abundavam os engenheiros agrónomos na Guiné portuguesa.
Pessubé situava-se nos arredores de Bissau. A capital da Guiné era uma pequena cidade dividida em duas zonas. No centro, estava Bissau Velho, a cidade colonial, a terra dos brancos, onde ficava o Forte da Amura, o porto de Pindjiguiti e a Avenida da República, que agora tem o nome de Avenida Amílcar Cabral. Localizava-se ali a maioria das casas comerciais portuguesas, como a Casa Gouveia, sucursal da CUF, o estabelecimento Álvaro Camacho e a Sociedade Comercial Ultramarina. Abundavam os pequenos comércios pertencentes a libaneses. Este centro urbano era envolvido pela cidade indígena, habitada maioritariamente por negros da etnia papel.
       Amílcar Cabral chegou a Bissau em setembro de 1952. A esposa juntou-se-lhe dois meses depois. O casal ocupou a moradia existente dentro do espaço da Granja Experimental e destinado ao diretor de serviço.
A granja de Pessubé fornecia vegetais às autoridades administrativas e era utilizada como zona de piqueniques. Cabral procurou transformá-la numa unidade de investigação agrária suscetível de ajudar os agricultores guineenses a melhorar os seus métodos de produção.
Enquanto estudava em Lisboa, Amílcar auxiliara pontualmente a família, à medida das suas escassas possibilidades. Ajudou, a dada altura, a irmã Arminda a vir para a metrópole estudar enfermagem e corte e costura. Com a situação profissional estabilizada, foi chamando os familiares para a Guiné. Veio primeiro Luís Cabral, a quem arranjou emprego na Casa Gouveia. Chegou depois António, o irmão mais novo, e a seguir a mãe, acompanhada pelas filhas gémeas.
O primeiro recenseamento agrícola da Guiné proporcionou ao jovem engenheiro agrónomo a oportunidade de conhecer de perto o interior da sua terra natal e o mosaico étnico que a habitava. O recenseamento resultava de um acordo estabelecido em 1947 entre o governo português e a Food and Agriculture Organization (FAO). Tinha ficado no papel por falta de um técnico capaz de o encabeçar.
 Ao longo de cinco meses (de agosto a dezembro) Cabral e a sua equipa percorreram a quase totalidade do território guineense, visitando mais de 2.200 agricultores. No final do trabalho de campo, Amílcar Cabral fez o tratamento da informação recolhida e elaborou o relatório a ser apresentado à FAO.
Diz António Tomás que foi graças a este trabalho que Amílcar Cabral encontrou a linguagem certa para se entender com os camponeses. Resumida, a mensagem era clara: a pobreza dos agricultores era culpa dos colonos.
A Guiné nunca foi uma colónia de povoamento intensivo. Enquanto em Angola e Moçambique os portugueses tomaram conta de parte das melhores terras, os indígenas guineenses continuaram a ser senhores dos seus terrenos de cultivo, sujeitando-se apenas aos preços tabelados.  
A Guiné produzia essencialmente arroz, amendoim (mancarra) e milho. Todas as etnias semeavam arroz, mas os balantas pouco mais cultivavam. Os fulas preferiam a mancarra, destinada à exportação. A Casa Gouveia era a única entidade compradora e estabelecia os preços que lhe convinham. Segundo alguns agrónomos, o percurso das culturas de mancarra era fácil de seguir pela devastação que produziam no solo. Tornava-se necessário modificar profundamente a estrutura agrária do país, o que pedia mais política do que agronomia.
Amílcar Cabral aprendeu outras coisas úteis para a futura guerra de independência. Qualquer empreendimento na Guiné estaria subordinado à sucessão das estações climáticas. No chão balanta, a sul, os caminhos tornavam-se rapidamente intransitáveis depois do começo da chuva enquanto nas zonas menos húmidas do norte ainda se circulava relativamente bem.  Por outro lado, a navegação por rios e braços de mar era obrigada a seguir o ritmo das marés. 
 Bissau era um meio pequeno e os raros intelectuais da cidade conheciam-se uns aos outros. Sofia Pombo era farmacêutica e militante do PCP. Em sua casa, falava-se abertamente de política e escutavam-se as emissões da Rádio Moscovo. Cabral passou a frequentar a residência da farmacêutica.
Amílcar Cabral foi travando conhecimento com vários cabo-verdianos que trabalhavam como funcionários públicos na administração colonial. Foi nessa altura que se reaproximou de Aristides Pereira, seu antigo colega do Liceu de Cabo Verde. Fez uso da sua experiência de subversão e foi divulgando a ideia da necessidade da interligação das independências de todas as colónias portuguesas. À maneira de Lisboa, foi reunindo um pequeno grupo em que se discutiam temas africanos. À medida que conhecia melhor os intervenientes e se tornava possível confiar em alguns, passava à abordagem das questões políticas. Muitos desses encontros tinham lugar na sua residência na Granja.
As dificuldades subiram de nível quando entraram para o grupo os primeiros guineenses. Os cabo-verdianos e os naturais da Guiné pertenciam a grupos socioeconómicos diferentes. O direito português enquadrava-os mesmo em duas categorias distintas. Enquanto os de Cabo Verde eram “civilizados”, os da Guiné eram quase todos “indígenas”. Muitos cabo-verdianos habitavam na zona “branca” de Bissau. Amílcar Cabral entendeu cedo que não poderia seguir a mesma tática na abordagem de uns e de outros.  Nasceu-lhe então a ideia de criar um clube desportivo e cultural. Ofereceu-se como treinador de futebol. Era uma maneira de se aproximar da juventude de Bissau e de desenvolver o seu trabalho político sob uma cobertura legal.
Decorreram várias reuniões para a preparação dos estatutos do clube. Ao serem apresentados às autoridades competentes, foram recusados.
Foi provavelmente na Guiné que Amílcar Cabral amadureceu intelectualmente e optou definitivamente pelo nacionalismo africano. Durante essa estadia de dois anos e meio começou a esboçar-se o que haveria de ser mais tarde o PAIGC. Cabral aprendeu também que nem todos os que falavam de independência a pretendiam de facto. Foi conhecendo as primeiras traições. Anos depois, falaria com pouco entusiasmo do grupo antifascista de Bissau.
As circunstâncias que puseram fim à estadia de Amílcar Cabral na Guiné não são bem conhecidas. Sabe-se que tanto ele como Maria Helena adoeceram com paludismo. Luís Cabral garante que o seu irmão foi vítima duma denúncia. Um alfaiate de Bissau terá informado as autoridades militares das atividades anti-portuguesas do engenheiro agrónomo e o governador tê-lo-á “convidado” a abandonar a colónia.
       Certo é que foi um Cabral diferente o que desembarcou em Lisboa. Partira um engenheiro agrónomo. Regressava um político decidido a dedicar a vida à independência da Guiné e de Cabo Verde.
       Terá sido autorizado a voltar a Bissau para visitar a família. Aproveitou bem as deslocações. Na primeira, em 1956, formou o o PAI (Partido Africano para a Independência), que se transformaria mais tarde em PAIGC. Na segunda, em 1959, começou a preparar a luta armada.

quarta-feira, 22 de maio de 2013


                  AMÍLCAR CABRAL

                                                                                              XXXIX                                  

             CLIVAGEM COM O PCP


                                                 Agostinho Neto

     Durante a campanha presidencial de 1949, houve muita gente que teve de se expor e deu nas vistas da PIDE. A repressão não tardou e atingiu duramente o PCP e os estudantes ligados ao MUD/ juvenil. A oposição à ditadura foi abalada e a luta antifascista amainou durante algum tempo. O MND foi a única organização progressista que se conseguiu manter alguma atividade.
    Os estudantes africanos ficaram desiludidos com a fragilidade da Esquerda portuguesa e procuraram outros caminhos. Contou Mário Pinto de Andrade: “era perigoso e não conduzia a grande coisa”. Aos poucos, os intelectuais negros foram-se desinteressando do combate comum contra o fascismo e optaram pela luta anticolonial.
A tendência centralista do PCP impedira-o de encorajar a criação de organismos africanos independentes. Em seu lugar, fora semeando células clandestinas nas colónias portuguesas. Ao mesmo tempo, procurara enquadrar os estudantes negros nas suas estruturas.
Quando, no final da década de 50, os jovens negros se começaram a afastar do PCP e do MUD/juvenil foram mal entendidos. Escreveu Lúcio Lara que nem sempre foi fácil fazer compreender aos amigos portugueses a necessidade de não se confundirem as respetivas lutas que, de resto, se complementavam.
    Amigos, amigos, estratégias à parte… Um grupo clandestino que integrava, entre outros, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Agostinho Neto, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo fundou em Lisboa, em 1951, o Centro de Estudos Africanos (CEA). Era a primeira instituição destinada unicamente a debater os problemas dos negros das colónias portuguesas. A iniciativa foi mal recebida pelos dirigentes comunistas. Houve quem a considerasse racista.
O divórcio entre o PCP e os jovens coloniais tornou-se público em Bucareste, no ano de 1953, durante o III Congresso da União Internacional de Estudantes. Agostinho Neto, Vasco Cabral e Marcelino dos Santos recusaram-se a desfilar ao lado dos estudantes portugueses e fizeram-no em representação dos respectivos países.
Não foi o CEA o único organismo de luta política dos estudantes africanos em Lisboa. O Clube Marítimo Africano foi fundado em Alcântara nos anos 40 e desempenhou um papel de certo relevo na alfabetização e na consciencialização política dos marinheiros que faziam carreiras regulares entre Angola e Lisboa. Escreveu mais tarde Amílcar Cabral: eu morei em Alcântara; ensinei alguns trabalhadores a ler e a escrever.
Quando muitos intelectuais negros trocaram Lisboa por Paris, o CEA esvaziou-se. A sua atividade cessou totalmente em 1954. Começava uma nova etapa da luta revolucionária. Foram fundados o Movimento de Libertação Nacional das Colónias Portuguesas (MLNCP) e, no ano seguinte, o Movimento Anticolonialista (MAC). Os jovens intelectuais de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau seguiam o exemplo dos seus colegas francófonos que tinham criado estruturas independentes do PCF.  

terça-feira, 21 de maio de 2013


                                    
                                                   AMÍLCAR CABRAL

                                                             XXXVIII

      A ESQUERDA PORTUGUESA E O COLONIALISMO


                                           Bento Gonçalves

Quando a pressão exterior obrigou a pôr fim ao tráfico de escravos, as possessões ultramarinas portuguesas passaram a dar prejuízo. Houve quem, como Eça de Queirós, advogasse a sua venda. No entanto, essa ideia estava longe de ser consensual. Basta lembrar a onda de indignação que se seguiu ao Ultimato britânico que veio pôr fim ao projeto megalómano do Mapa Cor-de-rosa.
Sem um presente capaz de alimentar de forma confortável o amor-próprio, o imaginário português ancorou-se perigosamente à memória dum passado glorioso. As crianças aprendiam nos bancos da escola a sonhar com um império pluricontinental. As colónias pertenciam-nos por direito de descoberta.
Este modo de pensar modificou-se lentamente. Foi fora das nossas fronteiras que a questão foi levantada a primeira vez por vozes portuguesas. Em 1935, durante o VII Congresso da Internacional Comunista em Moscovo, Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, falou na necessidade de ajudar os povos colonizados a iniciarem o processo que haveria de conduzir à independência. Dentro de portas, foi o Movimento Nacional Democrático quem primeiro levantou, no final da década de 40, a questão da autonomia das nossas colónias.
As ideias amadureceram devagar. O abandono do império agradava a poucos. Até o PCP vacilou. As posições defendidas no seu III Congresso, em 1943, eram mais tímidas que as de Bento Gonçalves. A luta pela independência dos territórios ultramarinos passou a estar ligada à queda do Estado Novo. A libertação dos povos oprimidos seria um corolário da democracia.
   Apenas em 1957, durante o V Congresso do PCP, foram defendidos com clareza o fim do império colonial e o direito dos povos subjugados à autodeterminação, “independentemente das modificações que se pudessem operar na situação política em Portugal”.
 Era tempo. Dois a três anos mais tarde nasceram os movimentos independentistas e, em fevereiro de 1961, começou a guerra em Angola.  
A partir da segunda metade da década de 40, deu-se uma certa convergência de interesses entre a Esquerda portuguesa e os nacionalistas africanos. Enquanto o MUD e o PCP precisavam de aliados, os quadros africanos não tinham condições para iniciarem processos separados de luta e sentiam necessidade de fazerem as respetivas aprendizagens políticas. 
Apesar de coexistirem no mundo culturas diversas e até antagónicas, a “globalização” e a troca quase instantânea de ideias são encaradas como naturais pelos nossos jovens. Se lhes lembrarmos que uma inovação demorava dezenas de anos (senão meio século) a progredir dos Pirenéus até ao vale do Tejo, olham-nos com estranheza. Sabem pouco. A situação periférica de Portugal, no extremo Poente da Europa, afastou-nos de todos os cruzamentos terrestres de comércio e de cultura durante milénios. Limitou o nosso modo de pensar até à aventura das Descobertas. Depois da expulsão dos mouros e durante muito tempo, as trocas culturais fizeram-se quase exclusivamente com os vizinhos: Galiza, Leão e Castela. As ideias fluíam como os rios: vinham de lá para cá.
Os padrões civilizacionais ingleses impuseram-se a certa burguesia urbana do Porto e de Lisboa. Há famílias que ainda hoje ostentam apelidos ingleses comuns com um orgulho difícil de justificar. Fazem de títulos de nobreza, tão anacrónicos como os outros. Aparentemente, os marinheiros que frequentavam os portos portugueses e os comerciantes que se estabeleciam cá desconheciam a própria cultura. Poucas marcas deixaram na nossa. O desenvolvimento das vias férreas, ao longo do século XIX, pôs a França à nossa beira. Portugal tornou-se uma província cultural francesa.
Esta reflexão alongada servirá para justificar algum atraso (apetecia-me escrever “décalage”) na divulgação de ideias entre Portugal e a Europa. 
    O Partido Comunista Português criou as suas primeiras células viradas para África por volta de 1948, cerca de dez anos mais tarde que o seu congénere francês. Nasceram a Comissão de Luta das Juventudes contra o Imperialismo Colonial em Angola, o Comité Federal Angolano do PCP e a Angola Negra. 
     A oposição democrática ao regime salazarista tardou a apoiar a independência das colónias. O programa de candidatura do general Humberto Delgado, em 1958, proclamava a defesa da integridade das possessões ultramarinas de Portugal. Nas eleições de 1965, o Manifesto à Nação dos oposicionistas advogava já, para as colónias, “uma solução política com base na autodeterminação, processada por métodos democráticos”. Nas eleições de 1969, a oposição estava dividida, mas tanto a CDE como o CEUD convergiam na necessidade de encontrar soluções políticas para as guerras coloniais. A rotura completa com as posições governamentais aconteceu apenas em abril de 1973, em Aveiro, durante o III Congresso da Oposição Democrática. Foi exigido “o fim imediato das guerras de agressão contra os povos de Angola, Guiné e Moçambique”.





segunda-feira, 20 de maio de 2013


                     AMÍLCAR CABRAL           

                            XXXVII

                       FÉRIAS EM CABO VERDE


Amílcar Cabral passou férias em Cabo Verde, em 1949. Foi precedido por chuvas abundantes que interromperam a seca de quatro anos que lançara muita gente na miséria e originara outra leva de emigração. O poeta cantou a chuva e os seus benefícios. 

                REGRESSO

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...

Durante as férias, escreveu um artigo a que chamou “Algumas considerações acerca da chuva”. Propunha a intensificação das políticas destinadas a combater a seca “dentro da comunidade do Mundo Português”. Poderá ter abordado o tema de forma prudente, tendo em conta o público-alvo, mas fica a ideia de a sua opção nacionalista não estar ainda amadurecida.
Cabral não foi um iluminado. Falamos de um homem que foi capaz de aprender e de evoluir ao longo da vida. Antes de ser revolucionário, foi reformador. Como seu pai, terá começado por admitir que o progresso económico do arquipélago e a melhoria das condições de vida dos ilhéus seriam possíveis no enquadramento colonial. Essa ideia parece confundir os seus seguidores. Uma parte do que foi escrito sobre as férias de Cabral em Cabo Verde no ano de 1949 deve ser lida sob reserva.
O governador Carlos Roçadas, médico militar, tinha tomado posse algum tempo antes. Fundou o Boletim de Informação e Propaganda de Cabo Verde, em que tanto Juvenal como Amílcar Cabral vieram a colaborar. À exceção do primeiro texto, escrito na cidade da Praia, os artigos de Amílcar foram enviados de Lisboa. Defendia, como outros, que as secas constituíam mais um problema político que meteorológico. Para as combater, sugeria a preparação de um projeto global em que a construção de diques e barragens fosse complementada com a arborização de áreas específicas com espécies selecionadas.
Durante as férias, Amílcar Cabral não se limitou a colaborar na imprensa escrita. Escreveu alguns textos sobre agricultura para a Rádio de Cabo Verde. O terceiro (e último) destes artigos era claramente politizado. Tratava da similitude entre as culturas cabo-verdiana, afro-brasileira e afro-americana, sugerindo que os cabo-verdianos estavam mais chegados a essas comunidades negras que à população do continente português. Era a Negritude a piscar o olho. O programa foi interrompido. 
Cabral terá ainda tentado organizar um curso de alfabetização de adultos. Não terá sido autorizado. De qualquer forma, não o teria podido administrar. O período de férias era curto. Para mais, adoeceu, antes de regressar a Lisboa.

domingo, 19 de maio de 2013


              MARCOS DO CAMINHO


O “decaedela” recebeu hoje a visita número 30.000. Como o “historinhasdamedicina” ultrapassou as 20.000 consultas, os visitantes dos meus dois blogues somam já meia centena de milhar. São mais do que o triplo dos compradores da totalidade dos meus livros e provêm de todos os cantos do mundo.
Ocorrem diferenças na distribuição geográfica das consultas aos dois blogues.
Em relação ao “decaedela” estará em causa, em parte, a diáspora angolana. A maior parte dos leitores contactou a Internet a partir de Portugal, Angola, Brasil, Estados Unidos da América e Rússia, embora haja visitas de outros pontos Europa e da Ásia e também da Oceania.
No caso do “historinhasdamedicina” a maioria dos visitantes é brasileira, tendo a Argentina uma participação significativa.


No conjunto das 246 mensagens publicadas, um dos três artigos que dediquei à atividade de Leonardo da Vinci como anatomista recolheu claramente a preferência dos leitores. Embora tenha descurado a apresentação de mensagens novas nos últimos dezoito meses, o número de interessados na História da Medicina não deixou de crescer significativamente. Tenciono dar em breve uma atenção renovada ao “historinhasdamedicina”.
“O decaedela” vai de vento em popa. Nos últimos 40 dias publiquei 36 artigos curtos do livro que estou a escrever sobre Amílcar Cabral. Hão de ser revistos e aumentados, mas contém o essencial das minhas ideias sobre os temas. Serão em breve enriquecidos com novas colaborações.