DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 29 de abril de 2013


                                                             
                                       AMÍLCAR CABRAL

                                              XVIII

      OS MANUAIS DE GUERRILHA




Tanto os responsáveis pela luta de libertação como os oficiais portugueses conheciam bem os manuais chineses e cubanos de guerrilha. Conta-se que Amílcar Cabral, já em 1959, após o massacre de Pijiguiti, mandara os seus militantes abandonar as cidades e as vilas da Guiné e procurar abrigo no mato ou nos países vizinhos. Por essa altura, não teria ainda lido os textos de guerrilha de Mao Tse Tung. Após a repressão de greves e manifestações nas grandes cidades Mao retirou os seus militantes dos centros urbanos e deu início à Grande Marcha.
Significativamente, foi a Academia Militar de Nanquim que recebeu os que haviam de ser os primeiros guerrilheiros do PAIGC e lhes proporcionou treino militar.  
Anos mais tarde, Cabral declarou a um jornalista da revista Tricontinental que, em matéria de guerrilha, não era preciso inventar nada. Bastava aprender com os combatentes chineses, cubanos, vietnamitas e argelinos, que tinham enfrentado com êxito exércitos convencionais. A verdade é que todos esses guerrilheiros foram beber inspiração a Mao.
A experiência cubana, expressa no pequeno manual de Che Guevara A Guerra de Guerrilha, publicado em 1960, logo a seguir à tomada de Havana, apresentava algumas inovações em relação aos textos do presidente chinês. Demonstrara-se que um grupo de revolucionários, ainda que intelectuais e vindos do exílio em países estrangeiros, era capaz de combater até à vitória. A guerrilha desencadeava uma dinâmica própria, propensa a atrair o apoio das populações. Era o que Régis Débray designava por “teoria do foco”.
A importância de Cabral como dirigente de um partido empenhado numa guerra de guerrilha advém da forma como apreendeu o essencial das reflexões dos seus antecessores e os aplicou à realidade específica da Guiné.
As características geográficas do território foram aproveitadas com habilidade. As florestas densas das zonas ribeirinhas dificultavam o progresso dos militares europeus, que passavam a constituir alvos fáceis quando se deslocavam em zonas de vegetação rasteira. O sul do país apresentava mais obstáculos naturais. Foi aí que começaram os combates. Para mais, era o “chão” dos balantas. Dizia-se que nas cartas geográficas portuguesas vinham representadas todas as curvas dos rios da Guiné, mas que só os habitantes locais lhes conheciam a profundidade e os vaus.
O PAIGC começou como um partido de quadros. Assentava numa pequena burguesia de funcionários administrativos, maioritariamente cabo-verdianos. Muitos deles tinham começado por trabalhar na Guiné como auxiliares das autoridades coloniais. Com o começo da guerra, a esse núcleo juntou-se um grupo crescente de guineenses urbanos com pouca instrução, originários em boa parte de Bissau. O terceiro pilar do partido foi constituído por camponeses entre os quais sobressaíam os balantas e os mandingas, enquanto a etnia fula fornecia a maior parte dos efetivos das tropas africanas que combateram ao lado dos portugueses. 

domingo, 28 de abril de 2013


                   AMÍLCAR CABRAL                      

                             XVII

             ACÇÃO E REACÇÃO


A guerra de libertação desenvolveu-se com certa rapidez. A 19 de julho de 1963, seis meses após o ataque ao quartel de Tite, o ministro da Defesa português, Gomes Araújo, admitiu publicamente que a guerrilha do PAIGC controlava perto de 15 por cento do território da Guiné.
Os chefes militares que se confrontavam na guerra procuravam seguir a evolução dos acontecimentos de modo a poderem tirar a maior vantagem possível das próprias forças e dos defeitos do inimigo.
 Durante algum tempo, os efetivos portugueses cresceram em número e em poder de fogo.
    Em 1964, o governo português achou conveniente concentrar os poderes civil e militar da Guiné na mesma pessoa. Arnaldo Schultz foi o primeiro comandante militar da Guiné a acumular as funções com as de governador.


Schultz supunha que podia bater a guerrilha aumentado o esforço militar. Durante o seu período de comando, cresceu o contingente de soldados e aumentou significativamente o nível de violência, com recurso a bombardeamentos e a operações por tropas helitransportadas.
O PAIGC não tinha capacidade de enfrentar o Exército português numa guerra convencional. Teve de se adaptar às circunstâncias. Os seus agrupamentos militares foram divididos por unidades menores, os chamados bi-grupos, e a atividade militar deslocou-se para lugares mais próximos das fronteiras, como Quitafine e Cantanhez.
A dispersão dos combatentes conduziu a certo isolamento e afastou os comandantes locais da estrutura central da organização revolucionária. Cometeram-se alguns abusos capazes de fazer voltar as populações contra os guerrilheiros.
Era importante submeter os militares à orientação política do partido. A conquista das populações era quase tão importante para os desígnios de Cabral como as vitórias na luta armada. Amílcar Cabral convocou para Cassacá, em fevereiro de 1964, o I Congresso do PAIGC, num esforço por alargar a tutela dos dirigentes sobre os senhores locais da guerra. “Somos militantes armados e não militaristas”, proclamava.
Havia líderes militares que se comportavam como chefes tribais, reunindo haréns de adolescentes e reinando despoticamente nas tabancas. Alguns elementos acusados de atitudes impopulares e de abuso do poder foram punidos. Ocorreram, pelo menos, dois fuzilamentos.
A natureza dos homens não se altera facilmente e alguns dos tipos de crime condenados em Cassacá tornaram-se recorrentes ao longo da guerra de libertação. Segundo Vasco Cabral, teriam sido necessários mais congressos do mesmo teor e mais julgamentos.
A guerrilha implantara-se e passara a controlar frações crescentes do território da Guiné. Foi em Cassacá que começou a organização das “zonas libertadas”, destinadas a ocupar o vazio deixado pela administração portuguesa em fuga. Nasceram os “Armazéns do Povo”, que praticavam preços mais baixos que os tabelados. Paralelamente, foram criadas escolas básicas onde o ensino assentava em livros de texto redigidos por elementos da direção do PAIGC e impressos em países amigos, como a Suécia. A rádio, sediada na Guiné-Conakry, promoveu o crioulo como língua franca, contribuindo para esbater as diferenças éticas e culturais dos povos da Guiné.   

sexta-feira, 26 de abril de 2013

                                                   

                                                  AMÍLCAR CABRAL  

                                                                XVI                            
   

                     O LADO PORTUGUÊS

                            A OPERAÇÃO "TRIDENTE"



                                                 
Ao contrário de Angola e de Moçambique, a Guiné era pequena, pobre e insalubre. Quando a CUF se viu forçada a suspender a sua atividade, a colónia deixou de ter qualquer valor económico. No entanto, os responsáveis políticos portugueses acreditavam que uma independência abrira as portas às restantes. Era a teoria do dominó. Para manter a Guiné dominada, o estado português obrigou-se a um esforço militar claramente desproporcionado à dimensão do território.
Em 1963, Portugal dispunha de sete batalhões para defender os seus interesses na Guiné. A preocupação de ocupar militarmente todo o território levou a dividi-lo em quadrículas ocupadas por destacamentos relativamente pequenos que constituíam alvos fáceis para os ataques da guerrilha.
A partir de 1964, Lisboa reforçou o seu contingente militar com dois novos batalhões e com grupos de paraquedistas e fuzileiros navais. Logo no começo desse ano, o comando português desencadeou a operação “Tridente”, destinada a recuperar as ilhas de Como, Catar e Catungo, situadas a sul de Catió e limitadas a sul e leste pelo rio Cumbija, que tinham sido ocupadas pelos militares do PAIGC. Situam-se a sul de Catió e são limitadas a sudeste pelo rio Cumbija.  Chegou a falar-se da “República Independente de Como”. Apenas um terço daquele território é constituído por terra firme. A costa guineense modifica-se durante o dia, conforme os favores da maré. Quando enche, as águas isolam uma grande quantidade de pequenas ilhas. Ao vazar, deixam uma área extensa de lama. É o “tarrafo”.
Teve início a primeira grande confrontação entre as tropas portuguesas e os guerrilheiros. Mil e cem militares, apoiados por importantes meios navais e aéreos, desembarcaram nas ilhas para desalojarem menos de três centenas de rebeldes. A operação durou setenta dias. A artilharia naval e os aviões de combate apoiavam constantemente as tropas de infantaria e os fuzileiros. O inimigo pouco podia fazer. Escondia-se no tarrafo ou escavava túneis onde se meter.
Nino Vieira comandava os guerrilheiros de Como e esteve várias vezes à beira do desespero. Enviou a Amílcar Cabral uma carta que nunca seria recebida: “Camaradas, tenham paciência. Não tenho outra safa a não ser o seu auxílio, estou numa situação muito grave, as tropas estão a aumentar em cada dia. Somente posso dizer-vos que de um dia para o outro vamos ficar sem guerrilheiros e sem população”.
Cabral acabou por ordenar a retirada.
Do lado português, as coisas também não correram bem. Os mortos em combate não terão passado da dúzia, mas a malária e as perturbações gastrointestinais provocadas pela má qualidade da água incapacitaram um grande número de militares. A 20 de Março de 64, a ilha foi considerada “limpa de terroristas” e as nossas tropas abandonaram a região.
Pouco tempo depois, os guerrilheiros voltaram e proclamaram ao mundo uma vitória que não aconteceu. Chegaram a ser anunciados mais de meio milhar de mortos portugueses e nos textos publicados pelos nacionalistas guineenses e cabo-verdianos continua a falar-se da “vitória de Como”. 


quinta-feira, 25 de abril de 2013


                                       
                 AMÍLCAR CABRAL

                              XV

                     A GUERRA


A 23 de janeiro de 1963, ocorreu o ataque ao quartel de Tite. A data foi proclamada pelo PAIGC como a do início da guerra de libertação. No entanto, já ano e meio antes o exército português tinha sido alvo de ações armadas em Susana, Varela e S. Domingos, no território da Guiné-Bissau. O Movimento de Libertação da Guiné (MLG), sediado em Dakar e liderado por François Kankola Mendy, antecipara-se ao PAIGC, ganhando alguma vantagem na concorrência pelo reconhecimento internacional e pela ajuda que daí adviria.
Cabral criticou Mendy, alegando que o MLG dera início aos combates sem estar suficientemente preparado e que o fizera a partir de um país vizinho, em vez de se instalar no interior da Guiné. Não tardou, porém, a encontrar-se com o chefe do movimento rival. Foi possível estabelecer um acordo entre as duas organizações nacionalistas.
Os portugueses esperavam ataques vindos dos territórios vizinhos e haviam reforçado a defesa das fronteiras com o Senegal e a República da Guiné. Bem informado, Amílcar Cabral adotou uma estratégia a que chamou “centrífuga”. Os seus combatentes deveriam instalar-se nas regiões centrais do território e deslocar-se progressivamente para a periferia.
Das várias etnias da Guiné, foram os balantas quem mais cedo aderiu à causa revolucionária. Foi no chão deles, situado a sul, que o partido instalou inicialmente mais efetivos. Dali iriam progredir para norte até tomar conta do Oio, uma região estratégica que permitiria os ataques a Bissorã e Bafatá. Por essa altura, o PAIGC contava com 3.000 combatentes instalados dentro das fronteiras do país.


Os guerrilheiros recebiam cada vez mais material bélico moderno e aprendiam a usá-lo. A intensidade da luta cresceu a partir de março desse mesmo ano (1963). Quando os rebeldes ocuparam Poindom, no ponto em que se encontram os rios Geba e Corubal, ganharam acesso fácil à região de Morés. Não conseguiram isolar Mansabá, um cruzamento importante de estradas, mas, em agosto, toda a zona de Bissorã, Encheia, Mansoa, Mansabá e Olossato se tornara insegura para o trânsito de veículos portugueses.
Os guerrilheiros jogavam ao “toca e foge”. Atiravam e escapavam-se, logo que os soldados portugueses respondiam ao fogo. Evoluíram depressa, graças à experiência transmitida pelos combatentes argelinos e cubanos, que tinham travado guerras de guerrilha em épocas relativamente recentes.
A partir de outubro de 1964, as estradas e caminhos utilizados pelos portugueses nas suas deslocações passaram a ser minados com alguma frequência. As áreas ao alcance da guerrilha alargaram-se. A leste de Bafatá, a circulação de viaturas passou a ser obrigatoriamente acompanhada por escoltas militares. 

quarta-feira, 24 de abril de 2013


   


                                   AMÍLCAR CABRAL 

                                                  XIV

    

 A PREPARAÇÃO DA LUTA ARMADA


     Os movimentos de libertação utilizaram muitas vezes os massacres para legitimarem a sua atuação perante a opinião pública internacional e para galvanizarem os próprios adeptos. O PAIGC escolheu a data de 3 de agosto de 1961, segundo aniversário da matança de estivadores em Pijiguiti (no porto de Bissau) para proclamar a passagem à ação direta contra o colonialismo português.
      A 13 de outubro do mesmo ano, Amílcar Cabral subscreveu uma carta aberta ao Governo de Lisboa, aconselhando Salazar a negociar a autodeterminação e independência da Guiné e Cabo Verde.
     Ainda em 1961, começaram a chegar os primeiros jovens que tinham sido enviados para receber preparação militar na China. Entre eles contavam-se Domingos Ramos, Osvaldo Vieira, Rui Djassi, Vitorino Costa, Constantino Teixeira, Hilário Gomes (Lolo), Pedro Ramos, Manuel Saturnino Costa, Francisco Mendes (Xico Té) e Nino Vieira. Foram os primeiros comandantes da guerrilha nas diversas zonas operacionais em que Amílcar Cabral dividiu a Guiné. Alguns deles viriam a ser dirigentes do PAIGC.
Entretanto, prosseguia a luta política. Em Bissau, foram distribuídos ou colados nas paredes panfletos apelando à luta armada de libertação nacional. A PIDE respondeu perseguindo as estruturas clandestinas do PAIGC. Foi assaltada a sede do partido em Bissau, sendo apreendida uma lista de militantes. Terão sido detidos perto de um milhar.
Perdia-se em Bissau, mas ganhava-se no interior. A região de Morés, no Centro Norte, tornou-se uma importante base de resistência. O PAIGC começou a organizar comités nas tabancas. Havia, no interior do território, militantes dispostos a iniciar a luta.
Para fazer a guerra eram precisas armas. Os países do norte de África foram os primeiros a apoiar os esforços de Cabral. A Argélia, acabada de sair da guerra de libertação, disponibilizou-se para treinar guerrilheiros e Marrocos ofereceu ao PAIGC uma remessa de armamento. Para que armas e munições chegassem aos guerrilheiros, teriam de atravessar um dos países limítrofes, o Senegal ou a Guiné-Conakry.
Leopold Senghor, que governava o Senegal, defendia as negociações como via para a independência das colónias e mostrava-se pouco disposto a apoiar a luta armada. Restava a Guiné-Conakry, que Sekou Touré dominava com mão de ferro. Touré receava que o armamento fosse ter às mãos dos muitos concidadãos que o detestavam. Apropriara-se, já em 1961, de um carregamento fornecido pela Checoslováquia ao PAIGC.
Os homens de Cabral estavam distribuídos pelo território da Guiné e escondiam-se na mata. Sem armas, alguns ameaçavam desertar. Os dirigentes do partido tiveram de improvisar e dedicaram-se ao contrabando, usando uma série de truques tradicionais e inventando outros. Quando chegou a vez de transportar armamento mais pesado, as coisas complicaram-se. Uma caixa de ferro contendo munições tombou de uma grua e quebrou-se. O conteúdo ficou exposto no cais de Conakry. Sekou Touré mandou prender todos os responsáveis do PAIGC que se encontravam na cidade. Cabral estava ausente.
Os amigos do PAIGC movimentaram-se. Touré foi contactado pelo cubano Fidel Castro e pelo argelino Ahmed Ben Bella. No entanto, para libertar a sua equipa, Amílcar Cabral teve de demonstrar que as armas se destinavam efetivamente à guerra anticolonial. Ordenou o assalto ao quartel de Tite, no centro da Guiné-Bissau. Sekou Touré lá se convenceu a libertar os dirigentes do PAIGC detidos.  
A guerra começou assim em 1961. O conflito prolongou-se e, a dada altura, 10.000 guerrilheiros suportados pelo bloco soviético enfrentaram 35.000 soldados portugueses, entre europeus e africanos.
 As características geográficas do terreno, com savana e uma grande quantidade de braços do mar, uma parte do território alagado na maré alta e a própria extensão limitada do território a tornar próximas as fronteiras onde buscar abrigo e abastecimentos, tornaram a guerra difícil para os europeus. Os rebeldes recebiam grandes quantidades de armas fornecidas por Cuba, China, União Soviética e vários países africanos com regimes políticos de esquerda. Cuba forneceu ainda especialistas em artilharia, médicos e técnicos.


terça-feira, 23 de abril de 2013



                             XIII
                               

             AS ETNIAS DA GUINÉ





A variedade considerável das etnias que habitam o pequeno território da Guiné-Bissau traduz a sua situação geográfica e resulta das migrações que se foram fazendo ao longo dos séculos. Existem dois grupos étnicos fundamentais. Os povos negróides são essencialmente animistas. Entre eles, os Balantas e os Papéis ocupam as regiões costeiras do sul, enquanto os Bijagós preferem as ilhas e Manjacos e Mancanhas predominam no centro e nas regiões costeiras do norte. Os povos islamizados (Fulas e Mandingas) habitam o interior norte e o nordeste do país, a zona da mancarra (amendoim). A sua religião comporta também traços animistas.
Na Guiné, os colonos portugueses nunca foram muitos e a terra foi sempre pertença dos indígenas.
 Muitos guineenses falam uma das línguas africanas e têm o crioulo como segunda língua.
Note-se que Sekou Touré, dirigente histórico do país vizinho era mandinga e que tanto “Nino” Vieira Como Marcelino da Mata eram papéis.
Amílcar Cabral compreendeu cedo que as estruturas tribais tanto podiam facilitar como dificultar a participação dos seus membros na guerra de libertação. Numa sociedade descentralizada, como a balanta, um jovem podia decidir pela sua própria cabeça. Em grupos hierarquizados, como o dos fulas e dos mandingas, o empenhamento na luta armada dependia da aprovação dos chefes (“homens grandes”) que tinham em vista os interesses do conjunto.
De um modo geral, os fulas apoiaram os portugueses na ocupação da Guiné e colheram algum benefício do sistema colonial. Foi deste grupo étnico que saiu a maior parte dos combatentes africanos que lutaram, ao lado de Portugal, contra a guerrilha. Os mandingas eram o povo dominante no território quando chegaram os portugueses. Foram quem mais perdeu com o colonialismo. Para mais, detestavam os fulas por razões históricas. Foi fácil ao PAIGC recrutar guerrilheiros nessa etnia.
Sobre as peculiaridades de comportamento das várias raças da Guiné e a abordagem política de cada uma, ouçamos o que diz Amílcar Cabral. 

No mato é conforme: se for na nossa sociedade balanta, não há problema. A sociedade balanta é uma sociedade chamada horizontal, quer dizer, não tem classes, por cima uma das outras. Os balantas não têm chefes grandes, os tugas é que lhes arranjaram chefes. No balanta, cada família, cada morança, tem a sua autonomia e, se há algum problema, é o conselho dos velhos que o resolve, mas não há um Estado, não há nenhuma autoridade que manda em toda a gente. Se havia, no nosso tempo, porque vocês são jovens, é porque o tuga o pôs lá. Há mandingas chefes de balantas, antigos sipaios que põem como chefes. Mas eles não podem resistir, que é que hão de fazer, aceitam-nas, estão-se marimbando para o chefe. Cada um manda na sua casa, e entendem-se bem, juntam-se para lavrar, etc., e não há muita conversa. A sociedade balanta é assim: Quanto mais terra tu lavras, mais rico tu és, mas a riqueza não é para guardar, é para gastar, porque um não pode ser muito mais que o outro. Esse é que é o princípio da sociedade balanta, como doutras sociedades da nossa terra. 
Os fulas, os manjacos, etc., têm chefes, mas chefe não porque o tuga o pôs lá, é a própria evolução da sua história. Claro que temos que dizer aos camaradas que, na Guiné, os fulas e os mandingas, pelo menos, são gente que veio de fora. A maioria dos fulas e dos mandingas da nossa terra, era gente antiga da terra, que se tornou fula ou mandinga. É bom saberem bem isso, para poderem compreender certas coisas. Porque se compararmos as regras da vida dos fulas da nossa terra com as dos fulas de verdade noutras áreas de África, há já um bocado de diferença, mesmo no Futa Djalon já é diferente. Na nossa terra muitos se tornaram fulas: os mandingas antigos viraram fulas.
Os mandingas mesmo que vieram, conquistaram até a região de Mansoa e mandinguisaram as pessoas, transformaram-nas em mandingas. Os balantas recusaram-se e muita gente diz que a própria palavra balanta significa aqueles que recusam. O Balanta é aquele que não se convence, que nega. Mas não recusou tanto porque existe balanta-mane ou mansoanca. Sempre apareceram alguns que aceitaram e foram aumentando aos poucos, aceitar ser muçulmanos. Balantas, papel, mancanhas, etc., era tudo gente do interior de África que os mandingas empurraram para junto do mar. Os Sussus da República da Guiné, por exemplo, vêm do Futa - Djalon, os mandingas e os fulas é que os tiraram de lá. Os mandingas tiraram e depois vieram os fulas que tiraram também mandingas. Como dissemos, a sociedade de fulas, já é uma sociedade que tem gente (classes) de baixo para cima. Na balanta não, quem levantar muito a cabeça já não presta, já quer virar branco, etc. Por exemplo, se por acaso lavrar muito arroz, é preciso fazer uma grande festa, para gastar. 
Os fulas e os manjacos têm outras regras, uns mais do que os outros. Quer dizer, as sociedades manjaca e fula são chamadas verticais. Em cima há o chefe, a seguir os religiosos, a gente grande da religião que com os chefes forma uma classe, a seguir vêm os outros de profissões diversas (sapateiros, ferreiros, ourives) que, em qualquer sociedade não têm direitos iguais aos de cima. No costume antigo, quem é ourives, tem mesmo vergonha. Portanto, uma série de profissões, em escala, mas umas abaixo de outra. O ferreiro não é a mesma coisa que o sapateiro e o sapateiro não é a mesma coisa que o ourives, etc., cada um tem a sua profissão, claro. Depois então vem a grande massa da gente que lavra o chão. Lavra o chão para os chefes, como é costume. Esta é a sociedade fula e a sociedade manjaca. Com todas as teorias necessárias, teorias como: um dado chefe está ligado com Deus. No manjaco, por exemplo, se alguém é lavrador, ele não pode lavrar o chão sem ordem do chefe, porque o chefe é que tem a palavra de Deus para lhe dar. Cada um é livre de acreditar no que quiser. Mas todo um ciclo criado para quê? Para os que estão por cima garantirem a certeza de que os que estão por baixo não se levantam contra eles. Mas na nossa terra aconteceu várias vezes entre os fulas, por exemplo, que gentes de baixo, levantaram-se e lutaram contra os de cima. Houve revoltas de camponeses em grande, várias vezes. Temos, por exemplo, o caso de Mussa Molo, que deitou abaixo e tomou conta do lugar. Mas acabou de tomar conta do lugar, adaptou a mesma lei antiga, porque essa é que era boa, tudo continuou na mesma, porque assim é que está bem. E esqueceu-se logo donde tinha saído. Isso é o que muita gente quer infelizmente. Nesta sociedade do mato, grande número de balantas pegou na luta e não é por acaso, não é porque os balantas são melhores que os outros. É por causa do tipo de sociedade que eles têm, sociedade horizontal (rasa) mas, de homens livres que querem ser livres, que não têm nenhuma opressão em cima, a não ser a opressão dos tugas. O balanta é ele e o tuga por cima dele, porque o chefe que lá está, o Mamadu, ele sabe que não é nada seu chefe, foi o tuga que o pôs lá. Portanto, mais interesse ele tem em acabar com isso para ficar com a sua liberdade absoluta. E é por isso também que quando qualquer elemento do Partido comete um erro com os balantas, eles não gostam e zangam-se depressa, mais depressa do que qualquer outro grupo.
Entre fulas e manjacos não é assim. A grande massa que sofre de facto é a de baixo, os trabalhadores da terra (camponeses). Mas entre eles e os tugas há muita gente. Já se habituou a sofrer, a sofrer com a sua própria gente, sob a opressão da sua própria gente. E que quem lavra a terra, tem que trabalhar para todos os chefes, muitos chefes, além de chefes de posto. Então verificou-se o seguinte: quando compreenderam de facto, grande parte dos camponeses pegou na luta, salvo um grupo ou outro no qual não trabalhamos bem. Nos que estão acima deles (os profissionais) alguns pegaram e outros não, mas muito interesseiros, trabalham muito para eles mesmo (artesãos) e entre os religiosos e os chefes, raros foram os que pegaram no Partido, porque têm medo de perder os seus privilégios, a favor da luta. Nessas sociedades de classes, há um grupo que desempenha um papel especial: os que levam mercadorias dum lado para outro, para vender ou para trocar (dentro ou fora da terra). Trocam mercadorias, emprestam dinheiro aos chefes, etc. São os «Djilas». É um grupo especial, no quadro da nossa sociedade. Essas são as sociedades que têm classes: classe dirigente, classe de artesãos, classe de camponeses. Era preciso fazer unidade, o máximo possível, das forças de diferentes classes, de diferentes elementos da sociedade para fazermos a luta na nossa terra. Não é preciso unir toda a gente, como já disse, mas é preciso ter um certo grau de unidade. Na nossa sociedade há vários grupos étnicos, quer dizer, grupos com culturas e costumes diferentes e que, segundo a sua própria convicção, vieram de grupos diferentes, de origens diferentes: fulas, mandingas, papéis, balantas, manjacos, mancanhas, etc., incluindo também descendentes de cabo-verdianos, na Guiné.





segunda-feira, 22 de abril de 2013

                        
               AMÍLCAR CABRAL

                        XIII

                    OPERAÇÃO MAR VERDE


                          A RESSACA


                Lancha de fiscalização "Orion"

A operação Mar Verde constituiu uma pequena vitória militar e uma enorme derrota diplomática. O ataque a um país soberano com o qual Portugal não estava em guerra acentuou ainda mais o isolamento internacional do governo de Lisboa.
Sekou Touré queixou-se a várias organizações internacionais e o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou Portugal por duas vezes.
A solidariedade dos amigos da República da Guiné recebeu um fôlego novo. A Nigéria ofereceu-se para enviar um contingente de tropas para o território guineense e a União Soviética fez seguir para Conakry três navios de guerra. O PAIGC saiu reforçado do escândalo internacional e beneficiou de significativas ofertas de armamento soviéticas e chinesas. As seis embarcações Komar destruídas pelos fuzileiros portugueses foram substituídas por doze modernas lanchas de combate.
Kissinger enfureceu-se com os seus amigos portugueses e as relações entre os EUA e o governo de Lisboa deterioram-se. 
Quanto a Spínola, descarregou a ira em Alpoim Calvão. Escreveu o comandante da Defesa Marítima da Guiné, comodoro Luciano Bastos, relatando uma conversa com o general:

Disse-me então, por vezes com grande excitação, que o Calvão, embora tivesse planeado tudo muito bem e que, sem ele, a operação não se realizaria, havia falhado redondamente no campo da execução, havia desembarcado as equipas e nada mais fizera, que não atuara, que não empregara em pleno os meios ao seu dispor, pois sabia de equipas que após meia hora haviam regressado a bordo sem mais nada para fazer, chegando mesmo a haver outra gente que nem sequer chegara a desembarcar, que procedera como um simples guarda-marinha e que já estava arrependido de não ter mandado outro oficial mais graduado como o Robin para controlar a operação.
Acrescentou ainda que o Calvão atuara como para realizar um golpe de mão sem ter percebido que o fundamental ali era o golpe de estado. Que o Calvão se tinha embebedado com o tal sargento preto Marcelino da Mata, que o trouxera com ele para Bissau e que ele, agora, anda para aí a exibir pistolas capturadas e a falar dos acontecimentos de Conakry.

O general pediu a Luciano Bastos para ter uma conversa com Alpoim Calvão. O comodoro relatou o encontro.

O Calvão, conservando sempre a maior calma, respondeu que estaria absolutamente seguro da justeza da forma como procedera em Conakry, que não temia os juízos de ninguém, que mais não fizera porque, fundamentalmente, não encontrara os MIG`s no aeródromo de Conakry, que logo que o capitão Morais o informou que não encontrara os MIG`s no aeródromo, o Calvão, de acordo com o plano previamente estudado em todas as hipóteses, se preparara para reembarcar e regressar pois tinha de salvar os seis navios de guerra que, de um momento para o outro poderiam atacar e afundá-los facilmente. De nada serviria tomar a emissora e outros pontos da cidade para virem os MIG`s atacar os navios e a cidade. Que não temia o general e que se este lhe levantasse a voz, ele a levantaria também, pois para o general dá resultado falar duro.