DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 15 de abril de 2013


                              AMÍLCAR CABRAL


                                VI


                          A UTOPIA





       Falar de Amílcar Cabral é falar de Cabo Verde e da Guiné, dos sonhos de toda uma época e da sensação de ver deslizar a História enquanto se procura influenciá-la. Será também falar do heroísmo e da morte, da persistência na luta, das frustrações e da vitória, de generosidade e de traição. Há ainda quem julgue que é falar também de sonhos mal sonhados.
Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, na Guiné então portuguesa, em 1924. Amílcar era filho de cabo-verdianos emigrados. As origens marcaram-lhe o destino. Nasceu na Guiné, mas nunca foi guineense. O PAIGCV que fundou, juntamente com o seu irmão Luís Cabral e com Fernando Fortes, Júlio de Almeida e Elisèe Turpin, procurava congregar duas realidades diferentes. Para além do anseio de liberdade, pouco ligava os ilhéus de Cabo Verde, culturalmente ligados ao esforço de Portugal para produzir quadros destinados a administrar o Império, aos camponeses culturalmente menos avançados da continental Guiné.
Nos finais dos anos cinquenta do século passado, o ideal do pan-africanismo ganhou força e sobrepôs-se aos nacionalismos incipientes. Nasceram múltiplos projetos de uniões regionais e sub-regionais de várias antigas colónias europeias. Assentavam em razões históricas e na aleatoriedade das fronteiras estabelecidas pelas potências coloniais. Em julho de 1958, num congresso realizado em Cotonou (Benim) foi mesmo proposta a criação dos Estados Unidos de África.
Os exemplos de tentativas federalistas são numerosos e poucas nações africanas lhes terão ficado indiferentes. Ainda em 1958, a Guiné-Conakry e o Gana elaboraram um plano de união. No ano seguinte, o Daomé (atual Benim), o Sudão (atual Mali), o Alto Volta (atual Burkina Faso) e o Senegal integraram-se na chamada Federação do Mail, com Modibo Keita como presidente e Dakar como capital federal. A febre das uniões não terminou aí. Em 1959, foi projetada uma União do Benim, que integraria o Togo, o Níger e o Daomé, e sonhada a criação dos Estados Unidos da África Latina, que deveria agrupar o Congo-Leopoldeville, o Congo-Brazaville, o Chade, a República Centro-Africana, os Camarões, o Gabão e Angola.  No mesmo ano nasceu o projeto duns Estados Unidos da África Central, que juntaria a Libéria, o Gana, a Guiné-Conakry, a Serra Leoa, o Senegal e a Gâmbia.
O único destes devaneios que ganhou raízes e perdurou até aos nossos dias foi a Tanzânia, que resultou da união levada a cabo em 1964 entre o Tanganica e Zanzibar.
Ao procurar unificar Cabo Verde e a Guiné, Amílcar Cabral não estava a inventar nada. Seguia a moda corrente entre os dirigentes independentistas africanos. O seu projeto nasceu provavelmente em 1959, depois da conferência que teve lugar em Accra em dezembro do ano anterior. Em setembro de 59, nasceu o Partido Africano da Independência e União dos Povos da Guiné e Cabo Verde, com a divisa UNIDADE E LUTA. Em junho de 1960, Amílcar Cabral assumiu a coordenação dos diversos movimentos que pretendiam a libertação da Guiné e de Cabo Verde e se encontravam sediados em países vizinhos. A luta contra o colonialismo português tornou-se então eficaz. Começaram os contactos com elementos que habitavam o interior da Guiné e tiveram início as ações de propaganda.
Para tal, foi necessário convencer boa parte dos ilhéus de Cabo Verde de que eram genuinamente africanos. Alguns já pensavam assim. Outros ainda não estarão certos disso, mesmo nos dias de hoje. Foi preciso também persuadir os guineenses de que os cabo-verdianos eram aliados e não adversários. 
Os argumentos de Cabral eram fortes. A língua (o creoulo) era semelhante. Os habitantes das duas colónias portuguesas partilhavam a mesma raiz ancestral (leia-se rácica) e eram dominados pela mesma potência colonial. Os escravos transportados para as ilhas desertas encontradas pelos portugueses a oeste da costa africana seriam maioritariamente originários da Guiné, o que não é fácil de demonstrar, uma vez que os portugueses comerciavam escravos ao longo do vasto litoral africano ocidental e o existiam fronteiras claras com o Senegal e a Guiné-Conakry.
Nem todos concordavam com Amílcar Cabral. Havia quem pensasse que a Guiné-Bissau estava mais próxima da Guiné-Conakry e do Senegal, com quem partilhava mais laços históricos, que do arquipélago cabo-verdiano. Antes de 1879, a Guiné dependia administrativamente de Cabo Verde, sede do Governo-geral. Foi necessário combater os preconceitos que atribuíam aos cabo-verdianos uma atitude geralmente paternalista para com os guineenses e o ódio com que estes retribuíam a colaboração dos ilhéus com as autoridades administrativas portuguesas.
Por outro lado, o crioulo da Guiné era diferente do de Cabo Verde. Na Guiné funcionava como língua franca e em Cabo Verde era uma língua nacional.
As preocupações com a Unidade começaram cedo e foram objeto de debates sucessivos. Já em 1961, os dirigentes do PAIGCV escreviam (documento traduzido do francês):
É loucura pensar que os cabo-verdianos poderiam mandar na Guiné após a independência. Há cerca de 2.000 cabo-verdianos na Guiné, sendo de cerca de 600.000 o número dos guineenses. Será o povo da Guiné que decidirá após a independência quem vai dirigir o país. É evidente que a Guiné será governada pelos seus filhos.
     






                 
                              

sábado, 13 de abril de 2013


          AMÍLCAR CABRAL


                      V

POR TRÁS DOS ASSASSINOS

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. 
Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Mamamou Djai era mesmo o responsável pela sua segurança.
Os assassinos (Inocêncio Cani, Mamou Touré, Bacar Cani, Aristides Barbosa, Mamadou N`Djai e outros) eram membros guineenses do PAIGC. Pretenderiam afastar da direção do partido os cabo-verdianos e “brumedjos” (mulatos guineenses).
        Alguns revoltosos confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.  
        Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Todos os cabecilhas do assassínio de Amílcar Cabral estiveram presos juntos na cadeia do PAIGC, “A Montanha”, entre abril e setembro de 1971.             
 Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e de penas de prisão. Alegadamente, Amílcar Cabral protegeria os cabo-verdianos, por quem distribuiria cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Segundo Fernando Baginha, “havia desentendimentos por vezes violentos entre Cabral e Osvaldo Vieira, devido a problemas de condução militar das operações. Os «homens do mato» eram os executores da guerra e Cabral permitia-se, por vezes depois de longas ausências no estrangeiro, alterar completamente planos já estabelecidos. Para mais, Cabral já não entrava nas zonas libertadas da Guiné-Bissau havia cerca de três anos.”
         A 20 de Janeiro de 1973, Osvaldo Vieira estava em Conakry. Terá assistido a tudo, sem nada fazer para evitar a tragédia. Foi levado, sob prisão, para Madina do Boé. Algum tempo mais tarde, foi veiculada a informação de que teria sucumbido a um problema gástrico. Terá sido executado. Não integrou a lista dos culpados oficiais pela morte do líder histórico do PAIGC, de que constavam apenas cinco nomes.
        Sekou Touré não autorizou fuzilamentos dentro do território da República da Guiné. Os implicados no golpe foram levados para o interior da Guiné-Bissau. Após o inquérito do PAIGC, foram executados cerca de 100 presumíveis implicados no golpe. Osvaldo Vieira foi um deles. 
Conhecem-se as mãos criminosas. Quem as terá ajudado, se é que foi precisa ajuda?
        Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas.
 No Portugal daquele tempo, atribuía-se à PIDE tudo o que de mau acontecia no país. A verdade é que a PIDE/ DGS detinha menos poder do que se supunha. A probabilidade de elementos da PIDE terem estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenham participado na conjura. 
        Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
        O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
        No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie.Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
        Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais, com a participação de Samora Machel. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.

     O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Stinger que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes. 

Amílcar Cabral escreveu, alguns anos antes da sua morte: se um dia for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente, por um homem do meu povo, do partido e talvez mesmo da primeira hora. Acertou. Todos os que participaram diretamente no assassinato de Amílcar Cabral eram membros do PAIGC. Alguns confessaram espontaneamente o crime e outros fizeram-no sob tortura. Entregues à justiça do Partido, foram rapidamente fuzilados.
Há quem pense que houve demasiada pressa na aplicação da justiça. A maioria dos revoltosos pertencia à Marinha do partido. Muitos haviam frequentado ações de formação na União Soviética e alguns tinham grandes ambições de progredir na hierarquia do PAIGC. Os conjurados estavam descontentes com a direção do partido, ou por divergências relativas à projetada união entre a Guiné e Cabo Verde, ou pela aplicação de castigos disciplinares e até de penas de prisão. Segundo alguns, Amílcar Cabral protegia os cabo-verdianos, por quem distribuía cargos políticos enquanto enviava os filhos da Guiné para a frente de combate.
Criaram-se três comissões de inquérito para identificar os eventuais autores morais do crime. Uma ficou a cargo do PAIGC, outra do governo da Guiné-Conakri e a última de organizações internacionais. Nenhuma delas divulgou relatórios. A questão continua por esclarecer.
Quem investiga uma morte, começa habitualmente por identificar as pessoas ou organizações a quem ela convém. O desaparecimento de Amílcar Cabral interessava a muita gente. Em primeiro lugar, ao governo português, que pretendia evitar a todo o custo a proclamação unilateral de independência da Guiné. Bem tentou. Foi esse um dos objetivos da “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970 e da “Operação Amílcar Cabral”, no ano seguinte. Não terão existido condições para novas tentativas. A probabilidade de a PIDE ter estabelecido contactos com elementos do PAIGC que queriam ver os cabo-verdianos fora da Guiné é elevada, mas não existem provas de que tenha participado na conjura. 
Os opositores de Sekou Touré procuraram associá-lo ao atentado. Esta tese agradava sobretudo aos portugueses, a quem convinha afastar a PIDE e Spínola do rol dos suspeitos. Os argumentos eram de dois tipos. Em primeiro lugar, Touré já não tinha o prestígio dos primeiros anos da sua governação e o crescente protagonismo internacional de Amílcar Cabral incomodá-lo-ia. Em segundo lugar, o Presidente sonharia com uma Grande Guiné, que resultaria da anexação da Guiné então portuguesa.  Os obstáculos maiores a essa ambição seriam, no imediato, as forças armadas portuguesas e, mais tarde, a união da Guiné-Bissau com Cabo Verde sob a liderança de Amílcar Cabral.  
O facto de ter recebido os cabecilhas da conspiração antes do corpo de Amílcar Cabral arrefecer fez aumentar as suspeitas. Há quem afirme que dois oficiais do exército guineense terão garantido aos conjurados o apoio ou, pelo menos, a neutralidade do Presidente. Os discursos ambíguos de Touré logo a seguir à morte de Amílcar Cabral e por altura do seu funeral não contribuíram para clarificar a situação. 
No dia seguinte ao assassinato, Sekou Touré fez uma declaração através da rádio oficial da Guiné e atribuiu o atentado a militares africanos do exército português infiltrados nas fileiras do PAIGC.  Alguns dias mais tarde, Luís Cabral voltou a acusar infiltrados e apontou também o dedo a desertores. As palavras de ambos foram ecoadas pela imprensa anticolonialista. O único jornalista estrangeiro a ter acesso aos inquéritos foi o moçambicano Aquino de Bragança, da revista Afrique/Asie. Acusou a PIDE de estar por trás das mãos criminosas mas não apresentou factos nem argumentos credíveis para sustentar a sua hipótese.
O partido parece ter estado pouco interessado em fazer perguntas. Dava jeito ao PAIGC passar a ideia de que o seu líder histórico tinha sido eliminado a mando do inimigo externo. Fuzilou os conspiradores, uniu fileiras atrás da memória do chefe e festejou o fim da supremacia aérea portuguesa, obtida pelos mísseis soviéticos Strella que deitaram abaixo vários aviões e helicópteros portuguesas e desmoralizaram os combatentes coloniais. A negociação com os soviéticos para a cedência dos mísseis terra-ar fora uma das últimas missões bem-sucedidas de Amílcar Cabral.
Estranhamente, no meu modo de ver, os desentendimentos entre cabo-verdianos e guineenses levaram algum tempo a explodir. Foi apenas em 1980 que Nino Vieira levou a cabo um golpe de estado que afastou da presidência da Guiné-Bissau Luís Cabral, irmão de Amílcar, substituindo o sonho de uma união utópica de duas antigas colónias de características diferentes e até antagónicas pela realidade de dois estados independentes. 

                                             
                   AMÍLCAR CABRAL


                                IV
            
              O ASSASSINATO

Sobre a morte do líder histórico do PAIGC sabe-se quase tudo e quase nada.
O crime aconteceu em Conakry. As circunstâncias foram relatadas pelo jornalista moçambicano Aquino de Bragança e coincidem com a versão oficial dos factos.
Passava das vinte e duas horas da noite de 20 de janeiro de 1973. Amílcar Cabral, acompanhado da esposa Ana Maria, tinha saído de uma receção na Embaixada da Polónia. Segundo uma versão, o casal teria seguido no carro do embaixador russo. De acordo com outros, Cabral teria preferido conduzir o seu Volkswagen. Quando o casal abandonou o automóvel, já perto de casa, um grupo de militantes do seu partido barrou-lhe o caminho. Cabral foi atingido a tiro a curta distância. Apesar da falta de iluminação, Ana Maria Cabral foi capaz de identificar alguns dos assassinos. Conhecia-os bem.
À hora do atentado, a maioria dos dirigentes do PAIGV estava a assistir a uma palestra de Joaquim Chissano nas instalações da escola-piloto do Partido.

                    Fotografado com o assassino
Amílcar Cabral na União Soviética.
O marinheiro da direita é Inocêncio Cani.

 Os assassinos (Inocêncio Cani, Momo Touré, Bacar Cani, Aristides Barbosa e outros) eram membros guineenses do PAIGC. Pretenderiam afastar da direção do partido os cabo-verdianos e “brumedjos” (mulatos guineenses).
Quase simultaneamente, outro grupo de conspiradores sequestrou Aristides Pereira, secretário-geral adjunto do PAIGC e conduziu-o ao porto de Conakry onde o fez embarcar numa vedeta que zarpou, juntamente com outras duas, alegadamente em direção a Bissau. Segundo algumas fontes, a intenção dos conjurados não era eliminar fisicamente os dirigentes cabo-verdianos do Partido, mas sim entregá-los às autoridades portuguesas. Há também quem sugira que estava planeado conduzi-los até o interior da Guiné-Bissau, a uma zona controlada pelos guerrilheiros, para aí serem “julgados”. Amílcar Cabral estaria armado, o que não é de surpreender. Terá oferecido resistência aos atacantes.
Logo após a morte de Cabral e o sequestro de Aristides Pereira, os revoltosos prenderam vários quadros do PAIGC que saíam da reunião que atrás referimos com a comitiva moçambicana.
Tratou-se de uma conspiração anunciada. Os segredos em Conakry eram difíceis de guardar e havia muita gente que sabia que estava a ser preparado um atentado. Amílcar Cabral recebeu vários avisos. Foi informado por elementos duma delegação da FRELIMO, que se encontrava de visita à capital guineense. A informação terá sido confirmada por dois diplomatas da Embaixada da Checoslováquia em Conakry e por enviados do próprio Sekou Touré. Cabral subvalorizou o perigo que corria.
Ainda nessa noite, uma comitiva de conjurados, encabeçada por Mamou Touré, foi acolhida no palácio presidencial. Contaria aparentemente com o pragmatismo de Sekou Touré, que poderia estar disposto a aceitar as mudanças no PAIGC. À reunião, além de todos os membros do governo guineense, compareceram os embaixadores de Cuba e da Argélia e ainda Samora Machel, presidente da FRELIMO. Os conspiradores terão admitido a autoria da morte de Cabral.
No final dessa reunião, Sekou Touré terá ordenado o resgate de Aristides Pereira. Na versão oficial dos acontecimentos, a operação foi levada a cabo por militares guineenses. Na realidade, foi efetuada pelo contratorpedeiro russo “Experiente” que patrulhava as costas da Guiné-Conakry a pedido das autoridades guineenses que procurariam evitar ataques navais portugueses do tipo da operação Mar Verde, lançada pelos fuzileiros especiais em Outubro de 1970.   
Sékou Touré ouviu os revoltosos. No final da reunião, mandou-os prender.
Jean-Paul Alatas, um francês preso desde 1970 por cumplicidade na operação Mar Verde testemunhou a entrada dos revoltosos na prisão e descreveu-a, anos mais tarde. Eram três dezenas de pessoas, descalças e vestidas com camuflados, com a cabeça erguida, parecendo muito orgulhosos do que tinham feito. Esperavam que o presidente da Guiné- Conakry acabasse por apoiar o golpe.

sexta-feira, 12 de abril de 2013






                                AMÍLCAR CABRAL

                                  III
                 CABO VERDE

Em Cabo Verde, nos últimos meses, não há notícias escaldantes a explorar. Escolhemos duas que nos parecem ter algum significado, tanto atual como prognóstico.

A SEMANA, primeiro diário cabo verdiano em linha, em 9/4/2013.
FITCH BAIXA RATING DE CABO VERDE DE ESTÁVEL PARA NEGATIVO
A agência Fitch baixou rating de Cabo Verde de estável para negativo, o que torna o país menos atrativo para os investidores. Esta perspetiva negativa constitui também mais um obstáculo no acesso ao crédito internacional, numa altura em que se aproxima o término da transição para País de Rendimento Médio, alcançado em 2008.
O crescimento do PIB cabo-verdiano foi mais fraco do que as previsões. A estimativa é agora de 2,6%, em lugar de 5,1%. O défice orçamental subiu de 9,5 em 2012 para 12,3 em 2013. A expansão da base tributária em 2013, com a introdução de vários impostos, foi neutralizada pelos aumentos dos custos de salários públicos, bens e serviços.

A SEMANA (também a 9/4/2013)
FERNANDA MARQUES ABRE CONFERÊNCIA SOBRE MEIO AMBIENTE
Fernanda Marques, Ministra da Educação e Desportos, abre esta quinta-feira, 04, a 2ª edição da Conferência Nacional Infanto-Juvenil  pelo Meio Ambiente, no Salão Josina Machel do Liceu Domingos Ramos, cidade da Praia.
O Ministério da Educação e Desporto pretende desenvolver nos sistemas de ensino a preocupação com o ambiente, em especial com as mudanças climáticas e a proteção do ambiente costeiro e marítimo.

As preocupações parecem radicalmente diferentes em cada um dos países apreciados. Aceitamos que a escolha das notícias possa ser criticada. No entanto, não procurámos influenciar os leitores, mas apenas fornecer-lhe termos de comparação. Apesar da pobreza do território e do flagelo das secas, a República de Cabo Verde é uma das democracias mais amadurecidas de África. As estatísticas permitirão uma comparação mais aproximada das duas realidades.
Superfície – 4.000 quilómetros quadrados
População – 500.000 habitantes
Economia – A agricultura é frágil. Cerca de 90% dos produtos alimentares consumidos são importados. As exportações de pescado são reduzidas. Os serviços (comércio, transportes e serviços públicos) formam cerca de 70% do PIB. As remessas de emigrantes constituem perto de 20% do PIB. O turismo contribui de forma crescente para a formação de riqueza no arquipélago. O número de visitantes anuais já ultrapassou o da população local. Entre 2000 e 2009, o PIB cresceu anualmente cerca de 7%.
Rendimento per capita – 3.947 dólares (International Monetary Fund, 2011)
Saúde – A população cabo-verdiana é das mais saudáveis de África. A prevalência da SIDA e da malária são relativamente baixas.
Expectativa de vida ao nascer - 77.7  anos para o sexo feminino e 70,5 para o masculino.
Mortalidade materna (número de mortes de mãe por cada 100.000 nados vivos) – 79 (Fonte: CIA, World Factbook na Wikipedia).
Mortalidade infantil até 1 ano, por 100.000 nados-vivos - 26,02 (Estimativas da CIA World Factbook, na Wikipedia).

Seriam a Guiné – Bissau e Cabo Verde muito diferentes do que são hoje se Amílcar Cabral não tivesse existido? A dúvida permanece. Muitos historiadores retiram importância às individualidades no desenrolar do processo histórico. Escreveu Julião Soares, guineense e biógrafo de Amílcar: tornou-se moda, no decurso das últimas décadas, menorizar o papel das lideranças na formação da História, processo que envolve necessariamente o contributo de grandes massas populares. Sendo fútil reduzir o processo histórico à enumeração dos chefes e dos seus feitos, será limitativo ignorar o papel de alguns líderes que souberam interpretar claramente as aspirações dos seus povos em determinados períodos e acelerar ou lentificar as mudanças em curso.

quinta-feira, 11 de abril de 2013


                           AMÍLCAR CABRAL

                                                II

           GUINÉ-BISSAU

     As realidades económicas, sociais e culturais das duas antigas colónias portugueses na África Central eram substancialmente diferentes no tempo de Amílcar Cabral e continuam a sê-lo hoje em dia. Vamos abordá-las separadamente. Começaremos por esboçar retratos actuais da situação na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.
Como ponto de partida, escolhemos, para cada país, a revisão de artigos recentes da imprensa lusófona.



PÚBLICO, Lisboa, 7 de Abril de 2013.
Militar guineense foi preso em alto mar por dois agentes americanos que se fizeram passar por traficantes de droga.
A brigada de combate ao tráfico de droga dos Estados Unidos da América desenvolveu, a partir de Agosto do ano passado, uma operação que conduziu à captura, em alto mar, de um dos mais importantes oficiais generais guineenses. O almirante José Américo Bubo Na Tchuto foi preso e compareceu já perante um juiz, em Nova Iorque.
Os agentes da Drug Enforcement Agency (DEA) que efetuaram a prisão fizeram-se passar por negociantes de droga. O almirante Na Tchuto, um antigo combatente da guerra de libertação, supunha estar a contactar com um fornecedor de droga e com um intermediário. Estava referenciado desde 2006 como um elemento importante de ligação dos narcotraficantes latino-americanos às Forças Armadas Guineenses. Receberia um milhão de dólares por cada operação. A droga (cocaína) destinava-se aos Estados Unidos e à Europa.
O mesmo jornal desenvolvia a notícia no dia seguinte.
O ex-chefe do Estado Maior da Marinha da Guiné, ainda ligado ao poder em Bissau, era um dos elos de ligação numa rede de venda de droga e armas desmontada pelos Estados Unidos.
O almirante Bubo Na Tchuto foi preso no alto mar, perto da zona marítima de Cabo Verde. Nas negociações com os supostos negociantes de droga apresentaria as suas próprias condições e também (alegadamente) as do seu país, para permitir o trânsito de drogas pelo território guineense. A cocaína seria escondida em caixas de uniformes militares. 
Juntamente com Na Tchuto, foram também capturados mais dois  cidadãos guineenses. Outros dois foram presos, aparentemente no mesmo dia, num país não especificado da África Ocidental. Na segunda parte da mesma operação e no dia em que o almirante guineense foi apresentado a tribunal, foram capturados em Bogotá dois narcotraficantes colombianos. Tanto estes como dois dos guineenses foram indiciados por ligações às FARC colombianas.
Bubo Na Tchuto terá ajudado o atual chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, António Indjai, a consolidar o poder quando do golpe de 12 de Abril de 2012. 
O almirante detido terá declarado aos agentes que o iludiram que a fragilidade atual das instituições guineenses tornava o país propício a este tipo de negócios. 
É o vice-chefe do Estado-Maior, general Mamadu Ture Kuruma quem atualmente dirige o país nesta fase de transição. Tem estabelecido contactos com os partidos da oposição.
Há quem diga e escreva que a Guiné-Bissau é um estado falhado. Os heróis da independência têm-se matado uns aos outros em golpes de estado sucessivos. 
Vamos registar aqui alguns dados estatísticos sobre o país.
Superfície – 36.000 quilómetros quadrados.
População – 1.600.000 habitantes
Economia - continua a basear-se na agricultura e na pesca.
Rendimento per capita –  1.144 dólares (International Monetary Fund, 2011). É um dos mais baixos do mundo. Abaixo, há apenas 16 nações numa lista de 185. Mais de dois terços dos habitantes vivem abaixo do limiar de pobreza.
Mortalidade infantil até 1 ano (por cada 100.000 nados-vivos) – 94,4 (Estimativas da CIA World Factbook, na Wikipedia)
Mortalidade materna (número de mortes de mão por cada 100.000 nados-vivos) – 790. (Fonte: CIA World Factbook, na Wikipedia).
Expectativa de vida ao nascer – 49 anos (sexo feminino), 47 (sexo masculino).
Os indicadores sanitários são preocupantes. O país dispõe de menos de 5 médicos para cada 100.000 habitantes. A malária continua a ceifar muitas vidas, enquanto 1,8% da população adulta está infetada com SIDA.


quarta-feira, 10 de abril de 2013


                      AMÍLCAR  CABRAL

       A UTOPIA      
                             I
                 INTRODUÇÃO

 É costume dizer-se que as árvores se reconhecem pelos frutos. A luta a que Amílcar Cabral dedicou a sua vida esteve na origem do nascimento de dois países, em lugar da nação única que o sonhador pretendeu construir.
 Embora a História não detenha os seus passos, os trinta e nove anos decorridos sobre as independências permitem fazer análises com algum distanciamento. Eu e o Leston Bandeira combinámos, há alguns meses, escrever a meias um livro sobre a vida e a obra de Amílcar Cabral.
 Como tinha de ser, fui preparando a minha parte do trabalho, Tive, contudo, dificuldade em imaginar maneira eficaz de abordar o tema. As biografias estão feitas e algumas têm grande qualidade. O recurso à ficção pareceu-me difícil e desajustado do projeto.
 Ocorreu-me há dias uma estratégia diferente para me aproximar de Amílcar Cabral. Trata-se de escrever uma série de artigos, um pouco detrás para a frente, embora sem respeitar rigorosamente a cronologia. Poderemos intercalar escritos do próprio e dos seus adversários com apontamentos históricos e biográficos e ainda com as nossas opiniões pessoais, que não terão necessariamente de coincidir. Temos vivências substancialmente distintas. Une-nos o facto de, enquanto europeus, partilharmos um grande amor a África.
     Recorreremos a excertos dos textos de Amílcar Cabral, abreviando-os quando parecer necessário, mas tendo o cuidado de nunca lhes modificar o sentido. 
       Um projeto assim presta-se a ir sendo publicado enquanto se progride. O tamanho dos capítulos que imaginei adapta-se ao formato de blogue. Irá começar assim. No final, há de valer a pena reuni-los em suporte de papel. 
      Os eventuais leitores poderão assistir ao nascimento de um livro e colaborar nele com comentários.  

                                                           António Trabulo                                                         

         









                                   

quarta-feira, 6 de março de 2013




           UM PAÍS, DUAS MOEDAS


Enquanto o Orçamento do Estado for deficitário, Portugal continuará a precisar de pedir dinheiro emprestado ao estrangeiro. Cada ano se deve mais. Os juros da dívida constituem um peso crescente nas nossas contas externas. Em breve se tornarão incomportáveis.
Quando os países dispunham de moeda própria, a sua desvalorização constituía um instrumento de equilíbrio da balança comercial. Com a adesão ao Euro, perdemos independência também neste aspeto. Somos, em boa parte, governados de fora. Há quem pense que teremos de abandonar em breve a moeda única europeia.
A Troika impôs medidas restritivas com um impacto brutal na nossa economia. Trouxe com ela a recessão. As televisões noticiam diariamente novas falências de empresas. A taxa de desemprego atingiu níveis até agora desconhecidos no nosso País e vai continuar a crescer. Os impostos asfixiam os orçamentos familiares e a redução do poder de compra arruína os empresários que produzem para o mercado interno.
Aceito que uma família ou um Estado não podem gastar nem mais um cêntimo a mais do que ganham. Julgo, contudo que a desgraça não está inscrita no nosso ADN. Há soluções para a crise.
É preciso lembrar que só precisamos da Troika para pedir mais dinheiro emprestado.
Respeitando todos os nossos compromissos externos, há que regressar temporariamente à emissão de moeda nacional. Ela pode e deve coexistir com o Euro durante o tempo necessário para reformar os órgãos do Estado.
O Estado Português passaria e emitir cada ano obrigações do tesouro equivalentes ao défice do seu Orçamento, enquanto este persistir. Seriam reembolsadas a 3 anos, com juros iguais à inflação. Poderiam ter qualquer nome, inclusive escudo. Uma parte dos pagamentos do Estado aos funcionários e pensionistas seria feita nesta moeda.
Significaria substituir compulsivamente a dívida externa por dívida interna, sem juros. Essas obrigações circulariam sob a forma de papel moeda sendo obrigatoriamente aceites para todas as transações dentro das nossas fronteiras, com exceção do pagamento de impostos. Os Bancos abririam diversos tipos de contas nessa moeda.
O mercado encarregar-se-ia de regular a sua cotação em relação ao Euro. Não haveria necessidade de contrair mais empréstimos externos. A reforma do Estado e o equilíbrio da balança comercial poderiam ser conseguidos de forma mais gradual. O peso sobre os contribuintes e sobre as empresas seria, em parte aliviado. O emprego começaria provavelmente a crescer ainda este ano.
Já pensaram que podíamos mandar a Troika embora no fim de 2013?