DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quarta-feira, 22 de maio de 2013


                  AMÍLCAR CABRAL

                                                                                              XXXIX                                  

             CLIVAGEM COM O PCP


                                                 Agostinho Neto

     Durante a campanha presidencial de 1949, houve muita gente que teve de se expor e deu nas vistas da PIDE. A repressão não tardou e atingiu duramente o PCP e os estudantes ligados ao MUD/ juvenil. A oposição à ditadura foi abalada e a luta antifascista amainou durante algum tempo. O MND foi a única organização progressista que se conseguiu manter alguma atividade.
    Os estudantes africanos ficaram desiludidos com a fragilidade da Esquerda portuguesa e procuraram outros caminhos. Contou Mário Pinto de Andrade: “era perigoso e não conduzia a grande coisa”. Aos poucos, os intelectuais negros foram-se desinteressando do combate comum contra o fascismo e optaram pela luta anticolonial.
A tendência centralista do PCP impedira-o de encorajar a criação de organismos africanos independentes. Em seu lugar, fora semeando células clandestinas nas colónias portuguesas. Ao mesmo tempo, procurara enquadrar os estudantes negros nas suas estruturas.
Quando, no final da década de 50, os jovens negros se começaram a afastar do PCP e do MUD/juvenil foram mal entendidos. Escreveu Lúcio Lara que nem sempre foi fácil fazer compreender aos amigos portugueses a necessidade de não se confundirem as respetivas lutas que, de resto, se complementavam.
    Amigos, amigos, estratégias à parte… Um grupo clandestino que integrava, entre outros, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Agostinho Neto, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo fundou em Lisboa, em 1951, o Centro de Estudos Africanos (CEA). Era a primeira instituição destinada unicamente a debater os problemas dos negros das colónias portuguesas. A iniciativa foi mal recebida pelos dirigentes comunistas. Houve quem a considerasse racista.
O divórcio entre o PCP e os jovens coloniais tornou-se público em Bucareste, no ano de 1953, durante o III Congresso da União Internacional de Estudantes. Agostinho Neto, Vasco Cabral e Marcelino dos Santos recusaram-se a desfilar ao lado dos estudantes portugueses e fizeram-no em representação dos respectivos países.
Não foi o CEA o único organismo de luta política dos estudantes africanos em Lisboa. O Clube Marítimo Africano foi fundado em Alcântara nos anos 40 e desempenhou um papel de certo relevo na alfabetização e na consciencialização política dos marinheiros que faziam carreiras regulares entre Angola e Lisboa. Escreveu mais tarde Amílcar Cabral: eu morei em Alcântara; ensinei alguns trabalhadores a ler e a escrever.
Quando muitos intelectuais negros trocaram Lisboa por Paris, o CEA esvaziou-se. A sua atividade cessou totalmente em 1954. Começava uma nova etapa da luta revolucionária. Foram fundados o Movimento de Libertação Nacional das Colónias Portuguesas (MLNCP) e, no ano seguinte, o Movimento Anticolonialista (MAC). Os jovens intelectuais de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau seguiam o exemplo dos seus colegas francófonos que tinham criado estruturas independentes do PCF.  

terça-feira, 21 de maio de 2013


                                    
                                                   AMÍLCAR CABRAL

                                                             XXXVIII

      A ESQUERDA PORTUGUESA E O COLONIALISMO


                                           Bento Gonçalves

Quando a pressão exterior obrigou a pôr fim ao tráfico de escravos, as possessões ultramarinas portuguesas passaram a dar prejuízo. Houve quem, como Eça de Queirós, advogasse a sua venda. No entanto, essa ideia estava longe de ser consensual. Basta lembrar a onda de indignação que se seguiu ao Ultimato britânico que veio pôr fim ao projeto megalómano do Mapa Cor-de-rosa.
Sem um presente capaz de alimentar de forma confortável o amor-próprio, o imaginário português ancorou-se perigosamente à memória dum passado glorioso. As crianças aprendiam nos bancos da escola a sonhar com um império pluricontinental. As colónias pertenciam-nos por direito de descoberta.
Este modo de pensar modificou-se lentamente. Foi fora das nossas fronteiras que a questão foi levantada a primeira vez por vozes portuguesas. Em 1935, durante o VII Congresso da Internacional Comunista em Moscovo, Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, falou na necessidade de ajudar os povos colonizados a iniciarem o processo que haveria de conduzir à independência. Dentro de portas, foi o Movimento Nacional Democrático quem primeiro levantou, no final da década de 40, a questão da autonomia das nossas colónias.
As ideias amadureceram devagar. O abandono do império agradava a poucos. Até o PCP vacilou. As posições defendidas no seu III Congresso, em 1943, eram mais tímidas que as de Bento Gonçalves. A luta pela independência dos territórios ultramarinos passou a estar ligada à queda do Estado Novo. A libertação dos povos oprimidos seria um corolário da democracia.
   Apenas em 1957, durante o V Congresso do PCP, foram defendidos com clareza o fim do império colonial e o direito dos povos subjugados à autodeterminação, “independentemente das modificações que se pudessem operar na situação política em Portugal”.
 Era tempo. Dois a três anos mais tarde nasceram os movimentos independentistas e, em fevereiro de 1961, começou a guerra em Angola.  
A partir da segunda metade da década de 40, deu-se uma certa convergência de interesses entre a Esquerda portuguesa e os nacionalistas africanos. Enquanto o MUD e o PCP precisavam de aliados, os quadros africanos não tinham condições para iniciarem processos separados de luta e sentiam necessidade de fazerem as respetivas aprendizagens políticas. 
Apesar de coexistirem no mundo culturas diversas e até antagónicas, a “globalização” e a troca quase instantânea de ideias são encaradas como naturais pelos nossos jovens. Se lhes lembrarmos que uma inovação demorava dezenas de anos (senão meio século) a progredir dos Pirenéus até ao vale do Tejo, olham-nos com estranheza. Sabem pouco. A situação periférica de Portugal, no extremo Poente da Europa, afastou-nos de todos os cruzamentos terrestres de comércio e de cultura durante milénios. Limitou o nosso modo de pensar até à aventura das Descobertas. Depois da expulsão dos mouros e durante muito tempo, as trocas culturais fizeram-se quase exclusivamente com os vizinhos: Galiza, Leão e Castela. As ideias fluíam como os rios: vinham de lá para cá.
Os padrões civilizacionais ingleses impuseram-se a certa burguesia urbana do Porto e de Lisboa. Há famílias que ainda hoje ostentam apelidos ingleses comuns com um orgulho difícil de justificar. Fazem de títulos de nobreza, tão anacrónicos como os outros. Aparentemente, os marinheiros que frequentavam os portos portugueses e os comerciantes que se estabeleciam cá desconheciam a própria cultura. Poucas marcas deixaram na nossa. O desenvolvimento das vias férreas, ao longo do século XIX, pôs a França à nossa beira. Portugal tornou-se uma província cultural francesa.
Esta reflexão alongada servirá para justificar algum atraso (apetecia-me escrever “décalage”) na divulgação de ideias entre Portugal e a Europa. 
    O Partido Comunista Português criou as suas primeiras células viradas para África por volta de 1948, cerca de dez anos mais tarde que o seu congénere francês. Nasceram a Comissão de Luta das Juventudes contra o Imperialismo Colonial em Angola, o Comité Federal Angolano do PCP e a Angola Negra. 
     A oposição democrática ao regime salazarista tardou a apoiar a independência das colónias. O programa de candidatura do general Humberto Delgado, em 1958, proclamava a defesa da integridade das possessões ultramarinas de Portugal. Nas eleições de 1965, o Manifesto à Nação dos oposicionistas advogava já, para as colónias, “uma solução política com base na autodeterminação, processada por métodos democráticos”. Nas eleições de 1969, a oposição estava dividida, mas tanto a CDE como o CEUD convergiam na necessidade de encontrar soluções políticas para as guerras coloniais. A rotura completa com as posições governamentais aconteceu apenas em abril de 1973, em Aveiro, durante o III Congresso da Oposição Democrática. Foi exigido “o fim imediato das guerras de agressão contra os povos de Angola, Guiné e Moçambique”.





segunda-feira, 20 de maio de 2013


                     AMÍLCAR CABRAL           

                            XXXVII

                       FÉRIAS EM CABO VERDE


Amílcar Cabral passou férias em Cabo Verde, em 1949. Foi precedido por chuvas abundantes que interromperam a seca de quatro anos que lançara muita gente na miséria e originara outra leva de emigração. O poeta cantou a chuva e os seus benefícios. 

                REGRESSO

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...

Durante as férias, escreveu um artigo a que chamou “Algumas considerações acerca da chuva”. Propunha a intensificação das políticas destinadas a combater a seca “dentro da comunidade do Mundo Português”. Poderá ter abordado o tema de forma prudente, tendo em conta o público-alvo, mas fica a ideia de a sua opção nacionalista não estar ainda amadurecida.
Cabral não foi um iluminado. Falamos de um homem que foi capaz de aprender e de evoluir ao longo da vida. Antes de ser revolucionário, foi reformador. Como seu pai, terá começado por admitir que o progresso económico do arquipélago e a melhoria das condições de vida dos ilhéus seriam possíveis no enquadramento colonial. Essa ideia parece confundir os seus seguidores. Uma parte do que foi escrito sobre as férias de Cabral em Cabo Verde no ano de 1949 deve ser lida sob reserva.
O governador Carlos Roçadas, médico militar, tinha tomado posse algum tempo antes. Fundou o Boletim de Informação e Propaganda de Cabo Verde, em que tanto Juvenal como Amílcar Cabral vieram a colaborar. À exceção do primeiro texto, escrito na cidade da Praia, os artigos de Amílcar foram enviados de Lisboa. Defendia, como outros, que as secas constituíam mais um problema político que meteorológico. Para as combater, sugeria a preparação de um projeto global em que a construção de diques e barragens fosse complementada com a arborização de áreas específicas com espécies selecionadas.
Durante as férias, Amílcar Cabral não se limitou a colaborar na imprensa escrita. Escreveu alguns textos sobre agricultura para a Rádio de Cabo Verde. O terceiro (e último) destes artigos era claramente politizado. Tratava da similitude entre as culturas cabo-verdiana, afro-brasileira e afro-americana, sugerindo que os cabo-verdianos estavam mais chegados a essas comunidades negras que à população do continente português. Era a Negritude a piscar o olho. O programa foi interrompido. 
Cabral terá ainda tentado organizar um curso de alfabetização de adultos. Não terá sido autorizado. De qualquer forma, não o teria podido administrar. O período de férias era curto. Para mais, adoeceu, antes de regressar a Lisboa.

domingo, 19 de maio de 2013


              MARCOS DO CAMINHO


O “decaedela” recebeu hoje a visita número 30.000. Como o “historinhasdamedicina” ultrapassou as 20.000 consultas, os visitantes dos meus dois blogues somam já meia centena de milhar. São mais do que o triplo dos compradores da totalidade dos meus livros e provêm de todos os cantos do mundo.
Ocorrem diferenças na distribuição geográfica das consultas aos dois blogues.
Em relação ao “decaedela” estará em causa, em parte, a diáspora angolana. A maior parte dos leitores contactou a Internet a partir de Portugal, Angola, Brasil, Estados Unidos da América e Rússia, embora haja visitas de outros pontos Europa e da Ásia e também da Oceania.
No caso do “historinhasdamedicina” a maioria dos visitantes é brasileira, tendo a Argentina uma participação significativa.


No conjunto das 246 mensagens publicadas, um dos três artigos que dediquei à atividade de Leonardo da Vinci como anatomista recolheu claramente a preferência dos leitores. Embora tenha descurado a apresentação de mensagens novas nos últimos dezoito meses, o número de interessados na História da Medicina não deixou de crescer significativamente. Tenciono dar em breve uma atenção renovada ao “historinhasdamedicina”.
“O decaedela” vai de vento em popa. Nos últimos 40 dias publiquei 36 artigos curtos do livro que estou a escrever sobre Amílcar Cabral. Hão de ser revistos e aumentados, mas contém o essencial das minhas ideias sobre os temas. Serão em breve enriquecidos com novas colaborações.

                        
               AMÍLCAR CABRAL




                     XXXVI

                  A POESIA

Amílcar Cabral dava às palavras escritas mais valor do que elas tinham. Ao longo da guerra, não se cansou de escrever relatórios, cartas, comunicados e ensaios. Era como se passar a escrito uma preocupação a aliviasse, ou traçar no papel os contornos dum problema fosse já começar a resolvê-lo. 
Diz Corsino Tolentino que Cabral foi um político que queria ser poeta. O líder do PAIGC começou a escrever versos na adolescência. A maior parte deles, contudo, viria a ser publicada apenas depois da sua morte.
       Não foi a poesia que notabilizou Amílcar, embora os seus versos se leiam com curiosidade e certo agrado.

                      ROSA NEGRA

          Rosa,
          Chamam-te Rosa, minha preta formosa
          E na tua negrura
          Teus dentes se mostram sorrindo.

          Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
          Minha preta formosa, lasciva e ridente
          Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças
          Em teu corpo correndo a seiva da vida
          Tuas carnes gritando
          E teus lábios sorrindo...

          Mas temo tua sorte na vida que vives,
          Na vida que temos...
          Amanhã terás filhos, minha preta formosa
          E varizes nas pernas e dores no corpo;
          Minha preta formosa já não serás Rosa,
          Serás uma negra sem vida e sofrente
          Serás uma negra
          E eu temo a tua sorte!

          Minha preta formosa não temo a tua sorte,
          Que a vida que vives não tarda findar...
          Minha preta formosa, amanhã terás filhos
          Mas também amanhã...
          ... amanhã terás vida!

O autor não renegou os poemas líricos que escreveu, mas evoluiu e amadureceu. A revista Présence Africaine, fundada por Alioune Diop em 1947, influenciou todos os intelectuais negros que a puderam acompanhar. A Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française, a cargo de Leopold Shengor, com prefácio de Jean-Paul Sartre, foi editada em 1948. Os temas eram a escravatura, o racismo, o culto dos antepassados e o homem negro.
Sartre era, ao tempo, uma das estrelas intelectuais da Esquerda europeia. Não se limitou a escrever um prefácio: enveredou pela teorização da negritude. A seu ver, era necessário passar-se por um racismo anti-racista para se chegar à eliminação do conceito de raça. Tal racismo deveria afirmar-se na luta pelas independências. Todos os meios para as alcançar seriam justificados.
     “Este livro ensinou-me muitas coisas – escreveu mais tarde Amílcar Cabral. A certeza de que o Negro estava em vias de despertar no mundo inteiro. Tratava-se de um despertar universal, de braços abertos a todos os homens de boa vontade.”  
       O poema que registo a seguir ilustra a evolução do pensamento do autor.

                                         NÃO, POESIA

                   Não, Poesia:
                   Não te escondas nas grutas do meu ser,
                   Não fujas à Vida.
                   Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
                   Abre de par em par as portas do meus ser

                    - sai...
                    Sai para a luta (a vida é luta)
                    Os homens lá fora chamam por ti,
                    E tu, Poesia, és também um Homem.
                    Ama as poesias de todo o Mundo,

                   - ama os Homens
                   solta teus poemas para todas as raças,
                   para todas as coisas.
                   Confunde-te comigo...

                   Vai, Poesia:
                   Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
                   Dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
                   A minha Poesia sou eu.

        A partir dessas leituras, Cabral passou a defender, como Agostinho Neto, que o papel do poeta devia ser o de “formador de consciência”. Em 1952, escreveu: A evolução da poesia cabo-verdiana não deverá parar. Ela deve transcender a “resignação” e a “esperança”. A insularidade total e a seca não são suficientes para justificar uma estagnação perpétua. As mensagens da Claridade e da Certeza devem ser transcendidas. O sonho de evasão, o desejo de “querer partir”, não pode ser eternizado. O sonho deve ser outro.
         Apontava assim o rumo que, no seu entender, deveria ser seguido pela literatura cabo-verdiana. Perderam os movimentos da Claridade e da Certeza, que não tinham contribuído para a tomada de consciência das realidades africanas por parte dos negros. Foram excluídas de algumas antologias.
         Em 1953 foi publicado o primeiro Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, organizado por dois intelectuais africanos: Francisco José Tenreiro, de São Tomé e Príncipe, e Mário de Andrade, de Angola;
A meu ver, não é certo que a subordinação da poesia às necessidades do processo histórico a tenha enriquecido. Embora haja existam excelentes poetas militantes, o engajamento político direciona a imaginação e pode limitá-la. É fácil tropeçar no caminho que vai do lirismo à poesia de combate.
         Eis um poema emblemático de Amílcar Cabral em que as caravelas são as dez ilhas de Cabo Verde:

NAUS SEM RUMO

Dispersas,
emersas,
sozinhas sobre o Oceano …
Sequiosas,
rochosas,
pedaços do Africano,
do negro continente,
as enjeitadas filhas,
nossas ilhas,
navegam tristemente …
Qual naus da antiguidade,
qual naus
do velho Portugal,
aquelas que as entradas
do imenso mar abriram …
As naus
que as nossas descobriram.
Ao vento, à tempestade,
navegam
de Cabo Verde as ilhas,
as filhas
do ingente
e negro continente …
São dez as caravelas
em busca do Infinito …
São dez as caravelas,
sem velas,
em busca do Infinito …
A tempestade e ao vento,
caminham …
navegam mansamente
as ilhas,
as filhas
do negro continente …
- Onde ides naus da Fome,
da Morna,
do Sonho,
e da Desgraça? …
- Onde ides? …
Sem rumo e sem ter fito,
Sozinhas,
dispersas,
emersas,
nós vamos,
sonhando,
sofrendo,
em busca do Infinito! …



sábado, 18 de maio de 2013


                                          
                             AMÍLCAR CABRAL

                                    XXXV

    A NEGRITUDE E O PAN-AFRICANISMO


                                      Léopold Senghor

      Às vezes, vê-se melhor ao longe do que ao perto. Chega a ser preciso sair dum país para o compreender. Algumas das ideias mais difundidas sobre a África Negra nasceram noutras paragens. O Pan-africanismo começou nas Caraíbas, enquanto a Negritude teve origem em Paris.
      No final do século XIX desenvolveu-se nos Estados Unidos da América um movimento que defendia a emancipação dos negros. Na mesma altura, Henry Sylvester Williams, advogado de Trindade e Tobago, lançou os fundamentos do Pan-africanismo. Viriam a ser desenvolvidos por W.E. Burghardt Dubois, que lançou um projeto de solidariedade entre todos os negros do mundo.
     Nos últimos anos da década de 20, o movimento da negritude foi fundado em Paris por Aimé Césaire, da Martinica, Léon Damas, da Guiana francesa e Léopold Sédar Shengor, do Senegal, entre outros. Resultava da troca de ideias e de pontos de vista entre estudantes negros a viver em França e artistas africanos provenientes de países diversos com o surrealismo e com as ideias de alguns pensadores franceses de esquerda. Tinha por bandeira a reafricanização dos espíritos. Obrigava ao estudo da história e da cultura africanas e  exaltava as raízes da raça negra. Dava abrigo psicológico e sentimento de pertença a muitos jovens que até então tinham lidado com a dificuldade de se sentirem simultaneamente negros e franceses.
     Os países europeus com domínios noutros continentes tiveram sempre necessidade de recrutar quadros subalternos para a administração colonial. Permitiram assim a formação local de classes sociais privilegiadas. O fim da segunda Grande Guerra levou à subida dos preços dos produtos exportados pelas colónias e fez crescer o número de famílias com possibilidade financeira de enviar os filhos a estudar para a Metrópole. Aumentou portanto o número de estudantes africanos nas universidades portuguesas.
     Curiosamente, Lisboa estava associada historicamente a movimentos precursores das independências africanas (protonacionalistas, no dizer de Mário de Andrade). Durante a vigência da nossa Primeira República funcionaram na capital portuguesa a Associação dos Estudantes Negros e a Liga Académica Internacional dos Negros.
      Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário de Andrade, Viriato Cruz e Lúcio Lara conheceram-se em Lisboa, enquanto estudantes universitários. Para eles, a africanidade nasceu na Europa. A verdade é que nenhum deles conhecia bem a África. A Negritude chegou a Lisboa em 1949, com a antologia compilada por Senghor. Foi lida por muitos estudantes africanos. Terão conhecido também o livro “Pele negra, máscara branca”, que Frantz Fanon publicou em 1952 para expor as suas reflexões sobre psicopatologia da colonização.
     Fanon nasceu na Martinica e combateu os alemães, integrado nas forças francesas livres. Estudou Medicina e especializou-se em Psiquiatria. Foi colocado num hospital argelino e juntou-se à Front de Libèration Nacional da Argélia. As suas obras influenciaram gerações de nacionalistas africanos. Em “Os Condenados da Terra”, publicado em 1961, já depois da sua morte, defendeu o direto dos povos colonizados a usar de violência na luta pela independência nacional.
      A Negritude recusava a subjugação dos corpos e dos espíritos africanos aos colonizadores europeus. Reivindicava também para os africanos a posse física do seu continente.
      Os estudantes africanos em Lisboa dedicaram-se ao estudo da cultura dos povos negros. Procuraram conhecer a história e a geografia dos seus países e interessaram-se pela antropologia e pela etnologia. Valorizaram a tradição de resistência negra contra a dominação colonial. Cresceram intelectualmente. Alguns prepararam-se para assumir funções de liderança nos processos históricos de autodeterminação dos respetivos territórios. 
      Quatro anos após a publicação da Anthologie de la Nouvelle Poésie Nègre et Malgache, Mário de Andrade reuniu uma colaboração variada e editou os Cadernos de Poesia Negra de Expressão Portuguesa.
     Cabo Verde desenvolvera uma cultura mestiça. O sentimento de cabo-verdianidade tinha um componente europeu e outro negro. Começou então a viagem espiritual de regresso de Amílcar Cabral a África. Afirmaria mais tarde que o colonialismo retirara os africanos da história.
       Amílcar Cabral não se limitava a refletir. Agia. Colaborou com Agostinho Neto, que fundara em Alcântara o Clube Marítimo. As atividades desportivas e culturais, toleradas pelo regime, permitiam encobrir o trabalho de consciencialização dos marinheiros angolanos que navegavam entre o Lobito e Lisboa, com escalas em Luanda e Bissau. Cedo permitiram assegurar o transporte de informações e de material clandestino nos dois sentidos.
      Algum tempo depois, o grupo de Amílcar Cabral e Agostinho Neto formou o Centro de Estudos Africanos. “Encostou-se” inicialmente à Casa de África, uma instituição que datava de 1910 e agregava africanos residentes em Lisboa. As coisas não correram bem entre as duas gerações de negros e o Centro passou a reunir em casa de Januário do Espírito Santo, pai de Alda.
   O Centro de Estudos Africanos promoveu algumas conferências e discussões sobre temas africanos. Permitiu ainda estabelecer relações com organizações congéneres no estrangeiro. Foi assim que Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário de Andrade e Alda do Espírito Santo puderam publicar trabalhos na revista Présence Africaine, liderada por Alioune Diop e fundada em Paris em 1947.
     O Centro nunca chegou a atingir grande relevância. Serviu, ainda assim, de modelo para outras organizações progressistas. Começava por se criar um grupo com declarados objetivos culturais, suscetível de ser aceite pelo governo salazarista. A política entrava aos poucos nas conversas, à medida que se tornava possível depositar confiança nos novos associados.


sexta-feira, 17 de maio de 2013


                               AMÍLCAR CABRAL

                                     XXXIV


 O PORTUGAL QUE AMÍLCAR ENCONTROU




No ano da chegada de Amílcar Cabral a Lisboa foi assinada a Carta das Nações Unidas que proclamava o direito dos povos à independência. 
  Em 1945, Portugal era uma Nação economicamente atrasada. Uma grande parte da população empregava-se na agricultura, utilizando métodos tradicionais de baixa rentabilidade. Sonhava-se com o desenvolvimento industrial, porém o país encontrava-se mal preparado para ele em matéria de qualificação dos recursos humanos. Segundo os dados publicados pela Fundação Mário Soares, a taxa de analfabetismo nos anos 40 andava pelos 55%. O novo Plano de Educação Popular seria lançado apenas em 1947, juntamente com a Campanha Nacional de Educação de Adultos.
As classes mais desfavorecidas, que constituíam a maioria da população, viviam mal. Havia fome. As calorias ingeridas diariamente por muitos portugueses andariam perto das que são hoje noticiadas nos países mais pobres do planeta.
Portugal não era autossuficiente em termos alimentares. Os produtos alimentares faltavam. Os preços subiam e os salários permaneciam baixos. O racionamento, imposto pelas dificuldades que a guerra introduziu no abastecimento dos géneros provenientes do exterior e transportados por mar, foi mal aceite. Ocorreu uma série de greves, a partir de 1942.
      Paradoxalmente, durante a guerra, o Banco de Portugal acumulou ouro e divisas em quantidades invulgares e os bancos privados cresceram com as poupanças originadas pelo contrabando de minérios e pelos negócios que o conflito armado proporcionava. O investimento interno era muito limitado. As finanças estavam bem e a economia mal. 
     Os primeiros anos de paz trouxeram o regresso ao tradicional défice da balança comercial portuguesa, com o escoamento lento da exportação dos produtos tradicionais e a necessidade continuada de importação de bens essenciais.
       A chamada “idade de ouro” da economia portuguesa, com a modernização, iria tardar ainda uma dúzia de anos. Só na década de 50 se generalizaria a eletrificação das vilas e aldeias do interior e se começaria a desenvolver o tecido industrial, enquanto o país se abria ao investimento estrangeiro e o turismo começava a crescer.
         Amílcar Cabral chegou a Lisboa em novembro de 1945 e matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia. Dos grandes dirigentes nacionalistas das colónias portuguesas, foi o primeiro a chegar e o último a sair para a luta de independência.
A guerra terminara em maio. Os portugueses que se opunham ao regime de Salazar estavam otimistas. Contavam com a ajuda dos Aliados para depor o vetusto Estado Novo. Multiplicavam-se as greves, um pouco por todo o país. Velhos e novos conspiradores iam contando espingardas.
Salazar tomou o pulso à situação internacional e achou conveniente marcar eleições legislativas para o final de 1945. Os oposicionistas aproveitaram a ocasião para fundar o Movimento de Unidade Democrática (MUD), resultante da união de socialistas e republicanos.
O caloiro Amílcar não teve grandes dificuldades de adaptação. Inteligente, extrovertido, de sorriso e palavra fáceis, integrou-se rapidamente no ambiente social do seu estabelecimento de ensino. Entre os portugueses, o racismo esbateu-se sempre face a quem fala corretamente a língua e assume modos de vestir e padrões de comportamento semelhantes aos da gente de cá.
Nesse tempo, como noutros, a Universidade era escola de democracia. Muitos estudantes de Agronomia colaboravam com o MUD juvenil. Cabral juntou-se a eles. Participou em debates e chegou a dirigir alguns, mercê dos seus dotes oratórios.
Os antifascistas portugueses tentaram antecipar a queda do regime recorrendo a rebeliões militares. A chamada “Revolta da Mealhada” foi planeada no Porto. Muita coisa terá falhado na fase final da organização. A única unidade militar a sair à rua a 10 de outubro de 1946 foi o Regimento de Cavalaria 6, comandado pelo tenente Fernando Queiroga. A coluna foi facilmente intercetada na Mealhada. Os responsáveis foram presos e, no ano seguinte, sujeitos a julgamento.
Esteve programado para o dia 10 de abril de 1947 outro levantamento militar. Dessa vez, o número e o prestígio dos revoltosos era bem mais importante. O chefe era Mendes Cabeçadas, herói da revolução republicana de 1910 e antigo Presidente da República. O movimento contaria mesmo com o apoio do então Presidente da República Portuguesa, general Carmona. O mais tarde famoso Hermínio da Palma Inácio e Gabriel Gomes chegaram a sabotar aviões na Base Aérea de Sintra, mas a revolução não chegou a eclodir. Seguiu-se uma vaga de prisões de oposicionistas. Mário Soares conheceu então o cárcere. Seria libertado no final de agosto do mesmo ano. Por envolvimento na revolta, foram demitidos uns tantos oficiais e vários professores universitários.
No espaço de seis meses, falharam duas rebeliões contra o regime. 
   Em Lisboa, Amílcar Cabral continuou a ser um aluno muito bom. O ensino no Instituto Superior de Agronomia era demasiado exigente. Só assim se compreende que, no início do terceiro ano, apenas cinco dos 220 alunos que tinham iniciado o curso juntos não tivessem ficado para trás. Do grupo inicial faziam parte vinte raparigas. Uma delas era Maria Helena Rodrigues, com quem Amílcar acabaria por casar.
  O futuro líder do PAIGC estava habituado à dureza da vida. Para complementar a bolsa de estudos, dava explicações durante a época de aulas e procurava empregos sazonais nas férias.
      Entretanto, iam arribando a Portugal os futuros líderes nacionalistas das colónias. Marcelino dos Santos e Agostinho Neto vieram em 1947. Mário de Andrade chegou em 1948 e Eduardo Mondlane, que seguiria meses depois para os EUA, em 1949.
Era a época da afirmação de grandes líderes africanos, como Kwame N`Krumah, Julius Nyerere e Patrice Lumumba. Começavam as independências das nações africanas.
       Os estudantes das colónias agrupavam-se em redor de interesses comuns variados, entres os quais se contava a saudade das terras de origem e a defesa contra a estranheza, e muitas vezes a intolerância, da gente de cá. Amílcar Cabral fez amizade com Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Noémia de Sousa e Alda do Espírito Santo. Marcelino dos Santos foi seu companheiro de quarto.
      Muitos desses estudantes universitários reconheceram cedo a necessidade de lutar pela melhoria das condições de vida dos povos de Portugal e das suas colónias. Durante a segunda metade da década de 40, houve muitos que  combateram politicamente o regime de Salazar, lado a lado com a Esquerda portuguesa, considerando aliados o fascismo e o colonialismo. O derrube dum acarretaria a queda do outro. 
         Os universitários oriundos de África e da Ásia reuniam-se com frequência na Casa dos Estudantes do Império (CEI) que funcionava na Avenida Duque de Ávila. A CEI ajudava os estudantes recém-chegados a obter alojamento em pensões baratas ou em quartos alugados. Dispunha de um posto médico e fornecia refeições económicas. Desenvolvia também uma actividade cultural virada para os problemas coloniais. No começo dos anos 50 iniciou a actividade editorial, possibilitando a personagens como Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Luandino Vieira a publicação dos seus primeiros poemas. Os objetivos da Casa eram facilitar a integração na Portugalidade dos jovens provenientes das colónias.
   Pouco tardou até que alguns estudantes negros notassem que as suas  preocupações específicas eram ignoradas pela organização. Aos poucos, os africanos a estudar em Portugal passaram a separar a defesa dos interesses dos seus povos da luta contra a ditadura portuguesa. Começou a chamada "africanização dos espíritos". Reclamava-se a herança cultural negra, anterior à chegada dos europeus a África. A tomada crescente de uma consciência política específica desenvolveu-se nas proximidades da CEI, mas à sua revelia. Foram sendo criadas organizações autónomas. Nasceu, em 1951, o Centro de Estudos Africanos (CEA). O Movimento Democrático das Colónias Portuguesas (MDCP) foi fundado em Lisboa em 1954 e o Movimento de Libertação Nacional das Colónias Portuguesas (MLNCP) teve origem em Paris, em 1957. O Movimento Anticolonialista (MAC) nasceu da fusão dos dois anteriores, já em 1958.
     Vasco Cabral, Agostinho Neto e Mário de Andrade conheceram as prisões políticas portuguesas. Amílcar Cabral nunca foi detido. O seu envolvimento político em Portugal foi discreto e pouco comprometedor. Terá sido incomodado uma única vez pela PIDE. Cabral contou mais tarde:
 “Chamaram-me à PIDE porque eu fazia luta pela paz em Portugal, pelo fim do fascismo em Portugal, porque assinei o documento do povo português contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte.”
“Moral e politicamente nada se apurou em seu desabono”, relatou a PIDE, dois meses antes de Amílcar Cabral abandonar Portugal com destino à Guiné.