DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 4 de maio de 2013


                  AMÍLCAR CABRAL

                               XXIII
          
               UM TEXTO DE ALPOIM CALVÃO

              OPERAÇÃO “GATA BRAVA”
  (transcrito com modificações mínimas do livro “De Conakry ao M.D.L.P.”)


Nos primeiros dias de fevereiro de 1970, recebeu-se no Quartel General do Comandante Chefe em Bissau uma informação referente ao transporte, num barco a motor, de Boké para Kadigné, do elemento inimigo Marcel (nome de código). Dizia ainda que a data provável do transporte seria 25.
Fui encarregado de planear e executar a operação. Armou-se uma emboscada à entrada de Kadigné na noite de 24 para 25, com dois botes de borracha e oito homens. Contudo, a neblina cerrada que se verificou fez malograr a tentativa.
No princípio de março, nova informação referia o movimento inverso de Marcel, desta vez para o dia 7.
  Embarcámos na lancha de fiscalização grande “LIRA” às 19.00, largando em seguida o navio para a foz do Cacine e deu ferro junto à marca SAMBA, dia 6, às 01.30.
Foram lançados à água dois botes de borracha, sendo o primeiro comandado por mim e o outro pelo segundo tenente Barbieri, num total de oito homens. Às 03.00 os botes largaram da LIRA, que forneceu apoio radar para a entrada do canal. O percurso foi executado com os motores a trabalhar a baixo regime de rotações e depois de terminado o apoio radar, a navegação fez-se por bússola, aproveitando ainda a enchente. Pelas 05.30 atingiu-se o ilhéu Calebe, emboscando os dois botes numa abertura de tarrafo que tinha sido feita durante a Operação Nebulosa, realizada em agosto, e que se mantinha desconhecida do inimigo, como se demonstrou ao encontrar no local dois sacos de ração de combates que lá tinham sido deixados, a quando da realização da citada operação.
Os botes ficaram com as proas voltadas para o exterior, prontos a largar.
Às 08.00 a maré começou a vazar e às 08.10 contactou-se com uma parelha de FIAT`s que, depois de fazer um reconhecimento visual, informou que o N/M BANDIM não se encontrava em Kadigné.
Resolveu-se aguardar pela maré da noite e cerca de duas horas depois os botes já se encontravam completamente em seco.
Pelas 16.00 a água da enchente começou a penetrar no esteiro aonde os botes se encontravam e pelas 17.30 já estes flutuavam. Às 18.00, aproveitando o crepúsculo, aproximaram-se os botes da abertura de saída, para mais prontamente poderem entrar em ação se fosse necessário.
Às 19.00 horas ouviram-se vozes relativamente perto e o barulho de remos de uma canoa.
Às 19.10 começou-se a distinguir o ruído dum motor que se foi avolumando e pelas 19.30 avistou-se, a cerca de 200 metros, a silhueta do navio motor BANDIM que levava somente uma pequena luz acesa na casa do leme. Mandou-se arrancar com os motores. O bote nº1 colocou-se nos setores de popa do BANDIM, enquanto o nº 2 seguia a ocupar uma posição no través de estibordo. O bote nº 1 fez um tiro de lança granadas foguete (bazuca, LGF) a 150 metros de distância, tendo-se o rebentamento verificado muito perto do alvo, enquanto se abria fogo de metralhadora ligeira.  
O BANDIM respondeu com fogo de armamento ligeiro automático, guinando acentuadamente para a margem da República da Guiné.
Entretanto, continuou-se a fazer fogo de bazuca, obtendo-se um impacto em cheio ao terceiro tiro, manobrando os botes rapidamente, procurando manter uma posição desfasada de 90.º em relação ao objetivo.
Duma posição a oeste da vila de Kadigné, verificaram-se muitas tracejantes de metralhadora antiaérea – calculadas em número de seis – na direção aproximada do local do contacto, mas passando bastante altas. Desse mesmo ponto, foi feito tiro de artilharia ou de morteiro de grande calibre em vários azimutes, ouvindo-se um total de 20 rebentamentos, uns curtos, outros compridos, revelando uma certa desorientação. Simultaneamente e a norte desta posição, já na nossa ilha de Canefaque, fez fogo uma metralhadora pesada, com tiro tracejante, ao lume da água, bastante mais ajustada. Da canoa referida anteriormente, foi feito fogo de metralhadora ligeira sobre os botes, tendo contudo retirado rapidamente da zona de contacto.
O combate com o BANDIM continuou, obtendo-se outro impacto de LGF, que obrigou o alvo a começar a navegar em círculo, acabando por penetrar num esteiro, encalhando profundamente na posição e desaparecendo de vista. Perseguia-se a BANDIM por dentro do esteiro, obtendo-se novo impacto de LGF, aproximando-mos a cerca de 10 metros para o lançamento de granadas de mão. Do tarrafo foi feito fogo de arma automática, a que se respondeu com rajadas de metralhadora ligeira, abordando-se o navio.
Logo que se penetrou no N/M BANDIM, foram encontrados vários indivíduos mortos – posteriormente veio a verificar-se que eram seis – dois dos quais à entrada da casa da máquina e da casa do leme.
Procurou-se por entre os destroços as alavancas do comando da máquina, porém veio a verificar-se que o citado navio era manobrado da própria casa da máquina.
Desceu-se a esse compartimento com o intuito de engrenar os motores à ré, de forma a desencalhar o navio. Porém, depois do exame efetuado, verificou-se que a alavanca da manobra do motor não introduzia a marcha à ré, provavelmente por qualquer estilhaço que provocara o bloqueio da alavanca (uma conduta de gasóleo estava igualmente atingida por vários estilhaços, vertendo abundantemente).
Decidiu-se parar a máquina, com o intuito de rebocar o BANDIM apenas com a força de tração dos botes. Assim, foi lançado um cabo à ré do BANDIM, o outro de través, na proa do navio.
Porém, a maré já vazava desde as 20.30, pelo que o navio se encontrava perfeitamente encalhado. Face à impossibilidade de se processar o reboque, decidiu-se realizar a sua destruição.
Enquanto se procedia ao espalhar de gasolina pelos pontos inflamáveis do navio, terminaram-se as buscas ao porão, tendo-se abandonado o BANDIM com a certeza de que não transportava qualquer material. Os poucos colchões espalhados no porão deram indicação de que o navio não transportava muita gente.
O fogo foi iniciado por meio de uma granada de mão defensiva, lançada para o interior da casa das máquinas. O BANDIM começou a arder lentamente e só quando os botes alcançaram o meio do Rio Inxanxe se verificou uma explosão surda, seguida de altas labaredas. Quando se atingiu o ponto de reunião ainda se distinguia nitidamente o clarão do BANDIM.
O regresso a bordo da LIRA iniciou-se pelas 21.00. Chegou-se às 22.00 ao ponto de reunião e verificou-se que a LFG ainda não se encontrava no local. Tentou-se a comunicação, em VHF, durante duas horas, sem resultado. Pelas 23.50 ordenou-se à LFG caso ouvisse os botes para acender as luzes. Avistou-se em seguida no azimute 230 um clarão para lá do horizonte visual, cerca de 12 milhas da Marca Samba. Soltou-se um rumo para essa posição e em 070100 atracou-se à LFG LIRA, que uma avaria na máquina obrigara a fundear tão longe do local do ponto de reunião.
A destruição do BANDIM e a morte dos seis homens que o guarneciam lançaram uma certa confusão no inimigo, como se deduziu pelos seus comunicados na rádio. No espaço de seis meses tinham-se destruído dois barcos a motor do PAIGC prejudicando-lhe gravemente a frota de transporte.

sexta-feira, 3 de maio de 2013


                                              
                         AMÍLCAR CABRAL

                                    XXII

               OS TRÊS MAJORES

                                    

As expectativas criadas pelo general Spínola para a resolução política da guerra e as conversações estabelecidas com Léopold Senghor, presidente da República do Senegal e possível intermediário de Amílcar Cabral, alimentaram um certo otimismo em Bissau e em Lisboa.  
Tanto a convicção de que a política da “Guiné Melhor” atrairia cada vez maior número de habitantes, incluindo combatentes do PAIGC, como a análise que o estado-maior de Spínola fazia das clivagens étnicas do país permitiam esperar que um número considerável de militantes inimigos abandonasse as fileiras e aderisse à nova política portuguesa. A situação militar no terreno parecia agora relativamente favorável às forças coloniais. Era o momento de adotar iniciativas mais ousadas.
Em 1969, devidamente autorizado pelo primeiro-ministro português Marcello Caetano, Spínola amnistiou 92 militantes do PAIGC detidos nas cadeias de Bissau. O mais conhecido deles era Rafael Barbosa, apresentado pela propaganda oficial do partido como exemplo de firmeza e de resistência ao poder colonial em condições de cativeiro.
Todos os que foram libertados juraram previamente fidelidade a António de Spínola. Na Guiné daquele tempo os juramentos eram, de modo geral, levados a sério. Segundo o general, aqueles homens estavam sinceramente arrependidos e dispostos a contribuir para a construção da sua “Guiné melhor” ao lado dos militares portugueses.
Rafael Barbosa tinha sido preso em março de 1962 na sede clandestina do PAIGC, em Bissau. Seria a segunda figura do partido, logo a seguir ao secretário-geral. Competir-lhe-ia estabelecer ligações entre os militantes que permaneciam nas zonas urbanas do interior do território e conquistar novos elementos para o partido. Terá acedido a colaborar com a PIDE, passando a beneficiar de um tratamento privilegiado. Segundo António Tomás, era-lhe permitido deambular por Bissau e dormir na própria casa. Aparentemente, tornou-se um agente duplo, transmitindo pontualmente informações à direção do PAIGC em Conakry.
Ao tempo, eram comuns as deserções de militantes do partido. Fartos de anos de luta e de dificuldades no mato, havia quem aproveitasse o perdão concedido pelo general Spínola a todos que depusessem as armas. Os dirigentes do partido reagiram, tendo ocorrido fuzilamentos.
A situação era instável e havia quem se arrependesse de se ter arrependido. Alguns dos que se abrigaram à sombra da bandeira portuguesa quiseram ser readmitidos no PAIGC para voltarem a combater pela independência. Ia-se e vinha-se, entre Bissau e Conakry. Uns eram aceites de volta e outros passados pelas armas.
 A dada altura, o estado-maior de Spínola julgou ser possível desmobilizar boa parte da guerrilha instalada em Cantchungo (na altura conhecida como Teixeira Pinto), no chão dos Manjacos, na frente norte.
 Estabeleceram-se contactos entre as duas partes. Começaram por recados transmitidos pela população que circulava na zona. Naturalmente, tanto os portugueses como os revoltosos dispunham de informadores. As negociações progrediram e subiram de nível hierárquico, pelo menos do lado português. Como sinal da importância que o general dava a esta iniciativa, foram designados interlocutores os majores Joaquim Pereira (da inteligência), Passos Ramos e Osório Magalhães. Os encontros multiplicaram-se. Do lado da guerrilha, terá negociado André Gomes, um comandante que se notabilizara no ano anterior por chefiar o grupo de combate que atacou o aeroporto de Bissau.
A proposta de Spínola incluía a interrupção das hostilidades e a integração no exército português de todos os guerrilheiros que o quisessem fazer. O general obtivera do Ministério do Ultramar uma verba substancial destinada ao pagamento dos salários da nova incorporação.
As conversações prosseguiram e estabeleceu-se um clima de certa confiança. Os majores deslocavam-se desarmados e ofereciam presentes ao inimigo: dinheiro, bebidas, maços de cigarros e gravadores de som. Era outra maneira de fazer a guerra.
Ao ser informado dos acontecimentos, Amílcar Cabral alarmou-se. Estava perante um aliciamento à traição em grande escala. Enviou para a frente norte Luís Correia, o responsável dos serviços secretos do PAIGC. Nasceu então a ideia de capturar o general Spínola, que tinha comparecido a um encontro com os guerrilheiros e prometera voltar.
    Conta-se que Luís Correia conferenciou com os comandantes locais e preparou uma armadilha destinada a prender ou eliminar fisicamente o general português. 
    Spínola não compareceu ao encontro. Logo que os majores Pereira, Ramos e Magalhães saíram das viaturas, acompanhados do alferes Joaquim Palmeiro Mosca e de alguns soldados (todos desarmados) foram abatidos a tiro. Os assassinos esquartejaram os corpos à catanada antes de retirarem. Aconteceu em Jolmete, a norte do Pelundo, junto ao Rio Cacheu.
Luís Cabral afirma que os guerrilheiros fingiram negociar para atraírem os oficiais portugueses. Parece mais provável que os comandantes militares da zona se tenham alarmado com a presença do enviado de Cabral e arrepiassem caminho. Há ainda quem sugira que os majores entabularam conversações com um determinado grupo de guerrilheiros e foram surpreendidos por outro, fiel a Cabral. Não se sabe tudo. Há pormenores da História que ficam parcialmente encobertos por uma névoa de silêncio.
António de Spínola ficou abalado com o sucedido. Sentiu-se responsável pela morte dos seus colaboradores próximos. O general vinha de uma escola de guerreiros com padrões éticos elevados. Era inadmissível abater inimigos desarmados. Considerava que se ocupavam de uma missão de paz, o que não é de admirar. Muitas das guerras de ocupação das colónias portuguesas foram apelidadas de campanhas de pacificação.
Spínola não podia desistir de procurar uma solução política, negocial, para a guerra da Guiné e não o fez. É possível que a ideia de prender ou eliminar fisicamente o secretário-geral do PAIGC tivesse criado há muito raízes no espírito de alguns militares portugueses. Desenvolveu-se mais nessa altura. Perspetivava-se no horizonte a operação Mar Verde.


quinta-feira, 2 de maio de 2013


                      AMÍLCAR CABRAL          

                                           XXI

              O CONSULADO DE SPÍNOLA




As características geográficas do território e a unidade e organização da guerrilha obrigaram os comandos militares portugueses a colocar na Guiné um número de soldados em clara desproporção com a superfície da colónia e o número dos seus habitantes. De um total de 79.823 efetivos militares metropolitanos que se encontravam em 1968 nos três Teatros de Operações, 37.547 estavam colocados em Angola, 22.717 em Moçambique e 19.559 na Guiné. Os números totais de soldados mortos nas três frentes, entre 1961 e 1974 foram de 3.258 em Angola, 2.962 em Moçambique e 2.070 na Guiné.
Em Maio de 1968, Schultz foi substituído. Teve início o consulado de Spínola.
António de Spínola encarava de maneira diferente a guerra de guerrilha. Tinha lido o Livro Vermelho de Mao Tsé Tung e outras obras populares entre os nacionalistas e os estudantes universitários europeus de  esquerda.
Procurou combinar os aspetos militares e sociais. Não seria preciso inovar, mas apenas adaptar os conhecimentos e experiências de outras guerras de guerrilha à realidade geográfica e social da Guiné.
O objetivo era criar uma ligação de simpatia e mesmo de gratidão entre o exército e a população. Spínola contava com um grupo de oficiais preparados para a guerra antissubversão em Lisboa e em estágios efetuados nos Estados Unidos e em vários países europeus da NATO. Tratava-se de militares corajosos, empenhados e ambiciosos: Carlos Fabião, Otelo Saraiva de Carvalho, Manuel Monge de Lima, Nunes Barata, José Blanco, Jorge Moreira da Costa, Carlos Azeredo e outros. Ficaram conhecidos como os rapazes de Spínola. Foi com eles que o general elaborou a sua estratégia de combate.
As forças armadas deixaram de ter um papel exclusivamente militar. Deviam também colaborar com as populações nas áreas da assistência sanitária e do ensino. A guerra da Guiné era essencialmente psicológica. Passava pela conquista das almas, a qual não poderia ser feita pela força mas sim pela persuasão. A ação de contra subversão visava afastar as populações dos movimentos de libertação, de modo que deixassem de apoiá-los.
Tal como tinha feito Amílcar Cabral, Spínola estudou a composição étnica dos povos da Guiné. Acabou por ser traçado um mapa colorido do território. As zonas azuis indicavam a presença de populações favoráveis aos portugueses. Eram sobretudo fulas e viviam a leste. As áreas vermelhas estavam controladas pelo inimigo, enquanto as amarelas eram áreas de transição e de equilíbrio instável entre as forças em luta. Para fins de bombardeamento, não havia distinção entre civis e militares nas regiões vermelhas.
Nas áreas azuis eram construídos os aldeamentos estratégicos semelhantes aos que ficaram famosos na guerra do Vietname. Eram para lá conduzidas as populações que o exército pretendia cativar. Esta estratégia desertificava territórios amplos, facilitando as operações de busca e destruição, geralmente efetuadas por tropas especiais helitransportadas.
No campo político, o general português procurou explorar as fraquezas e as contradições inerentes à formação do PAIGC. Estimulou o ódio aos cabo-verdianos e procurou obter a simpatia de alguns setores da população, como os muçulmanos (em especial os fulas) que constituíam a maioria religiosa do país e nunca tinham apoiado decididamente Amílcar Cabral. Lançou um projeto ambicioso, designado “Por uma Guiné melhor”. Destinava-se a compensar, em parte, o abandono a que os sucessivos governos de Lisboa tinham votado a sua colónia na África Equatorial.
A fatia que o Orçamento do Estado Português dedicava à Guiné engordou substancialmente. Foi possível abrir estradas novas. Alcatroaram-se 500 quilómetros das já existentes. Levantaram-se pontes e melhoraram-se as condições de funcionamento de alguns portos. Construíram-se 8.000 habitações e melhoraram-se seis dezenas de tabancas (aldeias). A rede escolar e as estruturas sanitárias que serviam a população foram objeto de uma atenção desconhecida até à data. Como aconteceu simultaneamente e em escala maior em Angola e Moçambique, a guerra tornou-se um fator de desenvolvimento do território.
António de Spínola estava atento ao que se passava no mundo. Aprendeu também com os teóricos ingleses e franceses da fase tardia da descolonização.
A melhor maneira de conter os nacionalismos africanos nascentes não consistia em europeizar as populações, integrando-as nas legislações nacionais e atribuindo-lhes direitos e deveres semelhantes. Era preferível enquadrá-las nas estruturas tribais reabilitadas.
Spínola procurou dignificar a autoridade tribal e inventou o Congresso dos Povos da Guiné. Em 1970, o primeiro Congresso reuniu representantes de fulas e mandingas. Reconhecendo a justeza das reivindicações mandingas, foi-lhes permitido eleger os próprios régulos, em lugar dos chefes fulas impostos pela administração colonial. Era a primeira vez que tal acontecia no chão mandinga de Farim – Oio. No ano seguinte, o Congresso abriu as portas a todas as etnias. 
Spínola implementou na Guiné um conceito quase global de guerra. Aos componentes civil e militar eram atribuídas importâncias quase iguais.
 No começo da sua governação, o PAIGC sofreu alguns reveses. Foram retiradas populações à guerrilha. Os combatentes nacionalistas viram o seu escudo humano reduzido.
 Os bombardeamentos tornaram-se mais fáceis e boa parte das estruturas trabalhosamente construídas pelos guerrilheiros nas zonas libertadas foram destruídas. O Exército Português abandonou posições isoladas e difíceis de abastecer, como Madina do Boé, e concentrou os seus efetivos nas aldeias fortificadas e nas grandes povoações. Durante algum tempo, a situação militar esteve equilibrada.
 A pressão diminuída sobre as forças armadas portugueses assentava, em parte, em fissuras sociais que se projetavam na guerrilha. Começou a questionar-se a continuação do esforço de guerra e aumentou consideravelmente o número de deserções.
   Estavam abertas as portas para a negociação política.


quarta-feira, 1 de maio de 2013


                    AMÍLCAR CABRAL                          
                                    XX

                A ZONA NORTE


                              
 Em 1966, como a guerrilha na zona norte, na área de Morés, era menos intensa e eficaz do que nas zonas sul e leste, Amílcar Cabral decidiu ampliar aquela frente de combate. Deslocou mais combatentes para a região e pediu à República do Senegal que incrementasse o seu apoio. Luís Cabral foi nomeado responsável pelas ligações com os homens de Senghor.
 Morés, situada nas florestas do Oio, no Centro-Norte, é habitada pelos Oincas, um subgrupo de mandingas com reputação de coragem e tradição de resistência às tropas coloniais. Já Teixeira Pinto, na segunda década do século XX, encontrara dificuldades em os dominar. A vegetação e o relevo ajudavam os guerrilheiros. 
 Morés tornou-se a base mais importante do PAIGC na zona norte. Foi um dos pontos em que se tornaram evidentes algumas das insuficiências de preparação dos guerrilheiros, nomeadamente no relacionamento com as populações locais. Osvaldo Vieira era o chefe do setor e Inocêncio Kani o responsável pela base. O excesso de disciplina imposto aos combatentes e às populações foi reprovado pelo secretário-geral e pelo seu meio-irmão Luís Cabral.
 Para realçar a importância da frente norte na estratégia do PAIGC, Amílcar Cabral deslocou-se à tabanca de Djagali, na margem esquerda do rio Farim, a 4 de Junho de 1966 e fez ali um comício. As tropas coloniais dispunham de informadores. Erraram por um punhado de horas. Às seis da manhã do dia seguinte, a aviação portuguesa arrasou Djagali, matando alguns civis. O líder do PAIGC já não se encontrava no local.
 Convinha ao partido publicitar no estrangeiro a sua luta. O jornalista italiano Piero Nelli teve oportunidade de filmar uma emboscada ao inimigo, encomendada de propósito. O combate foi filmado na estrada Mansoa-Mansabá, onde se efetuavam trabalhos de alcatroamento, protegidos pelo exército português.
 As armas e munições que chegavam à Região Norte tinham de passar pelo Senegal, que ia criando algumas dificuldades burocráticas à guerrilha guineense. Assim, enquanto parte do material era levado de forma legal e acompanhado por escoltas militares senegalesas, outra parte era contrabandeada como se se tratasse de mercadoria. A partir da fronteira, as armas e munições eram transportadas por colunas de militares que escolhiam trilhos escondidos para não serem detetados pela aviação portuguesa. Ainda assim, as munições faltavam pontualmente.
 A zona norte serviria de palco para um acontecimento que sobressaiu de entre os múltiplos dramas da Guerra da Guiné. A partir do final de 1988, os serviços secretos de Spínola tentaram aproveitar o descontentamento e o desânimo de alguns líderes locais do PAIGC para os convencer a trocar de fardamento. Seriam integrados nas forças armadas coloniais. Entre meias verdades e meias mentiras, informação e desinformação, armou-se a teia em seriam apanhados alguns oficiais superiores do Exército Português. 




      
      
      
       

terça-feira, 30 de abril de 2013


                   
                         AMÍLCAR CABRAL

                                       XIX


                    REALIDADE

                   (Excertos de um texto de Amílcar Cabral)

Uma coisa muito importante numa luta de libertação nacional é que aqueles que dirigem a luta nunca devem confundir aquilo que têm na cabeça com a realidade. Pelo contrário, quem dirige uma luta de libertação nacional deve ter muitas coisas na cabeça, cada dia mais, tanto a partir da própria realidade da sua terra, como da realidade doutras terras, mas ele deve medir, fazer planos, respeitando a realidade e não aquilo que tem na cabeça. Isso é muito importante, e o facto de não o respeitar tem criado muitos problemas na luta de libertação dos povos, principalmente em África. Eu posso ter a minha opinião sobre vários assuntos, sobre a forma de organizar a luta, de organizar um Partido, opinião que aprendi, por exemplo, na Europa, na Ásia, até mesmo talvez noutros países de África, nos livros, em documentos que li, com alguém que me influenciou. Mas não posso pretender organizar um Partido, organizar uma luta de acordo com aquilo que tenho na cabeça. Tem que ser de acordo com a realidade concreta da terra.
         A nossa realidade geográfica, ainda, é que a Guiné na sua quase maioria, não tem nenhuma montanha, nenhuma elevação, (só para os lados do Boé é que tem algumas colinas, com o máximo de 300 metros de altura) e Cabo Verde são ilhas vulcânicas e montanhosas. Mesmo nesse aspeto vemos que um completa o outro. Uma terra não tem nenhuma montanha e a outra é toda de montanhas.
         Isso também tem grande importância, não só na sua economia, como na vida social, cultural etc., que podemos encontrar na vida do nosso povo.
         Na Guiné, terra cortada por braços de mar, que nós chamamos rios, mas que no fundo não são rios: Farim só é rio para lá de Candjambari; o Geba só é rio de Bambadinca para cima e por vezes mesmo para lá de Bambadinca há água salgada; Mansoa só é rio depois de Mansoa para cima, já a caminho de Sara, perto de Caroalo; Buba, esse não é rio de lado nenhum, porque até chegarmos a terra seca, é só água salgada; Cumbidjã, Tombali, são todos braços de mar, a não ser na parte superior com um bocadinho de água doce na época das chuvas, sobretudo o rio de Bedanda, que vem a Balama buscar água doce. O único rio de fato a sério, na nossa terra, é o Corubal. Esta é uma realidade muito importante para nós, porque se, por um lado, temos muitos portos para entrar na nossa terra, com barcos, por outro lado podem ver o perigo que isso representa para nós.
       Se a nossa economia fosse desenvolvida, quer dizer que o nosso povo seria também culturalmente mais forte do ponto de vista moderno, com mais escolas, mais liceus, capaz de trabalhar com morteiros, canhões e até com aviões. Os comandantes seriam mais capazes de entender todos os problemas de estratégia, de tática e poderiam todos trabalhar com mapas.
A realidade cultural da nossa terra, em Cabo Verde, (pondo agora a questão dos colonialistas que não nos deixaram avançar muito) é o resultado do fato de os colonialistas terem deixado estudar os cabo-verdianos, na medida em que precisavam de gente para fazer agentes do colonialismo, como utilizaram os indianos. Como os ingleses também utilizavam os indianos na colonização, e os franceses utilizavam os daomeanos, assim também os portugueses utilizaram os cabo-verdianos, instruindo um certo número.
        Na Guiné, a cultura do nosso povo é o produto de muitas culturas da África: cada etnia tem a sua cultura própria, mas todas têm um fundo igual de cultura, a sua interpretação do mundo e as suas relações na sociedade. E sabemos que embora haja populações muçulmanas, no fundo eles também são animistas, como os balantas e os outros. Acreditam em Ala, mas também acreditam nos «irãs» e nos «djambacos ses». Têm Alcorão, mas também têm o seu «gri-gri» no braço e outras coisas. E o sucesso do Islamismo na nossa terra, como na África em geral, é que o Islão é capaz de compreender isso, de aceitar a cultura dos outros, enquanto os católicos querem acabar com isso tudo rapidamente só para crerem na Virgem Maria, na Nossa Senhora de Fátima e em Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013


                                                             
                                       AMÍLCAR CABRAL

                                              XVIII

      OS MANUAIS DE GUERRILHA




Tanto os responsáveis pela luta de libertação como os oficiais portugueses conheciam bem os manuais chineses e cubanos de guerrilha. Conta-se que Amílcar Cabral, já em 1959, após o massacre de Pijiguiti, mandara os seus militantes abandonar as cidades e as vilas da Guiné e procurar abrigo no mato ou nos países vizinhos. Por essa altura, não teria ainda lido os textos de guerrilha de Mao Tse Tung. Após a repressão de greves e manifestações nas grandes cidades Mao retirou os seus militantes dos centros urbanos e deu início à Grande Marcha.
Significativamente, foi a Academia Militar de Nanquim que recebeu os que haviam de ser os primeiros guerrilheiros do PAIGC e lhes proporcionou treino militar.  
Anos mais tarde, Cabral declarou a um jornalista da revista Tricontinental que, em matéria de guerrilha, não era preciso inventar nada. Bastava aprender com os combatentes chineses, cubanos, vietnamitas e argelinos, que tinham enfrentado com êxito exércitos convencionais. A verdade é que todos esses guerrilheiros foram beber inspiração a Mao.
A experiência cubana, expressa no pequeno manual de Che Guevara A Guerra de Guerrilha, publicado em 1960, logo a seguir à tomada de Havana, apresentava algumas inovações em relação aos textos do presidente chinês. Demonstrara-se que um grupo de revolucionários, ainda que intelectuais e vindos do exílio em países estrangeiros, era capaz de combater até à vitória. A guerrilha desencadeava uma dinâmica própria, propensa a atrair o apoio das populações. Era o que Régis Débray designava por “teoria do foco”.
A importância de Cabral como dirigente de um partido empenhado numa guerra de guerrilha advém da forma como apreendeu o essencial das reflexões dos seus antecessores e os aplicou à realidade específica da Guiné.
As características geográficas do território foram aproveitadas com habilidade. As florestas densas das zonas ribeirinhas dificultavam o progresso dos militares europeus, que passavam a constituir alvos fáceis quando se deslocavam em zonas de vegetação rasteira. O sul do país apresentava mais obstáculos naturais. Foi aí que começaram os combates. Para mais, era o “chão” dos balantas. Dizia-se que nas cartas geográficas portuguesas vinham representadas todas as curvas dos rios da Guiné, mas que só os habitantes locais lhes conheciam a profundidade e os vaus.
O PAIGC começou como um partido de quadros. Assentava numa pequena burguesia de funcionários administrativos, maioritariamente cabo-verdianos. Muitos deles tinham começado por trabalhar na Guiné como auxiliares das autoridades coloniais. Com o começo da guerra, a esse núcleo juntou-se um grupo crescente de guineenses urbanos com pouca instrução, originários em boa parte de Bissau. O terceiro pilar do partido foi constituído por camponeses entre os quais sobressaíam os balantas e os mandingas, enquanto a etnia fula fornecia a maior parte dos efetivos das tropas africanas que combateram ao lado dos portugueses. 

domingo, 28 de abril de 2013


                   AMÍLCAR CABRAL                      

                             XVII

             ACÇÃO E REACÇÃO


A guerra de libertação desenvolveu-se com certa rapidez. A 19 de julho de 1963, seis meses após o ataque ao quartel de Tite, o ministro da Defesa português, Gomes Araújo, admitiu publicamente que a guerrilha do PAIGC controlava perto de 15 por cento do território da Guiné.
Os chefes militares que se confrontavam na guerra procuravam seguir a evolução dos acontecimentos de modo a poderem tirar a maior vantagem possível das próprias forças e dos defeitos do inimigo.
 Durante algum tempo, os efetivos portugueses cresceram em número e em poder de fogo.
    Em 1964, o governo português achou conveniente concentrar os poderes civil e militar da Guiné na mesma pessoa. Arnaldo Schultz foi o primeiro comandante militar da Guiné a acumular as funções com as de governador.


Schultz supunha que podia bater a guerrilha aumentado o esforço militar. Durante o seu período de comando, cresceu o contingente de soldados e aumentou significativamente o nível de violência, com recurso a bombardeamentos e a operações por tropas helitransportadas.
O PAIGC não tinha capacidade de enfrentar o Exército português numa guerra convencional. Teve de se adaptar às circunstâncias. Os seus agrupamentos militares foram divididos por unidades menores, os chamados bi-grupos, e a atividade militar deslocou-se para lugares mais próximos das fronteiras, como Quitafine e Cantanhez.
A dispersão dos combatentes conduziu a certo isolamento e afastou os comandantes locais da estrutura central da organização revolucionária. Cometeram-se alguns abusos capazes de fazer voltar as populações contra os guerrilheiros.
Era importante submeter os militares à orientação política do partido. A conquista das populações era quase tão importante para os desígnios de Cabral como as vitórias na luta armada. Amílcar Cabral convocou para Cassacá, em fevereiro de 1964, o I Congresso do PAIGC, num esforço por alargar a tutela dos dirigentes sobre os senhores locais da guerra. “Somos militantes armados e não militaristas”, proclamava.
Havia líderes militares que se comportavam como chefes tribais, reunindo haréns de adolescentes e reinando despoticamente nas tabancas. Alguns elementos acusados de atitudes impopulares e de abuso do poder foram punidos. Ocorreram, pelo menos, dois fuzilamentos.
A natureza dos homens não se altera facilmente e alguns dos tipos de crime condenados em Cassacá tornaram-se recorrentes ao longo da guerra de libertação. Segundo Vasco Cabral, teriam sido necessários mais congressos do mesmo teor e mais julgamentos.
A guerrilha implantara-se e passara a controlar frações crescentes do território da Guiné. Foi em Cassacá que começou a organização das “zonas libertadas”, destinadas a ocupar o vazio deixado pela administração portuguesa em fuga. Nasceram os “Armazéns do Povo”, que praticavam preços mais baixos que os tabelados. Paralelamente, foram criadas escolas básicas onde o ensino assentava em livros de texto redigidos por elementos da direção do PAIGC e impressos em países amigos, como a Suécia. A rádio, sediada na Guiné-Conakry, promoveu o crioulo como língua franca, contribuindo para esbater as diferenças éticas e culturais dos povos da Guiné.