GRANDES POETAS CHINESES
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Mal ficaria falar da China e do
contributo da sua cultura milenar para a civilização humana sem referir alguns
dos seus grandes poetas. Não sei de muitos, e tenho pena. Para além de Wang Wei,
que citei devido ao facto de ter passado pelo mausoléu do primeiro imperador
chinês, dedicando-lhe um poema, conheço apenas (e superficialmente) Li Bai ,
Bai Juyi e Du Fu.
Os quatro grandes poetas chineses
que vou referir nasceram todos no século VII DC. Trata-se claramente da época
de oiro da poesia chinesa. Ainda hoje se leem com agrado. Espanta a modernidade
de poemas escritos há cerca de treze séculos, bem antes dos alvores da nossa
nacionalidade. Testemunharam a História e permanecem. Ilustram a perenidade das
emoções humanas. Constituem, de algum modo, espelhos do que somos. No carinho e
no desafeto, no amor e no ódio, na alegria, na tristeza e no devaneio, não
estaremos muito longe dos sentimentos dos homens de épocas passadas e de terras
distantes.
A poesia chinesa clássica difere da
nossa na escolha dos temas. Não trata do épico nem do dramático. Os poemas são
geralmente curtos e integram-se na harmonia confuciana do mundo. Curiosamente,
cantam as montanhas, os rios, os lagos e as bailarinas, mas raramente se ocupam
do mar.
LI BAI
Li Bai (701-762) é considerado um dos
maiores poetas na China, a par de Du Fu. Foi contemporâneo de Wang Wei (nasceram
ambos no mesmo ano). Boémio, vagabundo, repentista, levou uma vida agitada. Diz
a lenda que morreu afogado no Rio Azul quando, embriagado, procurava agarrar a
imagem da lua refletida na água.
PENSAMENTOS
NOTURNOS
Diante
da cama,
Brilha
o luar,
Que
mais parece
Gelo
no chão.
Se
levanto a cabeça,
Contemplo
a lua.
Ao
baixá-la
Sonho
com a terra natal.
NO TERRAÇO DE SU VEJO O PASSADO
Velhos jardins, um terraço em ruínas, salgueiros novos;
─ Os que colhem o tríbulo, o claro som das canções, a primavera
insuportável
E agora somente a lua no rio, a oeste
Ela, que uma vez brilhou no rosto de uma dama, no palácio do rei de Wu
(A dama do poema é
Xi Shi, por quem o rei se apaixonou. Conduziu ao seu enfraquecimento e à queda
do reino).
WANG WEI
Wang Wei (701-761) foi poeta, músico e pintor. Pertencia a uma família
de mandarins e foi mandarim também. Mandarins eram os letrados que se ocupavam
da administração da imensa China. A língua escrita era apenas acessível a essa
elite de funcionários públicos que governou a China até à era moderna.
Os candidatos a mandarim aprendiam
a pintar a língua escrita e seguiam os ensinamentos de Confúcio. A carreira
prosseguia através dum filtro de exames públicos nacionais em que eram
selecionados os de maior valor. Foram, durante séculos a fio, esteios dos
impérios.
Quase todas as vidas têm altos e
baixos. Os pontos elevados da carreira de Wang Wei fizeram-no sentar à direita do Imperador,
como conselheiro influente do Secretariado Imperial. Nas fases baixas,
desempenhou funções menores em regiões distantes, mas foi quase sempre um mandarim influente e rico.
PARTINDO
DE MADRUGADA PARA O DESFILADEIRO DE BA
De
madrugada, com restos de primavera,
deixo
a capital, rumo ao desfiladeiro de Ba.
Uma
mulher lava roupa nas águas límpidas do rio,
os
pássaros chilreiam ao sol da manhã.
Sobre
as águas, faz-se o comércio nos barcos,
há
pontes suspensas do topo das árvores.
Subo
a um monte, emergem cem aldeias,
lá
longe, dois rios brilham como prata.
As
pessoas falam estranhos dialetos,
mas
os pintassilgos cantam como na minha terra.
Sou
capaz de reconhecer a paisagem,
minha
tristeza se atenua.
NOSTALGIA
Moro
na foz do rio Meng,
a porta da casa diante das águas,
do
sul, os barcos sempre a chegar,
quando
trazem uma carta para mim?
Vens
da minha aldeia natal
informado,
com certeza, de mil coisas.
Quando
partiste, em frente da sua janela,
desabrochavam
já flores de ameixieira?
As
árvores cobertas de pétalas,
as
aves de novo a cantar.
Reverdecem
os campos, desassossego em mim,
receio
ver crescer a erva, diante da cancela.
DU FU
Não existem retratos autênticos de Du Fu. Esta pintura é imaginada por um pintor que viveu mais tarde.
Mais que os taoistas Li Bai e Bai Juyi e o
budista Wang Wei, o confucionista Du Fu (712-770) impôs-se como o vulto maior da poesia
chinesa.
Pouco
alcançou na vida, ao contrário dos grandes poetas do seu século de ouro. O seu
valor apenas foi reconhecido centenas de anos após a sua morte e muitos
(provavelmente dois terços) dos seus poemas perderam-se.
Du
Fu descendia de uma família de letrados. O seu avô Du Shenyan foi um poeta
importante. Du Fu tentou seguir a carreira de mandarim na administração chinesa, mas
reprovou por duas vezes nos exames imperiais. Em 744 conheceu Li Bai, dando
início a uma das amizades entre poetas mais famosas no mundo.
Chamam-lhe
“o poeta historiador” e “o poeta sábio”. Deixou testemunhos realistas dos
tempos atribulados em que viveu.
A
sua vida, como a de todo o país, foi devastada pela rebelião do general An
Lushan que rebentou em 755, quando Du Fu
contava 43 anos. A guerra civil que se lhe seguiu terá provocado perto de doze
milhões de mortos.
Os
últimos anos da vida do poeta decorreram em sobressalto quase constante, a meio
de dificuldades económicas. Morreu durante a longa viagem que empreendeu pelo
rio Yangtze, tentando regressar a Changan.