DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

                        
               AMÍLCAR CABRAL

                        XIII

                    OPERAÇÃO MAR VERDE


                          A RESSACA


                Lancha de fiscalização "Orion"

A operação Mar Verde constituiu uma pequena vitória militar e uma enorme derrota diplomática. O ataque a um país soberano com o qual Portugal não estava em guerra acentuou ainda mais o isolamento internacional do governo de Lisboa.
Sekou Touré queixou-se a várias organizações internacionais e o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou Portugal por duas vezes.
A solidariedade dos amigos da República da Guiné recebeu um fôlego novo. A Nigéria ofereceu-se para enviar um contingente de tropas para o território guineense e a União Soviética fez seguir para Conakry três navios de guerra. O PAIGC saiu reforçado do escândalo internacional e beneficiou de significativas ofertas de armamento soviéticas e chinesas. As seis embarcações Komar destruídas pelos fuzileiros portugueses foram substituídas por doze modernas lanchas de combate.
Kissinger enfureceu-se com os seus amigos portugueses e as relações entre os EUA e o governo de Lisboa deterioram-se. 
Quanto a Spínola, descarregou a ira em Alpoim Calvão. Escreveu o comandante da Defesa Marítima da Guiné, comodoro Luciano Bastos, relatando uma conversa com o general:

Disse-me então, por vezes com grande excitação, que o Calvão, embora tivesse planeado tudo muito bem e que, sem ele, a operação não se realizaria, havia falhado redondamente no campo da execução, havia desembarcado as equipas e nada mais fizera, que não atuara, que não empregara em pleno os meios ao seu dispor, pois sabia de equipas que após meia hora haviam regressado a bordo sem mais nada para fazer, chegando mesmo a haver outra gente que nem sequer chegara a desembarcar, que procedera como um simples guarda-marinha e que já estava arrependido de não ter mandado outro oficial mais graduado como o Robin para controlar a operação.
Acrescentou ainda que o Calvão atuara como para realizar um golpe de mão sem ter percebido que o fundamental ali era o golpe de estado. Que o Calvão se tinha embebedado com o tal sargento preto Marcelino da Mata, que o trouxera com ele para Bissau e que ele, agora, anda para aí a exibir pistolas capturadas e a falar dos acontecimentos de Conakry.

O general pediu a Luciano Bastos para ter uma conversa com Alpoim Calvão. O comodoro relatou o encontro.

O Calvão, conservando sempre a maior calma, respondeu que estaria absolutamente seguro da justeza da forma como procedera em Conakry, que não temia os juízos de ninguém, que mais não fizera porque, fundamentalmente, não encontrara os MIG`s no aeródromo de Conakry, que logo que o capitão Morais o informou que não encontrara os MIG`s no aeródromo, o Calvão, de acordo com o plano previamente estudado em todas as hipóteses, se preparara para reembarcar e regressar pois tinha de salvar os seis navios de guerra que, de um momento para o outro poderiam atacar e afundá-los facilmente. De nada serviria tomar a emissora e outros pontos da cidade para virem os MIG`s atacar os navios e a cidade. Que não temia o general e que se este lhe levantasse a voz, ele a levantaria também, pois para o general dá resultado falar duro.

domingo, 21 de abril de 2013


                                             AMÍLCAR CABRAL

                                                               XII

            OPERAÇÃO MAR VERDE



              O ATAQUE A CONAKRY





          Antes da 1 da manhã de 22 de Novembro de 1970, um grupo de 14 fuzileiros especiais iniciou o ataque às oito embarcações militares acostadas no porto de Conakry. Os navios foram tomados de surpresa. Os fuzileiros afundaram três vedetas e deitaram fogo a outras quatro com granadas incendiárias.
Outro pequeno grupo de combate atacou a central elétrica e deixou metade da capital guineense às escuras.
A bordo do navio chefe Orion avistou-se o clarão das explosões e o fogo de armas ligeiras do lado do porto e assistiu-se ao apagar das luzes de parte da cidade. As coisas tinham começado bem.
Não aconteceu assim com todos os objectivos programados. Logo no começo da missão, o capitão Morais, que comandava o grupo de paraquedistas encarregado de tomar o aeroporto, comunicou via rádio para o seu navio de apoio: o filho da puta do tenente Januário fugiu com vinte dos meus homens; traiu-me miseravelmente. Não foi possível destruir os MIG`s, que não estavam no aeroporto nem nos hangares. O serviço de informações falhara. Os MIG`s tinham sido transferidos dias antes para Labé, cerca de 150 quilómetros a norte da capital. 
 Sem o necessário domínio do espaço aéreo, a operação corria um risco sério de fracasso.
Um grupo de assalto atacou as instalações do PAIGC, destruindo edifícios e viaturas e abatendo vários militares. As residências dos dirigentes foram também assaltadas, mas Amílcar Cabral não se encontrava em Bissau. A “inteligência falhara outra vez.
Outro grupo, composto por fuzileiros, tomou de assalto o complexo residencial de Sekou Touré, que estava noutra parte da cidade. Foi atacado o Grupo das Milícias Populares.
Na prisão La Montaigne estavam detidos 25 militares portugueses. Contava-se entre eles o sargento aviador António Lobato, preso desde que o se T6 se despenhara, em maio de 1963. Foram libertados, depois de se abrir um rombo no muro, a tiro de bazooka.
Um grupo de 40 homens integrando comandos africanos e membros do Front e comandada por Tomás Camará e pelo alferes Ferreira, atacou a Gendarmerie, há pouco transformada em prisão política. Ouçamos o então furriel Marcelino da Mata, que integrou este grupo:

    No dia 19 de Novembro de 1970 arrancámos para Conackry com uma companhia de Comandos e um destacamento de Fuzileiros especiais guineenses, que só souberam para onde iam já dentro dos barcos – só os oficiais e eu sabíamos antes. Houve tipos que começaram a chorar, porque se contavam muitas histórias acerca de Conackry: um furriel enfermeiro, que tinha andado no PAIGC e se entregou, dizia que estava tudo eletrificado, que se tocava num arame e morríamos todos  e eu perguntei-lhe como é que eles tinham dinheiro para fazer armadilhas elétricas, se nem tinham dinheiro para comer.  O meu grupo de assalto, com quarenta homens era comandado por um alferes branco (Abílio Rodrigues Ferreira) que ia na sua primeira operação: era de Administração, com a especialidade “ranger” e nunca tinha ouvido um tiro em combate; recebeu a informação de que o seu objetivo era tomar o controlo de um quartel onde estavam apenas 30 homens; afinal era um regimento de tropas especiais (Guarda Nacional da Guiné-Conackry) que tinha sido treinado por checos.
   Fui o primeiro a entrar no quartel. Entrei sem arma. Não tinha arma, só tinha uma faca e o cantil da água, porque quando desembarquei do barco para o bote deixei cair a arma ao mar. Quando cheguei à porta de armas estavam lá 4 pessoas a conversar. Viram-me, avisaram as sentinelas e fecharam o portão. Nós tínhamos chapéus grandes, do tipo daqueles que os americanos usam para não apanhar sol, enfiei o chapéu pela cabeça, mandei uma cabeçada no vidro e entrei pela janela. Caí em cima da mesa do sargento da guarda, ele pôs-se debaixo da mesa e dei-lhe 2 punhaladas, matei-o. Depois, dei a volta e fui abrir o portão e o grupo entrou. Mal entrámos, o corneteiro começou a tocar a corneta e os gajos começaram a aparecer. O alferes, em vez de entrar, ficou ao meu lado e levou uma rajada. A partir daí dei ordem para abater tudo o que aparecesse. Ou morríamos ou matávamos. A nossa sorte foi que eles não valiam nada – éramos quarenta e ao fim de meia hora tomámos conta do quartel. Agarrámos os inimigos e pusemo-los sentados debaixo do pau da bandeira. Só tivemos um morto, que foi o alferes.

Foram libertados cerca de 600 presos e abatidos todos os militares inimigos que foram encontrados. No final da missão, o grupo apoderou-se dum jipe para transportar o corpo do alferes Ferreira.
A grande altitude, um grupo de MIG sobrevoou a flotilha portuguesa, sem atacar. Provocou ansiedade ente a nossa gente, apesar de o sargento António Lobato ter informado Calvão de que os pilotos guineenses ainda não tinham completado a formação e dificilmente seriam capazes de atingir uma força naval.
O comandante não podia arriscar mais os seus homens. Depois de recolherem todo o pessoal desembarcado, os navios formaram em losango e navegaram de regresso à ilha de Sogo. Traziam dois mortos e um ferido grave. A operação em terra durara cerca de dez horas.
Não ocorreu o esperado levantamento popular contra Sekou Touré. A centena de elementos do Front que participara na operação optou por ficar em terra. Foi vencida e liquidada pelo exército da República da Guiné.
Spínola ficou transtornado com o resultado da operação. Sonhara com o Golpe de Estado que iria destituir Sekou Touré e instalar no poder um governo favorável aos interesses portugueses.
 Alpoim Calvão afirmaria anos mais tarde que Amílcar Cabral, se fosse capturado, seria transportado para Bissau enquanto Sekou Touré seria entregue aos elementos da Front. Escreveu no seu relatório: sob o ponto de vista estritamente militar, a operação decorreu de forma muito satisfatória; o estado actual de funcionamento dos nossos serviços de informações é confrangedor.


sábado, 20 de abril de 2013





                                         AMÍLCAR CABRAL

                                                              XI

                  OPERAÇÃO MAR VERDE

                      (PREPARAÇÃO)



Para preparar em segredo a operação, foi improvisado um aquartelamento na ilha isolada e despovoada de Sogo, no arquipélago dos Bijagós. Foram ali treinados os opositores ao regime de Sekou Touré que iriam participar naquela aventura. Os cuidados com a preparação foram levados ao ponto de conduzir para lá umas tantas prostitutas de Bissau. Quem entrava na ilha não saía, até ao final da operação.
Conta Marcelino da Mata, lendário comando africano de exército português, que ajudou a preparar os opositores de Sekou Touré:

Um dia apareceu-me em Farim, o comandante Alpoim Calvão e disse que precisava que eu fosse para Cabo Verde dar recruta aos cabo-verdianos, de quem eu não gostava. Uma semana depois, estava no mato, veio um helicóptero buscar-me; também fui de helicóptero de Bissau para a ilha de Sogo. No dia seguinte, encostou lá uma lancha de desembarque militar, com uns gajos pretos e a falar uma língua que eu não conhecia.
No terceiro dia apareceu o Calvão, que me disse para eu os preparar. Eles falavam francês, mas eu não percebia nada de francês e perguntei-lhe: “Como é que eu vou preparar estes gajos se não percebo a língua deles?”. Ele então arranjou-me um intérprete, um guineense que vivia no Senegal e falava crioulo e francês. Eram homens da Guiné-Conackry. A princípio eram uns 30.
 Depois apareceu o Rebordão de Brito e perguntou-me o que é que nós estávamos ali a fazer. Disse-lhe para ter calma, porque eu também não sabia de nada. Foram vindo mais grupos de homens da Guiné-Conackry, até que se juntaram 400; eu e o Rebordão éramos os únicos portugueses e dávamos-lhes instrução. Passámos sete meses nisto, ninguém mais sabia de nada a não ser o Calvão e Lisboa.

Um fuzileiro naval que desertara e que, arrependido, se voltara a apresentar às nossas forças, deu um contributo precioso para o planeamento do ataque. Ajudou e explicar a carta da cidade e serviu de guia após o desembarque.
Alguns dos oficiais portugueses chamados a participar na operação manifestaram  frontalmente discordância. Houve quem argumentasse que o ataque à capital de um país com o qual Portugal não estava em guerra poderia acarretar consequências deletérias para o interesse nacional. Spínola e Calvão mantiveram-se firmes. Alguns descontentes foram ameaçados com sanções disciplinares e o major Leal de Almeida recebeu mesmo voz de prisão. Acabaria por participar na ação militar, apesar do desagrado de Alpoim Calvão.
Não era imaginável deixar em Conakry vestígios diretos da presença de militares portugueses. Amadú Bailo Djaló, outro comando africano do exército português descreveu nestes termos os últimos preparativos para a invasão de Conakry:

O comandante falou sobre a forma como devíamos agir. Primeiro, não levávamos as nossas fardas, nem as nossas armas. Levávamos Kalashs e íamos vestidos com roupa do PAIGC, equipamentos, chapéus, tudo de cor castanha. Segundo, que havia um capitão do Exército da Guiné-Conakry que comandava uma companhia que ia connosco. E terceiro que todos nós levávamos um braçal, de cor verde, no ombro esquerdo que serviria de sinal da operação “Mar Verde”. E que qualquer pessoa que, em Conacry, nos mostrasse um pano, grande ou pequeno, desde que fosse de cor verde, era dos nossos. Tínhamos, em Conakry, gente à nossa espera, mesmo militares que apoiavam a nossa ação.


Os navios que faziam parte da flotilha foram pintados de cores diferentes das habituais na Marinha portuguesa e as inscrições identificadoras foram apagadas. Os militares portugueses brancos pintaram o corpo de preto.
Voltemos ao relatório do 1º cabo Djaló, referente ao início da operação:
Por volta das 10.00, avistámos um barco muito velho a navegar na nossa direção. Trazia o general Spínola, corremos para a formatura. Quando chegou, o capitão João Bacar mandou apresentar armas, o general correspondeu à continência e depois iniciou um pequeno discurso.
Que se não fosse governador ia connosco. Mas que nós iríamos participar com o espírito dele e que havíamos todos de regressar, se Deus quisesse. Gritámos o nosso grito “Comandos ao ataque”, três vezes. Depois desse grito, já não podíamos voltar atrás, era o nosso juramento.



 A flotilha zarpou, de luzes apagadas, no começo da noite do dia 20. Uma força do Exército tinha sido colocada de prevenção em Buruntuma, próximo da fronteira da República da Guiné. Os aviões FIAT G91 estavam prontos a descolar. De pouco serviriam, se os velozes MIG da República na Guiné não fossem previamente neutralizados no solo. 



sexta-feira, 19 de abril de 2013


                 AMÍLCAR CABRAL

                                X

      OPERAÇÃO MAR VERDE

      

        AS CIRCUNSTÂNCIAS




A Segunda Grande Guerra Mundial fragilizou de vez a velha Europa e as antigas potências coloniais deixaram de ter poderio económico e militar suficientes para conservarem os seus imensos impérios. A Europa já não era o centro do mundo. Teve de se adaptar aos novos equilíbrios de poder. Tanto os inimigos como os aliados oficiais da França, Inglaterra, Holanda, Congo Belga, Espanha e Portugal cobiçavam a liberdade de comércio nas possessões que estes países tinham conservado durante séculos.
A História de África não decorreu da maneira que é ensinada nos compêndios escolares das novas nações. Todos os países, e nós também, embelezam os seus passados de forma a incrementar a autoestima dos seus nacionais. Não fosse o apoio empenhado da União Soviética e dos Estados Unidos da América e a história das independências africanas teria levado algumas décadas mais a escrever. Alguns países de mentalidade pragmática, como o Reino Unido, mediram cedo os ventos da História e cederam prontamente perante forças que não podiam controlar. Outros, como a França e Portugal, envolveram-se em guerras inglórias.  
Por volta de 1970, quase todas as antigas colónias europeias na África e na Ásia tinham obtido o estatuto de nações independentes. O governo de Lisboa agarrava-se obstinadamente ao seu velho império. As grandes organizações internacionais condenavam a persistência da política colonialista portuguesa e até o Vaticano recebia oficialmente os líderes das nossas colónias. Se não estávamos orgulhosamente sós, como terá dito Salazar, pouca companhia tínhamos, para além da África do Sul.
Em geral, nem a vida nem a política são lineares. Numa e noutra, abundam os meandros. Curiosamente, a Operação Mar Verde foi secretamente apoiada por países da NATO, receosos de que a independência de Cabo Verde facilitasse a instalação de bases militares soviéticas naquele arquipélago, alterando o equilíbrio geoestratégico vigente.
Portugal nunca esteve em guerra com a República da Guiné. No entanto, beneficiando da conjuntura internacional, o presidente Sekou Touré acolhia fraternalmente no seu território os guerrilheiros que combatiam os portugueses. Ali tinham campos de treino e ali encontravam abrigo sempre que necessário. Era pelo território da Guiné-Conakry que entrava o armamento destinado ao PAIGC, ainda que as más-línguas dissessem que os guineenses, quando podiam, ficavam com parte das remessas. Conakry era a residência habitual de Amílcar Cabral. Funcionava na capital guineense uma escola-piloto para quadros do partido. O facto provavelmente mais grave era a existência, num país soberano oficialmente alheio ao conflito armado, de uma prisão onde eram aferrolhados os prisioneiros de guerra portugueses. Seriam razões de sobra para Portugal levar a cabo ações militares contra a República da Guiné e dos seus dirigentes, se fosse outro o panorama político internacional.
Em Janeiro de 1970, o comandante Alpoim Calvão ia nos 33 anos. Foi ele quem apresentou ao general António de Spínola, comandante militar e governador-geral da Guiné portuguesa, a proposta da operação que viria a ficar conhecida sob o nome de “Mar Verde”. Os seus objetivos podiam dividir-se em cinco alíneas:
1 – Promover um golpe de estado na República da Guiné-Conakry, de forma a substituir o regime de Sekou Touré por outro mais favorável aos interesses portugueses.
2 – Atingir as instalações do PAIGC em Conacry, provocando o maio número possível de baixas entre o inimigo.
3 – Eliminar as embarcações de guerra do PAIGC abrigadas no porto de Conakry.
4 – Capturar ou eliminar Amílcar Cabral.
5 – Libertar os militares portugueses detidos na prisão do partido.
Spínola deu o seu aval ao ataque a Conacry. Ao serem informados do projeto, tanto o ministro do Ultramar, Silva Cunha, como o ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo se opuseram a ele. Temiam as repercussões internacionais do ataque a Conakry. Foi o próprio Alpoim Calvão quem se deslocou a Lisboa para entregar pessoalmente ao primeiro-ministro português Marcello Caetano uma carta do general Spínola. Caetano autorizou o desencadear da operação.
Alpoim Calvão é uma figura incontornável da guerra da independência da Guiné. Apesar da sua juventude, foram-lhe confiadas a preparação e o comando da operação. Chegou a exercer diplomacia paralela. Deslocou-se várias vezes a Genebra e a Paris, acompanhado de um graduado da DGS (PIDE) para contactar individualidades do “Front” que se opunha a Sekou Touré. Tratava-se de estabelecer alianças para o futuro e de conseguir informações que facilitassem a expedição naval a Conakry.
Nenhum aspecto da preparação foi descurado. Três elementos do "Front" mudaram-se para Bissau onde elaboraram uma lista das individualidades que iriam integrar o governo de Conakry após o afastamento de Touré. Chegaram a ser escritas as primeiras declarações a serem emitidas pela rádio em casa de vitória do golpe.

quinta-feira, 18 de abril de 2013


                             AMÍLCAR CABRAL  



                    IX

                UNIDADE E LUTA

                                (EXCERTOS DE UM TEXTO DE AMÍLCAR CABRAL)


Vamos tentar conversar um bocado com os camaradas sobre alguns princípios do nosso Partido e da nossa luta.
A nossa luta deve ser tomada no seu aspeto fundamentalmente político. Claro que, para definirmos, por exemplo, a estratégia e até as táticas que adaptamos na nossa luta armada de libertação, outros princípios foram enunciados, embora esses princípios de luta armada não sejam mais do que a passagem dos nossos princípios gerais para o campo da luta armada.
Um primeiro princípio do nosso Partido e da nossa luta, que todos nós conhecemos bem, é: «Unidade e Luta», que é mesmo a divisa, se quiserem, o lema do nosso Partido. Unidade e Luta.
Claro que para estudar bem o que é que quer dizer este princípio bastante simples, é preciso sabermos bem o que é unidade e o que é luta. E é preciso colocarmos, realizarmos o problema da unidade, e o problema da luta num dado lugar, quer dizer, do ponto de vista geográfico, e considerando a sociedade − vida social, económica, etc. − do ambiente em que queremos aplicar este princípio de unidade e luta.
O que é Unidade? Nós queremos transformar um conjunto diverso de pessoas, num conjunto bem definido, buscando um caminho. E não é, porque aqui não podemos esquecer que dentro desse conjunto há elementos diversos. Pelo contrário, o sentido de unidade que vemos no nosso princípio é o seguinte: quaisquer que sejam as diferenças que existem, é preciso ser um só, um conjunto, para realizar um dado objetivo. Quer dizer, no nosso princípio, unidade é no sentido dinâmico, quer dizer de movimento.
Consideremos, por exemplo, um time de futebol. Um time de futebol é formado por vários indivíduos, 11 pessoas. Cada pessoa com o seu trabalho concreto para fazer quando o time de futebol joga. Pessoas diferentes umas das outras: temperamentos diferentes, muitas vezes instrução diferente, alguns não sabem ler nem escrever, outros são doutores ou engenheiros, religião diferente, um pode ser muçulmano, outro católico, etc. Mesmo de política diferente, um pode ser de um Partido, outro de um outro. Um pode ser da situação, como por exemplo em Portugal, outro pode ser da oposição.
Quer dizer, pessoas diferentes umas das outras, considerando-se  cada uma diferente da outra, mas do mesmo time de futebol. E se esse time de futebol, no momento em que está a jogar, não conseguir realizar a unidade de todos os elementos, não conseguirá ser um time de futebol. Cada um pode conservar a sua personalidade, as suas ideias, a sua religião, os seus problemas pessoais, um pouco da sua maneira de jogar mesmo, mas eles têm que obedecer todos a uma coisa: têm que agir em conjunto, para meter golos contra qualquer adversário com quem estiver a jogar, quer dizer, à roda deste objetivo concreto, meter o máximo de golos contra o adversário. Têm que formar uma unidade. Se não o fizerem, não é o time de futebol, não é nada. Isto é para verem um exemplo claro de unidade.
Para ter unidade é preciso ter coisas diferentes. Se não forem diferentes, não é preciso fazer unidade. Não há problema de unidade. Ora para nós o que é unidade? Qual é o objetivo em torno do qual devíamos fazer unidade na nossa terra? Claro que não somos um time de futebol. Nós somos um povo, ou pessoas de um povo, que a certa altura da história desse povo tomaram um certo rumo no seu caminho, criaram certos problemas no seu espírito e na sua vida, orientaram a sua ação num certo rumo, puseram certas perguntas e buscaram respostas para essas perguntas. Pode ter começado por uma pessoa só, por duas, três, seis. A certa altura apareceu este problema no nosso meio − Unidade. E o Partido foi tão advertido, quer dizer, entendeu isso tão bem, que no seu próprio lema, como princípio principal, como base de tudo, ele pôs − Unidade e Luta.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

                                                             

                          OS COLONOS 


                 Edição on line, com cerca de 80 páginas novas.




Nas últimas décadas do século. XIX, algumas nações europeias deitaram olhares cobiçosos ao continente negro.
Os sinos em Lisboa tocaram a rebate e a emigração para África ganhou prioridade. A Colónia Sá da Bandeira foi projetada, com régua e esquadro, por volta de 1881, nas secretarias do Ministério da Marinha e Ultramar.
Portugal exportou a pobreza para África. Um punhado de colonos madeirenses foi transplantado da sua ilha para as terras altas do sul de Angola.
Narro a saga de uma dessas famílias. É uma história de amor e também de sonhos, trabalhos, sofrimentos, alegrias, desilusões, combates e morte. Homens e mulheres enraizaram-se na terra e chamaram-lhe sua. Mudaram a África e foram transformados por ela.

                                                           António Trabulo


                                               

                        AMíLCAR CABRAL 

                                     VIII

                      SPÍNOLA

                   (Excerto do livro Portugal e o futuro)



O que importa reter é que a guerra subversiva é uma guerra total, à qual a população não pode, ainda que o queira, ser indiferente. Contrariamente ao que sucedia com os conflitos clássicos, em que a população era um fator poderoso mas não decisivo, aqui ela é o fulcro e o objetivo de toda a ação, só triunfando o partido que a tiver do seu lado. 
Como pode terminar uma guerra deste tipo? Analisemos em tese as diferentes possibilidades.
Poderia admitir-se que o conflito terminasse pelo aniquilamento das forças de guerrilha. Em relação a esta hipótese há porém que concluir desde já pala sua inviabilidade, pelo menos num horizonte-tempo definido.
A guerrilha, pela sua técnica de ação dispersiva, não carece de grandes efetivos para levar a cabo a sua missão de desgaste; e sendo assim, o recrutamento das forças de subversão, voluntário ou coercivo, entre a população, por mais diminuto que seja será sempre suficiente.
A natural fluidez das fronteiras limítrofes das áreas de guerrilha torna inesgotável o recurso ao recrutamento externo, sem qualquer hipótese de denúncia.
Parece, portanto, de excluir a vitória por aniquilamento físico do inimigo dada a sua possibilidade de constante renovação.
Poderia ainda aceitar-se o termo da guerra pela cessação coerciva da atividade das forças da subversão, uma vez privadas as guerrilhas do seu reabastecimento em víveres, material e munições. Em relação a este ponto a experiência tem largamente demonstrado que as forças de subversão contam com apoio externo inesgotável e este facto, conjugado com a permeabilidade das fronteiras e o apoio ideológico dos países limítrofes torna utópico o sucesso de qualquer tentativa para isolar as guerrilhas.
Poderia tentar-se a vitória conquistando a adesão da população, levando-a à colaboração ativa contra o inimigo e fazendo-a participar na perseguição à guerrilha. Mas nesse caso, em boa técnica de subversão, a ação inimiga seria desviada para a violência sobre a população, em ordem a obter, com a sua adesão ou sem ela, a cumplicidade do silêncio. A população cede sempre à violência e identifica-se com o mais forte; e em tal hipótese, ou se sobrepunha à violência das forças de subversão outra superior, que no balanço fizesse pesar para o lado das forças da ordem a moral de circunstância – o que de forma alguma pode aceitar-se – ou ter-se-ia de assegurar à população proteção eficaz, o que implicaria um volume de forças incomportável para qualquer país. Assim, pela persuasão ou pela violência, a conquista das populações resulta anulada.
Poderia alcançar-se a vitória retirando às forças de subversão a vontade de combater pela adesão da sua massa à causa da ordem estabelecida, ou levando os interesses que as apoiam a retirar o seu auxílio. Em qualquer dos casos, porém, seria uma vitória política e não militar.
Podemos assim chegar à conclusão que, em qualquer guerra deste tipo, a vitória exclusivamente militar é inviável. Às Forças Armadas apenas compete, pois, criar e conservar pelo período necessário – naturalmente não muito longo – as condições de segurança que permitirão soluções político-sociais, únicas capazes de pôr termo ao conflito.