DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 19 de abril de 2013


                 AMÍLCAR CABRAL

                                X

      OPERAÇÃO MAR VERDE

      

        AS CIRCUNSTÂNCIAS




A Segunda Grande Guerra Mundial fragilizou de vez a velha Europa e as antigas potências coloniais deixaram de ter poderio económico e militar suficientes para conservarem os seus imensos impérios. A Europa já não era o centro do mundo. Teve de se adaptar aos novos equilíbrios de poder. Tanto os inimigos como os aliados oficiais da França, Inglaterra, Holanda, Congo Belga, Espanha e Portugal cobiçavam a liberdade de comércio nas possessões que estes países tinham conservado durante séculos.
A História de África não decorreu da maneira que é ensinada nos compêndios escolares das novas nações. Todos os países, e nós também, embelezam os seus passados de forma a incrementar a autoestima dos seus nacionais. Não fosse o apoio empenhado da União Soviética e dos Estados Unidos da América e a história das independências africanas teria levado algumas décadas mais a escrever. Alguns países de mentalidade pragmática, como o Reino Unido, mediram cedo os ventos da História e cederam prontamente perante forças que não podiam controlar. Outros, como a França e Portugal, envolveram-se em guerras inglórias.  
Por volta de 1970, quase todas as antigas colónias europeias na África e na Ásia tinham obtido o estatuto de nações independentes. O governo de Lisboa agarrava-se obstinadamente ao seu velho império. As grandes organizações internacionais condenavam a persistência da política colonialista portuguesa e até o Vaticano recebia oficialmente os líderes das nossas colónias. Se não estávamos orgulhosamente sós, como terá dito Salazar, pouca companhia tínhamos, para além da África do Sul.
Em geral, nem a vida nem a política são lineares. Numa e noutra, abundam os meandros. Curiosamente, a Operação Mar Verde foi secretamente apoiada por países da NATO, receosos de que a independência de Cabo Verde facilitasse a instalação de bases militares soviéticas naquele arquipélago, alterando o equilíbrio geoestratégico vigente.
Portugal nunca esteve em guerra com a República da Guiné. No entanto, beneficiando da conjuntura internacional, o presidente Sekou Touré acolhia fraternalmente no seu território os guerrilheiros que combatiam os portugueses. Ali tinham campos de treino e ali encontravam abrigo sempre que necessário. Era pelo território da Guiné-Conakry que entrava o armamento destinado ao PAIGC, ainda que as más-línguas dissessem que os guineenses, quando podiam, ficavam com parte das remessas. Conakry era a residência habitual de Amílcar Cabral. Funcionava na capital guineense uma escola-piloto para quadros do partido. O facto provavelmente mais grave era a existência, num país soberano oficialmente alheio ao conflito armado, de uma prisão onde eram aferrolhados os prisioneiros de guerra portugueses. Seriam razões de sobra para Portugal levar a cabo ações militares contra a República da Guiné e dos seus dirigentes, se fosse outro o panorama político internacional.
Em Janeiro de 1970, o comandante Alpoim Calvão ia nos 33 anos. Foi ele quem apresentou ao general António de Spínola, comandante militar e governador-geral da Guiné portuguesa, a proposta da operação que viria a ficar conhecida sob o nome de “Mar Verde”. Os seus objetivos podiam dividir-se em cinco alíneas:
1 – Promover um golpe de estado na República da Guiné-Conakry, de forma a substituir o regime de Sekou Touré por outro mais favorável aos interesses portugueses.
2 – Atingir as instalações do PAIGC em Conacry, provocando o maio número possível de baixas entre o inimigo.
3 – Eliminar as embarcações de guerra do PAIGC abrigadas no porto de Conakry.
4 – Capturar ou eliminar Amílcar Cabral.
5 – Libertar os militares portugueses detidos na prisão do partido.
Spínola deu o seu aval ao ataque a Conacry. Ao serem informados do projeto, tanto o ministro do Ultramar, Silva Cunha, como o ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo se opuseram a ele. Temiam as repercussões internacionais do ataque a Conakry. Foi o próprio Alpoim Calvão quem se deslocou a Lisboa para entregar pessoalmente ao primeiro-ministro português Marcello Caetano uma carta do general Spínola. Caetano autorizou o desencadear da operação.
Alpoim Calvão é uma figura incontornável da guerra da independência da Guiné. Apesar da sua juventude, foram-lhe confiadas a preparação e o comando da operação. Chegou a exercer diplomacia paralela. Deslocou-se várias vezes a Genebra e a Paris, acompanhado de um graduado da DGS (PIDE) para contactar individualidades do “Front” que se opunha a Sekou Touré. Tratava-se de estabelecer alianças para o futuro e de conseguir informações que facilitassem a expedição naval a Conakry.
Nenhum aspecto da preparação foi descurado. Três elementos do "Front" mudaram-se para Bissau onde elaboraram uma lista das individualidades que iriam integrar o governo de Conakry após o afastamento de Touré. Chegaram a ser escritas as primeiras declarações a serem emitidas pela rádio em casa de vitória do golpe.

quinta-feira, 18 de abril de 2013


                             AMÍLCAR CABRAL  



                    IX

                UNIDADE E LUTA

                                (EXCERTOS DE UM TEXTO DE AMÍLCAR CABRAL)


Vamos tentar conversar um bocado com os camaradas sobre alguns princípios do nosso Partido e da nossa luta.
A nossa luta deve ser tomada no seu aspeto fundamentalmente político. Claro que, para definirmos, por exemplo, a estratégia e até as táticas que adaptamos na nossa luta armada de libertação, outros princípios foram enunciados, embora esses princípios de luta armada não sejam mais do que a passagem dos nossos princípios gerais para o campo da luta armada.
Um primeiro princípio do nosso Partido e da nossa luta, que todos nós conhecemos bem, é: «Unidade e Luta», que é mesmo a divisa, se quiserem, o lema do nosso Partido. Unidade e Luta.
Claro que para estudar bem o que é que quer dizer este princípio bastante simples, é preciso sabermos bem o que é unidade e o que é luta. E é preciso colocarmos, realizarmos o problema da unidade, e o problema da luta num dado lugar, quer dizer, do ponto de vista geográfico, e considerando a sociedade − vida social, económica, etc. − do ambiente em que queremos aplicar este princípio de unidade e luta.
O que é Unidade? Nós queremos transformar um conjunto diverso de pessoas, num conjunto bem definido, buscando um caminho. E não é, porque aqui não podemos esquecer que dentro desse conjunto há elementos diversos. Pelo contrário, o sentido de unidade que vemos no nosso princípio é o seguinte: quaisquer que sejam as diferenças que existem, é preciso ser um só, um conjunto, para realizar um dado objetivo. Quer dizer, no nosso princípio, unidade é no sentido dinâmico, quer dizer de movimento.
Consideremos, por exemplo, um time de futebol. Um time de futebol é formado por vários indivíduos, 11 pessoas. Cada pessoa com o seu trabalho concreto para fazer quando o time de futebol joga. Pessoas diferentes umas das outras: temperamentos diferentes, muitas vezes instrução diferente, alguns não sabem ler nem escrever, outros são doutores ou engenheiros, religião diferente, um pode ser muçulmano, outro católico, etc. Mesmo de política diferente, um pode ser de um Partido, outro de um outro. Um pode ser da situação, como por exemplo em Portugal, outro pode ser da oposição.
Quer dizer, pessoas diferentes umas das outras, considerando-se  cada uma diferente da outra, mas do mesmo time de futebol. E se esse time de futebol, no momento em que está a jogar, não conseguir realizar a unidade de todos os elementos, não conseguirá ser um time de futebol. Cada um pode conservar a sua personalidade, as suas ideias, a sua religião, os seus problemas pessoais, um pouco da sua maneira de jogar mesmo, mas eles têm que obedecer todos a uma coisa: têm que agir em conjunto, para meter golos contra qualquer adversário com quem estiver a jogar, quer dizer, à roda deste objetivo concreto, meter o máximo de golos contra o adversário. Têm que formar uma unidade. Se não o fizerem, não é o time de futebol, não é nada. Isto é para verem um exemplo claro de unidade.
Para ter unidade é preciso ter coisas diferentes. Se não forem diferentes, não é preciso fazer unidade. Não há problema de unidade. Ora para nós o que é unidade? Qual é o objetivo em torno do qual devíamos fazer unidade na nossa terra? Claro que não somos um time de futebol. Nós somos um povo, ou pessoas de um povo, que a certa altura da história desse povo tomaram um certo rumo no seu caminho, criaram certos problemas no seu espírito e na sua vida, orientaram a sua ação num certo rumo, puseram certas perguntas e buscaram respostas para essas perguntas. Pode ter começado por uma pessoa só, por duas, três, seis. A certa altura apareceu este problema no nosso meio − Unidade. E o Partido foi tão advertido, quer dizer, entendeu isso tão bem, que no seu próprio lema, como princípio principal, como base de tudo, ele pôs − Unidade e Luta.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

                                                             

                          OS COLONOS 


                 Edição on line, com cerca de 80 páginas novas.




Nas últimas décadas do século. XIX, algumas nações europeias deitaram olhares cobiçosos ao continente negro.
Os sinos em Lisboa tocaram a rebate e a emigração para África ganhou prioridade. A Colónia Sá da Bandeira foi projetada, com régua e esquadro, por volta de 1881, nas secretarias do Ministério da Marinha e Ultramar.
Portugal exportou a pobreza para África. Um punhado de colonos madeirenses foi transplantado da sua ilha para as terras altas do sul de Angola.
Narro a saga de uma dessas famílias. É uma história de amor e também de sonhos, trabalhos, sofrimentos, alegrias, desilusões, combates e morte. Homens e mulheres enraizaram-se na terra e chamaram-lhe sua. Mudaram a África e foram transformados por ela.

                                                           António Trabulo


                                               

                        AMíLCAR CABRAL 

                                     VIII

                      SPÍNOLA

                   (Excerto do livro Portugal e o futuro)



O que importa reter é que a guerra subversiva é uma guerra total, à qual a população não pode, ainda que o queira, ser indiferente. Contrariamente ao que sucedia com os conflitos clássicos, em que a população era um fator poderoso mas não decisivo, aqui ela é o fulcro e o objetivo de toda a ação, só triunfando o partido que a tiver do seu lado. 
Como pode terminar uma guerra deste tipo? Analisemos em tese as diferentes possibilidades.
Poderia admitir-se que o conflito terminasse pelo aniquilamento das forças de guerrilha. Em relação a esta hipótese há porém que concluir desde já pala sua inviabilidade, pelo menos num horizonte-tempo definido.
A guerrilha, pela sua técnica de ação dispersiva, não carece de grandes efetivos para levar a cabo a sua missão de desgaste; e sendo assim, o recrutamento das forças de subversão, voluntário ou coercivo, entre a população, por mais diminuto que seja será sempre suficiente.
A natural fluidez das fronteiras limítrofes das áreas de guerrilha torna inesgotável o recurso ao recrutamento externo, sem qualquer hipótese de denúncia.
Parece, portanto, de excluir a vitória por aniquilamento físico do inimigo dada a sua possibilidade de constante renovação.
Poderia ainda aceitar-se o termo da guerra pela cessação coerciva da atividade das forças da subversão, uma vez privadas as guerrilhas do seu reabastecimento em víveres, material e munições. Em relação a este ponto a experiência tem largamente demonstrado que as forças de subversão contam com apoio externo inesgotável e este facto, conjugado com a permeabilidade das fronteiras e o apoio ideológico dos países limítrofes torna utópico o sucesso de qualquer tentativa para isolar as guerrilhas.
Poderia tentar-se a vitória conquistando a adesão da população, levando-a à colaboração ativa contra o inimigo e fazendo-a participar na perseguição à guerrilha. Mas nesse caso, em boa técnica de subversão, a ação inimiga seria desviada para a violência sobre a população, em ordem a obter, com a sua adesão ou sem ela, a cumplicidade do silêncio. A população cede sempre à violência e identifica-se com o mais forte; e em tal hipótese, ou se sobrepunha à violência das forças de subversão outra superior, que no balanço fizesse pesar para o lado das forças da ordem a moral de circunstância – o que de forma alguma pode aceitar-se – ou ter-se-ia de assegurar à população proteção eficaz, o que implicaria um volume de forças incomportável para qualquer país. Assim, pela persuasão ou pela violência, a conquista das populações resulta anulada.
Poderia alcançar-se a vitória retirando às forças de subversão a vontade de combater pela adesão da sua massa à causa da ordem estabelecida, ou levando os interesses que as apoiam a retirar o seu auxílio. Em qualquer dos casos, porém, seria uma vitória política e não militar.
Podemos assim chegar à conclusão que, em qualquer guerra deste tipo, a vitória exclusivamente militar é inviável. Às Forças Armadas apenas compete, pois, criar e conservar pelo período necessário – naturalmente não muito longo – as condições de segurança que permitirão soluções político-sociais, únicas capazes de pôr termo ao conflito.

terça-feira, 16 de abril de 2013



                 AMÍLCAR CABRAL  

                              VII



        O P.A.I.G.C. E A UNIDADE


       (Excerto de um texto de Amílcar Cabral)

  No nosso Partido ninguém dividiu, pelo contrário, cada dia nos unimos mais. Aqui não há papel, nem fula, nem mandinga, nem filhos de cabo-verdianos, nada disso. O que há é P.A.I.G.C. e vamos para diante.
  Os tugas estão desesperados. Então são eles mesmo, por exemplo, que hoje nas suas revistas, como esta, que se chama «Ultramar», têm grandes artigos, estudando a questão da Guiné e Cabo Verde, e escrevem: «A Guiné e as Ilhas de Cabo Verde —a sua unidade histórica e populacional». E sabem quem fez este artigo? António Carreira. Porque ele conhece de facto muitos problemas de história. E neste artigo ele reuniu todos os documentos que há nos arquivos dos tugas e estudou para onde é que os filhos da Guiné foram, quando foram enviados para Cabo Verde. Para S. Tiago ? Balantas, mandingas, beafadas - Para S. Vicente? Foram fulas. Com relatórios, sobre a chegada destes, etc. Eles sabiam que nós somos a mesma gente, na Guiné e Cabo Verde. Quer dizer, tanto do conhecimento da História, da realidade da nossa vida do passado, como do conhecimento dos interesses do nosso povo e da África, tanto na questão de estratégia de luta (porque qualquer pessoa que pensa na luta a sério, sabe que não há independência da Guiné sem a independência de Cabo Verde nem há independência da República da Guiné, nem do Senegal nem da Mauritânia, se eles querem ser países a sério, sem Cabo Verde ser independente, ouvem bem? Não há. Só quem não entende nada de estratégia é que pode pensar que esta África pode ser independente, com Cabo Verde ocupado pelos colonialistas. É impossível. Assim como, vice-versa, não pode haver independência de Cabo Verde a sério, sem a independência da Guiné, e sem a África ser independente a sério) qualquer um que põe o interesse do seu povo acima dos seus próprios interesses − a análise séria dos problemas acima de quaisquer manias ou ambições − só pode chegar a uma conclusão que é a seguinte: a coisa melhor que o P.A.I.G.C. fez, que o grupo daqueles que criaram o P.A.I.G.C. fez, foi estabelecer como base fundamental − Unidade e Luta − Unidade da Guiné, Unidade em Cabo Verde e Unidade da Guiné e Cabo Verde. Quem ainda não vir isso, verá mais tarde. Mas muitos africanos já começaram a vê-lo. Muitas forças amigas nossas começaram a ver, mas também os nossos inimigos já começaram a vê-lo. A preocupação dos imperialistas hoje, é a seguinte: «Cabral aceita ou não, a independência da Guiné, sem Cabo Verde?».
 Essa é que é a grande preocupação. «O P.A.I.G.C. aceita ou não a independência da Guiné sem Cabo Verde?». Isto é que o imperialista quer saber e perguntaram-no mesmo. Eu disse-lhe: «Ponha os tugas a perguntar, você não é tuga». Porque eles sabem muito bem qual é a importância que têm o nosso conjunto. Um dia um dirigente africano disse-nos: vocês são inteligentes (djiro). Perguntamos-lhe porquê e ele disse: Eu conheço a vossa gente na Guiné e a vossa gente em Cabo Verde. Se vocês conseguirem de facto o que estão a fazer, apesar de uma terra pequenina, vocês hão de ser um país forte dentro da África. Vamos a ver, dissemos. Camaradas, vamos pois para a frente, reforçados pela certeza da nossa razão: a criação do P.A.I.G.C., nas bases que acabo de expor, foi a maior realização do nosso povo, para a conquista da liberdade e a construção do seu progresso e felicidade na Guiné e Cabo Verde.

segunda-feira, 15 de abril de 2013


                              AMÍLCAR CABRAL


                                VI


                          A UTOPIA





       Falar de Amílcar Cabral é falar de Cabo Verde e da Guiné, dos sonhos de toda uma época e da sensação de ver deslizar a História enquanto se procura influenciá-la. Será também falar do heroísmo e da morte, da persistência na luta, das frustrações e da vitória, de generosidade e de traição. Há ainda quem julgue que é falar também de sonhos mal sonhados.
Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, na Guiné então portuguesa, em 1924. Amílcar era filho de cabo-verdianos emigrados. As origens marcaram-lhe o destino. Nasceu na Guiné, mas nunca foi guineense. O PAIGCV que fundou, juntamente com o seu irmão Luís Cabral e com Fernando Fortes, Júlio de Almeida e Elisèe Turpin, procurava congregar duas realidades diferentes. Para além do anseio de liberdade, pouco ligava os ilhéus de Cabo Verde, culturalmente ligados ao esforço de Portugal para produzir quadros destinados a administrar o Império, aos camponeses culturalmente menos avançados da continental Guiné.
Nos finais dos anos cinquenta do século passado, o ideal do pan-africanismo ganhou força e sobrepôs-se aos nacionalismos incipientes. Nasceram múltiplos projetos de uniões regionais e sub-regionais de várias antigas colónias europeias. Assentavam em razões históricas e na aleatoriedade das fronteiras estabelecidas pelas potências coloniais. Em julho de 1958, num congresso realizado em Cotonou (Benim) foi mesmo proposta a criação dos Estados Unidos de África.
Os exemplos de tentativas federalistas são numerosos e poucas nações africanas lhes terão ficado indiferentes. Ainda em 1958, a Guiné-Conakry e o Gana elaboraram um plano de união. No ano seguinte, o Daomé (atual Benim), o Sudão (atual Mali), o Alto Volta (atual Burkina Faso) e o Senegal integraram-se na chamada Federação do Mail, com Modibo Keita como presidente e Dakar como capital federal. A febre das uniões não terminou aí. Em 1959, foi projetada uma União do Benim, que integraria o Togo, o Níger e o Daomé, e sonhada a criação dos Estados Unidos da África Latina, que deveria agrupar o Congo-Leopoldeville, o Congo-Brazaville, o Chade, a República Centro-Africana, os Camarões, o Gabão e Angola.  No mesmo ano nasceu o projeto duns Estados Unidos da África Central, que juntaria a Libéria, o Gana, a Guiné-Conakry, a Serra Leoa, o Senegal e a Gâmbia.
O único destes devaneios que ganhou raízes e perdurou até aos nossos dias foi a Tanzânia, que resultou da união levada a cabo em 1964 entre o Tanganica e Zanzibar.
Ao procurar unificar Cabo Verde e a Guiné, Amílcar Cabral não estava a inventar nada. Seguia a moda corrente entre os dirigentes independentistas africanos. O seu projeto nasceu provavelmente em 1959, depois da conferência que teve lugar em Accra em dezembro do ano anterior. Em setembro de 59, nasceu o Partido Africano da Independência e União dos Povos da Guiné e Cabo Verde, com a divisa UNIDADE E LUTA. Em junho de 1960, Amílcar Cabral assumiu a coordenação dos diversos movimentos que pretendiam a libertação da Guiné e de Cabo Verde e se encontravam sediados em países vizinhos. A luta contra o colonialismo português tornou-se então eficaz. Começaram os contactos com elementos que habitavam o interior da Guiné e tiveram início as ações de propaganda.
Para tal, foi necessário convencer boa parte dos ilhéus de Cabo Verde de que eram genuinamente africanos. Alguns já pensavam assim. Outros ainda não estarão certos disso, mesmo nos dias de hoje. Foi preciso também persuadir os guineenses de que os cabo-verdianos eram aliados e não adversários. 
Os argumentos de Cabral eram fortes. A língua (o creoulo) era semelhante. Os habitantes das duas colónias portuguesas partilhavam a mesma raiz ancestral (leia-se rácica) e eram dominados pela mesma potência colonial. Os escravos transportados para as ilhas desertas encontradas pelos portugueses a oeste da costa africana seriam maioritariamente originários da Guiné, o que não é fácil de demonstrar, uma vez que os portugueses comerciavam escravos ao longo do vasto litoral africano ocidental e o existiam fronteiras claras com o Senegal e a Guiné-Conakry.
Nem todos concordavam com Amílcar Cabral. Havia quem pensasse que a Guiné-Bissau estava mais próxima da Guiné-Conakry e do Senegal, com quem partilhava mais laços históricos, que do arquipélago cabo-verdiano. Antes de 1879, a Guiné dependia administrativamente de Cabo Verde, sede do Governo-geral. Foi necessário combater os preconceitos que atribuíam aos cabo-verdianos uma atitude geralmente paternalista para com os guineenses e o ódio com que estes retribuíam a colaboração dos ilhéus com as autoridades administrativas portuguesas.
Por outro lado, o crioulo da Guiné era diferente do de Cabo Verde. Na Guiné funcionava como língua franca e em Cabo Verde era uma língua nacional.
As preocupações com a Unidade começaram cedo e foram objeto de debates sucessivos. Já em 1961, os dirigentes do PAIGCV escreviam (documento traduzido do francês):
É loucura pensar que os cabo-verdianos poderiam mandar na Guiné após a independência. Há cerca de 2.000 cabo-verdianos na Guiné, sendo de cerca de 600.000 o número dos guineenses. Será o povo da Guiné que decidirá após a independência quem vai dirigir o país. É evidente que a Guiné será governada pelos seus filhos.
     






                 
                              

sábado, 13 de abril de 2013


          AMÍLCAR CABRAL


                      V

POR TRÁS DOS ASSASSINOS

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. 
Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Mamamou Djai era mesmo o responsável pela sua segurança.
Os assassinos (Inocêncio Cani, Mamou Touré, Bacar Cani, Aristides Barbosa, Mamadou N`Djai e outros) eram membros guineenses do PAIGC. Pretenderiam afastar da direção do partido os cabo-verdianos e “brumedjos” (mulatos guineenses).
        Alguns revoltosos confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.  
        Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Todos os cabecilhas do assassínio de Amílcar Cabral estiveram presos juntos na cadeia do PAIGC, “A Montanha”, entre abril e setembro de 1971.             
 Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e de penas de prisão. Alegadamente, Amílcar Cabral protegeria os cabo-verdianos, por quem distribuiria cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Segundo Fernando Baginha, “havia desentendimentos por vezes violentos entre Cabral e Osvaldo Vieira, devido a problemas de condução militar das operações. Os «homens do mato» eram os executores da guerra e Cabral permitia-se, por vezes depois de longas ausências no estrangeiro, alterar completamente planos já estabelecidos. Para mais, Cabral já não entrava nas zonas libertadas da Guiné-Bissau havia cerca de três anos.”
         A 20 de Janeiro de 1973, Osvaldo Vieira estava em Conakry. Terá assistido a tudo, sem nada fazer para evitar a tragédia. Foi levado, sob prisão, para Madina do Boé. Algum tempo mais tarde, foi veiculada a informação de que teria sucumbido a um problema gástrico. Terá sido executado. Não integrou a lista dos culpados oficiais pela morte do líder histórico do PAIGC, de que constavam apenas cinco nomes.
        Sekou Touré não autorizou fuzilamentos dentro do território da República da Guiné. Os implicados no golpe foram levados para o interior da Guiné-Bissau. Após o inquérito do PAIGC, foram executados cerca de 100 presumíveis implicados no golpe. Osvaldo Vieira foi um deles. 
Conhecem-se as mãos criminosas. Quem as terá ajudado, se é que foi precisa ajuda?
        Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas.
 No Portugal daquele tempo, atribuía-se à PIDE tudo o que de mau acontecia no país. A verdade é que a PIDE/ DGS detinha menos poder do que se supunha. A probabilidade de elementos da PIDE terem estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenham participado na conjura. 
        Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
        O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
        No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie.Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
        Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais, com a participação de Samora Machel. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.

     O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Stinger que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes. 

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes.